O post de hoje é dedicado à minha amiga Nilde, que encontrou esta receita e deliciou-me com seus comentários. Ela até parece saída da minha família, com seu senso de humor meigo e inocente:

Apesar dos meus 8 anos sem criadagem, confesso ter ficado surpresa quando uma amiga encontrou uma receita "super fácil e prática" de geléia de mocotó caseira na internet:
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GELÉIA DE MOCOTÓ
Ingredientes:
1 pé de boi (peça no açougue para que ele seja cortado em pedaços menores, para caber na panela)
1 xícara de mel, melado ou rapadura ralada
50 g de erva-doce
10 g de cravo da Índia
20 g de canela em casca
1/2 copo de vinho do Porto (opcional)
Modo de Preparo:
Cozinhe o mocotó em água filtrada suficiente para cobrir completamente todos os pedaços, por cerca de duas horas.
Passe no coador de macarrão ou na peneira (para que o líquido fique completamente límpido, forre a peneira com uma fralda de pano limpa).
Ponha o caldo na geladeira e, no dia seguinte, raspe bem para tirar toda a camada de gordura que se forma no topo.
Ponha novamente o caldo no fogo baixo para liqüefazer. Se ainda houver algumas gotas de óleo, retire-as com pedaços de papel.
Faça à parte um chá bem forte com a erva-doce, o cravo e a canela. (Socar bem os ingredientes do chá em um pano antes de prepará-lo). Ponha tudo para ferver e coe o chá no pano. Junte esse chá ao caldo do mocotó.
Adoce mais caso ache necessário, cuidando para não exagerar e apure o caldo apara que ele engrosse um pouco mais - cerca de 30 minutos a mais no fogo normalmente é suficiente. Retire do fogo e junte o vinho do Porto.
Separe a geléia em potinhos individuais ou numa travessa grande. Guarde na geladeira por pelo menos 3 horas antes de servir - ela ficará com uma consistência igual às gelatinhas comerciais. Esta é a verdadeira gelatina, o resto é imitação sem nutriente algum…
Detalhe interessante:
Se você só cozinhar os ossos, sem tempero algum, pode usar o caldo de mocotó para engrossar caldos e molhos, pode acrescentar uma colherinha à mamadeira do seu filho (o que acrescenta uma boa dose de cálcio e outros minerais bem disponíveis à mamadeira dele)." ////////////////////////////////////////////////////////
Ai que prático, gente! Fiquei super a fim de fazer! Sabe que me deu até água na boca quando li "1 pé de boi"? Na hora me imaginei chegando no açougue chique do supermercado que vende a
melancia quadrada a $99,99 e pedindo "one cow foot" cortado em pedaços que caibam na panela. E o que deve ser a visão do pé de boi afundando na panela com água filtrada? Pura poesia culinária. Sou capaz de substituir por água Evian, para ficar ainda mais sofisticado. É o tipo de receita que já empolga na leitura do primeiro ingrediente. Será que o pé de boi vem com o casco e tudo? Tomara que sim! Ou boi não tem casco no pé? Que falha imperdoável nunca ter cozinhado um pé de boi para saber a resposta! E vou exigir que seja o pé de um boi criado livre, leve, solto e feliz no pasto, tomando orvalho fresco da manhã e namorando vaquinhas igualmente felizes, com pezinhos limpos e pedicure semanal.
Outro ponto positivo é que essa receita também leva rapadura ralada, coisa que facilmente se encontra em qualquer supermercado canadense. Eu nem sabia que rapadura era um ingrediente "ralável", mas o que é o poder da leitura para ampliar os limitados horizontes da minha cozinha! Só fico curiosa pensando no que diria agora minha Santa Irmã com Criadagem a respeito da minha receita de fondue (quando me viu ralando queijo para fazer fondue, ela exclamou "quem tem que ralar é o sabão, não você" - a piadinha é só para maiores de 30 anos).
Achei muito poética e ecologicamente correta a utilização de uma fralda de pano para coar o caldo. Let's go green, people! Ops, desculpe a empolgação, não é todo dia que encontro uma receita com a qual me identifico tanto. E a parte de colocar novamente no forno para liqüefazer no dia seguinte? Que prático! É só tirar as gotas de óleo com pedaços de papel... super simples! Cuidado para não exagerar quando adoçar, viu?
E o detalhe interessante de colocar o mocotó na mamadeira da criança? Como não pensei nisso antes? Deve ser porque o Pacotinho de Frescura não toma mamadeira! Mas imagino que vou cozinhar os ossos assim mesmo, por pura diversão, como uma atividade terapêutica num ocioso fim de tarde e oferecer os potinhos de mocotó às mães de bebês que morem na vizinhança. Quem recusaria uma oferta dessas? Dá até para dar como lembrancinha de aniversário, com uma borboletinha na tampa do vidro, não fica um mimo nutritivo e original? DU-VI-DO alguma criança pedir balas e chocolates depois de ganhar uma sacolinha surpresa recheada com caldinho de mocotó caseiro!
A PERGUNTA É:
Com uma receita prática, simples, deliciosa, dessa magnitude... Por que ainda tem gente no Brasil que compra o copinho de geléia no mercado? Será que é por receberem participação nos lucros ou por precisarem de copos em casa?
Comentário da minha amiga Nilde Berenice:
"Gente, tô inconformada com o fato de nunca ter feito essa receita tão supimpa e prática antes!!! Fico aqui comprando copinhos de geléia DUCOPO quando poderia ter simplesmente comprado 1 pé de porco, rapadura ralada , erva doce e cravo da Índia e somente ter que ferver de um dia para o outro e depois colocar na fralda de pano(o que, cá pra nós, é algo tão singelo e pueril!) e separar o óleo com papel.....ah, faz favor, que atraso da minha pessoa esse desconhecimento!!"
Com licença, que vou ali comprar meu pé de boi. Depois da publicação desta receita, provavelmente haverá grande procura.
PS: O leitor mais atento perceberá que, na versão da Nilde, a receita não dá certo. Na sua ignorância culinária, ela confundiu as espécies animais, achou que pé de boi fosse pé de porco e acabou fazendo feijoada ao invés de geléia de mocotó. Perdoe, Pai, ela não sabe o que diz (nem o que cozinha e muito menos o que vai na mamadeira das crianças).