29 junho, 2012

Merecidas Férias

Pela primeira vez em mais de 11 anos trabalhando no mesmo emprego, você esperou mais pelo último dia de trabalho do que pela viagem de férias. Arrastou seu corpo da cama para o trabalho nestas duas últimas semanas. Contou os dias e, no derradeiro, contou as horas até o final.

Na véspera, você anotou todas as suas 7 senhas, com 7 nomes de usuários diferentes para as diversas funções que precisam ser executadas no computador, porque sabe que vai esquecê-las. Das 7 senhas, 3 são trocadas a cada 3 meses, com a proibição de repetir as 20 últimas combinações anteriores. Parece até que você é técnico de informática da NASA! Ah, você acaba e lembrar que precisa anotar a combinação do cadeado do armário onde guarda seus pertences também, que já tinha esquecido do detalhe.

Não tem a menor possibilidade de você querer ler algum e-mail do trabalho nestas férias. Nem saber de nenhuma fofoca. O único recado que você quer ouvir é do rapaz que organiza o bolão da loteria acumulada, dizendo que o grupo ganhou os 32 milhões desta semana e mesmo isso pode esperar até você voltar.

27 junho, 2012

Fofoletês Para Iniciantes

Ela fala muito para quem tem 1 ano e 9 meses e mora numa casa onde se fala mais de um idioma. Dirige-se ao pai em servo-croata, fala com a mãe e o irmão em português, repete o espanhol que escuta dos vizinhos e cumprimenta os colegas do irmão na escola em inglês. Faz algo que o irmão nunca fez, que é conversar longamente, mesmo sem saber todas as palavras na frase, então diz o que sabe e enrola o resto. Também faz muitas perguntas e tem excelente memória, o que parece ser um gene dominante na família materna. Sabe o nome de todas as pessoas na casa dos vizinhos e da maioria dos colegas na classe do irmão, para o espanto da vizinha, cujo filho de 5 anos e meio não sabe os nomes de ninguém na nossa família, além das crianças.

Ela já fala 3 palavras juntas, como "não tem ninguém", "não 'tá aqui". E quem resiste ao fofíssimo "não sigo" (não consigo)?

Infelizmente, todas as vezes em que uma filmagem é tentada, ela não colabora. Rouba a câmera (ou o iPad ou o telefone) e interrompe a conversa. Uma pena, porque é a coisa mais fofa ouvi-la repetindo os nomes dos animais ao folhear um livro.

Este mês, o fofoletês evoluiu para o "l" no lugar do "r", então já é "alala" ao invés de "aáa" para arara e "amalelo" para amarelo. No mais:

* miango - morango * nanudo - canudo * aúti - iogurte * eadô - escorregador, aspirador, liquidificador (dependendo do contexto) * dudítu - jiu-jitsu (então "Diel dudítu" é "Daniel foi pro jiu-jitsu") * tutumá - estrela-do-mar

De onde saiu o som de "x" ao invés de "s" no final das palavras, ninguém sabe, mas este falso sotaque de carioca é um charme.

Dá vontade de congelá-la num momento de tagarelice, mas no final da tarde, na hora da bagunça e da birra, a gente agradece ao fato de que esta fase passa.

25 junho, 2012

Abre-te Sésamo

Muitas crianças pequenas são fascinadas por chaves. Fofolete, além de amar chaves, ama sair de casa. Vive pedindo "rua", "lafóua" (lá fora), ainda que tenha acabado de entrar em casa minutos antes.

Como já "esqueceu" o chaveiro com as chaves do carro e da casa no quintal (que levou 3 semanas para ser encontrado, caído ao lado da caixa de areia), ela tem acesso restrito ao objeto de desejo.

Ela adora ficar na porta da garagem, tentando inutilmente abri-la, pedindo a bendita chave. E a mãe tenta distraí-la com outra coisa:

- Não estou com a chave. Vamos ver se tem morango maduro no jardim?

- Chave casa (dizendo isso, ela sobe a escada e entra em casa).

- Você acha que a chave está em casa?

Entram em casa, a mãe fingindo que está procurando a chave e não encontra.

- Bolsa!

- Não está na bolsa.

- Perdeu.

- É, perdeu. Por isso que não pode ficar brincando com a chave.

Saem para o quintal. Molham as plantas, colhem uns morangos, o tempo passa. Uma hora depois:

- Está na hora de buscar seu irmão. Vamos? (ela responde com as palmas das mãos viradas para cima e uma expressão de quem diz o óbvio a um bobo)

- Não tem chave!

24 junho, 2012

Final do Ano Letivo

Esta será a última semana do primeiro ano escolar do seu filho. E você, que foi tão cética e ficou receosa diante de tantas diferenças entre a sua experiência como aluna no Brasil e a realidade da escola pública canadense, aprendeu muitas lições neste primeiro ano de vida escolar como mãe.

Lição número 1: A primeira professora a gente nunca esquece

Uma boa professora faz muita diferença e o fato de seu filho ter tido o privilégio de ter uma excelente no ano de alfabetização foi realmente um ótimo começo. E você fez questão de mencionar isso várias vezes para os outros pais e para a própria professora. Não se sabe se as crianças terão saudade dela, mas você já está sofrendo e as aulas nem acabaram ainda.

Lição número 2: Rigidez não é tudo

Mesmo com o esquema bem mais flexível e relaxado da escola local, sem horários rígidos nem dever de casa e com liberdade para escolher as atividades dentro da sala de aula, seu filho terminou o "kindergarten" lendo livros inteiros e com uma caligrafia bem razoável para quem, no início das aulas, nem tinha concentração suficiente para ficar sentado por mais de 5 minutos com um lápis na mão.

Lição número 3: O futuro é dos poliglotas

Definitivamente, não falar nunca em inglês com seu filho foi uma decisão acertada. Em termos de vocabulário e de pronúncia, ele não fica em nada atrás das crianças que só falam inglês. Os três melhores amigos dele falam russo, hebraico e vietnamita em casa. Na classe, há crianças que falam alemão, espanhol e mandarim com os pais. Quem "só" fala inglês morando em Vancouver já, nesta idade, começa a achar que está perdendo alguma coisa.

Lição número 4: Os tagarelas vão longe

Você perdeu incontáveis horas preocupada com a agitação do seu filho aos 4 anos de idade. E ele, que você temia ser um problema para a professora por falar muito (a quem terá saído este menino?) fez, aos 5 anos de idade, o único solo ao microfone na apresentação de Natal diante da um ginásio lotado, com todas os alunos e suas famílias. Não foi a única criança da turma a cantar sozinha ao microfone, nem mesmo a única das turmas de "kindergarten", mas a única da escola toda. Todas as outras cantaram em grupo.

Como não poderia deixar de ser, cada classe tem um casal de representantes no Conselho Estudantil e seu Pacotinho de Recados Dados é o representante da turma dele. E, claro, ele não fica nas reuniões somente esquentando a cadeira. Dá ideias e, quando algum recado precisa ser dado no sistema interno de som da escola, é ele e não a coleguinha da turma que vai falar. Como confessou a menina à mãe dela "he does all the talking".

Lição número 5: Fotossintese é a solução para a saúde

Ele, que jejua há quase 5 anos em nome de alguma causa desconhecida, vive praticamente de água e luz, termina o ano letivo com um boletim impecável. Nenhuma falta, nenhum atraso (de novo, a quem puxou este menino?). A professora mandou alguns e-mails preocupada com o fato de muitas vezes ele passar o dia inteiro na escola sem comer nada e você respondeu com uma pergunta "quantas vezes você já o viu ficou doente?". Nenhuma. Passou incólume pelas gripes, piolhos e perebas comuns da infância. Não pegou nem resfriado, nem a pizza, nem o cachorro quente que servem de vez em quando para arrecadar dinheiro para passeios escolares, porque ele não come nada disso, claro. E não ia adiantar nada servirem arroz com feijão, nem macarrão, nem bolo de chocolate, que ele também não come. Na verdade, ele teve sim uma laringite entre a semana de Natal e Ano Novo, mas foi rápida e não houve aula naquela semana. E, justiça seja feita, ele pega o saquinho de batata frita (sem sabor) que vem junto com o cachorro quente.

Lição número 6: Saudades

Este ano de alfabetização foi delicioso. E ouvir a voz infantil, saindo daquela boca ainda com todos os dentes de leite lendo um livro inteiro em voz alta antes de dormir vai deixar saudades. No dia do aniversário de 6 anos, ele levou você às lágrimas quando leu num livro os versos imortalizados na voz de Louis Armstrong: "I hear babies crying, I watch them grow They'll learn much more than I'll never know And I think to myself what a wonderful world Yes I think to myself what a wonderful world" Sim, o mundo é maravilhoso.

19 junho, 2012

Quando Sua Vizinha é uma "Tiger Mother"

Elas sempre existiram, mas o assunto veio à tona depois do lançamento do livro Battle Hymn of the Tiger Mother. "Tiger Mom" virou um termo comum para designar as mães asiáticas, em especial as chinesas e o modo rígido de cobranças na forma que usam para educar seus filhos.

Isso não é exclusividade do Canadá. Quem não teve um colega japonês na classe que era fera em matemática? No Brasil, nossos japoneses já eram melhores que os outros há muitas décadas.

Morando numa cidade com imensa população asiática (chineses e coreanos, principalmente), você não escapa de ter ao menos uma criança chinesa na turma dos seus filhos.

Sua amiga gringa comenta com a vizinha chinesa que está preocupada com o fato de a filha que ainda vai completar 8 anos no final de agosto ter muitas atividades depois da escola. A menina faz aula de natação, patinação e dois tipos diferentes de dança.

A vizinha, que tem uma filha da mesma idade, na mesma escola, mas estudando francês ao invés de inglês, responde que a filha dela faz todas as atividades citadas, toca piano, estuda mandarim e tem aulas de matemática do Kumon duas vezes por semana.

O que a sua amiga faz? Matricula a filha dela duas vezes por semana no Kumon.

E você fica feliz da vida quando dobra a montanha de proporções alpinas de roupas e constata que não só uma ou duas, mas todas as calças jeans do seu filho estão com ao menos um joelho rasgado. Porque criança precisa ralar o joelho, andar de bicicleta na rua, pendurar-se no balanço e não vai ser com um bando de aulas e mais o dever de casa que ela vai ter tempo de viver a infância.

Dá uma parada no mundo aí que você quer descer!

18 junho, 2012

Pacotinho de Carinho

Pacotinho de Aniversário na saída da escola hoje:

- Mãe, este foi meu favorito aniversário! (ele inverte o adjetivo e o substantivo, pensando em inglês, de vez em quando)

- E por que foi seu aniversário favorito?

- Porque todos os meus amigos cantaram Happy Birthday, mas antes de cantar, cada um veio e me deu um abraço.

Atrasado de 17 de Junho

Véspera de aniversário.

- Filhote, este é meu último abraço em você com 5 anos. Amanhã, quando você acordar e eu abraçar, você já vai ter 6 anos. - É. Hoje estou batendo aqui em você (coloca a mão na minha barriga). Amanhã vou bater aqui (coloca a mão uns 15cm acima).

Realmente eles crescem rápido demais.

16 junho, 2012

Vantagem #892.735 de Ensinar Sua Língua Materna a Seus Filhos Gringos

Você está no recital de piano do Pacotinho de Eventos Culturais (e de mais 30 outras crianças). Sua filha de fraldas está de pé, no banco ao seu lado. Você sente um cheiro suspeito e cochicha pra ela:

- Fofolete fez cocô? Seu filho responde bem alto: - Não, eu é que fiz pum.

E ninguém, além de você e da Fofolete Injustamente Acusada entendem.

Pedindo Ajuda aos Universitários

Alguém sabe como fazer para que os espaços entre os parágrafos sejam mantidos quando o post é publicado? Precisa usar o "HTML", o que-quer-que-isso-seja? Como diz o povo desesperado com alguma dúvida besta "HELPPPPPP!"

14 junho, 2012

Crescendo Sem Preconceito

O CD no carro, depois de narrar o delicioso conto Romeu e Julieta, da Ruth Rocha, falando sobre borboletas proibidas de serem amigas por serem de cores diferentes uma da outra, toca uma música da Palavra Cantada. O Pacotinho de Curiosidade pergunta:

- Por que a música fala "não é não"? - Porque antes a moça falou "todo Romeu é azul", aí ela corrigiu "não é não". Nem toda borboleta é azul, tem borboleta de tudo quanto é cor diferente. E não tem isso de não ser amigo só porque é de outra cor. - Igual às pessoas. Você é marrom e casou com meu pai que é branco.

:) Ninguém nasce preconceituoso. Mesmo.

13 junho, 2012

Apresentando Tupai

Não se trata de um novo amigo imaginário do Iglu. Mifino mantém sua cadeira cativa há mais de 2 anos, aparecendo esporadicamente em algumas épocas e diariamente em outras (estamos na fase de aparições diárias do Mifino que, por coincidência, parece que também está para completar 6 anos de idade por estes dias).

O Pacotinho de Linguagem sequer conhecia a palavra "pai" antes de sua primeira viagem ao Brasil como um ser falante. Sempre chamou o pai de Tata, como na língua paterna. Passou a usar a expressão "meu pai" bem depois, lá pelos 3 anos, tem até um post sobre o evento marcante.

Com a Fofolete foi diferente. Escuta o irmão mais velho falando "meu pai" e ouve a mãe dizendo "seu pai" então, embora ela mesma o chame de Tata, quando encontra alguma coisa pela casa que pertence ao pai, avisa: - Óculos Mamãe não, óculos Tupai. - Papacete Tupai.(capacete do seu pai) - Vivo Tupai. (livro do seu pai)

Isso se for algo que não é de interesse dela no momento. Caso contrário, ela diz "da Maína" (da Marina), com uma risadinha cínica. Ou, melhor ainda, "Maína não. Fo-fo-le-te", com o dedinho indicador em riste.

É fascinante esta fase de desenvolvimento da linguagem. A rapidez com que palavras novas são adicionadas ao vocabulário e o comprimento sempre crescente das frases são impressionantes. Deve ser um truque evolutivo de sobrevivência. A fim de compensar as birras e a absoluta incapacidade de negociação comuns da idade, só mesmo com uma fala muito engraçadinha para não serem colocados à venda no Craig's list num fim de tarde cheio de choradeira, banheiro alagado, comida derramada no chão e corrida para vestir o pijama.

11 junho, 2012

Não se fazem mais eletrodomésticos como antigamente...

O Pacotinho de TV tem direito a assistir a um desenho por dia e ultimamente a preferência é pelo Pequeno Príncipe (suspiro aliviado da família, que já sabia de cor todos os episódios do instrutivo e divertido Wild Kratts, porque não quem aguente assistir à mesma meia dúzia de episódios meses a fio). Aí, uma noite, por algum motivo sem explicação, o PVR para de gravar o desenho antes do final. O Pacotinho de Julgamento protesta:

- Esta televisão é uma mentirosa! Desligou, mas o desenho nem acabou ainda.

O cérebro é tão maravilhosamente criativo com as palavras aos 5 anos de idade que é uma pena esta fase passar tão rápido!

10 junho, 2012

Falando com os Animais

Ela ainda vai completar 2 anos no último dia de setembro. Mora numa casa onde se falam 3 idiomas e, contrariando a ideia geral de que criança exposta a mais de uma língua demora mais a falar, ela encontra um gato na rua, abaixa-se e pergunta, em bom português: - Tudo bem, gato?

Aí, rouba a câmera da mãe, aponta pro gato e diz: - Xiiiiis, gato!

O gato, obviamente canadense, não respondeu nem em miauês, mas sendo um santo felino de paciência infinita, aturou calmamente Fofolete e Pacotinho de Carinhos tentando deitar a cabeça em cima do pobre coitado animal.