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27 outubro, 2012

Aqui se Fala Português

Pacotinho de Atividades Num Sábado Chuvoso colorindo a Cuca (do Sítio do Picapau Amarelo):
- Mãe, eu preciso de verde florestal.
- Verde escuro?
- É.
- Em português, a gente chama de verde-bandeira esta cor, porque é da parte verde da bandeira do Brasil.
- Eu chamo de verde florestal.

Claro, em inglês é "forest green". Mas mesmo assim ele traduziu e não falou em inglês.

Uma amiga no Brasil já tinha ficado surpresa ao ouvi-lo contando um monte de balinhas em português, já que a gente tende a sempre pensar matematicamente na língua em que aprende matemática, ainda que outras línguas tenham sido aprendidas primeiro.

E, como a Mamãe não consegue mesmo bater o olho numa nota na pauta e decidir automaticamente se é um A ou F ao invés de um lá ou um fá, ele aos poucos está aprendendo "dó ré mi" juntamente com o "C, D, E" que escuta na aula de piano e lê nos livros. Porque música é como matemática, a gente também pensa na língua em que aprendeu. A professora até ensina "dó ré mi", mas somente para solfejar, não como o nome das notas na pauta.

Persistência é a alma do negócio.

25 agosto, 2012

Descobrimento do Brasil Para Crianças

Como sempre, voltamos das férias na terrinha com a mala cheia de livros infantis. Muitos foram presentes, algumas compras, novos e usados, para a renovação essencial na estante, porque os livros precisam crescer junto com os leitores.

Com estas mudanças no blogger, não consigo inserir a foto do livro (é impressão minha ou mudaram mais ainda?), mas fica a sugestão de um dos muito bons livros que foram recentemente acrescentados ao nosso acervo particular.

Faz Muito Tempo, da Ruth Rocha, conta a história do descobrimento do Brasil através dos olhos de uma criança. Simples, com belíssimas ilustrações na última edição, fez muito sucesso aqui no Iglu. E nós continuamos cada dia mais fãs desta autora talentosa, já com mais de 3 dezenas de livros dela e desejando muitos outros.

18 março, 2012

O Lado Afetivo do Idioma

A turma do contra é universal. Onipresente e onisciente. Quando o assunto é criar filhos, nunca faltarão palpites. Quantos você deve ter, quando você deve tê-los, com que intervalo entre eles, se deve parir ou não, com ou sem anestesia, se pode ou não amamentar, por quanto tempo, se deve dar chupeta ou deixar chupar dedo, quando colocar na escola, a lista é infinita.

Passados os primeiros anos, a coisa costuma melhorar (ou pelo menos você acha). Aí um dia, no trabalho, alguém pergunta se seu filho fala a mesma língua que você. E você responde, sem disfarçar o orgulho, que sim. Uma colega estrangeira, cujo filho adulto não fala a língua dela, dá uma risadinha e diz "espera só até a escola começar". Você diz que ele já começou a escola formal e que antes disso frequentara a creche desde 11 meses de idade. Aí ela decreta "com 4 meses de escola, a criança para de falar a língua dos pais e começa a falar somente inglês. Foi assim com meu filho". Você não acredita na premonição, mas as colegas em volta, todas falantes de inglês e mais nada, não ousam discordar. Como só se passaram 2 meses de aula até o momento, você dá o assunto por encerrado.

Os 2 meses viram 6 e não só o menino não "esquece" a língua materna, como num belo dia, a tia brasileira que notava um sotaque de gringo nele, fala com o sobrinho ao telefone e comenta "como ele está falando rápido, perdeu o sotaque de gringo na letra R".

Você nota, fascinada, como a alfabetização em inglês (tão diferente do jeito que você mesma aprendeu a ler) tornou ainda mais agradável a hora da leitura dos livros em português. A primeira palavra que o menino aprende a ler na língua materna é FIM. E aquela curiosidade natural desta fase "Mãe, o que está escrito aqui?" vale para tudo, não somente para o inglês.

Pouco se fala nisso, mas existe uma vantagem em ser a principal "professora" de português dos seus filhos: é possível filtrar o vocabulário. Eles só vão falar palavras feias se ouvirem em casa (ao menos até as férias na terrinha). Por sinal, o Pacotinho de Literatura aprendeu o termo "idiota" ao mesmo tempo em que descobriu que se trata de uma grosseria chamar alguém assim, graças ao adorável
A Família Urso Esquece as Boas Maneiras, presente do seu tio favorito.

As visitas dos parentes brasileiros e até do carteiro, com pacotes contendo livros e filmes vindos do Brasil continuam sendo recebidos com excitação e as viagens à terrinha são esperadas pelo Pacotinho de Férias com muita empolgação. E a mãe dele se pergunta se o fato de ela falar com carinho e saudade do seu país, da família e dos amigos, ao invés de só ressaltar o que há de ruim por lá não tem uma parcela no fato de o menino todo ano contar os dias para "pegar 3 aviões e ir ao Brasil". Não dá para negar a existência da carga afetiva do aprendizado de um idioma. Afinal de contas, quem não conhece alguém que teve um(a) professor(a) de inglês (ou francês, ou alemão) ruim e depois teve um bloqueio para aprender a falar a língua por muitos anos?

Então, ao contrário de muitas previsões pessimistas, o Pacotinho de Tagarelice não parou de falar português porque começou a frequentar a escola formal, nem mesmo agora que já lê algumas frases em inglês. Também não passou a falar em inglês com a irmã (muita gente acha que é mais difícil fazer com que o segundo filho fale a língua materna, porque o irmão mais velho tenderia a falar com o pequeno sempre no idioma do país onde moram). E a Fofolete fala muito mais em português que o irmão falava na idade dela.

Como em tudo na vida, quando a gente quer alcançar um objetivo e precisa de ajuda, deve pedir a quem obteve sucesso naquilo. A amiga que deu mamadeira desde a primeira noite em casa só é a melhor pessoa para dar conselho sobre amamentação se for para a mãe que deseja muito amamentar fazer o oposto do que ela fez. Idem ao casal de brasileiros cujos filhos só falam com os pais em inglês. Não se deixem levar pelas experiências de quem desistiu.

13 outubro, 2011

Nossas Crianças Devem Aprender Português?

Uma matéria ('tá, matéria paga com certeza, mas ainda assim válida) do jornal Vancouver Sun desta semana questiona se as crianças canadenses devem aprender português "brasileiro" (o que quer que isso signifique para eles).

Há pouco tempo conhecemos um casal de brasileiros, cujos filhos não falam português. Entendem, mas respondem sempre em inglês. O Pacotinho de Observação não deixou de comentar (a quem terá saído este menino?):
- Mãe, porque Fulano e Beltraninho não falam português?
- Não sei, Filhote.
- Esquisito, né?

Então, se não for por motivos sentimentais, de apego às raízes, de orgulho das origens, de aproximação com os mais velhos da família que não falam inglês, que seja por razões econômicas e de maior chance de sucesso profissional que levem os brasileiros a fazerem questão que seus filhos falem a língua dos pais (ou só de um deles). Se faltava uma razão de força "maior", agora existe.

02 setembro, 2011

SAL do Iglu para Xará

Existe mesmo esta teoria de que, quando exposta a mais de um idioma, a criança demora mais a falar. E também dizem que meninos começam a falar mais tarde. Acho que há tantas variáveis envolvidas que não dá para prever. Com 1 ano e meio, meu filho falava 50 palavras, entre português, inglês e servo-croata e começou na creche (onde só falavam inglês) antes de 1 ano. Sei porque eu costumava fazer uma lista das palavras novas a cada mês. Frases inteiras ele só começou a falar com 2 anos completos. Antes de 3 anos, já pronunciava o R corretamente em todas as palavras e nunca falou como o Cebolinha. Conheço crianças no Brasil, expostas a um único idioma, que com menos de 2 anos falam frases e outras que só falam "mamãe". Meu vizinho tem 1 ano e 8 meses e a única coisa compreensível que diz é "oh, man!" (começou há cerca de 2 semanas), nem a mãe ou o irmão ele chama por um nome específico.

Uma amiga diz que está no mapa astral do Pacotinho de Tagarelice que ele seria assim e eu acho que filho de peixe, peixinho é (eu falo muito e fui do tipo que conversava antes dos 2 anos de idade).

Na verdade, isso costuma ser uma ansiedade dos pais (principalmente da mãe), porque jamais, numa entrevista de emprego, alguém vai perguntar "com que idade você começou a falar?". Se a criança não tem nenhum problema cognitivo, não faz diferença no futuro quando ela começou a pronunciar as primeiras palavras.

Já está provado que o achismo não é uma ciência exata, mas eu acho que a personalidade influencia também, porque os mais tímidos falam menos desde pequenos. Ao menos, na minha família, é assim.

Tenho uma querida amiga fonoaudióloga cujo filho nascido aqui fala português fluente e corretamente e que lê o blog. Talvez ela apareça aqui para fazer algumas considerações e corrigir qualquer besteira que eu tenha dito. De cobras e articulação verbal, não entendo muito...

01 setembro, 2011

SAL do Iglu para Lu de Israel

Você não perguntou nada, eu é que faço a pergunta: se você está numa festa, num parquinho, em qualquer lugar e vê uma mãe sueca falando com o filho pequeno na língua dela, isso ofende você? A mim, jamais. Sou capaz de parabenizá-la, se tiver abertura para tanto. Como eu disse, mesmo convivendo com pessoas de inúmeros países, só vi esta preocupação entre nossos conterrâneos. E até tenho uma teoria para o motivo, mas não é algo que falaria publicamente, ainda mais numa semana polêmica como esta.

31 agosto, 2011

SAL do Iglu para Sara

Sua pergunta é muito comum e pertinente.

Meu marido e eu conversamos um com o outro em inglês mas, se falamos com o Filhote, imediatamente mudamos cada um para a sua língua. Parece difícil, mas fica automático até na mesa do jantar, nas conversas no carro, o tempo todo. Tanto que o menino tem o mesmo comportamento e, sem eu nunca ter falado que não entendia servo-croata, um dia ele passou a traduzir pra mim o que os avós conversavam com ele, com 3 anos de idade.

Certamente aparecerão depoimentos de pessoas que não agem assim e, mesmo casadas com estrangeiros e morando num outro país, tem filhos fluentes em português. Tomara que apareçam, porque a gente sempre cresce com a troca de experiência. Particularmente, não conheço pessoalmente aqui em Vancouver nenhum exemplo assim. Os amigos imigrantes que tenho cujos filhos falam fluentemente a língua materna adotam esta estratégia.

Uma amiga brasileira, com uma filha mais velha que o meu filho, certa vez me disse que a menina havia chegado da creche chamando-a de "Mommy" e ela cortou logo: "Não sou Mommy, sou Mamãe". Ela nem sabe, mas foi a melhor dica que recebi.

Existe uma preocupação comum que até hoje só vi entre os brasileiros: a de parecer rude ao conversar com o filho na própria língua estando na presença de estrangeiros. Jamais falo com meus filhos em inglês e até hoje só escutei elogios dos canadenses. Na verdade, muitos confessam inveja de não falarem outros idiomas. As demais mães estrangeiras da escola do meu filho (muitas chinesas e mexicanas, uma japonesa, uma alemã e até uma canadense de Québec) fazem o mesmo com os filhos delas que, sem surpresa pra mim, são fluentes na língua materna. Não entendo mesmo a necessidade de, no meio do parquinho, dar uma bronca em inglês no filho (a bronca é para chamar a atenção de quem, afinal de contas?) e, se ele tiver que pedir desculpas "forçadas", ele sabe falar em inglês com a outra criança, sem que seja preciso a mãe esclarecer isso.

Para mim, que comecei a estudar inglês aos 15 anos de idade e jamais falarei sem sotaque, embora já fosse fluente quando visitei o Canadá pela primeira vez, seria até pretensioso querer ensinar inglês a uma criança nascida aqui. Outro dia, por mais que eu tentasse falar o nome do colega da escola (Samuel), o Filhote dizia que estava errado e repetia o "certo".

Muitos amigos dizem que o menino é muito inteligente, por isso eu "consegui" que ele falasse português, mas eu acredito que qualquer criança de inteligência "normal" (não sei o termo correto atualmente) é capaz, sendo estimulada diariamente.

O segredo é persistência.

Falei muito, mas é que o assunto é interessante. Vai ver que é por isso que o menino é tagarela e fluente em português: teve a quem puxar. Talvez os segredos sejam persistência e uma mãe que fala muito.

29 agosto, 2011

E quando o pai não fala português?

Desde que nasceu, o Pacotinho de Idiomas acostumou-se a ouvir a família do pai falar uma língua, a família da mãe falar outra e o "mundo lá fora" comunicar-se em uma terceira. Nunca houve uma conversa em que se explicasse que nem o pai nem a mãe falam a língua materna um do outro e compreendem somente algumas poucas frases.

Ele levou muito tempo para descobrir que a língua falada pela mãe chamava-se português (por sinal, foi durante uma viagem ao Brasil, enquanto assistia ao programa do Mr Maker, obviamente dublado, que caiu a ficha quando ele exclamou surpreso: "o Mr Maker sabe falar inglês!" - ele queria dizer "português", mas não sabia a palavra e foi corrigido por quem estava perto). Mamãe jamais perguntou "como se diz isso em português?", já que perguntas parecem um teste e podem inibir a criança. Se a intenção é ensinar e não testar, o mais eficaz é repetir em português a palavra ou expressão dita em inglês, o que quase sempre acontece por esquecimento ou desconhecimento mesmo. Depois de 857 vezes falando "dampar" (do verbo "to dump") e sendo corrigido com "despejar", ele sepultou o neologismo esquisito.

E eis que, aos 5 anos de idade, o Pacotinho de Vida Social é convidado para uma festa de aniversário. Ele já foi à casa do aniversariante e sabe que a mãe do menino é brasileira. Na hora de comprar o presente, ele pergunta:

- Mãe, meu pai está convidado pra festa?
- Está.
(ele fica pensativo)
- Ah, já sei! Quem não sabe falar português vai falar inglês na festa, né?

Simples assim.

13 junho, 2011

Seu filho fala português? Qual o segredo?

Há cinco anos (parece que foi ontem), quando o Pacotinho de Surpresas chegou ao Iglu, vários amigos e familiares perguntaram que língua usaríamos para falar com ele. A opinião de muitos era de que ele ficaria confuso, alguns mais otimistas achavam que ele iria eventualmente entender inglês, português e servo-croata mas responderia tudo em inglês. Várias amigas brasileiras casadas com gringos diziam que não teria jeito, que mesmo a mãe falando em português com a criança, eventualmente ela passa a falar somente inglês, por conta da escola. Alguns casais de brasileiros, cujos filhos também não falam português, foram descrentes.

Há cerca de 3 meses, fomos a uma festa onde todas as convidadas eram brasileiras casadas com gringos (nem todos canadenses) e, quando chegou para buscar sua mãe e falou em português, o Pacotinho de Tagarelice causou surpresa. "Quem fala português com seu filho?", perguntou uma convidada. "Em casa, só eu". "Mas meu filho não fala!"

Verdade seja dita, apesar da fluência, segundo a Santa Tia, o Pacotinho de Conversa tem um sotaque de gringo quando pronuncia o R num encontro consonantal, como na palavra "grande". Em algumas ocasiões, é quase palpável o raciocínio dele, com a construção verbal em inglês traduzida para o português:
- O que que é isso pra? (what is this for?)
- Pode eu fazer isso? (can I do that?)
- Quando eu vai no Nikko's casa... (dispensa explicação)

Considerando que ele começou a frequentar a creche, onde só se falava inglês, aos 11 meses de idade, é compreensível este deslize. O fato de não ter uma única célula tímida no corpo ajuda bastante, porque ele se enturma facilmente quando chega de férias no Brasil e, na última ida à terrinha, ainda estava numa idade em que algumas crianças nem pronunciam os RR, então elas não reparam em erros gramaticais. E, se reparam, não excluem o novo amigo por conta disso.

O recado que eu gostaria de passar aos pais brasileiros com filhos pequenos é: não desistam. Persistam. Não precisa ensinar português aos seus filhos, basta conversar com eles na sua língua. Não é difícil, é a língua que vocês falaram a maior parte da vida, aquela na qual se expressam melhor. Peçam aos parentes e amigos no Brasil que evitem dar roupas de presente (as daqui são feitas pra aguentar o tranco de lava-roupa e secadora, duram muito mais) e invistam em DVDs brasileiros ou dublados em português, CDs de músicas ou estorinhas e livros, muitos livros infantis. Desta forma, seus filhos aprenderão vocabulário extra, aquelas palavras que os pais não usam no dia a dia. O Pacotinho de Nostalgia adora assistir aos episódios da década de 70 de O Sítio do Pica-pau Amarelo e foi assim que as palavras saci, Dona Carochinha e tantas outras surgiram aqui no Iglu.

Evitem a todo custo aquelas frases misturadas, tão comuns em reuniões de brazucas, como "Fulaninho, você quer comer chicken? Mommy dá pra você, está yummy.". Se a criança não sabe a palavra em português e manda um "meu sorvete estava dripping", é tão simples repetir "seu sorvete estava PINGANDO?", como acontece pelo menos uma vez ao dia por aqui. Ou será que só eu acho simples e não é?

Talvez algumas famílias não achem necessário nem interessante que os filhos falem português, por qualquer motivo que seja e estão no direito delas.

Sempre me lembro de um amigo da família, filho de pai brasileiro e mãe alemã, nascido e criado na França, que fala português como se tivesse sempre morado no Brasil, mas diz que "gosta de pensar em alemão". Este xará do meu Pacotinho de Surpresas foi minha grande inspiração.

Eu particularmente não falo nunca em inglês com as crianças, nem se estivermos cercados de canadenses. Se for algo pertinente às outras pessoas, eu falo em inglês com elas, mas com meus filhos, sempre em português. É o que se chama OPOL, "one person, one language". A criança aprende a falar sempre na mesma língua com aquela pessoa. E tem dado muito certo. Algumas famílias optam por falar português em casa e inglês fora de casa. Qualquer que seja a opção, ainda não conheci ninguém que se lamente "uma pena meus pais terem me ensinado a língua nativa deles, eu seria mais feliz sabendo somente inglês" e trabalho numa verdadeira Torre de Babel, com um monte de colegas estrangeiros ou filhos de imigrantes. A reclamação contrária é bem comum.

Agora há quem diga que, assim que entrar na escola, ele vai passar a falar somente em inglês. Aguardando as cenas dos próximos anos...

29 novembro, 2009

Disney on Ice - Vancouver 2009

A mãe, que não é muito fã de multidões desde criacinha, quando foi com o pai e dois irmãos pequenos ao show gratuito dos Trapalhões no ginásio de esportes em Brasília e que, não tendo aprendido a lição, já adolescente, foi literalmente pisoteada naquele legendário show do Legião Urbana em 88 também na capital, decidiu levar seu Pacotinho de Eventos ao Disney on Ice 2009. Se tem uma coisa que indiscutivelmente é muito melhor no Canadá do que no Brasil é multidão. Não importa o número de pessoas nem o tamanho do lugar, ninguém pisa no seu pé, não tem gente furando a fila e, se você por acaso esbarra em alguém, imediatamente ouve um pedido de desculpas. Isso mesmo quando a culpa é sua.

Depois de ler no jornal um artigo de página inteira sobre como foram feitos os Carros (assim mesmo, com C maiúsculo, os personagens) para o evento, não havia mais dúvida. Certamente foi matéria paga, mas bem convincente como propaganada. Foi tudo tão elaborado que, pela foto, ela decidiu que o Pacotinho de Tietagem do "LighteMing McQueen", como ele mesmo fala, iria adorar.



Chegam lá bem cedo, sem problemas com vagas no estacionamento pago, onde já se viam dezenas de princesinhas de todos os tamanhos, cobertas por casacos enormes, mas sem touca para não cobrir as tiaras brilhantes. Sabe como é, princesa passa frio nas orelhas mas não perde a majestade.

E já na entrada começa a exploração. Quem manda sair de casa com fome? Como assim ONZE dólares por um baldinho de pipoca? São pipocas que protegem contra o H1N1? O brinquedinho que acende luz e roda também custa caro. Aí ela entra, senta e vem um cara vendendo uma pipoca "baratinha", que só custa oito dólares. E porcaria vai, besteira vem, antes de começar o show ela já gastou mais do que o preço dos ingressos. Erros de iniciante, que ano que vem já vai sair de casa com o brinquedinho giratório desde ano e um saco de pipocas caseiras.

O Pacotinho de Jejum vê pela primeira vez um saco de algodão doce e diz que quer "sorvete". "Não é sorvete, é algodão doce." "Eu gosto de godão doce". E come com a boca boa, dizendo "que gostosura!". E quem disse que não se enriquece o vocabulário assistindo a videos? "Gostosura" é uma palavra que a mãe dele nunca fala.

Começa o show, o Marido Gringo avisa "se eu dormir, não me acorde". Mas não dá para dormir. Primeiro porque os Carros são fantásticos e o espectador que não é engenheiro passa o tempo todo se perguntando como construíram tudo, como é que eles se movem tão perfeitamente no gelo e ainda mexem a boca e acendem os faróis! Em segundo lugar, porque o raio do brinquedinho giratório segurado pelo filhinho dela está exatamente na altura dos cabelos compridos da moça à sua frente e, como cidadã responsável, ela teme pela segurança capilar da pessoa. Em terceiro lugar, porque a princesinha atrás dela chuta-a nas costas com umas botas de plástico com pompons cor-de-rosa. O rei, digo, o pai da princesa, até tenta controlá-la, mas não num intervalo ideal para quem está do outro lado da sola da bota. Ah, se for para ser chutada, que seja com estilo e frufus cor-de-rosa. É mais confortável ser chutada do que ser a mãe do "chutante".

Os patinadores são excelentes, parecem todos saídos das últimas Olimpíadas de Inverno, movendo-se com perfeição além dos limites humanos sob fantasias pesadas. Pelo menos para ela, que fez três vezes o curso no nível iniciante de patinação no gelo para adultos e até hoje patina tão bem quanto o Robocop.



Tudo são flores (ou chapéus de flores, que vinham com o algodão doce que, pelo preço, cura o câncer, como usavam todas as meninas que estavam sem tiaras) no primeiro ato.

Depois do intervalo, começa uma xaropada de um ato de um filme que ela não viu. Não entende xongas do que está acontecendo ali. Uma gritaria, uma fada que parece um travesti, uns duendes gordinhos jogando tudo no chão, uma outra fada dourada pendurada por cabos de aço. Uma mistura de Cirque du Soleil com ensaio de escola de samba do segundo grupo. Do interior de Minas. A criançada à sua volta começa a ficar impaciente, você até quer ir embora, mas a multidão aqui não é tão passiva a ponto de permitir que subam nas suas pernas para alcançar o corredor. Depois, para sua indignação, uma amiga conta que as princesinhas dela ficaram comportadíssimas até o final. Claro que ela não estava sentada no mesmo setor que você, de onde uma fadinha e uma Branca de Neve saíram aos pontapés antes do final do segundo ato. Claro que a princesinha zagueira atrás da nossa heroína permaneceu até fim. Chutando até o fim.



Enfim, acaba o espetáculo. A multidão dirige-se para a saída novamente sem o menor problema. Você faz as contas e vê que está carregando um monte de tralhas inúteis que custaram os olhos da cara, mas valeu a pena. Os olhos brilhantes do filhinho vendo seus personagens favoritos, as palmas, o adeuzinho espontâneo dado ao Mickey Mouse não têm preço. Já a tralha vendida no ginásio, bem, deixa pra lá.

06 novembro, 2009

Que Legal!



Não sou uma estudiosa do processo de aquisição de linguagem, mas adoraria ser. Morando no país de origem e falando somente a língua nativa, a criança é exposta a várias fontes de linguagem e adquire expressões novas não só da família, mas da escola, dos vizinhos, da TV, da vida. Os pais talvez achem graça nas frases diferentes ditas pelos pequenos, mas provavelmente nem ficam elucubrando muito de onde eles tiraram aquilo.

Quando a gente mora num país estrangeiro, casada com um marido que não fala a mesma língua, as "fontes de português" ficam bem limitadas. O Pacotinho de Idiomas tem primordialmente a Mamãe Obstinada para ensiná-lo a falar português. Os DVDs, livros, CDs e amigos conterrâneos têm seu papel, mas com menor intensidade. Ele tem um grande vocabulário em português, mas a gramática costuma ser bem capenga. Vamos combinar que português não é uma língua fácil, né? E que não tem lógica fantasma e pijama serem substantivos masculinos.

Depois da viagem à terrinha, fica bem claro o que ele aprendeu lá e as expressões incorporadas que ele ouviu de outras pessoas. Deve ter aprendido "que legal" com os primos ou outras crianças, durante alguma brincadeira, porque não falava isso antes.

Chega da creche contando:
- Eu comi meu "lunch", comi frango e pera.
(como ele leva uma vida de jejum, o evento de comer qualquer coisa é geralmente celebrado)
- Almoço, Filhote. Você comeu seu almoço.
- Não comeu almoço, eu comi pera.
- Que legal!
- Mas não é que legal, pera é para comer, não é para brincar.

Parece que ele acha que a expressão é só para brincadeiras.

Ele também adquiriu o bordão "mas tem que tomar cuidado", que repete nas situações mais inapropriadas, que não envolvem risco algum.

Mas o mais interessante é que, depois de 3 semanas imerso em português, sem ouvir ninguém falando servo-croata, ainda assim fez progressos no idioma do pai. Deduz-se que é porque também se trata de uma língua cheia de flexões verbais, com artigos e pronomes que variam entre feminino, masculino e neutro, bem diferente do inglês e aí ele fez algumas associações gramaticais novas. Fascinante.