
Depois de mais de uma década morando em Vancouver, você já sabe o que esperar dos casamentos por aqui. Se houver cerimônia religiosa, ela acontece muitas horas antes da festa. A noiva pode entrar na igreja sozinha, acompanhada só do pai, ou com o pai e a mãe, as opções são infinitas. O noivo não entra, porque quando os convidados chegam, ele já está lá na frente, com um terno idêntico ao de todos os padrinhos. As madrinhas, coitadas, usam roupas iguais, geralmente escolhidas pela noiva.
Você pode ser convidado somente para a parte religiosa, só para a recepção ou para ambos. Em 11 anos, você já assinalou todas as alternativas.
Os convidados merecem um parágrafo separado. A chance de encontrar uma mulher de chinelo de dedo é idêntica à de encontrar uma de blusa clara de alcinha com a alça do sutiã preto aparecendo: 99%. Também haverá muitas que não passaram um pente no cabelo e vão de cara lavada (ou nem isso). Se não houver ninguém que preencha alguma das descrições anteriores, é porque era casamento de brasileiros e não havia gringas entre as convidadas.
No seu primeiro casamento como convidada, você usa uma roupa para a cerimônia de manhã e outra para a recepção de noite. "Rookie", como diriam aqui para uma novata. Ninguém mais troca de roupa, a não ser, em algumas ocasiões, a noiva que tem um vestido longo pra igreja e um leve para a festa. Na recepção, você usa um vestido longo que trouxe do Brasil e vira ponto de referência. Alguém pergunta onde deixar os presentes (sim, eles são trazidos para a recepção e colocados numa mesa) e outra pessoa responde "os presentes estão logo atrás da moça arrumada, aquela mais bem vestida que as 'bridesmaids'.
Depois da cerimônia, começa a interminável sessão de fotos na praia, nas fontes de água dos parques, nos jardins... Como reles convidada, você não precisa participar e fica vagando pela cidade até a hora da festa.
Na recepção, você não pode escolher onde se sentar. De cara, vê a fila de pessoas procurando seus nomes, tal como numa lista de aprovados num concurso, para descobrir em que mesa foram colocadas. Ainda que você seja muito amiga dos dois noivos, não há garantias de sentar com seus outros amigos em comum com o casal. Há uma teoria de que é preciso misturar os convidados e é grande a sua chance de sentar-se à direita daquela tia da noiva que veio de Medicine Hat e à esquerda do amigo de faculdade do noivo que veio de Red Deer somente para a ocasião. Não é licença poética, os nomes das cidades aqui parecem saídos de um faroeste.
Não se espante com os dois bilhetinhos entregues a você na entrada da recepção. São seus dois drinques pagos pelos anfitriões. Mais que isso, é por sua conta. Se seu acompanhante bebum rouba seus dois papeizinhos, pode abrir sua bolsinha que só deveria conter batom e chave para comprar sua coca-cola. Nem sempre é assim, em algumas festas mais chiques, servem vinho à vontade durante o jantar e depois avisam em voz alta "a partir de agora, o bar pago está aberto".
O momento que você aguarda com mais ansiedade não é do bolo, até porque você nunca foi de comer bolo com glacê mesmo. Nem o dos bombons, que quem gosta deles em casamento não deveria nunca sair do Brasil. O melhor dos matrimônios por estas bandas são os discursos. Engraçados, emocionados, emocionantes. Você gosta tanto que até os incorporou ao seu próprio casamento. Amante de um microfone como sempre foi, já fica sonhando com o que vai falar se seus filhos se casarem.
Quando seu marido comenta que recebeu um e-mail do chefe dele, dizendo "houve dois cancelamentos para o nosso casamento no próximo sábado e gostaríamos de saber se você e sua mulher estão disponíveis", você considera um privilégio. Como tudo é muito caro, não é por pão-durismo (e existe esta palavra?) que os convidados são meticulosamente contados.
Então, numa maravilhosa tarde ensolarada, lá vai você toda arrumada procurar literalmente no meio da floresta uma igreja adequadamente chamada
St Francis in The Wood (São Francisco no Meio do Mato). A melhor surpresa escondida da cidade! Tão aconchegante e linda de viver, com uma pianista/cantora de tanto talento que dá até vontade de mudar de religião só para frequentá-la. Com exatamente 28 convidados contados a dedo durante a cerimônia, você vê que realmente foi uma honra.
No dia seguinte, você escuta logo cedo:
- Mãe, você foi ao casamento?
- Fui.
- Ontem?
- É, você sabe que eu fui.
- Você beijou meu pai?
- Beijei, mas por que você está perguntando isso?
- Casamento é sempre assim. Com beijo.
- Não foi o MEU casamento com o seu pai ontem.
- Ah, não? Pensei que era o seu.
Moral da história: por mais que estejam economizando, cortando convidados e gastos, lembre-se de convidar seus filhos para seu casamento, caso eles já tenham nascido.