31 agosto, 2007

O Canadá é mesmo bilíngüe ?

Você lembra que mora num país bilíngüe quando vai jogar o lixo fora e repara (pela primeira vez, depois de mais de dois anos morando no mesmo prédio) na placa na sala de lixo (nos dois prédios em que morei há sala de lixo, com vários baldões para coleta seletiva e um triturador gigantesco):



Respondendo à pergunta do título: sim, o Canadá é bilíngüe, só que a maioria esmagadora dos canadenses não é. Tirando a turma lá da costa leste que fala francês em alguns lugares específicos, a "massa" (num país gigante e pouco habitado com este, "massa" é licença poética) tem tanta dificuldade para ler uma frase em francês quanto eu tive para ler a versão chinesa da frase na placa (mandarim e cantonês são escritos exatamente da mesma forma, mas são línguas tão distintas entre si que a compreensão entre dois falantes de cada uma delas só acontece se um escrever um bilhete para o outro ou se eles tiverem legendas automáticas na camisa). Considerando que as traduções geralmente são quase 50% mais longas em francês que em inglês, não dá para culpá-los. Como diz um canadense amigo meu, "o problema é que em francês a ordem das palavras é sempre ao contrário, eles colocam adjetivos depois de substantivos e ainda tem aquela maluquice de palavras femininas ou masculinas. Quem determinou que 'table' é feminino ?". Preciso dizer que ele foi ao Brasil e não aprendeu xongas de português ?

PS: Marido Gringo Morando Há Oitocentos Anos em Vancouver veio colocar a foto no post e comentou: "para que colocar esta foto aí ? Não tem NADA de diferente na placa !"

30 agosto, 2007

Na Embaixada Americana

Hoje fui renovar meu visto americano. Antes que perguntem, preciso de visto porque depois de sete anos morando aqui, não sou cidadã canadense, até hoje nunca fiz questão de ser. Talvez se ficar muito difícil obter visto pros Estados Unidos, eu peça cidadania canadense, porque não vejo outra vantagem. O Marido Gringo diz que se eu cometesse um crime grave, sendo cidadã local, o governo não poderia me extraditar. Quando eu decidir cometer um crime hediondo, vou reconsiderar.

Anyways, o processo é bem mais simples por aqui do que lá em Brasília. Na terra onde não há despachante, por telefone (ligação cobrada em dólar americano), obtêm-se todas as informações. Uma pessoa pega os dados, abre o cadastro, dá a senha para imprimir os formulários pela internet e marca a entrevista, no caso foi em menos de uma semana. Amigável como só os americanos do Dept. de Imigração sabem ser, o rapaz ao telefone foi positivo: "não traga bebê, nem bolsa, nem garrafa, nem líquido, nem comida, nem aparelho eletrônico algum, nem metais, nem ARMAS, não traga nada que não seja a papelada pedida. Pode levar 20 minutos, como também pode levar 3 horas. Venha preparada para ficar o dia inteiro".

Apareci na porta do prédio às 08:50, para a entrevista às 09:00, sabiamente deixando meu fuzil em casa. O funcionário na entrada organizava as filas por horário com a gentileza de um boiadeiro tocando o gado para fora do curral. Aquela revista básica na porta, mas pelo menos não mandaram tirar os sapatos (eu, que com esta cara de terrorista, vivo sendo parada em tudo quanto é aeroporto e meu próprio marido acha que preciso obter cidadania canadense para não correr o risco de ser extraditada, fiquei surpresa). Numa hora dessas conclui-se que os sem noção estão por todos os cantos do planeta. O que tinha de indiano com carrinho de bebê (teve que voltar da porta, claro), com trocentas pulseiras de metal (também barradas), bolsas e sacolas imensas (liberadas, depois de esvaziadas para verificação do conteúdo)...

E aí sobe escadinha, passa por outra revista, pega senha, mostra documentos para um cara na recepção, pega mais uma fila, mostra outros documentos... Tão prático, lá mesmo preeche-se uma ficha com o número do cartão de crédito, para eles enviarem o passaporte pelo correio na semana seguinte.

Depois de preenchida a papelada final, um funcionário com cara de quem brincou com chocalho de cascavel na infância encaminha as pessoas para um elevador, usa a chave para apertar o vigésimo andar (nenhum botão funciona sem a chave) e diz "por favor, vão para o vigésimo andar". E tem outra alternativa ? Melhor ainda é ser revistada novamente assim que a porta do elevador abre-se no vigésimo andar. Sabe-se lá se já inventaram explosivos que podem ser montados rapidamente num elevador, melhor prevenir.

O sistema de senhas pareceu-me um tanto lusitano, sem querer ofender os portugueses. Após a minha senha, que era número 40, foram chamados os números 29 e 35. Na terra do Tio Sam, Murphy parece ter esquecido de mim. O normal seria eu ser o número 16 e começarem a chamar de trás para frente, sendo 400 o primeiro chamado e o expediente encerrar-se assim que chegarem perto do 20. Fizeram muitas perguntas aos chineses antes de mim, mas o cara foi tão simpático comigo ! Sequer implicou com o fato de meu sobrenome ser diferente no passaporte e no cartão de residente permanente. Sei não, algo me diz que semana que vem haverá uma greve dos correios ou o carteiro será morto por um cachorro enfurecido já aqui na porta do Iglu. Quando as coisas começam a dar muito certo pro meu lado, já fico suspeita... Tipo "as malas apareceram todas na esteira do aeroporto, então é sinal de que a reserva do hotel não foi confirmada".

28 agosto, 2007

Marte, Vênus e o Pacotinho de Travessuras

Domingo de tarde. Papai Atacado de Dor na Coluna largado no sofá. Mamãe Exausta tentando criar coragem para sair de casa e revelar umas fotos. O Pacotinho de Energia tocando o terror pela sala. E Mamãe suplica:

- Será que você pode ir comigo revelar as fotos ?
- Só se for caso de vida ou morte, que minha coluna está me matando.
- Eu posso ir sozinha e deixar esta criatura saltitante com você.
- Então eu vou também, que agora que ele aprendeu a subir na mesa, ninguém tem sossego.
- Você vê como são as coisas. Quando seu filho aqui era bebezinho, eu rodava a cidade inteira com ele pendurado no canguru, pegava o ônibus e ia passar o dia na casa de uma amiga em Squamish. Fui daqui até o Brasil sozinha com um bebê de 6 meses e ele não chorou nenhuma vez até Brasília. Passei uma semana em Fortaleza, dividindo um quarto com uma amiga e a filha dela, ele deu o mínimo de trabalho possível. Agora não tenho coragem de ir até a esquina revelar umas fotos com este bagunceiro aí. Cadê meu neném bonzinho ? Quem autorizou a substituição por este menino impossível ? Acho que vou trocá-lo por um recém-nascido, já que eu tirei de letra aquela fase.
- Mas ele é tão engraçadinho e tão bonitinho !
- Ah, isso ele é mesmo.
- É um mecanismo de sobrevivência.
- Hum ?
- Ser bonitinho e engraçadinho. Se um menino de 1 ano fosse feio e asqueroso, dando o trabalho que dá, os pais o abandonariam. Seria o fim da espécie humana.

27 agosto, 2007

Marte e Vênus - Versão Baby

Numa festa de aniversário de criança, é fácil identificar as mães das meninas das mães dos meninos. As primeiras são arrumadas, penteadas, cheirosas e falam baixinho. Você só as diferencia das convidadas sem filhos porque de vez em quando aparece uma garotinha com um vestido impecável, com uma pintura de borboleta na bochecha, perguntando se pode tirar o elástico do cabelo.

Você que não tem filhos ou tem uma princesinha olha de cara feia para aquele pestinha sem pintura alguma na bochecha (e ele fica quieto para isso ?) que está puxando o cabelo das meninas arrumadinhas e pergunta-se "quem é a mãe desta peça ?" Aí aparece uma descabelada, suada, com a blusa suja de marca de sapato, alternando os gritos entre o nome do rebento mal-educado e o do marido que não tomou conta dele e você tem um dos dois pensamentos "é esta aí. Coitada !" ou "ah, logo vi. Não dá limites para a criança, bem feito para ela, que tem este monstro".

E você observa a filha da sua amiga, de 2 anos, que passa um tempão entretida retirando as pedrinhas do jardim e colocando na calçada. Aí chega um clone do Taz, da mesma idade da menina, que imediatamente começa a arremessar as pedras nas pessoas. "E cadê a mãe dele, que não vê isso ?" Invariavelmente aparece outra descabelada, esbaforida, esgotada para tentar evitar que o menino cause algum dano permanente num convidado.

E quando você dizia que queria congelar seu filho antes de 6 meses de idade, praticamente todas as suas amigas cujos filhos já não eram mais bebês diziam que "ter filho fica mais divertido a cada ano que passa". Ou elas tinham só meninas ou sabiam a regra do videogame (a próxima fase é sempre mais difícil) e queriam sabotar a sua felicidade, com um bebê bonzinho, que já dormia a noite toda havia muito tempo. Depois que o neném começa a caminhar, acabou a diversão (e o sossego) da mãe em qualquer lugar que não seja a própria casa. Quem se diverte são outros: rindo da sua cara. Os adolescentes são piores, mas por enquanto você ainda pode rir da cara dos pais deles.

26 agosto, 2007

Um ano e dois meses de pura santidade

Esta semana o Pacotinho de Santidade chegou da creche com um galo roxo gigantesco na testa. A professora teve a cara-de-pau de me dizer que ele caiu do escorregador, enquanto tentava subir pela parte de descer, segurando um telefone de brinquedo. Ainda disse que tentou colocar gelo, mas ele não foi muito cooperativo. Tem cabimento uma coisa dessas? Por acaso eu criei filho sem educação? Um menino santo, provavelmente estava rezando pela paz no Iraque quando um crucifixo caiu na cabeça dele! Conhecedor e cumpridor das regras, jamais tentaria subir no escorregador pelo lado errado. E mais cooperativo do que ele, eu desconheço. Como qualquer criança bem educada nessa idade, ajuda sempre no serviço doméstico, o que pode ser comprovado na foto, tirando louça da máquina. Há um portãozinho na entrada da cozinha, mas na ânsia de prestar auxílio à Mamãe, ele descobriu um jeito de abri-lo.



No sábado, após suas orações matinais, o Pacotinho de Relações Públicas foi a uma festa de aniversário. Uma amiguinha sentou-se ao lado dele e, cheio das boas intenções, tentou tirar umas migalhas que caíram na cabeça dela. Infelizmente as almas caridosas são mal interpretadas neste mundo ingrato e a garotinha pensou que ele estivesse puxando os cabelos dela.

Depois da ajuda prestada à menininha, achando a festa muito barulhenta, ele tentou retirar-se para um lugar mais tranqüilo e recolhido, para fazer suas orações da tarde (acho que é muçulmano este menino, tem mania de rezar cinco vezes por dia). Como o único lugar apropriado ficava no subsolo, ele tentou descer as escadas, mas concentrado que estava nos versículos que recitava, caiu de testa no chão. Bem intencionado como sempre, conseguiu que o novo galo ficasse exatamente em cima do anterior. Sabe como é, muitos hematomas, daqui a pouco podem achar que estão judiando da sua alma de mártir. Ecologicamente correto, ele recicla e mantém o galo velho cantando, ao invés de arrumar um novo a cada dois dias. Já há tantas campanhas para preservar tartarugas, ele lançou um movimento de preservação dos galos.

No domingo, passou na casa da amiga da Mamãe, que tem um neném recém-nascido, a fim de dar uma bênção e pregar umas palavras de paz. Encontrou no apartamento vários objetos que atrapalhariam sua meditação com o bebê e tentou livrar-se deles, afinal de contas, quem tem amor no coração não precisa de telefone celular, controle remoto, CD's, laptop... "Menos tecnologia, mais humildade" é o seu lema.

De lá, foram à casa de um casal amigo, que tem uma filha de três anos. Foi um encontro de espíritos elevados, como se fossem dois ganhadores do Nobel da paz. Ele tentando fazer uma massagem relaxante, para tirar a energia negativa acumulada entre os longos cabelos da amiga, ela selecionando que brinquedos seriam mais apropriados à faixa etária dele (infelizmente nenhum dos que ela possui). E criança de um ano na casa dos outros é uma delícia para os pais, que experimentam a mesma paz de espírito de alguém que leva um bode a uma loja de cristais.

Além de obter a completa purificação da alma num único final de semana, a mãe precisa ouvir algo inspirado, então a amiga diz:
- Não fica muito mais divertido depois que o neném começa a caminhar?

Interessados em comprar um bilhete para a rifa do Pacotinho de Santidade e de Ajuda nos Serviços Domésticos enviem cartas para o Iglu. Além de cuidar da louça, ele também varre a casa (não aconselha ninguém a ficar atrás do cabo da vassoura), tira roupas amarrotadas das gavetas (que culpa ele tem se ninguém passa roupa aqui e é tudo amassado?), faz coleta seletiva de lixo e retira as compras das sacolas do supermercado. Comprem o bilhete, como diz o ditado "serviço de criança é pouco, mas quem não aproveita é louco".

24 agosto, 2007

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu fofoca:

Com Deby:
Querida, se existe simpatia virtual, você é uma das pessoas que não conheço com quem mais simpatizo. Mas vamos deixar uma coisa clara: eu sou capricorniana com ascendente em Capricórnio, então já nasci brava. Marido diz que não tenho pavio curto, porque nem pavio tenho. Sem firulas, bem direta. Graças a Deus, a muita determinação e a um exercício diário, eu que sempre fui uma pessoa ligada no 220V, fui uma gestante calma e sou uma mãe tranqüila e paciente. Uma colega do hospital disse que eu não estresso com nada e tive que cair na gargalhada, é que também sou uma enfermeira calma. Em 12 anos de profissão, lembro somente de meu coração ter disparado em duas ocasiões e ainda assim mantive a expressão serena na frente dos pacientes. Talvez a idade esteja ajudando também, já que dizem que capricornianos nascem adultos e ficam mais jovens à medida em que o tempo passa. A melhor descrição que já fizeram de mim veio de um grande e velho amigo, que diz que sou "patiently challenged".

Com Marília:
Nem me fale de certas escolas públicas. Tive um namorado professor de matemática no segundo grau em Surrey (sou velha, ainda chamo de "segundo grau"), cujos alunos estavam penando para aprender operações com FRAÇÕES. Ele era formado em Biologia e dava aula de matemática, por aí você já vê o preparo dos professores. Eu costumava ajudá-lo a corrigir as provas e ficava horrorizada com as respostas, já que a maioria nem sabia os nomes dos termos "denominador" e "numerador". Teve um que escreveu "detonator". Claro que em Shaughnessy ou em West Vancouver o nível dos alunos é bem melhor, mas aí também se caracteriza uma desigualdade social. Ou não ? Quem pode pagar mais de 1 milhão de dólares numa casa tem os filhos freqüentando uma escola melhor. Humm...

Podendo pagar e conseguindo vaga, também pretendo colocar o Pacotinho de Esperteza (coruja, EU ?) numa escola católica, embora digam que aqui no meu bairro as escolas são muito boas. Ainda estou traumatizada com "detonator".

Com Leandra:
Nunca tive meu apartamento invadido no Brasil, mas aqui em Vancouver, no outro prédio em que eu morava, arrombaram o quartinho onde eu guardava muitas coisas. Levaram minha TV, meus "rollerblades", uma mala e outras coisas que já nem me lembro mais. O síndico disse que a culpa era minha, não deveria guardar nada de valor lá e deveria ter feito seguro. E ainda me acrescentou "que sorte, do seu vizinho, levaram uma obra de arte muito valiosa !".

Sem comparação, que o índice em que crimes (violentos ou não), acidentes de trânsito e de trabalho, maus tratos a crianças e omissão de socorro acontecem aqui é infinitamente inferior ao de São Paulo, mas tapar o sol com a peneira e dizer que não existem é coisa que EU não faço. Todos têm o direito de ver a vida com óculos cor-de-rosa, se quiserem.

23 agosto, 2007

SAL do Iglu para Anônimo que acha comida e roupa mais baratos no Canadá

Comida e roupa são mais baratos aqui comparando com que lugar ? Por favor, passe o nome de onde você faz suas compras !

É por isso que eu digo que qualidade de vida é um termo subjetivo. Eu só posso comparar a realidade que eu tinha lá com a que é possível ter aqui, com um salário equivalente. Não posso me comparar com moradores de favela no Brasil, nem com pessoas que já tiveram arma apontada para a própria cabeça, já que minha vida não era assim. Meu filho jamais passaria fome ou frio se eu morasse lá e eu estaria entre os que podem pagar pelas mordomias a que eu estava acostumada, como todos os meus amigos.

Não sei em que parte do Canadá você mora, mas aqui em Vancouver existe muita pobreza sim. Nenhuma criança nas ruas, o que é uma imensa vantagem. Em 6 anos trabalhando num hospital em Vancouver, já foram tantos os pacientes moradores de rua que perdi as contas. No Brasil, eu morava na capital do país e trabalhava num hospital público de referência. A rede de hospitais públicos onde eu trabalhei (tanto em Brasília quanto em São Luís) era infinitamente superior ao hospital em que trabalho aqui em termos de limpeza e controle de infecção hospitalar. A lista de espera e a tecnologia acho que eram equivalentes. Adoro o fato de pagarem o dobro para trabalhar em feriados, coisa que eu não tinha na terrinha.

Nem todas as escolas públicas são boas em Vancouver. É preciso morar num bairro bom para freqüentar a escola pública onde os alunos têm as melhores médias. Como no Brasil, muita gente que pode pagar acaba optando por escolas particulares (cujo acesso nem sempre é fácil, mesmo pagando). Estudei numa universidade 100% gratuita no Brasil, mas como isso não existe por aqui, começamos a fazer um pé-de-meia, caso meu filho queira continuar os estudos depois do ensino médio. Se eu puder bancar, prefiro que ele não trabalhe como garçom nos finais de semana, nem receba uma dívida enorme junto com o diploma, como tantos estudantes universitários daqui.

Numa coisa concordo com você: segurança nas ruas não tem preço. No mais, é tudo uma questão de ponto de vista. O que é essencial para mim pode não ter valor para você e vice-versa.

Eu confesso: Sou Flávia, "mordomiaholic", há 7 anos sem empregada (em crise de abstinência desde então).

E onde você compra carne, leite, ovos, frutas e legumes mais baratos aqui do que no Brasil ?

É da China ?

5:15 da manhã. Você nos braços de Morfeu, como convém para o horário, quando escuta "TRIIIIIIIM" e pula assustada da cama, achando que aconteceu alguma coisa errada lá na terrinha. Procura feito louca pela casa um dos três telefones sem fio que seu filho usa para brincar sempre que os alcança (e esconde nos lugares mais improváveis). Encontra um debaixo da mesa e:

- Alô.
- Choin, chum, chéin, chaum-chaum. Óooin !
- Número errado. (Bate o telefone, volta pra cama pisando duro e planejando o arremesso de uma bomba atômica para Hong-Kong. Decide que nunca mais vai comer no China in Box, mas lembra que a comida chinesa do Brasil é muito mais gostosa que a daqui, então reconsidera. Vai boicotar somente o chinês da esquina).

É só o tempo de voltar para cama, entrar debaixo das cobertas e:

TRIIIIIIIIIM
(Por que você não trouxe o telefone pro quarto ? Ah, porque colocou de volta para recarregar, para encontrar facilmente da próxima vez).

- Hello.
- Do you speak Chinese ?
- Eu já falei que o número estava errado, se eu falo chinês não é da sua conta, porque você entende inglês. Não ligue de novo !

Só me faltava mais esta das minhas vidas passadas: eu joguei pedra no túmulo de Mao-Tsé também !

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Angela: Não temos escolha, já que a possibilidade de vaga na creche atual após 31 de dezembro é quase nula, então ele começa na outra em 10 dias. Na verdade, por serem todas filiais de uma mesma instituição, as creches têm estrutura de funcionamento, regras, treinamento de funcionários, tudo muito parecido. Minha implicância maior foi que atualmente ele está na creche de melhor localização, então nenhuma outra alternativa estará à altura (não que existam muitas outras alternativas, já que não quero deixá-lo aos cuidados de uma "creche familiar", que é uma mãe que cuida dos filhos de outras pessoas, correndo o risco de que ele vá assistir à TV o dia inteiro ou comer ravioli enlatado de almoço).

Para Ciça: Em menos de 24 horas, você é a segunda pessoa que me pergunta isso. Mexe com isso não, Mulher, melhor não copiar nem me citar. Qualidade de vida é igual à alma, se você perguntar a definição para 10 pessoas, cada uma dará uma resposta diferente. Depende muito da experiência de vida antes de imigrar e das expectativas criadas. Eu já evito falar de imigração também por causa disso. Cada um tem que viver os próprios sonhos, ilusões e decepções e, como dizem por aqui, "o lixo de uns é o tesouro de outros". Nem todo o mundo passa pelas fases de deslumbramento, decepção e descontentamento. Tem gente (pouca, mas tem) que nunca foi deslumbrada e muitos outros que nunca se dizem descontentes. Tem até um pessoal que AMA a chuva e aquela gororoba do "maccaroni and cheese" ! "Cada qual com seu cada um". Tem brasileiro que diz que chora ao ouvir "Oh Canada", mas aí eu penso "me poupe, me economize, me bota no cofrinho !" De mim, que nem cidadã canadense fiz questão de ser, você nunca vai ouvir isso.

22 agosto, 2007

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Keiko: Então estamos iguais, só que eu tenho uma creche ótima para comparar. Como disse a Santa Irmã, ele ainda é tão pequeno que só gosta de passear, nem liga se é uma rua barulhenta ou o calçadão à beira da baía.

Para André: Não é fácil abrir uma creche aqui, mesmo que se tenha dinheiro. Ao contrário de Quebec, onde há grandes subsídios, o governo local não ajuda muito. Os imóveis em Vancouver são absurdamente caros. O gasto com funcionários é a maior despesa declarada, mas acredito que uma grande parte do dinheiro vá para pagamento de seguro (o pessoal aqui tem muito medo de ser processado). Como a mensalidade de uma creche para crianças pequenas é muito próxima do salário mínimo de quem trabalha em tempo integral, muitas mulheres com filhos até 5 anos ficam em casa. As que podem pagar, optam por babás e geralmente passam a trabalhar somente meio período.

A pergunta que não quer calar é: se não existe demanda, por que a fila de espera é de um ano e meio (para crianças menores de 18 meses) ?

Para Cris: Acho que a adaptação mais difícil será a dos pais, porque meu filho ainda é muito pequeno para reparar nas coisas que foram gritantes a nós e, apesar do inglês incorreto, a equipe pareceu atenciosa com as crianças. O problema maior é a comparação, já que estamos super satisfeitos com a creche onde ele esteve até agora.

Obrigada pela atenção. Respeito quem opta por ser dona-de-casa, mas eu realmente não nasci para isso (principalmente sem empregada). Adorei passar um ano em casa com um neném (especialmente os dois meses e meio de inverno no Brasil), mas também adorei voltar a trabalhar. E não seriam cinco anos, mas seis, porque o "kindergarten" é somente meio-período, pelo menos aqui. Sou realizada profissionalmente, amo o que faço, tenho um salário bem acima da média e, se tivesse que ficar em casa durante os oito meses de chuva constante, voltaria para Brasília, sem dúvida. Criança precisa de mãe feliz e eu seria frustrada em casa.

Sou exceção (como diz meu pai, só estou com a maioria na torcida do Flamengo), ao contrário do típico imigrante, não moro aqui pela suposta "qualidade de vida". Estou aqui porque o Marido Gringo é gringo. Qualidade de vida mesmo têm minhas amigas e minha irmã em Brasília, com empregada, faxineira, manicure, massagem a domicílio, crianças na escola que elas escolheram, vários médicos especialistas que elas também escolhem, sol praticamente o ano todo, clube e cinema todo final de semana, muitas festas, férias no Nordeste... Uma amiga brasileira que veio me visitar comentou que a mulherada aqui é meio acabada, envelhece cedo e respondi que é culpa da falta de mordomia. Nada mais subjetivo do que o termo "qualidade de vida", né ?

21 agosto, 2007

Chorando as Pitangas

O sistema de creches aqui de Vancouver é altamente problemático. Há poucas vagas, os preços são exorbitantes, a lista de espera é imensa e o governo não está nem aí. Então, aos 3 meses de gravidez, você coloca o nome do futuro rebento na lista de espera. Fica mais saltitante que milho de pipoca no fogo quando consegue uma vaga, depois de um ano e meio na fila. Passa pela lacrimosa adaptação e sobrevive com louvor às viroses e "crechites" do neném. Um mês depois, na maior lua-de-mel, enche a boca para dizer que seu filho ADORA a creche (e você também). Tenta esquecer o fato de que ele só tem vaga garantida até 31 de dezembro e vive como se 2008 fosse um ano inatingível.

Três meses depois, você recebe um telefonema que acaba com o seu dia. A diretora de uma outra filial da creche avisa que há uma vaga garantida para o seu filho até os 3 anos de idade, mas a decisão de transferi-lo precisa ser tomada logo. Você tem 48 horas para dizer se aceita mudá-lo em 2 semanas ou continua onde está e perde o lugar na fila para janeiro. Sem escolha, derrotada, você concorda e vai visitar a outra creche.

E lá vai você, no melhor espírito "não vi e já odiei". Tenta não comparar o estabelecimento no térreo, com entrada privativa, amplas salas, vista para a baía, situado numa rua tranqüila, com turmas separadas por idade, onde seu filho está plenamente feliz com a alternativa no terceiro andar de um dos prédios mais visitados da cidade, na esquina da Rua Barulho Alto com a Avenida Construção Constante, misturando bebês com crianças que têm idade para estar terminando o ensino fundamental (TRÊS anos, uns idosos !)

Já no elevador público cheirando a urina (sim, também fazem xixi em elevador público no Primeiro Mundo), você tem vontade de chorar. É recebida por uma senhora cujo nome é idêntico ao da sua sogra e deduz na hora de que país ela veio. Você olha em volta e não encontra absolutamente nada que seja encorajador, o diagnóstico é o imaginado: tudo péssimo. E a senhora, naquele inglês carregado (como seus sogros, ela trata os pronomes e artigos como extra-terrestres: já ouviu falar deles, mas não acredita que existam), tenta explicar em detalhes tudo o que você já sabe sobre o programa, quando na verdade você só está ali para visitar e condenar as instalações. E absolutamente tudo o que ela fala irrita o mais profundo do seu ser:

- Ele ainda toma líquidos no copinho com bico ? Já está grande para isso, aqui só mamadeira ou copo normal.
- Mas ele não toma nem leite na mamadeira, tudo no copo !
- Vai aprender no copo sem bico (o menino ainda caminha com aquele passo típico só usado por quem fez cirurgia de hemorróidas ontem ou começou a caminhar há poucas semanas, que idade ela pensa que ele tem ?).

- Aqui estão os penicos, que ele logo vai aprender a usar. Já está grande, né ?

- Não se preocupe, posso ver que você está com medo. As mães levam mais tempo para adaptarem-se do que as crianças. Todas aqui temos curso universitário e muitos anos de experiência. (Mas inglês correto, que é bom, vocês não falam, que as outras duas são chinesas e eu já as ouvi conversando !)

- É ótimo misturar as crianças mais novas com as mais velhas. Os de 3 anos viram-se sozinhos, a gente fica só por conta dos pequenos. (Os pais deles sabem que estão pagando para isso ?)

- Você se importa que ele se suje ? (Se eu disser que sim, por acaso ele obedece ?)

- Ele come de tudo ?
- Não gosta de macarrão.
- Já experimentou sem molho ?
- Sem molho, com molho, de parafuso, de rodinha, de martelo, de chave de fenda, ele tem nojo é da textura !

Você só não sai de lá chorando, porque sabe que vai chegar em casa, ligar para o seu pai no Brasil e só então abrir o berreiro. TPM, dizem uns. Questão de tempo, dizem outros. Vontade de estar em Brasília e ter dezenas de opções para decidir que creche seu filho vai freqüentar, pensa você. E aí você lembra que nessas horas "qualidade de vida" é somente uma frase feita de imigrante deslumbrado. Por que não há incentivo para as empresas terem creches para os filhos de seus funcionários ? Por que uma cidade tão rica tem somente meia dúzia de creches que aceitam crianças antes de 1 ano e meio de idade ? Por que você mora aqui mesmo ? Por causa do ótimo clima ?

Sorte que quem vai acompanhar a criança nesta nova adaptação é seu marido, porque senão aquela conterrânea dele iria causar-lhe uma úlcera e neste verão chuvoso cheio de gripe, isso é só o que faltava ! TPM, dizem os que não têm medo de perder todos os dentes num único golpe.

20 agosto, 2007

Vocabulary, slang and the whole shebang

Quando me mudei para Vancouver pela primeira vez, em 1998, eu já falava inglês fluentemente. Vim para estudar a língua e, depois daquele teste para avaliar o nível de conhecimento, fui colocada na turma do último nível da escola. A professora ficava impressionada com minha gramática e os coreanos morriam de inveja do meu vocabulário. Minha "hostfamily" canadense vivia elogiando meu inglês e, hoje em dia, vejo o quanto eu sabia pouco. Nada perto do que passou uma amiga brasileira, que na primeira semana na casa da "hostfamily", ligou aos prantos para mim:

- Flávia, preciso desabafar. Buáááááá.... Quero mudar de família.
- O que foi ?
- Hoje de manhã (chuif, chuif), na hora do café, ela foi grossa comigo !
- Como assim ?
- Ao invés de perguntar "how are you ?", ela perguntou "how do you do ?" Agora, imagina alguém virar para você do nada e perguntar "how do YOU do ?" Buáááá...

Ao começar a trabalhar no hospital, eu nunca tinha freqüentado uma única aula sequer de algum curso de enfermagem aqui. O que eu sabia do jargão específico da área havia aprendido estudando para a prova. Na terceira tentativa de passar na prova oral de inglês exigida para obter a licença do Conselho de Enfermagem (por duas vezes, tirei 75%, quando o mínimo requerido é 80% e foi sem dúvida a mais estressante que já fiz, falando com um gravador em segundos cronometrados, numa sala repleta de estrangeiros falando com seus gravadores ao mesmo tempo), obtive a nota máxima: 100%. Mesmo assim, nos primeiros plantões, lembro do quanto eu estranhei certas expressões que hoje uso com freqüência.

Levei uns dois meses para concluir que só em livros as pessoas "vomit" ou "throw up", na vida real, todo o mundo "puke" ou "barf". A comida que causou um piriri não fez mal, ela simplesmente "didn't agree with you". Falando em vômitos e problemas estomacais, "stomach" (ou "tummy", para os íntimos) é uma das palavras com maior variedade de significados em termos anatômicos. Um cara barrigudo tem "a big stomach", uma mulher grávida tem "a baby in her tummy", uma diarréia ou qualquer dor abdominal podem ser uma "stomachache", uma pessoa que faz uma plástica abdominal para tirar as pelancas faz um "tummy tuck" e, pasme, até o órgão estômago é chamado "stomach" ! Mas por incrível que pareça, azia é "heartburn".

As siglas são muito mais comuns na prática que nas aulinhas de inglês. É um tal de ASAP (as soon as possible) para cá, FYI (for your information) para lá, TKVO (to keep the vein open) e DNR (do not ressuscitate), ops, estas últimas só para a turma do hospital ! E tem aquelas que as pessoas não falam, mas escrevem, como BTW, "by the way".

Uma das expressões favoritas no ambiente hospitalar até então desconhecida por mim: "it's gross". No centro cirúrgico, ninguém tem nojo de apendicite supurada, aneurisma roto espirrando sangue, ou fratura exposta. Mas é só aparecer alguém com uma unha encravada para ser arrancada, que o pensamento é unânime: "it's gross" (e é mesmo) !

Adoro principalmente as palavras e expressões que não dizem muita coisa, como "whatever", a resposta preferida de 9 entre 10 adolescentes. Uma mãe me disse que somente depois de 19 anos os filhos voltam a responder às perguntas com outras palavras. Até lá:
- Fulano, quer comer frango ou carne ?
- Whatever.
- Quer peixe, então ?
- Whatever.
- Se você não decidir, vai ter que comer o que eu escolher.
- Whatever.

Na hora de querer alguma coisa, "to want" nem aparece no papo. É tudo "I feel like". Lembro de alguém me dizer "I don't feel like pizza" e, apesar de ter entendido, eu pensei "e quem é que já se sentiu como uma pizza ?"

Eu já há tempos incorporei o equivalente gringo de "tipo assim", o "kind of" (no popular, "kinda"), principalmente no trabalho, quando não lembro o nome certo do que estou descrevendo. "Sabe do que estou falando ? Vem numa caixa, 'kinda' retangular, 'kinda' bege, 'kinda' grande, que vem com uns adesivos 'kinda' compridinhos..."

E tem aquelas expressões que quase sempre podem ser adicionadas ao final de uma lista. Num exemplo hipotético: "Queria ter uma empregada para limpar a casa, lavar, passar, cozinhar, arrumar a bagunça, the whole shebang".

A verdade é que, prestando atenção, todo dia a gente aprende um pouco e às vezes é muito mais fácil ler um livro de 300 páginas do que entender todas as palavras num artigo de jornal, com aquela mistura de gírias, expressões idiomáticas, siglas, "the whole shebang"...

19 agosto, 2007

Marte, Vênus e A Arte de Fazer Limonada

"Se a vida der a você um limão, faça uma limonada".
(Ditado Popular)

O Pacotinho da Madrugada acorda pontualmente entre seis e seis e meia da manhã, ignorando solenemente a diferença entre "dia de semana" e "fim de semana". Então, como Mamãe precisa dormir para agüentar o tranco de trabalhar de noite, Papai Sonolento carrega o cada-dia-mais-bagunceiro rebento para a sala. Enquanto um dorme no sofá, o outro faz uma redecoração do local, mudando de lugar tudo o que consegue alcançar (preciso dizer quem faz o quê ?).

E, quando a Mamãe levanta, quase não reconhece a casa:
- Você viu que ele espalhou todos os lencinhos umedecidos que estavam no carrinho ?
- Não, nem vi. AINDA BEM QUE, sem as lentes de contato, eu não enxergo quase nada !

SAL do Iglu para Magna

Retiro o que eu havia escrito. A piadista é você: "foi você ou o Marido Gringo que escolheu ?" Uahahahaha... Tirando meus pais, que escolheram meu nome e minha chefe, que escolhe os plantões que eu faço, ninguém escolhe nada por mim não !

Mas a melhor de todas foi esta: "Xi Flávia... você não pode ver um calango chiando no mato que morre de medo?" Em primeiro lugar, nem sabia que calango chiava, agora sim é que estou com medo ! Não os vejo no meio do mato, porque não freqüento o meio do mato e suas adjacências (Cidadã do Mundo). Tenho pânico quando vejo as lagartixas e suas primas mais distantes dentro de casa. Se eu não vou onde esta turma mora, por que eles insistem em me visitar ?

Lembro de mim, saindo do plantão em Saint Louis do Maranhão, ouvindo um assovio. Virei para os pacientes (todos crianças) e perguntei quem estava assoviando. Aí eles começaram a rir de mim e disseram: "É o sapo, Tia." Nunca soube que sapo assoviava e agora, mais esta: calango chia ! Pessoal do Discovery Channel 'tá sabendo disso ?

PS: Você é de Natal, né ? Tenho uma amiga conterrânea sua que chama lagartixa de "víbora".

17 agosto, 2007

4,5 metros, 30 cm... É tudo a mesma coisa !

Há dois dias li no jornal The Province a notícia de que um senhor havia ligado para o 991 (número universal de emergência para ambulância, polícia e bombeiros), apavorado porque estava vendo um "crocodilo de quatro metros e meio" no seu jardim. Imagina o pânico ! Eu dou ataque por causa de lagartixa de parede, nem me fale em crocodilo ! Aliás, em pleno Canadá, um crocodilo no jardim seria mais provável em livrinhos infantis, mas vivendo e aprendendo...

Quando toda a equipe de resgate chegou (imagino o equipamento que devem ter trazido), encontrou um lagarto de 31 cm, com o nome metido a besta de "bearded dragon" (dragão barbudo). Lá na terrinha seria um "teiú gringo", nada de relevante.

A horripilante criatura foi levada para um abrigo de répteis (sim, existe até hotel para calango no Primeiro Mundo) e no dia seguinte sua família voltou para buscá-lo. Por sinal, duas pessoas diferentes clamaram a "paternidade" do feioso pimpolho e não sei se fizeram teste de DNA no final. O nome dele é Turtle, mas os policiais já tinham apelidado o "crocodilo" de Bud. Sei que eu sou muito crítica, mas quem daria o nome de "Tartaruga" a um lagarto ? Só alguém maluco o suficiente para criar um como animal de estimação e ainda perdê-lo no jardim da vizinhança.

Quando eu digo que me recuso a aprender o ridículo sistema imperial (que mede as coisas em pés, polegadas e libras, ao invés dos universais metros, centímetros e kilos), os gringos acham que estou fazendo piada. Um adulto que não sabe a diferença entre 4,5 m e 30 cm é que é o piadista, não eu !

Ass: Flávia, que depois de 7 anos no Canadá, ainda mede 1,67m e não 5 pés e sei-lá-quantas-polegadas.

16 agosto, 2007

Marte, Vênus e a Escolha do Filme

Semana passada, Marido Aniversariante procurando horários de filmes na internet:

- Que filme você quer ver ?
- Você é quem escolhe, é seu aniversário.
- Tem Stardust às 15:30, o elenco é ótimo.
- Hum... É um com fadas, duendes, dragões e unicórnios, né ? Tudo o que eu detesto, mas é seu aniversário e se você fizer MUUUUUITA questão desse filme, eu vejo.
- Então não. Tem Bourne Supremacy às 15:40.
- É aquele com o Matt Damon ? Hummmm... Deve ser muito violento, né ?
- Que tipo de filme você quer ?
- Não tem comédia ou drama ?
- Tem Os Simpsons às 16:00.
- 'Tá. A gente assiste a qualquer um que você quiser, mas vê se não escolhe Transformers, pelamordedeus !

E às 14:51, permanecendo a indecisão:
- E aí ? Que filme a gente vai ver ?
- Tem Bourne Supremacy, dá para a gente pegar.
- Mas é seqüência e eu não assisti nem ao 1 nem ao 2.
- Ah, é.
- Olha aqui: No Reservations, com a Catherine Zeta-Jones.
- A gente já viu o original em alemão.
- A gente quem, Cara-Pálida ? Só se você viu com a outra esposa, que eu não vi !
- Tem certeza ? Mas é às 15:00, não dá tempo.
- Dá assim ! Saindo agora, a gente só perde os traillers, corre !

E, depois do filme DE-LI-CI-O-SO:
- Você gostou do meu presente ?
- Que presente ?
- O filme, ué. Não era o filme para o MEU aniversário ?
- Era. Adorei e você ?
- Já tinha visto o original em alemão, mas é bom fazer a sua vontade.
- Imagina ! Eu assistiria a qualquer um que você escolhesse. Não foi você quem escolheu esse não ?

15 agosto, 2007

Pura Poesia

Tem dias que nem meus idolatrados Geraldo Azevedo, nem Chico ou Caetano. Pura poesia nos meus ouvidos seria:

"Depois de 35 dias consecutivos sem chuva, o serviço de meteorologia informa: para amanhã, céu claro, calor e nenhum sinal de que o verão vai acabar."
"Dona Flávia, a massagista da senhora está aqui embaixo. Posso deixá-la subir ?"
"Dona Flávia, passei TANTA roupa hoje que o Passe Bem acabou. Pode comprar mais ?"
"Flávia, aqui é a Goreth manicure. Estou meio atrasada, mas chego aí na sua casa em meia hora."
"Claro que eu posso encaixar você de última hora. Vai querer meia perna ou vai depilar a perna inteira ?"
"Dona Flávia, o rapaz que lavou o carro está pedindo o dinheiro dele."
"Se a senhora esperar mais cinco minutos, está saindo uma fornada de pão de queijo."
"Olha, Dona Flávia a senhora sabe que eu não gosto de fofoca, mas a faxineira disse que está precisando de dinheiro e gostaria de vir três vezes por semana, ao invés de só duas."
"Dona Flávia, o sapateiro ligou dizendo que sua sandália está consertada. Deixa 5 reais que eu vou lá e busco."
"Dona Flávia, estão vendendo 10 abacaxis por 2 reais no caminhão, quer que eu compre ?"
"Flávia, se você tiver outro neném, vai contratar uma enfermeira ou ficar somente com a empregada, a faxineira e a babá ?"
"Nossa, que calor ! A gente precisa comprar um ar condicionado."
"Flávia, aqui é o Pai, minha filha. Está desocupada ? Vou passar aí para ver o netinho do Vovô."

Que saudade de Brasília ! Ah, se o Marido Gringo não fosse gringo...

SAL do Iglu para Bete

Claro que conseguiu explicar muito bem ! Sua mãe merece aplausos. Errou por desinformação, admite o erro e já tenta corrigir para a próxima geração. O que eu não entendo são os que se orgulham de perpetuarem a ignorância. Quando comprar e assistir ao DVD "A Criança Mais Feliz do Pedaço", chame-a a para ver com você. Sim, porque você não vai ler só sobre amamentação né ? O dever de casa da Futura Mamãe é bem longo...

14 agosto, 2007

Pacotinho de Safadeza, mas já ?

Semana de plantões noturnos, Mamãe inutilizada, largada na cama o dia inteiro e Papai excepcionalmente vai buscar o Pacotinho de Novidades na creche.

Finalmente, com muito tempo de atraso, chegam em casa:

- Por que vocês demoraram tanto ?
- Tive que esperar porque cheguei lá e ele estava dormindo.
- Dormindo ? Depois das quatro da tarde, eu sempre o acordo.
- Eu fiquei conversando com a professora, perguntei como ela sabia que ele estava acordado, já que a porta do quarto é mantida fechada.
- Ele levanta e bate na porta.
- Ela disse isso mesmo, que ele não acorda as outras crianças, mas...
- Mas...
- Ouvi um barulho, entrei lá e ele estava deitado na cama da Rebecca, agarrando-a pela cintura. A coitada já começando a chorar, tentando engatinhar e livrar-se dele.
- MEN-TI-RA !
- Juro ! E ainda por cima, ele me olhou com a maior cara de espanto quando abri a porta. Encontrei os sapatos dele largados um em cada canto do quarto !

E, coçando a cabeça:
- Não pensei que a gente fosse ter um problema desses com ele tão cedo. Nem estamos em 2020 ainda !

SAL do Iglu para Simone - Sem Palmadas

"Os pais que têm filhos cordatos, mansos e sempre calmos merecem parabéns. Mas os grandes elogios ficam para os pais das crianças contestadoras, desafiadoras, que sempre sabem o que querem. Estes últimos é que fazem um grande trabalho de educação."
(Dr. Harvey Karp - The Happiest Toddler on The Block)

Como vários pais que jamais levantaram a mão para os filhos podem testemunhar (meu pai inclusive), existem muitas maneiras construtivas de educar uma criança.

A meu ver, um grande problema de criar filhos é que não é necessário aprendizado algum para ser pai e mãe. É preciso estudar para tornar-se professora, exige-se curso para casar na Igreja, mas para educar uma criança, muita gente não lê nem pesquisa nada. Repete os mesmos erros dos pais, esquecendo que é preciso evoluir sempre.

Já que você gosta de ler e de estar informada, recomendo o excelente pediatra Dr. Harvey Karp, com o livro e o DVD "The Happiest Toddler on The Block", que em português foi traduzido como "A Criança Mais Feliz do Pedaço". Centenas de dicas sobre como lidar com birras, teimosia, escândalos na hora de dormir, xixi na cama, ciúme dos irmãos e mais um monte de situações comuns entre 18 meses e 4 anos, sem palmadas. Outro maravilhoso pediatra na mesma linha é o Dr. Sears, que criou 8 filhos bem sucedidos sem palmadas. Um livro fantástico é Besame Mucho, do pediatra Carlos Gonzalez, que assina também outro absolutamente essencial chamado "Meu Filho Não Come". Se você está no Orkut, sugiro as comunidades "Crescendo Sem Palmadas" e "Pediatria Radical", com dicas, testemunhos e experiências.

Os pais da nossa geração que batiam nos filhos faziam o que achavam melhor, com o conhecimento que tinham. Também colocavam as crianças no banco da frente do carro, sem cinto de segurança. Muitas mães introduziam leite de vaca com açúcar aos 3 meses de vida do filho, outras acreditavam que tinham "leite fraco" e nem tentavam amamentar. Praticamente todas as grávidas consumiam álcool em alguma quantidade durante a gestação. Era comum fumar dentro de casa, na presença dos bebês. Hoje em dia, com a informação que temos, nada disso é admissível. O argumento "mas eu não tinha cadeirinha de carro quando criança e não fiquei tetraplégica" não justifica expor os filhos a tal risco, concorda ?

A geração dos meus avós achava normal uma professora bater nos alunos que não se comportavam em sala de aula. Atualmente mesmo pais que são defensores de palmadas jamais admitiriam isso. Por sinal, é algo que eu não entendo "o filho é meu, então eu posso bater nele, ninguém mais pode" (?????). Defendem os filhos dos tapas dos outros, mas quem defende as crianças dos tapas dos próprios pais ?

Humilhações, comparações, rótulos depreciativos, na minha opinião, abalam muito mais a auto-estima de uma criança do que uma palmada no bumbum. Nem vou comentar de surras, porque tenho um profundo desprezo por quem se orgulha de ter a obediência dos filhos com pancada.

E eu pergunto a você, que acha que palmada funciona com crianças desafiadoras: o menino teima, leva uma palmada. E desafia novamente, leva outra. Se for uma criança como eu era, pode ser espancado que, se não for convencido racionalmente a mudar de comportamento, vai continuar teimando só para desafiar. Não é ruim que a criança saiba o que quer e tenha uma personalidade contestadora, mas é muito mais trabalhoso para os pais. É característica da infância e da adolescência testar os limites. Cabe aos pais saber como ensiná-los. E dar palmadas até quando ? Até o filho ficar maior que os pais e ser capaz de revidar ?

Tenho uma amiga de infância que levava surras homéricas quando criança. Para minha tristeza, hoje ela diz que fará o mesmo com os filhos, já que não tem traumas. Só que eu me lembro bem dela, com uns 7-8 anos de idade, morrendo de medo de voltar para casa e apanhar do pai. Eu jamais quero sonhar que um filho meu tem ou teve medo de mim. Coincidência ou não, os adolescentes mais bem ajustados que eu conheço (aqueles tão nota 10 que qualquer um gostaria de ter) são filhos de um casal de amigos que também compartilha da filosofia de educar sem agredir. Até hoje, quase adultos, adoram viajar com os pais !

E quem se recorda de ter apanhado, mesmo que diga que não tenha traumas, certamente se lembra também de como se sentia pequeno, indefeso, humilhado naquele instante (ainda mais se acontecia na frente de estranhos). Mesmo quando achava que merecia, se é que existe isso. Quando as pessoas dizem sem "trauma", querem dizer que não guardam mágoa. Conheço muitas pessoas que levavam tapas na boca para calarem-se quando discordavam dos pais e, na vida adulta, têm dificuldade em expor uma opinião contrária no trabalho, sendo submissas a qualquer figura de autoridade (e dizem que não têm "trauma" !).

De coração, fico contente que você esteja aberta a conhecer novas alternativas de educar, antes de ter filhos. Muitas amigas que já eram mães criticavam o fato de eu ler tanto na gravidez, principalmente sobre o sono dos bebês. Eu estava tão bem preparada que nunca me senti uma mãe de primeira viagem, não tive as inseguranças típicas, nem vivi os sufocos tão comuns à maioria. E tenho orgulho de dizer que nunca deixei meu filho chorando para aprender a dormir sozinho (também outro "método educativo" muito propagado por aí).

Se Deus quiser, a geração dos nossos netos vai achar tão absurdo saber que os pais davam palmadas nos filhos tanto quanto achamos inaceitável que um estranho faça o mesmo.

P.S.: Só para constar, vivi as duas situações em casa e eu sempre soube qual exemplo iria seguir com meus filhos, para um relacionamento saudável e respeitoso.

13 agosto, 2007

Amor de Pai - Segunda Parte

"Não é porque o seu filho de 3 anos comporta-se como um ser primitivo que isso dá a você o direito de agir da mesma forma".
(Dr. Harvey Karp - The Happiest Toddler on The Block)

Existem três grandes Chicos que eu admiro na vida: o santo amante dos animais, o Buarque de Hollanda e o meu filósofo pai.

Como disse um estudo recente , que concluiu que as mulheres com bom relacionamento com os próprios pais tendem a escolher maridos que se parecem com eles, não sou exceção. O Marido Gringo compartilha da mesma filosofia do meu pai de não criar filhos para o mundo, mas de criar filhos que se sintam amados, confiantes e seguros para transformar esse mundo doido num lugar melhor. Porque valores, limites e respeito podem e devem ser ensinados com exemplo e não com castigos físicos e humilhações. Porque os filhos não são propriedade dos pais, nem devem servir de válvula de escape para suas frustrações. Porque bater em criança é covardia e é crime passível de punição no Canadá. Porque ninguém tem o direito de minar a auto-estima de outrem. Porque não se deve almejar a obediência cega dos filhos, mas ensinar como discordar com respeito, dando a eles a oportunidade de mudar certas "verdades absolutas" (imagina Darwin ou Einstein sempre concordando com os mais velhos ?). Porque os filhos vêm também para que os pais revejam seus conceitos e tornem-se pessoas melhores. Porque a pérola "eu apanhei muito quando criança e não tenho traumas, então bato nos meus filhos" não tem qualquer valor estatístico, prova simplesmente que o interlocutor é mais um dentre os muitos que não souberam evoluir. Porque "mudança de paradigmas" não é apenas uma frase de impacto para ser usada na reunião de trabalho. Porque ninguém disse que criar filhos felizes é uma tarefa fácil. Porque é necessário ser criativo na hora de educar. Porque a Super Nanny não tem envolvimento emocional algum com as crianças que ela recomenda serem deixadas chorando para aprenderem a dormir sozinhas, mas os pais sim. Porque, como disse um santo Chico muito sábio: "é dando que se recebe". E porque, se nada disso fosse suficiente, são os filhos quem vão escolher o nosso asilo e, no final da vida, as necessidades humanas são muito semelhantes às que temos no início dela. Graças ao Pai do Céu, o meu pai já sabia de tudo isso, antes que o genial Dr. Sears cunhasse a expressão "attachment parenting".

P.S.: Se eu sou a favor das palmadas educativas ? Claro que sim ! Já estou planejando em dar umas na minha chefe, que me colocou de plantão o final de semana inteiro. Também é uma ótima forma de educar o marido que deixa a tolha molhada em cima da cama. Ah, é para crianças ? Sou contra. Pelo menos procure bater em alguém do seu tamanho !

Iglu de cara nova: o diálogo que deu origem à transformação

Marido Analista de Sistemas jogando no computador:

- Acordada a esta hora ?
- Perdi o sono. Cinco noites no plantão, difícil convencer meu corpo a passar a noite dormindo. Você está muuuuuito interessado em continuar este jogo ?
- Por quê ?
- É um jogo meio destrutivo, né ? Olha aquele soldadinho ali derrubando a árvore ! Faça-o parar.
- É Civilization IV !
- Não parece NADA civilizado. Não tem um jogo ecologicamente correto, em que eles plantam árvores ?
- Se você vai ficar atrapalhando o jogo, vou parar.
- E já que vai parar mesmo, será que você poderia me ajudar a mudar a cara do blog ?
- Aaaaiiii... Fazer o quê ?
- Você vive dizendo que o sistema do blogger é super ultrapassado. Parece que, fazendo um "upgrade" para o novo template, fica mais fácil.
- Se isso significar que NUNCA mais você vai ficar fazendo mil perguntas e me dando trabalho para colocar fotos...
- Não garanto nada, mas ao menos há esperança.

Sim, amigos, em casa de analista de sistemas, as coisas funcionam (ou não) assim. Eu sempre me pergunto se os filhos de um grande chef internacional jantam pão com ovo frito cinco vezes por semana (sábado e domingo deve ter um prato especial para as visitas).

Digamos que minha ignorância bloguística diminuiu consideravelmente, mas um ex-analfabeto que aprende a escrever o nome não vira Machado de Assis da noite para o dia, né ?

P.S.: Rasgação de seda: deixe nos comentários.
Críticas, reclamações, desaforos, pedradas, tomates, processos por calúnia e difamação: envie para o Marido Gringo Analista de Sistemas, Iglu, Canadá.

11 agosto, 2007

Amor de Pai

Não sei bem quando surge o instinto paterno nos homens, se durante a gravidez da companheira ou só depois do nascimento do filho. Aliás, não sei nem nas mulheres, só posso falar por mim: eu sempre quis ser mãe. E desde uns 6 ou 7 anos de idade, já sabia exatamente que tipo de mãe gostaria de ser: uma mãe igual ao meu pai.

Muito antes dos livros escritos por psicólogos sobre como educar filhos sem palmadas, um certo Chico já vivia isso na prática. De forma alguma admitia ser tratado por um filho de "senhor". Nunca levantou a mão ou a voz para um filho. Jamais mandou alguém ir de castigo pro quarto ou obrigou uma criança a ficar diante de um prato de comida até comer tudo o que um adulto havia servido. Aliás, teve três filhos magrelos cumprindo a promessa de que não os submeteria ao que ele mesmo havia vivido na infância, comendo à força. Sempre soube ensinar limites, honestidade e respeito na base da conversa e do abraço. Incentivador, amigo, carinhoso, tinha a maior paciência do mundo para acompanhar o dever de casa. Ajudou a decorar, ouvindo novecentas vezes com o mesmo orgulho a minha declamação de poesia na primeira série e o meu discurso de formatura da UnB. Jamais criticou os filhos na presença de estranhos ou usou rótulos depreciativos. Quando eu digo que nunca ouvi o meu pai falar um palavrão, a maioria não acredita. "Nem assistindo ao jogo de futebol com o Flamengo perdendo do Botafogo ?" Nem com o juiz roubando para o Botafogo ! Pregava diariamente a não bateção de portas e a ausência de gritos dentro de casa, dando o exemplo. Em situação alguma valeu-se da máxima "só porque estou mandando", explicando os porquês do "não pode" com carinho. Respeitou e respeita as escolhas de cada filho, mesmo quando diferentes das dele. Não sendo perfeito, claro que culpava as brigas da criançada no banco de trás do carro quando perdia a saída para a Rodovia BR-Sei-Lá-O-Quê. E ainda soube incutir na prole a habilidade de fazer graça dos percalços da vida. Um pai, três filhos e o mesmo senso de humor.

Não me admira que a minha mais antiga memória de infância tenha o Chico como protagonista. Precedendo o bordão de um antigo comercial da Gelol, "não basta ser pai, tem que participar", ele já vestia a camisa:

Década de 70, um dos tantos domingos nublados sem muitas opções de lazer na Capital Federal. Show dos Trapalhões gratuito no Ginásio de Esportes e o Chico decide levar a filharada trancada no apartamento (cá para nós, "decide" é uma licença poética, que eu devo tê-lo perturbado a semana inteira). E lá foi ele, sem ajuda de ninguém, com três crianças a tiracolo (a mais velha com uns 5 anos), num fusquinha, enfrentando a multidão. Lá pelas tantas, apavorado que só ele (até hoje é assim), segurando um filho no colo e duas pelas mãos, teve medo de perder um deles. Imaginou a massa enfurecida pisoteando uma das crianças e desistiu da carnificina que seria esperar o fim da apresentação e tentar sair de lá com vida (o exagero é herança dominante no DNA da família). Mas a vida de quem tem uma filha capricorniana com ascendente em Capricórnio não é fácil assim: desistiu, volta para casa. E eu emburrava e embirrava, andava deliberadamente devagar, chorava que queria ficar, dificultava ao máximo a caótica caminhada em direção contrária ao formigueiro humano. Nisso, ele percebe que o filho mal saído das fraldas dava claros sinais de não estar preparado para ficar sem elas: era o que eu chamo "Code Brown", que escorre até as canelas. E, como a Lei de Murphy sempre regeu a família, começa a cair um temporal daqueles que só quem morou no Quadradinho conhece. E ele não perdeu o rebolado nem teve dúvidas: colocou a Teimosa e a Boazinha no carro e lavou o bumbum do Desarranjado na água da chuva. E é exatamente esta a cena na minha memória: eu de pé no banco do Fusca 69 cor de cereja (que me causou tanta vergonha quando adolescente), olhando meu pai lavando o bumbum do meu então irmãozinho na chuva.

Décadas depois, quando algum filho quer tirar onda com a cara dele, basta falar: "Pai, tem um show de graça em Tal Lugar Assim-Assim, vamos ?" A resposta não se alterou com o passar dos anos: "Nem se o Papai Noel descer de helicóptero, distribuindo ouro em pó ! Se for de graça, não é lugar para Zé Francisco, que eu tenho trauma de multidão."

E até hoje, quando a coisa aperta para o meu lado e é preciso chorar as pitangas, para quem é que eu ligo ?
Primeira semana de adaptação na creche:
- Alô.
- Buááááááá...
- O que aconteceu, Minha Filha ?
- (Snif, snif). Fui (snif) deixar o (snif) Fi-lho-tiiii-nho (snif) na creche, buáááá...
- Ai, Meu Deus, ele caiu e machucou ?
- Não, (snif), ele agarrou na minha perna e começou a choraaaaaar. Buáááá...
- Ô Meu Amor, que susto você me deu ! É difícil mesmo, mas fazer o quê ? Você precisa trabalhar. Ele vai se acostumar.
- E se ele NUNCA se adaptaaaaar ? Buáááááá...
- Ele se acostuma sim, Meu Anjo. É questão de tempo. Você nunca chorou na escola, mas a sua irmã abraçava o meu pescoço, pedia para eu ficar e caía no choro. Eu ia dirigindo pro trabalho sentindo-me a última das criaturas, com o coração em pedaços.
- É horrííííível... (snif, snif)
- É sim, mas vai passar. Não há nuvens eternas. Depois de uma noite escura, tem sempre um dia no meio.
- Você acha mesmo ? (snif)
- Claro ! Qualquer coisa, o Papai está aqui, viu ? Pode ligar que eu não vou sair.
(E ligou mais tarde, no dia seguinte e a semana toda para saber como estava sobrevivendo a Filhinha Chorona de mais de 30 anos na cara, que vive do lado oposto do planeta).

Tem tanta coisa maravilhosa para falar do Chico que um longo post só não dá conta. Tem continuação.

Feliz Dia dos Pais a todos os pais das nossas vidas. (Aqui a data é comemorada no terceiro domingo de junho, por falar em diferenças culturais).

10 agosto, 2007

Antipatia Virtual

A geração do Pacotinho de Tecnologia jamais saberá compreender como eram o mundo e as relações interpessoais na era pré-internet. São crianças que dificilmente escreverão para o vovô uma carta de próprio punho, daquelas que dão um trabalhão para colocar no correio e levam um tempo imenso para chegarem ao destino. Para eles, a idéia de ter amigos com quem se correspondem diariamente sem jamais terem se encontrado não vai parecer nada inovadora.

Como sou do século passado, lembro exatamente do primeiro e-mail que escrevi. Foi em 1996, de São Luís para Brasília, para um grande amigo (na verdade havia uma meia dúzia de amigos privilegiados que dispunham de tamanha modernidade e só). Imagina escrever para um estranho, nem pensar ! A idade também me permite lembrar da última carta que escrevi e enviei, em 1998, de Vancouver para o Rio de Janeiro, a uma amiga que já estava "desatualizada", sem acesso à internet.

Mudam as formas de "encontrar" as pessoas, mas não as preferências. Antigamente alguém tinha antipatia do colega de trabalho que usava uma camisa com o sovaco amarelado (isso no Brasil, onde há criadagem para esfregar a roupa, não na terra onde quem lava tudo é a Maria Brastempleuza) ou daquele cigarro com uma mulher sempre pendurada atrás, que era a secretária do setor e amante do chefe bêbado, casado com uma cirurgiã que operava de graça criancinhas com lábio leporino, pai de três filhos.

Atualmente temos a antipatia virtual. "Nunca a vi, jamais a suportei" nem causa surpresa, dito assim num fórum de debates. E como é possível ter implicância com alguém cuja voz, sotaque, gestos e hálito (bom ou mau) desconhecemos ? Para mim, confesso, o ataque desenfreado à língua de Camões já é meio caminho andado para Implicolândia City. Procuro ler muitos bons livros em português, que o medo de só ler minha língua nativa pela internet e passar a escrever "cheguei aqui a sete anos atraz e naum me arrependu naum" aparece até em pesadelo. De tanto ler bobagens internáuticas, outro dia fiquei na dúvida se o certo era "impecilho" ou "empecilho" e fiquei tão mal que quase liguei para a médica pedindo uma receita de Prozac. Mas navegar é preciso.

Num fórum de debates, pode-se criar antipatia pelo fato de as opiniões de alguém serem sempre conflitantes com as nossas. Se a Fulana gosta de manga e eu não, isso não acende em mim a luzinha vermelha "Pééééim: Chata" ! Ao contrário, se ela defende palmadas educativas, larga o bebê chorando no berço "para aprender a dormir sozinho sem manha", deixa o menino sentado num deprimente andador 2 horas por dia para ela poder receber a manicure em casa, vive comparando seu filho ao da vizinha "que nasceu 2 dias depois e é 3 cm mais alto, 950 g mais gordo, começou a caminhar 2 meses antes e aos 10 meses já falava 'mamãe' em cinco idiomas, inclusive aramaico", o alarme do antipatiômetro vai disparar.

E, como parece que a maioria dos leitores do Iglu é de gente que não me conhece pessoalmente, precisei de um recadinho de uma das leitoras desconhecidas para que a ficha caísse: eu sou uma antipática virtual ! O senso de humor crítico e debochado, aliado à recusa de prestar informações sobre imigração (só se dá o que se tem e eu não sei xongas do assunto, nem quero pesquisar) fez com que a moça ficasse surpresa quando prometi e cumpri no mesmo dia passar uma informação sobre aleitamento materno. Ela respondeu "nossa, quanta atenção ! Você é 'mais' do que aparenta no blog".

Que espécie de pessoa negaria uma ajuda sobre o assunto justamente na Semana Mundial de Amamentação (ou em qualquer outra, quando se trata de algo importante e que dá tanto prazer em ajudar) ? Eu não ! Ah, e não me venham inventar uma Semana Mundial da Imigração, que nessa eu não caio.

08 agosto, 2007

Choque Cultural

Segunda-feira de noite no plantão, em plena cirurgia, meu colega da Jordânia comentava sobre a Parada do Orgulho Gay, ocorrida na véspera. O cirurgião canadense logo perguntou se havia algo parecido no país dele, mas o rapaz foi categórico: "não há gays no meu país". Tentamos argumentar que certamente há muitos, o que não existe é liberdade para expressar abertamente tal opção, mas logo vimos que seria inútil tentar convencê-lo e aí me lembrei da frase de uma grande amiga: "todas as nossas verdades absolutas são culturais".

Morando em Vancouver há sete anos, convivo com pessoas de inúmeras nacionalidades e culturas e aprendi a não mais fazer cara de espanto quanto escuto certas "verdades absolutas", mas nem sempre foi assim. Uma coisa é ler numa reportagem que fazem isso ou aquilo de "exótico" em tal lugar, outra muito diferente é colocar um rosto, um nome e uma voz no personagem. Tudo tem uma dimensão muito maior.

Aqui vai a coletânea de algumas situações vivenciadas por mim, com óbvio choque cultural.

A situação campeã de choque (quase saí eletrocutada) foi a do paciente da Etiópia, que tinha genitália ambígua, foi dado como "menina" no nascimento e submetido à mutilação genital típica do sexo feminino no país. Foi criado como mulher até fugir para o Canadá e conseguir a cirurgia de "sex reassignment". No mais, foram as frases que me surpreenderam:

1- Da colega indiana, que teve seu casamento arranjado pelos pais, mesmo sofrendo por mais de uma década por não conseguir dar à família do marido um herdeiro do sexo masculino: "minhas filhas nasceram aqui no Canadá, mas não quero que elas casem com ninguém que não seja indiano. Nós é que vamos escolher os maridos delas".

2- Da colega descendente de chineses (nascida aqui), que conheceu o futuro marido pela internet e, um mês depois do encontro, decidiu marcar o casamento: "vamos consultar um sábio chinês para ele nos dizer em que data devemos casar. Casamento é coisa muito séria, não dá para arriscar a casar num dia que seja de azar". E esperou mais de um ano, porque o ano inteiro não era "de sorte" !

3- Do pai de uma grande amiga sérvia, grávida, vendo as fotos do chá de bebê dela e fazendo o sinal da cruz: "chá de bebê ANTES do parto ? Deus me livre, que perigo ! Não se deve comprar NADA antes do nascimento do bebê."

4- Da minha colega coreana: "vocês são muito engraçados, ficam morrendo de nojo quando a gente diz que come carne de cachorro. Não se come 'poodle' na Coréia, viu ? Só tem uma raça comestível, de cachorros amarelos, criados exclusivamente para serem abatidos".

5- Da anestesista romena: "Flávia, você que é brasileira me explica o que é 'Brazilian wax'." E, depois da explicação: "Que HORROR ! Para que tirar os pêlos ? Deixe tudo lá, que deve doer muito".

6-Do médico residente árabe: "Mulheres não dirigem na Arábia Saudita e elas acham ótimo. Você, Flávia, iria preferir dirigir ou ter um motorista à disposição ? Se algum dia uma mulher fosse autorizada a dirigir lá, haveria tanto acidente !"

7- Da minha "homestay" mãe canadense, falando das filhas de 6 e 3 anos: "As meninas podem passar esmalte nas unhas do pé, mas nas da mão, nem pensar ! Só quando forem adultas." Nada contra menina SEM esmalte, muito pelo contrário, mas por que no pé pode ?

8- Da minha amiga da Guiana Inglesa, que certamente já abandonou as raízes tropicais: "Bebê e criança só precisam tomar banho uma, no máximo, duas vezes por semana."

9- Da menina canadense de 6 anos, de quem eu cuidei por um tempo: "Flávia, você é muito estranha. Nunca vi NINGUÉM que não soubesse o nome de todas as renas do Papai Noel. Só você !" E olha que eu sabia o Rodolfo, a rena do nariz vermelho !

10- Da mãe de uma das coleguinhas do Pacotinho de Gula na creche (bebezada de 7 a 18 meses), quando viu que o almoço do dia havia sido sanduíche de pão de forma com atum: "O cardápio daqui é super saudável, né ?"

07 agosto, 2007

A Saideira da Semana Mundial da Amamentação

Eu sei, estou parecendo o cara no bar tomando a saideira "só mais uma, a última". A Semana Mundial da Amamentação já se encerrou, mas recebi a foto e queria compartilhar a imagem dos mamíferos maravilhosos que tive o privilégio de conhecer. E porque a gente nunca se cansa de ver uma cena tão emocionante.



Cibele , Felipe e Juliana, 18 meses de amamentação, orgulhosamente fazendo uma participação especial na campanha.

Enfim, a fama. Só fica faltando a fortuna...

Lembro vagamente, logo que me mudei para cá, de alguém ter comentado sobre um programa de rádio narrado em português. Como já faz sete anos e aquele alemão Al vive a me perseguir (o Alzheimer), nem registrei o fato.

Semana passada encontrei uma conterrânea do Quadradinho numa festa de aniversário e ela comentou que é jornalista e faz umas matérias para a rádio. Não, eu não me ofereci para ser entrevistada, tá ? Ela disse que costuma entrevistar brasileiros com casos "interessantes" e, já que não conhecia nenhuma outra enfermeira brazuca em Vancouver, perguntou se eu topava falar (eu já gosto POUCO de falar, então...).

O resultado, com uma voz esganiçada que muda de tom e de ritmo a cada fração de segundos, pode ser conferido na Radio Canada International , basta clicar em "português" e na matéria mais recente.

Quando ouvi, fiquei decepcionada. Sempre achei que eu daria uma boa jornalista, caso quisesse mudar de profissão, mas com aquela voz, sem chance. Nem se eu fosse irmã gêmea da Fátima Bernardes !

Agora vou ficar esperando as próximas, quem sabe ela entrevista alguma brasileira que faça escova progressiva por aqui e aí eu aproveito e levo o Pacotinho de Cachos Rebeldes (tão rebeldes que deram para ficar dourados sob o sol e aí como é que eu me explico ? Tentei dizer que o vizinho é sueco, mas não colou. O Marido Gringo já disse que só mora chinês por perto, então o mistério do Pacotinho de Madeixas Aloiradas permanece).

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu, a cada dia respondendo às dúvidas mais diversas (não sendo sobre imigração, tiramos todas as pulgas detrás das orelhas), esclarece:

Para Deby:
A diferença de idade dos meninos eu não sei exatamente de quantos minutos é. Eles têm datas de aniversário diferentes, porque um nasceu pouco antes e outro logo depois da meia-noite. E são gêmeos idênticos, do tipo que nem os avós que convivem diariamente com eles sabem diferenciar. Tive o privilégio de vê-los ainda recém-nascidos, mamando juntos. De amolecer o coração de qualquer um, né ?

Para Lais Guadanhim (com desculpas pelo atraso):
Quem viu o Goran Visnjic na praia foi o Marido Gringo, por sinal conterrâneo do rapaz, poderia ter tietado na língua nativa. Como informação de homem sobre a beleza de outro exemplar do sexo masculino só é confiável se o informante for gay, ele disse "estava cabeludo, barbudo, mas a mulherada mesmo assim se empolgou toda".

P.S.: Tive uma aluna chamada Taís Guadagnin, quando li seu nome rapidamente levei um susto !

06 agosto, 2007

SAL do Iglu para Bete

O Serviço de Atendimento à Leitora do Iglu explica para Bete:

Mamoplastia redutora não é necessariamente um impedimento à amamentação. Tenho algumas amigas que amamentaram depois de terem feito a cirurgia, mas tudo depende muito de como foram feitos os cortes, se os ductos lactíferos foram preservados ou não. Você vai ouvir casos horripilantes, mas tente concentrar-se nas experiências positivas.

Sugiro que você comece desde agora a pesquisar sobre "sonda de relactação", um método para ajudar mulheres que se submeteram à mamoplastia a amamentarem. Existe muita ajuda gratuita também: site das Amigas do Peito e bancos de leite maravilhosos espalhados pelo Brasil. Se quiser, mande seu e-mail que eu a colocarei em contato com uma amiga especialista em amamentação, que fez mamoplastia, usou a sonda e recentemente desmamou o filho de quase quatro anos.

Espalhando Leite Materno na Net !

Para comemorar o último dia da Semana Mundial da Amamentação (credo, lendo assim parece até que estou feliz porque acabou !), orgulhosamente farão uma participação especial no Iglu uma mamãe linda (estou velha, cuidei dela quando era pequena) e seus dois filhotinhos mamíferos.



Para quem acha que é muito difícil uma mulher magrinha produzir leite suficiente para um bebê, ela esnoba com dois pendurados em posições dignas do Cirque du Soleil. O pai bem queria que eles jogassem futebol, mas não sei não, acho que serão contorcionistas. A primeira foto foi tirada pela mamãe, então talvez a contorcionista seja ela !



Obrigada Beta, Arthur e Pablo, onze meses de amamentação, ajudando a divulgar a nobre e gratificante causa.

05 agosto, 2007

Semana Mundial da Amamentação



Estamos na Semana Mundial da Amamentação e o Iglu, claro, não poderia ficar de fora. A iniciativa da blogagem coletiva no dia 7 de agosto é da Denise Arcoverde, do blog Síndrome de Estocolmo

Na campanha deste ano, promovida em 120 países, o tema é "Amamentação na primeira hora, proteção sem demora". É fundamental que os pais conheçam e defendam o direito do bebê de ser amamentado ao seio na primeira hora de vida, assim quando alguém no hospital aparecer com uma desculpa para levar o neném sadio para longe da mãe depois do parto, eles possam fazer valer esse direito.

Se eu já levantava a bandeira da amamentação exclusiva até os 6 meses (para quem tem a felicidade de ter uma licença-maternidade que dure tanto ou uma orientação adequada para ordenhar e estocar o leite materno, podendo voltar ao trabalho sem precisar introduzir precocemente outros alimentos na dieta do neném) muitos anos antes de ficar grávida, depois de 13 meses amamentando, defendo a causa com mais confiança. Até os 6 meses de idade, o Pacotinho de Gula aqui não tomou nem água, só mesmo o leitinho da Mamãe e as gotas diárias de vitamina D essenciais para quem mora numa terra onde o sol só dá as caras poucas vezes no ano. E segue mamando no peito, contrariando os mitos de que criança que é amamentada até mais "velha" não dorme a noite toda (aos 3 meses já emendava 11 horas seguidas de sono), não come bem (bate pratadas de estivador desde os 6-7 meses) e é muito dependente da mãe (chega na creche e não espera nem o Papai Meloso dar um beijinho de despedida, já vai pro chão fazer bagunça).

Para os completamente desacreditados no Brasil, nunca é demais lembrar que, não só é o país com a mais ampla rede de bancos de leite humano no mundo, como também abriga o maior de todos. E, ao contrário do que acontece em tantos países ditos de Primeiro Mundo, na terrinha as mães não recebem olhares de censura por amamentarem em público.

E vamos divulgar, que a causa é nobre !

Enfim, a fama. Só falta a fortuna !

Lembro vagamente, logo que me mudei para cá, de alguém ter comentado sobre um programa de rádio narrado em português. Como já faz sete anos e aquele alemão Al vive a me perseguir (o Alzheimer), nem registrei o fato.

Semana passada encontrei uma conterrânea do Quadradinho numa festa de aniversário e ela comentou que é jornalista e faz umas matérias para a rádio. Não, eu não me ofereci para ser entrevistada, tá ? Ela disse que costuma entrevistar brasileiros com casos "interessantes" e, já que não conhecia nenhuma outra enfermeira brazuca em Vancouver, perguntou se eu topava falar (eu já gosto POUCO de falar, então...).

O resultado, com uma voz esganiçada que muda de tom e de ritmo a cada fração de segundos, pode ser conferido na Radio Canada International, o site é http://www.rcinet.ca/ , basta clicar em "português" e na matéria mais recente.

Quando ouvi, fiquei decepcionada. Sempre achei que eu daria uma boa jornalista, caso quisesse mudar de profissão, mas com aquela voz, sem chance. Nem se eu fosse irmã gêmea da Fátima Bernardes !

Agora vou ficar esperando as próximas, quem sabe ela entrevista alguma brasileira que faça escova progressiva por aqui e aí eu aproveito e levo o Pacotinho de Cachos Rebeldes (tão rebeldes que deram para ficar dourados sob o sol e aí como é que eu me explico ? Tentei dizer que o vizinho é sueco, mas não colou. O Marido Gringo já disse que só mora chinês por perto, então o mistério permanece).

03 agosto, 2007

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu esclarece:

Para Xará Avassaladora: Acredite se quiser, pelo menos no meu hospital, não se faz uma única cesárea, nem que seja de emergência absoluta, SEM sonda vesical. Quando eu comento que no Brasil não é rotina, observo uma das duas reações: tem gente que acha um absurdo e o resto simplesmente não considera possível, pensa que estou enganada. Lembro da minha professora no curso dizer "sonda é um MUST para cesárea". Um obstetra inclusive me perguntou se o índice de complicações na bexiga não era muito mais alto na terrinha do que aqui.

E não esclarece para Érica: É falta de ética eu ficar falando dos detalhes médicos da moça, mas posso dizer que a data prevista do parto era depois do seu mesmo.

02 agosto, 2007

Paciente Célebre X Enfermeira Tiete

Antes de mais nada, devo esclarecer que não há tietes na minha família. Meu pai sempre fez questão de ensinar que um rabisco num pedaço de papel, por mais que tenha sido feito por um artista famoso, não vale uma noite de espera numa fila muito menos gritinhos histéricos. Ser fã, apreciar o trabalho de alguém é uma coisa, pagar mico berrando em porta de hotel é outra muito diferente, que pode ser resolvida com um certo tipo de medicação. Depois do medo de tornar-se um velhinho senil vestido com bermuda de skatista (este é o maior pavor do meu pai, tanto que vive fazendo os filhos prometerem que ele nunca vai vestir tal bermuda, mesmo que se torne completamente confuso e faça questão dela), o maior pânico dele é de ter um filho ou uma filha "macaca de auditório", nas suas próprias palavras.

Morando em Vancouver, ainda mais no centro, volta e meia a gente vê alguém muito famoso nos Starbucks da vida. Que eu me lembre agora, a lista do Iglu inclui Ben Kingsley (o ator que interpretou Gandhi no cinema), Goran Visnjic (aquele bonitão que faz o Dr. Luka no seriado ER) e Cynthia Nixon (a Miranda do extinto Sex & The City). Se eu não fosse a pessoa menos curiosa do planeta, não caminhasse tão rápido e não ignorasse abertamente os vários sets de filmagem pelos quais passo, provavelmente a lista seria bem mais longa.

Agora imagine alguém que não tem paciência com tietes escandalosas dividindo um plantão com uma colega típica macaca de auditório e uma paciente que é uma "celebridade". Não, não foi a Angelina Jolie que fez uma cesárea no meu hospital hoje, mas a moça que fala da meteorologia no noticiário local. E foi um chilique coletivo no centro cirúrgico !

Logo cedo, a Coleguinha do Fã-Clube perguntou num tom de indignação "você NÃO viu o nome dela no mapa cirúrgico ?" E ainda que eu tivesse lido, não teria ligado o nome à pessoa !

E enquanto a paciente estava a caminho, tive que ouvir "ela é uma CELEBRIDADE, você não está empolgada ?" e respondi à altura "eu também sou, você me vê todo dia e nunca fez esta festa toda". Ela não entendeu, achou que eu estivesse brincando. E ficou suspirando "meu pai vai adorar saber disso, ele é super fã dela". Eu até entendo ser fã de músicos, atores, até do apresentador do telejornal, mas da moça da meteorologia ?

Como é de praxe antes de uma cesárea, separei o aparador de pêlos (um tipo de barbeador elétrico), mas a Fanzoca criticou "DUVIDO que ela precise disso !" (é de conhecimento geral que gente famosa não tem as mesmas necessidades, defeitos e pêlos indesejáveis que o resto dos mortais, tanto fiquei surpresa de ela concordar em separar uma sonda para a bexiga da moça).

A melhor tirada mesmo veio do residente da anestesia. A Tiete perguntou se ele sabia quem era a primeira paciente quando tinha ido falar com ela e ele disse que não tinha idéia. Aí quando a moça entrou na sala, ele tentou corrigir "desculpa, eu falei com você e não sabia que você era famosa". Se fosse TÃO famosa assim, ele saberia...

Para falar a verdade, eu já tinha visto a moça na TV sim. Até a achava meio pancada da cabeça, porque num comercial da emissora repetido à exaustão, ela dizia "eu AMO a chuva de Vancouver, é por causa dela que é tudo tão verde aqui". Coitada, tão simpática, não se pode julgar alguém só porque a pessoa gosta de chuva, né ?

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Queila: Matemática a gente geralmente raciocina não na primeira língua, mas no idioma em que aprendeu matemática na escola. Os filhos de imigrantes nascidos aqui, mesmo os que só aprenderam a falar inglês com 5 anos, já na escola, têm raciocínio matemático em inglês. Até a Cunhada Gringa, que se mudou pra cá quando já estava na terceira série, pensa em inglês quando faz cálculos matemáticos.

Para Fernanda: Pagando mais de 1000 dólares por cabeça, não considero que exista daycare "público" em Vancouver. Não está em greve não.

Para Bete: Sem demagogia, eu acho que independentemente de haver dois pais, duas mães ou um casal "tradicional" na família, o importante é que exista um ambiente de harmonia e amor. Tive um namorado aqui que tinha uma irmã homossexual, casada com uma moça (ambas psiquiatras) e elas adotaram um casal de crianças recém-nascidas. Dois amores, educados e bem amados que provavelmente teriam levado uma vida miserável junto de suas mães viciadas em drogas, mesmo com os pais biológicos juntos. E não há garantias de que uma família nos moldes tradicionais não se transforme, com a morte de um dos pais. Umas das coisas mais importantes para serem ensinadas aos filhos, na minha opinião, é a tolerância. Principalmente em Vancouver, com tanta diversidade !