Uma das maiores vantagens de passar um tempo imersa numa outra cultura é poder incorporar as festas, os feriados e as tradições novas, sem necessariamente perder aquelas que a gente já tinha no país de origem.
Dito isso, existem algumas tradições norte-americanas deliciosas, já devidamente incorporadas à vida do Iglu.
Todo ano, em setembro (antes que comece a temporada de chuvas), a família toda vai a um Pumpkin Patch. Uma fazenda com plantação de abóboras, onde a gente paga para entrar e cada um escolhe a abóbora que quer trazer para casa e, eventualmente, enfeitar para o Halloween.
Antes do Halloween, ainda tem o Thanksgiving, Dia de Ação de Graças, que no Canadá acontece no início de outubro. Uma ceia (o cardápio local é o mesmo do Natal) onde a família e os amigos se reúnem para agradecer o que aconteceu de bom no ano.
E depois tem o Halloween! Não está oficialmente no calendário, mas aqui em Vancouver, depois desta data, pode deixar para trás qualquer esperança de um clima compatível com a vida sem casacos e botas.
A criançada aqui fica esperando ansiosamente o Halloween, as casas ficam assustadoramente decoradas e a noite para sair perguntando por gostosuras ou travessuras é uma farra.
Então, com alguns dias de atraso, fica a imagem do astronauta que não pode ir ao espaço sideral sem seu elefante de estimação.
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03 novembro, 2012
19 outubro, 2011
Mais uma Manhã no Kindergarten
Você tem aos poucos abandonado suas ideias pré-concebidas sobre como deveria ser uma classe escolar para crianças de 5 anos. Depois de 3 ou 4 manhãs passadas na turma do seu filho, algumas coisas mudaram.
Você descobriu que a professora dele é maravilhosa. Fala sempre um tom de voz baixo, evolução que você precisaria de várias vidas para atingir. É uma criatura de paciência infinita e ótimas habilidades para lidar com as diferentes personalidades na sala de aula.
Você viu que demorou, mas finalmente as coleguinhas com necessidades especiais agora tem um assistente na sala de aula.
Você percebeu que, se a parte acadêmica fica a desejar, não é só no "kindergarten". Em qualquer série escolar, se formos comparar, no Brasil as crianças estão aprendendo matérias mais avançadas e as daqui são mais incentivadas em artes e criatividade. O que é melhor? Você não tem a resposta. Talvez a palavra seja "diferente" e não "melhor" ou "pior". Sim, porque se você não se convencer disso vai ser difícil aceitar que no equivalente à antiga sexta série ainda estão ensinando multiplicação por aqui. E sem decorar a tabuada, o que você acha inacreditável.
Você se lembra das baboseiras que foi obrigada a decorar na sua própria vida escolar, como os afluentes da margem direita e esquerda do Rio Amazonas, os nomes dos presidentes do Brasil em ordem e conclui que, de decoreba, além da tabuada (sim, você continua defendendo que se decore a tabuada em algum ponto da vida e não fiquem contando nos dedos infinitamente), você só continua sabendo de cor a tabela periódica dos elementos. E, convenhamos que deduzir os elementos a partir de Hoje Li Na Kapa Roberto Carlos Fracassou não lhe serviu em nada um dia após prestar o vestibular.
E, com uma certa melancolia, você também conclui que vai sentir falta destas manhãs de quarta-feira passadas numa sala de aula com 20 crianças cantando, recitando poemas, fazendo seus projetos de arte e sendo alfabetizadas de uma forma completamente diferente da que você vivenciou.
Ah, mas como seu filho não se cansa de cobrar, você ainda voltará lá pelo menos uma manhã, para falar sobre sua profissão, a pedido da professora, que tem uma filha de 22 anos com fobia de agulhas. Sabiamente, a professora quer evitar que as crianças cresçam sendo "squeamish", para usar o adjetivo em inglês.
Você descobriu que a professora dele é maravilhosa. Fala sempre um tom de voz baixo, evolução que você precisaria de várias vidas para atingir. É uma criatura de paciência infinita e ótimas habilidades para lidar com as diferentes personalidades na sala de aula.
Você viu que demorou, mas finalmente as coleguinhas com necessidades especiais agora tem um assistente na sala de aula.
Você percebeu que, se a parte acadêmica fica a desejar, não é só no "kindergarten". Em qualquer série escolar, se formos comparar, no Brasil as crianças estão aprendendo matérias mais avançadas e as daqui são mais incentivadas em artes e criatividade. O que é melhor? Você não tem a resposta. Talvez a palavra seja "diferente" e não "melhor" ou "pior". Sim, porque se você não se convencer disso vai ser difícil aceitar que no equivalente à antiga sexta série ainda estão ensinando multiplicação por aqui. E sem decorar a tabuada, o que você acha inacreditável.
Você se lembra das baboseiras que foi obrigada a decorar na sua própria vida escolar, como os afluentes da margem direita e esquerda do Rio Amazonas, os nomes dos presidentes do Brasil em ordem e conclui que, de decoreba, além da tabuada (sim, você continua defendendo que se decore a tabuada em algum ponto da vida e não fiquem contando nos dedos infinitamente), você só continua sabendo de cor a tabela periódica dos elementos. E, convenhamos que deduzir os elementos a partir de Hoje Li Na Kapa Roberto Carlos Fracassou não lhe serviu em nada um dia após prestar o vestibular.
E, com uma certa melancolia, você também conclui que vai sentir falta destas manhãs de quarta-feira passadas numa sala de aula com 20 crianças cantando, recitando poemas, fazendo seus projetos de arte e sendo alfabetizadas de uma forma completamente diferente da que você vivenciou.
Ah, mas como seu filho não se cansa de cobrar, você ainda voltará lá pelo menos uma manhã, para falar sobre sua profissão, a pedido da professora, que tem uma filha de 22 anos com fobia de agulhas. Sabiamente, a professora quer evitar que as crianças cresçam sendo "squeamish", para usar o adjetivo em inglês.
15 outubro, 2011
Pumpkin Patch

Uma das coisas boas de morar num país estrangeiro é poder incorporar outras tradições às nossas.
Thanksgiving, o Dia de Ação de Graças, é dia de ceia com amigos e um peru na mesa do Iglu há muitos anos.
Depois de ter filhos, já em preparação para o delicioso Halloween (minha festa norte-americana favorita), uma visita ao Pumpkin Patch torna-se obrigatória. Trata-se de uma fazenda de plantação de abóboras, onde a gente paga para entrar, tendo direito a colher uma abóbora por ingresso, grande ou pequena, contanto que consiga carregá-la de volta. Em Vancouver, recomendo The Pumpkin Patch, muito organizada, com amplo estacionamento, carroças puxadas por tratores, muitos animais para as crianças verem e ótimo atendimento.

Para os novatos no Pumpkin Patch, algumas dicas básicas aqui em Vancouver:
- Se houver um final de semana sem chuva, aproveite e vá colher sua abóbora, ainda que seja o início de outubro. Elas duram bastante e algumas fazendas costumam abrir a temporada no dia primeiro;
- Vista-se com roupas bem quentes e não dispense as botas de borracha para adultos e crianças;
- Se seu filho tem uma roupa de chuva que cobre o corpo todo (conhecida por Muddy Buddy), vale a pena colocar por cima;
- É bem bonitinho levar a criança com a fantasia de Halloween, mas no meio da lama, não é recomendável;
- Abóboras grandes são lindas, mas bem pesadas para carregar de volta até a carroça e difíceis de esculpir;
- Não esqueça de tirar muitas fotos.
05 outubro, 2011
Uma Manhã no Kindergarten
Pra você que veio do outro lado do planeta, frequentou escola particular e religiosa a vida toda (somente de manhã ou de tarde), ter um filho numa escola pública canadense, de nove da manhã às três e um (sim, o horário é até 15:01 oficialmente) é um choque e tanto.
A decepção começa quando você descobre no ano anterior que não há vaga garantida na escola mais próxima de casa, continua em abril quando na reunião a diretora diz que não há espaço físico para a sala de aula do "kindergarten", nem professor contratado para as aulas em setembro.
No primeiro dia de aula, em plena "job action", a nova sala de aula está construída, mas ainda há poeira da obra no chão. Durante o mês inteiro, você fica ansiosa por ver livros, cadernos, agenda, uma folha de papel que dê alguma luz sobre o que vai ser ensinado a cada semana, na tentativa de ajudar a criança em casa. Chegam vinte e sete folhetos sobre dia da pizza, dia do sanduíche, dia da foto, Terry Fox Run, mas nada sobre conteúdo escolar.
Então, você engole sua decepção para não estragar a boa impressão que quer que seu filho tenha da escola e oferece à professora para passar uma manhã na sala de aula, como voluntária.
É tudo muito diferente das escolas em que você estudou na infância! As crianças não tem uniforme, nem todas chegam no horário, algumas aparecem com o cabelo da mesma forma que estava ao acordarem, ainda amassado pelo travesseiro. Como o "kindergarten" é o primeiro ano escolar obrigatório, muitas crianças nunca frequentaram um ambiente escolar e algumas ainda sofrem de ansiedade de separação, chorando agarradas às pernas da mãe (ou do pai) na entrada.
Numa terra fria e chuvosa, é preciso trocar de sapatos ao entrar na sala de aula e cada criança tem seu lugar de pendurar capas de chuva, toucas e casacos, além dos sapatos para usar somente do lado de dentro.
Em duas horas, você lê um livro para as crianças, acompanha calada a professora ensinando às crianças que "Flávia" tem 3 sílabas e perguntando num cochicho que letras vem depois do V no seu nome, para ensinar aos alunos como se escreve (quem manda ter um nome tão exótico?). Também tenta inutilmente grampear uns livretos com um grampeador quebrado e dobra algumas folhas de papel. Fica muito feliz ao ajudar uma garotinha com algum transtorno do desenvolvimento a completar sua tarefa, numa mesa separada das demais crianças. Descobre que, incrivelmente, seu filho não é o único tagarela da classe e talvez até dispute o segundo lugar na turma. Não se espanta quando descobre que aquele menino cujo nome seu filho sempre cita como o do seu melhor amigo é, na verdade, o mais irrequieto da classe.
Você fica feliz ao encontrar tantos livros na sala de aula, surpresa ao ver tantos brinquedos, satisfeita ao descobrir que os alunos do último ano aparecem todas as manhãs para ajudar os pequenos a vestirem seus casacos e calçarem suas botas antes de saírem para o recreio. "It's an outside day", avisa a voz no interfone imediatamente antes do intervalo. Se com esta chuva toda o aviso é este, você se pergunta que altura de neve é necessária para que seja decretado um "inside day".
Muita coisa para se acostumar, já que você veio de uma terra onde todo dia é dia de brincar lá fora. Ao invés de ficar de longe comparando e reclamando, você já avisa à professora que voltará sempre que tiver uma folga. Caso ainda esteja insatisfeita no final do ano letivo, tentará a escola particular religiosa no ano que vem, mas não vai ser por falta de participação da família.
A decepção começa quando você descobre no ano anterior que não há vaga garantida na escola mais próxima de casa, continua em abril quando na reunião a diretora diz que não há espaço físico para a sala de aula do "kindergarten", nem professor contratado para as aulas em setembro.
No primeiro dia de aula, em plena "job action", a nova sala de aula está construída, mas ainda há poeira da obra no chão. Durante o mês inteiro, você fica ansiosa por ver livros, cadernos, agenda, uma folha de papel que dê alguma luz sobre o que vai ser ensinado a cada semana, na tentativa de ajudar a criança em casa. Chegam vinte e sete folhetos sobre dia da pizza, dia do sanduíche, dia da foto, Terry Fox Run, mas nada sobre conteúdo escolar.
Então, você engole sua decepção para não estragar a boa impressão que quer que seu filho tenha da escola e oferece à professora para passar uma manhã na sala de aula, como voluntária.
É tudo muito diferente das escolas em que você estudou na infância! As crianças não tem uniforme, nem todas chegam no horário, algumas aparecem com o cabelo da mesma forma que estava ao acordarem, ainda amassado pelo travesseiro. Como o "kindergarten" é o primeiro ano escolar obrigatório, muitas crianças nunca frequentaram um ambiente escolar e algumas ainda sofrem de ansiedade de separação, chorando agarradas às pernas da mãe (ou do pai) na entrada.
Numa terra fria e chuvosa, é preciso trocar de sapatos ao entrar na sala de aula e cada criança tem seu lugar de pendurar capas de chuva, toucas e casacos, além dos sapatos para usar somente do lado de dentro.
Em duas horas, você lê um livro para as crianças, acompanha calada a professora ensinando às crianças que "Flávia" tem 3 sílabas e perguntando num cochicho que letras vem depois do V no seu nome, para ensinar aos alunos como se escreve (quem manda ter um nome tão exótico?). Também tenta inutilmente grampear uns livretos com um grampeador quebrado e dobra algumas folhas de papel. Fica muito feliz ao ajudar uma garotinha com algum transtorno do desenvolvimento a completar sua tarefa, numa mesa separada das demais crianças. Descobre que, incrivelmente, seu filho não é o único tagarela da classe e talvez até dispute o segundo lugar na turma. Não se espanta quando descobre que aquele menino cujo nome seu filho sempre cita como o do seu melhor amigo é, na verdade, o mais irrequieto da classe.
Você fica feliz ao encontrar tantos livros na sala de aula, surpresa ao ver tantos brinquedos, satisfeita ao descobrir que os alunos do último ano aparecem todas as manhãs para ajudar os pequenos a vestirem seus casacos e calçarem suas botas antes de saírem para o recreio. "It's an outside day", avisa a voz no interfone imediatamente antes do intervalo. Se com esta chuva toda o aviso é este, você se pergunta que altura de neve é necessária para que seja decretado um "inside day".
Muita coisa para se acostumar, já que você veio de uma terra onde todo dia é dia de brincar lá fora. Ao invés de ficar de longe comparando e reclamando, você já avisa à professora que voltará sempre que tiver uma folga. Caso ainda esteja insatisfeita no final do ano letivo, tentará a escola particular religiosa no ano que vem, mas não vai ser por falta de participação da família.
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21 dezembro, 2009
I want a hippopotamus for Christmas
Este ano, não tem Santa Claus is Coming to Town, nem "Feliz Navidad" sendo cantarolado ou assoviado pelas pessoas nas ruas. Claro, as lojas insistem nas mesmas músicas natalinas de sempre, mas o que não sai da cabeça (e da boca) do povo aqui em Vancouver (euzinha incluída) é a música do hipopótamo, do comercial da companhia telefônica. E, ao contrário do que diz o slogan, pelo jeito, como diz o Pacotinho de Troca-Sílabas, todos queremos um "pitapótamo" para o Natal.
27 março, 2009
Spring Cleaning

Quando você morava no Brasil, convivia com duas estações por ano (cá para nós, quem precisa de quatro?) e dispunha da mordomia de empregada doméstica e faxineira, nunca tinha ouvido falar em "Spring cleaning". Como assim uma faxina especial porque é primavera? Para os que não conhecem, eles explicam até como lavar o vaso do banheiro aqui (é diferente da lavagem do resto do ano? Não quero saber a resposta). Gente, se fosse uma faxina só por estação, acho que até eu encararia! Claro que é força de expressão, uma por ano é minha cota de sacrifício penitencial e, se eu fizesse uma por semestre, já teria direito a uma vaga VIP no Spa Celestial da Vida Eterna.
Em teoria, é hora de limpar e guardar os casacos pesados, as botas de chuva e tirar do baú, do depósito ou de debaixo da cama as roupas mais leves. Na prática, se você cometer tal insensatez, morrerá congelado na rua porque ainda haverá pelo menos mais dois meses de frio e chuva pela frente, isso se o verão começar cedo este ano. Mas não dá para negar que é uma boa desculpa para jogar fora medicamentos vencidos no armário do banheiro (como aquela caixa de Neosaldina trazida da terrinha e que venceu em Jul/05) e encontrar sandálias que você nem lembrava que tinha. Sim, aquelas sandálias que estavam baratinhas em outubro e que foram direto da loja para o armário sem nunca terem sido usadas, por que qual brasileira, em sã consciência, usa sandálias no outono canadense? Perder o desconto está fora de cogitação. Usar sandálias com meias é coisa de gringo e, para isso, devem ser
Birkenstocks, coisa que você nem cogita em comprar antes da aposentadoria.
Aqui "Spring cleaning" é uma instituição tradicional. As colegas de trabalho programam-se semanas antes para a faxina no dia de folga. "Fulana, você pode trocar o plantão do dia 4 de abril comigo? Tenho uma festa de aniversário." Ela olha o calendário e diz "não, vou fazer meu 'spring cleaning' neste dia". Elas trocam dicas e comentam orgulhosas na segunda-feira como passaram o final de semana com luvas de lona ajoelhadas no jardim, plantando hortênsias. Ainda mostram os calos nas mãos. Como isso é deprimente! Ao invés de comentarem sobre a nova manicure ou a ótima massagista, discutem se vinagre e bicarbonato são alternativas ecologicamente corretas e eficientes para tirar manchas do carpete. Você não entende xongas de faxina, sequer tem a pretensão de aprender nesta vida e tenta ler o jornal durante o almoço, para ninguém vir perguntar se você já levou o casaco para a lavanderia. O segredo é não manter contato visual. Mas sempre tem a colega intrometida que cutuca: "já viu aquela máquina de alta pressão para lavar a calçada?" Benditas Olimpíadas! Como atualmente o esporte preferido do vancouverite é falar mal de alguma coisa relacionada aos jogos de 2010, assim que alguém ameaça puxar assunto de faxina de primavera, basta perguntar "como você virá para o trabalho durante as olimpíadas?" que logo os outros presentes entram irritados no assunto. E ninguém mais quer saber se seu quartinho de entulhos foi devidamente esvaziado e limpo (claro que não foi, tem primavera todo ano, para que tanta pressa?)
15 maio, 2008
Telefone Sem Fio com o Médico
Se você é do tipo que faz um monte de exames anuais "porque o convênio cobre", faz uma ecografia por mês quando está grávida, marca o dia da cesárea para coincidir com a data em que a sogra chega de viagem (ou vai embora, dependendo da sogra), este texto é para você. Se você é daqueles que vai a um neurologista quando tem uma dor de cabeça mais forte, consulta um ortopedista e um fisioterapeuta especializado em RPG para sua tendinite ou marca hora com o dermatologista maravilhoso que sua amiga indicou quando aparece uma manchinha de sol depois do feriado em Sauípe, precisa mesmo ler isso. Se você é mãe e leva o neném saudável todo mês para ser pesado pelo pediatra e sabe de cor o telefone deste último coitado, para que ele possa ser atualizado sobre as diferentes cores e texturas do cocozinho do seu filhinho (cocô verde, cocô preto-esverdeado, cocô arco-íris, cocô a prazo, cocô a prestação, cocô ausente, cocô urgente, cocô a cada mamada - não se pode nunca esgotar todo o repertório das mães quando o assunto é bolo fecal), pede um hemograma completo e exame de fezes (por que a obsessão por cocô?) com 1 ano de idade, faz questão de vermífugo todo ano, faça um favor a si mesma: não pense em imigrar para o Canadá. Seu convênio no Brasil corre o risco de apresentar superfaturamento com sua saída do plano e você levará uma vida infeliz aqui.
Numa terra onde o povo vai ao médico de família (aquele que trata de espinhela caída, bucho virado, gravidez, bebê, idoso, gota serena) somente quando está doente, não há lugar para hipocondríacos. Sabe aquele esquema dos laboratórios do Terceiro Mundo, que oferecem cafezinho e pão de queijo na saída do exame? E aquele melhor ainda, que dá a senha para você mesmo conferir o resultado dos exames pela internet? Só em países subdesenvolvidos, aqui no Primeiro Mundo não tem disso não.
Então, hipoteticamente, você mora aqui e descobre que tem um caroço na tireóide. Faz uma cirurgia para tirar o troço e fica sabendo que precisa fazer uma dosagem de hormônios dois meses após ter entrado na faca. Sai do consultório com o pedido, marca no calendário (supondo que você seja meio esquecido) a data e vai, sem um dia de atraso, entregar o braço aos vampiros do laboratório mais próximo. Já conhecedor do sistema, nem espera ficar ciente do resultado. A secretária do médico ligará se houver alterações, caso contrário, somente os chatérrimos do telemarketing ligarão para você. Duas semanas depois, você recebe um recado na secretária eletrônica. "É a Carol, do consultório do Dr. I. Ele está na dúvida se precisa fazer um pedido para sua dosagem de hormônios para acompanhamento ou se seu médico de família vai pedir. Entre em contato". Você hipoteticamente é do signo de Capricórnio e é pragmático por natureza, meio pessimista, mas nada ansioso, com os pés firmemente presos à terra. Então, avisa à sua cara-metade que ligaram do médico e que será necessário outro teste, já que houve alteração no seu. Sua cara-metade (suposição, 'tá, gente?) é uma pessoa leonina otimista, mas apavoradinha.
- Ai, meu Deus, deu alterado quanto?
- Ela não falou.
- Como assim não falou?
- Em que país você esteve vivendo estes anos todos? Aqui é assim, ligam e falam que está ruim, mas não falam quanto. Só o médico pode falar detalhes.
- O que isso significa? É grave?
- Não sei, nem vou me estressar, não sofro por antecipação. Amanhã fico sabendo.
- Ai, como é que a gente dorme com uma notícia assim?
- Você, não sei. Eu vou dormir depois de descobrir quem vai ser eliminado do American Idol esta semana.
No dia seguinte, você passa no médico. A tal Carol, para ser classificada como "anta", ainda precisa evoluir muito na escala de inteligência, que ela está mais para um protozário. Ela não sabia que você já tinha feito o exame, havia ligado para saber se você tinha a requisição do PRIMEIRO exame, mas diante da "novidade", olha a tela do computador e decreta: está normal. Só precisa fazer outro daqui um ano, não precisa tomar hormônio nenhum.
Imagina se você é um dos hipocondríacos ansiosos dependentes dos resultados de exames pela internet? Teria tido um piripaque antes de descobrir que estava com a saúde perfeita!
Numa terra onde o povo vai ao médico de família (aquele que trata de espinhela caída, bucho virado, gravidez, bebê, idoso, gota serena) somente quando está doente, não há lugar para hipocondríacos. Sabe aquele esquema dos laboratórios do Terceiro Mundo, que oferecem cafezinho e pão de queijo na saída do exame? E aquele melhor ainda, que dá a senha para você mesmo conferir o resultado dos exames pela internet? Só em países subdesenvolvidos, aqui no Primeiro Mundo não tem disso não.
Então, hipoteticamente, você mora aqui e descobre que tem um caroço na tireóide. Faz uma cirurgia para tirar o troço e fica sabendo que precisa fazer uma dosagem de hormônios dois meses após ter entrado na faca. Sai do consultório com o pedido, marca no calendário (supondo que você seja meio esquecido) a data e vai, sem um dia de atraso, entregar o braço aos vampiros do laboratório mais próximo. Já conhecedor do sistema, nem espera ficar ciente do resultado. A secretária do médico ligará se houver alterações, caso contrário, somente os chatérrimos do telemarketing ligarão para você. Duas semanas depois, você recebe um recado na secretária eletrônica. "É a Carol, do consultório do Dr. I. Ele está na dúvida se precisa fazer um pedido para sua dosagem de hormônios para acompanhamento ou se seu médico de família vai pedir. Entre em contato". Você hipoteticamente é do signo de Capricórnio e é pragmático por natureza, meio pessimista, mas nada ansioso, com os pés firmemente presos à terra. Então, avisa à sua cara-metade que ligaram do médico e que será necessário outro teste, já que houve alteração no seu. Sua cara-metade (suposição, 'tá, gente?) é uma pessoa leonina otimista, mas apavoradinha.
- Ai, meu Deus, deu alterado quanto?
- Ela não falou.
- Como assim não falou?
- Em que país você esteve vivendo estes anos todos? Aqui é assim, ligam e falam que está ruim, mas não falam quanto. Só o médico pode falar detalhes.
- O que isso significa? É grave?
- Não sei, nem vou me estressar, não sofro por antecipação. Amanhã fico sabendo.
- Ai, como é que a gente dorme com uma notícia assim?
- Você, não sei. Eu vou dormir depois de descobrir quem vai ser eliminado do American Idol esta semana.
No dia seguinte, você passa no médico. A tal Carol, para ser classificada como "anta", ainda precisa evoluir muito na escala de inteligência, que ela está mais para um protozário. Ela não sabia que você já tinha feito o exame, havia ligado para saber se você tinha a requisição do PRIMEIRO exame, mas diante da "novidade", olha a tela do computador e decreta: está normal. Só precisa fazer outro daqui um ano, não precisa tomar hormônio nenhum.
Imagina se você é um dos hipocondríacos ansiosos dependentes dos resultados de exames pela internet? Teria tido um piripaque antes de descobrir que estava com a saúde perfeita!
02 março, 2008
Três aniversários em abril
No final de abril completo oito anos morando em Vancouver, mas antes disso, no começo do mês, completo sete anos trabalhando no mesmo hospital e cinco anos trabalhando no centro cirúrgico.
Para quem morou 25 anos no mesmo apartamento em Brasília, oito anos na mesma cidade não são nada. Só que eu nunca tinha trabalhando tanto tempo num mesmo emprego, que dirá cinco anos no mesmo setor ! Devo ser uma das brasileiras que menos muda de casa e de trabalho por aqui, o que chega a ser irônico, já que não tenho medo de mudanças.
Se eu fosse entrevistada no programa da Oprah, já teria a resposta para várias perguntas:
Foi difícil conseguir validar o diploma de enfermeira no Canadá ?
É muita burocracia, o processo todo levou mais de um ano, mas atualmente anda mais rápido. A prova de enfermagem do CRNBC foi "diferente". Era múltipla escolha, como as provas brasileiras, mas com uns temas escalafobéticos, tipo:
Sua colega chega para o plantão visivelmente embrigada. Qual a sua atitude ?
a- Avisa a supervisora
b- Aborda a colega primeiro, depois avisa a supervisora
c- Aborda a colega e combina de encarregar-se dos pacientes dela
d- Manda a colega de volta para casa
e- Conversa com uma terceira colega e pede a opinião dela
Sério, era tanta pergunta sobre colegas drogadas ou que furtavam narcóticos do armário que no primeiro dia de serviço eu fiquei imaginando que o problema de abuso de drogas era seríssimo entre os enfermeiros canadenses. Ficava imaginando qual deles chegaria bêbado ao plantão. E na prova nunca havia a alternativa "pede para a colega liberar o baseado e tudo fica por isso mesmo". Na prática, eu só soube de um caso de furto de narcótico no meu antigo setor, anterior à minha chegada.
Qual foi a maior dificuldade do começo ?
Eu recebi o resultado da prova numa sexta-feira e comecei a trabalhar na segunda seguinte. Não fiz nenhum curso específico por aqui (estudei para a prova sozinha, com um manual próprio vendido pela Associação de Enfermagem local), então fiquei meio perdida no primeiro mês de trabalho. Eita mania norte-americana de dizer tudo em abreviações ! Era um tal de soro TKVO ("to keep the vein open"), NPO (nada por via oral), appy (apendicectomia) e STAT (imediatamente), mas eu fazia cara de paisagem e logo fui aprendendo. Falei que CABG é ponte de safena ou mamária, mas eles pronunciam "cabbage" (repolho) ? "Mr. Fulano had a cabbage" (tem gosto pra tudo mesmo, até para comer repolho na sala de cirurgia)..
O sotaque dos canadenses é super fácil de entender, mas lembro do dia em que um colega australiano veio me perguntar se eu tinha as "cais for the mids" e, depois de 4 tentativas "pardon ? What did you say ?", avisei que sem legenda não dava. Perguntei ao colega filipino de que diabos o "aussie" falava e descobri que era "keys for the meds" ("meds" é "medications", o que eu já sabia, mas falar "mids" e ainda chamar "keys" de cais, fala sério !). Achei estranhíssimo também chamar os pacientes de Mr. Sobrenome. Para completar, caí de cara no setor com fama de ter a equipe mais mal humorada do hospital, com 90% de enfermeiros fumantes e estressados (depois do primeiro dia, comprovei que a fama era merecida e após 6 meses, mudei para um andar pesadíssimo, mas com uma equipe maravilhosa, onde fiz grandes amizades).
Tive (e ainda tenho) muita dificuldade em lidar com os pacientes moradores de rua e viciados em drogas (aqui as duas características costumam andar juntas), bem comuns no meu hospital. É uma limitação minha ter pouca tolerância com imundície, palavrões e insultos gratuitos. Frescura mesmo. Talvez seja por isso que eu adore o centro cirúrgico: lá eles chegam, dormem e quando acordam e começam a perturbar, já é hora de levá-los para a sala de recuperação.
Quais são os pontos positivos de trabalhar num hospital público em Vancouver ?
A maior vantagem é que, para trabalhar em feriados, a gente ganha em dobro (se for Sexta-Feira da Paixão, dia de Natal e dia do trabalho, pagam duas vezes e meia). No Brasil, ninguém queria trabalhar em feriados e aqui a briga é para ver quem fica de plantão. Hora extra é paga em dobro também para quem trabalha 12 horas seguidas e 1,5a hora normal para quem trabalha 8 horas (a partir de 2 horas extras, é sempre o dobro). Nunca me senti explorada. Antes de ter filho, até mesmo durante a gravidez, ganhei uma grana boa com horas extras.
Outra vantagem é que o hospital paga pelos cursos de especialização, livros inclusive e pelo salário durante a duração do curso (claro que fiz 6 meses de curso quando eles decidiram que só pagariam 60% do salário e que a regra mudou assim que recebi o diploma).
A variedade cultural é imensa no ambiente de trabalho. Nunca senti qualquer tipo de discriminação por ser brasileira ou ter concluído o curso de enfermagem fora daqui. Pelo contrário, ganho um adicional no salário (merreca, mas está lá) por ter curso superior (a esmagadora maioria das enfermeiras locais não tem). No meu atual setor, a equipe é unida e toda sexta-feira a turma sai para tomar umas. As festas de Natal são imperdíveis.
O sindicato dos enfermeiros é poderoso. O aumento de salário é anual e há estabilidade no emprego.
A escala de trabalho é divulgada bem antes do que a que eu tinha no Brasil. No meu antigo setor, em janeiro já era divulgada a escala de plantões do ano inteiro. No centro cirúrgico, a chefe libera com 6 semanas de antecedência. Se mudarem o plantão com menos de 48 horas de aviso, pagam hora extra.
O hospital exige de todos os enfermeiros um curso de segurança no trabalho que é dado todo ano e um treinamento de CPR (cardio-pulmonary ressuscitation), que é oferecido a cada dois anos. Ambos gratuitos.
Não há obrigatoriedade de usar roupa branca. Trabalhei numa rede de hospitais públicos excelentes no Brasil, mas com um vestidinho branco apertado (bem elegante para as magrinhas, por sinal) incompatível com o tipo de serviço braçal que a profissão às vezes exige. Se já inventaram uniforme melhor para enfermeira que tênis e "scrubs", aquele pijama à la Grey's Anatomy (com a calça cargo, cheia de bolsos para as canetas e o estetoscópio), eu não conheço. Acho que inverti a ordem: a roupa é a maior vantagem !
As chorumelas ficam para outro "post", que existem desvantagens sim, mas no geral, eu adoro meu trabalho. Como paciente, enxergo muitos problemas no sistema daqui, mas como enfermeira, acho muito justo. Gente, como se diz "post" em português ?
Para quem morou 25 anos no mesmo apartamento em Brasília, oito anos na mesma cidade não são nada. Só que eu nunca tinha trabalhando tanto tempo num mesmo emprego, que dirá cinco anos no mesmo setor ! Devo ser uma das brasileiras que menos muda de casa e de trabalho por aqui, o que chega a ser irônico, já que não tenho medo de mudanças.
Se eu fosse entrevistada no programa da Oprah, já teria a resposta para várias perguntas:
Foi difícil conseguir validar o diploma de enfermeira no Canadá ?
É muita burocracia, o processo todo levou mais de um ano, mas atualmente anda mais rápido. A prova de enfermagem do CRNBC foi "diferente". Era múltipla escolha, como as provas brasileiras, mas com uns temas escalafobéticos, tipo:
Sua colega chega para o plantão visivelmente embrigada. Qual a sua atitude ?
a- Avisa a supervisora
b- Aborda a colega primeiro, depois avisa a supervisora
c- Aborda a colega e combina de encarregar-se dos pacientes dela
d- Manda a colega de volta para casa
e- Conversa com uma terceira colega e pede a opinião dela
Sério, era tanta pergunta sobre colegas drogadas ou que furtavam narcóticos do armário que no primeiro dia de serviço eu fiquei imaginando que o problema de abuso de drogas era seríssimo entre os enfermeiros canadenses. Ficava imaginando qual deles chegaria bêbado ao plantão. E na prova nunca havia a alternativa "pede para a colega liberar o baseado e tudo fica por isso mesmo". Na prática, eu só soube de um caso de furto de narcótico no meu antigo setor, anterior à minha chegada.
Qual foi a maior dificuldade do começo ?
Eu recebi o resultado da prova numa sexta-feira e comecei a trabalhar na segunda seguinte. Não fiz nenhum curso específico por aqui (estudei para a prova sozinha, com um manual próprio vendido pela Associação de Enfermagem local), então fiquei meio perdida no primeiro mês de trabalho. Eita mania norte-americana de dizer tudo em abreviações ! Era um tal de soro TKVO ("to keep the vein open"), NPO (nada por via oral), appy (apendicectomia) e STAT (imediatamente), mas eu fazia cara de paisagem e logo fui aprendendo. Falei que CABG é ponte de safena ou mamária, mas eles pronunciam "cabbage" (repolho) ? "Mr. Fulano had a cabbage" (tem gosto pra tudo mesmo, até para comer repolho na sala de cirurgia)..
O sotaque dos canadenses é super fácil de entender, mas lembro do dia em que um colega australiano veio me perguntar se eu tinha as "cais for the mids" e, depois de 4 tentativas "pardon ? What did you say ?", avisei que sem legenda não dava. Perguntei ao colega filipino de que diabos o "aussie" falava e descobri que era "keys for the meds" ("meds" é "medications", o que eu já sabia, mas falar "mids" e ainda chamar "keys" de cais, fala sério !). Achei estranhíssimo também chamar os pacientes de Mr. Sobrenome. Para completar, caí de cara no setor com fama de ter a equipe mais mal humorada do hospital, com 90% de enfermeiros fumantes e estressados (depois do primeiro dia, comprovei que a fama era merecida e após 6 meses, mudei para um andar pesadíssimo, mas com uma equipe maravilhosa, onde fiz grandes amizades).
Tive (e ainda tenho) muita dificuldade em lidar com os pacientes moradores de rua e viciados em drogas (aqui as duas características costumam andar juntas), bem comuns no meu hospital. É uma limitação minha ter pouca tolerância com imundície, palavrões e insultos gratuitos. Frescura mesmo. Talvez seja por isso que eu adore o centro cirúrgico: lá eles chegam, dormem e quando acordam e começam a perturbar, já é hora de levá-los para a sala de recuperação.
Quais são os pontos positivos de trabalhar num hospital público em Vancouver ?
A maior vantagem é que, para trabalhar em feriados, a gente ganha em dobro (se for Sexta-Feira da Paixão, dia de Natal e dia do trabalho, pagam duas vezes e meia). No Brasil, ninguém queria trabalhar em feriados e aqui a briga é para ver quem fica de plantão. Hora extra é paga em dobro também para quem trabalha 12 horas seguidas e 1,5a hora normal para quem trabalha 8 horas (a partir de 2 horas extras, é sempre o dobro). Nunca me senti explorada. Antes de ter filho, até mesmo durante a gravidez, ganhei uma grana boa com horas extras.
Outra vantagem é que o hospital paga pelos cursos de especialização, livros inclusive e pelo salário durante a duração do curso (claro que fiz 6 meses de curso quando eles decidiram que só pagariam 60% do salário e que a regra mudou assim que recebi o diploma).
A variedade cultural é imensa no ambiente de trabalho. Nunca senti qualquer tipo de discriminação por ser brasileira ou ter concluído o curso de enfermagem fora daqui. Pelo contrário, ganho um adicional no salário (merreca, mas está lá) por ter curso superior (a esmagadora maioria das enfermeiras locais não tem). No meu atual setor, a equipe é unida e toda sexta-feira a turma sai para tomar umas. As festas de Natal são imperdíveis.
O sindicato dos enfermeiros é poderoso. O aumento de salário é anual e há estabilidade no emprego.
A escala de trabalho é divulgada bem antes do que a que eu tinha no Brasil. No meu antigo setor, em janeiro já era divulgada a escala de plantões do ano inteiro. No centro cirúrgico, a chefe libera com 6 semanas de antecedência. Se mudarem o plantão com menos de 48 horas de aviso, pagam hora extra.
O hospital exige de todos os enfermeiros um curso de segurança no trabalho que é dado todo ano e um treinamento de CPR (cardio-pulmonary ressuscitation), que é oferecido a cada dois anos. Ambos gratuitos.
Não há obrigatoriedade de usar roupa branca. Trabalhei numa rede de hospitais públicos excelentes no Brasil, mas com um vestidinho branco apertado (bem elegante para as magrinhas, por sinal) incompatível com o tipo de serviço braçal que a profissão às vezes exige. Se já inventaram uniforme melhor para enfermeira que tênis e "scrubs", aquele pijama à la Grey's Anatomy (com a calça cargo, cheia de bolsos para as canetas e o estetoscópio), eu não conheço. Acho que inverti a ordem: a roupa é a maior vantagem !
As chorumelas ficam para outro "post", que existem desvantagens sim, mas no geral, eu adoro meu trabalho. Como paciente, enxergo muitos problemas no sistema daqui, mas como enfermeira, acho muito justo. Gente, como se diz "post" em português ?
04 dezembro, 2007
Procurando Sarna Para Parar de Se Coçar
Oficialmente, o inverno só começa no hemisfério norte dia 21 de dezembro. Na prática, São Pedro ignora isso solenemente e todo ano manda o frio dar as caras antes do Halloween. E, como não poderia deixar de ser nestas bandas quase árticas, com o frio chegam as "delícias" da estação:
- cabelos arrepiados (é tirar o gorro e deparar-se com o Einstein no espelho);
- choques ao encostar no carro (ou outros metais);
- acidentes de carro provocados pelo gelo e por aqueles que não sabem dirigir sobre ele (êta turma tropical barbeira que não aprendeu a dirigir sobre a neve no Rio de Janeiro);
- crianças catarrentas, variando entre o tipo que faz bolhas de meleca pelo nariz quando expira ou o que coleciona crostas de catarro seco nas narinas e nas bochechas, onde foram parar depois de um adulto tentar limpar o que era gosma e agora é casquinha;
- coceira absurda na pele ressecada.
Eu sei que parece uma incoerência uma pessoa como eu, criada em Brasília, naquela seca violenta de maio a setembro, vir reclamar dos efeitos da secura no inverno em Raincouver. Logo alguém que cresceu passando manteiga de cacau nos lábios antes de dormir e pendurando uma toalha molhada na cabeceira da cama (hábitos muito úteis no inverno canadense). Mas não chove 300 dias por ano ? É que os aquecedores ligados dia e noite (sim, o Iglu tem temperaturas tropicais do lado de dentro, de janeiro a dezembro, doa a conta de energia no bolso de quem doer) ressecam muito o ar.
Incoerência mesmo são os cremes comercializados para acabar com a "winter itch" (diga se não parece coisa da turma do Casseta):


E depois de me coçar toda e tentar os hidratantes normais, lá vou eu amanhã à farmácia procurar Sarna para parar de me coçar. Eu sei o que você está pensando: "me amarrota que estou passada ! Com tanto nome de creme, vão colocar justamente 'Sarna' no creme hidratante ! E tem gente que compra !"
Nunca diga "esta sarna eu não quero na minha pele"...
- cabelos arrepiados (é tirar o gorro e deparar-se com o Einstein no espelho);
- choques ao encostar no carro (ou outros metais);
- acidentes de carro provocados pelo gelo e por aqueles que não sabem dirigir sobre ele (êta turma tropical barbeira que não aprendeu a dirigir sobre a neve no Rio de Janeiro);
- crianças catarrentas, variando entre o tipo que faz bolhas de meleca pelo nariz quando expira ou o que coleciona crostas de catarro seco nas narinas e nas bochechas, onde foram parar depois de um adulto tentar limpar o que era gosma e agora é casquinha;
- coceira absurda na pele ressecada.
Eu sei que parece uma incoerência uma pessoa como eu, criada em Brasília, naquela seca violenta de maio a setembro, vir reclamar dos efeitos da secura no inverno em Raincouver. Logo alguém que cresceu passando manteiga de cacau nos lábios antes de dormir e pendurando uma toalha molhada na cabeceira da cama (hábitos muito úteis no inverno canadense). Mas não chove 300 dias por ano ? É que os aquecedores ligados dia e noite (sim, o Iglu tem temperaturas tropicais do lado de dentro, de janeiro a dezembro, doa a conta de energia no bolso de quem doer) ressecam muito o ar.
Incoerência mesmo são os cremes comercializados para acabar com a "winter itch" (diga se não parece coisa da turma do Casseta):


E depois de me coçar toda e tentar os hidratantes normais, lá vou eu amanhã à farmácia procurar Sarna para parar de me coçar. Eu sei o que você está pensando: "me amarrota que estou passada ! Com tanto nome de creme, vão colocar justamente 'Sarna' no creme hidratante ! E tem gente que compra !"
Nunca diga "esta sarna eu não quero na minha pele"...
03 dezembro, 2007
Endereço do Papai Noel
O Natal está chegando ! E, mesmo que o verdadeiro espírito natalino não esteja assim tão presente nessas bandas congeladas, o comércio típico da época já está todo preparado há muito tempo. Como no Canadá comemora-se o Thanksgiving em outubro, depois do Halloween a decoração das lojas já é a natalina. Nos Estados Unidos eles só enfeitam tudo depois do Thanksgiving deles, em novembro.
A gente aqui escuta os clássicos Rudolph, The Red-nosed Reindeer e Feliz Navidad de 1 de novembro até o final de dezembro. Em novembro é até legal relembrar as músicas, mas
faltando 2 semanas para o Natal, a galera canadense já está prestes a dar um tiro no sistema de som das lojas, tentando assim dar um descanso aos ouvidos daquela dúzia de musiquinhas repetitivas. Duvido que alguém ouse ligar um CD desses durante a ceia de Natal ! Existe um limite de vezes que alguém pode ouvir o John Lennon cantando And So This is Christmas e garanto que é um número menor que 300. Quem, como eu, trabalha com o rádio ligado, deve saber do que estou falando. E nem venha me dizer que poderia ser pior, com o CD da Simone cantando umas versões esquisitas dos originais em inglês, que aqui tem a Celine Dion azucrinando também. E como ainda é o começo do mês, ainda não estou enjoada de nenhuma delas e encararia até a Simone e a Celine num dueto !
Uma coisa muito legal no Natal canadense são as cartas escritas ao
Papai Noel, que são todas respondidas. O CEP aqui é sempre uma letra-um número-uma letra-um número-uma letra um número e o do Papai Noel, como não poderia deixar de ser é HO H0 HO. Então, envie sua cartinha para
Santa Claus
North Pole
HO HO HO
O comercial na TV diz que, se você é uma criança no Canadá, pode contar com 3 coisas em dezembro:
- vai fazer frio;
- se nevar muito, sua escola vai fechar por uns dias;
- o Papai Noel vai responder a sua carta.
Já mandou a sua ?
P.S.: 1- Uma informação altamente relevante para os costumes natalinos daqui é que "reindeer" não tem plural. "One reindeer, two reindeer".
2- No início da música do Rudolph, falam o nome de todas as renas do Papai Noel, outra informação importantíssima.
A gente aqui escuta os clássicos Rudolph, The Red-nosed Reindeer e Feliz Navidad de 1 de novembro até o final de dezembro. Em novembro é até legal relembrar as músicas, mas
faltando 2 semanas para o Natal, a galera canadense já está prestes a dar um tiro no sistema de som das lojas, tentando assim dar um descanso aos ouvidos daquela dúzia de musiquinhas repetitivas. Duvido que alguém ouse ligar um CD desses durante a ceia de Natal ! Existe um limite de vezes que alguém pode ouvir o John Lennon cantando And So This is Christmas e garanto que é um número menor que 300. Quem, como eu, trabalha com o rádio ligado, deve saber do que estou falando. E nem venha me dizer que poderia ser pior, com o CD da Simone cantando umas versões esquisitas dos originais em inglês, que aqui tem a Celine Dion azucrinando também. E como ainda é o começo do mês, ainda não estou enjoada de nenhuma delas e encararia até a Simone e a Celine num dueto !
Uma coisa muito legal no Natal canadense são as cartas escritas ao
Papai Noel, que são todas respondidas. O CEP aqui é sempre uma letra-um número-uma letra-um número-uma letra um número e o do Papai Noel, como não poderia deixar de ser é HO H0 HO. Então, envie sua cartinha para
Santa Claus
North Pole
HO HO HO
O comercial na TV diz que, se você é uma criança no Canadá, pode contar com 3 coisas em dezembro:
- vai fazer frio;
- se nevar muito, sua escola vai fechar por uns dias;
- o Papai Noel vai responder a sua carta.
Já mandou a sua ?
P.S.: 1- Uma informação altamente relevante para os costumes natalinos daqui é que "reindeer" não tem plural. "One reindeer, two reindeer".
2- No início da música do Rudolph, falam o nome de todas as renas do Papai Noel, outra informação importantíssima.
13 novembro, 2007
Remembrance Day
"Remembrance Day (Australia, Canada, United Kingdom), also known as Poppy Day (Malta, South Africa) or Armistice Day (France, New Zealand, and a number of other Commonwealth countries; and the original name of the day internationally) is a day to commemorate the sacrifices of members of the armed forces and of civilians in times of war, specifically since the First World War. It is observed on 11 November to recall the end of World War I on that date in 1918."
Wikipedia
Não, nem toda segunda-feira aqui é feriado, como perguntou a minha mãe ontem. Também nem toda primeira segunda-feira do mês é feriado, como entendeu a minha irmã. Aliás, quem me dera ! O Canadá está situado entre os países com menor número de feriados, de acordo com o Instituto do Marido Gringo (procurei na net e não encontrei a tal lista).
O feriado de ontem (que nem era a primeira segunda-feira do mês, por sinal) foi o do "Remembrance Day." No verão, até que há um feriado por mês aqui em BC: tem Victoria Day (na segunda-feira próxima ao dia 24 de maio), Canada Day (1 de julho), BC Day (primeira segunda-feira de agosto) e Labour Day (primeira segunda-feira de setembro).
E agora, feriado só no Natal e no Boxing Day (dia 26 de dezembro), que o pessoal aqui também trabalha nas segundas-feiras, viu ?
PS: Eu acho que deveríamos observar todas as datas importantes para as diversas culturas e poderia haver um Dia do Evangélico, Dia do Muçulmano, comemoração da travessia do Mar Vermelho, aniversário de Buda, início da greve de fome de Gandhi, libertação de Mandela, etc. E, mesmo com o inconveniente da creche, que não abre nos dias não-úteis (o Pai Cansado já determinou que creche deveria ser serviço essencial e ficar aberta 24 horas, em caso de necessidade), eu ganho o dobro para trabalhar em feriados e 2,5 a hora normal para trabalhar no Natal, Sexta-Feira da Paixão e Dia do Trabalho. A briga nos hospitais aqui é para ver quem NÃO vai folgar nos feriados.
Wikipedia
Não, nem toda segunda-feira aqui é feriado, como perguntou a minha mãe ontem. Também nem toda primeira segunda-feira do mês é feriado, como entendeu a minha irmã. Aliás, quem me dera ! O Canadá está situado entre os países com menor número de feriados, de acordo com o Instituto do Marido Gringo (procurei na net e não encontrei a tal lista).
O feriado de ontem (que nem era a primeira segunda-feira do mês, por sinal) foi o do "Remembrance Day." No verão, até que há um feriado por mês aqui em BC: tem Victoria Day (na segunda-feira próxima ao dia 24 de maio), Canada Day (1 de julho), BC Day (primeira segunda-feira de agosto) e Labour Day (primeira segunda-feira de setembro).
E agora, feriado só no Natal e no Boxing Day (dia 26 de dezembro), que o pessoal aqui também trabalha nas segundas-feiras, viu ?
PS: Eu acho que deveríamos observar todas as datas importantes para as diversas culturas e poderia haver um Dia do Evangélico, Dia do Muçulmano, comemoração da travessia do Mar Vermelho, aniversário de Buda, início da greve de fome de Gandhi, libertação de Mandela, etc. E, mesmo com o inconveniente da creche, que não abre nos dias não-úteis (o Pai Cansado já determinou que creche deveria ser serviço essencial e ficar aberta 24 horas, em caso de necessidade), eu ganho o dobro para trabalhar em feriados e 2,5 a hora normal para trabalhar no Natal, Sexta-Feira da Paixão e Dia do Trabalho. A briga nos hospitais aqui é para ver quem NÃO vai folgar nos feriados.
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