Hoje tirei o fim da tarde para mim. Aquele que em 20 dias será meu marido havia se comprometido a ajudar um amigo com uma mudança. Aos não iniciados, mudança aqui é equivalente à "mudança de pobre" no Brasil, com alguns adicionais: uma van emprestada, um colchão amarrado numa caminhonete também emprestada, banheira de plástico, cabo de vassoura saindo pelo vidro do carro, panelas, gaiolas ... Os extras de um gringo típico incluem - mas não estão restritos a - esquis, rollerblades, tacos de golfe, remos, barracas de acampamento, equipamento de rapel e mais uma infinidade de apetrechos para os que gostam de sofrer, digo divertir-se, em meio à natureza, o que eu chamo genericamente de "suffering outdoors". Voltando à mudança, aqui só os muito ricos ou os que têm muitas tralhas contratam empresas que fazem mudança. O resto chama os amigos, inclusive os que estão às voltas com preparativos para casamento e obra em casa, já que ocupação pouca é bobagem.
Com a cara-metade comprometida carregando cadeiras, resolvi ir ao cinema, comprar um vestido novo e depois jantar. Um programa que eu estava super feliz de poder fazer, assim by myself. Assisti a "Bewitched", que nem a linda Nicole Kidman consegue salvar, no maior estilo Sessão da Tarde. Depois fui a um restaurante francês que eu não conhecia. Assim que cheguei, uma senhora veio à porta me receber. Como aqui a gente não pode escolher onde sentar (algo que me irrita profundamente, mas que tento relevar), fui logo avisando que era só eu, para ela me mostrar uma mesa para um. Ela me disse que para os desacompanhados havia duas opções: eu poderia me sentar numa mesa grande, onde estariam todos os outros solteiros (detalhe: só havia mais 2 mesas ocupadas, ambas com casais) ou sentar numa mesa sozinha. Eu nunca tinha ouvido falar nisso e disse que queria sentar sozinha, claro. Fiquei intrigada. Estaria sendo discriminada por estar desacompanhada ou seria muita influência politicamente correta na minha cabeça ?
Sentei-me e a tal senhora veio me trazer o cardápio. Percebi quando ela falava com outros clientes que ela era francesa autêntica, não quebecoise (alguém de Quebec). Ela chegou perto de mim e me perguntou se eu era turista, respondi que não. Achei que a dúvida dela viesse do fato de eu estar orgulhosamente vestindo uma das minhas várias camisetas que têm "Brasil" escrito no peito. Aí ela disse que havia ficado muito surpresa de eu ter chegado sozinha, porque ela JAMAIS teria coragem de ir sozinha a um restaurante (precisa coragem ?!), ainda mais numa cidade onde ela morava (por um segundo fiquei na dúvida se eu morava em Bagdá ou em Teerã). Justamente por isso ela havia tido a idéia de fazer a mesa dos desacompanhados, para diminuir o desconforto das pessoas "single" (é desconfortável ?!). Fiquei de boca aberta. Indignada, mas sem perder a classe (afinal de contas, era um restaurante francês), disse a ela que freqüentemente vou a restaurantes sozinha, pois adoro a minha própria companhia, o que é verdade. Minha preocupação não era infundada: depois da perseguição aos muçulmanos desde 11/09, seriam as mulheres independentes e desacompanhadas as próximas vítimas do preconceito generalizado ?
Parecia Sex & The City. Senti-me a própria Carrie Bradshaw (personagem da Sarah Jessica Parker), ouvindo comentários sobre o fato de estar sozinha num restaurante e depois chegando em casa para digitar tudo no laptop. Pena não ter os sapatos Manolo Blahnik me esperando dentro do meu armário quando cheguei em casa. Meu Mr. Big também não telefonou, que mudança quando não é feita por profissionais demora mais. Mas o artigo para a minha coluna está garantido !
30 junho, 2005
26 junho, 2005
"Skinny" é a avó !
A América do Norte é a terra do "politicamente correto" ao extremo. Na ânsia de diminuir o óbvio preconceito entre os diferentes membros da sociedade, criaram-se expressões socialmente aceitáveis para descrever as pessoas, principalmente suas características físicas. A intenção é boa, mas o receio de soar preconceituoso alcançou patamares de pura paranóia. Com certeza, há certos termos que são ofensivos a determinados grupos, mas às vezes é difícil conseguir transmitir uma informação sem que alguém faça cara de espanto, como se você fosse equivalente a um nazista por ter usado um adjetivo mal escolhido para descrever alguém. Aliás, essa já é uma comparação infeliz da minha parte, porque o termo "nazista" é politicamente incorretíssimo. "E se houver um alemão na sala ?" - já me disse uma professora aqui.
É inadmissível referir-se aos índios locais como "indians", "natives" ou "eskimos", deve-se dizer "First Nations". Tudo bem, eles podem chamar os índios deles como quiserem, mas daí a forçarem a gente a fazer o mesmo, é outra estória. Uma vez eu estava conversando com um chef canadense, explicando para ele o que era feijoada e qual a sua origem. Quando mencionei que era um prato criado pelos escravos, ele imediatamente me interrompeu e disse que eu soava muito preconceituosa, deveria dizer "African Brazilians" ao invés de "escravos". Argumentei que até 1888 havia escravidão e que "escravo", naquela circunstância, não era uma palavra pejorativa, mas a única para descrever a real situação daquelas pessoas. O preconceito estava na cabeça dele. Imagina um cara desses escutando (e entendendo) a gente cantando o "lerê lerê" da Escrava Isaura num dia corrido no trabalho...
Aqui ninguém mais é baixinho, mas "vertically challenged". Faria sentido se os gordinhos fossem "horizontally challenged", mas eles são "overweighted", porque qualquer outra palavra é uma ofensa. Por maior que seja a ignorância de uma pessoa, ela não pode ser chamada de "ignorant" e sim de "simple". Give me a break !
A única exceção à regra são os magros, já que um monte de gente aqui se acha no direito de criticar os "underweighted". E eu defendo tese no assunto. Nasci e cresci abaixo do meu peso ideal e confesso que isso já me aborreceu muito, mas depois dos 30, acho ótimo entrar na GAP, pedir - e vestir - uma calça tamanho zero. No final do inverno, quando a maioria está mais cheinha, eu estou pelo menos 3 quilos mais magra (de tanto tremer, bater o queixo e apertar o passo para esquentar), o que em mim aparenta uma grande diferença. Então, todo inverno peço a Deus toneladas de paciência - que dure até o final da primavera - para não me aborrecer com as pessoas "simple" e seus comentários mais "simple" ainda. Alguns invernos atrás, uma colega de trabalho teve a audácia de me dizer que eu precisava engordar, senão os homens iriam pensar que eu tinha problemas psiquiátricos (ela quis dizer "anorexia"). E eu lá tenho contrato com a Playboy para me importar com o que "os homens" em geral pensam a respeito da minha forma física ? E mesmo que eu tivesse, desde quando a saúde mental das mulheres nas revistas masculinas passa pela cabeça dos assíduos "leitores" ? Já perdi a conta dos barrigudos que me dizem, na cara dura, "you're too skinny"(bem pejorativo, algo como "esquelética demais", como se houvesse "pouco esquelética", "esquelética média" e "extra esquelética" ). Aliás, não perdi totalmente a conta não, que só da família do meu futuro marido já foram três - todos bem rechonchudos, por sinal.
Obesidade é um problema definitivamente mais predominante entre os norte-americanos do que no resto do planeta. Os biquínis deles também são muito mais avantajados do que os nossos e poucas mulheres podem usá-los, mesmo os do tipo fraldão. Talvez por isso a magreza alheia incomode tanto. Ainda mais quando é magreza do tipo irritante, como a de uma pessoa que não faz dieta e que, quando tem vontade de se exercitar, deita na cama e dorme até a vontade passar - o meu caso.
Acho que vou me associar a um grande laboratório, investigar meu DNA, isolar o "gene magricela", patenteá-lo e fazer com que qualquer um que deseje possa injetá-lo, provocando uma aceleração imensa no metabolismo. Vou ficar milionária. Enquanto isso não acontece, vou começar uma campanha para introduzir a idéia de que é politicamente incorreto e socialmente inconveniente chamar um esbelto de esquelético. Será que vai pegar ?
É inadmissível referir-se aos índios locais como "indians", "natives" ou "eskimos", deve-se dizer "First Nations". Tudo bem, eles podem chamar os índios deles como quiserem, mas daí a forçarem a gente a fazer o mesmo, é outra estória. Uma vez eu estava conversando com um chef canadense, explicando para ele o que era feijoada e qual a sua origem. Quando mencionei que era um prato criado pelos escravos, ele imediatamente me interrompeu e disse que eu soava muito preconceituosa, deveria dizer "African Brazilians" ao invés de "escravos". Argumentei que até 1888 havia escravidão e que "escravo", naquela circunstância, não era uma palavra pejorativa, mas a única para descrever a real situação daquelas pessoas. O preconceito estava na cabeça dele. Imagina um cara desses escutando (e entendendo) a gente cantando o "lerê lerê" da Escrava Isaura num dia corrido no trabalho...
Aqui ninguém mais é baixinho, mas "vertically challenged". Faria sentido se os gordinhos fossem "horizontally challenged", mas eles são "overweighted", porque qualquer outra palavra é uma ofensa. Por maior que seja a ignorância de uma pessoa, ela não pode ser chamada de "ignorant" e sim de "simple". Give me a break !
A única exceção à regra são os magros, já que um monte de gente aqui se acha no direito de criticar os "underweighted". E eu defendo tese no assunto. Nasci e cresci abaixo do meu peso ideal e confesso que isso já me aborreceu muito, mas depois dos 30, acho ótimo entrar na GAP, pedir - e vestir - uma calça tamanho zero. No final do inverno, quando a maioria está mais cheinha, eu estou pelo menos 3 quilos mais magra (de tanto tremer, bater o queixo e apertar o passo para esquentar), o que em mim aparenta uma grande diferença. Então, todo inverno peço a Deus toneladas de paciência - que dure até o final da primavera - para não me aborrecer com as pessoas "simple" e seus comentários mais "simple" ainda. Alguns invernos atrás, uma colega de trabalho teve a audácia de me dizer que eu precisava engordar, senão os homens iriam pensar que eu tinha problemas psiquiátricos (ela quis dizer "anorexia"). E eu lá tenho contrato com a Playboy para me importar com o que "os homens" em geral pensam a respeito da minha forma física ? E mesmo que eu tivesse, desde quando a saúde mental das mulheres nas revistas masculinas passa pela cabeça dos assíduos "leitores" ? Já perdi a conta dos barrigudos que me dizem, na cara dura, "you're too skinny"(bem pejorativo, algo como "esquelética demais", como se houvesse "pouco esquelética", "esquelética média" e "extra esquelética" ). Aliás, não perdi totalmente a conta não, que só da família do meu futuro marido já foram três - todos bem rechonchudos, por sinal.
Obesidade é um problema definitivamente mais predominante entre os norte-americanos do que no resto do planeta. Os biquínis deles também são muito mais avantajados do que os nossos e poucas mulheres podem usá-los, mesmo os do tipo fraldão. Talvez por isso a magreza alheia incomode tanto. Ainda mais quando é magreza do tipo irritante, como a de uma pessoa que não faz dieta e que, quando tem vontade de se exercitar, deita na cama e dorme até a vontade passar - o meu caso.
Acho que vou me associar a um grande laboratório, investigar meu DNA, isolar o "gene magricela", patenteá-lo e fazer com que qualquer um que deseje possa injetá-lo, provocando uma aceleração imensa no metabolismo. Vou ficar milionária. Enquanto isso não acontece, vou começar uma campanha para introduzir a idéia de que é politicamente incorreto e socialmente inconveniente chamar um esbelto de esquelético. Será que vai pegar ?
20 junho, 2005
O Samba do Gringo Doido
Acredito que todos nós que passamos um tempo fora do Brasil já ouvimos comentários absurdos sobre o nosso país. Alguns são simplesmente produto da mais absoluta ignorância geográfica, mas outros são tão ridículos que merecem ser repetidos, pois parecem piada. Acharem que a língua oficial é o espanhol é fichinha perto do festival de besteiras que assolam a América do Norte.
Uma vez uma colega coreana, ao ouvir que os brasileiros estavam destruindo "a floresta", perguntou-me se Congo ficava no Brasil. E eu achei que tinha sido a primeira e pior besteira que eu ouviria sobre a terrinha. Já sabia que os norte-americanos estão entre os mais desinformados sobre qualquer coisa que se passe fora das suas fronteiras, mas só escutando para crer.
Os canadenses tiram sarro dos americanos, inclusive num programa de TV, no qual um repórter vai às ruas numa cidade dos USA fazendo as perguntas mais estapafúrdias. Uma delas foi "o que você acha do Primeiro Ministro do Canadá, Tim Hortons, que não toma uma providência quanto ao urso polar que anda solto atacando as pessoas nas ruas de Toronto ?". As respostas são hilárias, até porque Tim Hortons é o nome de uma grande cadeia de restaurantes que vendem café e rosquinhas. E urso polar em Toronto ? Fala sério ! Os canadenses acham que sabem muito mais geografia do que os vizinhos ao sul da fronteira, mas há controvérsias.
São tantos os comentários que ouvi (eu mesma) que já dá para agrupá-los em categorias distintas:
Geopolíticos
"Quando foi que mudaram a capital de São Paulo para esta cidade aí de onde você veio ?". Melhor nem responder.
Legais
"Ainda continua valendo aquela lei que, no Brasil, o marido pode matar a esposa e sumir por 40 dias que nada acontece com ele ?" Quando eu disse que nunca houve essa tal lei, a pessoa me disse que tinha visto um programa especial de TV sobre isso ! Ah, tá, se passou na TV e ninguém mais viu além de você, é porque é verdade.
Climáticos (da mesma pessoa que assistiu ao especial na TV)
"Claro que é muito seco em Brasília, vocês queimaram toda a Floresta Amazônica que estava lá".
Esportivos
"Quem foi aquele brasileiro que fez um gol com a mão na Copa do Mundo ? Maradona ?"
"Então o Brasil não está participando da Eurocopa ? Por quê ?"
Religiosos / Turísticos (veio de uma cirurgiã plástica e poderia se encaixar nas duas categorias)
"Como é o nome daquele cara de braços abertos em cima da montanha no Rio de Janeiro ?" Eu não resisti, tive que dizer que sabia que "o cara" não é muito famoso aqui, mas é bem conhecido no Brasil, pelo nome exótico de "Cristo".
Como diz um Chico muito sábio que eu conheço: "melhor ouvir uma dessas do que ser surdo, pelo menos depois a gente pode chegar em casa e escutar Mozart".
Uma vez uma colega coreana, ao ouvir que os brasileiros estavam destruindo "a floresta", perguntou-me se Congo ficava no Brasil. E eu achei que tinha sido a primeira e pior besteira que eu ouviria sobre a terrinha. Já sabia que os norte-americanos estão entre os mais desinformados sobre qualquer coisa que se passe fora das suas fronteiras, mas só escutando para crer.
Os canadenses tiram sarro dos americanos, inclusive num programa de TV, no qual um repórter vai às ruas numa cidade dos USA fazendo as perguntas mais estapafúrdias. Uma delas foi "o que você acha do Primeiro Ministro do Canadá, Tim Hortons, que não toma uma providência quanto ao urso polar que anda solto atacando as pessoas nas ruas de Toronto ?". As respostas são hilárias, até porque Tim Hortons é o nome de uma grande cadeia de restaurantes que vendem café e rosquinhas. E urso polar em Toronto ? Fala sério ! Os canadenses acham que sabem muito mais geografia do que os vizinhos ao sul da fronteira, mas há controvérsias.
São tantos os comentários que ouvi (eu mesma) que já dá para agrupá-los em categorias distintas:
Geopolíticos
"Quando foi que mudaram a capital de São Paulo para esta cidade aí de onde você veio ?". Melhor nem responder.
Legais
"Ainda continua valendo aquela lei que, no Brasil, o marido pode matar a esposa e sumir por 40 dias que nada acontece com ele ?" Quando eu disse que nunca houve essa tal lei, a pessoa me disse que tinha visto um programa especial de TV sobre isso ! Ah, tá, se passou na TV e ninguém mais viu além de você, é porque é verdade.
Climáticos (da mesma pessoa que assistiu ao especial na TV)
"Claro que é muito seco em Brasília, vocês queimaram toda a Floresta Amazônica que estava lá".
Esportivos
"Quem foi aquele brasileiro que fez um gol com a mão na Copa do Mundo ? Maradona ?"
"Então o Brasil não está participando da Eurocopa ? Por quê ?"
Religiosos / Turísticos (veio de uma cirurgiã plástica e poderia se encaixar nas duas categorias)
"Como é o nome daquele cara de braços abertos em cima da montanha no Rio de Janeiro ?" Eu não resisti, tive que dizer que sabia que "o cara" não é muito famoso aqui, mas é bem conhecido no Brasil, pelo nome exótico de "Cristo".
Como diz um Chico muito sábio que eu conheço: "melhor ouvir uma dessas do que ser surdo, pelo menos depois a gente pode chegar em casa e escutar Mozart".
17 junho, 2005
De casa nova
Ontem recebemos nosso apartamento. Nossa primeira “casa própria” no Canadá. Apesar do estado das paredes e do teto cor de abóbora, das cortinas no estilo rococó e do papel de parede com figuras de ameixas roxas, peras e cerejas, ficamos muito orgulhosos. Um dos quartos é lilás, com border marrom na parede e cortinas cor de pêssego. Cada porta é da cor da parede onde se encontra, então uma mesma porta tem um lado amarelo e o outro verde, a próxima é lilás de um lado e amarela do outro, com maçaneta dourada. Um pesadelo de decoração. Ah ! As tampas dos vasos sanitários são azuis, emborrachadas e estofadas, com bordados de flores. Nada que não possa ser repintado, substituído e devidamente execrado.
Numa ação de dar orgulho ao presidente Lula, levantamos o traseiro da cadeira, fomos ao banco e conseguimos a menor taxa de juros possível no momento. Agora serão anos e anos pagando, mas pelo menos não vai ser aluguel.
Para quem passou os últimos quatro anos morando num cubículo – charmoso, é verdade – os 102 m² do novo apartamento vão dar o efeito de mansão. A cozinha é menor (para quem gosta de cozinhar, faz muita diferença), vamos perder a vista para o mar e em vez de gastar 3 minutos a pé para o trabalho, vou gastar uns 15 (eu estava muito mal acostumada). Por outro lado, vou poder ter um piano e receber os amigos com mais conforto. Amigos, arrumem as malas !
Interessante que o antigo proprietário, quando estava entregando a última chave, abriu um armário, apontou para umas latas de tinta e comentou: "temos os restos de todas as tintas, de todos os quartos, caso vocês precisem retocar alguma parede ou porta"...
Numa ação de dar orgulho ao presidente Lula, levantamos o traseiro da cadeira, fomos ao banco e conseguimos a menor taxa de juros possível no momento. Agora serão anos e anos pagando, mas pelo menos não vai ser aluguel.
Para quem passou os últimos quatro anos morando num cubículo – charmoso, é verdade – os 102 m² do novo apartamento vão dar o efeito de mansão. A cozinha é menor (para quem gosta de cozinhar, faz muita diferença), vamos perder a vista para o mar e em vez de gastar 3 minutos a pé para o trabalho, vou gastar uns 15 (eu estava muito mal acostumada). Por outro lado, vou poder ter um piano e receber os amigos com mais conforto. Amigos, arrumem as malas !
Interessante que o antigo proprietário, quando estava entregando a última chave, abriu um armário, apontou para umas latas de tinta e comentou: "temos os restos de todas as tintas, de todos os quartos, caso vocês precisem retocar alguma parede ou porta"...
15 junho, 2005
Os Pedintes do Primeiro Mundo
Hoje enquanto passava de carro por um sinal com uns amigos, presenciei uma cena no mínimo inédita para mim. Um homem se aproximava dos carros parados para pedir dinheiro. Nada que eu nunca tivesse visto, exceto pelo fato de que ele tinha na mão um buquê de flores e, quando a motorista do carro ao lado de longe fez sinal de que não daria dinheiro, ele caminhou até a janela e deu a ela uma meia dúzia de flores amarelas. Ele não estava vendendo as flores. Ninguém vende nada na rua sem licença da prefeitura por aqui, mesmo assim ele atravessou a rua para entregar flores a uma desconhecida que não lhe deu dinheiro.
As pessoas que pedem esmolas nas ruas em Vancouver sempre me intrigaram. É um país rico, onde as crianças vão à escola, todos recebem assistência básica de saúde e quem não tem renda recebe auxílio do governo (800 dólares de “welfare”). Uma vez eu comentei com uma amiga canadense que não entendia o fato de pessoas jovens e saudáveis passarem anos sem trabalhar, sobrevivendo às custas dos impostos pagos pelas pessoas que trabalham. Ela me disse que a sociedade é responsável pelo bem-estar de todos, inclusive dos que não se adaptam às regras sociais impostas a eles. Tento lembrar disso sempre, porque quase que diariamente convivo com vários dos mal adaptados à vida em comunidade no hospital onde trabalho. E às três horas da manhã, quando um deles está acordando todos os pacientes idosos, que trabalharam e pagaram impostos por 40, 50 anos ou mais, tenho vontade de gentilmente enfiar certas regras mínimas de convivência pela goela de alguns.
Não há crianças pedindo esmolas aqui, uma bênção que talvez passe despercebida à maioria dos canadenses, senão a todos os que nunca estiveram num país de Terceiro Mundo. É quase como quando no Brasil escutamos falar de guerra. Todo o mundo sabe que é uma coisa terrível, mas como nunca tivemos o infortúnio de ver pessoalmente, nem sempre damos devido valor ao fato de termos crescido num país sem guerra.
Numa manobra que provavelmente foge à vigilância da SPCA (Sociedade de Protetora dos Animais), os mendigos aqui utilizam cachorros e outros animais, com alguma criatividade, na tentativa de comover os pedestres e assim obter uns trocados. Um exemplo folclórico (quem mora em downtown certamente já viu): uma senhora idosa empurrando um carrinho de bebê - ou um carrinho de supermercado, dependendo do dia - onde leva um pato branco, com um chapeuzinho colorido (o pato, não a mulher). Por ser uma cena tão surreal, acaba conseguindo atenção e, acredito eu, dinheiro. O pato é uma gracinha !
É tudo muito organizado aqui. As pessoas que tocam instrumentos, fazem malabarismos ou mímica têm uma licença da prefeitura para estarem naquele pedaço da calçada, àquela hora específica, naquele dia da semana. Se eu prestasse atenção, saberia que na segunda eu vou encontrar o mágico na frente da galeria de arte ou o cara que toca violino toda terça de tarde na estação do metrô.
Adoro o fato de eles serem honestos quando pedem dinheiro. Como o governo provê as necessidades básicas de moradia, alimentação, saúde e educação, eles não têm por que mentir. No Brasil, o chapéu deles permaneceria sempre vazio. Aqui nunca eles dizem que a esmola é para comprar remédios, leite das crianças ou passagem de volta para a cidade natal, porque todos sabem que essas necessidades estão supridas. Como não há analfabetos aqui, eles geralmente carregam um cartaz que explica para que serviria o dinheiro arrecadado. Os motivos (e as plaquinhas que os descrevem) variam. Algumas pérolas da Davie Street:
“I’m ugly and nobody likes me” (sou feio e ninguém gosta de mim).
“Money for pot” (dinheiro para maconha).
“Help two homeless” (ajude dois sem-teto) – detalhe: os “dois” eram ele e um cachorrinho yorkshire.
"I'd rather beg than steal" (prefiro mendigar a roubar).
"Since 6 am I only made 50 cents. I need money for breakfast, drawing pencils and a ruler. I lost my two pencils yesterday: 2B and 4B." (desde 6 da manhã só consegui 50 centavos. Preciso de dinheiro para o café da manhã, lápis de desenho e uma régua. Perdi meus dois lápis ontem - 2B e 4B).
“I made a mistake. Help” (cometi um erro. Ajude-me). Um erro e o cara acaba na rua ?
E eu que achava que nunca veria pedintes no Primeiro Mundo...
As pessoas que pedem esmolas nas ruas em Vancouver sempre me intrigaram. É um país rico, onde as crianças vão à escola, todos recebem assistência básica de saúde e quem não tem renda recebe auxílio do governo (800 dólares de “welfare”). Uma vez eu comentei com uma amiga canadense que não entendia o fato de pessoas jovens e saudáveis passarem anos sem trabalhar, sobrevivendo às custas dos impostos pagos pelas pessoas que trabalham. Ela me disse que a sociedade é responsável pelo bem-estar de todos, inclusive dos que não se adaptam às regras sociais impostas a eles. Tento lembrar disso sempre, porque quase que diariamente convivo com vários dos mal adaptados à vida em comunidade no hospital onde trabalho. E às três horas da manhã, quando um deles está acordando todos os pacientes idosos, que trabalharam e pagaram impostos por 40, 50 anos ou mais, tenho vontade de gentilmente enfiar certas regras mínimas de convivência pela goela de alguns.
Não há crianças pedindo esmolas aqui, uma bênção que talvez passe despercebida à maioria dos canadenses, senão a todos os que nunca estiveram num país de Terceiro Mundo. É quase como quando no Brasil escutamos falar de guerra. Todo o mundo sabe que é uma coisa terrível, mas como nunca tivemos o infortúnio de ver pessoalmente, nem sempre damos devido valor ao fato de termos crescido num país sem guerra.
Numa manobra que provavelmente foge à vigilância da SPCA (Sociedade de Protetora dos Animais), os mendigos aqui utilizam cachorros e outros animais, com alguma criatividade, na tentativa de comover os pedestres e assim obter uns trocados. Um exemplo folclórico (quem mora em downtown certamente já viu): uma senhora idosa empurrando um carrinho de bebê - ou um carrinho de supermercado, dependendo do dia - onde leva um pato branco, com um chapeuzinho colorido (o pato, não a mulher). Por ser uma cena tão surreal, acaba conseguindo atenção e, acredito eu, dinheiro. O pato é uma gracinha !
É tudo muito organizado aqui. As pessoas que tocam instrumentos, fazem malabarismos ou mímica têm uma licença da prefeitura para estarem naquele pedaço da calçada, àquela hora específica, naquele dia da semana. Se eu prestasse atenção, saberia que na segunda eu vou encontrar o mágico na frente da galeria de arte ou o cara que toca violino toda terça de tarde na estação do metrô.
Adoro o fato de eles serem honestos quando pedem dinheiro. Como o governo provê as necessidades básicas de moradia, alimentação, saúde e educação, eles não têm por que mentir. No Brasil, o chapéu deles permaneceria sempre vazio. Aqui nunca eles dizem que a esmola é para comprar remédios, leite das crianças ou passagem de volta para a cidade natal, porque todos sabem que essas necessidades estão supridas. Como não há analfabetos aqui, eles geralmente carregam um cartaz que explica para que serviria o dinheiro arrecadado. Os motivos (e as plaquinhas que os descrevem) variam. Algumas pérolas da Davie Street:
“I’m ugly and nobody likes me” (sou feio e ninguém gosta de mim).
“Money for pot” (dinheiro para maconha).
“Help two homeless” (ajude dois sem-teto) – detalhe: os “dois” eram ele e um cachorrinho yorkshire.
"I'd rather beg than steal" (prefiro mendigar a roubar).
"Since 6 am I only made 50 cents. I need money for breakfast, drawing pencils and a ruler. I lost my two pencils yesterday: 2B and 4B." (desde 6 da manhã só consegui 50 centavos. Preciso de dinheiro para o café da manhã, lápis de desenho e uma régua. Perdi meus dois lápis ontem - 2B e 4B).
“I made a mistake. Help” (cometi um erro. Ajude-me). Um erro e o cara acaba na rua ?
E eu que achava que nunca veria pedintes no Primeiro Mundo...
12 junho, 2005
Canadenses, Candangos e o Clima
Quando a gente mora numa cidade que não é a nossa, aos poucos acaba por absorver certos detalhes da cultura local. A primeira roupa canadense que comprei foi uma capa de chuva. O primeiro hábito canadense que adquiri foi a mania de sempre falar sobre o clima. Nem percebi, até que um dia, falando com o meu pai por telefone, ele comentou “você está virando canadense, toda vez que me liga fica comentando que está chovendo/nevando/fazendo sol e perguntando como anda o clima por aqui”.
Fui criada em Brasília, uma cidade onde não é preciso ser um gênio da meteorologia para se prever o clima. Candangos - oficialmente “brasilienses” - não perdem tempo conversando sobre o tempo. Temos duas estações: seca e chuvosa. De maio a meados de setembro, não chove – nenhuma gotinha. A temperatura cai de manhã, faz calor das 11 às 4 da tarde, depois faz frio de novo. De setembro a fevereiro, faz um calor danado o dia inteiro e por volta das 5 da tarde cai uma tempestade que impossibilita ver o carro da frente no trânsito (sempre tem engarrafamento quando chove no final da tarde). Em março e abril pode cair uma chuvinha chata que dura horas a fio. Simples. Não preciso perguntar a ninguém quando ligo para casa, mas incorporei a necessidade de especular sobre o clima.
Fora dos trópicos há quatro estações e a vida das pessoas muda muito em cada uma delas. Os preparativos necessários para sair de casa e atravessar a rua mudam completamente dependendo da época do ano. Até a organização das roupas no armário muda de acordo com a estação. Por isso se justifica falar tanto sobre o tempo. Normalmente é o segundo tópico em qualquer conversa, seguido dos cumprimentos. É politicamente correto falar sobre o clima, não ofende nenhuma minoria (exceto talvez os nudistas, mas ainda não conheci nenhum).
Os canadenses acham que a previsão do tempo aqui não é confiável, enquanto eu fico impressionada com a precisão com que eles conseguem prever a que horas vai começar a nevar e quando a neve vai se transformar em chuva. Raramente erram. Eles avisam também a qualidade da neve: fofa, dura, seca, molhada, fresca ou velha. Para mim, que não esquio e tinha “neve” na mesma categoria mental que “unicórnio” ou “dinossauro” – já tinha visto em figuras e filmes, mas nunca ao vivo – neve é tudo igual. Linda, mas inconveniente.
Dizem que em Vancouver e Seattle chove 300 dias por ano. Nunca contei (seria deprimente), mas deve ser por aí. Às vezes na segunda-feira um estranho no elevador comenta que vai chover por 4 dias, depois vai fazer sol. Eles não só acompanham o tempo, mas saem espalhando a previsão para a semana inteira. Brasileiro comenta sobre o jogo de futebol, canadense comenta sobre a meteorologia.
Aprendi em Vancouver que “sunny” pode ser um dia completamente nublado, contanto que não esteja chovendo. “Cold” é só para temperaturas em torno de 0 a 10 graus. “Freezing” tem o sentido literal e, embora eu esteja congelando quando faz 12 graus positivos, tem gringo na rua de bermuda e chinelo.
Não saio mais de casa sem checar o termômetro do lado de fora. Hoje, por exemplo, ele está querendo me enganar, marcando 17 graus. Posso ver da janela que, pelo vento e pelos casacos dos pedestres, está bem menos que isso. Aliás, São Pedro, falta uma semana para o início oficial do verão. Cadê o sol e os 25 graus que aprendi a chamar de “calor" ?
Fui criada em Brasília, uma cidade onde não é preciso ser um gênio da meteorologia para se prever o clima. Candangos - oficialmente “brasilienses” - não perdem tempo conversando sobre o tempo. Temos duas estações: seca e chuvosa. De maio a meados de setembro, não chove – nenhuma gotinha. A temperatura cai de manhã, faz calor das 11 às 4 da tarde, depois faz frio de novo. De setembro a fevereiro, faz um calor danado o dia inteiro e por volta das 5 da tarde cai uma tempestade que impossibilita ver o carro da frente no trânsito (sempre tem engarrafamento quando chove no final da tarde). Em março e abril pode cair uma chuvinha chata que dura horas a fio. Simples. Não preciso perguntar a ninguém quando ligo para casa, mas incorporei a necessidade de especular sobre o clima.
Fora dos trópicos há quatro estações e a vida das pessoas muda muito em cada uma delas. Os preparativos necessários para sair de casa e atravessar a rua mudam completamente dependendo da época do ano. Até a organização das roupas no armário muda de acordo com a estação. Por isso se justifica falar tanto sobre o tempo. Normalmente é o segundo tópico em qualquer conversa, seguido dos cumprimentos. É politicamente correto falar sobre o clima, não ofende nenhuma minoria (exceto talvez os nudistas, mas ainda não conheci nenhum).
Os canadenses acham que a previsão do tempo aqui não é confiável, enquanto eu fico impressionada com a precisão com que eles conseguem prever a que horas vai começar a nevar e quando a neve vai se transformar em chuva. Raramente erram. Eles avisam também a qualidade da neve: fofa, dura, seca, molhada, fresca ou velha. Para mim, que não esquio e tinha “neve” na mesma categoria mental que “unicórnio” ou “dinossauro” – já tinha visto em figuras e filmes, mas nunca ao vivo – neve é tudo igual. Linda, mas inconveniente.
Dizem que em Vancouver e Seattle chove 300 dias por ano. Nunca contei (seria deprimente), mas deve ser por aí. Às vezes na segunda-feira um estranho no elevador comenta que vai chover por 4 dias, depois vai fazer sol. Eles não só acompanham o tempo, mas saem espalhando a previsão para a semana inteira. Brasileiro comenta sobre o jogo de futebol, canadense comenta sobre a meteorologia.
Aprendi em Vancouver que “sunny” pode ser um dia completamente nublado, contanto que não esteja chovendo. “Cold” é só para temperaturas em torno de 0 a 10 graus. “Freezing” tem o sentido literal e, embora eu esteja congelando quando faz 12 graus positivos, tem gringo na rua de bermuda e chinelo.
Não saio mais de casa sem checar o termômetro do lado de fora. Hoje, por exemplo, ele está querendo me enganar, marcando 17 graus. Posso ver da janela que, pelo vento e pelos casacos dos pedestres, está bem menos que isso. Aliás, São Pedro, falta uma semana para o início oficial do verão. Cadê o sol e os 25 graus que aprendi a chamar de “calor" ?
11 junho, 2005
Os textos sumiram
Tentando corrigir alguns erros de acentuação, acabei perdendo os textos que eu tinha escrito aqui. Com eles foram-se os comentários das pessoas (todas as duas) que tinham entrado no blog. Tudo foi parar num universo paralelo que nem meu experiente assessor para assuntos de informática – vulgo Kiko - conseguiu encontrar. Eu não fazia idéia do tamanho da minha ignorância no computador, mas depois que o profissional Kiko não deu jeito na coisa, encontrei consolo. Portanto, se daqui a alguns dias alguns textos sumirem, mudarem de ordem ou os comentários idem, não há com o que se preocupar – sou eu mesma na tentativa de aprender a lidar com essas novidades.
"Bridezilla" não, por favor !
Nestes cinco anos de Canadá aprendi muitas coisas, entre elas o fato de que, na língua inglesa, há uma palavra ou expressão para tudo. Se meu filósofo pai ler isso, vai me corrigir, utilizando uma das suas mais famosas máximas: quando utilizamos a palavra “tudo” quase sempre estamos cometendo um exagero. Então vou reescrever que, em inglês, há uma expressão para quase tudo. Coisas que em português precisamos de uma frase inteira para descrever podem ser resumidas em uma ou duas palavras em inglês. Aquele barulhinho de fritura na frigideira ? “Sizzling”. Sair do restaurante sem pagar a conta ? “Dine and dash”. Neve derretida misturada com lama do asfalto ? “Slush”. Quando um casal num restaurante racha a conta, eles estão “going Dutch”. Se um amigo viaja e pede para você aparecer de vez em quando na casa dele e acender as luzes, para não dar na vista que a casa esta vazia, o que ele está pedindo e para você “house-sit”. São inúmeros os exemplos que poderia citar, na minha visão de estrangeira apaixonada por idiomas e origens das expressões.
O exemplo mais pertinente no momento é a palavra “bridezilla”. Um inteligente neologismo que mistura “bride” e “Godzilla”, aquele monstro horroroso dos japoneses. Descreve aquela noiva estressada, preocupada com os mínimos detalhes, constantemente com os nervos à flor da pele porque as flores, as fotos, os enfeites, o vestido, os convites, o carro, as roupas das damas, os docinhos e os penteados das futuras cunhadas podem não sair 100% perfeitos no grande dia, o que seria o fim do mundo. Bridezilla que se preze é aquela que bate boca com a mãe porque seis meses antes da data especial ela AINDA não decidiu que cor vai usar no altar. Do tipo que perde noites de sono confabulando se as mesas da recepção deveriam ter toalhas vinho com flores cor de chá ou toalhas bege com flores cor de vinho. “Mas e se Fulana achar que copiei do casamento dela?” ou “e se eu me arrepender de ter escolhido rosas ao inves de orquídeas ?” são pensamentos que povoam e assombram a mente de uma típica bridezilla, assim como os ouvidos dos amigos e da família a sua volta. E que fique claro: não é preciso casar com um ídolo do futebol nem ter uma festa milionária para ser merecedora do título. Muita gente conhece alguém que já foi, é ou será uma bridezilla.
Provavelmente o tema me interesse porque estou para me casar. Já passei dos trinta, a maioria das minhas amigas já se casou. Com o tempo, fui colecionando alguns episódios favoritos. Como o da amiga que me ligou aos prantos, contando que queria desmanchar tudo porque quando contou ao noivo que havia encomendado o vestido, a única coisa que ele perguntou foi o preço e não se ela havia se sentido linda. Aliás, o casamento saiu a despeito do vestido caro e eu fui madrinha. Uma outra grande amiga estava de férias na praia semanas antes do casamento e, ao invés de relaxar, ficou na sombra a maior parte do tempo, preocupada em não se bronzear, porque não queria aparecer mais morena do que o noivo nas fotos. Sem comentários...
Já vi padre errar o nome da noiva, mãe do noivo queimar o vestido na hora de sair para a igreja, noiva esquecer a aliança em casa, convidado bêbado escorregar e cair na piscina no meio da festa. Já testemunhei uniões felizes e algumas nem tanto. Certamente, não foi o fato de umas festas incluírem bombom de nozes e outras não que determinou a harmonia do casamento (mas que bombom de nozes é fundamental, isso é).
Interessante como certas ex-bridezillas anseiam ardentemente recrutar novos membros para o clube. Uma delas, ao invés de me perguntar “como andam os preparativos ?” sempre que me liga pergunta “você está estressada ?”. Esta é a melhor parte: quando eu respondo que não, ela insiste “tem certeza ?”.
É necessário abrir um parágrafo para os casamentos na América do Norte. Se há um lugar onde a bridezilla encontra seu paraíso, é aqui. Há toda uma comitiva encarregada de satisfazer os delírios da noiva mais cheia de frescura. As “bridesmaids” são amigas ou irmãs da noiva, forçadas a acordar cedo (casamento aqui acontece de dia, de preferência no verão), para terem os cabelos presos e maquiagem aplicada, a tempo de se vestirem (todas iguais, com vestidos determinados pela noiva, mas pagos pelas pobres almas uniformizadas) e posarem para a primeira sessão de fotos. Depois, seguem numa limusine branca até o local da cerimônia, durante a qual são responsáveis por segurar o buquê da noiva e levantar a enorme cauda (vestido de bridezilla sempre tem cauda longa). Depois dessa obrigação matinal, seguem de limusine, agora acompanhadas pelos “ushers” (os irmãos e amigos do noivo, novamente uniformizados), em direção aos parques, jardins e praias da cidade. As fotos são previsíveis: todos os homens levantando a noiva, todas as mulheres num círculo, com a noiva no meio... E se o rímel da noiva escorre ? Em alguns lugares do mundo, quem não tem colírio usa óculos escuros, mas aqui uma bridesmaid saca da sua bolsinha (que, acreditem ou não, é invariavelmente do mesmo cetim brilhoso dos vestidos todos iguais) o Kit Michelangelo e retoca a cara da recém-casada. E assim passam o dia (sim, o dia inteiro porque a recepção é só de noite), entre poses, caras e bocas. Quando chega a hora da festa, os convidados têm que se sentar nos lugares pré-determinados pela (quem mais ?) bridezilla. A presidente do clube das bridesmaids - também chamada de “maid of honor” - e seu equivalente masculino - o “best man” – têm que fazer discurso na festa. Já que estamos no tópico, alguém pode me explicar por que a noiva casa com o noivo e não com o “best man”, uma vez que este tem explícito no nome o fato de que ele é o melhor ?
Algumas curiosidades locais: os noivos, após cortarem a primeira fatia, esfregam um pedaço do glacê do bolo um no rosto do outro (!). A noiva senta-se numa cadeira, enquanto o noivo levanta seu vestido e tira, com os dentes, um pedacinho de elástico azul, preso à coxa dela, o “garter” (!!). Depois disso, o noivo arremessa o “garter” para seus amigos solteiros e reza a tradição que quem pegar será o próximo a se casar (!!!).
Diferenças culturais de lado, recuso-me a me tornar uma bridezilla. Já perdi a conta de quantas vezes me perguntaram “por que você vai casar às 7 da noite e não de manhã ?”, como se fosse um sacrilégio. Quase fuzilei o estilista (metade da minha altura, poderia tê-lo estraçalhado num dia de TPM) porque ele insistiu em NÃO retirar a cauda do meu vestido. “Para que servem as bridesmaids senão para segurar a cauda ?” foi a brilhante forma que ele encontrou de me convencer – os que me conhecem sabem que ele não conseguiu e que não terei bridesmaids. Fora os amigos canadenses que não se conformam com a idéia de chegarem na festa e não saberem onde têm que se sentar, já que não vou escrever o nome de cada um no seu lugar.
Tenho que parar por aqui, porque o gel está escorrendo da minha boca. Não sou bridezilla, mas claro que resolvi dar uma clareada nos dentes para sair “fabulous” nas fotos e já deu a hora de tirar essa porcaria das gengivas.
O exemplo mais pertinente no momento é a palavra “bridezilla”. Um inteligente neologismo que mistura “bride” e “Godzilla”, aquele monstro horroroso dos japoneses. Descreve aquela noiva estressada, preocupada com os mínimos detalhes, constantemente com os nervos à flor da pele porque as flores, as fotos, os enfeites, o vestido, os convites, o carro, as roupas das damas, os docinhos e os penteados das futuras cunhadas podem não sair 100% perfeitos no grande dia, o que seria o fim do mundo. Bridezilla que se preze é aquela que bate boca com a mãe porque seis meses antes da data especial ela AINDA não decidiu que cor vai usar no altar. Do tipo que perde noites de sono confabulando se as mesas da recepção deveriam ter toalhas vinho com flores cor de chá ou toalhas bege com flores cor de vinho. “Mas e se Fulana achar que copiei do casamento dela?” ou “e se eu me arrepender de ter escolhido rosas ao inves de orquídeas ?” são pensamentos que povoam e assombram a mente de uma típica bridezilla, assim como os ouvidos dos amigos e da família a sua volta. E que fique claro: não é preciso casar com um ídolo do futebol nem ter uma festa milionária para ser merecedora do título. Muita gente conhece alguém que já foi, é ou será uma bridezilla.
Provavelmente o tema me interesse porque estou para me casar. Já passei dos trinta, a maioria das minhas amigas já se casou. Com o tempo, fui colecionando alguns episódios favoritos. Como o da amiga que me ligou aos prantos, contando que queria desmanchar tudo porque quando contou ao noivo que havia encomendado o vestido, a única coisa que ele perguntou foi o preço e não se ela havia se sentido linda. Aliás, o casamento saiu a despeito do vestido caro e eu fui madrinha. Uma outra grande amiga estava de férias na praia semanas antes do casamento e, ao invés de relaxar, ficou na sombra a maior parte do tempo, preocupada em não se bronzear, porque não queria aparecer mais morena do que o noivo nas fotos. Sem comentários...
Já vi padre errar o nome da noiva, mãe do noivo queimar o vestido na hora de sair para a igreja, noiva esquecer a aliança em casa, convidado bêbado escorregar e cair na piscina no meio da festa. Já testemunhei uniões felizes e algumas nem tanto. Certamente, não foi o fato de umas festas incluírem bombom de nozes e outras não que determinou a harmonia do casamento (mas que bombom de nozes é fundamental, isso é).
Interessante como certas ex-bridezillas anseiam ardentemente recrutar novos membros para o clube. Uma delas, ao invés de me perguntar “como andam os preparativos ?” sempre que me liga pergunta “você está estressada ?”. Esta é a melhor parte: quando eu respondo que não, ela insiste “tem certeza ?”.
É necessário abrir um parágrafo para os casamentos na América do Norte. Se há um lugar onde a bridezilla encontra seu paraíso, é aqui. Há toda uma comitiva encarregada de satisfazer os delírios da noiva mais cheia de frescura. As “bridesmaids” são amigas ou irmãs da noiva, forçadas a acordar cedo (casamento aqui acontece de dia, de preferência no verão), para terem os cabelos presos e maquiagem aplicada, a tempo de se vestirem (todas iguais, com vestidos determinados pela noiva, mas pagos pelas pobres almas uniformizadas) e posarem para a primeira sessão de fotos. Depois, seguem numa limusine branca até o local da cerimônia, durante a qual são responsáveis por segurar o buquê da noiva e levantar a enorme cauda (vestido de bridezilla sempre tem cauda longa). Depois dessa obrigação matinal, seguem de limusine, agora acompanhadas pelos “ushers” (os irmãos e amigos do noivo, novamente uniformizados), em direção aos parques, jardins e praias da cidade. As fotos são previsíveis: todos os homens levantando a noiva, todas as mulheres num círculo, com a noiva no meio... E se o rímel da noiva escorre ? Em alguns lugares do mundo, quem não tem colírio usa óculos escuros, mas aqui uma bridesmaid saca da sua bolsinha (que, acreditem ou não, é invariavelmente do mesmo cetim brilhoso dos vestidos todos iguais) o Kit Michelangelo e retoca a cara da recém-casada. E assim passam o dia (sim, o dia inteiro porque a recepção é só de noite), entre poses, caras e bocas. Quando chega a hora da festa, os convidados têm que se sentar nos lugares pré-determinados pela (quem mais ?) bridezilla. A presidente do clube das bridesmaids - também chamada de “maid of honor” - e seu equivalente masculino - o “best man” – têm que fazer discurso na festa. Já que estamos no tópico, alguém pode me explicar por que a noiva casa com o noivo e não com o “best man”, uma vez que este tem explícito no nome o fato de que ele é o melhor ?
Algumas curiosidades locais: os noivos, após cortarem a primeira fatia, esfregam um pedaço do glacê do bolo um no rosto do outro (!). A noiva senta-se numa cadeira, enquanto o noivo levanta seu vestido e tira, com os dentes, um pedacinho de elástico azul, preso à coxa dela, o “garter” (!!). Depois disso, o noivo arremessa o “garter” para seus amigos solteiros e reza a tradição que quem pegar será o próximo a se casar (!!!).
Diferenças culturais de lado, recuso-me a me tornar uma bridezilla. Já perdi a conta de quantas vezes me perguntaram “por que você vai casar às 7 da noite e não de manhã ?”, como se fosse um sacrilégio. Quase fuzilei o estilista (metade da minha altura, poderia tê-lo estraçalhado num dia de TPM) porque ele insistiu em NÃO retirar a cauda do meu vestido. “Para que servem as bridesmaids senão para segurar a cauda ?” foi a brilhante forma que ele encontrou de me convencer – os que me conhecem sabem que ele não conseguiu e que não terei bridesmaids. Fora os amigos canadenses que não se conformam com a idéia de chegarem na festa e não saberem onde têm que se sentar, já que não vou escrever o nome de cada um no seu lugar.
Tenho que parar por aqui, porque o gel está escorrendo da minha boca. Não sou bridezilla, mas claro que resolvi dar uma clareada nos dentes para sair “fabulous” nas fotos e já deu a hora de tirar essa porcaria das gengivas.
Uma Enfermeira Brasileira em Vancouver
No dia 3 de abril passado, completei 4 anos trabalhando como enfermeira em Vancouver. Desde que entrei no Orkut, tenho recebido várias mensagens de enfermeiros brasileiros pedindo dicas para virem trabalhar aqui. Ninguém nunca fez as perguntas mais importantes, então resolvi escrever um manual básico de sobrevivência para alguém que se formou na terrinha e quer se aventurar em terras “vancouverites”. Muito pouco do que você aprendeu na universidade sobre o sistema de saúde num país de Primeiro Mundo se aplica. Se você trabalhar no centro de Vancouver, NADA se aplica. Meu hospital atende os viciados em drogas, os velhinhos que moram nos asilos e toda a comunidade da “gaybourhood” (o bairro gay), onde se localiza.
A clientela
Quem pensa que francês é segunda língua mais falada no Canadá nunca pisou num hospital em Vancouver. Seu diploma de Alliance Française não serve para xongas quando a questão é comunicar-se com pacientes. Por aqui, quem não fala inglês fala cantonês (às vezes mandarim) ou então punjabi. Não adianta achar que sua colega chinesa vai conseguir comunicação com seu paciente tambem chinês, porque a probabilidade de eles falarem o mesmo dialeto é mínima e a Lei de Murphy, universal.
Por ser a cidade de clima mais “ameno” do país, Vancouver abriga também a maior concentração de moradores de rua do Canadá (no resto do país, morreriam congelados ainda na primavera). Sim, há moradores de rua no Primeiro Mundo, mas nenhuma criança. Muitos viciados em drogas, alguns doentes mentais e, na maioria dos casos, um pouco de ambos. “O melhor sistema de saúde do mundo” na prática proporciona situações improváveis no Brasil: pacientes riquíssimos que caíram e quebraram o quadril dividindo o mesmo quarto com um viciado em heroína mal cheiroso e de cabelo cor-de-rosa, com piercings em partes do corpo que você nem imaginava serem perfuráveis.
Este papo de que homem é mais fraco para dor que mulher é besteira. O chilique que uma pessoa dá quando é furada por uma agulha no hospital é diretamente proporcional à quantidade de tatuagens e piercings que ela tem no corpo, não tem nada a ver com o sexo. O tamanho das tattoos também influencia. Esperneiam e gritam mais os que tem grandes desenhos de dragões coloridos no braço ou cobras enroladas na perna. Um paradoxo hospitalar: ninguém, por mais escandoloso que seja, faz mais escândalo do que um viciado em droga injetável na hora de levar uma injeção.
O uso de telefones celulares é expressamente proibido dentro de hospitais, exceto se o paciente for traficante de drogas. Fala sério, você não vai querer que ele pare de “trabalhar” e perca a freguesia acumulada com anos de serviço só porque teve apendicite ou quebrou o tornozelo, né ? Esqueça suas convicções religiosas, morais, éticas ou legais. Se tem um paciente com quem você não quer inimizade é o traficante. Ele mantém os outros pacientes problemáticos abastecidos e, com certeza, você não quer que os amigos dele o sigam até a sua casa depois do plantão. Finja que não desconfia de nada quando pacientes esquisitos de todos os andares começarem a aparecer no seu setor para visitar “um amigo” cujo nome não sabem, mas que está numa cama perto da janela, com o pé engessado. Pergunte a si mesmo: você trabalha para o sistema de saúde ou para a Liga da Justiça dos Superamigos ? Veja como um investimento: se algum dia você quiser experimentar, pode conseguir um desconto.
Não importa o que digam as pesquisas recentes e a Organização Mundial de Saúde. O paciente que se levanta mais rápido depois de uma cirurgia é o fumante. Assim que volta da sala de recuperação pós-anestésica e é capaz de se mexer na cama, o fumante se esquece da enorme incisão na barriga e dos tubos por todo o corpo, arrasta-se até a primeira cadeira de rodas e vai para o jardim dar uma pitadinha, mesmo que esteja nevando do lado de fora. Não é hora de fazer palestras sobre os males do fumo. Se o cara fumou dois maços de cigarro por dia durante trinta anos, não vai abandonar o vício nem por causa de uma grande cirurgia, muito menos por causa do seu discurso com sotaque tupiniquim. Contanto que ele não fume na enfermaria, guarde seus conselhos para seus amigos fora do hospital.
É possível comprar QUALQUER tipo de droga lícita ou não - injetável, inalável, fumável, comestível ou bebível - no jardim do hospital. Seu paciente está indócil, acordando todo o resto da enfermaria (cuja média de idade é 80 anos e cujo único crime foi ter escorregado no gelo e fraturado o ombro) às 3 da manhã, batendo boca com você porque quer mais morfina e ainda não está na hora ? Em vez de ficar se estressando, deixe o infeliz descer para o jardim, “tomar um café” (por mais que a lanchonete feche às 11 da noite), que ele vai voltar feliz da vida. Aliás, infeliz é você, que tem mais a noite inteira pela frente, com aquela colega de TPM, sem “pot, dope, doobie, joint, weed, marijuana” (sinônimos de "maconha" em inglês) para aliviar. Serão quinze minutos de sossego enquanto ele (ou ela) vai ao quarto andar, mais uma hora e meia de paz e silêncio enquanto dura a cochilada pós-baseado e depois recomeça a perturbação.
Todo paciente viciado em cocaína ou heroína vai chamar a enfermagem das 2 às 5 da manhã pedindo suco de maçã, pode ter certeza. É a coisa mais doce que o hospital oferece de graça e o cara mora na rua, não tem esses luxos na “casa” dele. A não ser que você esteja atendendo alguém com hemorragia franca ou parada cardíaca, pare o que estiver fazendo e leve dois baldes de suco de maçã (com gelo) para o “junkie”. Não é para ser boazinha com ele, é para que evitar que ele acorde o paciente confuso no leito ao lado, de 96 anos, que já passou o dia inteiro arrancando as sondas e pulando da cama, numa tentativa quase bem sucedida de quebrar o outro quadril.
Não há por que temer os pacientes prisioneiros. Eles normalmente cometeram pequenos delitos e são inofensivos. Fernandinho Beira-Mar não beira o mar daqui, que o nome do oceano já diz tudo: Pacífico. Aqui, os presidiários estão o tempo todo algemados à cama, pelo tornozelo. Há sempre dois policiais altos, fortes, musculosos, maravilhosos e simpáticos acompanhando o preso (esqueça a polícia da Baixada Fluminense, isso aqui é o Primeiro Mundo !).
Incrível, mas mesmo com tantos viciados em drogas, nao há brigas em Vancouver. Ninguém que chega ao hospital com a mandíbula quebrada, o nariz fraturado, sete facadas pelo corpo ou duas balas na barriga, por mais alcoolizado que esteja, esteve envolvido em confusões, cantou a mulher do próximo ou deixou de pagar seu fornecedor de cocaína. Todos têm a mesma história: “I was walking down the street, minding my own business, when I was suddenly attacked” (eu estava caminhando na rua, tomando conta da minha própria vida, quando fui subitamente atacado). Meu favorito foi um que chegou com os dedos da mão direita quebrados e, quando perguntei como havia se machucado, disse casualmente: “esbarrei a mão”. E eu “esbarrou no quê ?”, ao que ele respondeu “esbarrei com força no rosto de outro cara”.
Os(as) colegas
A idade média de um(a) enfermeiro(a) no Canada é de 50 anos (na enfermaria) e 55 (no centro cirúrgico). A esmagadora maioria de mulheres. Inútil você querer manter a temperatura ambiente na casa dos 20 graus. “Tá pensando que está em Salvador, Meu Rei ?" Canadense já gosta de passar frio, na menopausa então pensa que “temperatura agradável” é quando faz 14 graus. Meu conselho é: seja o primeiro a chegar, coloque o termostato no 21 e fique calado. Por mais que o resto da equipe esteja de bochechas vermelhas e suando em bicas, jamais admita que você sabe onde fica o controle de temperatura. Leve um casaquinho, que às 10 da manha alguém já vai ter descoberto seu plano e você vai estar batendo o queixo. Alegria e calor de pobre duram pouco.
No mais, você precisa reavaliar seus conceitos de normalidade. Em tempos de glabalização, ficar de boca aberta diante de certos fatos da vida é sinal de intolerância. Como assim ? Seus colegas de bigode vão trazer os maridos (ops, a expressão politicamente correta é “parceiros de vida”) para a confraternização de Natal. Sua colega sem filhos vai contar o quanto está chateada porque o ônibus escolar que leva o cachorro dela para a creche se atrasou (faltar escola porque os donos têm que dar plantão é coisa de canino subdesenvolvido). Sua chefe, que só conhece piolho através do Discovery Channel, vai insistir em manter o raro paciente piolhento isolado com a porta do quarto fechada (a subespécie canadense de piolho-canguru é capaz de saltar distâncias enormes, mas como é um parasita de Primeiro Mundo, respeita portas fechadas e não as ultrapassa).
Como diz meu futuro marido, que é analista de sistemas, o mais lento e monótono dos meus dias no hospital é muito mais interessante do que o dia mais animado na companhia onde ele trabalha. I love my job !
A clientela
Quem pensa que francês é segunda língua mais falada no Canadá nunca pisou num hospital em Vancouver. Seu diploma de Alliance Française não serve para xongas quando a questão é comunicar-se com pacientes. Por aqui, quem não fala inglês fala cantonês (às vezes mandarim) ou então punjabi. Não adianta achar que sua colega chinesa vai conseguir comunicação com seu paciente tambem chinês, porque a probabilidade de eles falarem o mesmo dialeto é mínima e a Lei de Murphy, universal.
Por ser a cidade de clima mais “ameno” do país, Vancouver abriga também a maior concentração de moradores de rua do Canadá (no resto do país, morreriam congelados ainda na primavera). Sim, há moradores de rua no Primeiro Mundo, mas nenhuma criança. Muitos viciados em drogas, alguns doentes mentais e, na maioria dos casos, um pouco de ambos. “O melhor sistema de saúde do mundo” na prática proporciona situações improváveis no Brasil: pacientes riquíssimos que caíram e quebraram o quadril dividindo o mesmo quarto com um viciado em heroína mal cheiroso e de cabelo cor-de-rosa, com piercings em partes do corpo que você nem imaginava serem perfuráveis.
Este papo de que homem é mais fraco para dor que mulher é besteira. O chilique que uma pessoa dá quando é furada por uma agulha no hospital é diretamente proporcional à quantidade de tatuagens e piercings que ela tem no corpo, não tem nada a ver com o sexo. O tamanho das tattoos também influencia. Esperneiam e gritam mais os que tem grandes desenhos de dragões coloridos no braço ou cobras enroladas na perna. Um paradoxo hospitalar: ninguém, por mais escandoloso que seja, faz mais escândalo do que um viciado em droga injetável na hora de levar uma injeção.
O uso de telefones celulares é expressamente proibido dentro de hospitais, exceto se o paciente for traficante de drogas. Fala sério, você não vai querer que ele pare de “trabalhar” e perca a freguesia acumulada com anos de serviço só porque teve apendicite ou quebrou o tornozelo, né ? Esqueça suas convicções religiosas, morais, éticas ou legais. Se tem um paciente com quem você não quer inimizade é o traficante. Ele mantém os outros pacientes problemáticos abastecidos e, com certeza, você não quer que os amigos dele o sigam até a sua casa depois do plantão. Finja que não desconfia de nada quando pacientes esquisitos de todos os andares começarem a aparecer no seu setor para visitar “um amigo” cujo nome não sabem, mas que está numa cama perto da janela, com o pé engessado. Pergunte a si mesmo: você trabalha para o sistema de saúde ou para a Liga da Justiça dos Superamigos ? Veja como um investimento: se algum dia você quiser experimentar, pode conseguir um desconto.
Não importa o que digam as pesquisas recentes e a Organização Mundial de Saúde. O paciente que se levanta mais rápido depois de uma cirurgia é o fumante. Assim que volta da sala de recuperação pós-anestésica e é capaz de se mexer na cama, o fumante se esquece da enorme incisão na barriga e dos tubos por todo o corpo, arrasta-se até a primeira cadeira de rodas e vai para o jardim dar uma pitadinha, mesmo que esteja nevando do lado de fora. Não é hora de fazer palestras sobre os males do fumo. Se o cara fumou dois maços de cigarro por dia durante trinta anos, não vai abandonar o vício nem por causa de uma grande cirurgia, muito menos por causa do seu discurso com sotaque tupiniquim. Contanto que ele não fume na enfermaria, guarde seus conselhos para seus amigos fora do hospital.
É possível comprar QUALQUER tipo de droga lícita ou não - injetável, inalável, fumável, comestível ou bebível - no jardim do hospital. Seu paciente está indócil, acordando todo o resto da enfermaria (cuja média de idade é 80 anos e cujo único crime foi ter escorregado no gelo e fraturado o ombro) às 3 da manhã, batendo boca com você porque quer mais morfina e ainda não está na hora ? Em vez de ficar se estressando, deixe o infeliz descer para o jardim, “tomar um café” (por mais que a lanchonete feche às 11 da noite), que ele vai voltar feliz da vida. Aliás, infeliz é você, que tem mais a noite inteira pela frente, com aquela colega de TPM, sem “pot, dope, doobie, joint, weed, marijuana” (sinônimos de "maconha" em inglês) para aliviar. Serão quinze minutos de sossego enquanto ele (ou ela) vai ao quarto andar, mais uma hora e meia de paz e silêncio enquanto dura a cochilada pós-baseado e depois recomeça a perturbação.
Todo paciente viciado em cocaína ou heroína vai chamar a enfermagem das 2 às 5 da manhã pedindo suco de maçã, pode ter certeza. É a coisa mais doce que o hospital oferece de graça e o cara mora na rua, não tem esses luxos na “casa” dele. A não ser que você esteja atendendo alguém com hemorragia franca ou parada cardíaca, pare o que estiver fazendo e leve dois baldes de suco de maçã (com gelo) para o “junkie”. Não é para ser boazinha com ele, é para que evitar que ele acorde o paciente confuso no leito ao lado, de 96 anos, que já passou o dia inteiro arrancando as sondas e pulando da cama, numa tentativa quase bem sucedida de quebrar o outro quadril.
Não há por que temer os pacientes prisioneiros. Eles normalmente cometeram pequenos delitos e são inofensivos. Fernandinho Beira-Mar não beira o mar daqui, que o nome do oceano já diz tudo: Pacífico. Aqui, os presidiários estão o tempo todo algemados à cama, pelo tornozelo. Há sempre dois policiais altos, fortes, musculosos, maravilhosos e simpáticos acompanhando o preso (esqueça a polícia da Baixada Fluminense, isso aqui é o Primeiro Mundo !).
Incrível, mas mesmo com tantos viciados em drogas, nao há brigas em Vancouver. Ninguém que chega ao hospital com a mandíbula quebrada, o nariz fraturado, sete facadas pelo corpo ou duas balas na barriga, por mais alcoolizado que esteja, esteve envolvido em confusões, cantou a mulher do próximo ou deixou de pagar seu fornecedor de cocaína. Todos têm a mesma história: “I was walking down the street, minding my own business, when I was suddenly attacked” (eu estava caminhando na rua, tomando conta da minha própria vida, quando fui subitamente atacado). Meu favorito foi um que chegou com os dedos da mão direita quebrados e, quando perguntei como havia se machucado, disse casualmente: “esbarrei a mão”. E eu “esbarrou no quê ?”, ao que ele respondeu “esbarrei com força no rosto de outro cara”.
Os(as) colegas
A idade média de um(a) enfermeiro(a) no Canada é de 50 anos (na enfermaria) e 55 (no centro cirúrgico). A esmagadora maioria de mulheres. Inútil você querer manter a temperatura ambiente na casa dos 20 graus. “Tá pensando que está em Salvador, Meu Rei ?" Canadense já gosta de passar frio, na menopausa então pensa que “temperatura agradável” é quando faz 14 graus. Meu conselho é: seja o primeiro a chegar, coloque o termostato no 21 e fique calado. Por mais que o resto da equipe esteja de bochechas vermelhas e suando em bicas, jamais admita que você sabe onde fica o controle de temperatura. Leve um casaquinho, que às 10 da manha alguém já vai ter descoberto seu plano e você vai estar batendo o queixo. Alegria e calor de pobre duram pouco.
No mais, você precisa reavaliar seus conceitos de normalidade. Em tempos de glabalização, ficar de boca aberta diante de certos fatos da vida é sinal de intolerância. Como assim ? Seus colegas de bigode vão trazer os maridos (ops, a expressão politicamente correta é “parceiros de vida”) para a confraternização de Natal. Sua colega sem filhos vai contar o quanto está chateada porque o ônibus escolar que leva o cachorro dela para a creche se atrasou (faltar escola porque os donos têm que dar plantão é coisa de canino subdesenvolvido). Sua chefe, que só conhece piolho através do Discovery Channel, vai insistir em manter o raro paciente piolhento isolado com a porta do quarto fechada (a subespécie canadense de piolho-canguru é capaz de saltar distâncias enormes, mas como é um parasita de Primeiro Mundo, respeita portas fechadas e não as ultrapassa).
Como diz meu futuro marido, que é analista de sistemas, o mais lento e monótono dos meus dias no hospital é muito mais interessante do que o dia mais animado na companhia onde ele trabalha. I love my job !
04 junho, 2005
No Canadá por Opção
Estou muito sensibilizada desde que uma amiga nossa, companheira de sonhos, já que estamos automaticamente interligados nesta grande comunidade de "Brasileiros que moram fora do Brasil por opção", perdeu o pai, que morava na terrinha. Além de telefonar para o meu pai e lembrá-lo de que o amo, fiz uma reflexão que vou compartilhar aqui.
Formamos um grupo distinto de imigrantes. Não somos refugiados de guerra, não estamos no exílio, não temos impedimento legal de voltar a morar no Brasil. Nunca fomos perseguidos no nosso país por causa de convicções religiosas. Nós mulheres não éramos forçadas a cobrir todo o corpo (muito pelo contrário) nem a andar um metro atrás dos homens. Entramos aqui pela porta da frente e, na grande maioria, tínhamos uma vida confortável na terrinha. Amamos a picanha dos gaúchos que temos a felicidade de conhecer aqui, nosso coração bate mais forte na época da Copa do Mundo quando ouvimos uma batucada fora de compasso mas com boa intenção, nossos olhos brilham quando há nos jornais alguma notícia sobre o Brasil que não inclua desmatamento de floresta, violência, corrupção ou mulheres seminuas na Sapucaí, mesmo que seja a de uma cidade no interior de Minas que instituiu o Dia do Orgasmo (várias colegas de trabalho vieram me mostrar a notinha de 10 linhas no jornal local e óbvio que eu não sabia o que dizer).
Às vezes reclamamos da vida aqui sim, que meu filósofo pai sempre diz que "reclamação é um vício". Achamos o fim da picada o fato de que não se vende cerveja em qualquer supermercado e que o cream cheese não chega nem aos pés do nosso catupiry. A mulherada se sente órfã das pessoas que formam o pacote essencial à mulher do novo milênio "depiladora/manicure/cabeleireira/empregada/faxineira". Principalmente nós brasilienses, provas vivas de que 3 tubos de manteiga de cacau, 1 toalha molhada na cabeceira da cama e 1 tubo de hidratante na pele por noite formam o kit básico de sobrevivência durante longos meses da seca, estranhamos a chuva insistente, que de novembro a abril parece desanimar até Noé. Mas colocamos na balança as compensações, a vida mais tranqüila, a quase inexistência de violência, a ausência de crianças pedindo esmola nos sinais, o reconhecimento profissional e a vista deslumbrante desta cidade num dia de sol. Na minha balança particular, coloco a abençoada ausência de baratas, escorpiões, gafanhotos, lagartixas, assim como seus similares ou genéricos. Uma vez uma canadense de 11 anos me perguntou o que era "cockroach" (barata), ela nunca tinha visto uma. A mãe respondeu, poeticamente, "é um besourinho que não faz mal nenhum". Percebi que bem aventurados são os que pensam que a categoria "insetos" restringe-se a um grupo composto por coloridas borboletas e joaninhas, pois essas pessoas já habitam o reino do Céus. Cada um com seus motivos, optamos por continuar vivendo aqui.
Quando alguém querido no Brasil se casa, tem filho, obtém uma grande conquista ou infelizmente passa para uma outra dimensão, a gente aqui leva uma sacudida. Uma confusão de sentimentos nos invade a alma. Saudade da nossa Passárgada. Inveja por perder os momentos de farra, coração partido por não poder pegar o novo sobrinho no colo, culpa por não estar ao lado dos que mais amamos nas horas em que eles contam com a gente. Na hora em que a saudade bate, o preço da passagem aumenta e o chefe não libera uma licença prolongada, a gente sofre. Quem algum dia ligou para a família na hora do almoço de domingo, ouviu a barulhada da casa cheia e mesmo assim não sentiu saudade que atire a primeira pedra.
Já estava emotiva quando vi na página do Orkut as fotos da minha amiga com o pai, que já não mais se encontra aqui. Aos prantos, li o texto dela, descrevendo o pai. Relembrei o quanto nossas decisões de mudar de país, trazer os filhos ou tê-los aqui tanto enchem os que nos amam de orgulho, como de saudade, de dúvida "eles não eram felizes no Brasil ?" e de preocupação (meu pai que o diga). No meu último aniversário, ao invés de lamentar a distância e a ausência, meu pai me disse "Minha Filha, você é uma vencedora". Bom que ele tenha dito, diminui minha dor da saudade saber que ele me apóia – sempre.
E então ? Cada pessoa, cada família, cada um tem uma história, um objetivo a atingir quando tomou a decisão de morar aqui. Voltar ou não voltar para o Brasil ? Essa dúvida com certeza é como aquela nuvem que segue a família Adams, sempre pairando sobre nossas cabeças. A nós, que por providência divina, fomos reunidos por uma mesma nacionalidade e por vários ideais em comum e HOJE estamos vivendo aqui, cabe emprestar o ouvido amigo para desabafar, mostrar solidariedade nos momentos de sufoco e, para aquelas horas em que não sabemos o que dizer, apertar a mão amiga e sussurrar "pode contar comigo".
Meus amigos que vejo sempre ou raramente também podem contar comigo.
Formamos um grupo distinto de imigrantes. Não somos refugiados de guerra, não estamos no exílio, não temos impedimento legal de voltar a morar no Brasil. Nunca fomos perseguidos no nosso país por causa de convicções religiosas. Nós mulheres não éramos forçadas a cobrir todo o corpo (muito pelo contrário) nem a andar um metro atrás dos homens. Entramos aqui pela porta da frente e, na grande maioria, tínhamos uma vida confortável na terrinha. Amamos a picanha dos gaúchos que temos a felicidade de conhecer aqui, nosso coração bate mais forte na época da Copa do Mundo quando ouvimos uma batucada fora de compasso mas com boa intenção, nossos olhos brilham quando há nos jornais alguma notícia sobre o Brasil que não inclua desmatamento de floresta, violência, corrupção ou mulheres seminuas na Sapucaí, mesmo que seja a de uma cidade no interior de Minas que instituiu o Dia do Orgasmo (várias colegas de trabalho vieram me mostrar a notinha de 10 linhas no jornal local e óbvio que eu não sabia o que dizer).
Às vezes reclamamos da vida aqui sim, que meu filósofo pai sempre diz que "reclamação é um vício". Achamos o fim da picada o fato de que não se vende cerveja em qualquer supermercado e que o cream cheese não chega nem aos pés do nosso catupiry. A mulherada se sente órfã das pessoas que formam o pacote essencial à mulher do novo milênio "depiladora/manicure/cabeleireira/empregada/faxineira". Principalmente nós brasilienses, provas vivas de que 3 tubos de manteiga de cacau, 1 toalha molhada na cabeceira da cama e 1 tubo de hidratante na pele por noite formam o kit básico de sobrevivência durante longos meses da seca, estranhamos a chuva insistente, que de novembro a abril parece desanimar até Noé. Mas colocamos na balança as compensações, a vida mais tranqüila, a quase inexistência de violência, a ausência de crianças pedindo esmola nos sinais, o reconhecimento profissional e a vista deslumbrante desta cidade num dia de sol. Na minha balança particular, coloco a abençoada ausência de baratas, escorpiões, gafanhotos, lagartixas, assim como seus similares ou genéricos. Uma vez uma canadense de 11 anos me perguntou o que era "cockroach" (barata), ela nunca tinha visto uma. A mãe respondeu, poeticamente, "é um besourinho que não faz mal nenhum". Percebi que bem aventurados são os que pensam que a categoria "insetos" restringe-se a um grupo composto por coloridas borboletas e joaninhas, pois essas pessoas já habitam o reino do Céus. Cada um com seus motivos, optamos por continuar vivendo aqui.
Quando alguém querido no Brasil se casa, tem filho, obtém uma grande conquista ou infelizmente passa para uma outra dimensão, a gente aqui leva uma sacudida. Uma confusão de sentimentos nos invade a alma. Saudade da nossa Passárgada. Inveja por perder os momentos de farra, coração partido por não poder pegar o novo sobrinho no colo, culpa por não estar ao lado dos que mais amamos nas horas em que eles contam com a gente. Na hora em que a saudade bate, o preço da passagem aumenta e o chefe não libera uma licença prolongada, a gente sofre. Quem algum dia ligou para a família na hora do almoço de domingo, ouviu a barulhada da casa cheia e mesmo assim não sentiu saudade que atire a primeira pedra.
Já estava emotiva quando vi na página do Orkut as fotos da minha amiga com o pai, que já não mais se encontra aqui. Aos prantos, li o texto dela, descrevendo o pai. Relembrei o quanto nossas decisões de mudar de país, trazer os filhos ou tê-los aqui tanto enchem os que nos amam de orgulho, como de saudade, de dúvida "eles não eram felizes no Brasil ?" e de preocupação (meu pai que o diga). No meu último aniversário, ao invés de lamentar a distância e a ausência, meu pai me disse "Minha Filha, você é uma vencedora". Bom que ele tenha dito, diminui minha dor da saudade saber que ele me apóia – sempre.
E então ? Cada pessoa, cada família, cada um tem uma história, um objetivo a atingir quando tomou a decisão de morar aqui. Voltar ou não voltar para o Brasil ? Essa dúvida com certeza é como aquela nuvem que segue a família Adams, sempre pairando sobre nossas cabeças. A nós, que por providência divina, fomos reunidos por uma mesma nacionalidade e por vários ideais em comum e HOJE estamos vivendo aqui, cabe emprestar o ouvido amigo para desabafar, mostrar solidariedade nos momentos de sufoco e, para aquelas horas em que não sabemos o que dizer, apertar a mão amiga e sussurrar "pode contar comigo".
Meus amigos que vejo sempre ou raramente também podem contar comigo.
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