31 janeiro, 2008

SAL do Iglu

Para Soraya
Na idade do seu filho, recomendo The Happiest Toddler on The Block, do Dr. Harvey Karp. Tem o DVD em português (A Criança Mais Feliz do Pedaço), mas acredito que não tenha o livro.

Re e Li
Pode publicar sim. Voce já deve me conhecer de algumas comunidades e não está ligando o nome à pessoa. Sou moderadora da PR e das Soluções Para Noites Sem Choro.

SAL do Iglu para as Barrigudas do Ano

O SAL do Iglu responde para Denise

A Vanessa morava na mesma quadra que eu em Brasília e foi minha colega no curso de catequese (eu sou mais velha, fomos ambas professoras e não colegas de classe !)

Para Xará Avassaladora e Denise

Um bom livro sobre bebês e crianças, a meu ver, preenche alguns pré-requisitos:
- o autor tem filhos;
- o autor tenta encorajar a mãe a seguir seu instinto;
- o autor dá dicas baseadas na teoria da éxtero-gestação;
- o autor leva em consideração as necessidades emocionais do bebê, não somente as físicas (fico para morrer quando alguém diz "se está de barriga cheia e fralda limpa, pode deixar chorar", como se o bebê fosse proibido de desejar colo por outros motivos);
- o autor fundamenta-se em estudos antropológicos e clínicos de pesquisadores renomados (o que torna impossível que ele seja contra a natureza da criança, chamando-a de manipuladora, egoísta, "dependente" - e existe bebê "independente" ?);
- o autor é defensor da amamentação exclusiva até 6 meses e prolongada até 2 anos ou mais. Alguns são mestres do "disfarce", porque dizem ser pró-amamentação, mas recomendam dar o peito em horários rígidos (o primeiro passo para a síndrome do "pouco leite", "pouco ganho de peso" e desmame) ou complementar com leite artificial "para o neném dormir a noite toda" ou "porque o leite da mãe AINDA não desceu depois de 3 dias" (eu tive parto vaginal e meu leite só desceu no quarto ou quinto dia, meu bezerrinho não tomou mamadeira nem passou fome, mas o que tem de gente ignorando a importância do colostro é absurdo). Ou ainda, um clássico de muitos pediatras "seu filho já tem 1 ano, seu leite agora não serve mais para nada".

Um bom livro de amamentação tem o endosso da La Leche League International e recomenda olhar o bebê e não o relógio na hora de dar o peito, ainda que só tenha passado uma hora da última mamada. Meu filho mamava em intervalos de no máximo 2 horas de dia e dormia 11 horas seguidas de noite com 3 meses, imagina se eu fosse colocá-lo no esquema de 3/3 horas, deixando-o berrar de fome de dia até completarem 3 horas e acordando o menino do sono gostoso ? Nem haveria sono gostoso, depois de um dia estressante sem poder mamar o quanto queria.

Saber que em outras culturas primitivas as mães têm bebês que raramente choram leva-nos a repensar muitas atitudes. O que elas fazem para terem bebês tão tranqüilos e felizes ? Por que em algumas línguas nem existe a palavra "cólica" ?

Saber o que esperar dos nossos bebês também alivia muita ansiedade. Como eu disse ontem para uma mãe que perguntava "só vejo dizerem que bebê dorme muito, meu filho de 1 mês e meio passa 5 horas acordado, isso é normal ?": "Bebê que dorme o dia inteiro e a noite inteira ou está hipoglicêmico ou está estrelando a novela das 8. Depois de 6 semanas de vida, muitos passam várias horas acordados porque não sabem pegar no sono sozinhos".

Os livros que li e recomendo estão à direita da página, sob o título "Educando Filhos Com Amor e Respeito". Acho que toda grávida deveria ganhar de presente O Bebê Mais Feliz do Pedaço (do Dr. Karp, que tem em português) e Bésame Mucho (do Dr.Carlos González, que é espanhol e não vende no Brasil, minha tradução em português veio de Portugal) e qualquer um sobre amamentação que tenha o selo de recomendação da La Leche League. Quem tem mais tempo, aqui vão alguns favoritos do Iglu:

- "Our Babies, Ourselves" (de Meredith Small): um clássico da antropologia pediátrica, meu favorito de TODOS os que já li;
- "Os Bebês e Suas Mães" e "Tudo Começa em Casa" (de Winnicott).
- "My Child Won't Eat"(do Dr. Carlos González, original em espanhol, com versões em inglês e alemão, deveria ser presente do dia das avós e das mães estressadas);
- Qualquer título do Dr. Sears (quem lê a explicação dele sobre a evolução do choro do bebê para a sobrevivência da espécie humana e os motivos pelos quais o bebê parece adormecido mas acorda se colocado no berço, é incapaz de deixar um bebê berrando sozinho).

Os livros dão informação, mas é preciso haver bom senso. Saber que o leite demora dias para descer e isso é normal pode salvar muitos bebezinhos da mamadeira ainda na maternidade. Por outro lado, se a mãe acredita que um bebê de 4 meses que chora na hora do sono mas não dorme sozinho está fazendo manha, fica difícil convencê-la do contrário. Se ela ouvisse menos palpites e escutasse mais o próprio instinto, pegaria o bebê no colo. Como diz o Dr. Sears, "o choro do bebê recém-nascido evoluiu por milhares de anos para tornar-se um sinal perfeito de comunicação. Desconcertante a ponto de ser difícil ignorá-lo sem sentir um certo mal estar físico, eficaz para levar o adulto a tomar uma atitude e tentar acalmar o choroso, mas não desesperador a ponto de o adulto matar a criança para parar de ouvir o choro."

Os livros da Tracy Hogg (Encantadora de Bebês) e do Dr. Içami Tiba, tão populares, têm umas dicas boas. Por outro lado, eles que me desculpem, mas em termos de amamentação, prestariam melhor serviço ficando calados.

Como diz uma amiga virtual, ela vai escrever um monte de bobagens e publicar sob o título de Se Vira Nenê. Vai virar "best-seller".

Fico tão feliz de ver futuras mamães interessadas em não criar filhos para o mundo, mas para fazer deste mundo um lugar melhor para todos !

30 janeiro, 2008

Olha o Jabá !



Quem mora longe da terra natal sabe o quanto um exilado fica feliz ao receber uma encomenda pelo correio. Pura alegria de ter nas mãos um pacote mandado por alguém que se lembra da gente, mesmo de longe. Uma simples visita do carteiro transforma um triste dia de inverno num dia memorável. Os amantes de Sonho de Valsa e goibada que me perdoem, mas a encomenda que eu considero mais gostosa de receber é um livro; "livromaníaca" que sou desde criacinha. E se livro com dedicatória, que torna o seu exemplar único no mundo é bom, com dedicatória do autor é melhor ainda.

Hoje, sob os vários centímetros de neve que caíram por aqui, um livro fez seu caminho lá de Brasília até Vancouver. E não falo dele somente por orgulho de ter feito parte da equipe de colaboradores que fez da idéia uma realidade (por um erro a ser corrigido na segunda edição, embora meu nome não esteja na lista de colaboradores, aparece com os sobrenomes invertidos - ou não, caetanizando - em alguns dos trechos que escrevi).

Falo do livro Pediatra Radical - pediatria para mães porque ele defende muito do que eu acredito sobre infância e criação de filhos. "Radicalmente A FAVOR do LEITE MATERNO, do colo, do embalo, do acalanto. Da permanência do bebê junto à mãe desde o momento do nascimento. Dos pés descalços, da água de coco, da banana e de todos os frutos da terra. Do respeito aos processos e cronogramas da natureza para o crescimento e desenvolvimento da criança. Da autonomia da mãe em relação ao seu filho. Da amizade e solidariedade entre as mães, em suas alegrias e perplexidades de tornar-se mãe. Radicalmente CONTRA a humilhação, o castigo corporal pela palmada, o cinto, a vara. O byllying. O abuso sexual da criança. A exploração do trabalho infantil. O abandono, o choro sem consolo, a internação solitária. O consumismo e a sedução do imaginário infantil pela mídia."

Ser a favor da criança, como bem sabem Dr. Winnicott, Dr. Karp, Dr. Carlos González, Dr. Sears, Meridith Small (recomendo todos, deveriam ser leitura obrigatória no segundo grau, antes ainda dos planos de gravidez) não é ser contra os pais. Os filhos por acaso nascem programados para serem inimigos ? A idéia de que os bebezinhos são manipuladores egoístas e de que precisam de limite desde o dia em que nascem, mamando somente em horários pré-determinados e chorando de sono sozinhos até vomitarem ou dormirem (se estão de barriga cheia e fralda limpa, para que chorar ?), senão dominarão os pais (e quiçá, o universo, com seu poder demoníaco de criança sem educação) é defendida em alguns livros infelizes, como as duas lamentáveis versões de Nana Nenê (Dr. Estivill e Gary Ezzo) ou os famosos best-sellers dos Dr. Spock e Dr. Ferber. Outros autores, como Tracy Hogg (de A Encantadora de Bebês, que escreve com a autoridade de quem largou as duas filhas no Reino Unido e foi morar nos USA) são mais contidos em sua ânsia de domesticar o recém-nascido e até dão umas dicas aproveitáveis, mas ainda assim pregam a doutrina de que quem deve regular as mamadas é o relógio e não o estômago do bebê (este precisa ser informado que deve seguir o "script" de bebê-robô o quanto antes). Isso para não falar nos programas da Super Nanny ou Nanny 911 (interessante notar que nenhuma delas têm filhos), com aquelas cenas deprimentes de crianças aos prantos no quarto e pais de braços cruzados na sala, esperando para ver se eles dormem. Eventualmente até dormem, mas como diz o Dr. González no imperdível Bésame Mucho, até prisioneiros condenados à morte injustamente param de chorar depois de um tempo, porque não faz parte da natureza humana chorar sem consolo para sempre. Seria Britney Spears o modelo maternal perfeito para a turma do deixa-chorar-para-não-estragar ?

Numa era em que há tantos manuais sobre como "adestrar" os filhos, recebi com muita alegria um livro feito por pediatras e pais que são a favor da criança. Radicalmente a favor da crianca, como eu (se não deu para perceber ainda).

29 janeiro, 2008

Home of The Lost Souls

Uma coisa que eu acho interessante por aqui é o jeito de as pessoas perguntarem onde fica guardada determinada coisa. No hospital, como precisamos pegar dezenas de coisas por dia antes e durante as cirurgias, nos mais diversos locais, é comum alguém estar com algum objeto e na mão, sem saber onde é guardado. E a pergunta é "where does it live ?" ou como se as coisas "morassem" em algum lugar. Eu já tinha ouvido "where does it go ?", mas "live" sempre me parece engraçado.

E, depois de 7 anos no hospital, achando que já estava acostumada com a expressão "this lives here", tive um acesso de riso quando me deparei com uma caixa, contendo um objeto pouquíssimo usado. Provavelmente quem o guardou nem sabia do que se tratava e colocou uma etiqueta impressa e plastificada do lado de fora:

"Home of the lost souls. Who am I ? Where do I live ?"

Vou adotar a idéia aqui no Iglu. Terei uma caixa chamada "home of the lost socks". Não ter empregada doméstica e ser desorganizada dá nisso: dezenas de meias solteiras, sem par, acumuladas pelas gavetas. Preciso abrir um "site" de relacionamentos para elas.

25 janeiro, 2008

Para a posteridade: 1 ano e 7 meses

Vi no blog da Ana e adorei a idéia de escrever cartas para os filhos (idéia boa a gente copia). Sempre escrevi no álbum, junto com as fotos do mês (ainda gosto mais de fotos impressas), mas aqui tem mais espaço para detalhes.

"Filhotinho,

Com um ano e sete meses, você é um menino muito ativo. Subir nas cadeiras, na rampa do escorregador ou na escada e descer delas sozinho é algo que você já faz há muitos meses. A diferença é que agora você sobe e desce umas dez vezes a cada dez minutos.

Passamos uma semana em Cancún neste mês de janeiro e você se comportou muito bem na viagem de avião. Deixou o Papai em pé em algumas ocasiões, porque queria uma poltrona só sua (até colocou o cinto sozinho). Ouviu falar que o serviço do "resort" era "all inclusive" e decidiu que ser carregado no colo para todo lado deveria fazer parte das mordomias incluídas. A exceção foi na hora das refeições. Você corria pelos diversos restaurantes do hotel (eram muitos) e fazia questão absoluta de não ficar no colo de ninguém nestas horas.

Os hóspedes do hotel adoraram você, as senhoras passavam a mão nos seus cachinhos. "He's gorgeous" ou "he's so cute" eram frases ouvidas diversas vezes por dia, assim como "és mui travesso". Os funcionários conheciam-no pelo nome, era sem dúvida a criança mais famosa de todas. Numa noite, houve uma festa mexicana, com apresentação de dança e você tentou subir no palco, para dançar também. Sorte que Mamãe foi rápida, porque havia muita gente na platéia torcendo por um show seu (como diz o Papai, o que não faz a tequila nas pessoas). Você adora música e dança bem bonitinho, não somente dobrando os joelhos como outras crianças da sua idade, mas mexendo a cabeça e os braços de um lado para o outro. Não herdou a falta de ritmo do Papai, que bom !

Você não gostou da praia. Mamãe ficou até preocupada com seus hábitos de gringuinho congelado. Só brincou na areia no último dia. Entrou no mar em Xcaret no penúltimo dia e na piscina, nem pensar. Por outro lado, adorou os chuveiros do lado de fora, acho que você nunca tinha visto isso antes.

Você não estranha as pessoas, não é nada tímido. Tem o hábito de puxar a mão de um adulto (estranhos, inclusive) e arrastá-lo até onde quer ir, para mostrar o que quer. Se existe criança independente na sua idade, você é a própria.

Você é muito carinhoso. Dá uns abraços apertados como Mamãe nunca viu alguém da sua idade fazer. Às vezes está brincando, pára e vem dar um abraço na gente. Também gosta de abraçar as outras crianças (abraçou um menino de 2 anos e meio lá no hotel e os dois capotaram palco abaixo, mas ninguém saiu ferido, apesar da choradeira geral). Tem mania de mexer no cabelo de quem estiver segurando-o no colo. De vez em quando, puxa os cabelos de alguém (com muita força por sinal).

Você adora livros, mas não cuida deles com muito carinho, vários estão em destroços. Tem curiosidade por saber os nomes das coisas, aponta e repete as palavras que já conhece. Fala dezenas de palavras em português (aprendeu esta semana calça, porta, lua, faca, chão, melão, avião), algumas em inglês ("apple", "water", "more", "up", "OK") e uma poucas em servo-croata ("baka", "deda", "bravo" e uma que Mamãe não sabe escrever, que significa "obrigado" ). A última que aprendeu foi "cracker" e Mamãe levou um tempão para descobrir se era "qua qua" de pato que você estava dizendo. Este mês você começou a dizer o nome de alguns amiguinhos, entre eles Ayan, Zoi e Tarik.

Você tem ótima memória. Mesmo ficando semanas sem ir à casa dos avós, lembra-se onde são guardadas as coisas de que gosta.

Você não gosta de que penteiem seu cabelo, mas deixa cortar as unhas. Tem dias que dá escândalo para sair do banho. Você até gosta de escovar os dentes, mas sozinho. Foi ao dentista este mês e foi um drama digno de novela mexicana, embora os dentes (16) estejam perfeitos.

Você anda numa fase super seletiva para comer. Mamãe não se estressa com isso. Com tanta energia, você certamente come o que acha suficiente. Macarrão, nem pensar, que você olha com cara de quem está sendo servido um prato de lesmas vivas. Você adora fruta e gosta de descascar as mexericas sozinho (e joga a casca no lixo, uma graça). Come as maçãs inteiras, com casca e tudo. A cada vez que passávamos pela recepção do hotel mexicano, você avistava a cesta de frutas e gritava "peia, peia" (pera, pera), só saía de lá com uma na boca. Aliás, só Mamãe mesmo para entender a diferença entre "leia" (baleia), "peia" (pera) e "meia" (a própria) ou "miína" (menina), "mameína" (vitamina) e "miuína" (me ilumina, que você repete no final da oração do anjo da guarda, toda noite).

Você começou a dar umas birras, mas esperto que é, não se atira no chão duro não. Sua birra é estrategicamente planejada. Você procura um lugar macio (tapete, de preferência) e caminha até lá, depois se deita lentamente, sem bater a cabeça e só aí começa a dar seu chilique. Geralmente passa em 1 minuto ou até menos, se você for distraído. A maior causa de birra é tomar de você aquilo que está segurando (o frasco de vitamina D é o culpado número 1, seguido do celular de algum adulto - o do Papai é liberado).

Você tem adoração pelo vovô. Não pode ouvir falar nele que grita "Deda, Deda". A Baka fica com ciúmes, mas você também a abraça apertado (depois que já abraçou o Deda bastante).

Você adora carros, trenzinhos e tratores. Fala "carrrrrro" (exagerando o "rr"), "tatô" para trator e canta "tutu", com o braço esticado, com se fosse o maquinista, quando vê um trem.

Você continua alucinado por cachorros e eles também gostam de você. Não tem medo de latidos e dá gritinhos de alegria quando é lambido.

Você já tem suas preferências por sapatos. Quando decide que vai calçar um determinado par, não tem quem o convença do contrário, porque você retira o sapato indesejado na hora e fica tentando calçar o escolhido. Com as roupas, você encrenca na hora de vestir praticamente todas, principalmente os casacos. Papai que o diga...

Você reconhece a letra A e, toda vez que a vê em algum lugar, aponta e diz "A". Também conhece o número 8 (que é a forma do seu mordedor). Quando Mamãe conta até 10 em voz alta, você acompanha falando junto até o 5.

Nossa, tanta coisa para escrever ! É um privilégio ter você por perto, vê-lo descobrir o mundo e tornar-se um garotinho tão simpático. Como Mamãe diz todo dia, "quietinho não é". Enquanto tantas mães dizem "ninguém me disse que ser mãe era tão difícil", a sua diz "por mais que eu imaginasse que era bom ter uma criancinha em casa, ser mãe é infinitamente melhor do que eu jamais imaginei".

Com o coração repleto do amor que só um filho (ou filha) podem inspirar,
Mamãe.

23 janeiro, 2008

Cor de pele é relativa ?

Ela suga todo o sol possível naqueles seis dias longe das terras congelantes, onde habita a maior parte do ano. Fica lá deitada na areia feito uma lagartixa, acumulando o máximo de vitamina D que uma mãe com filho pequeno (e meio branquelo, que não pára quieto na sombra) pode dar-se ao luxo de obter. Depois retorna para casa e para o frio, já sentindo dor nas pontas dos dedos das mãos e dos pés no caminho do trabalho, no primeiro dia de volta. Embrulhada literalmente da cabeça aos pés, só fica o rosto de fora. E aí passa uma colega de trabalho (canadense, claro):

- Você está tão bronzeada ! Estava esquiando na semana passada ?

PS para os tropicais: como a neve reflete o sol, é muito comum que os esquiadores que não usam protetor solar e esquiam em dias ensolarados queimem o rosto (o resto está coberto por diversas camadas de roupa, claro).

***

Por coincidência, a irmã dela, que está em pleno verão brasiliense, passou a mesma semana de férias num "resort" no Ceará (é mal de família, todos gostam de conforto e detestam casas de praia alugadas cheias de louça para lavar, chão para varrer e camas para arrumar. Já são contra fazer isso o ano todo, que dirá nas férias).

Ela manda um e-mail para a irmã, com meia dúzia de fotos das férias e recebe a seguinte resposta:

"Vi as fotos de vocês na praia. Se você vir as nossas, nem parece que somos da mesma família. O bebê está parecendo um bonequinho de cera... Você, então, parece aqueles mímicos de praça que se pintam de branco! Deu para pegarem alguma cor depois? Tinham que ter aproveitado no México, pois aí acho que a cor só tende a branquear mais."

Não contente, ao telefone, a autora do e-mail pergunta sobre a "michaeljacksonização", já que a ex-morena irmã ultimamente anda tão pálida, irreconhecível.

Seria exagero ou excesso de licença poética o outro mal da família ?

O Pacotinho de Férias no Paraíso - parte 2


Mamãe encontrou este dinossauro perto da piscina. Tirou a foto, depois deu um chilique. Com o escorpião e a cobra, foi só chilique.


De tarde, teve um casamento no gazebo que fica dentro da piscina. Eu adorei a música dos violinos. Aproveitei e fiz a coreografia de Twinkle Twinkle Little Star.


Eu não gostei da piscina, nem da água do mar, muito menos da banheira imensa que havia no quarto. Mas eu amei brincar com os chuveiros na beira da praia !


Que geladeira fantástica, bem do meu tamanho. Será que tem lugar pra mim lá dentro ? Por que a gente não pode ter uma dessas lá em casa ?


No último dia, decidi experimentar a tal "areia" e não é que gostei dela ?


Depois das férias, eu é que tenho que desarrumar as malas. Eita exploração da mão-de-obra infantil ! Mamãe diz que "serviço de criança é pouco, mas quem não aproveita é louco".

22 janeiro, 2008

O Pacotinho de Férias no Paraíso - parte 1


Vou mergulhar sozinho.



Vocês fiquem aí tentando almoçar que eu já estou me mandando.


Este já nasceu sabendo que soneca assim não tem preço. Sorte dele que a Mamãe não cabe no carrinho, senão iria dar briga.




Amigos, esperem aí ! Vou surfar também !



Já falei que não entro nesta piscina. Pode puxar, mas eu não vou !



Ninguém vai suspeitar que eu não sou mexicano...




Em pleno almoço, os músicos descobriram meu talento e cá estou eu tocando harpa !



O importante é não deixar a cabeça afundar.


Massagem na rede, na beira da praia. Posso levar para a Mamãe, junto com uma empregada mexicana ? Tem para vender no "duty free" do aeroporto, em embalagem de presente ?

20 janeiro, 2008

Crônicas do Paraíso - 2 (Os Habitantes)

Depois de oito anos morando no Canadá, a simpatia dos mexicanos tornou-se surpreendente para mim. Eu já tinha ido ao México antes, mas com criança junto é diferente. Canadense em geral é um povo muito educado, mas nada flexível e não muito caloroso. Raramente os canadenses fazem mais do que a sua obrigação e "it's not my job to do this" ou "I'm not allowed to do that" é algo que se escuta diariamente no trabalho, nos consultórios médicos ou no comércio, quando você quer comprar a blusa da vitrine e tanto o gerente quanto a vendedora recusam-se a vendê-la, porque "we're not allowed to change the display". Inútil argumentar que é incoerente ter na vitrine algo que não se vende na loja. Já com os mexicanos...

Mamãe contou vinte e uma refeições (ou tentativas de) durante a semana de férias (aliás, uma semana é muito pouco. Com vôo direto Vancouver-Cancún, recomendo no mínimo duas, de preferência no auge do inverno). Em absolutamente TODOS os cafés, almoços e jantares, o Pacotinho de Travessuras ficou correndo, pulando e tentando comer as uvas de plástico da decoração. Mesmo num salão com centenas de cadeiras, era fácil saber onde ele havia se sentado: naquela mais suja que a gaiola das araras. Já conhecido de todos os garçons, que o cumprimentavam pelo nome e consolavam a Mamãe "todos los niños son travessos", ainda que "todos los ninõs", exceto ele, permanecessem sentados o jantar inteiro. No último jantar, o garçom e a moça da entrada ofereceram-se para ficar seguindo o Pacotinho de Peraltices pelo restaurante, a fim de que Mamãe e Papai pudessem comer sossegados e juntos. E lá foi ele, dando "high five" a todos os gringos e segurando a mão de quem se oferecesse para levá-lo (mesmo anunciando 90% de desconto e com várias gringas dizendo que o comprariam, o menino não foi vendido).

Deixando uma boa gorjeta ("propina" para os mexicanos) após cada encontro com os garçons, Papai acha que foi pouco. "Deveríamos ter comprado uma casa para cada funcionário", disse ele. Só assim para pagar a boa vontade e o genuíno carinho do pessoal do hotel com o Pacotinho de Traquinagens. Os carrinhos abertos para o transporte de malas e de passageiros entre as várias dependências do imenso "resort" foram uma diversão à parte: o Pacotinho de Macaquices subiu em todos. Os motoristas levaram-no para dar incontáveis voltinhas, com toda a paciência do mundo.

Mas, como em todo paraíso tropical, há habitantes indesejáveis. Nenhum gringo viu, mas claro que tinha que aparecer uma lagartixa no meu quarto. E, no que o Marido Gringo procura a xexelenta criatura nas cortinas, quem eu vejo ? Um escorpião preto imenso, que parecia efeito especial de filme do Indiana Jones. Fica lá o Marido segurando a cortina (e gringo sabe matar qualquer coisa que seja ?), enquanto eu ligo para a recepção (e eu mato qualquer coisa que seja se tem alguém para matar por mim ?) e o Pacotinho de Farra tenta descer da cama, para brincar de sacudir as cortinas também. Em cinco minutos, com o monstro ainda preso na beirada da cortina, bate na porta o herói que veio nos socorrer. Baixinho, magrinho, 18 anos (se muito), com um vidro de Baygon verde, para matar um bicho que o Marido Gringo de 1,85 m e mais de 100 kg segurava na ponta da cortina. Eu em cima da cama dando ordens em portuñol, enquanto o Marido falava em inglês, o Pacotinho de Opinião gritava em Pacotês e o Herói nada de matar o troço. Depois de um jatinho de um segundo de Baygon, escuto "estás muerto" e tento dizer que "muerta" ali só tem eu, de medo. E enquanto tento explicar que escorpiões e baratas sobreviveriam até a uma bomba atômica, o bicho desenrola-se e sai correndo. Arrasta sofá, o Pacotinho de Excitação decide que se já perdeu a brincadeira das cortinas, a do sofá ninguém lhe tira e eu grito "tem que pisar com muita força, xingar a mãe dele, senão não morre" (o escorpião, claro, não o Pacotinho de Folia). O rapaz dá uma pisadinha de leve com a ponta do sapato, eu peço para ele dar mais outras trezentas e ele decreta "non és peligroso". Não ? Então por que não deu logo uma sapatada com vontade de matar ? Ainda bem que ele mesmo providenciou o funeral, porque eu não só não mato, como não arrumo enterro de bicho nenhum.

No último dia, em pleno sol de duas da tarde, saio sozinha do quarto, vejo um marimbondo pintadinho no chão e imagino se há alguma chance de aquilo ser uma borboleta, como pensa o Marido Gringo. Enquanto minha mente ocupa-se de filosofias marimbondo-borboleteanas (ou borboleto-marimbondeanas), atravessa a uns dez passos na minha frente uma magricela cobra meio cinza do tamanho do meu braço. Volto correndo para o quarto e nem posso dar o chilique que tal situação merece, já que o Pacotinho de Sonhos está finalmente nos braços de Morfeu. E, claro, os gringos dos quartos próximos não viram nem pernilongo !

Existem muito poucas coisas boas de estar de volta a Vancouver em pleno inverno, mas há 100% de garantia de não haver cobras, escorpiões e lagartixas pelo Iglu.

Aguarde: fotos no próximo capítulo.

15 janeiro, 2008

Cronicas do Paraiso

Ateh tem acentos neste computador mexicano aqui, mas como estao nos lugares mais absurdos, vamos no estilo gringo de escrever.

Sabe aquela fracao de segundo que transmite felicidade absoluta ? Acontece na saida do aviao em terras quentes, quando aquele bafo morno entra pelas frestas do corredor por onde passam as pessoas ateh chegar no aeroporto. E nem eh alivio porque o voo foi tranquilo, o Marido Com Fobia de Aviao nao vomitou, o Pacotinho de Peraltices comportou-se como um lorde ingles ! Eh o prenuncio das horas quentes que estao por vir. Quando o piloto avisa "horario local: 19:00; temperatura local: 26 graus", eh inevitavel conter o sorriso, mesmo ciente de que o Marido Inexperiente em Voos com Pimpolhos perdeu o carrinho na saida do aviao.

O mar eh muito mais turquesa ao vivo do que nas fotos. O resort que o Marido Gringo escolheu eh fantastico, 5 estrelas e tem ateh creche (somente das 09:00 as 17:00, porque na hora do jantar eles tem a cara-de-pau de exigir que os hospedes cuidem dos proprios filhos).

O Pacotinho de Gringuice deve ter sido trocado na maternidade, nao eh possivel. Um menino que tem nojo de pisar na areia branquinha que parece talco (acostumado com aquela areia "cascalhenta" e escura de Vancouver) e dah chilique para entrar na agua do mar nao pode ser filho da Flavia. A gente cria um bebe com tanto amor e ele cresce e transforma-se num gringo que nao gosta de praia. Quanto desgosto ! Para nao dizer que ele odiou o hotel, vibra de felicidade quando chega na creche e ve aquele monte de brinquedos numa area cercada, com duas tias uniformizadas prontas para brincar e meia duzia de loirinhos catarrentos de 1 metro de altura (com isso ele estah acostumado, nem precisava ter enfrentado 5 horas e meia de voo com um pai aflito). De novidades, o que ele gostou mesmo foi do cortador de grama e das seiscentas fontes luminosas espalhadas a cada 3 metros.

Como o resort eh "all inclusive", com praia privativa, nem dah vontade de sair do hotel. O unico inconveniente ocorre na hora das refeicoes. Tem sempre um menino impossivel, que tira as sandalias e coloca-as em cima da mesa, ameaca pular da cadeirinha ateh que alguem o poe no chao e passa a proxima hora correndo descalco entre as pernas das pessoas que estao servindo-se do jantar. Quem consegue apreciar um bom prato assim ? Algumas criancas choram a refeicao inteira, mas permanecem sentadas. Ele nao. Corre o tempo todo, deve tomar mamadeira de gasolina aditivada. Os garcons jah o conhecem. "Mui travesso", eles dizem. Eh filho do Marido Gringo Que Nao Dah Educacao. Se fosse meu filho, seria comportado, mas fazer o que ?

11 janeiro, 2008

Fugindo do Frio

Como se não bastasse ser o bode do zodíaco, ter reputação (alguns dizem que merecida) de signo mais teimoso e mais irônico, o típico capricorniano costuma carregar desde pequeno o trauma de fazer aniversário perto das grandes festas de fim de ano. Achando que são poucos os motivos para reclamar, ainda tem capricorniano que se muda para muito acima do Trópico de Câncer e aí passa a lembrar-se com ternura dos muitos aniversários passados no Brasil. Não que na infância tivesse havido qualquer festinha na escola ou que na vida adulta algum amigo tivesse tempo de ligar em plenas férias para dar os parabéns, mas pelo menos a data acontecia no verão, ao contrário do que ocorre em terras quase árticas. Antes esquecido e suado que esquecido e congelado.

Há gosto para tudo. Tem gente que diz adorar o inverno e a neve (nem com muito Prozac nas idéias eu seria capaz de fazer tal afirmação, porque não há fluoxetina no mundo que me convença de que temperaturas congelantes são compatíveis com a vida humana em plenitude), outros dizem gostar de sombra e água fresca. Eu gosto mesmo é de sol e água de coco. Sombra ? Tô fora ! Sabe aquele tipo de pessoa que diz que 20 graus é a temperatura ideal ? Adiciona mais 10 graus que a conta dá no meu tipinho aqui.

É preciso conhecer as próprias limitações. Eu tenho várias e uma delas é o inverno. Limitada que sou, fujo dele sempre que posso, o que farei amanhã. Infelizmente não será como nos versos do meu amado e idolatrado Chico, que dizia "você tem razão de fugir assim desse frio, mas beija o meu Rio de Janeiro, antes que um aventureiro lance mão", porque não vou à terrinha desta vez. Vou beijar Cancún e, dado o atual estado de desespero por um resquício de verão que seja, sou capaz de dar uma bitoca no asfalto quente do lado de fora do aeroporto mexicano.

E, neste dia em que completo 27 primaveras (recuso-me a contar os invernos passados aqui e, já que estou mentindo na conta mesmo, achei por bem retirar mais algumas primaveras passadas no Brasil), não vejo a hora de ver os meus próprios pés descalços fora do chuveiro, coisa que já não faço desde outubro (durmo de meias até a chegada do verão, como faz qualquer brasileira friorenta com péssima circulação nas extremidades).

Amanhã cedo estarei sendo arrastada por um Pacotinho de Estripulias no aeroporto e arrastando atrás de mim um Marido Que Tem Fobia de Avião. Precisa dizer que a manchete dos jornais locais de hoje "15 segundos de terror", sobre um avião que despencou de sei-lá-que-altura e fez um pouso forçado ontem em Calgary, só aumentou a alegria do Marido Apavorado ? Para sair daqui e desfrutar uns dias de sol e calor na praia, sem afazeres domésticos, eu iria nem que fosse a pé. Como dizem, há gosto para tudo...

08 janeiro, 2008

O Pacotinho de Linguagem

Muitos pais imigrantes no Canadá vivem o dilema de decidirem que língua utilizarem para a comunicação com os filhos pequenos. Alguns passam a falar somente em inglês com os pimpolhos, para evitar que eles se sintam diferentes dos amigos nativos (o que a meu ver, além de lamentável, chega a ser patético). Sem exceção, todos os adultos que conheço, filhos de imigrantes e que não falam a língua dos pais, lamentam-se disso. No outro extremo, uma amiga sérvia impediu que qualquer pessoa falasse em inglês com a filha até os 3 anos, para que a menina não aprendesse "duas línguas misturadas" (como se aos 3 anos de idade, todo o vocabulário que alguém pudesse adquirir num idioma já tivesse atingido seu limite máximo). E há aqueles que se recusam a atender a um pedido da criança, se não for feito na língua nativa dos pais. Para a sorte do Pacotinho de Surpresas, Mamãe nunca viveu tal conflito.

Há vários meses, o Pacotinho de Brasilidade diz "água" quando aponta para um copo, uma poça ou uma torneira. Desde semana passada, no entanto, aparece em casa dizendo "uóta" ("water", num misto de sotaque texano com sul-africano e escocês). Alguém deve tê-lo corrigido na creche, onde já se viu chamar "water" de "água" ? Que menino sem noção ! Mamãe concorda com a cabeça e repete "água". Ele vira-se para o Papai Gringo e diz "uóta" e este, por sua vez, responde "voda" ("água", em servo-croata). Só que Papai Gringo cai no conto das pessoas que subestimam a capacidade e a inteligência infantis e comenta "coitadinho, fica todo confuso".

No final do dia, o Pacotinho de Expressão desfaz o mito. Pega um carrinho de brinquedo com cada uma das mãos. Estica a mão esquerda na direção da Mamãe e diz "carro". Depois estica o braço direito para o lado do Papai e fala "auto" ("carro", em servo-croata). Onde está a confusão ?

Nesta fase tão deliciosa, o idioma mais sonoro aos ouvidos é a língua do "T". Quem pode resistir a ter a cabeça coberta com um edredom por mãozinhas minúsculas e depois sentir a coberta sendo puxada para ouvir: "Tadê a Mamãe ?" "Atô" (achou).

05 janeiro, 2008

O Sobe e Desce da Comissão de Frente

"A televisão me deixou burro
muito burro demais
agora todas as coisas que eu penso
me parecem iguais"
(Arnaldo Antunes, Tony Belotto)

Você assiste ao instrutivo
What Not To Wear quase toda sexta-feira e está cansada de ver as participantes do programa sendo medidas por uma vendedora para saberem que número de sutiã cabe perfeitamente. Esquecendo-se de que o programa é feito nos States e que lá as vendedoras trabalham por comissão e não somente por salário, como em terras canadenses, decide aventurar-se por uma loja de lingerie.

Após dois anos com a própria comissão de frente sendo elevada do segundo para o primeiro grupo, depois estourando no grupo especial, sendo rebaixada (nunca uma metáfora foi tão apropriada) para os grupos inferiores novamente, é impossível saber que número de fantasia vestir nela. Se você nunca fez plástica nos seios, provavelmente jamais experimentará tantas mudanças neles como durante e após a gravidez e a amamentação (e se você é daquelas que ainda amamenta crianças "grandes", de 1 ano e meio, que já poderiam criar suas próprias vaquinhas, extrair delas o leitinho de cada dia e contribuir com a renda familiar, a coisa fica ainda mais complexa).

Mesmo após anos e anos irritando-se com os vendedores de loja canadenses (os casos dariam um compêndio), que não têm má-vontade, simplesmente porque não têm vontade alguma de vender nada, você ainda arrisca. Ousa pedir para ser medida e descobrir seu tamanho numa loja especializada em sutiãs. E começa sua saga conversando com a única vendedora visível, que está no alto de uma escada, pendurando calcinhas numa parede.

- Oi. Você é a única vendedora aqui ?
- Por que ? Precisa de alguma coisa ?
- Preciso de ajuda.
(Sem descer da escada)
- Ajuda ?
- É, preciso de um sutiã, mas não sei meu número.
(Desce da escada)
- Fulana ! Tem uma moça aqui que não sabe o número do sutiã dela !
(Teve gente que estava esquiando na montanha e ouviu, mas não veio ajudar).

- Que número de sutiã é o seu ?
- Eu não sei. Eu tive um bebê, meu número triplicou, diminuiu e agora não sei mais.
- Você precisa pegar vários sutiãs e experimentar.
- Você pode me medir ?
- Não. Para isso, só a gerente.
- Cadê a gerente ?
- Vou chamar. Por que você não pega uns e vai experimentando ?
- Olha, se eu tiver que experimentar 15, não preciso da ajuda de vocês.
- Seu peito nem é grande, vai ser fácil. Só porque você teve filho, o peito não aumenta.
(Claro que ela sabe TUDO de gravidez e amamentação)
- Não tem ninguém aqui que saiba medir ?
(Olha para você com cara de quem está ouvindo um pedido de um terrorista para carregar um explosivo dentro da calcinha)

(Aparece uma outra vendedora)
- Posso ajudar ? A gerente está ocupada.
- Eu queria ser medida para saber meu número.
(Ela está com a fita métrica na mão)
- Olha, medida não diz nada. O que adianta é experimentar um monte de sutiãs.
- Mas se eu tiver que experimentar um monte, deixa que eu mesma pego.
(O que você começa a fazer, com fumaça saindo pelas orelhas, sem saber por onde começar)
- Que tamanho é o seu ? "B", "C"...
- Eu era "B", passei para "E" e agora não sei mais.
- "E" ? A gente não vende tamanho "E" no Canadá.
- Eu sei ! Veio de outro lugar, não encontrei aqui.
- Se você me disser seu tamanho, eu trago vários para você experimentar.
(Aaaaargh !)

- Você é brasileira ?
- Sou.
(Não sei se foi a falta de paciência com a incompetência ou o fato de já ter ouvido falar na fita métrica que entregou)
- Temos uma vendedora brasileira que trabalha aqui há 15 anos e ela não mede ninguém.
(E ainda tem que ouvir sobre uma conterrânea que emburreceu com a convivência local)

E, depois de experimentar vários e ouvir da moça (você disse que não precisava de "ajuda", mas ela ficou abrindo a cortina enquanto você experimentava os 357 sutiãs) o que sempre soube "Você não tem costas, mas até que tem muito peito", sai da loja com um tamanho que lhe cabe. 34-C.

E na hora de pagar, a caixa faz a pergunta inútil, já que não ganham comissão:
- Alguém ajudou você hoje ?
- NÃO !

Já que não dá para evitar completamente de fazer compras de roupas por aqui, você decide que ao menos evitará o período de TPM para passear pelas lojas. E que na próxima viagem ao Brasil trará todos os números de sutiãs disponíveis.

02 janeiro, 2008

Que nome mesmo ?

Nada como passar uns anos convivendo com pessoas de diversas nacionalidades para destruir as barreiras rigidamente estabelecidas do que pode ser rotulado de comum, esquisito ou exótico.

Ontem, assistindo ao delicioso filme Juno (5 estrelinhas da crítica aqui), comentei com o Marido Gringo que nunca havia conhecido uma Juno. E olha que brasileiro é eclético na hora de escolher nomes pros filhos ! Só Krishnamuti, em Brasília, conheci três (um era Júnior) ! O Marido Gringo sempre fica impressionado quando descobre que no Brasil há gente de nome russo, grego, romano, francês, isso para ficar somente nas nacionalidades e não nos nomes retirados de bula de medicação ou rótulo de embalagem de adubo (quando trabalhei em São Luís, havia um paciente chamado Amônio, inspirado nos ingredientes descritos num saco de fertilizante).

Hoje tive uma paciente de nome Feyona. Coitada, era a própria. Com um buraco onde deveria existir um dos incisivos superiores, como se não bastasse o nome tão óbvio. E o Mr. Achtim, paciente da semana passada ? Imagina quanta gozação levaria numa escola brazuca !

No Brasil geralmente há uma nítida separação entre nomes masculinos e femininos (tinha aquele governador chamado Iris e já conheci uma moça de nome Waldir, que são exceções), mas morando aqui descobri uma série de nomes "unissex". Kelly, Sydney, Morgan, Mackenzie, Leslie, Dana, tudo nome de homem ou de mulher. E Allyson (com suas diversas versões ortográficas) que é exclusivamente feminino ? Uma amiga recentemente escolheu Emerson para a filha e nada mais me surpreende.

Bem fazem os indianos, que batizam grande parte da população com nomes terminados em "inder" ou "deep", meninos ou meninas. Já conheci várias Parminder, que por sinal é também o nome do "chiropractor" que endireitou meu ombro. E tem Rupinder, Dhalvinder, Jazminder, Navdeep, Parmandeep...

Alguns imigrantes arrumam uma versão "canadense" do próprio nome, para facilitar a vida. Uma colega coreana mudou de Na-Ji para Natalie. E duas chinesas, que mudaram de Soo-Go para Sue e de Yipeng para Ellen. Compreensível. E quem não conhece um Yun-Hee que atende por Michael ?

Quem sabe alguns dos meus colegas ou pacientes também têm um blog na sua língua nativa, onde descrevem uma enfermeira brasileira com jeito de quem está sempre com pressa e um nome esquisitíssimo no crachá: Flávia.

01 janeiro, 2008

Feliz 2008

Sobrevivi a mais uma virada de ano em Raincouver. Incrivelmente, não choveu. Justiça seja feita, mês passado foi o dezembro menos chuvoso dos 8 que já passei por aqui.

Como foi a festa de Reveillon ? Pagando 95 dólares, deduzi que a turma iria vestir-se melhor que no resto do ano. Fui de longo, cabelos presos, gargantilha de pérolas e, claro, virei ponto de referência. "Onde fica o banheiro ?" "Quando chegar na moça arrumada, vire à esquerda" ou "Onde você está sentada ?" "Atrás daquela moça bem vestida".

O restaurante estava com um problema nas janelas, que deixavam entrar um frio lascado, então passei o jantar inteiro embrulhada no cobertor fornecido pela garçonete, chamado aqui de "patio blanket", porque a intenção é usá-lo no pátio, do lado de fora. Por sinal, levei-o para a pista de dança, onde provavelmente o povo perguntava-se quem seria aquela velhinha de coque embrulhada no cobertor.

O jantar não estava ruim, mas não valia o preço. O "amuse bouche" era literalmente meio camarão por pessoa. Havia várias opções de prato principal e, obviamente, pedi lagosta. Estava gostosa, acompanhada por batatinhas deliciosas cortadas do tamanho do pé de um Playmobil, servidas em 10-12 unidades. Segundo meu pai, é sempre assim: se é gostoso, vem pouco. Se é uma porção de batatas fritas gordurosas, vem uma montanha quase "everestiana". E o fondue de chocolate nem era quente ! Num frio daqueles, o mínimo que poderiam fazer era esquentar o chocolate.

À meia-noite, sem fogos ou demonstrações esfuziantes de entusiasmo, as pessoas não se abraçam como no Brasil ! Tudo bem que você ficou conversando com o Fulano o jantar inteiro, mas não rola nenhum cumprimento na virada do ano ?

Como insistiam em deixar a porta aberta na pista de dança (que na verdade não eram 3, mas somente uma, porque as 3 pistas estavam no hotel Hilton, a segunda opção, onde o ingresso era 120 dólares por cabeça e fica a meia de viagem de carro do Iglu), decidimos vir embora a uma da manhã. Vovó e Vovô Gringos estavam dormindo no sofá da sala.

Realmente não entendo o Reveillon dos canadenses. Que eles não comemorem, eu compreendo. Tanto frio não os deixa raciocinar com clareza e talvez eles pensem que não há motivo para comemorar, já que tudo leva a crer que janeiro será tão frio quanto dezembro. Mas custa mostrar na TV as comemorações no resto do mundo ?

Chegando em casa, ligo a TV à procura de imagens da festa no Brasil. Marido Gringo indignado:
- Para que procurar ? Para ficar deprimida ?
- Não, agora que já passou, não me deprimo mais.
- Quer saber ? Você tem razão. O Ano Novo no Canadá é o pior do mundo.
- Eu não falei isso. Só acho que é o pior que eu já vi.

A procura foi inútil. Não mostraram nada às 20:00, nem às 21:00, muito menos 01:30. Hoje li no jornal que teve gente atingida por bala perdida na festa em Copacabana. Uma pena, ou se tem festa e confusão ou não se tem nada.