"Os pais que têm filhos cordatos, mansos e sempre calmos merecem parabéns. Mas os grandes elogios ficam para os pais das crianças contestadoras, desafiadoras, que sempre sabem o que querem. Estes últimos é que fazem um grande trabalho de educação."
(Dr. Harvey Karp - The Happiest Toddler on The Block)
Como vários pais que jamais levantaram a mão para os filhos podem testemunhar (meu pai inclusive), existem muitas maneiras construtivas de educar uma criança.
A meu ver, um grande problema de criar filhos é que não é necessário aprendizado algum para ser pai e mãe. É preciso estudar para tornar-se professora, exige-se curso para casar na Igreja, mas para educar uma criança, muita gente não lê nem pesquisa nada. Repete os mesmos erros dos pais, esquecendo que é preciso evoluir sempre.
Já que você gosta de ler e de estar informada, recomendo o excelente pediatra Dr. Harvey Karp, com o livro e o DVD
"The Happiest Toddler on The Block", que em português foi traduzido como "A Criança Mais Feliz do Pedaço". Centenas de dicas sobre como lidar com birras, teimosia, escândalos na hora de dormir, xixi na cama, ciúme dos irmãos e mais um monte de situações comuns entre 18 meses e 4 anos, sem palmadas. Outro maravilhoso pediatra na mesma linha é o
Dr. Sears, que criou 8 filhos bem sucedidos sem palmadas. Um livro fantástico é
Besame Mucho, do pediatra Carlos Gonzalez, que assina também outro absolutamente essencial chamado
"Meu Filho Não Come". Se você está no Orkut, sugiro as comunidades "Crescendo Sem Palmadas" e "Pediatria Radical", com dicas, testemunhos e experiências.
Os pais da nossa geração que batiam nos filhos faziam o que achavam melhor, com o conhecimento que tinham. Também colocavam as crianças no banco da frente do carro, sem cinto de segurança. Muitas mães introduziam leite de vaca com açúcar aos 3 meses de vida do filho, outras acreditavam que tinham "leite fraco" e nem tentavam amamentar. Praticamente todas as grávidas consumiam álcool em alguma quantidade durante a gestação. Era comum fumar dentro de casa, na presença dos bebês. Hoje em dia, com a informação que temos, nada disso é admissível. O argumento "mas eu não tinha cadeirinha de carro quando criança e não fiquei tetraplégica" não justifica expor os filhos a tal risco, concorda ?
A geração dos meus avós achava normal uma professora bater nos alunos que não se comportavam em sala de aula. Atualmente mesmo pais que são defensores de palmadas jamais admitiriam isso. Por sinal, é algo que eu não entendo "o filho é meu, então eu posso bater nele, ninguém mais pode" (?????). Defendem os filhos dos tapas dos outros, mas quem defende as crianças dos tapas dos próprios pais ?
Humilhações, comparações, rótulos depreciativos, na minha opinião, abalam muito mais a auto-estima de uma criança do que uma palmada no bumbum. Nem vou comentar de surras, porque tenho um profundo desprezo por quem se orgulha de ter a obediência dos filhos com pancada.
E eu pergunto a você, que acha que palmada funciona com crianças desafiadoras: o menino teima, leva uma palmada. E desafia novamente, leva outra. Se for uma criança como eu era, pode ser espancado que, se não for convencido racionalmente a mudar de comportamento, vai continuar teimando só para desafiar. Não é ruim que a criança saiba o que quer e tenha uma personalidade contestadora, mas é muito mais trabalhoso para os pais. É característica da infância e da adolescência testar os limites. Cabe aos pais saber como ensiná-los. E dar palmadas até quando ? Até o filho ficar maior que os pais e ser capaz de revidar ?
Tenho uma amiga de infância que levava surras homéricas quando criança. Para minha tristeza, hoje ela diz que fará o mesmo com os filhos, já que não tem traumas. Só que eu me lembro bem dela, com uns 7-8 anos de idade, morrendo de medo de voltar para casa e apanhar do pai. Eu jamais quero sonhar que um filho meu tem ou teve medo de mim. Coincidência ou não, os adolescentes mais bem ajustados que eu conheço (aqueles tão nota 10 que qualquer um gostaria de ter) são filhos de um casal de amigos que também compartilha da filosofia de educar sem agredir. Até hoje, quase adultos, adoram viajar com os pais !
E quem se recorda de ter apanhado, mesmo que diga que não tenha traumas, certamente se lembra também de como se sentia pequeno, indefeso, humilhado naquele instante (ainda mais se acontecia na frente de estranhos). Mesmo quando achava que merecia, se é que existe isso. Quando as pessoas dizem sem "trauma", querem dizer que não guardam mágoa. Conheço muitas pessoas que levavam tapas na boca para calarem-se quando discordavam dos pais e, na vida adulta, têm dificuldade em expor uma opinião contrária no trabalho, sendo submissas a qualquer figura de autoridade (e dizem que não têm "trauma" !).
De coração, fico contente que você esteja aberta a conhecer novas alternativas de educar, antes de ter filhos. Muitas amigas que já eram mães criticavam o fato de eu ler tanto na gravidez, principalmente sobre o sono dos bebês. Eu estava tão bem preparada que nunca me senti uma mãe de primeira viagem, não tive as inseguranças típicas, nem vivi os sufocos tão comuns à maioria. E tenho orgulho de dizer que nunca deixei meu filho chorando para aprender a dormir sozinho (também outro "método educativo" muito propagado por aí).
Se Deus quiser, a geração dos nossos netos vai achar tão absurdo saber que os pais davam palmadas nos filhos tanto quanto achamos inaceitável que um estranho faça o mesmo.
P.S.: Só para constar, vivi as duas situações em casa e eu sempre soube qual exemplo iria seguir com meus filhos, para um relacionamento saudável e respeitoso.