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17 agosto, 2013

Coisas da Vida com Quintal

Então você está lá no seu quintal, toda prosa colhendo cebolinhas e orégano fresco pro jantar e escuta sua filha de quase 3 anos comentar com uma voz forçadamente dengosa:

- Mãe, olha que bonitinho o ratinho!

Você se vira pra olhar e não consegue conter o grito ao ver a menina quase encostando num camundongo preto, morto.

- AAAAAAAAAI!

Você sai correndo (sabe lá se o bicho veio de turma) e sobe as escadas pra cozinha. A pobre criança, assustada com seu berro, corre atrás chorando (se a adulta está assustada, vai que o camundongo mutante se transforma no Godzilla...)

E entram em casa, a menina às lágrimas:

- Mamãe, o ratinho do bumbum preto me assustou.
- Não, foi o grito da Mamãe que assustou você.

E lá se vai o herói, seu filho de 7 anos, "resolver" o problema:

- Mãe, joguei uma pedra no ratinho e ele continuou morto.

Já não se fazem pedras como antigamente...

19 março, 2013

Vaidade, Teu Nome é Fofolete

Você, antes de ter filhos, olhava horrorizada para aqueles meninos com as calças rasgadas no joelho e pensava consigo mesma "que mãe desleixada!". Agora que você sabe que em 3 meses no máximo uma calça nova (de qualquer tecido) estará rasgada no joelho e que sim, seu filho vai continuar usando-a do mesmo jeito, passou a observar que "aqueles meninos com as calças rasgadas" são todos os meninos entre 5 e 8 anos (você ainda não prestou atenção na faixa etária muito longe da do seu filho). Mães desleixadas de meninos ativos unidas jamais serão vencidas.

E, da mesma forma que você criticava mentalmente as mães desleixadas dos meninos, ouvia com ceticismo os casos das garotinhas que se recusavam a sair de casa se não estivessem de vestido. E você ainda pensava que isso seria a partir dos 5, 6 anos. Ha ha ha, diria você hoje para alguém que pensasse assim.

Fofolete, antes de completar 2 anos e meio, decidiu que só dorme de camisola. Não tem frio, nem cobertor caído no chão, nem pijama bonitinho que a faça mudar de ideia. Não tem conversa, nem nada. Ganhou 2 camisolas "de princesa" do tio, que ficaram devidamente escondidas desde o Natal, mas foram encontradas por ela no fundo da gaveta. E, desde a descoberta, os pijamas foram todos aposentados. E outra noite ela chorou por 40 minutos, enquanto o pai ainda achava que conseguiria convencê-la a pelo menos vestir uma calça de pijama por baixo da camisola. E ele perdeu.

No domingo, voltando da "aula de pocudês" (português, para os maiores de 2 anos), ao perceber que o carro estava no caminho de casa, Fofolete adiantou-se "dormir de camisola de princesa. Camisola ROSA". Ela já avisa a vários quarteirões de distância, para evitar a discussão depois do banho.

Ela abre as gavetas, descobre vestidos de verão escondidos e decide que, apesar dos 6 graus Celsius, é hora de "vestido de florzinha" ou "vestido de bairalina" (assim mesmo, com o R no lugar do L). Para convencê-la a colocar a meia-calça por baixo do vestido, somente apelando para o único argumento que funciona: o da vaidade. Enquanto o verão não chega (cá pra nós, nem a primavera de verdade), tem funcionado distraí-la com a escolha dos sapatos para calçar a meia. Ela vai pensando no sapato, alguém calça as meias rapidamente. E as botas de chuva cor-de-rosa são as eleitas mesmo em dia de sol.

A ditadura do rosa nem sempre é escolha das mães, como você tem comprovado. Com 2 anos, ela gravita em torno desta cor e, sempre que há opção, ela opta pelo rosa, mesmo tendo todas as cores (inclusive preto) no armário. E quando alguém sugere qualquer outra cor, ela responde "não combina".

Mesmo com a discussão matinal diária com o pai na hora de decidir o que vestir, todos estão de acordo num ponto: esta idade em que eles falam tudo, manifestam sua própria opinião com aquela vozinha deliciosa é trabalhosa mas é uma delícia! Vontade de filmar todo dia as conversas dela (o que seria fácil na era do iPhone, iPad e etc, mas ela é quem quer filmar e fotografar tudo sozinha).

21 dezembro, 2012

Mãe Brasileira e Filho na Escola Pública Canadense


Então você, imigrante brasileira, que estudou a vida inteira numa escola religiosa e particular no Brasil, sobreviveu ao primeiro ano como mãe de aluno numa escola pública no Canadá e passou pelas fases de estranhamento, comparações e preocupações com o currículo. Ficou surpresa com o rápido progresso do seu filho, apesar de parecer tudo muito lúdico e pouco acadêmico. Venceu seus próprios preconceitos, abraçou a proposta de escola como parte da comunidade e começou o segundo ano sendo "a mãe do Fulaninho", conhecida da diretora, da bibliotecária e até do cachorro do assistente da professora. Claro que o fato de seu filho ser "O Fulaninho", tagarela e desinibido que só ele, torna seu trabalho bem mais simples.

A escola aqui exige participação intensa dos pais. Ou melhor, a escola não "exige" nada, ela solicita, o sucesso da vida escolar do seu filho é que exige participação intensa dos pais.

Depois de um primeiro ano marcado por "job action" (na falta de uma tradução literal em português, já que não é greve, você opta por "operação tartaruga"- os professores deram aula, mas não fizeram nenhuma atividade fora do horário, nem preencher boletins), a escola finalmente pode mostrar como funciona.

Você começou voluntariando numa de suas poucas folgas em dia útil e depois mandando um presentinho com cartão pra professora no dia 15 de outubro, explicando pra ela que era o "Dia do Professor" na sua terra natal. Seu filho já a tinha conquistado na primeira semana (ela tem um fraco por crianças que gostam de falar em público), mas você a conquistou com o pequeno gesto que ela descreveu como "o primeiro dia do professor em 20 anos de carreira".

Você está encantada com a ênfase que a escola dá ao serviço voluntário. O que falta em estrutura física, quando comparada com as escolas particulares em Brasília (você só consegue comparar com a realidade em que estaria vivendo seu filho se morasse na terrinha), a escola pública local esbanja em lições de cidadania. Alunos de 10 a 12 anos voluntariam-se ajudando os menores em atividades de leitura ou até para vestir a roupa na hora de sair para o recreio (não que estejam pelados na sala de aula, é que vestir um casaco pesado, uma calça acolchoada e calçar luvas, mais um par de botas para neve não é tarefa fácil para uma criança de 5 anos). Alunos mais velhos também trabalham na noite do cinema da escola, vendendo ingressos e pipocas, assim como em todos os eventos extracurriculares. Além de cartas de referência, recebem pagamento para cuidar das crianças menores durante as reuniões dos pais.

Outro ponto de destaque para a escola pública local é a noção de diversidade. Com alunos provenientes de várias partes do mundo, as crianças aprendem não só a aceitar o diferente, mas a celebrar as diferenças e juntar o melhor de vários mundos. Então, quando seu filho de 6 anos vir um candelabro e falar "é um menorah", você, que não é judia, vai ficar contente ao constatar que obviamente ele aprendeu isso na escola.

Você conseguiu olhar para além das inúmeras classes divididas em duas séries escolares (onipresentes em quase todas as escolas públicas de ensino fundamental na Grande Vancouver) e descobriu o que há de positivo. Um grupo de pais muito ativo do qual você faz parte (PAC - Parent Advisory Comittee, que organiza a arrecadação de fundos monetários e decide como serão gastos), uma diretora engajada e entusiasmada também fazem muita diferença.

Mas, como em qualquer escola no mundo, um bom professor é fundamental. Seu filho foi premiado com uma ótima professora no "kindergarten" e com uma absolutamente excepcional este ano. Depois de uma apresentação de Natal onde ele teve, pelo segundo ano consecutivo, o único papel de destaque da turma e do recebimento de um boletim cheio de elogios, seu coração fica sossegado. Você cumpriu seu papel de mãe de estudante até agora e seu filho tem cumprido o de aluno com louvor. Diferenças à parte, a escola pública local mostra-se capaz de exercer seu maior papel: o de formar cidadãos que façam deste mundo um lugar melhor, usando suas potencialidades ao máximo.

09 abril, 2012

Marte, Vênus e a Páscoa


Ela: Planeja tudo com antecedência, convida a família toda do marido (a parte dos 10 adultos que moram na cidade, claro) para um "brunch" no domingo de Páscoa. Compra os ovinhos de plástico e as porcarias que servirão de recheio, porque o Pacotinho de Seletividade Alimentar não suporta chocolate, então o Coelho da Páscoa sempre traz balas e pirulitos pra ele. Dois dias antes, ela vai ao supermercado e compra os ingredientes para a comilança do domingo. Na véspera, ela vai aos outlets do lado americano da fronteira para aproveitar a promoção e comprar uma roupa elegante para as crianças.

No domingo, ela acorda às 6 da manhã, vai ao quintal e esconde os ovinhos de plástico. Volta para a cozinha, começa a cozinhar e depois arruma a mesa da sala, antes que todos acordem, tudo para não perder a missa das 9.

Ele: Acorda às 7, aproveita que está cansado (ficara limpando a casa até tarde na véspera) e vai deitar no sofá, mas só até ser interrompido por Ela. Aí pega a Fofolete Elétrica que, com 1 ano e meio de idade, é uma exímia escaladora de cadeiras, mesas, sofás e afins, e vão juntos limpar o quintal.

Quando Ela volta da igreja com o Pacotinho de Comportamento Exemplar na Missa, encontra a Fofolete com a cara e as mãos meladas e manchadas em tons de laranja e verde. E conclui:

- Ih, ela achou as balinhas no quintal...
- Ah, foi você quem escondeu! Eu estava achando estranho ela encontrar estas balas atrás dos arbustos.
- Nãããão... Foi o Coelhinho da Páscoa!

Desligamentos à parte, a Páscoa, assim como aniversários, Natal, Halloween e qualquer outra celebração, também fica infinitamente mais divertida quando se tem criança (de todas as idades) em casa. Ainda que seja do tipo que não gosta de chocolate.

23 dezembro, 2011

Natal Chegando




Se tem uma coisa que fica melhor depois que a gente tem filho é o Natal. Tudo o que envolve esta época do ano torna-se mais especial, mais divertido. Esperar pelo Natal, decorar a casa (depois de um tempo o mais correto seria "ver os filhos decorarem a casa) e criar ou perpetuar tradições familiares.

Uma tradição canadense que aqui no Iglu incorporamos é a de fazer biscoitos natalinos para presentear os amigos e deixar perto da árvore de Natal para o Papai Noel lanchar quando vier deixar os presentes. Este ano, pela primeira vez, o Pacotinho de Alfabetização escreveu de próprio punho um bilhete agradecendo ao Papai Noel, que vai ficar junto com o pratinho de biscoitos. Outra tradição é a de montar uma casinha de biscoito de gengibre. Todo ano o Pacotinho de Artesanato monta uma e, pela primeira vez, passou a comer as paredes da casa.

Uma tradição recém-incorporada este ano é a de "adotar" uma família em situação difícil e presentear as crianças com roupas de inverno e brinquedos. Tudo novo, embrulhado e entregue de surpresa. Um canal confiável e eficiente para encontrar as famílias é o programa Adopt a School, do jornal Vancouver Sun. Já se tornou a tradição favorita.

Nesta correria de final de ano para quem trabalha em tempo integral e tem crianças em casa, não sobra muito tempo para escrever no blog, então junto com os votos de um Natal abençoado, saboroso e divertido, segue a receita do biscoito caseiro favorito aqui do Iglu. Sucesso de público e crítica, essa receita já foi testada por muitos anos e mais que aprovada:



Ingredientes

- 175g de manteiga amolecida
- 3/4 xícara de nozes pecan moídas e torradas
- 1 pitada de sal
- 1/4 xícara de coco ralado
- 1 colherzinha de extrato de baunilha
- 2 xícaras de farinha de trigo
- 1 gema
- 1/4 xícara de açúcar branco refinado
- 1/4 xícara de açúcar demerara ("brown sugar")

Modo de Fazer

Bata numa vasilha a manteiga, os dois tipos de açúcar, a baunilha e a gema até formar um creme bem pastoso.

Numa outra vasilha, misture a farinha, 1/2 xícara de nozes e o coco, com a pitada de sal. Acrescente esta mistura à massa da manteiga em 2 porções. Bata.

Separe a massa em duas metades iguais. Coloque a massa num filme plástico já coberto com o resto das nozes moídas. Abra com o rolo, para as nozes incorporarem-se à massa. Faça dois rolos de cerca de 4 cm de diâmetro cada. Leve à geladeira por 1 hora (pode ficar até 24 horas). Corte em fatias de 2,5 cm e leve para assar em forno pré-aquecido a 180C por 10 minutos ou até ficar dourado.

Recheie os biscoitos com doce de leite, formando um sanduíche.

Fonte: Canadian Living Magazine, December 2009

13 dezembro, 2011

The Golden Five

Os pais e mães diferem sobre a resposta quando questionados em que idade os filhos deram mais trabalho. Na verdade, muitos acham que filho sempre dá trabalho, só muda o tipo de preocupação. Há aqueles que são traumatizados com recém-nascidos. Conheço algumas mães que nem gostam de ver fotos nem pegar bebês novinhos, porque isso traz lembranças ruins sobre a trabalheira que tiveram nessa fase. Outros preferem a idade em que as crianças já interagem, mas ainda são pequenas e inocentes. Muitos dizem que curtem todas as fases e geralmente são aqueles pais bem calmos e tolerantes. E há até quem prefira adolescentes.

A expressão "terrible twos", que segundo um pediatra famoso, Dr Karp, na verdade começa aos 18 meses e chega ao fim perto dos 2 anos, não foi criada à toa. Esta fase em que a criança tem total mobilidade e nenhum bom senso costuma ser complicada em muitas famílias.

Aqui no Iglu, as crianças nascem turbinadas. São aqueles bebês elétricos, que caminham e correm sem parar, curiosos e "mexelões", mas como tudo na vida tem sua compensação, são muito desinibidos e, na medida do possível, bem independentes para a própria idade.

Uma amiga usa a expressão "golden five" para o quinto aniversário. Realmente, é uma idade deliciosa. A mesma criança que aos 2 anos era incapaz de compartilhar qualquer coisa com um amigo (surpresa: é normal e esperado ser "egoísta" aos 2 ou 3 anos), aos 5 anos consegue organizar uma brincadeira com outras 2 ou 3 crianças da mesma idade, onde todos tem a sua vez, sem brigas e sem interferência dos adultos.

Se aos 3 anos as regras são ainda muito abstratas, aos 5 elas já são explicadas pela própria criança. "Oi, Fulaninho, minha mãe disse que a gente pode brincar aqui, mas nada de esconder no quarto da minha mãe".

A independência para ir ao banheiro sozinho, o orgulho de mostrar uma habilidade recém-adquirida, a preferência por atividades que exigem concentração ao invés da correria eterna antes dos 2 anos são bônus para mães exaustas.

Se antes eu queria congelar meus Pacotinhos de Surpresas antes de 1 ano de idade, agora gostaria de congelar meu Pacotinho de Curiosidade Infinita aos 5 anos e meio. Ainda com todos os dentinhos de leite, aquela inocência de quem acha que os pais sabem a resposta para todas as dúvidas do mundo, sua lista interminável de perguntas sobre absolutamente tudo, nenhuma vergonha de cantarolar músicas natalinas enquanto caminha pela rua, um entusiasmo cheio de orgulho ao conseguir ler uma palavra num cartaz em qualquer lugar... Esta fase em que a criança está sendo alfabetizada é tão gostosa! Depois do primeiro ano de vida, esta é minha idade favorita. Ai, como vou sentir saudade destes 5 anos!

27 novembro, 2011

A Estação das Doenças




O Pacotinho de Jejum Eterno, embora coma muito mal em qualidade, quantidade e variedade, é uma das crianças mais saudáveis nos grupos de que faz parte. Mesmo já tendo tido uma receita de antibiótico para otite, nunca tomou nenhum. Com vários colegas e professoras faltando aula na escola, no curso de piano, ele ainda não tinha tido nenhum resfriado desde o verão de 2010. Mas não escapou imune à estação.

Com 5 anos e meio, Mamãe achava que ele já estava velhinho para ter "croup" (em português, laringite estridulosa), uma doença comum a crianças menores de 3 ou 4 anos. Há duas noites, ele que nunca foi manhoso ou chorão e sempre dormiu como uma pedra, doente ou não, acordou com febre, uma tosse parecendo um latido de foca (não sei o que foca faz em português, mas em inglês ela late) e reclamando de dor "no pescoço". Mamãe dificilmente se apavora com alguma coisa e sabia que, antes de chegar ao ponto de fechar a garganta e precisar de corticóide no hospital, a providência é acalmar a criança (falta de ar dá pânico mesmo) e levar para tomar ar frio (o que não falta abrindo a janela nesta época do ano). Ele se acalmou, dormiu a noite toda e ficou bem derrubadinho e calado no dia seguinte.

Aí, duas noites depois, ele acorda com o nariz escorrendo. No escuro, pega um lencinho e assoa. Corre pro banheiro e grita apavorado "pode acender a luz, Mamãe? Meu nariz está sangrando!". Era muito sangue, no vaso, no chão, na pia, escorrendo pelo nariz e sendo cuspido em grande quantidade. A mãe nem muda o tom de voz, "vamos voltar pra cama, sentar com o travesseiro nas costas, colocar este saquinho de gelo no nariz e chupar um picolé enquanto assiste a um desenho na TV". "Mamãe, não tem sangue na minha boca, não quero picolé, o sangue é do nariz!" "Cadê meu filho e quem é este menino que recusa picolé????"

Levou um tempão pro sangramento estancar e provavelmente hoje ele vai faltar a sua primeira competição de jiu-jitsu.

Até o fim do inverno, que oficialmente nem começou, tem sempre alguma criança doente nas redondezas. Umidificador no quarto, óleo de tomilho no peito, Baryta carbonica pra quem, como a mãe do Pacotinho de Virose gosta de remédios naturais (até porque virose não se cura com antibiótico) e força na peruca para sobreviver à mais longa das estações no hemisfério norte.

05 novembro, 2011

Duas Semanas de Volta ao Trabalho

Depois de duas semanas acordando às 05:30 da manhã, pegando condução no breu e no gelo de 6 horas da matina no outono, dá pra perceber o quanto o tempo da mãe trabalhadora é escasso.

A gente passa a sonhar com a cama antes das oito da noite e ir dormir exatamente às oito em ponto. "Mãe, a gente pode ler mais um livro?" "Não, a Mamãe quase não consegue acabar este aqui, por que esta galinha ruiva boboca não percebe logo que ninguém vai ajudá-la, compra logo um bolo na padaria e acaba com esta agonia?"

Então, se passar uns dias sem atualizar o blog, não é por falta de assunto, mas por absoluta necessidade de ir dormir cedo depois de deixar tudo pronto para o dia seguinte.

24 outubro, 2011

A Volta ao Trabalho

Depois de 1 ano, 1 mês e 1 semana, você finalmente volta ao trabalho. Espertinha, desta vez anotou atrás do crachá a combinação do seu cadeado, então não teve que arrombá-lo, como quando retornou da primeira licença-maternidade com seu cérebro transbordando amnésia por todos os neurônios.

Pontual como sempre foi, vivenciou uma noite de ansiedade na véspera, já que pela primeira vez em 10 anos, precisou de condução para ir de casa para o trabalho. Bendito site do translink, que fornece os horários de ônibus, metrôs e dá as possíveis rotas que você pode pegar para o trabalho. Já que é pra pegar o primeiro ônibus às 06:10, você vai do jeito mais fácil e prefere pegar 3 conduções para ir da porta de casa à porta do hospital. Não é por preguiça, mas primeiro porque ficar andando a pé na escuridão de seis da matina nesta época do ano, pra quem mora em frente a um parque cheio de coiotes, gambás, guaxinins e outras criaturas peludas é assustador para uma pessoa urbana como você. Em segundo lugar, como já está um frio danado e a tendência é só esfriar mais a cada dia, você chegará ao final do inverno pelo menos 5kg mais magra se caminhar muito ao ar livre (infelizmente, só funciona para quem já é magrela, anda mais rápido do que o Papa-léguas e não carrega um balde de chocolate quente consigo o tempo todo).

Na véspera, você deixa tudo arrumado. Sua roupa, seu almoço, lancheira do filho, "muffins" de aveia frescos para o café da família, a roupa das crianças, incluindo as meias dentro dos sapatos do filho que precisa ir à escola horas depois que você já terá saído de casa. Você pode criar filhos bagunceiros, difíceis pra comer, agitados, mas jamais se perdoará se um deles for impontual. Você tem preconceito contra pessoas cronicamente atrasadas e, como por uma dessas loucuras do Cupido casou-se com uma, tem que lutar diariamente para que seu gene da pontualidade predomine nas crias.

Você acorda 20 minutos antes de o despertador tocar. Sua filha de 1 ano percebe a energia no ar e decide acordar para mamar no mesmo horário. Você amamenta, passa na cozinha e liga o forno com seus pães de queijo previamente colocados na noite anterior, toma banho, arruma-se, põe as pernas pra cima antes de calçar as meias elásticas, toma café, escova os dentes, passa maquiagem, sai de casa e chega ao ponto de ônibus 6 em ponto. Um breu total lá fora.

Vai de ônibus até a estação do metrô e do metrô para o outro ônibus sem a menor perda de tempo, com menos de 2 minutos de intervalo entre uma conexão e outra. Chega ao trabalho meia hora antes do esperado. Cedo, até para seus padrões.

Você esqueceu muitas coisas neste ano que passou, inclusive os nomes dos colegas que conheceu durante a gravidez. Só lembra dos antigos. Isso seria a maior surpresa do dia, não fosse o fato de que o departamento de informática leva 10 dias úteis (repetindo DEZ dias úteis) para reativar seu e-mail. Você então pede gentilmente à sua chefe que imprima os recados, passe no correio e coloque uma carta endereçada à sua residência, que você vai receber e ler antes que consiga acessar seu e-mail. Ou então que use um pombo-correio! Você se pergunta se no Afeganistão os hospitais dispõem de departamentos de informática menos ineficientes.

Sua sorte é amar seu trabalho. Deve ser bem mais difícil deixar filhos pequenos em casa quando se tem um emprego, mas não uma profissão que traz realização.

19 outubro, 2011

Mais uma Manhã no Kindergarten

Você tem aos poucos abandonado suas ideias pré-concebidas sobre como deveria ser uma classe escolar para crianças de 5 anos. Depois de 3 ou 4 manhãs passadas na turma do seu filho, algumas coisas mudaram.

Você descobriu que a professora dele é maravilhosa. Fala sempre um tom de voz baixo, evolução que você precisaria de várias vidas para atingir. É uma criatura de paciência infinita e ótimas habilidades para lidar com as diferentes personalidades na sala de aula.

Você viu que demorou, mas finalmente as coleguinhas com necessidades especiais agora tem um assistente na sala de aula.

Você percebeu que, se a parte acadêmica fica a desejar, não é só no "kindergarten". Em qualquer série escolar, se formos comparar, no Brasil as crianças estão aprendendo matérias mais avançadas e as daqui são mais incentivadas em artes e criatividade. O que é melhor? Você não tem a resposta. Talvez a palavra seja "diferente" e não "melhor" ou "pior". Sim, porque se você não se convencer disso vai ser difícil aceitar que no equivalente à antiga sexta série ainda estão ensinando multiplicação por aqui. E sem decorar a tabuada, o que você acha inacreditável.

Você se lembra das baboseiras que foi obrigada a decorar na sua própria vida escolar, como os afluentes da margem direita e esquerda do Rio Amazonas, os nomes dos presidentes do Brasil em ordem e conclui que, de decoreba, além da tabuada (sim, você continua defendendo que se decore a tabuada em algum ponto da vida e não fiquem contando nos dedos infinitamente), você só continua sabendo de cor a tabela periódica dos elementos. E, convenhamos que deduzir os elementos a partir de Hoje Li Na Kapa Roberto Carlos Fracassou não lhe serviu em nada um dia após prestar o vestibular.

E, com uma certa melancolia, você também conclui que vai sentir falta destas manhãs de quarta-feira passadas numa sala de aula com 20 crianças cantando, recitando poemas, fazendo seus projetos de arte e sendo alfabetizadas de uma forma completamente diferente da que você vivenciou.

Ah, mas como seu filho não se cansa de cobrar, você ainda voltará lá pelo menos uma manhã, para falar sobre sua profissão, a pedido da professora, que tem uma filha de 22 anos com fobia de agulhas. Sabiamente, a professora quer evitar que as crianças cresçam sendo "squeamish", para usar o adjetivo em inglês.

06 outubro, 2011

E Quando Acaba a Licença-Maternidade? - 2

Claro que a novela do final da licença-maternidade não seria assim resolvida num único capítulo. Afinal de contas, em mais de 100 anos de hospital, você é a primeira e única funcionária a ter filhos.

Você está em casa, curtindo aqueles que seriam os últimos dias da licença, quando toca o telefone.

- Oi, descobrimos que você não pode voltar a trabalhar semana que vem. Tem que tirar as férias agora, senão vai perdê-las.
(Você não está a fim de bate-boca, ficou feliz da vida ao saber por uma colega que finalmente saiu o comunicado oficial da sua promoção e, mesmo estando careca de saber que não existe "perder" as férias e que a simples ameaça causaria um furor no sindicato, parte logo para o que interessa).
- Ah, que dia eu volto então?
- No dia 24 de outubro.
- Mas aí não dá todos os dias de férias...
- Não, você ainda fica com 1 semana e 4 dias, deram a semana de Natal de férias.
(Gata escaldada, você já prevê que não vão comunicar ao setor de pagamento)
- Preciso agora ligar lá no setor de pagamento para comunicar que estou de férias, né?
- Sim, descubra quem é a pessoa que lida com seu pagamento, ligue pra ela e avise.
- Você tem o ramal?
- É por ordem alfabética. Qual é o seu sobrenome, mesmo?

Seria de se imaginar que a pessoa que liga para avisá-la da mudança da sua data de retorno ao trabalho, que é a mesma responsável por calcular todas as suas horas de trabalho nos últimos 8 anos soubesse seu sobrenome, até porque tudo aqui é listado em ordem alfabética do último nome, inclusive a folha de ponto. Pois é, você está querendo demais.

05 outubro, 2011

Uma Manhã no Kindergarten

Pra você que veio do outro lado do planeta, frequentou escola particular e religiosa a vida toda (somente de manhã ou de tarde), ter um filho numa escola pública canadense, de nove da manhã às três e um (sim, o horário é até 15:01 oficialmente) é um choque e tanto.

A decepção começa quando você descobre no ano anterior que não há vaga garantida na escola mais próxima de casa, continua em abril quando na reunião a diretora diz que não há espaço físico para a sala de aula do "kindergarten", nem professor contratado para as aulas em setembro.

No primeiro dia de aula, em plena "job action", a nova sala de aula está construída, mas ainda há poeira da obra no chão. Durante o mês inteiro, você fica ansiosa por ver livros, cadernos, agenda, uma folha de papel que dê alguma luz sobre o que vai ser ensinado a cada semana, na tentativa de ajudar a criança em casa. Chegam vinte e sete folhetos sobre dia da pizza, dia do sanduíche, dia da foto, Terry Fox Run, mas nada sobre conteúdo escolar.

Então, você engole sua decepção para não estragar a boa impressão que quer que seu filho tenha da escola e oferece à professora para passar uma manhã na sala de aula, como voluntária.

É tudo muito diferente das escolas em que você estudou na infância! As crianças não tem uniforme, nem todas chegam no horário, algumas aparecem com o cabelo da mesma forma que estava ao acordarem, ainda amassado pelo travesseiro. Como o "kindergarten" é o primeiro ano escolar obrigatório, muitas crianças nunca frequentaram um ambiente escolar e algumas ainda sofrem de ansiedade de separação, chorando agarradas às pernas da mãe (ou do pai) na entrada.

Numa terra fria e chuvosa, é preciso trocar de sapatos ao entrar na sala de aula e cada criança tem seu lugar de pendurar capas de chuva, toucas e casacos, além dos sapatos para usar somente do lado de dentro.

Em duas horas, você lê um livro para as crianças, acompanha calada a professora ensinando às crianças que "Flávia" tem 3 sílabas e perguntando num cochicho que letras vem depois do V no seu nome, para ensinar aos alunos como se escreve (quem manda ter um nome tão exótico?). Também tenta inutilmente grampear uns livretos com um grampeador quebrado e dobra algumas folhas de papel. Fica muito feliz ao ajudar uma garotinha com algum transtorno do desenvolvimento a completar sua tarefa, numa mesa separada das demais crianças. Descobre que, incrivelmente, seu filho não é o único tagarela da classe e talvez até dispute o segundo lugar na turma. Não se espanta quando descobre que aquele menino cujo nome seu filho sempre cita como o do seu melhor amigo é, na verdade, o mais irrequieto da classe.

Você fica feliz ao encontrar tantos livros na sala de aula, surpresa ao ver tantos brinquedos, satisfeita ao descobrir que os alunos do último ano aparecem todas as manhãs para ajudar os pequenos a vestirem seus casacos e calçarem suas botas antes de saírem para o recreio. "It's an outside day", avisa a voz no interfone imediatamente antes do intervalo. Se com esta chuva toda o aviso é este, você se pergunta que altura de neve é necessária para que seja decretado um "inside day".

Muita coisa para se acostumar, já que você veio de uma terra onde todo dia é dia de brincar lá fora. Ao invés de ficar de longe comparando e reclamando, você já avisa à professora que voltará sempre que tiver uma folga. Caso ainda esteja insatisfeita no final do ano letivo, tentará a escola particular religiosa no ano que vem, mas não vai ser por falta de participação da família.

03 outubro, 2011

E Quando Acaba a Licença-Maternidade?

É sua segunda vez de vivenciando o final da licença-maternidade. Engana-se quem pensa que a maior dificuldade na segunda vez é encontrar alguém confiável para cuidar das crianças.

Depois de 10 anos trabalhando para o mesmo empregador, sendo os últimos 8 lotada num mesmo setor, não deveria haver muitas surpresas na hora de voltar. A única novidade é que você foi promovida durante a licença, vai ocupar um cargo de gerência, sem plantões noturnos e finais de semana, mas ainda no antigo setor. Por via das dúvidas, mesmo sabendo que oficialmente sua data de retorno ainda está a uma semana de distância, você liga para a sua "timekeeper" (a pessoa do Departamento de Recursos Humanos responsável por entrar os dados das folhas de ponto dos funcionários de um setor). E segue-se um diálogo surreal, do tipo que brasileiro revoltado adora finalizar com um "só no Brasil!":

- Oi, estou ligando pra confirmar que minha data de retorno é na próxima terça.
- Sim, estamos esperando você amanhã.
- Terça-feira da semana que vem, dia 11.
- Não, a Poderosa Chefona falou que seria dia 10, que é feriado, então deduzi que será dia 11.
- É amanhã e inclusive já tenho sua escala pro final de semana!
- Final de semana? Eu fui promovida, ficarei no lugar da Fulana Aposentada, não vou mais trabalhar no final de semana!
- Jura? Ninguém me falou nada! Quando saiu sua promoção?
- Há uns três meses, a Poderosa Chefona disse que já iria oficializar no dia seguinte.
- Nossa, ela nunca me mandou um e-mail comunicando e tornando oficial.
- Cadê a Poderosa Chefona?
- De férias, só volta dia 24/10.
- Quem está no lugar dela?
- Depende, a Super Poderosa Chefona e a Chefinha Ocupada, mas quem está lidando com questão de escalas é a Gênia (parênteses para dizer que a Gênia ficou 33 anos na chefia do setor, sabe TUDO de cabeça porque nunca precisou de computador, aposentou-se sob lamentos gerais da torcida do Canucks, foi substituída por 3 pessoas que obviamente não dão conta do recado e ainda aparece uma vez por semana para tentar ensinar o que sabe e colocar ordem no barraco).
- E cadê ela?
- A Gênia só vem na quarta.

Para um pouquinho, estressa um pouquinho, descabela um pouquinho...

- Falei agora com a Chefinha Ocupada e ela disse que você volta quando quiser. Se quer emendar as férias e voltar só em novembro, pode.
- Oi? Eu volto quando EU quiser??? Ai, então vê aí no computador. Meu último dia de trabalho foi 17 de setembro, depois entrei de licença-maternidade e pedi que emendassem minhas férias.
- Não, tenho aqui que seu último dia foi 30 de setembro e agora você tem 5 semanas de férias.
- Eu ganhei neném 30 de setembro, mas parei de trabalhar 2 semanas antes.
- Ah, é?
- Se tenho 5 semanas de férias ainda, por que você acha que tenho que voltar a trabalhar amanhã?
- Boa pergunta. Vou colocar você aqui no cargo novo, senão as férias nem vão ser pagas com o novo salário.
- Eu volto na terça-feira da semana que vem. Chegarei pronta para o treinamento para o novo cargo. Se for um caos a situação das minhas férias, volto e fico mais um mês em casa.
- Então 'tá. Vou agora arrumar alguém pra cobrir o final de semana. Ainda bem que você me ligou hoje!
- Ainda bem que eu sou enfermeira e não "timekeeper"! Não quero seu emprego por nada neste mundo.

Você não sumiu por um ano inteiro. Muito pelo contrário, apareceu no seu setor várias vezes durante a licença-maternidade. Teve muitas reuniões com a Poderosa Chefona até a nomeação para o novo cargo (que, aparentemente, só aconteceu na sua cabeça porque ela não avisou ninguém). Sabiamente, no último ano da Gênia na chefia, todos já sofriam por antecipação e profetizavam: "Ninguém nunca será como ela". E você vai voltar de luto por ter perdido a melhor chefe que já teve na vida.

26 setembro, 2011

O Mistério da Multiplicação dos Brinquedos



Não vou dizer que eu não tinha muitos brinquedos quando era criança porque isso não seria verdade. Tínhamos, meus irmãos e eu, uma estante lotada deles. Playmobil, bonecas, inúmeros carrinhos de Matchbox, jogos de tabuleiro e até um Etch A Sketch, coisa rara no Brasil da minha infância. Ganhávamos brinquedos no Natal, no aniversário e no dia da criança. A diferença para os dias de hoje é que nossos brinquedos não se reproduziam.

Os brinquedos aqui do Iglu tem uma taxa de fecundidade muito acima do normal. Até entendo os Playmobil se multiplicarem, já que há bonecos meninos e meninas. Mas como se explica o fato de estarem sozinhos o Homem de Ferro e o Homem Aranha por um único final de semana e, quando a mãe volta para olhar, encontra espalhados também o Super Homem, o Lanterna Verde e mais oitenta e três outros super heróis feiosos de quem ela nunca ouviu falar? Isso vai totalmente contra a lei da biologia.

E o que dizer dos legos que os parentes e amigos insistem em comprar para uma idade 3 anos superior à do seu filho que não, não é um gênio e não vai saber montar aquelas pecinhas minúsculas que terminarão certamente espalhadas pelo chão? A caixa diz 70 peças quando na verdade serão 777 no final de uma semana.

Outra diferença dos brinquedos da minha infância é que eles eram menos tagarelas. Eletrodomésticos de plástico não falavam, por exemplo. Fofolete ganhou um fogão que canta! Absolutamente tudo quanto é joaninha, pato, sapo, quebra-cabeça, criaturas reais ou imaginárias reproduzidas em brinquedos para crianças bem pequenas falam, cantam, piscam luzes ou fazem tudo isso ao mesmo tempo. E são ativados por movimento (leia-se um bater de pálpebras num raio de cinco quilômetros que dispara o sensor do caminhão do Transformers e o troço começa a falar ainda antes do café da manhã).

Não havia brinquedo no drive-thru (nem conhecíamos esta expressão), a dentista não dava uma porcaria "made in China" se você se comportasse na cadeira e as sacolinhas-surpresa de aniversário, quando existentes, continham apenas guloseimas.

Atualmente, estamos na era descrita no livro Too Many Toys. Não sei quanto às outras mães, mas tem dias em que me sinto refém dos brinquedos, mesmo doando um monte antes de cada Natal e aniversário, sem o menor apego. Quem souber de algum anticoncepcional EFICIENTE para Playmobil, carrinhos, super-heróis e Transformers, por favor deixe uma dica. Isso porque ainda nem entramos na era das Polly, Barbies e seus 1001 acessórios.

Enquanto isso, vou me sentindo uma bruxa enquanto faço o jantar e peço "pelamordedeus, desliga isso por favor!" E exatos 3 minutos e 15 segundos depois escuto "Mãe, agora já pode ligar de novo?"

17 setembro, 2011

Música para Crianças Pequenas


Posso falar por experiência própria que, mesmo os amantes da música desde a mais tenra idade, podem ficar desencorajados a aprendê-la se o método de ensino for entediante e o professor ruim.

Lembro perfeitamente das intermináveis tardes de frente para um piano, sozinha, aos 6 anos de idade, com uma professora ranzinza que fazia terrorismo psicológico. Mesmo com um piano na sala de casa, tomei pavor da música e só voltaria a estudar novamente aos 15 anos, com outra professora. E fui exceção, já que a maioria costuma não retornar aos estudos musicais nunca mais.

Sempre soube que gostaria que meus filhos tivessem uma experiência diferente com o estudo da música.

Impossível imaginar o Pacotinho de Movimentos Incansáveis sentado de frente para um piano ouvindo uma professora dizer o quanto ele era ingrato e não praticava em casa a lição, sendo que a mãe dele gastava tanto dinheiro com as aulas. Sim, porque eu realmente não praticava e depois de 4 anos, nas palavras da própria professora, "só era capaz de reconhecer o dó porque ele tem um tracinho". Mais madura, aprendi em 1 mês o que não tinha sido capaz de entender em 4 anos de aulas chatas.

O Pacotinho de Introdução Musical começou na semana passada as aulas com o método
Music for Young Children. Tão divertido, interativo, contagiante! As aulas são em grupo de 5 crianças, com os pais presentes. Há atividades com canções e gestos, a teoria é explicada de forma lúdica e simples, com a ajuda de personagens com os quais as crianças se identificam, embora os nomes oficiais sejam também ensinados. Ninguém fica sentado o tempo todo, o senta/levanta necessário a uma criança ativa desta idade está incorporado no plano do método.

O método é para o ensino de piano, mas há outros instrumentos envolvidos e também aulas de canto. No site, é possível encontrar o professor mais perto da sua casa.

E, ao contrário da experiência que tiveram sua mãe e sua tia, o Pacotinho de Empolgação chega em casa avisando: "a professora falou pra praticar 5 a 7 vezes por semana, mas eu quero praticar 9!" O dever de casa da aula de música tornou-se uma atividade divertida, assim como num passe de mágica. Ainda bem que muita coisa evoluiu no ensino de música para crianças desde a minha infância. Não, nem tudo era melhor antigamente.

Difícil só vai ser a mãe acostumar-se a chamar as notas de C, D, E ao invés dó, ré, mi... Linguagem universal na música coisa nenhuma!

25 julho, 2011

A Volta

Dá cá um abraço, você merece. Foi como ter cruzado a linha de chegada do Iron Man, mas sem medalhas no final. Recapitulando:

* 3 voos, com um bebê de quase 10 meses bem mais ativo que os filhos da mesma idade de TODAS as suas amigas e um garotinho de 5 anos;
* ZERO de ajuda com a bagagem, embora você tenha solicitado na companhia aérea com antecedência, mas a sua cara de coitada exausta (não era fingimento) com o bebê pendurado na fila imensa da imigração nos Estados Unidos ao menos garantiu que guardassem seu lugar enquanto seu filho pulava de pernas cruzadas até o caminho do banheiro;
* volta às pressas para o guichê da imigração, porque o oficial esqueceu um carimbo aparentemente indispensável.

Quando você dá sua primeira conexão como perdida, o rapaz da companhia a anima "corre, que dá tempo". E pega metrô, e corre com o bebê pendurado se sacudindo e passa no raio-X. Tira o bebê do carregador e descobre sua blusa completamente ensopada (suor? Não, xixi!). Pendura o bebê molhado e corre cambaleante pro portão de embarque. "Perdi o voo?" As funcionárias já a cumprimentam pelo nome, é a última passageira que falta! Recebe uma bronca da comissária porque entregou o cartão de embarque errado e ainda pergunta "qual é mesmo minha poltrona?". O cansaço já não permite que você consiga ler o papel.

Entra na aeronave, a porta literalmente se fecha atrás de você. Corre pro banheiro, troca a roupa inteira de um bebê saltitante em pé na tampa do vaso sanitário, enquanto o outro filho distrai-se sozinho.

Sobrevive a mais este voo, o bebê treinado a dormir pendurado não decepciona e novamente dorme 90% do tempo.

Na chegada a Salt Lake City, a surpresa: a ajuda que você havia solicitado para o voo anterior aparece. Duas pessoas com uma cadeira de rodas, mas você não tem frescura: coloca a tralha toda na cadeira e pede que as moças empurrem até o próximo portão de embarque. Como só faltam 10 minutos, você vê a área infantil e solta seus filhotes para gastarem um mínimo de energia. Depois de 11 horas literalmente amarrados, eles precisam esticar os membros.

Entra no último avião, sentindo aquele cheirinho característico de fralda que precisa de troca. Já craque em usar a tampa do vaso sanitário como trocador, só espera que se apaguem as luzes de apertar os cintos. Quando isso acontece, você vai ao banheiro e fica presa. O teco-teco tem só um corredor pequeno, bloqueado pelo carrinho de bebidas das comissárias. Então você se tranca no banheiro, balança o bebê até que ele adormeça e volta pro seu assento quando o corredor fica livre. Exausta, mas orgulhosa. Conseguiu que o bebê dormisse em 3 voos, sem um sedativo (você mesma teria tomado até anestesia geral, mas não estava disponível, ao menos não na classe econômica) e ainda encontrou seu outro filho totalmente chapado na poltrona.

E aí, sentindo-se como uma prisioneira torturada, mantida acordada para confessar um crime que não cometeu, exausta, você chega ao seu destino final. Confessaria qualquer coisa a esta altura. E encontra um homem com olhos marejado de emoção ao ver a família de volta. Se ele não fosse casado, você se casaria com ele (mas olha que sorte, você já se casou com ele!).

Sim, você sobreviveu. Não pretende repetir o feito novamente, a não ser em caso de absoluta necessidade. Da próxima vez, leva o bonitão emocionado junto.

06 julho, 2011

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto?

O Pacotinho de Férias sempre sofre quando vai ao Brasil sem o pai. Sofre por antecipação e durante toda a estadia. Então, dias antes de embarcar, fazendo beicinho na hora do banho, comunica:

- Mãe, vou sentir muita muita muita saudade do meu pai.
- Fala pra ele.
- Tata, I'm going to feel a lot a lot a lot of saudade. Saudade means a lot a lot a lot of love, right Mamãe?

Já não bastavam o estresse de viajar com duas crianças sem outro adulto para dividir o tranco, o perrengue de ter que pegar 3 voos (ô inveja de quem mora em Toronto e tem família em São Paulo), a bebezinha de 9 meses que pensa que tem 1 ano e já dá os primeiros passos, prometendo uma canseira adicional durante o longo trajeto, a Pobre Mãe Exausta ainda tem que lidar com a culpa. De cortar o coração o Pacotinho de Saudade verbalizando seus sentimentos.

Quem for de reza, por favor, acenda uma vela para Nossa Senhora Das Bagagens Que Nunca Extraviam por nós.

28 junho, 2011

O Pacotinho de Consolo

Papai Bonzinho dá para a Mamãe uma blusa nova linda. Não é fácil achar blusas (principalmente "lindas") enquanto dura a amamentação. Se você é magrela do peito grande então, é uma tarefa que beira o impossível. Dentro do carro, eles conversam. Ele elogia:

- Você ficou muito bem com esta roupa.
- Adorei a blusa!
- A calça ficou perfeita com ela.
- Pois é, você é um cara de sorte. Esta calça comprei no Brasil, antes de mudar para o Canadá. Doze anos e dois bebês depois, ela cabe em mim perfeitamente.
- A calça é ótima. Incrível mesmo ainda vestir tão bem.
- O único problema de ser magrinha é que, depois de amamentar mais de uma vez, o peito desaparece, mesmo numa magrela peituda feito eu.
- Será?
- Ah, tenho quase certeza.

E o Pacotinho de Consolo, do banco de trás, passa sua mensagem de sabedoria:

- Mãe, depois que a Marina crescer, você não precisa mais de peito.

Após a devida tradução, o pai avisa:

- Sem entrar em detalhes, educadamente, vou discordar.

A mãe também discorda!

13 junho, 2011

Aprendendo com a Música



A mãe não sabe exatamente quando o filho parou de repetir as letras das músicas feito papagaio e passou a prestar atenção nas palavras, querendo entender o que estava sendo cantado. Um dia, aconteceu. E foi com o CD da Arca de Noé, tão ouvido na versão original em bolachão, quando a mãe era criança (e ela mesma recortou e colou a capa do disco, que na casa dela não era nada parecida com esta do CD).

Na música "O Gato", o Pacotinho de Perguntas Inesgotáveis questiona:
- Mãe, o que é cafuné?
- É um carinho que a gente faz na cabeça de alguém, você gostava de fazer cafuné nos outros pra dormir.
- O gato toma banho passando a língua pela barriga? Eca!

Na faixa "São Francisco", a mãe pergunta:
- Você sabe quem era São Francisco?
- Não.
- Um homem muito legal que gostava dos animais.
Ney Matogrosso canta "lá vai São Francisco pelo caminho, de pé descalço, tão pobrezinho..."
- Mãe, por que o Francisco era tadinho?
- Acho que é porque ele não tinha sapato, andava de pé descalço.
- Ah, Mãe, é porque ele salvava os animais. Sabe quem também salvava os animais? O Tarzan, mas ele não era tadinho não, ele falava "ô ô ô".

Na música "A Pulga":
- Mãe, o que é freguês?
Aí a mãe explica e, na próxima ida ao supermercado, ele pergunta no carro:
- Mãe, hoje a gente 'são' freguês?
- A gente É freguês hoje.

Definitivamente, além de trazer cultura, a nossa cultura brasileira, a música também traz vocabulário e faz a imaginação voar. É uma sensação tão gostosa poder compartilhar os livros, as músicas, coisas que fizeram parte da infância dos pais com os filhos.

10 junho, 2011

Como conseguem?

06:40 - Você acorda, sem despertador. A noite foi boa, seu bebê foi dormir às 19:00, acordou pra mamar 01:40, depois novamente 05:40 e continua dormindo. Você entra no chuveiro.

07:00 - Seu bebê já acordou, brinca feliz na cama com o pai.

07:05 - Enquanto toma seu café e fala ao telefone com sua irmã no Brasil, você dá ao bebê uma banana amassada com abacate e aveia. Aproveita e conta pra irmã que seu carro zero enguiçou na véspera, foi guinchado, você pegou 2 metrôs e um ônibus pra chegar em casa com a filharada e o carro está agora parado no estacionamento da concessionária. Comenta também que já fez e enrolou os brigadeiros e beijinhos pra festa de aniversário do seu filho. Aproveita pra falar mal da sogra, que criticou a quantidade de comida para a festa (achou muita, como sempre e não ajudou a enrolar nenhum docinho, também como sempre).

07:20 - Pega no colo aquela pessoinha imunda, com comida nas sobrancelhas e nos cabelos e leva para dar um banho.

07:40 - Tira do banho e veste aquele polvo epiléptico, lutando contra a criatura que teima em engatinhar e fugir a cada tentativa de colocar um braço na roupa (sim, parece que são 8 braços, tamanho o esforço).

07:45 - Depara-se com o cadeirão de refeição do bebê, que está um nojo de sujo depois do café da manhã. Tira o estofado para lavar, aproveita e tira a roupa lavada da máquina, esvazia a secadora também. O cadeirão, só lavando com mangueira no quintal.

07:50 - Guarda a louça limpa da lava-louças, começa a enchê-la novamente. O bebê diverte-se abrindo a última gaveta e espalhando as vasilhas de plástico no chão da cozinha.


08:00 - Dobra a montanha de proporções alpinas de roupa limpa.

08:15 - Seu outro filho acorda. Você prepara o café da manhã dele, repete pela milésima vez os comandos de escovar os dentes, levantar a tampa do vaso pra fazer xixi, dar descarga e lavar as mãos. E vê quando ele faz xixi sem levantar a tampa!

08:20 - Você descobre que o chão da sala, na parte debaixo do cadeirão está todo preguento. Pega um pano de chão para limpar e, já que começou, aproveita e cata todos os brinquedos espalhados, depois passa pano na sala toda, na cozinha e no quarto das crianças, afinal seu bebê engatinha e cata tudo que acha pelo chão. Decide parar por aí.

08:25 - Seu filho mais velho avisa que a irmãzinha fez cocô, você duvida e continua o serviço.

08:40 - Senta no chão pra brincar com as crianças e espalhar os brinquedos do bebê novamente, quando lembra de ligar na concessionária para ter notícia do carro, mas antes decide fazer uns muffins nutritivos para o filho que é difícil para comer.

08:50 - Você descobre que o menino tinha razão, é hora de trocar fraldas novamente.

09:10 - Os muffins já estão no forno e o bebê está tentando escalar sua perna para mamar.

Durante todas estas atividades, você levanta quinhetas e trinta e sete vezes sua calça jeans 36 que insiste em ficar caindo. E aí você se lembra daquelas mulheres no fórum virtual de amamentação, reclamando que nunca conseguiram perder todo o peso extra ganho na gravidez e outras que engordaram mais depois que começaram a amamentar. E você se pergunta "como é possível? Devem ter muita ajuda em casa e bebês que se sentam quietinhos, enquanto brincam".