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18 novembro, 2011

Uma Semana Vancouverite

Começou na segunda (ou na terça, porque a julgar pelo seu cansaço, o início da semana parece que já passou há séculos) a sua semana de habitante de Vancouver, quando de madrugada, incomodada com o calor que você mesma provocou ao aumentar a temperatura do aquecedor, resolveu abrir a porta da varanda para refrescar. Ao encostar na porta, você se assustou com uma criatura peluda, cinza, que estava a poucos centímetros dos seus pés, do outro lado do vidro. Você deu um grito e fechou a porta, o bicho correu imediatamente e foi possível ver a lixeira da churrasqueira tombada com o lixo espalhado. Embora você não tenha visto o rabo listrado, tem quase certeza de que era um guaxinim. Sua certeza é aquela típica de uma pessoa urbana, que tem fobia de bichos e ainda por cima está sonolenta às 3 da madrugada. Dentre as criaturas noturnas mais comuns por aqui, gambás são pretos de rabo listrado de branco e os coiotes costumam ser mais altos e mais magros do que aquilo que você viu. E pensar que você já deu palestras intermináveis sobre o risco de ter um encontro imediato do segundo grau com a vida selvagem dentro do quarto sempre que o marido abre totalmente a varanda sem deixar a tela de proteção fechada! Agora você cogita soldar a tela de proteção permanentemente.



E, para encerrar, na sexta-feira, você sai de casa às 6 da matina, com neve caindo sem parar. A tela do seu telefone diz que a temperatura em Vancouver é de 2 graus Celsius, com um floco de neve desenhado e a palavra "flurries". Você tem a certeza de que a pessoa que entra os dados meteorológicos não é de Vancouver, deve ser de Winnipeg ou Saskatoon, pra classificar como "flurries" aqueles 5 cm de neve. Como dizem por aqui, "flurries my ass!". Você vai caminhando devagar, pra não escorregar, mesmo usando suas botas antiderrapantes.



Quando entra no ônibus, após sacudir a neve da sombrinha, pede desculpas àquele motorista eternamente carrancudo, que nunca responde quando você dá bom dia e ele resmunga "eu sei que você tem passe de ônibus, não precisa mostrar!" Numa terra onde a regra é motorista de ônibus simpático, a mutação genética tinha ser exatamente na sua linha!

Enquanto caminha, você pensa no quanto sua alma tupiniquim aprendeu nestes 11 anos em terras geladas. Antes de morar aqui, neve era uma coisa abstrata, cenário de filmes e cartões de Natal. Neve era neve e pronto. Como o sol, sem especificações. Mas, depois de mais de uma década, logo que pisa no chão em frente de casa, você já classifica a neve no seu jardim como "powder snow", aquela fresca e fofinha. Quando chega à estação de metrô, encontra "slush", o gelo derretido. Você fica morrendo de medo de haver "black ice" onde já não há mais slush. E, no seu destino final, nem sinal de neve! Parece outra cidade, embora você tenha atravessado pouco mais de 30 quarteirões.

É nisso que dar morar em cima de um morro, de frente para um parque. Tem vida selvagem em abundância (se bem que, em Vancouver, há gambás, coiotes e guaxinins praticamente em qualquer lugar) e neva muito mais do que no centro.

Bom mesmo foi o comentário do seu filho de 5 anos, ao ver os vizinhos brincando na neve do quintal enquanto ele ainda tomava o café da manhã: "Preciso acabar logo e ir lá fora, senão eles vão usar TODA a neve!"

Ainda assim, com neve acumulada na calçada quando já não há mais praticamente nada no resto da cidade e criaturas peludas invadindo seu quintal, você não tem a menor saudade de morar em apartamento.

10 setembro, 2011

Sobre Casamentos em Vancouver


Depois de mais de uma década morando em Vancouver, você já sabe o que esperar dos casamentos por aqui. Se houver cerimônia religiosa, ela acontece muitas horas antes da festa. A noiva pode entrar na igreja sozinha, acompanhada só do pai, ou com o pai e a mãe, as opções são infinitas. O noivo não entra, porque quando os convidados chegam, ele já está lá na frente, com um terno idêntico ao de todos os padrinhos. As madrinhas, coitadas, usam roupas iguais, geralmente escolhidas pela noiva.

Você pode ser convidado somente para a parte religiosa, só para a recepção ou para ambos. Em 11 anos, você já assinalou todas as alternativas.

Os convidados merecem um parágrafo separado. A chance de encontrar uma mulher de chinelo de dedo é idêntica à de encontrar uma de blusa clara de alcinha com a alça do sutiã preto aparecendo: 99%. Também haverá muitas que não passaram um pente no cabelo e vão de cara lavada (ou nem isso). Se não houver ninguém que preencha alguma das descrições anteriores, é porque era casamento de brasileiros e não havia gringas entre as convidadas.

No seu primeiro casamento como convidada, você usa uma roupa para a cerimônia de manhã e outra para a recepção de noite. "Rookie", como diriam aqui para uma novata. Ninguém mais troca de roupa, a não ser, em algumas ocasiões, a noiva que tem um vestido longo pra igreja e um leve para a festa. Na recepção, você usa um vestido longo que trouxe do Brasil e vira ponto de referência. Alguém pergunta onde deixar os presentes (sim, eles são trazidos para a recepção e colocados numa mesa) e outra pessoa responde "os presentes estão logo atrás da moça arrumada, aquela mais bem vestida que as 'bridesmaids'.

Depois da cerimônia, começa a interminável sessão de fotos na praia, nas fontes de água dos parques, nos jardins... Como reles convidada, você não precisa participar e fica vagando pela cidade até a hora da festa.

Na recepção, você não pode escolher onde se sentar. De cara, vê a fila de pessoas procurando seus nomes, tal como numa lista de aprovados num concurso, para descobrir em que mesa foram colocadas. Ainda que você seja muito amiga dos dois noivos, não há garantias de sentar com seus outros amigos em comum com o casal. Há uma teoria de que é preciso misturar os convidados e é grande a sua chance de sentar-se à direita daquela tia da noiva que veio de Medicine Hat e à esquerda do amigo de faculdade do noivo que veio de Red Deer somente para a ocasião. Não é licença poética, os nomes das cidades aqui parecem saídos de um faroeste.

Não se espante com os dois bilhetinhos entregues a você na entrada da recepção. São seus dois drinques pagos pelos anfitriões. Mais que isso, é por sua conta. Se seu acompanhante bebum rouba seus dois papeizinhos, pode abrir sua bolsinha que só deveria conter batom e chave para comprar sua coca-cola. Nem sempre é assim, em algumas festas mais chiques, servem vinho à vontade durante o jantar e depois avisam em voz alta "a partir de agora, o bar pago está aberto".

O momento que você aguarda com mais ansiedade não é do bolo, até porque você nunca foi de comer bolo com glacê mesmo. Nem o dos bombons, que quem gosta deles em casamento não deveria nunca sair do Brasil. O melhor dos matrimônios por estas bandas são os discursos. Engraçados, emocionados, emocionantes. Você gosta tanto que até os incorporou ao seu próprio casamento. Amante de um microfone como sempre foi, já fica sonhando com o que vai falar se seus filhos se casarem.

Quando seu marido comenta que recebeu um e-mail do chefe dele, dizendo "houve dois cancelamentos para o nosso casamento no próximo sábado e gostaríamos de saber se você e sua mulher estão disponíveis", você considera um privilégio. Como tudo é muito caro, não é por pão-durismo (e existe esta palavra?) que os convidados são meticulosamente contados.

Então, numa maravilhosa tarde ensolarada, lá vai você toda arrumada procurar literalmente no meio da floresta uma igreja adequadamente chamada St Francis in The Wood (São Francisco no Meio do Mato). A melhor surpresa escondida da cidade! Tão aconchegante e linda de viver, com uma pianista/cantora de tanto talento que dá até vontade de mudar de religião só para frequentá-la. Com exatamente 28 convidados contados a dedo durante a cerimônia, você vê que realmente foi uma honra.

No dia seguinte, você escuta logo cedo:
- Mãe, você foi ao casamento?
- Fui.
- Ontem?
- É, você sabe que eu fui.
- Você beijou meu pai?
- Beijei, mas por que você está perguntando isso?
- Casamento é sempre assim. Com beijo.
- Não foi o MEU casamento com o seu pai ontem.
- Ah, não? Pensei que era o seu.

Moral da história: por mais que estejam economizando, cortando convidados e gastos, lembre-se de convidar seus filhos para seu casamento, caso eles já tenham nascido.

09 agosto, 2011

Teve ladrão no Iglu

Fofolete, depois de mocinha, resolveu acordar à meia-noite para mamar. Mamãe acorda e, enquanto amamenta, escuta uma barulheira do lado de fora. Parece uma voz de homem bêbado, revirando os recicláveis, jogando garrafas e xingando. Ela pensa que é alguém fazendo somente isso mesmo, nem acorda o marido, nem pensa em chamar ninguém, porque depois de uns 15 minutos, o silêncio retorna e a Fofolete mamou por uma meia hora.

De manhã, o portão da garagem está aberto. Entraram num dos carros e levaram todos os CDs favoritos da caixinha do porta-luvas (Chico, Caetano, Legião Urbana, Geraldo Azevedo...). Largaram o GPS, que seria bem mais fácil de repor. Realmente espalharam os recicláveis e ainda mexeram nas ferramentas, mas aparentemente não levaram mais nada. Bagunçaram a construção da casa nos fundos do Iglu também.

E aí, quando acorda, o Pacotinho de Bom Senso fica sabendo do ocorrido e diz:

- Mãe, da próxima vez em que você ouvir um bandido, chame a Polícia!

Infelizmente, não é primeira vez que isso acontece. No primeiro apartamento em que morei em Vancouver, arrombaram o guarda-volumes, levaram patins, uma TV pequena e uma mala para carregar tudo.

15 maio, 2011

Problemas com a Vizinhança - 2

Vancouver é uma cidade muito peculiar. Em poucas cidades grandes do mundo é possível esquiar e jogar vôlei na praia, num mesmo dia, sem precisar pegar uma estrada. Também é um dos poucos lugares na América do Norte em que se pode morar numa casa com quintal razoavelmente grande e ainda estar dentro da cidade. Mas o mais surpreendente é a vida selvagem que caminha pelo centro e pelos quintais, como se estivesse num desenho da Disney. Como se diz na minha terra, os bichos aqui são "enturmados".

Eis que uma noite, criançada já dormindo há tempos, escuta-se um guincho forte, parecendo o de um daqueles brinquedos de borracha de criança. Como inglês é uma língua muito melhor pra explicar sons que português, pego emprestada a palavra deles: o som é "squeaky". Só que parecia elevado à milésima potência.

Pessoa urbana, criada em apartamento que sou, decretei, do alto da minha ignorância zoológica "não vamos abrir a porta para ver o que é, deve ser um morcego". Pessoa igualmente urbana, também criado em apartamento, mas do sexo oposto, Marido Gringo nem pensa e abre a porta do quarto, que dá para a varanda. Eis que estão lá dois gambás, fugindo depois de terem sido atacados por algum outro animal (o cachorro do vizinho? Um coiote? Um guaxinim?). Vimos no segundo em que o gambá levantou o rabo e soltou aquele jato de gás (deve ser gás). Imediatamente o ambiente foi tomado por um cheiro insuportável, que durou até a tarde do dia seguinte.

Gambás aqui são bonitinhos, como este da foto. Mesmo assim, prefiro não ter amizade com eles.




Dois dias depois, da janela da cozinha, vejo um pato selvagem no quintal. Aquele da moeda de 1 dólar, com a cabeça verde esmeralda, lindo.



O Pacotinho de Planejamento já decidiu: "quando o tempo ficar quente e a gente tiver minha piscina de plástico, vamos colocar lá na garagem de noite, senão o pato vai fazer cocô nela. Mãe, pato faz cocô na água?"

O mais impressionante de morar em casa depois de passar uma vida inteira em apartamento é que, 2 meses após a mudança, ninguém aqui se lembra de ter tido outra vida. Com ou sem bicharada, ter um quintal é muito bom.

28 abril, 2011

O Pacotinho de Alfabetização

Aqui em Vancouver, as escolas de primeiro grau (ai, que estou velha e não me adapto àquela antipatia de ensino fundamental) funcionam mais ou menos assim: as particulares que estão eternamente no topo da lista das melhores mas não são religiosas são caríssimas e, mesmo pagando, a criança rica só entra com indicação. As públicas variam em qualidade (segundo o ranking mais famoso), geralmente seguindo o princípio de, quanto mais caras as casas no bairro, melhor a escola. As religiosas costumam ser bem qualificadas no ranking, a um preço acessível, mas com enfoque bem forte no ensino religioso, ou seja, nem todos os pais concordam com isso. Há exceções nos subúrbios, onde escolas públicas muito boas não se situam necessariamente nos bairros mais caros. Para "French immersion" tem sempre loteria, em qualquer bairro da cidade e, para as escolas francesas, somente filhos de pai ou mãe "francophone" (que tem francês como primeira língua) podem se candidatar.

Aos pobres mortais que não são ricos, não fazem questão que o filho seja alfabetizado em francês e preferem uma escola laica, resta somente morar num bairro muito bom.

Então, você decide mudar do seu apartamento muito bem localizado, com todas as conveniências literalmente a 10 passos da porta porque não há vagas na escola pública de lá (que, por sinal nem é de imersão francesa e está longe do topo do ranking). Muda para uma casa e faz a inscrição do seu filho na escola pública mais perto de casa. Não consegue a vaga onde queria, mas recebe a oferta de uma vaga numa outra instituição que, diga-se de passagem, está bem mais atrás no ranking do que a sua escolha inicial.

Quando chega o dia de conhecer a escola, a diretora, a sala de aula e os outros pais e alunos do "kindergarten", vem a decepção. Se fosse no Brasil, alguém diria "só no Brasil!". Faz uns dois ou três anos que o governo anunciou que, a partir de 2011, todas as escolas teriam o primeiro ano escolar (kindergarten) em tempo integral. Até 2010, a maioria das escolas tinha uma turma de kindergarten pela manhã e outra no período da tarde.

No dia da reunião de apresentação, a diretora avisa que a escola ainda não contratou a outra professora da segunda turma de kindergarten. Por sinal, nem existe o espaço físico para a sala de aula. Vão colocar uma "mobile home" em algum lugar onde vai funcionar a outra turma de kindergarten.

A diretora foi muito simpática (bem jovem, para a surpresa de todos), entregou a cada futuro aluno uma sacola com lápis de cor, ímas com letras e números, dois livros de estória e outras miudezas. Claro que os pais saíram da reunião "unimpressed", como disse a vizinha. Mas, como criança não vê as coisas que os adultos enxergam, no final da reunião, um certo garotinho que ainda não completou 5 anos, levantou a mão, no meio da sala lotada de adultos e crianças. A diretora leu o nome dele no crachá e perguntou incrédula: "Você já tem uma pergunta, Daniel?" Tagarela que só ele, respondeu "não, só queria dizer que a gente não pode escrever nas paredes".

Depois de conhecer a bibliotecária grisalha com uma franja roxa (uma das melhores coisas de Vancouver é a diversidade de aparências em todos os ambientes - dificilmente no Brasil aquela senhora conseguiria um emprego numa escola para crianças) e dizer a ela que tem muitos livros em casa, o Pacotinho de Relações Públicas conquistou a diretora, deu a mão a ela, explicou que fala português e não francês com a mãe dele, como ela havia pensado. Foram os dois juntos conversando até o ginásio.

A Mamãe do Pacotinho de Tagarelice comentou sarcasticamente com a diretora:
- Estamos muito preocupados com a timidez dele e a dificuldade que ele tem em ambientes novos.
- Estou vendo, não está mesmo preparado para o kindergarten.

Enquanto os pais ainda sonham com a carta da outra escola dizendo que apareceu uma vaga, o Pacotinho de Empolgação amanheceu no dia seguinte contando:
- Mãe, eu tive um bom sonho. Sonhei com a minha escola nova!

30 março, 2011

Problemas com a Vizinhança

Morar numa casa em Vancouver, praticamente em qualquer bairro, é ter problemas com a vizinhança. Não necessariamente com os vizinhos humanos, que até agora, tem sido ótimos. É a vida selvagem que costuma trazer dor de cabeça.

Quem mora aqui provavelmente conhece alguém que já se deparou com um urso na garagem, um guaxinim esparramando o lixo ou uma turma de gambás (e aqui eles são tão bonitinhos, iguais à Flor do desenho do Bambi) morando na chaminé. Então, quem sou eu para reclamar do coiote que visita o jardim de noite, a família de esquilos obesos que mora na árvore do quintal ou os corvos irritantes que reviram a lata de recicláveis toda terça de manhã, pontualmente antes da chegada do caminhão de lixo?

Assim que o Animal Channel lançar sua versão de The Biggest Loser, inscrevo os esquilos imensos que passeiam pela cerca. Estão com o peso tão acima do normal que se mexem devagar. Não deveriam estar magrinhos no início da primavera?

E quanto aos corvos, se ninguém tiver uma sugestão melhor, vou hoje mesmo procurar uma coruja falsa para colocar em cima do telhado da garagem. Num destes mistérios que uma pessoa urbana como eu não consegue explicar, eles destroem a grama de uma casa, mas respeitam a divisão da cerca e sequer pousam no jardim do vizinho. Andando pela rua, dá pra ver vários jardins destruídos, cheios de buracos grandes inacreditavelmente feitos por um pássaro, ao lado de gramados imaculados. Sem ver ao vivo o corvo cutucando desesperadamente a grama (seria à procura de minhocas? E por que as minhocas são menos gordas onde a grama é mais verde, do lado do vizinho?), impossível crer no estrago que um corvo é capaz de fazer. Para quem estiver curioso, o jardim aqui do Iglu não tem minhocas apetitosas, pelo jeito, mas é um bom fornecedor de galhos para o ninho.

Ainda assim, é muito bom morar numa casa. Melhor ainda é deixar a porta e as janelas fechadas, para garantir que a vizinhança não apareça sem ser convidada. Já bastam as testemunhas de Jeová (na linguagem local, JWs), que batem na porta e insistem em trazer o jornalzinho "The Watcher" em português, especialmente para você. Ao menos os bichinhos não tentam converter os moradores da casa.

13 dezembro, 2010

Esquisitices Culturais

Você acha que, por morar há quase 11 anos numa terra que não é a sua, já está acostumada às peculiaridades do lugar. Grande engano. Sempre há lugar para surpresas e nada melhor que os filhos para mostrá-las a você.

Situação 1

Você já sabe que criança saudável não tem consulta com pediatra por aqui, nem aquelas de puericultura, para pesar e medir todo mês, como no Brasil. Isso não a incomoda.

Como há uma suspeita de hérnia no seu bebezinho de 2 meses, você consegue uma consulta com uma pediatra de sua confiança (nada como trabalhar num hospital para conhecer bons médicos). Chega lá, a secretária pede que tire a roupa do bebê, para que possam verificar o peso na balança.

Você tira a fralda e procura um lugar para jogá-la. Aí ouve da moça "não pode jogar fralda aqui. Vou dar um saquinho plástico para você levá-la para casa".

Um consultório de pediatra onde não se pode jogar uma fralda descartável é algo inédito para você. Estaria você num universo paralelo? Você dá graças a Deus por ser uma simples fralda de xixi e não uma daquelas de cocô que desafia a lei da gravidade, sobe para as axilas da criança e borra a fralda toda do lado de fora também.

***

Situação 2

Você já sabe, com um ano de antecedência, que não haverá vaga na escola pública mais próxima para seu filho de 4 anos, que deverá ir para o "kindergarten" (primeiro ano escolar) em 2011. Haverá uma loteria para o "kindergarten", porque há muito mais crianças do que vagas. E, cá pra nós, você não ganha nem BINGO de igreja, não vai ganhar loteria de escola nenhuma (embora continue fazendo sua fezinha duas vezes por semana na loteria de verdade).

Então começa a procurar uma casa para alugar num bairro onde as escolas públicas são boas e há vagas. Para isso, você vai precisar alugar seu apartamento próprio. Quando comenta com uma amiga, ela pergunta:
- Mas você pode alugar seu apartamento?
- Por que não poderia? É meu.
- Nos prédios em que eu morei, tinha um número máximo de apartamentos que poderiam ser alugados. Melhor conversar com o síndico. No condomínio onde eu moro, há 3 casas alugadas. Se eu quiser alugar a minha, não posso. Já está no limite máximo.

Por via das dúvidas, você vai averiguar com o síndico e seu prédio não segue esta regra. Ainda bem.

Cada uma, né?

06 dezembro, 2010

O Pacotinho de Decepção


O Pai da Língua Grande vê a programação infantil da cidade para o mês de dezembro e troca as bolas. Decide chamar de "Santa's Workshop" (Oficina do Papai Noel) a volta de trenzinho pelo Stanley Park (foto), ao invés da vila natalina construída no topo da Grouse Mountain. Promete levar o filho de 4 anos para ver o Santa's Workshop.

O Pacotinho de Ansiedade passa literalmente a semana inteira falando no tal do Santa's Workshop. Já acorda no sábado de manhã dizendo que vai pra lá. Aceita a contragosto a explicação lógica de que só abre de noite. Aguarda o entardecer que, nesta época do ano, é bem cedo. Finalmente chega a hora. Ele vai ao Stanley Park como pai e só encontra estátuas de duendes, de figuras natalinas e do Papai Noel. Volta pra casa decepcionado:

- E aí, Filhote? Foi legal?
- Não, nem tinha um real Santa.
- Não tinha um Papai Noel de verdade?
- Não, nem "wrappers".
- Nem ninguém embrulhando os presentes?
- É. Que pena!
- E não tinha nada legal?
- Não. Mãe, sabia que o Frosty, The Snowman não existe?

Coitado, foi muita decepção junta. A surpresa pra mãe dele foi descobrir que o Frosty não existe. Ela não faz a menor ideia de como ele chegou à tal conclusão só pelo passeio no trenzinho, mas resolveu não perguntar. Eu, hein? Deviam mudar o nome pra Expresso da Meia Noite ou qualquer que seja o nome daquele trem num filme de terror.

01 janeiro, 2010

Réveillon em Terras Geladas no Cinema

Não tem Natal, nem Carnaval, nem Copa do Mundo que se comparem. A época do ano em que fico mais "homesick" é na última semana. Para quem se acostumou a enfrentar mais de mil quilômetros de viagem só para curtir os fogos em Copacabana, dia 31 de dezembro aqui em Vancouver é um tédio.

Tem festas em boates e em alguns restaurantes. Sempre caro, sem roupas brancas, sem fogos de artifício, sem uma alma viva na praia... E, depois de 10 anos, acho que nunca vou me acostumar. Quem sempre gostou da virada de ano no Brasil sente falta da farra à beira-mar.

Então, a solução é aproveitar os feriados para ir ao cinema. Esta época do ano costuma ter lançamentos de filmes excelentes até para as raras exceções que, como eu, não suportam ficção ou musicais e não querem ver Avatar ou Nine nem de graça. Aliás, para os interessados em Avatar (99,9% da população), todas as sessões aqui em Vancouver continuam lotadas uma hora e meia antes do início do filme, inclusive a sessão que começa à meia-noite, mesmo sendo a segunda semana de exibição.

Quem tem criança em casa pode encarar tranquilamente o divertido Planet 51, o desenho animado mais engraçado que vi em 2009, com piadas que agradam adultos e inúmeras referências a filmes anteriores.



Se não der para escapar de Alvin and The Chipmunks, The Squeakquel, não se desespere. Não dá para dar gargalhadas, o roteiro é completamente no estilo "sem pé nem cabeça", mas as cenas das coreografias das "girl chipmunks" (que não são esquilos, mas uma espécie bem menor, provavelmente sem tradução para o português de quem não é zoólogo, com uma lista branca nas costas, como o Tico e o Teco. Só compreendi a diferença após ver esquilos e "chimpmunks" ao vivo e a cores, porque no Brasil, o Tico e o Teco são chamados de esquilos) são bem bonitinhas. Mil vezes os 90 minutos dos Chipmunks que um musical longo, sem dúvida!



As cenas de Precious: based on the novel Push, by Sapphire são pesadas, o tema é chocante, mas a atuação é impecável. Provavelmente, sem ter visto na TV a entrevista de Gabby Sidibe, a atriz principal e sabendo previamente do tema, eu não teria encarado o filme. Ela é, na vida real, o oposto da sua personagem, mas igualmente cativante. Mariah Carey está irreconhecível como a assistente social e a gente leva uns segundos tentando lembrar de onde é familiar o rosto do auxiliar de enfermagem (Lenny Kravitz), mas quem merece levar o Oscar é a comediante Mo'Nique (assim mesmo, com apóstrofo), que faz o papel de mãe-monstro da personagem principal, sem ser esterotipada como a maioria dos vilões, numa atuação brilhante. Poucas vezes num filme o espectador sente tanto ódio de um personagem. O roteiro não decepciona, é impossível sair da poltrona sem pensar na vida de Precious e fazer um paralelo com a própria vida, que fica definitivamente muito mais fácil por comparação. No fundo, é um filme sobre esperança. A vida é mesmo preciosa, como nos mostra o equivalente ao Slumdog Millionaire deste ano.



George Clooney continua charmoso no inusitado Up in The Air. Com uma profissão que eu sequer imaginei que existisse, o personagem mostra uma situação bem atual para o ano de crise nos Estados Unidos que foi 2009. É um filme com cenas engraçadas, um misto de documentário, comédia e drama, que trata de um tema sofrido para muitas famílias, mas fala sério: tem o George Clooney, quem liga pro resto?



Faltam os fogos e a farra na praia, mas não falta é opção de filme interessante no cinema.

29 novembro, 2009

Disney on Ice - Vancouver 2009

A mãe, que não é muito fã de multidões desde criacinha, quando foi com o pai e dois irmãos pequenos ao show gratuito dos Trapalhões no ginásio de esportes em Brasília e que, não tendo aprendido a lição, já adolescente, foi literalmente pisoteada naquele legendário show do Legião Urbana em 88 também na capital, decidiu levar seu Pacotinho de Eventos ao Disney on Ice 2009. Se tem uma coisa que indiscutivelmente é muito melhor no Canadá do que no Brasil é multidão. Não importa o número de pessoas nem o tamanho do lugar, ninguém pisa no seu pé, não tem gente furando a fila e, se você por acaso esbarra em alguém, imediatamente ouve um pedido de desculpas. Isso mesmo quando a culpa é sua.

Depois de ler no jornal um artigo de página inteira sobre como foram feitos os Carros (assim mesmo, com C maiúsculo, os personagens) para o evento, não havia mais dúvida. Certamente foi matéria paga, mas bem convincente como propaganada. Foi tudo tão elaborado que, pela foto, ela decidiu que o Pacotinho de Tietagem do "LighteMing McQueen", como ele mesmo fala, iria adorar.



Chegam lá bem cedo, sem problemas com vagas no estacionamento pago, onde já se viam dezenas de princesinhas de todos os tamanhos, cobertas por casacos enormes, mas sem touca para não cobrir as tiaras brilhantes. Sabe como é, princesa passa frio nas orelhas mas não perde a majestade.

E já na entrada começa a exploração. Quem manda sair de casa com fome? Como assim ONZE dólares por um baldinho de pipoca? São pipocas que protegem contra o H1N1? O brinquedinho que acende luz e roda também custa caro. Aí ela entra, senta e vem um cara vendendo uma pipoca "baratinha", que só custa oito dólares. E porcaria vai, besteira vem, antes de começar o show ela já gastou mais do que o preço dos ingressos. Erros de iniciante, que ano que vem já vai sair de casa com o brinquedinho giratório desde ano e um saco de pipocas caseiras.

O Pacotinho de Jejum vê pela primeira vez um saco de algodão doce e diz que quer "sorvete". "Não é sorvete, é algodão doce." "Eu gosto de godão doce". E come com a boca boa, dizendo "que gostosura!". E quem disse que não se enriquece o vocabulário assistindo a videos? "Gostosura" é uma palavra que a mãe dele nunca fala.

Começa o show, o Marido Gringo avisa "se eu dormir, não me acorde". Mas não dá para dormir. Primeiro porque os Carros são fantásticos e o espectador que não é engenheiro passa o tempo todo se perguntando como construíram tudo, como é que eles se movem tão perfeitamente no gelo e ainda mexem a boca e acendem os faróis! Em segundo lugar, porque o raio do brinquedinho giratório segurado pelo filhinho dela está exatamente na altura dos cabelos compridos da moça à sua frente e, como cidadã responsável, ela teme pela segurança capilar da pessoa. Em terceiro lugar, porque a princesinha atrás dela chuta-a nas costas com umas botas de plástico com pompons cor-de-rosa. O rei, digo, o pai da princesa, até tenta controlá-la, mas não num intervalo ideal para quem está do outro lado da sola da bota. Ah, se for para ser chutada, que seja com estilo e frufus cor-de-rosa. É mais confortável ser chutada do que ser a mãe do "chutante".

Os patinadores são excelentes, parecem todos saídos das últimas Olimpíadas de Inverno, movendo-se com perfeição além dos limites humanos sob fantasias pesadas. Pelo menos para ela, que fez três vezes o curso no nível iniciante de patinação no gelo para adultos e até hoje patina tão bem quanto o Robocop.



Tudo são flores (ou chapéus de flores, que vinham com o algodão doce que, pelo preço, cura o câncer, como usavam todas as meninas que estavam sem tiaras) no primeiro ato.

Depois do intervalo, começa uma xaropada de um ato de um filme que ela não viu. Não entende xongas do que está acontecendo ali. Uma gritaria, uma fada que parece um travesti, uns duendes gordinhos jogando tudo no chão, uma outra fada dourada pendurada por cabos de aço. Uma mistura de Cirque du Soleil com ensaio de escola de samba do segundo grupo. Do interior de Minas. A criançada à sua volta começa a ficar impaciente, você até quer ir embora, mas a multidão aqui não é tão passiva a ponto de permitir que subam nas suas pernas para alcançar o corredor. Depois, para sua indignação, uma amiga conta que as princesinhas dela ficaram comportadíssimas até o final. Claro que ela não estava sentada no mesmo setor que você, de onde uma fadinha e uma Branca de Neve saíram aos pontapés antes do final do segundo ato. Claro que a princesinha zagueira atrás da nossa heroína permaneceu até fim. Chutando até o fim.



Enfim, acaba o espetáculo. A multidão dirige-se para a saída novamente sem o menor problema. Você faz as contas e vê que está carregando um monte de tralhas inúteis que custaram os olhos da cara, mas valeu a pena. Os olhos brilhantes do filhinho vendo seus personagens favoritos, as palmas, o adeuzinho espontâneo dado ao Mickey Mouse não têm preço. Já a tralha vendida no ginásio, bem, deixa pra lá.

05 setembro, 2009

Cuidado com a Foca!



Quando estou no Brasil, meus únicos encontros com o mundo animal não canino resumem-se a baratas e, ocasionalmente, uma perereca ou lagartixa. Convenhamos, não sou chegada a doação de sangue para mosquitos, carrapichos no bumbum e outras alegrias dos contatos imediatos de terceiro grau com o meio do mato.

Aqui em Vancouver, os encontros com a vida selvagem podem ser não menos assustadores e mais merecedores de foto na primeira página dos jornais. Uma amiga brasileira já encontrou um urso na garagem de casa, mas felizmente todos saíram bem, com ela correndo assustada para um lado e o bicho para o outro. Há poucos dias, no quintal da casa de um amigo, vimos um "racoon" e sua família descerem tranquilamente da árvore, ignorando a presença do monte de gente que estava lá. Foi difícil convencer as crianças pequenas de que os bichinhos podem ser até bonitinhos, mas não são amigos, podem transmitir raiva e matar o coelhinho da vizinha.

Os gambás cujo cheiro pode ser sentido a quarteirões de distância são vistos com frequência até no centro da cidade. Surreal a imagem de um gambá igualzinho ao personagem Pepe Le Pew passeando na rua, sem ter medo das pessoas. Quando vi um pela primeira vez, comentei "que bonitinho, parece a Flor, do desenho do Bambi" e um amigo canadense alertou "é porque você ainda não sentiu o cheiro, senão estaria menos entusiasmada".



Esta semana, uma garotinha de 5 anos que estava na marina de um dos bairros mais chiques de Vancouver, após um passeio de barco com o pai, foi atacada por uma foca, que a arrastou para dentro das águas da baía. Eles haviam pescado salmão, estavam limpando os peixes e a criança jogava na água os restos. Segundo os jornais, há algumas focas morando na baía, já acostumadas a esperarem pelos restos de peixe arremessados pelos pescadores. A menina estava com cheiro de peixe na mão, a foca pulou e arrastou-a pela mão. Era uma "harbor seal", como esta da primeira foto, que pode chegar a 200 libras de peso, muito maior que uma criança de 5 anos.

Na versão do pai da criança, ela foi salva pelo colete salvavidas (sem hífen?), porque o animal não conseguiu arrastar a vítima para o fundo da água. Houve quem dissesse que, ao perceber o engano, a foca desistiu da menina. Acredito mais na hipótese levantada pelo pai.

Numa cidade onde há tantos animais selvagens morando perto dos humanos, fica uma lição, que já devia ter sido aprendida desde os tempos do desenho do Zé Colmeia: não alimente os animais selvagens.

E pensar que já parei o carro na estrada entre Banff e Lake Louise e desci com uma amiga brasileira igualmente doida para tirar uma foto de um urso "grizzly". Jamais farei isso novamente, mas até hoje uma amiga canadense, que acampa todos os verões desde criança, fala com um tom de inveja que jamais viu um "grizzly".





Para quem, como uma cética amiga argentina, acha que sou fake, que moro em Piracicaba, não sou enfermeira coisa nenhuma e invento estes casos só para assustar os outros ou para quem é simplesmente curioso e quer saber mais, aqui está a notícia do ataque da foca no jornal local.

04 agosto, 2009

Pedicure Canadense



Sabe aquela mania de brasileira de ir ao salão fazer as unhas toda semana? A menos que você ganhe os 36 milhões acumulados na loteria 649, pode esquecer ao mudar para cá. Pela bagatela de 50 dólares (tem lugar que é mais barato na segunda-feira, sai por 35), é possível fazer o pé e a mão num "nail spa" em Vancouver. Uma brasileira mais exigente diria "mas elas não tiram a cutícula direito" e eu diria "mas no Brasil não tem bacias borbulhantes, banho de espuma pros pés e massagem que vai até as panturrilhas". As vietnamitas (incrível, perto do Iglu TODAS as manicures são vietnamitas) fazem massagens divinas nos pés.

Com temperaturas altíssimas para os padrões locais e as Havaianas insistindo em sair do armário, os "nail spas" andam lotados. E mesmo sem marcar, sempre tem vaga.

O preço é tão caro que "uma pedicure" é algo que se dê de presente a uma amiga. Sério, ao invés de comprar um perfume ou uma blusa, é comum dar um vale-pedicure. Eu mesma fiquei surpresa quando ganhei um vale-manicure, mas aderi e passei a dar de presente às amigas grávidas na reta final. Presentão! Não entulha no armário, não precisa trocar porque não coube e não dá dor de cabeça pelo cheiro.

Esqueça o esmalte transparente ou o rosinha básico do Brasil. Pagando caro, é melhor pintar de vermelho para que seus pés sejam notados de longe. Não aderi aos populares esmaltes preto, laranja ou verde cintilante (e acho que nem vou), mas o vermelho-sangue é campeão de preferência.

Também não aderi às pinturas extras feitas nas unhas. Ontem vi minha colega de mais de 50 anos (e não 13) com o rosto de um gatinho preto pintado em cada dedão do pé e 3 patinhas pretas em cada uma das unhas menores, todas rosa-choque-cheguei. Uma obra de arte pintada, não era adesivo. Ela disse que estava trocando de sapato no trabalho, uma colega filipina mal informada viu as unhas dela e gritou "fungo! Você está com fungo nos pés!" Fala sério, você paga 50 dólares para ter gatinhos nas unhas (gosto não se discute) e a colega tem a cara-de-pau de achar que existe fungo que deixe a unha rosa choque com pintinhas pretas!

30 julho, 2009

Altas Temperaturas



As vancouverites da foto refrescam-se num lago de um parque em West Vancouver.

Os termômetros no centro de Vancouver hoje marcaram inacreditáveis 36 graus às 15:30. Em oito anos trabalhando no hospital, foi a primeira vez que abri mão das meias Kendall por conta do calor. De tão acostumada a trabalhar com meia-calça até a cintura e camiseta por baixo do "pijama-uniforme" à la E.R. ou Grey's Anatomy, eu passei o dia inteiro me sentindo pelada só com o uniforme. É exatamente como nos tempos em que eu trabalhava em Saint Louis no Maranhão, com a diferença de que não havia ar condicionado no hospital e a meia-calça fazia parte do uniforme, que por sinal, parecia um vestido de comissária de bordo.

Quarta-feira foi o dia mais quente já registrado na história de Vancouver. No aeroporto, a temperatura foi de 33,8C, batendo a marca anterior de 33,3C. Chegou a fazer 40 graus em Abbotsford.

Se alguém souber onde ainda há estoque de ar condicionado e ventilador, pode ficar rico divulgando a informação.

E vai continuar! Será que morri e estou no Céu?

PS: E não, nada, nem este calor maravilhoso faz com que eu entre na água congelada e de aparência pouco convidativa das praias locais. Mas piscinas à beira-mar são ótimas nesta época do ano.

28 julho, 2009

Que Calor!

Da minha parte, não é absolutamente uma reclamação, mas uma constatação feliz. Em 10 verões passados nesta terra, jamais tinha sentido um bafo quente de ar ao sair de um lugar fechado e pisar na calçada. Nunca tinha visto uma tempestade com trovões e relâmpagos, muito menos sentido aquele ar abafado típico de um toró tropical no final da tarde, como ocorreu no sábado passado. Parece férias em lugar tropical.

Temperaturas acima de 30 graus! Que sonho!

Claro que a gringaiada só reclama e volta e meia me pergunta "is it hot enough for you?"

O povo é tão desacostumado, que na creche do Pacotinho de Suor a criançada agora só fica do lado de fora se for para brincar com água.

E dizem que está chovendo do outro lado do país. Quem diria, a previsão para amanhã aqui em Vancouver é de 35 graus. São Pedro finalmente fez algo para compensar o inverno tenebroso.

E que dure pelo menos até setembro, mesmo com o estoque de ventiladores e aparelhos portáteis de ar condicionado completamente esgotado das maiores lojas.

PS: As Havaianas, aquelas mesmas legítimas, viraram uniforme obrigatório nos pés de gringos em geral.

21 julho, 2009

A Tradutora de Espanhol

Você trabalha num mesmo setor há 6 anos. É a única brasileira que 90% dos colegas já viram na vida. Sempre que pode, tenta convencê-los de que a língua falada no Brasil é português. "Mas qual é a porcentagem dos brasileiros que falam português?" "Mas a língua oficial ainda é o espanhol, né?" Também tenta ensinar que São Paulo nunca foi a capital e que é Brasília e não Brazil City. É um trabalho de formiguinha.

Depois de tanto tempo, você conclui que é uma péssima professora. Você até espera conclusões sem noção dos canadenses, mas tem expectativas mais ousadas para os colegas europeus. Tudo em vão.

Está lá você na sua sala, "minding your ouw business" (como dizem aqui todos os que chegam com a mandíbula quebrada ou o nariz arrebentado sem nunca terem provocado o agressor), quando entra sua colega polonesa. "Posso pegar a Flávia emprestada? Tem um paciente na nossa sala que só fala espanhol e..." Você tenta inutilmente explicar que não fala espanhol, até entende, mas o paciente não a entenderá e a colega já está arrastando você pelo braço.

Encontra um rapaz deitado na maca, pé enfaixado, rodeado pelo ortopedista e uma enfermeira canadenses, um residente da anestesia nascido em Caracas mas descendente de chineses, a colega polonesa que a recrutou e um colega filipino eternamente com cara de quem não está entendendo nada. Aí você olha pro pulso do paciente e lê Fulano Lopes. Lopes. Com S. Não é espanhol coisa nenhuma! "Fulano, de onde você é?" "De São Paulo". Aí, você que já devia estar de TPM, ao invés de perguntar qual o problema do moço, vira para todos e pede um minuto de atenção: "gente, ele é de São Paulo. Ele não fala espanhol, ele é brasileiro e fala português. Como EU!" E, numa bronca especial pro residente venezuelano "esperava mais de você, que decepção!"

Resolvido o problema do moço, você volta pra sua sala. Daí a meia hora, o colega filipino recém-catequizado, mas pouco confiante nos conhecimentos adquiridos, volta "Flávia, tem um paciente PORTUGUÊS na nossa sala agora. Ele precisa de um intérprete. Você fala português, né?" E lá vai você ajudar o Sr. Lopes, que por uma dessas coincidências da vida, tem o mesmo sobrenome do moço anterior, sendo os dois únicos pacientes para quem você precisou traduzir alguma coisa no centro cirúrgico em 6 anos. Ao contrário dos chineses e indianos de todo dia (semana passada houve uma indiana que só fala urdu e, claro, havia um colega fluente em urdu que ficou de tradutor simultâneo), os falantes da língua de Camões que aparecem raramente precisam de intérprete.

Coisas de Vancouver. É mais fácil ter um colega de trabalho fluente em urdu do que ensinar ao povo do seu trabalho a reconhecer a língua oficial do Brasil. "Mas mesmo português sendo a língua oficial, nas ruas o povo fala espanhol, né?"

27 abril, 2009

A Gripe Suína

Foram confirmados 2 casos de gripe suína aqui em Vancouver, de acordo com uma notícia de hoje.

Como no episódio da SARS, que também ficou conhecida como pneumonia asiática, tem mais gente se apavorando de longe do que por aqui. Ainda não vi ninguém de máscara na rua, como na época da SARS (e em Vancouver, os chineses são particularmente chegados a uma máscara, com ou sem gripe animal do momento).

No hospital onde trabalho, ainda não foram tomadas precauções especiais. Temos umas máscaras estilo "Star Wars", apertadíssimas e sufocantes, que devemos usar em casos de suspeita de tuberculose, mas nem sequer foram mencionadas nesta semana. Vale dizer que nem passo pela emergência, onde a probabilidade de alguém chegar com o vírus é maior. Talvez por lá já tenham alguma estratégia específica.

Nunca é demais lembrar que vale o bom senso: lavar as mãos e evitar lugares fechados com gente confinada. Confesso que tenho muito mais medo da paranóia e da hipocondria do que da gripe.

01 abril, 2009

Primeiro de Abril

São Pedro também entrou na onda da piadinha sem graça. Está nevando aqui hoje! Nada dramático, nem está grudando no chão, mas é neve mesmo.

Se eu não estivesse indo para a Flórida esta semana, iria ficar chorando as pitangas congeladas.

09 março, 2009

Cadê a parte que me cabe no aquecimento global?

Vancouver, no mesmo dia em que começou o horário de "verão":

06 janeiro, 2009

Sobrevivendo à Neve

Uma pesquisa constatou que o assunto preferido dos canadenses é o clima (e precisava de pesquisa? No primeiro dia, na primeira esbarrada com um canadense, qualquer um descobre isso). E claro que num inverno em que Vancouver ficou parecida com o resto do país, acabou-se nas lojas o estoque de pás para remover a neve, o assunto não poderia ser outro.

A cada dia fico mais impressionada com a minha vasta ignorância sobre o tema.

Conversa de final de cirurgia. A residente da ginecologia vira-se para o anestesista:

- Eu sou de Alberta. Tenho no porta-malas uma pá dobrável para retirar neve, sacos de areia, lixa grossa de papel, cabos de carregar a bateria... O povo aqui é muito despreparado para lidar com a neve. Começa a nevar um pouquinho, os carros ficam atolados.
(a enfermeira tropical intromete-se)

- Sacos de areia? O que você faz com isso?
- Coloco a areia em volta da roda do carro, assim faz fricção e o carro consegue sair se estiver atolado.
- Ah, claro. E a lixa?
- A lixa faz o mesmo efeito. Coloca um pedaço embaixo de cada roda, que o carro consegue sair.
- Eu só tenho lixa de unha na bolsa.

O anestesista quer dar seu palpite. Ele deve ser de algum outro lugar, raramente se encontra um adulto que nasceu e cresceu em Vancouver.

- Mas os cabos da bateria não adiantam se ela estiver congelada.
- A -17C, o líquido dentro da bateria congela.
(detalhe: não é -15 nem -20C, mas -17C)

Nunca pensei que diria isso, mas ainda bem que a chuva voltou e a neve deu uma trégua.

28 dezembro, 2008

Stop the snow, stop the snow, stop the snow

Até agora, foram 88 cm de neve (medidos no aeroporto) neste mês de dezembro aqui em Vancouver. Provavelmente para quem é de Jasper ou Saskatoon, isso deve ser a cota de três dias no mês de novembro, mas para os vancouverites, já deu.

Depois que você já apreciou o silêncio nas ruas na hora em que a neve está caindo, já tirou as fotos e a criançada já fez seu boneco de neve, considerando que tudo isso leva no máximo 1 hora e meia para ser realizado, tudo poderia desaparecer e o termômetro chegar a 30 graus positivos.

No dia de Natal, na saída da igreja, seu carro atola na neve. Você vê um indivíduo tirando neve da calçada e tem a idéia de pedir a ele a pá emprestada, para desatolar o carro. Ele, no espírito natalino peculiar ao dia, responde: "não empresto, não tenho nada com o seu problema". Você fica ao volante, com sua vasta experiência tropical em tirar carros da neve fofa, enquanto o marido fica empurrando o carro e seu filho de 2 anos e meio grita da cadeirinha "não, Mamãe. Não pega o volante. Só o Papai." Cadê os duendes do Papai Noel quando a gente precisa deles?

Numa cidade que não tem estrutura de apoio suficiente para limpar as ruas e calçadas da neve, fica tudo mais complicado. Ainda assim, em pleno Boxing Day (feriado de 26 de dezembro, a maior liqüidação do ano - até dia 01/01 ainda posso usar o trema), com a neve caindo sem piedade, havia filas de vários quarteirões nas portas das lojas às 06:00 (só sei disso porque trabalhei no plantão noturno e vi as filas na volta para casa). Nem que estivessem pagando para eu levar uma bolsa da Coach, eu sairia na escuridão de manhã para ficar numa fila sob a neve.

Como neve pouca é bobagem, a torneira da cozinha resolve vazar em pleno 26 de dezembro. Feriado, neve caindo como se fosse a Vila do Papai Noel, o encanador cobra 89 dólares só para vir ver se realmente há um problema. Pela bagatela de 400 dólares, ele conserta sua torneira, avisando que está cheio de serviço, com canos congelados e estourados em várias casas. Você passa a considerar a profissão lucrativa para uma próxima vida.

Segundo a primeira página do jornal de ontem, os números de ataques cardíacos aumentam em 25% depois que neva. É o povo sedentário tirando a neve das calçadas (a galera aqui, amadora no assunto, não costuma ter aqueles "snow blowers" e vai na pá mesmo (que não emprestam para ninguém). E para completar, a neve em Vancouver é 50% mais pesada que no interior do país. Minha ignorância no assunto encheria uma biblioteca. Imagina se eu iria ficar pesando neve e comparando entre um lugar e outro!

E ainda há torcida para que neve mais um pouco e a marca de 89-vírgula-alguma coisa-cm de 1969 seja superada. Já deu!