
Confesso que até uns três ou quatro anos eu sequer tinha ouvido a palavra "hoarder". Conhecia a expressão "pack rat", mas nem sabia que era uma doença. Não sei a tradução em português, porque jamais conheci no Brasil alguém que tivesse o problema. Nem vou creditar o mérito à criadagem, porque lembro que, na minha infância, a única vizinha a não ter empregada era justamente a que tinha a casa mais cheirosa, mais organizada, sempre com uma rosca recheada de coco recém-saída do forno. A qualquer hora do dia em alguém chegasse sem avisar, ela estava calmamente pintando um quadro, com o cabelo cheio de rolinhos (que ela mesma enrolava, claro). Em outras palavras, era a versão tupiniquim da Bree do seriado Desperate Housewives.
Recentemente, apareceu no programa da Oprah um casal que sofria de "compulsive hoarding". Assisti a tudo, horrorizada, pensando "que exagero! Fizeram isso para as câmeras, claro, mas ficou uma caricatura forçada, que na vida real, ninguém é assim". Mal sabia eu...
Esta semana, fui visitar uma colega com um bebê de 4 dias de vida. De origem chinesa, a família dela é fortemente contra a amamentação. Ela, que é a personificação da tranqüilidade milenar oriental (com a bebê sentada, ela optou que o médico a virasse sem anestesia, com 37 semanas de gravidez e sequer reclamou da dor, depois teve o parto induzido com ocitocina 12 dias depois da data prevista e recusou analgesia - se eu acreditasse em Capeta, juraria que foi ele mesmo quem inventou a ocitocina sintética e só quem já tomou o troço em trabalho de parto sabe que não é exagero, enfim, a moça é um ser elevado mesmo) estava ligeiramente preocupada porque o leite ainda não havia descido. O pai dela acusando-a de estar matando a criança de fome. A mãe dizendo que o bebê está com a pele descascando por desidratação e que ela não amamentou nenhum dos filhos e estão todos vivos, para que amamentar? Fui lá com meus livros debaixo do braço (para ela ler, não para socar na cabeça dos pais), dar apoio e reforçar que é normal, meu leite só desceu com 5 dias pós-parto, meu filho era ainda maior que a dela e mesmo assim ganhou o triplo de peso esperado nas 2 primeiras semanas de vida, bla bla bla...
Que choque ao entrar no minúsculo apartamento completamente tomado por tralhas de todos os tipos! Além da geladeira na cozinha, havia duas do tamanho de frigobar na sala. Uma com a porta transparente, abarrotada de garrafas de 2 litros de coca-cola. Dois aparelhos de ar condicionado portáteis, um do lado do outro. Pilhas e pilhas de livros, papéis, caixas, pacotes de macarrão instantâneo, temperos por todos os lados. A cozinha praticamente impenetrável, só estava melhor que a da foto porque havia espaço livre no chão e em cima do fogão. Na sala, uma TV gigantesca, incompatível com o tamanho do lugar (a não ser que assistam de helicóptero, do lado de fora do prédio). De espaço livre, havia o caminho no chão e a superfície da cama e do sofá. Só. Absolutamente tudo tomado por bagulhos (que me perdoe minha já falecida tia mineira, que dizia ao meu primo carioca ser um absurdo alguém chamar "os trem" de bagulho).
Quem me conhece pessoalmente sabe que sou péssima atriz. Meu queixo deve ter caído no chão na entrada e esbarrado em algum pacote de biscoitos pelo caminho. Só consegui dizer "vocês têm bastante coisa, né?", ao que ela respondeu "é porque o D. trabalha em casa, aqui também é o escritório dele". Ah, então está tudo explicado, ele deve estar fazendo uma pesquisa para saber se é possível sobreviver soterrado por entulhos ou então é treinamento para sobrevivência pós-terremoto.
Certamente a bebezinha terá que aprender a voar, porque não há a menor chance de encontrar espaço para engatinhar ou apoiar-se nos móveis, sem que uma tonelada de caixas de CDs caiam na cabeça dela. E os avós maternos estão de implicância com a amamentação e com o fato de que deixam a criança só de fralda o tempo todo ("muito sexy", segundo a vovó)! Fiquei seriamente preocupada com a possibilidade real de eles não encontrarem a menina debaixo dos pacotes de arroz na hora do choro.
A menininha, por sinal, lindinha como os recém-nascidos chineses costumam ser (que me desculpem os nossos filhos, mas os chinesinhos são os mais bonitinhos ao nascer), mamando super bem, enchendo fraldas de xixi e para ficar perfeita, só faltava mesmo uma roupinha bem feminina (ou qualquer uma). Como eu previ, no dia seguinte o leite desceu e meus livros devem ter sido soterrados pelo terremoto dos pacotes de cogumelos secos, mas ela ficou tão agradecida! Um dia vou me tornar consultora da La Leche League, pena que sou bagunceira e não posso ajudar no outro problema dela, mas vi que estou longe de ser uma "hoarder".

