28 agosto, 2008

O Pacotinho de Adolescência

É impressionante a semelhança entre os comportamentos de uma pessoa aos dois anos de idade e durante a adolescência. O Pacotinho de Independência, desde que voltou do hospital, tem como frases preferidas "não,... leave it" ou "..., don't do that"(... varia, citando o nome de qualquer adulto que esteja por perto). Ele sabe de tudo, não tem medo de nada, considera-se invencível, acha que consegue fazer qualquer coisa sozinho, entra para o quarto e fecha a porta para ninguém ir atrás. Quer monopolizar o telefone e a TV, só lhe faltam as espinhas!

Uma grande diferença é que ele ainda assume a responsabilidade por tudo o que acontece de errado, ainda que não seja culpa dele. Responde dizendo o nome e apontando para o peito a qualquer pergunta que comece com "quem?". Quem entornou? Quem derrubou? Quem quebrou? Quem rabiscou? Esta parte não precisa nem esperar a adolescência para mudar, se ele tivesse um irmão mais novo, certamente o culpado seria o caçula.

Apelidado de "Filhotinho" desde que nasceu, enquanto os pais não chegavam num acordo quanto ao nome do menino e depois graduado a "Filhote", deu uma bronca em si mesmo esta semana. Depois de derrubar alguma coisa que estava na mesa, pôs o dedo indicador em riste e disse "oh, my goodness! Filhote, don't do that!".

23 agosto, 2008

É ouro do Brasil no voleibol feminino!

Para que, como eu, não pôde ver após o jogo a entrega da medalha, porque a TV gringa não mostrou.

20 agosto, 2008

All Done. Acabou. Gotovo.

O Pacotinho de Falta de Ar teve alta do hospital ontem. Nas palavras do próprio, "all done. Acabou. Gotovo." (a última em servo-croata, significando a mesma idéia). Ainda cansadinho, tossindo muito, fazendo nebulização em casa (ao primeiro sinal da máscara ele diz "I don't want that, quer não", mas adora puxar o aparelhinho pelo fio, como se fosse um cachorrinho arrastado pela coleira) e aguardando melhoras. Saiu do hospital um verdadeiro Pacotinho de Ordens: "Patato. I need it!" (pedindo os sapatos para ir embora).

O diagnóstico da alta foi algo que soa chique, mas que no fim das contas não esclarece muito "reactive airway disease with upper respiratory tract infection (URPT)". Eles não podem diagnosticar asma somente com uma crise, mas tudo indica que a tendência é esta.

Nestes três dias no hospital "dos outros", posso elogiar muito o atendimento, a limpeza e o discernimento dos profissionais em não realizar exames e tratamentos desnecessários. Nenhum procedimento invasivo foi feito, ainda bem. Mesmo a radiografia só foi feita após duas nebulizações sem melhora do quadro. Fomos muito bem tratados. De negativo, somente a falta da fisioterapia respiratória, o que seria indicado. De qualquer forma, providenciamos para que ele soprasse muitas bolhas de sabão.

Agora estamos a esperar a recuperação, a consulta com a pediatra na segunda-feira e, neste meio tempo, uma consulta com um médico homeopata em quem confio muito. Em plena crise, não deu para evitar os corticóides e salbutamol, mas a médio prazo, espero que sim.

Obrigada pelas mensagens de carinho.

18 agosto, 2008

Um Pacotinho de Ziquezira no Hospital

"Filhotinho,

Hoje voce completa 2 anos e 2 meses. Infelizmente, estamos internados no Children's Hospital desde domingo. Depois do que parecia mais um resfriado de tres dias, no domingo voce amanheceu com muita falta de ar. Mamae nao quis apavorar ninguem, mas naquela hora viu que nao era somente o "resfriado do mes". Fomos a uma "walk-in clinic" e a recepcionista, sem nem olhar para a sua cara, disse que a lista estava muito cheia, para procurarmos outra clinica. Viemos direto para o hospital.

No departamento de emergencia, a enfermeira bateu o olho em voce e fez cara de preocupada. Em menos de dois minutos, voce jah tinha sido examinado e Mamae jah fazia a ficha da sua internacao.

Voce chorava muito a cada vez que alguem vinha ascultar seu peito. E foram muitas pessoas! Um anjo de enfermeira ouviu a Mamae comentar "deviamos ter trazido o DVD player portatil" e imediatamente apareceu com uma TV, um DVD player e varios DVDs, inclusive seu favorito Mighty Machines. Ainda bem, porque senao a nebulizacao teria sido uma tortura. Todos foram muito gentis e elogiaram seus cabelos cacheados, mas voce nunca chorou tanto na vida.

Depois de duas nebulizacoes, seu coracao disparou. O aparelho mostrava inacreditaveis 225 batimentos por minuto e Mamae podia senti-lo quase pulando fora do seu peito. Voce comecou a tremer muito e ficou meio letargico. Para completar, uma febre de 39,7C e o peito que nao parava de chiar.

Fomos para a sala de radiografia, porque o pediatra desconfiou de pneumonia. A cadeirinha que usam para posicionar uma pessoa da sua idade para um raio-X de torax parece uma replica em miniatura da cadeira eletrica, mas quando Mamae fez este comentario, Papai nao conseguiu conter as lagrimas. Choramos todos naqueles dois minutos que pareceram durar uma eternidade, mas seus pulmoes estavam limpos. Ainda assim, como seus niveis de oxigenio continuavam abaixo do minimo, viemos para o quarto passar a noite.

Mamae estah muito orgulhosa de voce. Apesar de pedir varias vezes para ir "emboua", voce segura sozinho a mascara de nebulizacao e mostra para a enfermeira onde colocar a fita no dedao do peh para medir a saturacao de oxigenio. A mesma fita que ontem voce arrancou dezenas de vezes, enquanto pedia para ir para casa. Parece ter compreendido que nao pode sair do quarto e, mesmo recusando a mascara descartavel, nao fica tentando abrir a porta.

A Baka e o Deda estao vindo visitar voce todos os dias. Como voce fica feliz quando eles chegam! Vai direto na bolsa da Baka procurar pao (ela sempre faz um pao em casa especialmente para voce) e, hoje, quando nao encontrou, falou "oh, my goodness!".

Continuamos internados, mas se voce nao precisar da mascara de oxigenio durante a noite, iremos de alta amanha. Agora mesmo, enquanto Mamae digita no laptop, voce estah sentadinho na cama ao lado fazendo sua nebulizacao e assistindo ao jogo de volei do Brasil nas Olimpiadas. Nao estah muito satisfeito, reclamando "don't want that".

Hoje voce amanheceu bem melhor, ainda tossindo muito, mas seu humor estah outro. Ateh ofereceu um dos seus tratores para o medico brincar e, quando ele se despediu, voce disse "see you tomorrow". Para quem ontem tinha uma crise de choro a cada pessoa que entrava no quarto, eh uma grande diferenca.

Ainda nao sabemos o que voce tem, mas parece ser uma virose que afetou os pulmoes e desencadeou uma crise de asma. Se Deus quiser, bem passageira.

Ziquezira a parte, voce estah numa fase em que conversa sozinho praticamente o tempo todo. Caminha pela casa fazendo perguntas e respondendo a si mesmo. Canta varias musicas, adora o CD de cantigas de roda do Palavra Cantada. Canta o refrao de Bicicleta, do Toquinho e as ultimas palavras de cada verso de Aquarela. Semana passada foi com sua avo ao parquinho e, quando ela o colocou no balanco virado para o lado errado, voce disse "this way, Dear". Ela achou hilario.

Se pudessemos trocar de lugar, eu passaria por tudo isso mil vezes para que voce nao tivesse que ficar internado nenhum dia. Melhoras.

Com o coracao apertadinho,
Mamae."

PS: Neste hospital aqui, Mamae nao viu nenhum rato.

16 agosto, 2008

César Cielo, é 1º Ouro no Brasil

Fiquei muito emocionada com o video, que a TV local não mostrou. Definitivamente, tenho alma brasileira.

14 agosto, 2008

A Prisão de George



Não é desta vez que vou dar a aguardada nota de falecimento de George. Na terça-feira, depois de 3 semanas, os "especialistas" apareceram para colocar ratoeiras, retirar a geladeira e a lava-louças do lugar e tapar os buracos "suspeitos" na parede. Não acreditei nem por um segundo nesta solução. Alguém combinou com George que ele entraria na ratoeira? Ele assinou algum contrato que estabelecia isso?

E hoje, enquanto levava uma paciente para a sala de recuperação pós-anestésica, recebo o aviso da prisão. "Prenderam George no escritório da Fulana". Infelizmente, tal local fica no caminho e eu não podia desviar. Encontrei quatro coleguinhas ocupadíssimos espiando George pelo vidro e virei o rosto para não ver. De nada adiantou. Na volta, de longe e olhando para cima, vejo pelo vidro aquela criatura rápida subindo nas prateleiras da estante. Na minha ignorância zoológica, jamais imaginei que ratos fossem tão ágeis na vertical! George é definitivamente rato e cinza. Se não for o que eu já tinha visto, é irmão gêmeo.

Walt Disney realmente prestou um péssimo serviço a mim quando criou os ratinhos de desenhos animados. O que eu ouvi de "it's so cute" hoje! E as mulheres com "pena" de matarem o ratinho? E a louca que disse que devíamos abrir a porta e deixá-lo solto, porque ele estava "contaminando" o escritório? E o pessoal que foi brincar com ele através do vidro? E George sem medo de ninguém, que veio lamber o vidro para ser simpático com as pessoas como se fosse um porquinho-da-Índia de pet shop? Tudo isso protagonizado por pessoas de pijama verde e touca, parecia Grey's Anatomy! Várias vezes tive que me beliscar para ver se não estava num sonho em que eu era personagem de um filme de Almodóvar. Este povo está achando que o centro cirúrgico é Ratatouille e que o ratinho é amiguinho!

E nada tem me irritado mais que a eterna discussão se é rato ou camundongo, como se fizesse muita diferença! "O cara do 'pest control' garantiu que é camundongo, não importa o tamanho", disse a enfermeira-chefe das compras. E eu sou um hipopótamo se aquilo é camundongo!

Ah, depois de 2 horas em que George pulou feliz da vida pelo escritório, alguém apareceu lá para "pegá-lo". Pergunta se ele deu as caras! Claro que não, né? Continua vivinho da Silva, trancado no escritório da coitada que estava de folga hoje.

Será que fica muito chato se eu levar um gato dentro da bolsa e soltar lá, assim como quem não quer nada?

Gente, eu sou muito fresca ou isso é surreal demais?

13 agosto, 2008

Notícias de George

A chegada de George mudou a minha vida profissional. Eu agora uso o elevador ao invés de subir as escadas do hospital, só entro na sala de reuniões para receber o plantão e retirar rapidamente minha comida da geladeira e, dos três intervalos a que tenho direito, só uso o do almoço. No domingo, num momento de meia hora sem cirurgias, ao invés de relaxar no sofá, fiquei assistindo ao jogo de vôlei sentada numa cadeira dura do lado de fora da sala e, ainda assim, George deu o ar de sua graça.

Quem é George? É o roedor que habita a sala de reuniões do centro cirúrgico. As discussões sobre a aparência de George variam imensamente. Alguns afirmam que ele é preto, a maioria jura que é marrom e eu tenho certeza de que a criatura que eu vi é cinza. Poderia existir mais de um George? Nada supera a eterna dúvida sobre a que espécie ele pertence:

- É rato ou camundongo?
- É camundongo, tenho certeza.
- Ou o que eu vi era Georgina Grávida ou George sofre de obesidade mórbida ou é um ratão.
- Para saber se é rato ou camundongo, basta colocar farinha no chão e observar de que tamanho fica o rastro do rabo.

O leitor certamente já pode me imaginar ajoelhada no chão, espalhando farinha e analisando rastro de rabo. Outros dão sugestões mais científicas:

- De que tamanho são as fezes?
- Cocô de rato é bem maior que de camundongo.

Uma mãe que não é obcecada pelo cocô do próprio bebê é coisa raríssima, segundo descobri após dar a luz, mas eu pertenço ao 0,01% do grupo que jamais se preocupa com o cocô da criança e nunca fez uma pergunta sequer a respeito. Agora imagina se vou ficar analisando as fezes de George!

Reconfortante mesmo foram as palavras de uma das anestesistas:

- Se você viu um rato, Flávia, nossos problemas com camundongos estão resolvidos. Eles não convivem bem.

E quem consegue relaxar durante o intervalo com este cartaz pendurado na parede?



Segundo um e-mail mandado a todos os funcionários, devemos ligar para o serviço de limpeza a cada vez que George é visto. No domingo, ele foi visto 5 vezes. Alguém telefona e nada acontece, a não ser que do outro lado da linha estejam anotando para ver em que dia da semana ele aparece mais amiúde. De uma coisa tenho certeza: ele não é tímido, muito menos tem hábitos exclusivamente noturnos.

Se serve de "consolo", ontem foi manchete nos jornais que a cidade está invadida por ratos. Não há razão para alarme, diz a matéria. Ufa! Vou dizer isso à colega que viu em pânico quando George saiu da bolsinha onde ela carregava seu almoço e que estava em cima da mesa. Ou à secretária que viu George em cima do balcão onde fica o microondas. Já o cirurgião que estava sentado na poltrona quando George passou pelo braço do móvel nem deu chilique. George já é "da casa", tanto que tem nome.

Eu estou calmíssima. Não vi George, vi Georgina que, em breve, estará celebrando o nascimento de uma leva de Georginhos. Só para lembrar: eu trabalho num hospital, dentro do bloco cirúrgico e, da última vez em que perguntei, aqui era o Primeiro Mundo.

10 agosto, 2008

SAL do Iglu para Liliany

Nao sou, de forma alguma, contra as empregadas domésticas. Adoraria ter uma, nem que fosse 2 horas por dia, 3 vezes por semana.

Quanto ao seu comentário:

E te digo mais: hiperventilo só de imaginar minha empregada tomando banho no banheiro do meu filho.


Realmente não compreendo esta postura, mas parece ser muito comum no Brasil. Se eu tivesse nojo de alguém, esta pessoa nao serviria para trabalhar dentro da minha casa, fazendo a minha comida, lavando os pratos e trocando a fralda do meu filho. Não faz sentido para mim a babá preparar mamadeiras, mas não poder usar o único chuveiro disponível. O piso do banheiro nem entraria na lista de coisas que me causariam preocupação, mas cada um com seus hábitos.

Problemas Inexistentes no Primeiro Mundo - 2

A moça está escalada para o plantão noturno, então aproveita a manhã para resolver umas pendências domésticas. Às 07:30, antes que o filho acorde, já está ela, luvas nas mãos, cabeça dentro do forno, retirando a espuma que havia colocado na noite anterior para limpar as crostas. Isso porque o forno é "auto-limpante", imagina se não fosse... Aproveita e varre a casa, passa aspirador no tapete do escritório e depois prepara o desjejum do filho. A palavra-chave da sua vida é aproveitar. Ela persegue o saltitante ser que corre pela casa e nega veementemente estar com a fralda cheia, embora o cheiro não deixe dúvidas. Lava o bumbum do Pacotinho de Cara-de-Pau, arruma-o para ir à creche, passa a calça que fez o Marido Gringo Amarrotado tirar do corpo para não ser confundido com o rapaz que pede esmola na esquina e, finalmente, quando despacha os homens da casa, tenta passar um tempinho na internet.

O refrão de uma cantiga que era trilha sonora de uma telenovela da sua infância subitamente lhe vem à memória: LERÊ LERÊ LERÊ LERÊ LERÊ...

No caminho da sala para o escritório, depara-se com o sofá todo riscado de giz de cera marrom. Respira fundo e decide que não vai limpar naquele momento. Passará um tempo navegando na internet.

Aí ela clica num fórum de discussão e vê o seguinte debate lá na terrinha (só pode ser um sinal dos Céus), que a faz lembrar da sua sorte de morar no Primeiro Mundo, diante da situação tão caótica no Brasil. Até o título é reconfortante: Por que somos reféns de empregadas e de babás?

Olha que mimoso, gente! A pessoa usa "somos", no plural. Aprecio muito, acho bem solidário quando alguém parte do princípio de que seus problemas gravíssimos são universais. Odiaria ser excluída.

E, como já é de praxe no Iglu, com a rede de apoio aos que ainda levam uma vida muito sofrida na terrinha, segue aqui o Serviço de Atendimento à Conterrânea Dona-de Casa:

"Minha diarista viajou e não me avisou, fiquei esperando na segunda feira, meu prédio está reformando, tá uma poeira danada, meu filho tem rinite, um monte de camisas do meu marido para passar. Fico pensando como somos reféns dessas pessoas que colocamos na casa da gente para nos ajudar, com a casa e com os nossos filhos.
Postei esse tópico para desabafar, acho que tem a ver com a nossa realidade de mãe, mas se não tiver coerente, entenderei que ele poderá ser deletado."
Mamãe Soterrada na Poeira


Caríssima Mamãe Soterrada na Poeira,
Realmente está tudo de acordo com a NOSSA realidade de mãe e, sendo assim, quem ousaria deletar um tópico tão relevante e universal? Que lave o primeiro copo de cristal quem não se sente refém da própria criadagem. Toda mãe é vítima dos seus serviçais, né? É sabido que a poeira não é eliminada de onde está se não for retirada por um profissional qualificado, com crachá de vassalo. Nem perca tempo tentando por si mesma, viu? É poeira que não sai, dali só a diarista tira. Quanto às camisas do marido, maldita hora que inventaram esses ferros atuais, com sensores que reconhecem imediatamente se a mão de quem os segura é a mesma programada para usá-los! Não há como a roupa ser passada por mais ninguém. Dá saudade do tempo em que qualquer um podia passar uma camisa. Você deve ser muito nova para lembrar-se disso, foi na era pré-Jetsons.

Quanto a ser refém, a situação das patroas no Brasil está vergonhosa. Não há um disque-madame onde você possa fazer sua denúncia? Já não basta ser refém dos criados? Estar refém da poeira e das camisas amarrotadas é tortura!
***

"Entreguei um manual sobre as regras da casa. Abri espaço para ela questionar o que quisesse.... e olha o que me acontece? Direto quebra de regras, falta de consideração!"
Patroa Organizada


Amiga Patroa Organizada,
Você está sendo muito benevolente. Como assim entregou de graça o manual de regras da casa? Deveria ter descontado do polpudo salário, afinal de contas faz parte do material para o curso de especialização em serviços do seu lar, valiosíssimo em qualquer currículo. No resto do mundo, os manuais de regras são vendidos e não doados aos serviçais. Infelizmente, as pessoas não dão valor ao que lhes é dado gratuitamente. Se a situação não melhorar, ameace de tomar o manual de volta, duvido que não surta o efeito desejado. Empregada nenhuma suporta a idéia de perder o manual de regras, fique esperta! Dica: se ela usar uniforme, desconte também.

***
"Ontem foi o primeiro dia da milésima empregada que passa por aqui. A mulher chegou aqui às 9:30 da manhã (acho tarde). Quando já eram 6 da tarde ela ainda ia lavar o banheiro do meu filho, limpou só até a sala de jantar, ficou pra trás sala de tv, cozinha, lavanderia e vidros. Às 7 da noite eu já estava saindo pra ir pra facul e ela me pediu uma toalha PRA TOMAR BANHOOOOOO!!! ISSO MESMOOO: TOMOU BANHO NO BANHEIRO DO MEU FILHO NA MAIOR CARA DURA!!
Eu saí de casa pra ir pra facu e ela continuou aqui, pasmem!!! Só sei que ela foi embora era 7 e meia da noite.

Agora meu marido quer que eu a demita!! Tô passada. E pior é começar a procurar de novo. É o fim!
Dona-de-casa e Estudante Indignada
"

Adorável Dona-de-casa e Estudante Indignada,
Vou colocá-la em contato com a refém das camisas amarrotadas, já que você está passada, assim trocam figurinhas. Eu estou acrílica! Ainda não demitiu a moça? Então a empregada recebe por dia trabalhado e fica fazendo faxina até 19:00? Isso realmente é o cúmulo, que mulher folgada! Veja como é mais justo no Primeiro Mundo: elas cobram por hora de serviço e uma faxina de 3 horas que sai por 45 dólares é considerada barata. Não falei para provocar inveja, tenha fé que um dia o Brasil chega lá.

O fato de ela pedir uma toalha para tomar banho também é preocupante. Quando li as letras em caixa alta, pensei que ela iria enforcar-se com a toalha ou atacar a criança, mas ela tomou banho mesmo, que absurdo! Superou as piores expectativas. Esta parte foi a que mais me chocou. E ainda teve a 'cara dura' de usar o banheiro que ela mesma havia acabado de limpar, isso vai contra o bom senso. Ela não sabe que só se usa um lavatório se ele tiver sido lavado por outra pessoa? Espero que já tenha incinerado a toalha, mas o que fazer com o piso do banheiro? Ah, olha aqui a sugestão criativa de outra refém participante do debate: "Combine com ela para esterilizar o box toda vez que ela utilizá-lo." Que idéia genial, Dona Refém! E eu aqui pensando que instrumentos cirúrgicos precisam passar horas no vapor de uma autoclave para serem considerados estéreis e nos hospitais nem se cogita esterilizar uma mesa de cirurgia, mas o box do banheiro pode e DEVE ser esterilizado a cada uso! Estou muito desatualizada, que debate instrutivo!

Realmente o pior é ter que procurar de novo, depois da milésima. Sua colocação foi perfeita: é o fim!

Seu depoimento me comoveu muito, visto que estão óbvios seus predicados como patroa compreensiva e não há dúvidas de que as 999 serviçais anteriores também tinham defeitos tão graves como os dessa moça. Se bobear, todas tomavam banho no final de um dia de faxina. (Suspiros desconsolados) Sem sugestões, deixo somente meu abraço solidário.

***
Sua criadagem está causando problemas? Seus vassalos não correspondem às suas expectativas? Envie suas reclamações para o CVM - Centro de Valorização da Mordomia, o ombro amigo da dona-de-casa fora do Brasil. No final do ano, será sorteada uma faxina completa para um sortudo ganhador. O Iglu estará bagunçado como sempre e um felizardo terá a oportunidade de finalmente colocar as coisas no lugar. Promoção por tempo ilimitado!

08 agosto, 2008

Geléia de Mocotó Caseira - para pessoas sem tempo de sobra

O post de hoje é dedicado à minha amiga Nilde, que encontrou esta receita e deliciou-me com seus comentários. Ela até parece saída da minha família, com seu senso de humor meigo e inocente:



Apesar dos meus 8 anos sem criadagem, confesso ter ficado surpresa quando uma amiga encontrou uma receita "super fácil e prática" de geléia de mocotó caseira na internet:

"GELÉIA DE MOCOTÓ

Ingredientes:

1 pé de boi (peça no açougue para que ele seja cortado em pedaços menores, para caber na panela)
1 xícara de mel, melado ou rapadura ralada
50 g de erva-doce
10 g de cravo da Índia
20 g de canela em casca
1/2 copo de vinho do Porto (opcional)

Modo de Preparo:

Cozinhe o mocotó em água filtrada suficiente para cobrir completamente todos os pedaços, por cerca de duas horas.

Passe no coador de macarrão ou na peneira (para que o líquido fique completamente límpido, forre a peneira com uma fralda de pano limpa).

Ponha o caldo na geladeira e, no dia seguinte, raspe bem para tirar toda a camada de gordura que se forma no topo.

Ponha novamente o caldo no fogo baixo para liqüefazer. Se ainda houver algumas gotas de óleo, retire-as com pedaços de papel.

Faça à parte um chá bem forte com a erva-doce, o cravo e a canela. (Socar bem os ingredientes do chá em um pano antes de prepará-lo). Ponha tudo para ferver e coe o chá no pano. Junte esse chá ao caldo do mocotó.

Adoce mais caso ache necessário, cuidando para não exagerar e apure o caldo apara que ele engrosse um pouco mais - cerca de 30 minutos a mais no fogo normalmente é suficiente. Retire do fogo e junte o vinho do Porto.

Separe a geléia em potinhos individuais ou numa travessa grande. Guarde na geladeira por pelo menos 3 horas antes de servir - ela ficará com uma consistência igual às gelatinhas comerciais. Esta é a verdadeira gelatina, o resto é imitação sem nutriente algum…


Detalhe interessante:

Se você só cozinhar os ossos, sem tempero algum, pode usar o caldo de mocotó para engrossar caldos e molhos, pode acrescentar uma colherinha à mamadeira do seu filho (o que acrescenta uma boa dose de cálcio e outros minerais bem disponíveis à mamadeira dele)."


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Ai que prático, gente! Fiquei super a fim de fazer! Sabe que me deu até água na boca quando li "1 pé de boi"? Na hora me imaginei chegando no açougue chique do supermercado que vende a melancia quadrada a $99,99 e pedindo "one cow foot" cortado em pedaços que caibam na panela. E o que deve ser a visão do pé de boi afundando na panela com água filtrada? Pura poesia culinária. Sou capaz de substituir por água Evian, para ficar ainda mais sofisticado. É o tipo de receita que já empolga na leitura do primeiro ingrediente. Será que o pé de boi vem com o casco e tudo? Tomara que sim! Ou boi não tem casco no pé? Que falha imperdoável nunca ter cozinhado um pé de boi para saber a resposta! E vou exigir que seja o pé de um boi criado livre, leve, solto e feliz no pasto, tomando orvalho fresco da manhã e namorando vaquinhas igualmente felizes, com pezinhos limpos e pedicure semanal.

Outro ponto positivo é que essa receita também leva rapadura ralada, coisa que facilmente se encontra em qualquer supermercado canadense. Eu nem sabia que rapadura era um ingrediente "ralável", mas o que é o poder da leitura para ampliar os limitados horizontes da minha cozinha! Só fico curiosa pensando no que diria agora minha Santa Irmã com Criadagem a respeito da minha receita de fondue (quando me viu ralando queijo para fazer fondue, ela exclamou "quem tem que ralar é o sabão, não você" - a piadinha é só para maiores de 30 anos).

Achei muito poética e ecologicamente correta a utilização de uma fralda de pano para coar o caldo. Let's go green, people! Ops, desculpe a empolgação, não é todo dia que encontro uma receita com a qual me identifico tanto. E a parte de colocar novamente no forno para liqüefazer no dia seguinte? Que prático! É só tirar as gotas de óleo com pedaços de papel... super simples! Cuidado para não exagerar quando adoçar, viu?

E o detalhe interessante de colocar o mocotó na mamadeira da criança? Como não pensei nisso antes? Deve ser porque o Pacotinho de Frescura não toma mamadeira! Mas imagino que vou cozinhar os ossos assim mesmo, por pura diversão, como uma atividade terapêutica num ocioso fim de tarde e oferecer os potinhos de mocotó às mães de bebês que morem na vizinhança. Quem recusaria uma oferta dessas? Dá até para dar como lembrancinha de aniversário, com uma borboletinha na tampa do vidro, não fica um mimo nutritivo e original? DU-VI-DO alguma criança pedir balas e chocolates depois de ganhar uma sacolinha surpresa recheada com caldinho de mocotó caseiro!

A PERGUNTA É:
Com uma receita prática, simples, deliciosa, dessa magnitude... Por que ainda tem gente no Brasil que compra o copinho de geléia no mercado? Será que é por receberem participação nos lucros ou por precisarem de copos em casa?

Comentário da minha amiga Nilde Berenice:
"Gente, tô inconformada com o fato de nunca ter feito essa receita tão supimpa e prática antes!!! Fico aqui comprando copinhos de geléia DUCOPO quando poderia ter simplesmente comprado 1 pé de porco, rapadura ralada , erva doce e cravo da Índia e somente ter que ferver de um dia para o outro e depois colocar na fralda de pano(o que, cá pra nós, é algo tão singelo e pueril!) e separar o óleo com papel.....ah, faz favor, que atraso da minha pessoa esse desconhecimento!!"

Com licença, que vou ali comprar meu pé de boi. Depois da publicação desta receita, provavelmente haverá grande procura.

PS: O leitor mais atento perceberá que, na versão da Nilde, a receita não dá certo. Na sua ignorância culinária, ela confundiu as espécies animais, achou que pé de boi fosse pé de porco e acabou fazendo feijoada ao invés de geléia de mocotó. Perdoe, Pai, ela não sabe o que diz (nem o que cozinha e muito menos o que vai na mamadeira das crianças).

07 agosto, 2008

Amamentando com Humor

Em plena semana mundial da amamentação, a mãe de um bebê de 2 meses aqui em Vancouver foi repreendida por uma funcionária, enquanto amamentava seu filho dentro de uma loja de roupas. Além de recusar a oferta de entrar numa das cabines para provar as roupas e amamentar ali dentro, lançou um
protesto sensacional. Se o Pacotinho de Desmame ainda estivesse mamando, nós certamente nos juntaríamos ao grupo hoje.






05 agosto, 2008

Antes fosse visitante, mas é morador!

Uma edição extraordinária, para tratar de um assunto de máxima importância, interrompendo os posts da semana mundial de amamentação:

Antes de mais nada, esclareço que não trabalho num terreno baldio, num prédio em construção e muito menos num supermercado. O diálogo surreal aconteceu hoje num centro cirúrgico canadense (o segundo maior da província), onde estavam presentes N, R e F (esta última, uma certa enfermeira brasileira que um dia acreditou que a melhor vantagem de morar no Canadá fosse a quase inexistência de vida selvagem menor do que um chiuaua).

R: E aí, ele foi embora?
N: Foi nada, entrou debaixo da lava-louças.
F: Quem, gente?
N e R, em coro: O rato!
(F fica boquiaberta, catatônica, vê sua vida passando como num filme, pode sentir a alma saindo do corpo, vê-se flutuando sobre sala, já escuta vozes celestiais)
R: N viu o rato na sala de reuniões, você não ouviu os gritos?
N: Eu fiquei gritando desesperada, mas a porta estava fechada e T só apareceu depois, mas não encontrou o rato debaixo da geladeira.
F: Aaaaaaiiiii! Como assim "o" rato? Vocês já sabiam da existência dele?
N: Ah, já faz duas semanas que tem ratoeira embaixo da máquina de café.
F: E ninguém faz NADA? Vamos ligar agora pro "pest control"!
R: Eles sabem, até já colocaram a ratoeira.
F: Que obviamente adiantou muito!

Diante da conformação dos dois, F, que nunca teve problemas com iniciativa, liga para a secretária (A), embora R fosse o enfermeiro-chefe daquele plantão.

F: A, por favor, liga aí para a manutenção e avisa que o rato foi visto novamente na sala de reuniões.
A: Vou ligar sim.

Que tom calmo foi aquele da secretária? Será que NINGUÉM acha isso o cúmulo do absurdo? Só a enfermeira tropical fica inconformada e tem um trimilique no melhor estilo "a morte passou perto" cada vez que alguém menciona a palavra "rato"?

Pensando no plantão noturno em cerca de 36 horas, F vai pessoalmente ao balcão certificar-se de que a secretária ligou para a Manutenção.

F: Vim aqui ver como andam as providências.
A: Era rato ou camundongo?
F: Faz alguma diferença? A N disse que é marrom, com um rabo bem comprido.
A: I viu outro dia e comentou a mesma coisa do rabo!
F: Mas todos sabem e ninguém faz nada?
A: Olha, eu liguei na manutenção, mas eles mandaram chamar a moça da limpeza (ML). Ela está aqui.

ML: Vim limpar o rato, está morto, né?
F: Não, está vivo!
ML: Se está vivo, como vou pegá-lo?
F: Que absurdo os marmanjos da manutenção quererem que esta coitada fique caçando rato! A, liga direto pro "pest control".
A: Não, a manutenção falou que só o pessoal da limpeza pode chamar o "pest control".
F: Fala sério! Por acaso é por culpa da servente que há buracos na parede e toca de rato debaixo da lava-louças?
A: Ouvi dizer que a toca deles é debaixo da geladeira!
F: Deles no plural? Se eles sabem onde é, por que não tapam o buraco? Olha, A, eu estou indo embora agora que já são 19:00, mas pelamordedeus, estou de plantão noturno amanhã, não saia daqui sem garantir que alguém vai puxar a geladeira, a máquina de café e a lava-louças e dar fim neste rato!

E, agora quem for entendido do assunto e puder ajudar:
- ratos costumam sair da toca de noite e passear por salas de cirurgia?
- como se proteger de uma criatura abominável dessas?

Algo me diz que F. nunca mais tirará uma cochilada no sofá da sala de reuniões, por mais calmo que esteja o plantão. Ela não estará calma. Rezem pela alma dela, que provavelmente terá uma parada cardíaca caso o roedor resolvar dar o ar de sua graça.

Amamentação e Introdução de Outros Alimentos



Juro que, se eu ganhar na loteria acumulada, traduzo e banco eu mesma a publicação deste livro fantástico no Brasil. Enquanto isso não acontece, aqui vai mais um texto pertinente do Dr. González:

"Os conflitos entre a mãe o filho durante a amamentação ou o uso de mamadeiras podem ser terríveis, mas ainda bem que são pouco freqüentes. A introdução de alimentos sólidos é uma oportunidade nova de perigo e devemos trilhar este caminho com cuidado.

Para esclarecer, quando mencionamos “sólidos”, não nos referimos apenas aos alimentos oferecidos ao bebê com uma colher. Usaremos o termo para referir-se a qualquer comida além de leite humano ou leite modificado, mesmo água, chá ou comidas duras como biscoito.


Muitas mães encontram-se sobrecarregadas de informação a respeito de regras, grandes, pequenas e médias envolvendo alimentação de bebês. Elas recebem conselhos de pediatras e enfermeiros, algumas informações muito mais complexas e detalhadas que aquelas dadas pelos especialistas famosos, palpites de família e amigos, bem como as “conversas de comadre” que alertam sobre evitar comidas “reimosas” ou “incompatíveis”.

Incapaz de seguir todas as regras ao mesmo tempo, muitas vezes a mãe opta por rejeitar todas e fazer somente aquilo que ela quer. O risco é de que ela ignore as recomendações realmente importantes. Para evitar tal problema, vou diferenciar claramente entre as opções onde há um grau de consenso em relação à sua importância (baseadas numa combinação de normas internacionais) e aquelas sugestões que parecem úteis, embora outros profissionais possam ter opções diferentes.

Pontos Importantes
Tenha em mente os seguintes pontos, embora eles não devam ser tomados como dogma:

1. Nunca force uma criança a comer.
2. Amamente exclusivamente até 6 meses (sem papinhas, suco, água, chás, etc.).
3. Aos 6 meses, comece (sem forçar) a oferecer outros alimentos, sempre depois da mamada ao seio. Bebês não amamentados devem tomar 500ml de leite artificial por dia.
4. Introduza os alimentos um de cada vez, esperando uma semana entre comidas novas. Comece com quantidades pequenas.
5. Ofereça alimentos que contêm glúten (trigo, aveia, centeio) com precaução.
6. Quando cozinhar para o bebê, escorra bastante o alimento, evitando encher a barriga dele com água.
7. Espere até 12 meses de idade para introduzir alimentos altamente alergênicos (especialmente laticínios, clara de ovo, peixe, soja, amendoim e muitas outras comidas que já causam alergia em membros da família).
8. Não acrescente sal ou açúcar aos alimentos.
9. Continue amamentando por 2 anos ou mais.

Algumas vezes você pode introduzir sólidos antes de 6 meses (mas nunca antes de 4): quando a mãe trabalha, por exemplo. Ou quando a criança claramente pede para ser alimentada agarrando o alimento e colocando-o na boca sozinha.

“Oferecer” significa que, se ele quiser comer, o bebê come, mas se não quiser, não come. Muitas crianças recusam tudo menos o seio até 8 ou 10 meses, muitas vezes mais.

Alimentos sólidos são oferecidos depois da amamentação, não antes e, certamente, não em substituição à amamentação. Somente assim você tem certeza de que seu bebê tomará o leite de que precisa. Acredita-se que entre 6-12 meses, o bebê precise de cerca de 500 ml de leite por dia. Claro que isso é uma média, muitos tomam mais e outros ficam bem com menos. Uma criança que toma mamadeira pode facilmente ficar bem com 2 mamadeiras de 250 ml ao dia. Não é razoável, porém, esperar que um bebê amamentado tome 250 ml a cada 12 horas; os seios da mãe ficariam desconfortavelmente cheios. Faz mais sentido para bebês amamentados tomar 100 ml cinco vezes por dia, ou 70 ml sete vezes por dia. Certamente você não sabe (ou não sabia antes de iniciar os sólidos) quanto leite seu bebê mama; mas se ele é amamentado antes da oferta de sólidos, você fica tranqüila sabendo que ele mama o que precisa.

Que comidas devo oferecer primeiro?
Não importa. Não há base científica que dê suporte à recomendação de um alimento antes de outro. Se você oferecer frutas primeiro, seguidas por cereal, depois frango, você estará seguindo as orientações da ESPGAN (Sociedade Européia de Gastroenterologia e Nutrição Pediátricas). Mas se você der frango, depois legumes e cereais por último, também estará dentro das normas.

Digamos que você decida começar com banana amassada. Depois da amamentação, ofereça ao bebê uma ou duas colheres. No primeiro dia é sempre melhor oferecer só um pouquinho, ainda que ele aceite bem. Se ele recusar a primeira colherada, não insista, mas continue oferecendo a cada um ou dois dias. Se ele aceitar bem, você pode aumentar a quantidade a cada dia. Depois de uma semana, você pode tentar outro alimento, como batata doce ou abacate. Na semana seguinte, pode oferecer um pouquinho de arroz. Cozinhe arroz (melhor ainda, cozinhe até virar papa), sem adicionar sal. Você pode adicionar azeite (ficará mais saboroso e terá mais calorias). Esta ordem é só um exemplo, você pode inverter, se quiser. Claro, se alguma das comidas causar diarréia ou outros sintomas, ou se o bebê rejeita veementemente, é melhor esperar algumas semanas. Se uma reação mais severa é observada, como uma vermelhidão na pele, consulte o pediatra.

Também não é necessário introduzir uma comida nova a cada semana. Variedade significa um pouco de cereais, um pouco de legumes, um pouco de frutas – mas não é vital que o bebê coma muito de cada grupo. Maçãs não possuem nada diferente das peras e a maioria dos adultos vive bem comendo apenas dois tipos de ceral: arroz e trigo, deixando o resto para o gado. Se seu filho já come frango, você não estará acrescentando nada ao oferecer vitela. Antes de 1 ano, a introdução de muitos alimentos diferentes somente significa comprar mais bilhetes para a loteria da alergia.

A razão principal de oferecer outros alimentos ao bebê com 6 meses (e não depois) é que alguns bebês precisam de ferro extra. Portanto, seria lógico que comidas ricas em ferro fossem introduzidas primeiro. Por um lado, há carnes com alto teor de ferro orgânico altamente biodisponível. Por outro, há legumes, leguminosas e cereais que contêm ferro inorgânico, mais difícil de ser absorvido a menos que esteja combinado com vitamina C. É por isso que muitos adultos comem a salada primeiro (rica em vitamina C), depois os grãos e legumes, com a sobremesa por último. O que é comumente feito com bebês na Espanha não é uma idéia muito boa, oferecendo a eles somente grãos numa refeição, legumes na outra e fruta na próxima. Quando seu bebê ingere muitos alimentos, é uma boa idéia combiná-los , oferecendo-os numa mesma refeição (não batendo todos juntos no liqüidificador) ao invés de fazer menus monocromáticos (“hora do cereal”).

E se ele não quer comer comida de bebê?
Não se preocupe, isso é totalmente normal. Não tente forçá-lo. Você talvez tenha sido aconselhada a oferecer sólidos antes do peito, assim ele estará com fome suficiente para comer. Isso não faz o menor sentido, uma vez que o leite materno nutre muito mais que qualquer outro alimento. É por esta razão que usamos o termo “alimentação complementar”. Sólidos não são nada mais que um complemento ao leite materno. Se seu bebê mama e depois rejeita frutas, nada acontece; mas se ele aceita fruta e depois não mama, ele sai perdendo. Mais fruta e menos leite é uma receita para perda de peso.

O mesmo vale para leite artificial. Lembre-se de que se você não está amamentando, você precisa dar ao bebê meio litro de leite diariamente até que ele tenha 1 ano de idade. Não é bom negar o leite para que ele coma mais."

Extraído do livro My Child Won't Eat, do pediatra Carlos González, recomendado pela La Leche League.
Tradução de Flávia Mandic.

04 agosto, 2008

Amamentação: A Crise dos Três Meses


Para a semana mundial da amamentação, mais um texto do Dr. Carlos González:

A Crise dos 3 Meses

"Por volta de 2-3 meses de idade, alguns bebês tornam-se tão eficientes na mamada que são capazes de mamar tudo o que precisam em 5 ou 7 minutos, algumas vezes em 3 minutos. Se ninguém falou isso para a mãe e ela espera que a criança fique no seio por “pelo menos 10 minutos”, vai achar que seu filho não está mamando o suficiente, como esta mãe aqui:

“Eu tenho uma filha de 4 meses. Meu problema é que não sei se ela está mamando o suficiente. Ela passa somente 3-4 minutos no peito e eu fico com receio de que ela não está mamando leite suficiente. Quando ela tinha 2 meses, ela mamava por 10 minutos de um lado e 5 do outro e ganhava peso rapidamente; agora ela está caindo na curva de crescimento.

Eu também notei que meus seios não enchem mais como antes, eles chegavam até a vazar!

O que mais me intriga é que nos primeiros 2 minutos ela engole muito leite, bem rápido e e depois começa a tirar a boca do peito e a colocar novamente, sem ficar quieta. Eu tenho que alternar os lados e tentar posições diferentes para ela mamar ao menos 10 minutos. Eu me pergunto se ela faz isso porque ainda está com fome.

Outra coisa que me preocupa é que ela está mamando mais vezes, especialmente de noite. Ela dormia 5-6 horas seguidas de noite, agora dorme no máximo 3-4 horas, até menos.

O pediatra me disse que eu posso começar a dar leite artificial na mamadeira. Já tentei, mas ela não aceita, mesmo que outra pessoa ofereça a mamadeira.”


O caso dessa mãe ilustra bem a crise dos 3 meses de idade:

1. O bebê que mamava 10 minutos agora termina em 5 minutos ou menos.
2. Os seios, antes cheios e pesados, agora estão macios e “vazios”.
3. O leite não vaza mais.
4. O ganho de peso do bebê diminui.

Tudo isso é absolutamente normal. O engurgitamento das mamas nas primeiras semanas pós-parto não tem nada a ver com a quantidade de leite produzida e sim com uma inflamação temporária que acontece no início da lactação. Mamas cheias e vazamento são problemas iniciais, que desaparecem assim que a amamentação está estabelecida.

E a diminuição no ganho de peso, claro, é esperada. Os bebês ganham menos e menos peso a cada mês que passa. É por isso que as curvas de crescimento são curvas e não retas. Entre 1 e 2 meses, uma menina amamentada ao seio ganha tipicamenate 400g a 1,3 kg, com a média sendo um pouco acima de 800g. Eliminamos o primeiro mês, porque sempre há perda de peso e depois ganho, o que faz a conta final muito variável. SE o bebê fosse continuar ganhando peso neste padrão, em 1 ano ganharia 5 a 15 kg, com média de 10 kg. Na realidade, durante o primeiro ano de vida, meninas ganham entre 4,5 a 6,5 kg, com a média sendo 5,5kg. Em outras palavras, uma menina que ganhou 500g no primeiro mês de vida (alguns podem achar muito pouco, mas na realidade é normal) ganhará menos peso eventualmente. Todos os pesos são medidas aproximadas. Meninos geralmente ganham um pouco mais que meninas.

Claro que o bebê da mãe do exemplo não aceitou a mamadeira com complemento; ela não estava com fome. Infelizmente nem todos os bebês mostram tal controle e, algumas vezes, especialmente se a mãe insiste muito, eles tomam a mamadeira mesmo sem estarem com fome.

Se alguém tivesse explicado a esta mãe o que estaria para acontecer no terceiro mês, ela não teria se preocupado. Mas a mudança inesperada deixou-a insegura. Mesmo assim, se ela estivesse confiante na própria habilidade para amamentar, ela não teria se estressado. A explicação mais lógica para todas as mudanças é “eu tenho tanto leite que minha filha fica cheia em 3 minutos”. Mas o medo do fracasso na amamentação é tão incutido em nossa sociedade, que não importa o que acontece, a mãe sempre pensa (ou é convencida a pensar) que ela não tem leite suficiente.

A mãe também se preocupa com outro mito moderno: que as crianças, à medida em que o tempo passa, aprendem a dormir mais. Na realidade, as crianças passam mais tempo acordadas quando vão crescendo. É verdade que um dia elas dormirão mais horas seguidas e vão começar a dormir a noite inteira, mas dificilmente isso acontece aos 4 meses de idade. Entre o nascimento e 4 meses de vida, é mais provável que você observe seu bebê dormindo menos. Muitos bebês mamam várias vezes por noite durante os primeiros anos de vida (o que é muito mais fácil que preparar mamadeiras de madrugada, especialmente se o bebê dorme na mesma cama que a mãe).

A mãe do exemplo já começou a forçar a filha a comer. É um beco sem saída. É fácil deduzir que, a menos que a mãe decida mudar radicalmente seus hábitos, a introdução de sólidos será uma luta."

Por Carlos González, pediatra, no livro My Child Won't Eat.
Tradução de Flávia Mandic.

03 agosto, 2008

O que posso fazer para aumentar a produção de leite?

Yashoda amamentando seu filho adotivo Krishna


Mais um texto do Dr. González, autor recomendado pela La Leche League, especialmente para a semana mundial de amamentação:

O que posso fazer para aumentar a produção do meu leite?

“Por que você quer ter mais leite? Pensando em abrir uma fábrica de laticínios?

A preocupação que as mães apresentam sobre produção suficiente de leite é antiga: séculos atrás, quando todas amamentavam, preces eram direcionadas aos santos e às virgens “especialistas” em leite bom e abundante e as mães usavam ervas e poções com reputação sólida.

Talvez o medo venha da ignorância. As pessoas acreditavam que a quantidade de leite dependia da mãe – havia mães que produziam muito leite e outras que tinham pouco; mães que secretavam leite bom e outras que faziam leite fraco.

Na maioria dos casos, a quantidade de leite não depende da mãe, mas do bebê. Há bebês que mamam muito e outros que mamam pouco e a quantidade de leite será sempre exatamente o que o bebê retira.

Exatamente? Sim. A produção de leite é regulada minuto a minuto pela quantidade de leite que seu bebê tomou na mamada anterior. Se o bebê estava faminto e rapidamente esvaziou o seio, o leite será produzido com grande velocidade. Se, contudo, o bebê não estava muito interessado e deixou o seio meio cheio, a produção de leite será de forma mais lenta. Isso já foi demonstrado através de cuidadosos cálculos medindo o aumento no volume disponível no seio entre mamadas.

Para a mãe que tem leite insuficiente, ou seja, menos que o bebê dela necessita, uma das seguintes condições TEM que estar presente:

1. Um bebê que não mama o suficiente (por exemplo, se o bebê está doente, cheio de água com açúcar ou chazinho ou tomou mamadeira);
2. Um bebê que mama, mas incorretamente (por exemplo, se o bebê posiciona a língua incorretamente porque acostumou-se com chupetas ou mamadeiras, ou está fraco porque tem perdido muito peso ou devido a um problema neurológico).
3. Um bebê a quem não é permitido mamar em livre demanda, porque as pessoas querem alimentá-lo em horários rígidos ou entretê-lo com uma chupeta quando ele mostra sinais de fome.

Além dessas três circunstâncias (ou algumas poucas outras que podem ocorrer muito raramente), praticamente todas as mães terão exatamente a quantidade de leite de que o bebê delas necessita.

Então, quando me perguntam “como posso aumentar o volume do meu leite?”, a primeira coisa a ser estabelecida é se realmente existe um problema (se o bebê está perdendo peso ou engordando muito lentamente). Se este for o caso, será uma questão de descobrir qual das três circunstâncias acima está envolvida (ou talvez todas as três) e corrigir isso. Se o bebê está doente, precisamos descobrir o problema e tratá-lo. Se ele está tão fraquinho que não consegue mamar, então tire o leite e alimente-o usando outro método. Se ele está chupando chupeta ou tomando água, pare de dar os dois. Se ele estava tomando mamadeiras, pare com elas também (isso deverá ser feito gradualmente, se ele estava tomando várias). Se a posição for o problema, corrija-a para ele aprender. Um grupo de apoio à amamentação pode ser útil (veja La Leche League).

Contudo, há muitas, muitas situações em que a mãe acredita (erroneamente), por uma ou outra razão, que ela não tem leite suficiente.

Alguns dos “sintomas” de pouco leite são:

• o bebê chora
• o bebê não chora
• o bebê quer mamar com freqüência inferior a 3 horas
• já se passaram 3 horas e o bebê não está pedindo pra mamar
• o bebê leva mais de 10 minutos para mamar
• o bebê mama e em 5 minutos não quer mais
• o bebê mama de noite
• o bebê não mama de noite
• minha mãe também não teve leite
• minha mãe tinha muito mais leite que eu
• meus seios estão cheios demais
• meus seios estão vazios e murchos
• meus seios são imensos
• meus seios são pequenos demais
• eu não tenho bico
• eu tenho 3 mamilos (você ri? Muitas mães dizem seriamente “eu não tenho bico”. Eu garanto que é muito mais comum ter 3 mamilos que não ter nenhum).

Quando preocupada com estes sintomas, a mãe decide fazer alguma coisa para aumentar sua produção de leite. Se ela decide fazer alguma coisa inútil, mas inofensiva, como comer amêndoas ou acender uma vila para Santo Antônio, provavelmente nada de ruim acontecerá e é possível que sua fé faça com que ela acredite que seu leite aumentou e todos ficam felizes. Mas algumas vezes a mãe tenta alguma coisa que funciona, ou pelo menos tem o potencial para funcionar. Nestes casos, os conselhos das pessoas que sabem alguma coisa sobre lactação humana podem fazer mais mal que bem, especialmente nos casos em que a mãe não tinha problemas de produção suficiente de leite.

O caso desta mãe retrata a profundidade da angústia que pode ser provocada quando se juntam a regra dos 10 minutos, o ganho de peso e alguns conselhos que parecem razoáveis, ainda que irrelevantes, já que não havia problema a ser solucionado:

Meu filho tem 3 meses e 10 dias. Ele pesa somente 4,640g. Nasceu com 3,120g e perdeu peso nos primeiros dias, chegando a 2,760g. O maior problema é que ele nunca quer mamar. Primeiro, eu o amamentava a cada 3 horas, mas ele sempre mamou só um pouquinho. O pediatra sugeriu que eu amamentasse a cada 2 horas, mas as coisas não melhoraram e me sugeriram que eu o colocasse no peito o tempo todo. As coisas pioraram. O bebê só mama bem à noite e durante o dia quando ele está sonolento. Eu já tentei tudo o que me aconselharam: tirei leite com a bomba antes de dar o peito, assim ele pode mamar o leite mais calórico e até eliminei tudo de laticínio da minha dieta. Nada adiantou e ele está me deixando louca. Já tentei dar mamadeira e ele não quer. O pediatra disse que ele é saudável (fez vários exames de laboratório) e normal, mas estou muito estressada. Vivo em constante desespero, preocupada se ele vai mamar direito na próxima mamada ou não, sempre observando para colocá-lo no peito quando ele vai dormir e ver se ele engole. Eu não posso sair de casa, porque ele pode querer mamar. Estou preocupada porque o peso dele está abaixo da média.

O peso deste bebê está no percentil 7 da curva, ou seja, 7 de cada 100 bebês saudáveis desta idade pesam menos que ele. Isso dá 280.000 dos 4 milhões de bebês nascidos todo ano nos Estados Unidos. Como será que as mães dos outros 280.000 bebês estão sobrevivendo? Esse peso é absolutamente normal.

Contudo, o problema não era o peso, mas o fato que o “bebê mama muito pouco”. O que isso significa aqui é que (uma vez que o bebê é amamentado e a gente não tem como saber o quanto ele mama) o bebê mama muito rápido. Quanta dor teria sido evitada se esta mãe soubesse que alguns bebês mamam super rápido e outros bem lentamente e que não é necessário olhar o relógio. Teria sido tão melhor se da primeira vez que a mãe dissesse “meu bebê mama pouco”, alguém tivesse dito “claro! Ele é tão esperto que já descobriu como mamar com eficiência e rápido”. Ao invés disso, ela foi informada de que havia um problema, o bebê não estava mamando o suficiente... e receber conselho para amamentar mais vezes. Conselho destinado ao fracasso, já que o bebê não precisava mamar mais e não conseguia.

Em 4 meses, a situação deteriorou ao ponto de que o bebê só mama dormindo. Um psicólogo poderia ter falado sobre o assunto, mas não precisamos procurar razões psicólogicas abstratas para perceber que, se o bebê mamou dormindo já tomou tudo o que precisava (o que é evidente já que ele cresce normalmente) e é impossível adicionar mais mamadas depois que ele acorda. Ele comeria o dobro do que precisa.

O bebê não será capaz de mamar acordado se a mãe continua a amamentá-lo enquanto ele está dormindo. Ele só tem 4 meses, ainda vai experimentar sólidos e passar pela perda normal de apetite com 1 ano de idade. Se algo não mudar, a situação familiar ficará desesperadora.

Como o bebê vê esta situação? Claro, ele não entende o que está acontecendo. Ele não sabe que precisa mamar 10 minutos, nem que seu peso está no percentil 7. Ele estava bem, mamando quando queria, quando de repente coisas estranhas começaram a acontecer. Ele estava sendo acordado para mamar com muita freqüência e o melhor que ele podia fazer era ser flexível, fazendo as mamadas mais curtas, claro. Algumas vezes alguém tirava o leite desnatado do início da mamada e já no primeiro gole ele recebia creme de leite, cheio de gordura e caloria. Como era de se esperar, fazia as mamadas ainda mais curtas. Naturalmente, ele não aceitava a mamadeira (“mas eu já mamei 8 vezes hoje!”). A cada mudança, ele respondia de maneira lógica, incapaz de compreender a sua mãe e os conselhos que ela recebia. Algumas semanas atrás ele começou a ter “pesadelos” estranhos. Ele sonha que um peito é introduzido na sua boca e que seu estômago enche-se de leite. A coisa mais estranha de todas é que o sonho é tão real, que ele até acorda com a barriga cheia e incapaz de mamar durante o dia.

Sua mãe parece mais preocupada a cada dia que passa; ele a vê chorando e isso o assusta. Se ele pudesse falar, diria a mesma coisa que sua mãe diz à gente “ela está me deixando louco”. E se ele fosse capaz de entender o que se passa, ele certamente faria um esforço para mamar bem lentamente e ficar 10 minutos no seio (mamando a mesma quantidade, claro, não há motivo para procurar uma indigestão). E isso faria todos felizes. Mas ele não entende o que acontece e não pode fazer um gesto de boa vontade. Somente sua mãe pode mudar; senão o problema permanecerá por muitos meses ou anos.”

Do livro My Child Won’t Eat, do pediatra Carlos González.
Tradução de Flávia Mandic.

02 agosto, 2008

SAL do Iglu para Juliana


O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde para Juliana:

Em primeiro lugar, parabéns pela amamentação! O ideal é que o bebê sempre esvazie um peito antes que a mãe ofereça o outro. Só dá para saber que ele não quer o segundo seio se você oferecer e ele recusar, após ele ter esgotado o primeiro. Se você é do tipo que tem hiperlactação (produz leite em excesso), como era o meu caso, o bebê não consegue mamar os dois seios numa única mamada. Eu tinha tanto leite que precisava começar a próxima mamada com o mesmo seio da anterior, para ter certeza de que o bebê havia mamado o leite gordo. Ele só passou a mamar um seio e pedir para mamar o outro depois que já sabia falar e dizia "mais, mais", com 1 ano e meio. Antes disso, eu nunca achei que em alguma hora o leite "acabava" dentro do peito e até hoje não entendo quando algumas mães dizem "meu leite diminuiu" ou "meu leite está secando", porque jamais soube o que é isso.

Aguarde, que esta semana vou postar um texto interessantíssimo do Dr. González sobre a crise dos 3 meses. Se você e seu bebê ainda não chegaram lá, chegarão em breve. Vi que você está no Canadá e deve ler em inglês, recomendo muito o livro My Child Won't Eat.

Abraços mamíferos.

Amamentação à La Carte



Aproveitando a deixa da semana mundial da amamentação, vou compartilhar um trecho de um livro maravilhoso, do meu autor favorito sobre o tema, recomendado pela La Leche League. O livro é My Child Won't Eat e deveria ser de leitura obrigatória para toda grávida, mãe e avó. Também poderia se chamar "Como Desencanar Com a Quantidade Que Seu Filho Come".

"Amamentação à la Carte

Amamentação em intervalos pré-determinados é um mito. Houve um tempo em que se pensava que bebês deveriam mamar a cada 3 horas, ou a cada 4 horas e por exatamente 10 minutos de cada lado! Você já se perguntou o porquê de 10 minutos e não 9 ou 11?

Claro, adultos nunca comem por “10 minutos em cada prato a cada 4 horas”. Quanto tempo a gente leva para terminar o prato? Isso depende do quão rápido a gente come. É o mesmo com bebês. Se eles mamam rápido, podem gastar menos que 10 minutos, mas se mamam devagar, podem gastar bem mais.

Adultos comem em horários pré-determinados somente porque são forçados pelas obrigações de trabalho a organizar suas refeições desta forma. Normalmente, nos dias de folga, a rotina usual é mudada sem qualquer dano à saúde. Contudo, ainda existem pessoas que acreditam que os bebês precisam ser acostumados a mamadas de horário e fazem referências vagas à disciplina ou boa digestão.

Para um adulto, a comida pode esperar. Nosso metabolismo permite que esperemos por uma refeição e a comida é exatamente a mesma agora ou daqui a uma hora. Mas seu bebê não pode esperar. Sua fome é urgente e a comida dele muda se a refeição se atrasa. O leite humano não é um alimento morto, mas uma matéria viva em constante processo de mudança. A quantidade de gordura no leite aumenta à medida em que a amamentação progride. O leite do início da mamada tem baixo conteúdo gorduroso e o leite do final é altamente rico em gordura; chegando a ser 5 vezes mais gordo.

A média de gordura em qualquer mamada depende de quatro fatores:
1. Intervalo da mamada anterior (quanto maior o intervalo, menor a quantidade de gordura);
2. Concentração de gordura no final da mamada anterior;
3. Quantidade de leite ingerido na última mamada;
4. Quantidade de leite ingerido nesta mamada.

Quando a criança mama os dois seios, ela raramente esvazia o segundo seio. Para simplificar, basta dizer que ela toma 2/3 de leite desnatado e 1/3 de creme de leite. Contudo, a criança que mama somente um seio por mamada toma ½ leite desnatado e ½ creme de leite. Se ela toma um leite menos gordo (menos calórico), ela pode aceitar grandes volumes e consumir mais proteínas. Então o bebê que mama 50 ml de cada seio não mama o mesmo que um que toma 100 ml de um seio só; e a dieta do bebê que toma 80 ml a cada 2 horas é totalmente diferente da dieta do bebê que toma 160 ml a cada 4 horas.

Os fatores que controlam a composição do leite ainda estão sendo estudados e ainda não se sabe muita coisa. Por exemplo, sabe-se que um dos seios geralmente produz mais leite, com maior concentração de proteínas que o outro. Talvez seja só coincidência ou talvez seu filho decida isso, dando preferência a um seio em relação ao outro, escolhendo uma refeição com mais ou com menos calorias.

E você pensou que seu bebê mamasse sempre o mesmo leite? Você pensava que era entediante passar meses e meses tomando somente leite? Isso não é verdade com o leite materno. Seu bebê tem à disposição dele um grande cardápio para escolher, desde sopa leve a uma sobremesa bem cremosa. Uma vez que o seio não fala (nem pode entender o bebê), o bebê faz seu pedido de 3 formas:

1. Pelo tanto de leite que ele toma a cada mamada (mamando por um longo ou curto tempo e com mais ou menos intensidade);
2. Pelo intervalo entre uma mamada e outra;
3. Mamando um ou os dois seios.

O que seu bebê faz quando mama para obter exatamente o que ele precisa de um dia para o outro é uma obra de engenharia. O bebê tem total e perfeito controle da sua dieta, desde que ele possa mudar as variáveis de acordo com seu desejo. É isso que a livre demanda significa: deixar o bebê decidir quando ele quer mamar, por quanto tempo ele vai ficar no seio e se ele quer mamar um ou os dois seios.

Quando o bebê não tem o direito de controlar um dos mecanismos, na maioria das vezes ele tenta mudar uma ou outra variável. Num experimento, alguns bebês foram colocados para mamar somente em um seio por mamada, durante uma semana e nos dois seios na semana seguinte (a ordem foi variável). Em teoria, os bebês teriam ingerido muito mais gordura nos dias em que mamaram somente de um lado do que quando mamaram nos dois seios. Contudo, os bebês espontaneamente modificaram a freqüência e a duração das mamadas e foram capazes de ingerir quantidades similares de gordura (mas volumes diferentes de leite).

Se o bebê não tem a chance de modificar a freqüência ou duração das mamadas e ele não tem a oportunidade de decidir se quer mamar de um lado ou dos dois, ele fica perdido. Ele não consegue tomar a quantidade de leite de que precisa, mas acaba tomando o que lhe é oferecido. Se a sua dieta está muito longe das necessidades reais do bebê, ele terá problemas em ganhar peso apropriadamente ou passará o dia faminto e irritado. É por isso que amamentação em horários pré-estabelecidos raramente funciona e quanto mais rígido for o esquema, mais catastrófico é o resultado. Os bebês precisam mamar irregularmente, somente assim eles têm uma dieta balanceada.

Desde o primeiro dia, embora pareça que ela está tomando somente leite, a criança está escolhendo sua dieta a partir de uma gama de opções e ela sempre escolhe sabiamente, tanto na qualidade, quanto na quantidade."

Do livro My Child Won’t Eat, do pediatra Carlos González.
Tradução de Flávia Mandic.

01 agosto, 2008

Semana Mundial da Amamentação

Começa hoje a Semana Mundial da Amamentação e a blogagem coletiva. Participe, escreva no seu blog algo sobre o tema ou coloque fotos, divulgue de alguma forma e deixe o link no blog Síndrome de Estocolmo. A causa é das mais nobres.