Até agora, foram 88 cm de neve (medidos no aeroporto) neste mês de dezembro aqui em Vancouver. Provavelmente para quem é de Jasper ou Saskatoon, isso deve ser a cota de três dias no mês de novembro, mas para os vancouverites, já deu.
Depois que você já apreciou o silêncio nas ruas na hora em que a neve está caindo, já tirou as fotos e a criançada já fez seu boneco de neve, considerando que tudo isso leva no máximo 1 hora e meia para ser realizado, tudo poderia desaparecer e o termômetro chegar a 30 graus positivos.
No dia de Natal, na saída da igreja, seu carro atola na neve. Você vê um indivíduo tirando neve da calçada e tem a idéia de pedir a ele a pá emprestada, para desatolar o carro. Ele, no espírito natalino peculiar ao dia, responde: "não empresto, não tenho nada com o seu problema". Você fica ao volante, com sua vasta experiência tropical em tirar carros da neve fofa, enquanto o marido fica empurrando o carro e seu filho de 2 anos e meio grita da cadeirinha "não, Mamãe. Não pega o volante. Só o Papai." Cadê os duendes do Papai Noel quando a gente precisa deles?
Numa cidade que não tem estrutura de apoio suficiente para limpar as ruas e calçadas da neve, fica tudo mais complicado. Ainda assim, em pleno Boxing Day (feriado de 26 de dezembro, a maior liqüidação do ano - até dia 01/01 ainda posso usar o trema), com a neve caindo sem piedade, havia filas de vários quarteirões nas portas das lojas às 06:00 (só sei disso porque trabalhei no plantão noturno e vi as filas na volta para casa). Nem que estivessem pagando para eu levar uma bolsa da Coach, eu sairia na escuridão de manhã para ficar numa fila sob a neve.
Como neve pouca é bobagem, a torneira da cozinha resolve vazar em pleno 26 de dezembro. Feriado, neve caindo como se fosse a Vila do Papai Noel, o encanador cobra 89 dólares só para vir ver se realmente há um problema. Pela bagatela de 400 dólares, ele conserta sua torneira, avisando que está cheio de serviço, com canos congelados e estourados em várias casas. Você passa a considerar a profissão lucrativa para uma próxima vida.
Segundo a primeira página do jornal de ontem, os números de ataques cardíacos aumentam em 25% depois que neva. É o povo sedentário tirando a neve das calçadas (a galera aqui, amadora no assunto, não costuma ter aqueles "snow blowers" e vai na pá mesmo (que não emprestam para ninguém). E para completar, a neve em Vancouver é 50% mais pesada que no interior do país. Minha ignorância no assunto encheria uma biblioteca. Imagina se eu iria ficar pesando neve e comparando entre um lugar e outro!
E ainda há torcida para que neve mais um pouco e a marca de 89-vírgula-alguma coisa-cm de 1969 seja superada. Já deu!
28 dezembro, 2008
23 dezembro, 2008
Let it snow, let it snow, let it snow
O Iglu não fica em Winnipeg, apesar da foto tirada da janela ontem à tarde:
Segundo a ótima matéria do jornal Vancouver Sun de ontem, este é o inverno mais frio em Vancouver desde 1969. E talvez, pela primeira vez desde 1971, o Canadá inteiro tenha um White Christmas (expressão que significa presença de neve no dia de Natal, mas não necessariamente neve fresca daquele dia).
Muita gente pensa que neva muito no Canadá inteiro, mas é que Raincouver, nesta época do ano, nem parece uma cidade canadense. Não fosse tanta chuva, pareceria um pedaço da Califórnia. Enquanto o resto da província e do país está acostumado com dezenas de graus abaixo de zero, aqui quando neva e não derrete tudo no dia seguinte, costuma ser o caos no trânsito.
No domingo, depois de a temperatura ter chegado a -14C em alguns pontos da cidade, enquanto nevava por várias horas seguidas, o Marido Gringo olhou pela janela e disse sinceramente, com um sorriso imenso, "what a nice day". E a cidade estava repleta de pessoas nas ruas, fazendo as últimas compras de Natal (ou, no caso da maioria dos homens, as primeiras), puxando crianças em trenós e até praticando "cross-country ski" nas calçadas. E uma amiga carioca disse que não há nada para fazer quando neva. Como assim?
Segundo recomendação da moça no jornal, é preciso aproveitar o clima. A neve aqui é fofa, porque não faz tanto frio quanto no resto do país, então ela é perfeita para bonecos de neve. Não é tão boa para "snow angels", por ser meio úmida (nas fotos abaixo, para que os tropicais compreendam):


Antes que me estranhem, é claro que eu não troquei minha absoluta preferência por temperaturas próximas à casa dos 30 graus POSITIVOS por este clima congelante, mas para sobreviver com sanidade a um inverno desses, é preciso encontrar otimismo, calçar botas apropriadas (as minhas são aquelas para escalar montanhas de neve), colocar sua "touque" na cabeça (canadense chama touca de "touque"), parar no Starbucks da esquina para abastecer-se de chocolate quente e curtir a caminhada até o trabalho naquele silêncio especial que só acontece nas ruas quando neva. É o que mais gosto na neve: a capacidade de abafar o som. E, óbvio, tudo isso só é possível porque o chinês da acupuntura andou colocando umas agulhas e dando umas bolinhas especiais para eu tomar e melhorar do fenômeno de Raynaud. No seu inglês quase incompreensível, ele me disse que tenho um desequilíbrio entre o sol e a lua e que falta sol na minha vida. Ô novidade!
E para comemorar este Natal Branco, aqui vai uma notícia de hoje para os que acreditam: Papai Noel acaba de ser declarado cidadão canadense. Desculpem aí, noruegueses.
21 dezembro, 2008
Dois anos e meio
"Filhotinho,
Semana passada você completou 2 anos e meio de idade. Começou na aula de ginástica aqui na esquina de casa, que você chama de "nática". Sem querer ser coruja, você é a única criança que consegue subir nos aparelhos sem ajuda e ainda fica de cabeça para baixo nas barras assimétricas e nas argolas (Vovô teria uma parada cardíaca se visse as fotos). Fica tão elétrico quando chega lá, que nem consegue ficar sentado para ouvir as instruções da professora e já sai fazendo tudo sozinho. Conta de 1 a 10 em inglês e em português antes de se atirar na piscina de bolinhas (imagino que, quando você vai com o Tata, conta em servo-croata ao invés de português). O pai de uma das crianças comentou o quanto você gosta de cantar, porque vai cantando bem alto enquanto faz os exercícios.
Tem nevado muito este inverno. Neste exato segundo, está nevando bem forte, cada flocão! Você adora brincar na neve. Está com as bochechas e o queixo queimados de frio, até compramos um creme especial ontem (Mamãe Tropical não tinha a menor idéia do que usar numa situação dessas). A professora da creche disse que você é o mais empolgado da turma para brincar na neve. "Muita neve árvore, Mamãe" (suas frases estão cada vez mais longas, mas ainda em transição para sair da linguagem telegráfica).
Você canta direitinho o refrão de Jingle Bells, mas se Mamãe tenta cantar junto, você diz "não, Mamãe. Sloba". Provavelmente Sloba é quem canta essa música na creche e você talvez pense que é só dela. Aliás, esta semana ela comentou o quanto você é independente. Tira a roupa de neve sozinho e só aceita ajuda para tirar os sapatos.
Você é muito preocupado com a posse dos objetos. Mamãe, desorganizada que só ela, vive perdendo as toucas e usando uma touca do Tata. Como ele só passou a precisar delas agora que começou a nevar e Mamãe vem usando-a há uns 40 dias ou mais, toda vez que o Tata coloca a touca na cabeça, você reclama. "Não, Tata. É da Mamãe". Sabe de quem são todos os sapatos, roupas e objetos de uso pessoal. Na dúvida, tudo de novo que encontra pela casa e não sabe a quem pertence, você pergunta "quem é esse, Mamãe?". E, se por exemplo a resposta for "é um envelope", você imediamente completa "envelope Daniel". Se não sabe de quem é, avisa logo que é seu.
Montamos a árvore de Natal dia 1 de dezembro. Você ficou tão feliz! Queria pegar os enfeites nos primeiros dias, mas agora passa perto e diz "carinho", alisando os galhos delicadamente.
Você adora seus DVDs da Turma da Mônica. Sabe o nome de todos os personagens e seu favorito é o Zé Vampir. Você pede "Copiro, Mamãe". "É VAM-PI-RO, Filhote". "Muito bem, Mamãe". Mas não repete o certo.
Ninguém mais consegue ir ao banheiro e usar o vaso nesta casa sem ser aplaudido por você.
Mamãe e Tata adoram quando você escuta uma música e dá pulos de alegria (o que acontece todas as noites, quando assiste ao seu favorito Mighty Machines). Você tem muita facilidade para aprender músicas e canta as trilhas de abertura dos desenhos Go, Diego, Dora, The Explorer, Bob, The Builder e, claro, do Mighty Machines. É fascinante a capacidade infantil de expressar alegria com o corpo todo que, infelizmente, as pessoas perdem quando vão crescendo. Mamãe acha que muitos adultos reclamam do barulho e da vivacidade das crianças por pura inveja.
Tentamos tirar uma foto sua com o Papai Noel no Wal-Mart, o mesmo local do ano passado. Você não quis. Ontem fomos a um outro lugar e você viu que as crianças ganhavam um "candy cane" após a foto. Fez questão de ficar na fila. Quando chegou sua vez, foi direto avançar na caixa de pirulitos e sequer olhou pro Papai Noel. Sentou no colo dele e fez uma cara feia, mas saiu todo contente com o seu "piilito Papai Iel".
Tem dias em que você cisma que quer sair de carro, o que só fazemos nos finais de semana. Aí você arruma uma briga para não levar o carrinho e fica dizendo pro Tata "ne kulica" (carrinho não), achando que, se não sair de carrinho, necessariamente irá de carro.
Você não gosta de falar ao telefone. Repete o que pedimos que diga e logo entrega o aparelho para outra pessoa.
Você adora que venham visitas aqui em casa. Deve fazer uns dois meses que a Nicole e a Rafa vieram almoçar conosco e ontem você estava perguntando se elas iriam chegar. Quando a Zoi vem, você passa o resto da semana dizendo "Zoi vai chegar".
Mamãe pintou as unhas de vermelho e, quando você viu, falou "machucou. Tadinha Mamãe" e apressou-se em dar um beijinho. Num outro dia, escondeu-se debaixo do lençol com o esmalte Rebu e pintou as próprias pernas de vermelho, aí veio dizendo "machucou. Band-aid. Dá um beijinho, Mamãe". Claro que não colou, mas a peraltice manchou de vez a roupa de cama e Mamãe nunca mais deixou a bolsinha de esmaltes dando sopa.
Você tem acordado muito tarde. Agora são 10:30 e você ainda está dormindo. Mamãe vai tirá-lo da cama agora. Os pais da sua amiga Zoi, que acorda sempre às 06:00, dizem que somos muito sortudos por você acordar tarde, mas durante a semana, quando é hora de sair para a creche e você ainda está sonhando, Tata não se acha nada sortudo.
Já com muita saudade desta fase musical em que tudo vira cantoria,
Mamãe".
19 dezembro, 2008
Miguxa Por Um Dia
Uma leitora que assinou como Juliana corrigiu-me hoje, alertando-me para o fato de que não existe a palavra "brilhoso". Ainda bem que fui corrigida, morro de medo de virar miguxa e passar a escrever em fofolês (cá para nós, acho que a mineirada da minha família sempre falou "brilhoso" e nunca fui checar se a palavra existia ou não, mas agora posso creditar tudo ao fato de estar exilada em terras congelantes - hoje, literalmente, com o termômetro marcando 6 graus negativos às quatro da tarde). Longe do Brasil e bombardeada diariamente pelas pessoas preocuLpadas, anCiosas, canÇadas, o que mais me incomoda é realmente a atual tendência miguxista. Seria contagioso o miguxês?
Como o São Google é o santo padroeiro da minha ignorância, descobri que já existe tradutor para o miguxês ou fofolês, é o miguxêitor
e, para quem não conhece, ele é capaz desta façanha:
Miguxês arcaico
amigo leitor,
como 1 pessoa sem msn (como eu) pode manter-se atualizada nesta nova linguagem, absolutamente essencial a comunicacao atual?? o q seria do meu fofoles sem o miguxeitor??
como ficariam capitu e bentinho descritos nesta linguagem fantastica?? machado nao sabe o q perdeu...
Miguxês moderno
migu leitor,
komu 1 pessoa sem msn (komu eu) podi mante-c atualizada nesta nova linguagi...absolutamenti essenciau a komunicassaum atuau??!?! u ke seria du meu fofoles sem u miguxeitor??!?!
komu ficariam kapitu i benteenhu discritus nesta linguagi fantastica??!?! maxadu naum sabe u ke perdeu..................
Neo-miguxês
miGuxXxu lEiTOR,
koMU 1 pEXXoAH seM mSn (KoMU Eu) PODI mANTe-si atUalIZaDAH nestaH nOvAH LinGuagi...aBSoLutAMEnti eXXEncIAU a kOMuNICAXXaum aTuAu??!?! u KI SERiah DU mEu FofoLeIxXx seM U mIgUxXxEiTOr??!?!
KOmu FicarIAM KaPItU I bEntEEnhU DIscRiTuxXx NeSTAh lINguagi FAnTaStiCAh??!?! mAxXxadu NAUm sabe U ki pERDeU..................
Como o São Google é o santo padroeiro da minha ignorância, descobri que já existe tradutor para o miguxês ou fofolês, é o miguxêitor
e, para quem não conhece, ele é capaz desta façanha:
Miguxês arcaico
amigo leitor,
como 1 pessoa sem msn (como eu) pode manter-se atualizada nesta nova linguagem, absolutamente essencial a comunicacao atual?? o q seria do meu fofoles sem o miguxeitor??
como ficariam capitu e bentinho descritos nesta linguagem fantastica?? machado nao sabe o q perdeu...
Miguxês moderno
migu leitor,
komu 1 pessoa sem msn (komu eu) podi mante-c atualizada nesta nova linguagi...absolutamenti essenciau a komunicassaum atuau??!?! u ke seria du meu fofoles sem u miguxeitor??!?!
komu ficariam kapitu i benteenhu discritus nesta linguagi fantastica??!?! maxadu naum sabe u ke perdeu..................
Neo-miguxês
miGuxXxu lEiTOR,
koMU 1 pEXXoAH seM mSn (KoMU Eu) PODI mANTe-si atUalIZaDAH nestaH nOvAH LinGuagi...aBSoLutAMEnti eXXEncIAU a kOMuNICAXXaum aTuAu??!?! u KI SERiah DU mEu FofoLeIxXx seM U mIgUxXxEiTOr??!?!
KOmu FicarIAM KaPItU I bEntEEnhU DIscRiTuxXx NeSTAh lINguagi FAnTaStiCAh??!?! mAxXxadu NAUm sabe U ki pERDeU..................
17 dezembro, 2008
SAL do Iglu para Juliana
O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde para Juliana:
Se você está no orkut, sugiro procurar a comunidade Soluções Para Noites Sem Choro, com dicas práticas para as situações que você citou. A leitura do livro homônimo também pode ser útil. Este texto do Dr. Sears, se você ainda não conhece, é fundamental para compreender a diferença entre os ciclos de sono de um bebê e de um adulto.
Quanto às mamadas noturnas, sei que muitas pessoas acreditam que exista uma determinada idade para serem retiradas, mas há variações imensas e vários fatores a serem considerados. Com 3 meses, só mamando no peito, o Pacotinho de Sono aqui dormia 11 horas seguidas sem acordar nenhuma vez para mamar. E, quando isso aconteceu, a Mamãe acordava várias vezes para ver se ele estava vivo. Eu até hoje acordo várias vezes de noite para tomar água, principalmente no inverno, com os aquecedores tornando o ar tão seco. Já durmo com a garrafa na mesa de cabeceira, hábito de quem cresceu em cidade com clima quase desértico. Talvez seu bebê sinta sede e não fome de noite. Alguns bebês acordam de noite para mamar porque não conseguem adormecer sem estar sugando o peito e, quando despertam no ciclo de sono leve, precisam mamar uns 2 minutos para pegar no sono novamente (se for o caso, o livro e a comunidade que citei ensinam um método chamado "remoção gentil"). Por volta de 8 meses de idade, acontece a ansiedade de separação, quando o bebê descobre que é um ser separado da mãe e muitas crianças que já dormiam a noite toda voltam a acordar para ver se a mãe está presente. De qualquer forma, se a situação não incomoda a família, não é um problema que seu bebê acorde de noite ou seja embalado para dormir. Nós aqui gostamos de embalar o neném para dormir, sempre sentamos na cadeira de balanço com ele, já com saudades de quando ele crescesse e não quisesse mais pegar no sono assim.
Se você está no orkut, sugiro procurar a comunidade Soluções Para Noites Sem Choro, com dicas práticas para as situações que você citou. A leitura do livro homônimo também pode ser útil. Este texto do Dr. Sears, se você ainda não conhece, é fundamental para compreender a diferença entre os ciclos de sono de um bebê e de um adulto.
Quanto às mamadas noturnas, sei que muitas pessoas acreditam que exista uma determinada idade para serem retiradas, mas há variações imensas e vários fatores a serem considerados. Com 3 meses, só mamando no peito, o Pacotinho de Sono aqui dormia 11 horas seguidas sem acordar nenhuma vez para mamar. E, quando isso aconteceu, a Mamãe acordava várias vezes para ver se ele estava vivo. Eu até hoje acordo várias vezes de noite para tomar água, principalmente no inverno, com os aquecedores tornando o ar tão seco. Já durmo com a garrafa na mesa de cabeceira, hábito de quem cresceu em cidade com clima quase desértico. Talvez seu bebê sinta sede e não fome de noite. Alguns bebês acordam de noite para mamar porque não conseguem adormecer sem estar sugando o peito e, quando despertam no ciclo de sono leve, precisam mamar uns 2 minutos para pegar no sono novamente (se for o caso, o livro e a comunidade que citei ensinam um método chamado "remoção gentil"). Por volta de 8 meses de idade, acontece a ansiedade de separação, quando o bebê descobre que é um ser separado da mãe e muitas crianças que já dormiam a noite toda voltam a acordar para ver se a mãe está presente. De qualquer forma, se a situação não incomoda a família, não é um problema que seu bebê acorde de noite ou seja embalado para dormir. Nós aqui gostamos de embalar o neném para dormir, sempre sentamos na cadeira de balanço com ele, já com saudades de quando ele crescesse e não quisesse mais pegar no sono assim.
Abaixo os Lavadores de Calçadas!

Existe uma categoria de pessoas que sempre me causou antipatia: os lavadores de calçadas. Uma pessoa que cresceu num apartamento em Brasília dificilmente verá um morador lavando a calçada em frente à sua casa, a menos que viaje para outra cidade. E foi durante as várias férias em Minas Gerais que eu vi as primeiras pessoas de mangueira em punho, jogando água e conversa fora todos os dias. Desde os 5, 6 anos, lembro de perguntar inconformada ao meu pai "mas por que este povo fica lavando a rua?"
A explicação oficial é que a água serve para diminuir a poeira na rua (sim, alguns não contentes em lavar a calçada somente jogam água nos paralelepípedos da rua) e, conseqüentemente, dentro de casa. Provavelmente o hábito já está tão arraigado que faz parte da cultura local, é uma atividade social bater papo com a vizinha que também desperdiça água ao mesmo tempo.
Achei que em terras quase árticas eu estaria livre desses indivíduos. E eis que ontem, às sete da manhã, com a lua clareando o breu do céu e os termômetros marcando três graus NEGATIVOS, vou a pé para o trabalho. Vejo de longe uma calçada brilhosa, coberta de gelo e fico pensando "de onde saiu isto? Faz mais de 48 horas que não neva". Vou caminhando pela rua (calçada cintilante é sinal para desviar se não quiser levar um tombo) e encontro na esquina uma criatura com a mangueira ligada, despejando água e transformando a passagem numa pista de patinação no gelo. Eu deveria ter perguntado o propósito daquilo, mas não tinha tempo para parar.
Que saudade do povo que lava a calçada com temperaturas acima de 30 graus positivos! E como a metereologia prevê 10 dias abaixo de zero, é preciso mudar de calçada. Para quem mora em qualquer outro lugar deste país, somente 10 dias abaixo de zero em dezembro é um sonho. Tudo é uma questão de referencial...
13 dezembro, 2008
Louse, lice, nits...

A menos que você more numa base espacial, muito provavelmente algum dia durante a infância dos seus filhos, você vai se pegar procurando piolhos na cabeça deles.
É um reflexo universal. Se quiser testar, experimente dizer em voz alta numa sala cheia de gente: "Fulaninho está com piolho". Imediatamente todos começam a coçar a cabeça. E que jogue a primeira lata de Neocid quem nunca dormiu com uma fralda amarrada na cabeça!
Então você lê no jornal que este ano o surto de piolhos em Vancouver está maior do que nos anos anteriores. E que há alguns tipos resistentes aos medicamentos tradicionais! "Bobagem, estou lendo só por curiosidade e para aprender vocabulário - taí, agora já sei que lêndea é 'nit', que o singular de 'lice' é 'louse'- mas eu lavo a cabeça da prole todos os dias, estamos livres disso".
Na semana seguinte, você chega na creche e a diretora avisa "we have one case of head lice" (olha, você já aprende que eles falam "head lice" e não somente "lice"). Você é instantaneamente acometido de uma comichão capilar incontrolável. Nenhuma das crianças coça a cabeça, talvez o reflexo só apareça depois de uma determinada idade.
Você vasculha os cachos do seu filho que teima em brincar com um trator. Pelamordedeus, numa situação dessas, quem tem cabeça para brincar? E você encontra um negocinho pretinho altamente suspeito. Lembra-se vagamente de uma empregada antiga, que sabia diferenciar lêndeas vivas das mortas, mas nem perde tempo procurando lêndeas. Uma coisa puxa a outra, lembra-se também da sobrinha de 4 anos, que quando soube que "lêndea" era ovo de piolho, perguntou com voz melosa "ai, que bonitinho! Depois nasce um piolho bebê?".
Já liga pro Marido e diz pra ele comprar o medicamento na farmácia no caminho de casa. Ah, não esqueça o pentinho! "Que pentinho?" - pergunta o desavisado. E ele ainda pede para você guardar os piolhos que encontrar, que quer saber como é a cara deles. Surreal.
Ao ler a bula, você descobre o tamanho da sua ignorância piolhística e comenta com o Marido:
- Os piolhos podem variar desde a cor bege até preta. Você sabia disso?
- É mesmo? Achei que eles fossem sempre BRANCOS.
- Brancos? De que planeta você veio? Achei que fossem sempre PRETOS! Estes beges devem ser uma variação nazista para esconderem-se em cabelos loiros, só pode. Piolho-camaleão camuflado.
E toca a lavar lençol, fronhas, toucas, toalhas, tudo em água quente. Eu, hein? Vai que seu pai estava certo e aquele papo de terem encontrado 20 espécies diferentes de piolhos na cabeça do Bob Marley não é papo de cabeleireiro!
08 dezembro, 2008
Coisa boa é ter irmã!

Duas irmãs fanáticas por sol, calor, praia e mordomia, mas vivendo em hemisférios diferentes discutem os planos para o fim de ano. Gostam de praia sim, mas são urbanas até o último fio da escova progressiva. A exilada puxa o assunto:
- Vocês vão para onde no Natal?
- Vamos para um resort que Fulano e Beltrana escolheram.
- Que legal!
- Pois é, eles me acham "a fresca", então disseram super empolgados que eu iria amar.
- Por que? É um lugar chique?
- Não, porque é "resort". Eles acham que, se tem a palavra "resort" no meio, faz o meu estilo.
- E existe resort pé-sujo?
- Eu entrei no site, parece bem legal, só tem uma coisa que está me preocupando.
- O quê?
- É um ECO resort.
- Ihhhh...
- Pois é. Eu até tremi quando li "eco". Odeio tudo que seja "eco": trilhas, descida de cachoeira, rapel...
- Perereca, lagartixa, morcego, cobra...
- Pernilongos te deixando anêmica, besouro, aranha...
- Pescaria, minhoca, peixe pulando no balde dentro do barco...
- Subida de morro no sol escaldante, povo fazendo xixi no matinho com o bumbum cheio de carrapicho...
- Tenho até um troço se alguém vier perguntar se quero fazer uma trilha!
- Pode me incluir fora dessa.
Nada como conversar com quem compreende a gente. Quem já ouviu a Santa Irmã descrever as férias em Fernando de Noronha prefere passar a lua-de-mel em Alcatraz.
06 dezembro, 2008
As Festas de Confraternização
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Chega dezembro e, com ele, a época de festas de confraternização nas empresas. Para algumas imigrantes brasileiras, o lance é mais ou menos assim:
1- Primeiro ano no Canadá: você jura que houve um erro de digitação no convite e que não é possível que tenham marcado o jantar para seis horas da tarde. Você se arruma toda, paga uma fortuna para fazer o cabelo no salão, usa um vestido chique e sai de casa achando ótimo finalmente ter uma oportunidade de ir a uma festa elegante. Chega às 20:00, ainda achando que será a segunda a chegar e só encontra o esqueleto do peru e uns pedaços quebrados de "cheesecake"(que, cá para nós, tem gosto para tudo mesmo, como tem gente que come aquilo? É até bom que tenha acabado, onde já se viu sobremesa sem chocolate ou leite condensado?). Você lembra de já ter visto mais gente bem vestida na reunião de condomínio do seu prédio no Brasil, quando descobre que virou ponto de referência. Alguém pergunta "onde fica o banheiro?" e outro responde "passando aquela moça arrumada ali, vire à esquerda". "O bar fica por aqui?" "Logo atrás da moça de longo, com o cabelo preso".
2- Segundo ano no Canadá: você não faz o cabelo no salão, usa um vestido menos longo, mas pensa em pintar as unhas do pé de vermelho (sinal indiscutível de que já está virando gringa). Chega às 19:00. Já encontra a fila formada para o bufê. Não tem mais nenhum lugar vazio na mesa dos seus colegas de trabalho preferidos e você tem que se sentar com aquele anestesista simpático, mas que, pelo cheiro, deveria ter pedido ao Papai Noel um sabonete e um desodorante. E, claro, nem no dia da festa ele pensa em tomar banho! Você lembra de dar graças aos Céus por trabalhar num lugar onde o uniforme obrigatório é lavado e entregue diariamente, porque se o cara fede assim trocando de roupa todo dia, imagina se ele usasse a roupa de casa? Você interrompe seus devaneios, levanta-se para respirar ar puro e vai para a pista dançar YMCA, com aquela coleguinha que está para se aposentar, já passou dos 60 e, pelo visto, das 60 doses de bebida. Você sonha em ser igual a ela quando chegar lá.
3- Terceiro ano no Canadá: às 17:30 você já está estressada porque o marido ainda não está pronto. Às 18:00 em ponto, você chega ao local da festa. Este ano, decidiram que não haveria mesas, nem jantar, só aperitivos (por isso é que os convites custaram menos da metade dos anos anteriores). Macaca velha, até já sabe o que esperar de salgadinhos básicos: rolinhos primavera, frango no palito com curry, camarão espetado, tudo com molho muito apimentado. E, de sobremesa, uns quadradinhos de cheesecake com gosto de nada misturado com coisa nenhuma. Os colegas vestem-se como sempre se vestiram nessas ocasiões, mas você acha todos muito chiques. Até elogia as unhas azuis da chefe da obstetrícia! Fica na dúvida se calça com paletó e tênis, sem gravata, fica elegante para os mais altos. Ainda não consegue achar normal terno com gravata de personagens de desenhos animados, mas nada que mais 2 anos em terras canadenses não revertam.
4- Oitavo ano no Canadá: você sai direto da sua festa às 20:30 e vai para a festa da empresa do marido, na mesma noite. Fica apreensiva por terem escolhido um restaurante na beira da praia quando os termômetros marcam 5 graus positivos. Suas suspeitas confirmam-se na entrada: o local de deixar os casacos fica a alguns metros de distância da entrada do restaurante e não há passagem por dentro. O trajeto sem casaco é feito ao ar livre. Em estado avançado de hipotermia, tenta ler o termo de compromisso que o marido é obrigado a assinar na entrada, antes de receber 2 bilhetes dando direito a uma bebida alcoólica cada. "A festa é organizada pela empresa, mas você não é obrigado a participar. A empresa pagou o trajeto de táxi na ida e na volta. A empresa forneceu 2 bilhetes para bebidas, mas você bebe voluntariamente e ela não se responsabiliza pelo quanto você vai beber, bla bla bla..." Seu cérebro deve ter congelado e você talvez esteja tendo uma alucinação auditiva. E não é que escuta o marido dizendo que acha tudo normal, afinal de contas, se você organiza uma festa na sua casa e um convidado bebe todas, depois sai e atropela alguém, a culpa é do anfitrião e não do bebum irresponsável? Não fosse sua situação quase parkinsoniana de tremedeira, você até iniciaria uma discussão sobre os limites do politicamente correto, mas a prioridade agora é encontrar um aquecedor e abraçá-lo. Você senta debaixo de um aquecedor e incontáveis passantes reclamam do calor, um garçom alerta que seu cabelo pode queimar, finalmente alguém traz um cobertor. Você vê uma fila imensa para um bufê de crepes feitos na hora, cada um do tamanho de uma hóstia, com uma colherzinha de chá de recheio de frutas e duas microgotas de calda quente de chocolate. Você enfrenta a fila embrulhada no cobertor e degusta aquela sobremesa achando tudo farto e delicioso. Quanta gente elegante! Que festão!
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