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30 outubro, 2008

Minha amiga "hoarder"


Confesso que até uns três ou quatro anos eu sequer tinha ouvido a palavra "hoarder". Conhecia a expressão "pack rat", mas nem sabia que era uma doença. Não sei a tradução em português, porque jamais conheci no Brasil alguém que tivesse o problema. Nem vou creditar o mérito à criadagem, porque lembro que, na minha infância, a única vizinha a não ter empregada era justamente a que tinha a casa mais cheirosa, mais organizada, sempre com uma rosca recheada de coco recém-saída do forno. A qualquer hora do dia em alguém chegasse sem avisar, ela estava calmamente pintando um quadro, com o cabelo cheio de rolinhos (que ela mesma enrolava, claro). Em outras palavras, era a versão tupiniquim da Bree do seriado Desperate Housewives.

Recentemente, apareceu no programa da Oprah um casal que sofria de "compulsive hoarding". Assisti a tudo, horrorizada, pensando "que exagero! Fizeram isso para as câmeras, claro, mas ficou uma caricatura forçada, que na vida real, ninguém é assim". Mal sabia eu...

Esta semana, fui visitar uma colega com um bebê de 4 dias de vida. De origem chinesa, a família dela é fortemente contra a amamentação. Ela, que é a personificação da tranqüilidade milenar oriental (com a bebê sentada, ela optou que o médico a virasse sem anestesia, com 37 semanas de gravidez e sequer reclamou da dor, depois teve o parto induzido com ocitocina 12 dias depois da data prevista e recusou analgesia - se eu acreditasse em Capeta, juraria que foi ele mesmo quem inventou a ocitocina sintética e só quem já tomou o troço em trabalho de parto sabe que não é exagero, enfim, a moça é um ser elevado mesmo) estava ligeiramente preocupada porque o leite ainda não havia descido. O pai dela acusando-a de estar matando a criança de fome. A mãe dizendo que o bebê está com a pele descascando por desidratação e que ela não amamentou nenhum dos filhos e estão todos vivos, para que amamentar? Fui lá com meus livros debaixo do braço (para ela ler, não para socar na cabeça dos pais), dar apoio e reforçar que é normal, meu leite só desceu com 5 dias pós-parto, meu filho era ainda maior que a dela e mesmo assim ganhou o triplo de peso esperado nas 2 primeiras semanas de vida, bla bla bla...

Que choque ao entrar no minúsculo apartamento completamente tomado por tralhas de todos os tipos! Além da geladeira na cozinha, havia duas do tamanho de frigobar na sala. Uma com a porta transparente, abarrotada de garrafas de 2 litros de coca-cola. Dois aparelhos de ar condicionado portáteis, um do lado do outro. Pilhas e pilhas de livros, papéis, caixas, pacotes de macarrão instantâneo, temperos por todos os lados. A cozinha praticamente impenetrável, só estava melhor que a da foto porque havia espaço livre no chão e em cima do fogão. Na sala, uma TV gigantesca, incompatível com o tamanho do lugar (a não ser que assistam de helicóptero, do lado de fora do prédio). De espaço livre, havia o caminho no chão e a superfície da cama e do sofá. Só. Absolutamente tudo tomado por bagulhos (que me perdoe minha já falecida tia mineira, que dizia ao meu primo carioca ser um absurdo alguém chamar "os trem" de bagulho).

Quem me conhece pessoalmente sabe que sou péssima atriz. Meu queixo deve ter caído no chão na entrada e esbarrado em algum pacote de biscoitos pelo caminho. Só consegui dizer "vocês têm bastante coisa, né?", ao que ela respondeu "é porque o D. trabalha em casa, aqui também é o escritório dele". Ah, então está tudo explicado, ele deve estar fazendo uma pesquisa para saber se é possível sobreviver soterrado por entulhos ou então é treinamento para sobrevivência pós-terremoto.

Certamente a bebezinha terá que aprender a voar, porque não há a menor chance de encontrar espaço para engatinhar ou apoiar-se nos móveis, sem que uma tonelada de caixas de CDs caiam na cabeça dela. E os avós maternos estão de implicância com a amamentação e com o fato de que deixam a criança só de fralda o tempo todo ("muito sexy", segundo a vovó)! Fiquei seriamente preocupada com a possibilidade real de eles não encontrarem a menina debaixo dos pacotes de arroz na hora do choro.

A menininha, por sinal, lindinha como os recém-nascidos chineses costumam ser (que me desculpem os nossos filhos, mas os chinesinhos são os mais bonitinhos ao nascer), mamando super bem, enchendo fraldas de xixi e para ficar perfeita, só faltava mesmo uma roupinha bem feminina (ou qualquer uma). Como eu previ, no dia seguinte o leite desceu e meus livros devem ter sido soterrados pelo terremoto dos pacotes de cogumelos secos, mas ela ficou tão agradecida! Um dia vou me tornar consultora da La Leche League, pena que sou bagunceira e não posso ajudar no outro problema dela, mas vi que estou longe de ser uma "hoarder".

14 fevereiro, 2008

Dirty Valentine's Day Jokes


Dizem que a gente só é mesmo bilíngüe quando entende as piadas de duplo sentido, sem precisar de explicação.

Se você, por motivos políticos, religiosos ou puritanos, não pode ouvir (nem ler) piadinhas sujas, por favor pare por aqui. Testar os conhecimentos de inglês não é tão importante assim.

Então, sem tradução porque não faz sentido em português, aqui vão as piadinhas do Dia dos Namorados que ouvi hoje no trabalho e que arrancaram gargalhadas gerais (a segunda principalmente). Elas me fizeram comprovar que sou mesmo bilíngüe:

"What's sexier than a dozen roses on the piano ?
Tulips on the organ".

"- I say a word, you tell me which bird it reminds you of.
- Eagle.
- Freedom.
- Wisdom.
- Owl.
- Love.
- Dove.
- True love.
- Swallow."

Happy Valentine's Day everyone !

PS: A vantagem de falar bobagens numa segunda língua é que é bem mais fácil, já que as palavras nunca têm o mesmo peso que na língua materna. E quem jamais contaria tais piadinhas em português, escreve essas coisas no blog, sem vergonha.

29 janeiro, 2008

Home of The Lost Souls

Uma coisa que eu acho interessante por aqui é o jeito de as pessoas perguntarem onde fica guardada determinada coisa. No hospital, como precisamos pegar dezenas de coisas por dia antes e durante as cirurgias, nos mais diversos locais, é comum alguém estar com algum objeto e na mão, sem saber onde é guardado. E a pergunta é "where does it live ?" ou como se as coisas "morassem" em algum lugar. Eu já tinha ouvido "where does it go ?", mas "live" sempre me parece engraçado.

E, depois de 7 anos no hospital, achando que já estava acostumada com a expressão "this lives here", tive um acesso de riso quando me deparei com uma caixa, contendo um objeto pouquíssimo usado. Provavelmente quem o guardou nem sabia do que se tratava e colocou uma etiqueta impressa e plastificada do lado de fora:

"Home of the lost souls. Who am I ? Where do I live ?"

Vou adotar a idéia aqui no Iglu. Terei uma caixa chamada "home of the lost socks". Não ter empregada doméstica e ser desorganizada dá nisso: dezenas de meias solteiras, sem par, acumuladas pelas gavetas. Preciso abrir um "site" de relacionamentos para elas.

26 novembro, 2007

Winter Vocabulary 101

Semana passada tivemos os primeiros acidentes causados por "black ice". Aí me ocorreu que a expressão é uma das muitas que aprendi aqui, já que os livros de inglês raramente mencionam que "Mrs. Brown had a car accident due to black ice" e pensei em compartilhar alguns termos pouco comuns aos conterrâneos tropicais:

Black Ice - camada fina de gelo sobre o asfalto, geralmente causada pelo congelamento do orvalho. Agora vai querer explicar isso pro cara que nasceu e cresceu em Manaus, onde é mais fácil encontrar asfalto mole, derretido pelo calor !

Blizzard - tempestade de neve. Dez minutos de "blizzard" transformam completamente uma rua, as casas, as árvores, tudo vira a Vila do Papai Noel.

Flurry - uma queda rápida e fraquinha de neve (é "queda" de neve que se fala ? Em inglês é "snowfall", mas procurei no arquivo do meu vocabulário de candanga e não encontrei).

Frost - geada. Para a esmagadora proporção de gaúchos que compõem a comunidade brazuca aqui, não deve ser novidade.

Frostbite - lesão de pele e do tecido subcutâneo, mais comum no nariz, orelhas e pontas dos dedos das mãos e dos pés, causada por exposição prolongada a temperaturas abaixo de zero. O único jeito de eu ter uma coisa dessas é se houver um acidente e eu ficar presa sob uma avalanche. Eu, por vontade própria, passar o dia na neve, sem todo o equipamento necessário, sem chance ! Aliás, nem com toda a tralha indispensável eu topo entrar numa fria dessas. Convide-me para Cancún ou Natal, que depois a gente conversa.

Hail - chuva de gelo. Pelo menos aqui em Raincouver, onde raramente ocorrem tempestades, parece chuva de granizo, com pedrinhas pequenas de gelo branco. Iuhu ! Alguma coisa que eu já tinha visto antes de vir para cá ! Não que faça falta alguma, que feliz mesmo é o cara que não sabe nada disso porque mora numa praia tropical, onde há sol e calor o ano inteiro.

Raynaud Syndrome - eu nunca tinha ouvido falar nisso, até pisar na neve pela primeira vez e descobrir que eu tenho essa porcaria. Está explicado o porquê de eu detestar o frio ! Tem piorado a cada ano e agora, mesmo sem ter nevado, meus dedos dos pés já estão doendo quando saio na rua.

Slush - gelo ou neve parcialmente derretido. A neve fresca é linda, o slush que aparece quase sempre no dia seguinte (ou no mesmo dia) aqui em Vancouver é que é nojento. Aquele neve misturada com lama, em cima da calçada, faz uma travessia de 10 minutos (no verão) empurrando um carrinho de neném levar eternos 40 minutos de raiva e escorregões.

Snow - nem vou perder tempo tentando explicar as inúmeras variações para neve "wet snow", "fresh snow", "corn snow", "crud" (neve muito dura, imprópria para esquiar), porque, para quem nunca viu, não faz diferença alguma dizer que a neve está fresca, molhada ou boa para esquiar. Ou faz ? Para quem lida com ela por vários meses no ano: sinto muito, tenho pena de você, mas seu lugar já deve estar reservado no Céu. Vale lembrar que "snow" também é uma gíria para cocaína (aprendo mais palavras com os pacientes viciados em drogas do que com os "certinhos").

Em mais um daqueles mistérios inexplicáveis, os canadenses medem a própria altura em pés, mas num ataque de bom senso, falam na quantidade de neve em centímetros. Só assim para compreender quando a metereologia avisa da previsão de "snowfall" para o dia seguinte.

Como diria a turma do Pernalonga: "that's all folks" ! Aguarde, num Iglu perto de você, um vocabulário básico sobre as tralhas necessárias para sobreviver ao inverno com um mínimo de dignidade e sem hipotermia.

02 novembro, 2007

Depois do Halloween

As fantasias de Halloween dos adultos muitas vezes precisam de explicação. À primeira vista, para quem não é fluente na língua (e mesmo para quem é, mas não conhece certos termos e piadas bem específicas), alguns disfarces não fazem sentido algum.

Algumas fantasias "intrigantes" com as quais me deparei foram (explicações no final, tente ver se descobre):

1. Um vestido preto, com várias caixinhas de sucrilhos penduradas, cada uma com uma faquinha atravessada pelo meio.

2. Uma pessoa completamente vestida de preto, com o rosto pintado de preto, óculos escuros pretos, luvas pretas, um copinho de cachaça preso ao bolso da camisa e uma garrafa de brandy (ou whisky) na mão.

3. Uma pessoa vestida de batata, com enchimento de algodão na barriga e argolas de papel crepom verde por cima do algodão (como se fosse uma batata recheada, com "cream cheese" e cebolinha), com uma capa de super-herói nas costas.

Vou ficar só nessas, porque a fantasia de "memória fotográfica" é bem difícil de explicar. E aí ? Algum sucesso ?

1. A cereal killer (em inglês, a pronúncia de "serial" e "cereal" é idêntica).
2. A shot in the dark ("shot" é usado tanto para "tiro" quanto para uma dose de bebida alcóolica no copinho de cachaça).
3. A super spud ("spud" significa "batata", mas "stud" é uma gíria para um homem viril).

Na festinha de Halloween do centro comunitário, havia um monte de borboletas, leões, elefantes, tigres e até dois gambás. Segundo o Pai Nada Tendencioso, o Pacotinho de Halloween era o pirata mais legal de todos. E, para a Mamãe Preconceituosa (sim, descobri que tenho preconceito de fantasia, quando vi um garotinho de 1 ano vestido de vaca, com tetas e tudo, uma garotinha vestida de leão, com juba incluída e achei "estranho"), a fantasia mais original da festa foi a de um bebezinho de uns 40 dias vestido de banana. Como dizem por aqui: "cute as a button" !

03 outubro, 2007

Anaesthetists Hymn

Eu juro que tentei oitocentas e quarenta e sete vezes colocar o vídeo e o comentário no mesmo post, mas não deu. Minha ignorância cibernética é maior que minha vontade, então vai separado:

Para quem nunca assistiu a uma cirurgia com um paciente sedado (cesárea não vale, que a mãe geralmente está acordada), talvez a letra da música não faça muito sentido. Trata-se de uma "inside joke", aquela piada que só é engraçada para quem sabe do que trata o tema. Quando alguém clicou no you-tube durante uma cirurgia cardíaca, as gargalhadas foram gerais e virou a trilha sonora mais comum lá no hospital.

Alguns detalhes que ajudam a fazer mais sentido:
- Propofol, a medicação comumente usada para anestesia geral, é um líquido branco;
- Depois que o paciente adormece e está entubado, o monitor fica ligado mostrando os batimentos cardíacos e os demais sinais vitais do paciente. Principalmente depois que a cirurgia está em andamento, o anestesista geralmente lê jornal, faz palavras cruzadas, bate papo (e, embora não devesse, muitas vezes sai da sala). Quando há necessidade, ele ajusta a altura da mesa cirúrgica ou as luzes em cima do paciente.
- Se o paciente se movimenta durante a cirurgia, o anestesista aumenta a quantidade de gás anestésico ou injeta mais Propofol.

"Everybody wonders what anaesthestists do
While the patient is asleep
Everybody wonders what we do for 3 hours
While that machine goes “beep”
Everybody reckons we drink coffee and we gossip
And we’re generally subversive
Everybody reckons we do crosswords and Sudoku
And we chat with all the nurses
But do you really think that’s all we do ?
Oh, let me tell you now: it isn’t true

‘Cause we sometimes check the screen
And every now and then we write stuff
And if we have to intervene,
We inject a bit of white stuff
And we often do alter the lights
Or the height of the bed
Or fiddle with the radio, change the CD
We even check the patients occasionally
And if they move, we turn up the vapor
Then we go back to reading a paper

‘Cause when the patients sleep,
We just sit and listen to the beep
We just sit and listen to the…

Once upon a time, I took pride in my job
But now I think it’s time to depart
‘Cause I just sit here everyday
And listen to bleeps of the heart"

26 setembro, 2007

Dumpster Diving - um esporte de Vancouver

"Binners Beware: Crackdown looms on dumpster diving". Isso foi a manchete do jornal gratuito Vancouver 24 hours na semana passada. Hein ??? De que estão falando ?

Estão dando um aviso para os "binners" (catadores informais de lixo) de que há uma ameaça de acabar com os "dumpsters" (enormes caixas onde os sacos de lixo são depositados nas ruas).

Aprendi sobre "dumpster diving" com um paciente. Eu chegando cheirosa, de banho tomado, às oito da manhã na enfermaria, vendo o rapaz pela primeira vez e obviamente sentindo o cheiro horrível que exalava por todos os poros da imunda criatura. Benditas máscaras descartáveis ! Ele havia sido submetido a uma cirurgia de retirada do apêndice na noite anterior e pelo cheiro era possível adivinhar seu endereço: a rua. Enquanto eu trocava o curativo, ele pedia desculpas por feder tanto (e olha que eu estava de máscara, se fiz cara de nojo, foi escondida) e me contava que estava "dumpster diving" quando desmaiou e foi trazido ao hospital. Como eu não sabia do que se tratava, ele explicou o óbvio: "você mergulha num 'dumpster' para procurar tesouros no lixo. Você deveria tentar ao menos uma vez, Enfermeira. Eu já encontrei 300 dólares uma vez !" Apesar de a tentação ter sido imensa, não aceitei a sugestão. Os tesouros encontrados costumam ser as embalagens recicláveis, que eles retornam nos supermercados em troca de alguns centavos.

Interessante é o argumento que os "binners" estão usando para protesto contra o fim dos "dumpsters" nas ruas: "A gente faz isso porque é uma forma legal de ganhar a vida. Se eles acabarem com isso, vai haver muito mais gente arrombando carros e casas". Palavras de Doug Trache, que "has been binning in Vancouver for 18 years".

E, quem diria, tenho em casa um "dumpster diver". O Pacotinho de Coleta de Lixo ADORA espalhar tudo pela cozinha...

19 setembro, 2007

Juju

"Yo non creo en las brujas, pero que las hay...!las hay!"

Não se trata do apelido da sua amiga Juliana, Júlia, Judith ou Jurema (aliás, se fosse, eu falaria da minha grande amiga Juliana, só que na nossa idade, "Ju" soa mais apropriado que "Juju", ou será preconceito meu ?), mas de uma palavra que tenho ouvido ultimamente com uma certa freqüência por aqui: juju.

Primeiro foi no Grey's Anatomy (após rever 3 anos da série em 2 semanas, a gente fica íntimo dos personagens e precisa descobrir exatamente de tudo o que eles estão falando), quando disseram que não se deve guardar aliança depois do divórcio porque é "bad juju". E depois no trabalho: um tal de "this is bad juju" pra cá e pra lá. E eu nunca tinha ouvido falar em "juju", "good or bad", mas não deixei por menos:

- juju: 1. Um objeto venerado supersticiosamente e usado como fetiche ou amuleto por tribos do oeste da África. 2. O poder mágico atribuído a tal objeto.

E, claro, na América do Norte, onde em muitos prédios omite-se o número 13 (no meu hospital mesmo, temos 14 salas de cirurgia, de números 1 a 12, depois 14 e 15), não há escassez de quem acredite em "bad juju". No meu prédio, construído por chineses, ignora-se solenemente o número 4. Não há andares 4, 14 ou 24, nem apartamentos com o final 4. Imagina um gringo desses de frente com um despacho de macumba, com farofa e tudo, num cruzamento ! "Bad juju", hein ? Ainda não viram nada...

09 setembro, 2007

Inglês para falar dos filhos dos outros


Quem já foi ao supermercado e torceu o nariz para aquela criança de aproximadamente dois anos, rolando pelo chão e berrando sem parar que tenha o primeiro filho. Se você é daqueles que acham que o seu filho fica chato quando está com fome ou com sono, mas o dos outros é cronicamente insuportável e sem educação, aqui vão algumas palavras básicas para poder falar do pestinha "in English":

"Bully" = metido a valentão, mas covarde e cruel, que tem prazer em agredir e humilhar os menores e mais fracos. É o filho daquela nova namorada do seu primo divorciado (que por sinal você queria apresentar à sua amiga recém-separada), que aterroriza as crianças pequenas nas festas da família. Bate, empurra, abaixa as calças delas em público, coloca pedras de gelo dentro da camisa do seu afilhado e inventa musiquinhas imbecis com os nomes dos seus sobrinhos. Se for o seu filho que faz isso, coitadinho, ele é hiperativo (em inglês, usa-se a sigla ADHD).

"Brat" = pestinha, criança mimada ou irritante. Não é por acaso que o filho do Homer Simpson atende por Bart, é um jogo de letras com "brat".

"Cheeky" = insolente, impertinente, atrevido, malcriado. Aquela pessoinha agradável, que sempre tem uma resposta para tudo na ponta da língua, contrariando o que você educadamente acabou de sugerir é "cheeky" (como eu era assim, sou tentada a dizer que só os mais "smart" conseguem ser "cheeky", mas estamos falando do filho dos outros, então é pura falta de educação mesmo).

"Crabby" ou "grumpy" = mal humorado, rabugento. O anãozinho Ranzinza da Branca de Neve atende por Grumpy, na versão original. Talvez seja regionalismo, mas pelo menos por aqui, "cranky" é mais usado para crianças e "grumpy" para adultos. "Crabby" para todas as idades.

"Cranky" = de mau humor ou, como dizem em algumas regiões do Brasil, "abusado". Alguém cronicamente rabugento pode ser "cranky pants" (adultos inclusive, quem não conhece um Mr. Cranky Pants ?). Um bebezinho chorando por tudo está "cranky" se for filho do vizinho, mas o seu só tem cólica. Uma expressão comum por aqui, que é um jogo de palavras com "crock pot" (panela elétrica que cozinha lentamente) é "crank pot". É difícil numa casa com "toddlers" (crianças de 18 meses a 3 anos) não haver um "crank pot" no final da tarde mas, na sua casa, o mal deles é sono.

"Spoiled" = mimado, estragado. Uma boa combinação é "spoiled brat" ou para meninas mimadas, fresquinhas e consumistas, "spoiled little princess". Se algum dia você achar que seus filhos são "spoiled", certamente é culpa das avós que fazem todas as vontades deles, porque você é uma mãe impecável.

"Sulky" = emburrado. A típica criança pequena que está "sulking" tem os braços cruzados, recusa-se a dizer uma palavra e ainda faz beicinho ("pout"). A típica esposa que está "sulking" é acometida por uma terrível enxaqueca quando o marido, após ter esquecido o aniversário de casamento, decide tentar uma comemoração íntima no quarto (isso duas semanas depois do esquecimento).

"Tantrum" ou "hissy fit" = aquela birra homérica, com direito a uma levantada de pescoço do freguês que estava lá no corredor das verduras, para espiar de onde vêm os gritos histéricos do menino de frente para a gôndola de chocolates. E a expressão utilizada é "to throw a tantrum", então para criticar a filha mimada da sua vizinha, diga, enquanto revira os olhos, com ar de quem tem PhD em Psicologia Infantil, "she is such a spoiled little princess, she's always throwing a tantrum".

"To whine" = gemer, choramingar, fazer manha. Aquele garotinho que fica abraçado com o brinquedo caríssimo na loja, falando com voz chorosa "por favor, compra para mim, compra agora" está "whinning". Você pode cochichar com seu namorado sem filhos "he's a whiner" ou "what a whiny boy" ("whiney" também é correto). Como a pronúncia é a mesma que a da palavra "wine" (vinho), se você quiser levar um chute na canela, pode perguntar ao menino "would you like some cheese with your whine ?"

Resumindo: a adorável criatura, que além de ser um "spoiled brat", é uma "bully" famosa na creche, sai de casa já "cranky", passa no supermercado com o pai e começa a ficar "whiny" pedindo um brinquedo que sabe que não vai ganhar. O pobre pai tenta argumentar, mas quem nasce "cheeky" morre "cheeky". Não convencendo ninguém, ela "throws a tantrum". O pai arrasta o polvo (sim, criança pequena dando birra é mais difícil de ser carregada que um polvo epiléptico) até o carro. E aí ela passa o resto do dia "sulking".

Gente, o intuito do post era falar de vocabulário em inglês, não de servir como método para controle de natalidade !

08 setembro, 2007

Inglês que não se aprende na escola: "grow-op"

Sou uma apaixonada por idiomas. Não sei se já nasci assim ou se foi influência do meu pai. Tenho preocupação em escrever corretamente e os poucos erros ortográficos que cometo em inglês envolvem palavras que nunca vi escritas. Uma vez que alguém me corrige, não esqueço mais. Foi assim com a a palavra "Rumanian" (romeno), que também aceita a forma "Romanian", mas eu tinha escrito "Romenian" e fui salva por um amigo "native speaker".

Em sete anos morando em Vancouver, aprendi a nunca perguntar a um canadense como soletrar uma palavra, já que dependendo dela, poucos poderão ajudar. Já cansei de dizer a duas colegas que "tomorrow" tem dois "r" e não dois "m", mas desisti. A verdade é que inglês é uma língua cuja pronúncia e ortografia nem sempre andam juntas, então muita gente nem tenta escrever certo. Ou alguém acha que faz sentido "bored" (entediado) e "board" (inúmeros significados) serem pronunciados de forma idêntica ? Só depois de morar no Canadá entendi o porquê de existirem tantos concursos de soletrar palavras nas escolas.

Tudo isso para dizer que vou criar um espaço aqui no blog para falar das palavras e expressões úteis em inglês (úteis, porque "it's raining cats and dogs" é uma palhaçada que só se lê em livros para estrangeiros e pode acreditar, morando em Raincouver, o que não falta é expressão para dizer "está chovendo muito"). Isso sem a pretensão de querer ensinar inglês (quem sou eu, vivo com medo de esquecer o português), somente para expandir o vocabulário e compartilhar certas curiosidades.

E hoje vou falar de uma palavra bem popular nos noticiários sobre Vancouver, mas que duvido que sua professora de inglês no Brasil tenha mencionado: "grow-op". "Op" costuma ser a forma curta de "operation". E "grow-op" é o esquema de plantação ilegal de maconha, seja dentro de casa (por incrível que pareça, há 18.000 residências suspeitas em Vancouver) e até dentro de um carro .

Interessante é a forma como a polícia descobre as "grow-ops": pela absurda conta de luz. Na escuridão e no frio que acometem esta terra grande parte do ano, o único jeito de plantação de Cannabis vingar é com holofotes ligados dia e noite. Então, para saber se a casa dos sonhos que você pretende alugar ou comprar aqui já foi uma "grow-op", fique ligado nas pistas . Um filme super interessante que mostra a situação e que não sei como NÃO foi filmado aqui é Saving Grace , que em português recebeu o apropriado título de "O Barato de Grace".

Vou tentar escrever ao menos semanalmente sobre "inglês que não se aprende na escola". Se eu esquecer, alguém aí me dá uma chamada.

20 agosto, 2007

Vocabulary, slang and the whole shebang

Quando me mudei para Vancouver pela primeira vez, em 1998, eu já falava inglês fluentemente. Vim para estudar a língua e, depois daquele teste para avaliar o nível de conhecimento, fui colocada na turma do último nível da escola. A professora ficava impressionada com minha gramática e os coreanos morriam de inveja do meu vocabulário. Minha "hostfamily" canadense vivia elogiando meu inglês e, hoje em dia, vejo o quanto eu sabia pouco. Nada perto do que passou uma amiga brasileira, que na primeira semana na casa da "hostfamily", ligou aos prantos para mim:

- Flávia, preciso desabafar. Buáááááá.... Quero mudar de família.
- O que foi ?
- Hoje de manhã (chuif, chuif), na hora do café, ela foi grossa comigo !
- Como assim ?
- Ao invés de perguntar "how are you ?", ela perguntou "how do you do ?" Agora, imagina alguém virar para você do nada e perguntar "how do YOU do ?" Buáááá...

Ao começar a trabalhar no hospital, eu nunca tinha freqüentado uma única aula sequer de algum curso de enfermagem aqui. O que eu sabia do jargão específico da área havia aprendido estudando para a prova. Na terceira tentativa de passar na prova oral de inglês exigida para obter a licença do Conselho de Enfermagem (por duas vezes, tirei 75%, quando o mínimo requerido é 80% e foi sem dúvida a mais estressante que já fiz, falando com um gravador em segundos cronometrados, numa sala repleta de estrangeiros falando com seus gravadores ao mesmo tempo), obtive a nota máxima: 100%. Mesmo assim, nos primeiros plantões, lembro do quanto eu estranhei certas expressões que hoje uso com freqüência.

Levei uns dois meses para concluir que só em livros as pessoas "vomit" ou "throw up", na vida real, todo o mundo "puke" ou "barf". A comida que causou um piriri não fez mal, ela simplesmente "didn't agree with you". Falando em vômitos e problemas estomacais, "stomach" (ou "tummy", para os íntimos) é uma das palavras com maior variedade de significados em termos anatômicos. Um cara barrigudo tem "a big stomach", uma mulher grávida tem "a baby in her tummy", uma diarréia ou qualquer dor abdominal podem ser uma "stomachache", uma pessoa que faz uma plástica abdominal para tirar as pelancas faz um "tummy tuck" e, pasme, até o órgão estômago é chamado "stomach" ! Mas por incrível que pareça, azia é "heartburn".

As siglas são muito mais comuns na prática que nas aulinhas de inglês. É um tal de ASAP (as soon as possible) para cá, FYI (for your information) para lá, TKVO (to keep the vein open) e DNR (do not ressuscitate), ops, estas últimas só para a turma do hospital ! E tem aquelas que as pessoas não falam, mas escrevem, como BTW, "by the way".

Uma das expressões favoritas no ambiente hospitalar até então desconhecida por mim: "it's gross". No centro cirúrgico, ninguém tem nojo de apendicite supurada, aneurisma roto espirrando sangue, ou fratura exposta. Mas é só aparecer alguém com uma unha encravada para ser arrancada, que o pensamento é unânime: "it's gross" (e é mesmo) !

Adoro principalmente as palavras e expressões que não dizem muita coisa, como "whatever", a resposta preferida de 9 entre 10 adolescentes. Uma mãe me disse que somente depois de 19 anos os filhos voltam a responder às perguntas com outras palavras. Até lá:
- Fulano, quer comer frango ou carne ?
- Whatever.
- Quer peixe, então ?
- Whatever.
- Se você não decidir, vai ter que comer o que eu escolher.
- Whatever.

Na hora de querer alguma coisa, "to want" nem aparece no papo. É tudo "I feel like". Lembro de alguém me dizer "I don't feel like pizza" e, apesar de ter entendido, eu pensei "e quem é que já se sentiu como uma pizza ?"

Eu já há tempos incorporei o equivalente gringo de "tipo assim", o "kind of" (no popular, "kinda"), principalmente no trabalho, quando não lembro o nome certo do que estou descrevendo. "Sabe do que estou falando ? Vem numa caixa, 'kinda' retangular, 'kinda' bege, 'kinda' grande, que vem com uns adesivos 'kinda' compridinhos..."

E tem aquelas expressões que quase sempre podem ser adicionadas ao final de uma lista. Num exemplo hipotético: "Queria ter uma empregada para limpar a casa, lavar, passar, cozinhar, arrumar a bagunça, the whole shebang".

A verdade é que, prestando atenção, todo dia a gente aprende um pouco e às vezes é muito mais fácil ler um livro de 300 páginas do que entender todas as palavras num artigo de jornal, com aquela mistura de gírias, expressões idiomáticas, siglas, "the whole shebang"...

11 novembro, 2005

A Salada dos Gringos

Que o pessoal aqui não conheça maracujá, pitanga e caju (sim, os canadenses pensam que castanha de caju é como noz, jamais ouviram falar de uma fruta acima da castanha) é compreensível. O que me surpreende é que eles não conheçam couve, presente em quase todos os supermercados ou agrião, relativamente comum por aqui.

Muitas palavras a gente não aprende na aula sala de aula, mas somente quando vive num lugar onde inglês é a língua principal. Principalmente coisas que são muito semelhantes na descrição e que só vendo ou provando a gente compreende do que se trata, como salsa ("parsley") e coentro ("cilantro"), marisco ("clam") e mexilhão ("mussel"), avelã("hazelnut") e amêndoa ("almond"). Como descrever noz-moscada ("nutmeg") ou louro ("bay leaf") a uma pessoa que não cozinha ? Eu tive a felicidade de morar numa casa de canadenses que foram donos de restaurante, então aprendi o vocabulário que transcende o básico "alface/espinafre/couve-flor", adquirido nas aulas de inglês. Talvez para alguém que não cozinhe, não seja importante saber a diferença entre espinafre e rúcula nem em português, mas para quem ama culinária, faz falta.

Semana passada o Marido Gringo foi a uma loja de frutas e verduras e eu pedi que ele trouxesse "kale" (couve) e "watercress" (agrião). Ele já comeu várias vezes, mas eu tinha quase certeza de que não reconheceria, então eu tentava em vão descrever algo que se parece com inúmeras outras coisas. Ele reclamou que eu não dava nem um voto de confiança. Daí a pouco ele volta e, da porta, eu avisto os dois enormes pés de alface que se esticavam para fora da sacola do supermercado.
- Isto é alface ! - decretei.
- Não, é couve. Eu perguntei para a moça que trabalha lá.
- E desde quando o povo aqui conhece verduras ? Ela concordaria que era rúcula ("arugula") se fosse isso que você tivesse sugerido.

Inconformada, fui eu mesma ao supermercado (para sair na chuva eterna que tem caído aqui, só com muita vontade de comer couve) e trouxe um pé. Era dia de feijoada, não dá para faltar couve. No caixa, a moça me perguntou:
- O que é isso mesmo ? Preciso saber o nome para cobrar, que não tem código de barras na etiqueta.
- "Kale" - respondi, ciente de que ela não aprendeu e que, da próxima vez, terá que perguntar de novo.

Ensinar vocabulário à população local é algo que certamente não estava na minha lista de pretensões no Canadá.