


"Filhote,
Você está tão diferente desde que completou 3 anos! Passou a ter uma preocupação com o futuro, pergunta para onde estamos indo ao sair de casa, já acorda perguntando que dia é hoje. Como Mamãe sai para trabalhar antes de você acordar praticamente todos os dias, quando você acorda e ela está em casa, já deduz que é o final de semana. Aos sábados, tinha aula de natação e aos domingos, de ginástica (férias para ambas agora). Se você acorda e Mamãe está em casa, antes de "bom dia", vem "hoje tem ginástica? Hoje tem piscina?". E, diante da resposta negativa, você conclui que ela está de plantão mais tarde, faz beicinho e diz "hoje tem escola?".
Você adorou sua festa de aniversário. Só passou a dizer que tem 3 anos depois dela. Outro dia, enquanto esperávamos o elevador, a vizinha chegou, você logo cumprimentou com "hi", ela perguntou "how are you?" e você "I'm three", apontando o número 4 com os dedos e depois apertando o mindinho com a outra mão, para conseguir mostrar 3.
Você nunca foi tímido, mas de 1 mês para cá, aborda os vizinhos, as pessoas nas lojas, comenta sem eles perguntarem para onde está indo, o que vai fazer, o que tem nas mãos... As pessoas geralmente riem de alguém do seu tamanho tão tagarela.
Hoje teve uma birra no final da tarde, para sair de bicicleta sem capacete, o que é uma das coisas não passíveis de negociação nesta casa, mas fazia tanto tempo do último conflito que Mamãe nem se lembrava mais! Apesar dos joelhos já esfolados por quedas no parquinho (assim mesmo, quedas, no plural), o clima não estava propício para negociar as joelheiras. "Escolha suas batalhas" é um lema apropriado para sobreviver a esta fase.
Você gosta de ser independente. Já vai ao banheiro sozinho, embora precise de mais ajuda do que admite. Se não for lembrado, não lava as mãos. Tem guardado seus brinquedos quando acaba de brincar, quase sempre cantando a musiquinha em inglês que aprendeu na creche ou a versão tupiniquim que canta sua mãe "meus brinquedos, meus brinquedos vou guardar, vou guardar, porque já acabei, porque já acabei de brincar". Da série "coisas que nunca pensei que faria antes de ter filhos". Você agora entende o conceito de "é a vez do Fulaninho, depois é a sua vez" e consegue compartilhar os brinquedos.
Você tem uma amiga favorita já há muito tempo. Pelo menos, reparamos na sua festa de aniversário do ano passado. É a Rafa, uma gauchinha de 10 anos. Você reserva para ela um abraço apertadíssimo que só costuma dar espontaneamente aos seus pais e avós. É um amor tão grande que, se Mamãe acreditasse em vidas passadas, diria que vocês já foram irmãos um dia. E você fica bravo se alguém se refere a ela como Rafaela. "Não é Rafaela, her name is Rafa". Quando ela completar 12 anos e estiver habilitada a ser "baby-sitter", já tem um cliente cativo.
Você agora corrige tudo o que a gente fala. Tem suas próprias opiniões e não larga o osso facilmente. Esta semana estava apontando para o porta-guardanapos, que tem as figuras de um garfo, uma faca e uma colher e disse "dois garfos". Mamãe falou "é um garfo, uma colher e uma faca". Você insistiu, virou o troço para o outro lado e apontou um garfo de um lado e outro no lado oposto. "Dois garfos!", concluiu vitorioso. Realmente os adultos nem sempre estão certos e ficamos felizes que você defende seu ponto de vista.
Esta semana você foi à dentista. Na vez anterior, Mamãe estava de plantão e você foi com seu pai e avós. Lembro de eles comentarem que não havia sido uma experiência agradável. Seis meses se passaram e você não se esqueceu. Na sala de espera, pediu para ir embora e disse, pela primeira vez "estou com medo". Mamãe ficou tão orgulhosa de você expressar-se assim! Você sentou na cadeira, no colo da Mamãe. A assistente foi maravilhosa, fez balão com a luva, deu brinquedo, mostrou tudo, mas você chorava silenciosamente e cobria a boca com o babador que ela havia colocado no seu pescoço. Aí veio a dentista, falando em português, com voz calma e você abriu a boca, deixou que ela contasse seus dentes e examinasse. Ela até teria conseguido fazer a limpeza, mas achou melhor aguardar a próxima consulta. Estava tudo perfeito, mesmo sendo chupador de dedos, sua mordida está normal. A dentista tem o mesmo pensamento dos seus pais: você vai parar de chupar os dedos quando estiver pronto. Como você ainda tem o hábito de colocar praticamente tudo na boca (menos comida), dá para ver que ainda precisa deste consolo dos dedos. Aqui em Vancouver, as pessoas têm muito menos preconceito contra os dedos do que no Brasil. Ainda bem.
Você fala os plurais bem direitinho, pelo menos os óbvios. Claro que precisa de ajuda para "mãos" e "corações", até porque, Mamãe descobriu com você, não são fáceis. Você fala "churrástico" e "barbecute". Não tem nenhum fonema que não consiga pronunciar, mas ainda fala "raranja" e "baruro" (para laranja e barulho).
Vovô mandou uma coleção de livrinhos maravilhosos para você. Mamãe estava num dilema, porque adora ler com você e só gosta de ler em português, mas pulava vários trechos de algumas estórias, como o Barba Azul escondendo as cabeças das esposas mortas num quarto ou um rei dizendo aos 3 filhos que daria o reino para aquele que se casasse com a princesa mais bela. Ah, para isso sua mãe é politicamente correta! Então ela pediu estes livros da
Coleção Giramundo e temos nos divertido muito. São livros bem ilustrados e bem escritos, que incentivam a autoestima, passando mensagens positivas e educativas. Seu preferido é o Feliz por Obrigação e você sempre fica impressionado com a parte em que o menino tira a máscara do rei. Páginas depois, você volta folheando tudo e procurando "taguê máscara?" (você fala "helicóptero", mas não pronuncia "cadê" corretamente). Outro livro delicioso que Mamãe pediu foi O Gatola da Cartola, versão brasileira de The Cat in The Hat, que você já tinha em inglês. Lemos praticamente toda noite, você adora a bagunça que o gato faz. Toda vez que Mamãe lê "ancinho" no livro, você corrige "não é ancinho, é garfo".
Você anda gaguejando, faz uma ou duas semanas. As idéias são mais rápidas do que a língua consegue acompanhar e você gagueja mais em português. Engata em "eu eu eu eu eu" e até completar o pensamento, enrola-se. Você com frequência responde em inglês quando a Mamãe pergunta alguma coisa, principalmente logo após chegar da creche, mas ter mãe capricorniana cabeça-dura (seu avô diz que isso é um pleonasmo) tem suas vantagens. Mamãe traduz em português o que você acabou de dizer e aí você repete. Persistência, persistência, persistência e sua mãe é boa nisso. Ainda bem que estamos de passagem comprada para umas merecidas férias no Brasil, que funcionarão como curso intensivo de imersão na língua portuguesa para você e de mordomia para ela!
Você agora gosta da piscina. Praticamente todo final de tarde vai nadar com seu pai na piscina do prédio. Num dia, encontrou várias crianças lá. No outro, somente um vizinho, então comentou, com uma voz desconsolada "just a dad, no kids". Esta fase é muito engraçada. Você pegou um livro do seu pai na mesa e perguntou "is this story yours?". Mamãe adora a forma de as crianças pequenas expressarem seus pensamentos com termos não convencionais para os adultos.
Uma das suas qualidades mais adoráveis é a empatia. Mamãe chegou em casa ontem chateada, mas deu um sorriso ao ver você. Não deve ter sido muito convincente, porque você levantou da cama, deu um abraço apertado, depois se afastou um pouco para olhar nos olhos e perguntou, preocupado, "você está feliz?" E como não ficar depois disso?
Um abraço bem apertado, como diria você "eu eu eu eu eu eu eu te amo",
Mamãe.