Adoro Reveillon ! Calcinha nova para dar sorte, todo o mundo vestido de branco, sandália dourada ou prateada, fogos de artifício na praia, festa em ritmo de Carnaval até o raiar do dia... Opa ! Estou falando de quê ? Uma sacudida de realidade seria conveniente, já que:
- branco aqui, na virada do ano, só ser for de neve (graças a Deus onde eu moro a neve nunca dura mais que 2 dias, então nem isso);
- sandália com dedos de fora é ótima para arrumar uma "frostbite" e acabar perdendo a ponta de um dos dedos (aliás, só tenho visto meus dedos do pé no chuveiro, já que no inverno não tiro as meias nem para dormir);
- fogos de artifício somente no verão por estas bandas geladas. Se alguém no universo solta fogos no final do ano, os vancouverites nunca ouviram falar. Francamente, quem é que vai querer passar meia-noite na chuva, congelando os miolos, para ver o que quer que seja ?
- festa em ritmo de Carnaval ? Ha ha ha...
Não sei se o certo é dizer que não há nada mais deprimente que a virada do ano em Vancouver ou que não há nada mais divertido que o Reveillon numa praia brasileira.
Como o Marido Gringo é gringo, assim como seus amigos, arrumou uma festa de Reveillon para ir. 95 dólares por cabeça e eles ainda dizem que "tem 3 DJ's, jantar e champagne". A melhor resposta seria "perdoa estes coitados, porque eles não sabem o que fazem" (nem como gastam o dinheiro). Outra amiga gringa convidou para passar num barco, a 70 dólares por pessoa, mas como bem lembrou o Marido Gringo "se a gente não gostar, tem que esperar até o barco voltar para ir embora".
As melhores viradas de ano da minha vida foram passadas na praia de Copacabana, sem gastar um tostão, com explosão de fogos que dá de mil no fraquinho campeonato que rola no verão por aqui, sem mencionar o show de música gratuito depois. Não passei muitos 31 de dezembro em lugares diferentes, mas nem em NY nem no México foi tão triste como é em Raincouver. E, claro, em nenhum dos três lugares foi tão animado quanto no Brasil.
Ano que vem, se Deus quiser (e Ele há de querer, porque sendo brasileiro, nunca planejou que a virada do ano acontecesse em pleno inverno congelante), estarei com os pés em alguma areia tropical, no meio de uma multidão de pessoas de branco. Acho que até os mais deslumbrados com o Primeiro Mundo hão de concordar que, em termos de celebrações de Reveillon, Carnaval, futebol e Páscoa, não dá para competir com o Brasil. Pensando bem, há gosto para tudo e deve ter algum brasileiro por aqui feliz da vida por não ver nem ouvir nada nas ruas na virada do ano...
Feliz 2008 para os sortudos na terrinha e para os empacotados no Canadá.
31 dezembro, 2007
26 dezembro, 2007
Papo de Enfermeira
Na hora do intervalo, converso com a minha colega de trabalho favorita, companheira ainda dos tempos de curso. Ela começa:
- Hoje tive um paciente imenso, quase 2 metros de altura, mais de 200 libras, chorando e segurando a mão da gente antes da cirurgia.
- Coitado, deveria estar com medo.
- Não, estava agradecido. Dizia que finalmente teria a sua vida normal de volta, que aquilo significava muito pra ele, que a gente estava dando a ele a chance de recuperar a própria vida.
- Foi o transplante de coração ?
- Não, foi uma cirurgia de hérnia umbilical !
***
- No meu último plantão noturno tive minha primeira cesárea de emergência numa paciente completamente maluca.
- Maluca como ? Paciente psiquiátrica ?
- Não, maluca assim meio alternativa. Gritava que queria tudo natural, mas pediu uma anestesia para não sentir absolutamente nada. Esperou até 42 semanas e 3 dias para concordar com a parteira em vir pro hospital.
- Nossa !
- O melhor você não sabe. Só descobri hoje, falando com o anestesista. Ela tinha 39 anos, mas pediu para ninguém falar a data de nascimento dela em voz alta, porque o marido pensa que ela tem 30 !
- Hoje tive um paciente imenso, quase 2 metros de altura, mais de 200 libras, chorando e segurando a mão da gente antes da cirurgia.
- Coitado, deveria estar com medo.
- Não, estava agradecido. Dizia que finalmente teria a sua vida normal de volta, que aquilo significava muito pra ele, que a gente estava dando a ele a chance de recuperar a própria vida.
- Foi o transplante de coração ?
- Não, foi uma cirurgia de hérnia umbilical !
***
- No meu último plantão noturno tive minha primeira cesárea de emergência numa paciente completamente maluca.
- Maluca como ? Paciente psiquiátrica ?
- Não, maluca assim meio alternativa. Gritava que queria tudo natural, mas pediu uma anestesia para não sentir absolutamente nada. Esperou até 42 semanas e 3 dias para concordar com a parteira em vir pro hospital.
- Nossa !
- O melhor você não sabe. Só descobri hoje, falando com o anestesista. Ela tinha 39 anos, mas pediu para ninguém falar a data de nascimento dela em voz alta, porque o marido pensa que ela tem 30 !
24 dezembro, 2007
Feliz Natal

Eu sei, deveria fazer um post contra o consumismo e a comelança no Natal (mas depois de passar dois dias enfiada em shoppings centers e preparando sobremesas, lombo e salpicão, com que moral ?). Poderia falar mal do culto excessivo ao Papai Noel e suas renas (por sinal, depois de 8 anos aqui, aprendi que são Dasher, Dancer, Blitzen, Prancer, Cupid, Comet e Rudolph - esqueci alguém ?), do desperdício de energia com as decorações das casas enfeitadas, bla bla bla. Mas eu não sou o Grinch ! Por sinal, ele não é popular no Brasil, mas o livro do Dr. Seuss e o filme são clássicos por aqui e já aprendi a gostar dele.
Confesso que por muitos anos eu abominei dezembro e suas festas. Gostava de cantar no coral da missa e só. Capricorniano tem o inferno astral exatamente nesta época do ano e o fato de ter o aniversário esquecido por ser próximo ao Natal não ajuda muito. Filhos de pais separados e mal resolvidos ainda têm que lidar com as brigas de quem fica com quem para as "comemorações" (nada menos festivo que conflitos familiares natalinos). Desde criança eu sabia que seria diferente com meus filhos.
Ter um Pacotinho de Alegria em casa faz muita diferença. Ver aquela pessoinha feliz dizendo "Pompas" e segurando um trenzinho de brinquedo até na hora de dormir faz valer a pena a fila imensa no caixa da Toys R Us e até a pateta da vendedora que manda a gente desistir dos brinquedos sem código de barras.
O cara que disse "deixai virem a Mim as criancinhas" realmente sabia das coisas. Eu sempre fui fã dEle, mas não curtia seu aniversário. Só que depois que as criancinhas vêm a nós, a data passa a ter muito mais sentido. De paz, de harmonia, de esperança, de fantasia, de confraternização. Atualmente adoro o aniversário deste também capricorniano que dividiu os tempos em antes e depois dEle.
Feliz Natal !
PS: Antes que perguntem o que é "Pompas", a tecla SAP avisa o óbvio. "Pompas" é "Thomas, the tank engine", claro ! Depois de Bó (Bob, the builder), é o personagem favorito do Pacotinho da Programação Infantil na TV.
PS-2: Uma consulta ao Dr. Google, PhD, mostrou que esqueci das renas Vixen e Donner. Ops ! Espero que meu presente não se atrase por conta de 2 renas emburradas.
22 dezembro, 2007
O Pacotinho de Vingança
Sábado de manhã. O Pacotinho da Madrugada acorda às 06:00. Mamãe pega-o no quarto dele e desova-o na cama dela, onde Papai dorme profundamente. Só assim continuam a dormir até um horário mais compatível com a vida produtiva, digamos, 07:00. Pontualmente às 07:05, o Pacotinho de Acrobacias começa a pular nos corpos praticamente inertes ao seu lado. Até 07:30, ainda se finge de morto, mas depois disso, Papai sai do quarto arrastado pelo seu "despertador matinal".
O telefone celular toca. Papai atende, é do trabalho. Lá do quarto, Mamãe escuta o Pacotinho de Protestos reclamando, porque ele acha que o celular é só dele, ninguém tasca. A conversa é longa, as reclamações acompanham. Quando finalmente acaba a ligação, Papai entrega seu celular ao Pacotinho de Comunicação. Afinal de contas, pode ser que o trabalho dele também esteja tentando entrar em contato. E nisso toca o telefone da casa. Papai corre, procura algum telefone para atender. Difícil correr pela casa quando há uma pessoa de menos de um metro de altura caminhando na sua frente, fazendo suas ligações no celular.
Papai pega um telefone, que está sem bateria. Tenta correr pro outro canto da sala, mas tem um menininho (não falo quem) deliberadamente caminhando devagar no meio do caminho. Acha outro telefone, mas está preso à base (quem será que trancou ?). Por fim, encontra o último aparelho, quando a secretária eletrônica já começava a atender:
- Hello.
- Aô.
Era o Pacotinho de Vingança ligando do celular para casa ! Para bom entendedor, um "aô" basta para dar o recado: se tem algum bobo por aqui, certamente não é ele.
O telefone celular toca. Papai atende, é do trabalho. Lá do quarto, Mamãe escuta o Pacotinho de Protestos reclamando, porque ele acha que o celular é só dele, ninguém tasca. A conversa é longa, as reclamações acompanham. Quando finalmente acaba a ligação, Papai entrega seu celular ao Pacotinho de Comunicação. Afinal de contas, pode ser que o trabalho dele também esteja tentando entrar em contato. E nisso toca o telefone da casa. Papai corre, procura algum telefone para atender. Difícil correr pela casa quando há uma pessoa de menos de um metro de altura caminhando na sua frente, fazendo suas ligações no celular.
Papai pega um telefone, que está sem bateria. Tenta correr pro outro canto da sala, mas tem um menininho (não falo quem) deliberadamente caminhando devagar no meio do caminho. Acha outro telefone, mas está preso à base (quem será que trancou ?). Por fim, encontra o último aparelho, quando a secretária eletrônica já começava a atender:
- Hello.
- Aô.
Era o Pacotinho de Vingança ligando do celular para casa ! Para bom entendedor, um "aô" basta para dar o recado: se tem algum bobo por aqui, certamente não é ele.
20 dezembro, 2007
A Encaroçada
Menininhas de quatro anos não andam nem correm pela casa, sempre dão saltinhos com os pés alternados. Meninas de treze anos não conversam ao celular, costumam dar gritinhos pelo menos dois tons mais alto que o resto das pessoas. Em meninas de mais de trinta, já passando da garantia, começam a pipocar probleminhas aqui e ali. Umas aparecem com cistos no ovário, outras com pipoquinhas no rosto (já repararam como tem mulher adulta com acne ?) e eu com o meu caroço no pescoço. Como diria o poeta "no meio do pescoço tinha um caroço".
Se estivesse de viagem marcada para o Brasil, nem ligaria. Até hoje pago meu plano de saúde por lá (só moro aqui há quase 8 anos, ainda não tive tempo de me acostumar). Quando estou na terrinha, consulto os especialistas de que preciso e faço todos os exames, cujos resultados trago para casa se não imediatamente, 2-3 dias depois (se forem de laboratório, pego pela internet e até imprimo em casa mesmo), essas coisas de Terceiro Mundo.
No Primeiro Mundo, fiz um exame de sangue em novembro. O resultado, como sempre, a gente não pode ver e vai "direto" para o médico. Duas semanas depois, vou à consulta e cadê o resultado do exame ? Você viu ? Nem o médico. O laudo do ultrassom não está pronto (também pudera, uma semana depois, o que eu queria ?), mas ele consegue ver as imagens no computador do hospital (dica: faça sempre o ultrassom no mesmo hospital onde o especialista trabalha. Se ele só atende em consultório, azar o seu). Na consulta ele diz que quer fazer uma biópsia:
- Quando ?
- Depende de você. Se tiver medo de agulha, a gente marca uma hora.
- E se não tiver ?
- A gente faz agora.
- Mete a agulha aí ! (Que me desculpem os frescos, mas de hora marcada dói menos a agulhada ?).
Ele garante que na segunda-feira o resultado estará disponível (para ele), embora seja quinta-feira e "Cética" seja o meu segundo nome. Não tem Ana Paula e Carla Esther ? Tem Flávia Cética. Na segunda, ligo lá e nada de resultado, nem de médico. Na quarta, a secretária diz que ele está fora da cidade, mas ELA pode dizer que bicho deu:
- Pode ficar tranqüila que não é câncer (gostaria de saber de que faculdade de medicina é o diploma dela).
Segundo meu filósofo pai, não há frase mais preocupante que "pode ficar tranqüilo". Quem nunca ouviu dos mestres de obra "pode ficar tranqüilo que a reforma acaba em 2 semanas" (geralmente leva mais 4 meses depois disso) ? Também já foi proferida por muitos namorados e maridos "pode ficar tranqüila que eu sei o caminho, não preciso perguntar para ninguém e o tanque do carro está cheio". Famosas últimas palavras antes de parar sem gasolina no meio do nada, com a bexiga cheia e a criançada brigando no banco de trás. E a culpa é da mulher, quem manda ter amiga que dá festa lá na Conchinchina ?
E, depois de duas semanas tentando inutilmente saber o resultado da biópsia, cato o médico na saída de uma cirurgia (e quem não trabalha no centro cirúrgico faz o quê ?):
- Desculpa, Flávia, eu recebi seus recados.
- Pois é, quero saber o que deu.
- Olha, não lembro o que deu no exame de sangue (nem eu lembraria, para isso é que na minha terra entregam o exame pro paciente guardar), mas dá para ver aqui no computador o laudo da biópsia. (Pergunta se deu pra ver ? Tanto quanto foi visto o cometa Halley que passou quando eu era criança e nem quem estava sentado no telescópio da NASA viu).
- E aí ? Este troço não dói, mas dependendo da posição em que viro o pescoço, eu sinto o caroço (é um caroço emotivo ainda por cima, fica sentido).
- Eu recomendo tirar. É muito mais sólido do que líquido (pelo menos é um caroço com "sustança"). Liga para a minha secretária, vê como anda a minha agenda e a gente marca.
A loteria está acumuladíssima. Se eu ganhar, digo para a minha chefe que estou tirando férias mesmo que não tenha direito, vou ao Brasil voando de primeira classe e entro na faca por lá. Na remota possibilidade de eu não ganhar, fico na dependência de ser operada por aqui mesmo. Deve demorar ainda uns 3 meses (o sistema aqui é justo: lento para todos), mas pelo menos posso escolher quem vai enfiar o tubo na minha garganta (anestesia geral) e que enfermeiras estarão na sala para esfregar antisséptico nos meus peitos (é, precisa ir sem sutiã e passam um álcool cor-de-rosa do queixo até os peitos - confesso que me incomoda muito mais esta parte que a anestesia geral ou o corte. Coisas de enfermeira...).
Se estivesse de viagem marcada para o Brasil, nem ligaria. Até hoje pago meu plano de saúde por lá (só moro aqui há quase 8 anos, ainda não tive tempo de me acostumar). Quando estou na terrinha, consulto os especialistas de que preciso e faço todos os exames, cujos resultados trago para casa se não imediatamente, 2-3 dias depois (se forem de laboratório, pego pela internet e até imprimo em casa mesmo), essas coisas de Terceiro Mundo.
No Primeiro Mundo, fiz um exame de sangue em novembro. O resultado, como sempre, a gente não pode ver e vai "direto" para o médico. Duas semanas depois, vou à consulta e cadê o resultado do exame ? Você viu ? Nem o médico. O laudo do ultrassom não está pronto (também pudera, uma semana depois, o que eu queria ?), mas ele consegue ver as imagens no computador do hospital (dica: faça sempre o ultrassom no mesmo hospital onde o especialista trabalha. Se ele só atende em consultório, azar o seu). Na consulta ele diz que quer fazer uma biópsia:
- Quando ?
- Depende de você. Se tiver medo de agulha, a gente marca uma hora.
- E se não tiver ?
- A gente faz agora.
- Mete a agulha aí ! (Que me desculpem os frescos, mas de hora marcada dói menos a agulhada ?).
Ele garante que na segunda-feira o resultado estará disponível (para ele), embora seja quinta-feira e "Cética" seja o meu segundo nome. Não tem Ana Paula e Carla Esther ? Tem Flávia Cética. Na segunda, ligo lá e nada de resultado, nem de médico. Na quarta, a secretária diz que ele está fora da cidade, mas ELA pode dizer que bicho deu:
- Pode ficar tranqüila que não é câncer (gostaria de saber de que faculdade de medicina é o diploma dela).
Segundo meu filósofo pai, não há frase mais preocupante que "pode ficar tranqüilo". Quem nunca ouviu dos mestres de obra "pode ficar tranqüilo que a reforma acaba em 2 semanas" (geralmente leva mais 4 meses depois disso) ? Também já foi proferida por muitos namorados e maridos "pode ficar tranqüila que eu sei o caminho, não preciso perguntar para ninguém e o tanque do carro está cheio". Famosas últimas palavras antes de parar sem gasolina no meio do nada, com a bexiga cheia e a criançada brigando no banco de trás. E a culpa é da mulher, quem manda ter amiga que dá festa lá na Conchinchina ?
E, depois de duas semanas tentando inutilmente saber o resultado da biópsia, cato o médico na saída de uma cirurgia (e quem não trabalha no centro cirúrgico faz o quê ?):
- Desculpa, Flávia, eu recebi seus recados.
- Pois é, quero saber o que deu.
- Olha, não lembro o que deu no exame de sangue (nem eu lembraria, para isso é que na minha terra entregam o exame pro paciente guardar), mas dá para ver aqui no computador o laudo da biópsia. (Pergunta se deu pra ver ? Tanto quanto foi visto o cometa Halley que passou quando eu era criança e nem quem estava sentado no telescópio da NASA viu).
- E aí ? Este troço não dói, mas dependendo da posição em que viro o pescoço, eu sinto o caroço (é um caroço emotivo ainda por cima, fica sentido).
- Eu recomendo tirar. É muito mais sólido do que líquido (pelo menos é um caroço com "sustança"). Liga para a minha secretária, vê como anda a minha agenda e a gente marca.
A loteria está acumuladíssima. Se eu ganhar, digo para a minha chefe que estou tirando férias mesmo que não tenha direito, vou ao Brasil voando de primeira classe e entro na faca por lá. Na remota possibilidade de eu não ganhar, fico na dependência de ser operada por aqui mesmo. Deve demorar ainda uns 3 meses (o sistema aqui é justo: lento para todos), mas pelo menos posso escolher quem vai enfiar o tubo na minha garganta (anestesia geral) e que enfermeiras estarão na sala para esfregar antisséptico nos meus peitos (é, precisa ir sem sutiã e passam um álcool cor-de-rosa do queixo até os peitos - confesso que me incomoda muito mais esta parte que a anestesia geral ou o corte. Coisas de enfermeira...).
18 dezembro, 2007
Cadê o neném que estava aqui ?
Oficialmente, a partir de hoje, não há mais um bebê no Iglu. O Pacotinho de Maturidade, segundo a língua inglesa, passa de "infant" para "toddler". E Mamãe, que não por acaso é capricorniana, segue na contramão da maioria das mães que conhece (como diz o Vovô, ela só é maioria quando está na torcida do Flamengo, porque de resto, é sempre da turma do contra). Desde a gravidez, não tinha pressa de que o neném nascesse logo. Nos primeiros dias da chegada dele, não ficava torcendo para que ele crescesse rápido. Jamais esperou ansiosamente que ele rolasse/sentasse/engatinhasse/caminhasse/falasse. Esta semana quando ouviu da mãe de uma criança pouco mais velha que seu Pacotinho de Tempo Que Voa, "não vejo a hora de a minha filha trocar os dentes", concluiu que saiu de uma costela diferente de Adão. Definitivamente não veio da mesma costela de onde saiu o resto da mulherada. Resumindo: não tem absolutamente pressa alguma de que o tempo passe.
Se Mamãe pudesse, teria congelado o Pacotinho de Fofura quando ele tinha 6 meses (na verdade, ela queria congelá-lo desde que ele nasceu), como nesta foto, durante as férias no Brasil. Ela acha que nunca na vida um filho dá menos trabalho do que aos 6 meses de idade. No ano passado, exatamente neste dia, seu Pacotinho de Aventuras viajou de Vancouver a Brasília sem chorar nenhuma vez ao longo do percurso, feliz da vida, pendurado no canguru. Durante a comprida estadia, os anfitriões comentavam o quanto ele era um bebê "fácil", que comia de tudo e raramente chorava. Atualmente ela acha que ir com ele ao supermercado já é uma aventura de alto risco.
E, para a sua surpresa, apesar do trabalho triplicado da fase atual, Mamãe também não está com pressa de que o tempo passe. Fez uma lista das palavras do vocabulário do Pacotinho de Retórica (sim, ela encontra tempo para isso), com cerca de 40 palavras. Ele tem conseguido o que ela mesma, dois semestres de aulas de português na UBC e uma viagem ao Brasil não conseguiram: ensinar português ao Pai Gringo. Como diria o próprio professor, batendo palmas ao final de qualquer conquista: "bavô" ("bravo", uma das poucas coisas que fala na língua paterna).
Com uma serenidade jamais vista antes em sua vida, Mamãe não se preocupa com a fase de faquir em que se encontra o Pacotinho de Seletividade Alimentar. Tendo sido ela mesma uma criança chatérrima para comer, encara sem descabelar-se o fato de que o menino só quer viver a pão, iogurte e frutas. Aliás, melhor que ela, que só comia tomate, miolo de pão e maçã em certas fases da vida. Sabe, não sem uma certa melancolia, que isso também é uma fase e que vai passar.
Por que os filhos crescem ? Por que não continuam para sempre pequenininhos, querendo nosso colo e acreditando que com um abraço os pais podem resolver todos os seus problemas ? Por que aquele momento de passar no quarto e deparar-se com aquela pessoa minúscula dormindo serenamente não pode ser repetido em todas as noites da vida ? Por que a Mamãe já sabe que para o resto da vida vai sentir saudade daquele garotinho espalhando o lixo pela casa e escondendo biscoitos debaixo do sofá ?
E, nesta semana em que recebeu a notícia de que a filha de um casal de amigos nasceu com sérios problemas, necessitando de cirurgia nas primeiras horas de vida, mais do que nunca, Mamãe comemora os 18 meses de vida do seu Pacotinho de Saúde. No seu caso, a cegonha veio bêbada e causou um estrago danado na aterissagem, mas a encomenda veio perfeita. Graças a Deus, que também está olhando pela nova amiguinha lá no Brasil. Amém.
15 dezembro, 2007
Sparkle, Sparkle
"Sparkle" = verb (used without object)
–noun 1. a little spark or fiery particle.
2. a sparkling appearance, luster, or play of light: the sparkle of a diamond.
3. brilliance, liveliness, or vivacity."
No popular, "sparkle" = purpurina.
Aconteceu no último plantão noturno, de uma longa leva de seis. Quatro noites ocupadíssimas, uma tranqüila (mas depois de passar quatro acordada, quem consegue dormir às 2 da matina ?) e a última, para ficar na memória.
Parecia que seria moleza. Só uma amputação na lista de emergências, ou seja, em quarenta minutos, estaríamos à toa. E aí o anestesista chega esbaforido da maternidade, avisando "vamos ter uma cesárea mais tarde. Acabei de colocar uma epidural, mas a mulher é doida." Claro que a traumatizada aqui tinha que defender a moça, compadecer-se da sua dor e dizer que provavelmente ela não era doida (quem tem quadril 42, marido de cabeça pequena e faz filho com menos de 3,5 kg, que nasce na terceira contração forte, pode dizer que a dor do parto é quase um orgasmo, que a mulherada é cheia de frescura, que "dor" nem é o termo correto, já que é um leve desconforto passageiro, completamente esquecido assim que o bebê nasce, bla bla bla... Mas vista a minha calça 36 e dê a luz a uma criança cabeçuda de mais de 3,800g e 56 cm arrancada a fórceps. Depois vem me contar como foi). O anestesista respondeu com a melhor definição de loucura que já ouvi: "Flávia, o quarto está cheio de luzes de Natal, essências aromatizantes, uma parteira, uma doula e uma aromaterapeuta. Todas acham que a mulher é doida. Se uma aromaterapeuta acha que alguém é doido, é porque a pessoa é mesmo."
Quatro horas depois liga a obstetra pedindo uma cesárea de emergência. Em cinco minutos, tudo estava pronto. Quarenta minutos depois, nada de chegar a paciente. Um telefonema para a maternidade confirma que ela "não estava pronta". Claro, com 42 semanas e 3 dias de gestação, depois de recusar a indução do parto e teimar em ficar em casa contra a recomendação da parteira, ela precisava de tempo para se preparar !
Aguardo no meio do caminho. Surge uma moça vestida com a roupa da sala de cirurgia, que me pergunta pela paciente. Quando digo que não chegou, ela diz "ela é doida". Pergunto se ela é a aromaterapeuta, mas num tom meio ofendido, escuto "sou a parteira e raramente digo que alguém é doida, mas ela é. Há 3 dias tento convencê-la a vir para o hospital, mas ela recusa até que eu escute o coração do bebê, depois de 36 horas de bolsa rota."
E eis que surge a moça. Ruiva, nem bonita nem feia. Doida. Gritava que estava com dor no pescoço, que não queria que ninguém dissesse a ela o que aconteceria na cirurgia e, entre uma frase e outra, repetia "Sparkle, sparkle, like a waterfall down my leg". A residente da anestesia jura que deu uma dose suficiente para que ela e eu tivéssemos uma cesárea e a outra enfermeira pudesse dormir por 12 horas seguidas, mas a moça berrou o tempo todo. Para o pescoço, o que resolveu foi uma dose do pó de pirlimpimpim que o anestesista fingiu ter dado, já que as drogas convencionais tinham sido esgotadas. A parteira, provavelmente de saco cheio, ficou meio de longe. "Sparkle, sparkle. Que ótimo este remédio pro pescoço ! Que medo ! Sparkle, sparkle ! Alguém me ajuda a respirar. Não tira foto" (esta última frase de uma irrelevância sem tamanho, considerando que nem câmera o marido tinha). O marido, num nível de maluquice semelhante, repetia baixinho o que a moça dizia. Antes de chegar a obstetra (lei de Murphy, teve que fazer um parto exatamente naqueles minutos), ela já gritava "estou sentindo me cortarem, pára !" No total, foi quase uma hora ouvindo "sparkle, sparkle" e eu achando que era uma forma de lidar com a dor, visualizando estrelinhas brilhando. Nunca uma anestesia geral foi tão almejada pela equipe (se não para a paciente, pelo menos para mim, que assim não ouviria o escândalo).
Finalmente nasceu a menina, puxada a vácuo (o uso de ventosa numa cesárea não é raro por aqui). Grandinha, mas nada surpreendente para 42 semanas e 3 dias (lembrei de dar graças a Deus por eu ter entrado em trabalho de parto antes de 40 semanas, senão o menino já teria saído da barriga engatinhando). E o nome ? Um deles já estava escolhido, independentemente do sexo da criança, que era surpresa até o nascimento. "O primeiro ainda não sabemos ao certo, mas o segundo será Sparkle. Isabelle Sparkle ou Ava Sparkle". Ai, meus sais, ou melhor, minha purpurina...
–noun 1. a little spark or fiery particle.
2. a sparkling appearance, luster, or play of light: the sparkle of a diamond.
3. brilliance, liveliness, or vivacity."
No popular, "sparkle" = purpurina.
Aconteceu no último plantão noturno, de uma longa leva de seis. Quatro noites ocupadíssimas, uma tranqüila (mas depois de passar quatro acordada, quem consegue dormir às 2 da matina ?) e a última, para ficar na memória.
Parecia que seria moleza. Só uma amputação na lista de emergências, ou seja, em quarenta minutos, estaríamos à toa. E aí o anestesista chega esbaforido da maternidade, avisando "vamos ter uma cesárea mais tarde. Acabei de colocar uma epidural, mas a mulher é doida." Claro que a traumatizada aqui tinha que defender a moça, compadecer-se da sua dor e dizer que provavelmente ela não era doida (quem tem quadril 42, marido de cabeça pequena e faz filho com menos de 3,5 kg, que nasce na terceira contração forte, pode dizer que a dor do parto é quase um orgasmo, que a mulherada é cheia de frescura, que "dor" nem é o termo correto, já que é um leve desconforto passageiro, completamente esquecido assim que o bebê nasce, bla bla bla... Mas vista a minha calça 36 e dê a luz a uma criança cabeçuda de mais de 3,800g e 56 cm arrancada a fórceps. Depois vem me contar como foi). O anestesista respondeu com a melhor definição de loucura que já ouvi: "Flávia, o quarto está cheio de luzes de Natal, essências aromatizantes, uma parteira, uma doula e uma aromaterapeuta. Todas acham que a mulher é doida. Se uma aromaterapeuta acha que alguém é doido, é porque a pessoa é mesmo."
Quatro horas depois liga a obstetra pedindo uma cesárea de emergência. Em cinco minutos, tudo estava pronto. Quarenta minutos depois, nada de chegar a paciente. Um telefonema para a maternidade confirma que ela "não estava pronta". Claro, com 42 semanas e 3 dias de gestação, depois de recusar a indução do parto e teimar em ficar em casa contra a recomendação da parteira, ela precisava de tempo para se preparar !
Aguardo no meio do caminho. Surge uma moça vestida com a roupa da sala de cirurgia, que me pergunta pela paciente. Quando digo que não chegou, ela diz "ela é doida". Pergunto se ela é a aromaterapeuta, mas num tom meio ofendido, escuto "sou a parteira e raramente digo que alguém é doida, mas ela é. Há 3 dias tento convencê-la a vir para o hospital, mas ela recusa até que eu escute o coração do bebê, depois de 36 horas de bolsa rota."
E eis que surge a moça. Ruiva, nem bonita nem feia. Doida. Gritava que estava com dor no pescoço, que não queria que ninguém dissesse a ela o que aconteceria na cirurgia e, entre uma frase e outra, repetia "Sparkle, sparkle, like a waterfall down my leg". A residente da anestesia jura que deu uma dose suficiente para que ela e eu tivéssemos uma cesárea e a outra enfermeira pudesse dormir por 12 horas seguidas, mas a moça berrou o tempo todo. Para o pescoço, o que resolveu foi uma dose do pó de pirlimpimpim que o anestesista fingiu ter dado, já que as drogas convencionais tinham sido esgotadas. A parteira, provavelmente de saco cheio, ficou meio de longe. "Sparkle, sparkle. Que ótimo este remédio pro pescoço ! Que medo ! Sparkle, sparkle ! Alguém me ajuda a respirar. Não tira foto" (esta última frase de uma irrelevância sem tamanho, considerando que nem câmera o marido tinha). O marido, num nível de maluquice semelhante, repetia baixinho o que a moça dizia. Antes de chegar a obstetra (lei de Murphy, teve que fazer um parto exatamente naqueles minutos), ela já gritava "estou sentindo me cortarem, pára !" No total, foi quase uma hora ouvindo "sparkle, sparkle" e eu achando que era uma forma de lidar com a dor, visualizando estrelinhas brilhando. Nunca uma anestesia geral foi tão almejada pela equipe (se não para a paciente, pelo menos para mim, que assim não ouviria o escândalo).
Finalmente nasceu a menina, puxada a vácuo (o uso de ventosa numa cesárea não é raro por aqui). Grandinha, mas nada surpreendente para 42 semanas e 3 dias (lembrei de dar graças a Deus por eu ter entrado em trabalho de parto antes de 40 semanas, senão o menino já teria saído da barriga engatinhando). E o nome ? Um deles já estava escolhido, independentemente do sexo da criança, que era surpresa até o nascimento. "O primeiro ainda não sabemos ao certo, mas o segundo será Sparkle. Isabelle Sparkle ou Ava Sparkle". Ai, meus sais, ou melhor, minha purpurina...
14 dezembro, 2007
Livrando-se da Culpa
Não é falta de inspiração, nem falta de vontade. Não é falta de paciência, nem falta de consideração. São seis (eu disse SEIS) plantões noturnos seguidos, intercalados por dias de sono profundo. Por isso ando sumida.
E como é que alguém que tem filho pequeno e não conta com os serviços essenciais de uma amada, idolotrada, salve salve empregada doméstica consegue trabalhar seis noites seguidas ? Somente depois de concluir com louvor o método flaviano para libertação da culpa.
O método é simples. Você faz a lista das culpas que carrega consigo e prega no espelho do banheiro, para lembrar-se do quanto elas empatam a sua vida. A cada vez que usa o banheiro, vê a lista e faz o juramento de mandar para aquele lugar quem quiser achar que você está errada. Nos casos de participantes já avançados, como eu, nem lista é necessária, porque muitas das culpas que abatem as mulheres muito organizadas jamais me afetaram. Homens raramente precisam do método, já que não são acometidos pelas culpas com a freqüência do sexo oposto. Não é à toa que a palavra "erro" é masculina, mas "culpa" é feminina.
Na semana de plantões noturnos, não sinto culpa por:
1- Passar o dia inteiro de pijama, dormir das 08:30 às 4 da tarde e continuar vegetando até às 5, assistindo ao programa da Oprah (para isso, basta deixar o telefone, o controle remoto e uma garrafa de água na cabeceira da cama);
2- Optar sempre por dormir, quando a escolha é "comer ou dormir";
3- Acordar às 4 da tarde sem ter a menor idéia de que nevou a manhã inteira, a neve virou chuva e já não há indícios dela do lado de fora;
4- Mandar o Pacotinho de Redistribuição de Lixo (da lixeira para o resto da casa) para a creche, mesmo com a Mamãe estando em casa o dia inteiro;
5- Manter a casa bagunçadíssima (sim, requer manutenção. Se você tirar um dia para arrumar, perde o tempo precioso de dormir e descaracteriza o ambiente, correndo o risco de procurar o brinquedo do neném na caixa de brinquedos, quando você sabe que o lugar certo é em cima da pia da cozinha);
6- Comer comida congelada ou trazida de um restaurante pelo Marido Que Trabalha Em Horário Normal;
7- Deixar a roupa suja acumular-se em grandes pilhas nos cestos (para isso, é preciso contar quantas peças de roupas limpas serão necessárias para as 6 noites trabalhando e os 6 dias vegetando antes de começar a semana, coisa que fica automática com o treino intensivo do método);
8- Dar saltos de alegria quando a enfermeira do plantão anterior avisa "nenhuma emergência na lista". Não dá a MENOR culpa receber o salário para ficar deitada sem fazer nada ou navegando na internet, já que isso acontece tão raramente;
9- Chegar de manhã cedo zonza de sono, dar um abraço no Pacotinho de Energia e chamar a babá para ficar com ele, enquanto a Mamãe chapa no sofá e o Papai toma seu banho de noiva. A babá atende pelo nome de Miss Canal Cinqüenta e Seis.
Os item 5 é permanente, mesmo após várias semanas consecutivas de plantão diurno. Cada um procura libertar-se das culpas que carrega, não dá para resolver os problemas da humanidade toda.
E, quando acabar a maratona de noites, a loteria de sábado terá sido sorteada. São 27 milhões acumulados. Como é bolão e tem muita gente apostando junto, não daria para uma aposentadoria precoce, mas dá para garantir meu pedido vitalício pro Papai Noel: uma empregada doméstica em tempo integral !
E como é que alguém que tem filho pequeno e não conta com os serviços essenciais de uma amada, idolotrada, salve salve empregada doméstica consegue trabalhar seis noites seguidas ? Somente depois de concluir com louvor o método flaviano para libertação da culpa.
O método é simples. Você faz a lista das culpas que carrega consigo e prega no espelho do banheiro, para lembrar-se do quanto elas empatam a sua vida. A cada vez que usa o banheiro, vê a lista e faz o juramento de mandar para aquele lugar quem quiser achar que você está errada. Nos casos de participantes já avançados, como eu, nem lista é necessária, porque muitas das culpas que abatem as mulheres muito organizadas jamais me afetaram. Homens raramente precisam do método, já que não são acometidos pelas culpas com a freqüência do sexo oposto. Não é à toa que a palavra "erro" é masculina, mas "culpa" é feminina.
Na semana de plantões noturnos, não sinto culpa por:
1- Passar o dia inteiro de pijama, dormir das 08:30 às 4 da tarde e continuar vegetando até às 5, assistindo ao programa da Oprah (para isso, basta deixar o telefone, o controle remoto e uma garrafa de água na cabeceira da cama);
2- Optar sempre por dormir, quando a escolha é "comer ou dormir";
3- Acordar às 4 da tarde sem ter a menor idéia de que nevou a manhã inteira, a neve virou chuva e já não há indícios dela do lado de fora;
4- Mandar o Pacotinho de Redistribuição de Lixo (da lixeira para o resto da casa) para a creche, mesmo com a Mamãe estando em casa o dia inteiro;
5- Manter a casa bagunçadíssima (sim, requer manutenção. Se você tirar um dia para arrumar, perde o tempo precioso de dormir e descaracteriza o ambiente, correndo o risco de procurar o brinquedo do neném na caixa de brinquedos, quando você sabe que o lugar certo é em cima da pia da cozinha);
6- Comer comida congelada ou trazida de um restaurante pelo Marido Que Trabalha Em Horário Normal;
7- Deixar a roupa suja acumular-se em grandes pilhas nos cestos (para isso, é preciso contar quantas peças de roupas limpas serão necessárias para as 6 noites trabalhando e os 6 dias vegetando antes de começar a semana, coisa que fica automática com o treino intensivo do método);
8- Dar saltos de alegria quando a enfermeira do plantão anterior avisa "nenhuma emergência na lista". Não dá a MENOR culpa receber o salário para ficar deitada sem fazer nada ou navegando na internet, já que isso acontece tão raramente;
9- Chegar de manhã cedo zonza de sono, dar um abraço no Pacotinho de Energia e chamar a babá para ficar com ele, enquanto a Mamãe chapa no sofá e o Papai toma seu banho de noiva. A babá atende pelo nome de Miss Canal Cinqüenta e Seis.
Os item 5 é permanente, mesmo após várias semanas consecutivas de plantão diurno. Cada um procura libertar-se das culpas que carrega, não dá para resolver os problemas da humanidade toda.
E, quando acabar a maratona de noites, a loteria de sábado terá sido sorteada. São 27 milhões acumulados. Como é bolão e tem muita gente apostando junto, não daria para uma aposentadoria precoce, mas dá para garantir meu pedido vitalício pro Papai Noel: uma empregada doméstica em tempo integral !
09 dezembro, 2007
A Via Sacra Até o Papai Noel
Se você é daquelas pessoas organizadas, que no dia 1 de dezembro já tem todos os cartões de Natal prontos para serem enviados, não vai se identificar em nada com o texto. Aliás, você deveria sentir-se muito mal por fazer o resto da humanidade parecer tão desleixada ! Só falta dizer que sua casa está impecavelmente limpa e decorada para o final do ano !
Já é dezembro. Há várias semanas você tenta organizar a família para tirar uma foto de Natal e preparar um cartão personalizado, como no ano passado. Finalmente você liga para seu estúdio favorito e descobre que não há vagas até o final do mês. Então, numa decisão de pobre, opta por ir ao "shopping" para tirar uma foto com o Papai Noel.
Vinte minutos antes da abertura, Papai Noel ainda não está a postos, mas você e sua tropa estão. Inexperiente, vê que não tem fila e concorda quando o marido sugere levar seu filho para gastar energias no parquinho ali perto. Péssima decisão. Meia hora depois, parece que metade da população da cidade está na fila com seus pimpolhos.
A fila tem de tudo, menos fim. Você dá graças a Deus por ter o marido a tiracolo, porque ficar em fila com uma criança de 1 ano e meio é trabalho para dois adultos, no mínimo. Enquanto você aguarda sua vez e o marido corre atrás da saltitante criatura, a senhora na sua frente comenta "é tudo uma questão de treino. Quando meu filho tinha 1 ano, eu dizia a ele que tinha hora de correr e hora de esperar. Ele sempre obedecia". Claro, o filho dela é quase um ancião, já tem até dois dentes definitivos na frente ! Fácil falar quando seu filho está fazendo doutorado e provavelmente já mora fora de casa há muito tempo.
Atrás de você, como não poderia deixar de ser, há uma mãe com uma garotinha de 1 ano e 2 meses, comportadíssima, sentada no carrinho. E o seu filho ? A cada minuto e meio aparece com uma coisinha na mão dizendo "piz". Que sorte ninguém ali entender português ! "Piz", como qualquer falante da língua de Camões bem sabe, significa "luz" e o que ele está dizendo é que arrancou as luzinhas da decoração da árvore de Natal (quem disse que esperar em fila não é instrutivo ? Você agora já sabe que as luzinhas são removíveis). O irmãozinho da santinha fala pro seu filho: "you can't do that. Leave the decorations alone. Just go away !". Ai, que orgulho, tão novinho e já fazendo as próprias amizades.
A fila é no estilo parque da Disney. Dá voltas e mais voltas. Há televisões mostrando a versão original do "How The Grinch Stole Christmas", mas estão no nível dos olhos dos marmanjões - leia-se "crianças de 5 anos para cima" - e seu filhinho não consegue enxergar, então ele prefere continuar arrancando os enfeites, enquanto anuncia suas coletas em voz alta: "piz" (lá se vai outra luzinha), "bóua" (uma bolinha da árvore, você prefere nem olhar), "neném" (tirou o sapato da menina no carrinho, que nem decorativo era)...
Um garotinho na fila pergunta "por que está demorando tanto ?" E você, de intrometida, diz "porque o Papai Noel é muito ocupado". O menino diz "é mesmo, ele visita TODOS os shoppings" (a gente não deve destruir as fantasias dos filhos dos outros, mas se aquele velho gordo folgado estivesse em TODOS os shoppings, a fila aqui estaria bem menor. Que menino sem noção !).
Para saber se uma criança está comportada ou não numa fila, basta perguntar-se a si mesmo no final de 10 minutos: "eu sei o nome do menino atrás de mim ?" Se a resposta for "sim", provavelmente é porque ele estava pendurado onde não deveria, enquanto a pobre mãe insistia para ele descer. E claro, a fila inteira já sabe o nome do seu filho nos primeiros 2 minutos de espera.
São eternos 40 minutos de exercícios forçados. Você já seguiu seu filho até a loja mais próxima e comprou um brinquedinho que ele pretendia não devolver. Já catou o menino no pé da escada rolante. Já o impediu de revirar a lata dos recicláveis ("impediu" é força de expressão, que você chegou meio tarde). Já o acompanhou na coreografia de "cabeça, ombro, joelho e pé", cantando em voz alta na fila. Já tentou colocar de volta luzinhas arrancadas (elas não acendem depois, viu ?). Finalmente chega a sua vez. Para surpresa de toda a platéia, ele senta feliz da vida no colo do Papai Noel. Sorri para as fotos e ataca a maçã que o bom velhinho está dando de presente, mas como convém à sua fase atual, ele não dá uma dentada sem antes apontar e declarar "apo" ("apple", que ele é metido a gringo e não fala "maçã" de jeito algum).
Você pagou por duas fotos e agora tira uma com a família toda. No final, a moça avisa "uma não saiu boa" e você logo adivinha "meu marido não estava olhando para a máquina ?" Óbvio. A sua família não é composta só de pessoas colaboradoras.
Enquanto você espera suas fotos serem impressas, observa a princesinha que estava atrás na fila aos berros no colo do Papai Noel. E a mãe dela comenta "seu filho comportou-se tão bem !" "Ele é assim, é só falar que tem hora de correr e hora de ficar quietinho. Ele sempre obedece."
Já é dezembro. Há várias semanas você tenta organizar a família para tirar uma foto de Natal e preparar um cartão personalizado, como no ano passado. Finalmente você liga para seu estúdio favorito e descobre que não há vagas até o final do mês. Então, numa decisão de pobre, opta por ir ao "shopping" para tirar uma foto com o Papai Noel.
Vinte minutos antes da abertura, Papai Noel ainda não está a postos, mas você e sua tropa estão. Inexperiente, vê que não tem fila e concorda quando o marido sugere levar seu filho para gastar energias no parquinho ali perto. Péssima decisão. Meia hora depois, parece que metade da população da cidade está na fila com seus pimpolhos.
A fila tem de tudo, menos fim. Você dá graças a Deus por ter o marido a tiracolo, porque ficar em fila com uma criança de 1 ano e meio é trabalho para dois adultos, no mínimo. Enquanto você aguarda sua vez e o marido corre atrás da saltitante criatura, a senhora na sua frente comenta "é tudo uma questão de treino. Quando meu filho tinha 1 ano, eu dizia a ele que tinha hora de correr e hora de esperar. Ele sempre obedecia". Claro, o filho dela é quase um ancião, já tem até dois dentes definitivos na frente ! Fácil falar quando seu filho está fazendo doutorado e provavelmente já mora fora de casa há muito tempo.
Atrás de você, como não poderia deixar de ser, há uma mãe com uma garotinha de 1 ano e 2 meses, comportadíssima, sentada no carrinho. E o seu filho ? A cada minuto e meio aparece com uma coisinha na mão dizendo "piz". Que sorte ninguém ali entender português ! "Piz", como qualquer falante da língua de Camões bem sabe, significa "luz" e o que ele está dizendo é que arrancou as luzinhas da decoração da árvore de Natal (quem disse que esperar em fila não é instrutivo ? Você agora já sabe que as luzinhas são removíveis). O irmãozinho da santinha fala pro seu filho: "you can't do that. Leave the decorations alone. Just go away !". Ai, que orgulho, tão novinho e já fazendo as próprias amizades.
A fila é no estilo parque da Disney. Dá voltas e mais voltas. Há televisões mostrando a versão original do "How The Grinch Stole Christmas", mas estão no nível dos olhos dos marmanjões - leia-se "crianças de 5 anos para cima" - e seu filhinho não consegue enxergar, então ele prefere continuar arrancando os enfeites, enquanto anuncia suas coletas em voz alta: "piz" (lá se vai outra luzinha), "bóua" (uma bolinha da árvore, você prefere nem olhar), "neném" (tirou o sapato da menina no carrinho, que nem decorativo era)...
Um garotinho na fila pergunta "por que está demorando tanto ?" E você, de intrometida, diz "porque o Papai Noel é muito ocupado". O menino diz "é mesmo, ele visita TODOS os shoppings" (a gente não deve destruir as fantasias dos filhos dos outros, mas se aquele velho gordo folgado estivesse em TODOS os shoppings, a fila aqui estaria bem menor. Que menino sem noção !).
Para saber se uma criança está comportada ou não numa fila, basta perguntar-se a si mesmo no final de 10 minutos: "eu sei o nome do menino atrás de mim ?" Se a resposta for "sim", provavelmente é porque ele estava pendurado onde não deveria, enquanto a pobre mãe insistia para ele descer. E claro, a fila inteira já sabe o nome do seu filho nos primeiros 2 minutos de espera.
São eternos 40 minutos de exercícios forçados. Você já seguiu seu filho até a loja mais próxima e comprou um brinquedinho que ele pretendia não devolver. Já catou o menino no pé da escada rolante. Já o impediu de revirar a lata dos recicláveis ("impediu" é força de expressão, que você chegou meio tarde). Já o acompanhou na coreografia de "cabeça, ombro, joelho e pé", cantando em voz alta na fila. Já tentou colocar de volta luzinhas arrancadas (elas não acendem depois, viu ?). Finalmente chega a sua vez. Para surpresa de toda a platéia, ele senta feliz da vida no colo do Papai Noel. Sorri para as fotos e ataca a maçã que o bom velhinho está dando de presente, mas como convém à sua fase atual, ele não dá uma dentada sem antes apontar e declarar "apo" ("apple", que ele é metido a gringo e não fala "maçã" de jeito algum).
Você pagou por duas fotos e agora tira uma com a família toda. No final, a moça avisa "uma não saiu boa" e você logo adivinha "meu marido não estava olhando para a máquina ?" Óbvio. A sua família não é composta só de pessoas colaboradoras.
Enquanto você espera suas fotos serem impressas, observa a princesinha que estava atrás na fila aos berros no colo do Papai Noel. E a mãe dela comenta "seu filho comportou-se tão bem !" "Ele é assim, é só falar que tem hora de correr e hora de ficar quietinho. Ele sempre obedece."
04 dezembro, 2007
Procurando Sarna Para Parar de Se Coçar
Oficialmente, o inverno só começa no hemisfério norte dia 21 de dezembro. Na prática, São Pedro ignora isso solenemente e todo ano manda o frio dar as caras antes do Halloween. E, como não poderia deixar de ser nestas bandas quase árticas, com o frio chegam as "delícias" da estação:
- cabelos arrepiados (é tirar o gorro e deparar-se com o Einstein no espelho);
- choques ao encostar no carro (ou outros metais);
- acidentes de carro provocados pelo gelo e por aqueles que não sabem dirigir sobre ele (êta turma tropical barbeira que não aprendeu a dirigir sobre a neve no Rio de Janeiro);
- crianças catarrentas, variando entre o tipo que faz bolhas de meleca pelo nariz quando expira ou o que coleciona crostas de catarro seco nas narinas e nas bochechas, onde foram parar depois de um adulto tentar limpar o que era gosma e agora é casquinha;
- coceira absurda na pele ressecada.
Eu sei que parece uma incoerência uma pessoa como eu, criada em Brasília, naquela seca violenta de maio a setembro, vir reclamar dos efeitos da secura no inverno em Raincouver. Logo alguém que cresceu passando manteiga de cacau nos lábios antes de dormir e pendurando uma toalha molhada na cabeceira da cama (hábitos muito úteis no inverno canadense). Mas não chove 300 dias por ano ? É que os aquecedores ligados dia e noite (sim, o Iglu tem temperaturas tropicais do lado de dentro, de janeiro a dezembro, doa a conta de energia no bolso de quem doer) ressecam muito o ar.
Incoerência mesmo são os cremes comercializados para acabar com a "winter itch" (diga se não parece coisa da turma do Casseta):


E depois de me coçar toda e tentar os hidratantes normais, lá vou eu amanhã à farmácia procurar Sarna para parar de me coçar. Eu sei o que você está pensando: "me amarrota que estou passada ! Com tanto nome de creme, vão colocar justamente 'Sarna' no creme hidratante ! E tem gente que compra !"
Nunca diga "esta sarna eu não quero na minha pele"...
- cabelos arrepiados (é tirar o gorro e deparar-se com o Einstein no espelho);
- choques ao encostar no carro (ou outros metais);
- acidentes de carro provocados pelo gelo e por aqueles que não sabem dirigir sobre ele (êta turma tropical barbeira que não aprendeu a dirigir sobre a neve no Rio de Janeiro);
- crianças catarrentas, variando entre o tipo que faz bolhas de meleca pelo nariz quando expira ou o que coleciona crostas de catarro seco nas narinas e nas bochechas, onde foram parar depois de um adulto tentar limpar o que era gosma e agora é casquinha;
- coceira absurda na pele ressecada.
Eu sei que parece uma incoerência uma pessoa como eu, criada em Brasília, naquela seca violenta de maio a setembro, vir reclamar dos efeitos da secura no inverno em Raincouver. Logo alguém que cresceu passando manteiga de cacau nos lábios antes de dormir e pendurando uma toalha molhada na cabeceira da cama (hábitos muito úteis no inverno canadense). Mas não chove 300 dias por ano ? É que os aquecedores ligados dia e noite (sim, o Iglu tem temperaturas tropicais do lado de dentro, de janeiro a dezembro, doa a conta de energia no bolso de quem doer) ressecam muito o ar.
Incoerência mesmo são os cremes comercializados para acabar com a "winter itch" (diga se não parece coisa da turma do Casseta):


E depois de me coçar toda e tentar os hidratantes normais, lá vou eu amanhã à farmácia procurar Sarna para parar de me coçar. Eu sei o que você está pensando: "me amarrota que estou passada ! Com tanto nome de creme, vão colocar justamente 'Sarna' no creme hidratante ! E tem gente que compra !"
Nunca diga "esta sarna eu não quero na minha pele"...
03 dezembro, 2007
Endereço do Papai Noel
O Natal está chegando ! E, mesmo que o verdadeiro espírito natalino não esteja assim tão presente nessas bandas congeladas, o comércio típico da época já está todo preparado há muito tempo. Como no Canadá comemora-se o Thanksgiving em outubro, depois do Halloween a decoração das lojas já é a natalina. Nos Estados Unidos eles só enfeitam tudo depois do Thanksgiving deles, em novembro.
A gente aqui escuta os clássicos Rudolph, The Red-nosed Reindeer e Feliz Navidad de 1 de novembro até o final de dezembro. Em novembro é até legal relembrar as músicas, mas
faltando 2 semanas para o Natal, a galera canadense já está prestes a dar um tiro no sistema de som das lojas, tentando assim dar um descanso aos ouvidos daquela dúzia de musiquinhas repetitivas. Duvido que alguém ouse ligar um CD desses durante a ceia de Natal ! Existe um limite de vezes que alguém pode ouvir o John Lennon cantando And So This is Christmas e garanto que é um número menor que 300. Quem, como eu, trabalha com o rádio ligado, deve saber do que estou falando. E nem venha me dizer que poderia ser pior, com o CD da Simone cantando umas versões esquisitas dos originais em inglês, que aqui tem a Celine Dion azucrinando também. E como ainda é o começo do mês, ainda não estou enjoada de nenhuma delas e encararia até a Simone e a Celine num dueto !
Uma coisa muito legal no Natal canadense são as cartas escritas ao
Papai Noel, que são todas respondidas. O CEP aqui é sempre uma letra-um número-uma letra-um número-uma letra um número e o do Papai Noel, como não poderia deixar de ser é HO H0 HO. Então, envie sua cartinha para
Santa Claus
North Pole
HO HO HO
O comercial na TV diz que, se você é uma criança no Canadá, pode contar com 3 coisas em dezembro:
- vai fazer frio;
- se nevar muito, sua escola vai fechar por uns dias;
- o Papai Noel vai responder a sua carta.
Já mandou a sua ?
P.S.: 1- Uma informação altamente relevante para os costumes natalinos daqui é que "reindeer" não tem plural. "One reindeer, two reindeer".
2- No início da música do Rudolph, falam o nome de todas as renas do Papai Noel, outra informação importantíssima.
A gente aqui escuta os clássicos Rudolph, The Red-nosed Reindeer e Feliz Navidad de 1 de novembro até o final de dezembro. Em novembro é até legal relembrar as músicas, mas
faltando 2 semanas para o Natal, a galera canadense já está prestes a dar um tiro no sistema de som das lojas, tentando assim dar um descanso aos ouvidos daquela dúzia de musiquinhas repetitivas. Duvido que alguém ouse ligar um CD desses durante a ceia de Natal ! Existe um limite de vezes que alguém pode ouvir o John Lennon cantando And So This is Christmas e garanto que é um número menor que 300. Quem, como eu, trabalha com o rádio ligado, deve saber do que estou falando. E nem venha me dizer que poderia ser pior, com o CD da Simone cantando umas versões esquisitas dos originais em inglês, que aqui tem a Celine Dion azucrinando também. E como ainda é o começo do mês, ainda não estou enjoada de nenhuma delas e encararia até a Simone e a Celine num dueto !
Uma coisa muito legal no Natal canadense são as cartas escritas ao
Papai Noel, que são todas respondidas. O CEP aqui é sempre uma letra-um número-uma letra-um número-uma letra um número e o do Papai Noel, como não poderia deixar de ser é HO H0 HO. Então, envie sua cartinha para
Santa Claus
North Pole
HO HO HO
O comercial na TV diz que, se você é uma criança no Canadá, pode contar com 3 coisas em dezembro:
- vai fazer frio;
- se nevar muito, sua escola vai fechar por uns dias;
- o Papai Noel vai responder a sua carta.
Já mandou a sua ?
P.S.: 1- Uma informação altamente relevante para os costumes natalinos daqui é que "reindeer" não tem plural. "One reindeer, two reindeer".
2- No início da música do Rudolph, falam o nome de todas as renas do Papai Noel, outra informação importantíssima.
02 dezembro, 2007
Os Mascotes Alternativos
O jornal The Province publicou hoje um artigo sobre os mascotes alternativos para as Olimpíadas, com o debochado título de "More creepy mascots that could represent Vancouver". Infelizmente os desenhos não estão disponíveis on-line, somente no jornal.
A matéria é hilária e, dentre os mascotes alternativos, meu voto vai para Weedy, o mascote que está sempre feliz, não trabalha, pratica "snowboarding" em Whistler (vai até lá dirigindo um BMW e fica hospedado num chalé, ambos do amigo Righty, o mascote que representa a classe rica da província) e adora a escola. Tanto adora que já freqüenta a UBC há 8 anos. No desenho, Weedy parece-se com aquele personagem dos Simpsons, o Sideshow Bob, só que no mascote, os "dreadlocks" são folhas de coca.
Na boa, se eu cansar do hospital, vou mandar uns artigos para o jornal, é capaz de eu conseguir uma boquinha !
PS: "weed" é uma gíria em inglês para maconha.
A matéria é hilária e, dentre os mascotes alternativos, meu voto vai para Weedy, o mascote que está sempre feliz, não trabalha, pratica "snowboarding" em Whistler (vai até lá dirigindo um BMW e fica hospedado num chalé, ambos do amigo Righty, o mascote que representa a classe rica da província) e adora a escola. Tanto adora que já freqüenta a UBC há 8 anos. No desenho, Weedy parece-se com aquele personagem dos Simpsons, o Sideshow Bob, só que no mascote, os "dreadlocks" são folhas de coca.
Na boa, se eu cansar do hospital, vou mandar uns artigos para o jornal, é capaz de eu conseguir uma boquinha !
PS: "weed" é uma gíria em inglês para maconha.
28 novembro, 2007
O Samba do Mascote Doido

Esta semana foram divulgados os mascotes para as Olimpíadas 2010 em Vancouver/Whistler. Não é erro de digitação: são "mascotes", assim mesmo, no plural. Olhando para eles, pode-se questionar o significado dos nomes que soam japoneses, pode-se perguntar que drogas alucinógenas foram consumidas durante a sua criação, só a criatividade é que não pode ser colocada em dúvida.
Num país com tantos animais selvagens, alguém pensaria em escolher uma baleia beluga, um castor, um "spirit bear"(urso albino) ou um urso polar, para ficar no básico. Eu preferiria um simples esquilo ou até um totem para prestigiar a cultura indígena local, mas os organizadores dos jogos, preocupados em magoar uma ou outra espécie animal, optaram por escolher todas. E assim nasceram os mascotes esquizofrênicos, verdadeiras aberrações biológicas na era da clonagem descontrolada, que precisam de legendas para que se possa saber do que se tratam. É como se o Pokemon tivesse sido adotado pelos "Backyardigans" e mandado para "A Ilha do Dr. Moreau" (quem nunca viu esse filme péssimo, nem perca tempo imaginando). E, como fiz o cursinho "Olympic Mascots for Dummies", compartilho aqui a minha sabedoria no assunto:
Quatchi é um "sasquatch", ou Pé Grande, ou ainda, o elo perdido entre o homem e o macaco. E, apesar de folclórico, é o mais convincente dos mascotes. Pelo menos sabe o que é. Miga é uma mistura de baleia orca com urso (ou seria um urso com nadadeiras de baleia ?), mas à primeira vista, tem a maior cara de panda com topete de Elvis e bigodinho de cantor de churrascaria na beira da estrada, sendo mais apropriada para as Olimpíadas de verão na China. O campeão da esquisitice é Sumi, um urso com asas e fantasia de madrinha da bateria de escola de samba do segundo grupo (de cidade do interior). Aliás, Sumi, a Estátua da Liberdade foi convocada para a guerra e pediu que você devolvesse o capacete dela para apresentar-se às forças armadas em Kandahar !
E, apesar de serem no inverno os jogos de Vancouver, o único mascote vestido é Sumi. Quatchi usa somente aquecedores de orelha (talvez por ser peludo) e Miga vai de cachecol e mais nada. Depois de verem a fantasia de Sumi, os outros dois optaram somente por usar acessórios e quem pode culpá-los ? Morra de frio, mas não de vergonha (cá para nós, hipotermia mata, mas vergonha não, mas cada um sabe de si).
Segundo o comitê organizador, os mascotes ganharam elogios entre a criançada e serão um sucesso de vendas. O Pacotinho de Consumismo pode pedir e implorar que não vai sair vestido com a roupa de Sumi, já fica aqui registrada a promessa.
Se a moda pega, na Copa de 2014 teremos como mascotes no Brasil o Curupira com cocar de índio, um mico leão-dourado com nadadeiras de boto cor-de-rosa e uma tartaruga marinha com asas de arara...
PS: Comentário profundo do Marido Gringo ao ver os mascotes: "I knew it was going to be some bullshit native crap, but this is just stupid". Resumiu numa frase o que eu levei uma página para dizer. Ah, o poder de síntese do sexo masculino !
27 novembro, 2007
Escritores da Liberdade

A Nanny do blog Unzip Canada indicou este humilde blog que vos "fala" e não dá informação sobre imigração para o prêmio "Escritores da Liberdade". A idéia do prêmio é do blog Batom cor-de-rosa. Se só isso já não fosse motivo para eu querer colocar um vestido longo (passado pela empregada), arrumar o cabelo (no salão, que se fui pobre, já me esqueci) e desfilar num tapete vermelho (aspirado pela faxineira, óbvio), os motivos pelos quais ela fez a indicação seriam razões de orgulho: "pelo bom humor de seus textos e honestidade em suas opiniões". O humor é genético, não é mérito meu, mas do DNA do meu pai. Se ele e meus irmãos tivessem um blog, ficaria fácil constatar tal afirmação colocando os "links" aqui. O que eu gostei mesmo foi da "honestidade em suas opiniões". Para quem passou a infância e parte da adolescência sob o manto asqueroso da ditadura, é uma dádiva poder expressar as próprias idéias abertamente.
Fico até surpresa ao ver que alguns candidatos a imigrantes lêem o blog, que além de não ser útil ao processo de imigração, não pinta sempre aquela imagem cor-de-rosa a respeito das bandas de cá, que geralmente é o que mais interessa aos decepcionados com o Brasil.
E, como a regra diz que é preciso indicar outros 3 blogs, fiquei quebrando a cabeça nestes últimos dias. "Escritores da Liberdade", não dá para ser qualquer um. E como eu não leio muitos blogs (trabalhando em tempo integral, com filho pequeno e sem empregada, é por pura sem-vergonhice minha mesmo, que tempo eu tenho de sobra), vou indicar aqui alguns que traduzem a idéia do prêmio:
Era uma vez e é ainda - da Carla, pela habilidade de enxergar humor no cotidiano e pela sinceridade em falar (e fazer piada) de trabalho, marido, filhos, sem ficar presa a um único assunto de brasileira morando no exterior.
Cotidiano Urbano - da minha grande amiga Juliana, que escreve com o coração na ponta dos dedos, transmitindo a emoção para o outro lado do monitor.
Síndrome de Estocolmo - por abordar assuntos de cunho social tão importante e por organizar a blogagem coletiva, divulgando boas causas pela net.
26 novembro, 2007
Winter Vocabulary 101
Semana passada tivemos os primeiros acidentes causados por "black ice". Aí me ocorreu que a expressão é uma das muitas que aprendi aqui, já que os livros de inglês raramente mencionam que "Mrs. Brown had a car accident due to black ice" e pensei em compartilhar alguns termos pouco comuns aos conterrâneos tropicais:
Black Ice - camada fina de gelo sobre o asfalto, geralmente causada pelo congelamento do orvalho. Agora vai querer explicar isso pro cara que nasceu e cresceu em Manaus, onde é mais fácil encontrar asfalto mole, derretido pelo calor !
Blizzard - tempestade de neve. Dez minutos de "blizzard" transformam completamente uma rua, as casas, as árvores, tudo vira a Vila do Papai Noel.
Flurry - uma queda rápida e fraquinha de neve (é "queda" de neve que se fala ? Em inglês é "snowfall", mas procurei no arquivo do meu vocabulário de candanga e não encontrei).
Frost - geada. Para a esmagadora proporção de gaúchos que compõem a comunidade brazuca aqui, não deve ser novidade.
Frostbite - lesão de pele e do tecido subcutâneo, mais comum no nariz, orelhas e pontas dos dedos das mãos e dos pés, causada por exposição prolongada a temperaturas abaixo de zero. O único jeito de eu ter uma coisa dessas é se houver um acidente e eu ficar presa sob uma avalanche. Eu, por vontade própria, passar o dia na neve, sem todo o equipamento necessário, sem chance ! Aliás, nem com toda a tralha indispensável eu topo entrar numa fria dessas. Convide-me para Cancún ou Natal, que depois a gente conversa.
Hail - chuva de gelo. Pelo menos aqui em Raincouver, onde raramente ocorrem tempestades, parece chuva de granizo, com pedrinhas pequenas de gelo branco. Iuhu ! Alguma coisa que eu já tinha visto antes de vir para cá ! Não que faça falta alguma, que feliz mesmo é o cara que não sabe nada disso porque mora numa praia tropical, onde há sol e calor o ano inteiro.
Raynaud Syndrome - eu nunca tinha ouvido falar nisso, até pisar na neve pela primeira vez e descobrir que eu tenho essa porcaria. Está explicado o porquê de eu detestar o frio ! Tem piorado a cada ano e agora, mesmo sem ter nevado, meus dedos dos pés já estão doendo quando saio na rua.
Slush - gelo ou neve parcialmente derretido. A neve fresca é linda, o slush que aparece quase sempre no dia seguinte (ou no mesmo dia) aqui em Vancouver é que é nojento. Aquele neve misturada com lama, em cima da calçada, faz uma travessia de 10 minutos (no verão) empurrando um carrinho de neném levar eternos 40 minutos de raiva e escorregões.
Snow - nem vou perder tempo tentando explicar as inúmeras variações para neve "wet snow", "fresh snow", "corn snow", "crud" (neve muito dura, imprópria para esquiar), porque, para quem nunca viu, não faz diferença alguma dizer que a neve está fresca, molhada ou boa para esquiar. Ou faz ? Para quem lida com ela por vários meses no ano: sinto muito, tenho pena de você, mas seu lugar já deve estar reservado no Céu. Vale lembrar que "snow" também é uma gíria para cocaína (aprendo mais palavras com os pacientes viciados em drogas do que com os "certinhos").
Em mais um daqueles mistérios inexplicáveis, os canadenses medem a própria altura em pés, mas num ataque de bom senso, falam na quantidade de neve em centímetros. Só assim para compreender quando a metereologia avisa da previsão de "snowfall" para o dia seguinte.
Como diria a turma do Pernalonga: "that's all folks" ! Aguarde, num Iglu perto de você, um vocabulário básico sobre as tralhas necessárias para sobreviver ao inverno com um mínimo de dignidade e sem hipotermia.
Black Ice - camada fina de gelo sobre o asfalto, geralmente causada pelo congelamento do orvalho. Agora vai querer explicar isso pro cara que nasceu e cresceu em Manaus, onde é mais fácil encontrar asfalto mole, derretido pelo calor !
Blizzard - tempestade de neve. Dez minutos de "blizzard" transformam completamente uma rua, as casas, as árvores, tudo vira a Vila do Papai Noel.
Flurry - uma queda rápida e fraquinha de neve (é "queda" de neve que se fala ? Em inglês é "snowfall", mas procurei no arquivo do meu vocabulário de candanga e não encontrei).
Frost - geada. Para a esmagadora proporção de gaúchos que compõem a comunidade brazuca aqui, não deve ser novidade.
Frostbite - lesão de pele e do tecido subcutâneo, mais comum no nariz, orelhas e pontas dos dedos das mãos e dos pés, causada por exposição prolongada a temperaturas abaixo de zero. O único jeito de eu ter uma coisa dessas é se houver um acidente e eu ficar presa sob uma avalanche. Eu, por vontade própria, passar o dia na neve, sem todo o equipamento necessário, sem chance ! Aliás, nem com toda a tralha indispensável eu topo entrar numa fria dessas. Convide-me para Cancún ou Natal, que depois a gente conversa.
Hail - chuva de gelo. Pelo menos aqui em Raincouver, onde raramente ocorrem tempestades, parece chuva de granizo, com pedrinhas pequenas de gelo branco. Iuhu ! Alguma coisa que eu já tinha visto antes de vir para cá ! Não que faça falta alguma, que feliz mesmo é o cara que não sabe nada disso porque mora numa praia tropical, onde há sol e calor o ano inteiro.
Raynaud Syndrome - eu nunca tinha ouvido falar nisso, até pisar na neve pela primeira vez e descobrir que eu tenho essa porcaria. Está explicado o porquê de eu detestar o frio ! Tem piorado a cada ano e agora, mesmo sem ter nevado, meus dedos dos pés já estão doendo quando saio na rua.
Slush - gelo ou neve parcialmente derretido. A neve fresca é linda, o slush que aparece quase sempre no dia seguinte (ou no mesmo dia) aqui em Vancouver é que é nojento. Aquele neve misturada com lama, em cima da calçada, faz uma travessia de 10 minutos (no verão) empurrando um carrinho de neném levar eternos 40 minutos de raiva e escorregões.
Snow - nem vou perder tempo tentando explicar as inúmeras variações para neve "wet snow", "fresh snow", "corn snow", "crud" (neve muito dura, imprópria para esquiar), porque, para quem nunca viu, não faz diferença alguma dizer que a neve está fresca, molhada ou boa para esquiar. Ou faz ? Para quem lida com ela por vários meses no ano: sinto muito, tenho pena de você, mas seu lugar já deve estar reservado no Céu. Vale lembrar que "snow" também é uma gíria para cocaína (aprendo mais palavras com os pacientes viciados em drogas do que com os "certinhos").
Em mais um daqueles mistérios inexplicáveis, os canadenses medem a própria altura em pés, mas num ataque de bom senso, falam na quantidade de neve em centímetros. Só assim para compreender quando a metereologia avisa da previsão de "snowfall" para o dia seguinte.
Como diria a turma do Pernalonga: "that's all folks" ! Aguarde, num Iglu perto de você, um vocabulário básico sobre as tralhas necessárias para sobreviver ao inverno com um mínimo de dignidade e sem hipotermia.
SAL do Iglu
O Serviço de Informação ao Leitor do Iglu responde:
Para Cris:
Não conheço nenhum livro específico sobre o assunto, mas se a sua irmã está no Orkut, recomendo as comunidades Curumim e Raising Bilingual Children. A orientação que já recebi aqui de duas fonoaudiólogas é a de que os pais devem sempre falar com a criança na sua primeira língua (dos pais). Sem querer criticar o pediatra do seu sobrinho, ele não é o profissional mais indicado para ajudar no assunto. E há muitas crianças expostas a somente um idioma que não falam muito antes dos 3 anos de idade, sem que haja nada errado com elas (ou com os pais).
Para Carla, consultora de assuntos aeroportuários:
Seus comentários sábios não chegaram ! Gente, será que estamos sendo espionadas e o sistema de inteligência que lida com segurança nos aeroportos já confiscou seu comentário antes de ele chegar ao destino ? Que medo !
Para Cris:
Não conheço nenhum livro específico sobre o assunto, mas se a sua irmã está no Orkut, recomendo as comunidades Curumim e Raising Bilingual Children. A orientação que já recebi aqui de duas fonoaudiólogas é a de que os pais devem sempre falar com a criança na sua primeira língua (dos pais). Sem querer criticar o pediatra do seu sobrinho, ele não é o profissional mais indicado para ajudar no assunto. E há muitas crianças expostas a somente um idioma que não falam muito antes dos 3 anos de idade, sem que haja nada errado com elas (ou com os pais).
Para Carla, consultora de assuntos aeroportuários:
Seus comentários sábios não chegaram ! Gente, será que estamos sendo espionadas e o sistema de inteligência que lida com segurança nos aeroportos já confiscou seu comentário antes de ele chegar ao destino ? Que medo !
22 novembro, 2007
Os Programas de TV dos Filhos

No Primeiro Mundo sem babá ou empregada, volta e meia você terceiriza a atenção ao seu filho à TV (não sem alguma culpa, que fique claro). Quando ele não assiste aos DVDs brasileiros ou à série Baby Einstein, a TV fica no Treehouse. E mesmo sem sentar e prestar atenção aos programas, há sempre aqueles irritantes, capazes de levar você ao desespero enquanto faz os serviços domésticos (não sem muita inveja das amigas na terrinha que dispõem de criadagem, que fique BEM claro).
Num feriado chuvoso qualquer, enquanto você cozinha, seu marido limpa a casa e seu filho espalha os brinquedos pela sala, a TV está ligada no insuportável Toopy and Binoo, mas pelos comentários do marido, você acharia que o canal é outro:
- Ah, não ! Agora, além de psicopata e sádico, este rato também é travesti !
- Eu ODEIO este rato, até a voz dele é insuportável.
- Mas o desenho do rato doido acabou de terminar, para que vão passar outro episódio ? Por que eles me torturam tanto ?
Para você nada é mais deprimente do que o desenho canadense The Mole Sisters. Aliás, segundo o Marido Gringo, a garantia de que o desenho é chato é dada logo na abertura, quando aparece a bandeirinha do Canadá. Não recomendo que adultos com qualquer tipo de depressão estejam presentes na sala quando essa chatice começa, já que o risco de suicídio eleva-se à terceira potência (dados do IFPI: Instituto Flaviano de Pesquisas Irrevelantes). Não é surpresa que, numa pesquisa do google sobre "The Mole Sisters", aparece na própria página do programa Tree House: "boring shows" e "the least favourite shows on Treehouse".
Tudo bem, as crianças não vêem com olhos de adulto. Tom & Jerry também eram sádicos, Pernalonga também se vestia de mulher e ninguém cresceu traumatizado por conta disso. Já adulta, quando assisti novamente ao meu filme favorito de infância, fiquei chocada ao constatar o quão sádico era o Mr. Wonka de A Fantástica Fábrica de Chocolates. E pensar que, na era pré-videocassete, eu queria faltar a aula sempre que reprisavam o filme na Sessão da Tarde !
19 novembro, 2007
A Gravidez Demorada e A Comunicação Truncada
Depois do plantão, a conversa com o Marido sobre como havia sido a noite de trabalho.
- Acredita que ontem havia uma mulher em trabalho de parto com 47 ?
- QUARENTA E SETE ?
- Inacreditável, né ? O anestesista até pensou que tivesse pego o prontuário errado.
- Mas isso é possível ?
- Claro, ela estava lá.
- Não sabia que eles permitiam isso.
- Como assim ? Ninguém precisa de permissão para ter filho !
- Eu achava que os médicos deixavam no máximo até 42.
- Com 47 tem mais riscos, mas os médicos não têm que deixar ou impedir nada.
- Eu sempre achei que eles induzissem com 42.
- Você está pensando em semanas ?
- É, induzir o parto com no máximo 42 semanas.
- Não, ela tinha 47 anos de idade !
- Acredita que ontem havia uma mulher em trabalho de parto com 47 ?
- QUARENTA E SETE ?
- Inacreditável, né ? O anestesista até pensou que tivesse pego o prontuário errado.
- Mas isso é possível ?
- Claro, ela estava lá.
- Não sabia que eles permitiam isso.
- Como assim ? Ninguém precisa de permissão para ter filho !
- Eu achava que os médicos deixavam no máximo até 42.
- Com 47 tem mais riscos, mas os médicos não têm que deixar ou impedir nada.
- Eu sempre achei que eles induzissem com 42.
- Você está pensando em semanas ?
- É, induzir o parto com no máximo 42 semanas.
- Não, ela tinha 47 anos de idade !
18 novembro, 2007
Tasered to Death
Faz tempo que eu queria escrever sobre o caso do imigrante polonês, morto por choque dado pela polícia canadense com um "taser" (arma que emite corrente elétrica de alta voltagem) no aeroporto de Vancouver (YVR, para os íntimos), mas não ia dizer nada antes de assistir ao vídeo liberado esta semana.
O rapaz de 40 anos saiu do seu país pela primeira vez, para imigrar para o Canadá, onde já morava sua mãe. Sem falar uma palavra de inglês, combinou de encontrar-se com ela na esteira de bagagens. Ela, que obviamente já havia feito o mesmo percurso ao menos uma vez, esqueceu-se de que não há acesso ao público na esteira de bagagens de vôos internacionais, porque é preciso primeiro passar pela alfândega. O azarado, que nunca havia feito uma viagem dessas, ficou 9 horas esperando por ela do lado de dentro, enquanto ela o esperou por 5 horas do lado de fora, provavelmente no local onde chegam as malas de vôos domésticos.
Depois de um longo vôo, sem encontrar nenhum conhecido, sem saber como pedir ajuda, provavelmente faminto e cansado, ele começou a colocar para fora a sua frustração. Ficou nervoso, jogou uma cadeira no chão, mas não atacou ninguém fisicamente. Parece que ele havia parado recentemente de fumar, o que pode ter contribuído para a agitação (cigarro é uma praga até depois de abandonado o vício). O vídeo mostra claramente que, assim que viu os 4 policiais, ele levantou as mãos, na linguagem universal de quem está se entregando. Mesmo assim, levou os choques e faleceu (leia a notícia na íntegra).
As perguntas que me martelam a cabeça:
- Por que, num aeroporto internacional, NINGUÉM encontrou um tradutor que falasse polonês ? (No centro cirúrgico onde eu trabalho há muito menos funcionários e é raro o dia em que não encontramos algum colega para traduzir qualquer idioma - por sinal, temos 2 funcionários poloneses)
- Por que ninguém teve a curiosidade de pegar o passaporte do rapaz e ver que ele era polonês e não russo, como ficaram insistindo no vídeo ?
- Por que, em 9 horas esperando na alfândega, ninguém tomou uma providência para ajudar o infeliz ?
- Por que, em 5 horas de espera do lado de fora, a mãe do rapaz, que já mora aqui e deve falar um mínimo de inglês, não conseguiu ajuda para informar-se de que o filho estava no vôo e se havia chegado ?
- Por que usaram o "taser", se eram 4 policiais contra um homem desarmado ?
- Por que, mesmo depois que o rapaz estava no chão, todos os homens subiram nele e deram mais um choque ?
E a pergunta mais intrigante de todas :
- Por que, ao constatarem que ele não tinha mais pulso (se estavam em cima dele, dava para ver quando ele morreu), NINGUÉM tentou reanimação cardíaca ou ligou para 911 ? Se isso não for omissão de socorro, o que é ?
Os quatro policiais não foram afastados do cargo e espero que não integrem o comitê de boas vindas aos visitantes e atletas das Olimpíadas de 2010.
E só para tranqüilizar os turistas que não falam inglês e pretendem dar as caras por aqui: se o vôo parar em Toronto, a alfândega é feita por lá mesmo, então a chance de levar um choque da polícia do aeroporto de Vancouver é mínima. As malas dos vôos domésticos chegam numa parte aberta ao público e, se você estiver bem comportado, encontra sua família ou amigos antes de ser descoberto pela polícia. E, totalmente "off topic", mas nem tanto: nunca é demais lembrar que a palavra "bomba" jamais deve ser pronunciada nas proximidades de um aeroporto, em qualquer língua.
E pensar que eu achava que era muito azar perderem as minhas malas nas viagens internacionais. Pelo menos nunca tomei esse tipo de choque !
Carla, consultora oficial do Iglu para assuntos aeroportuários, pode dar uma luz ?
O rapaz de 40 anos saiu do seu país pela primeira vez, para imigrar para o Canadá, onde já morava sua mãe. Sem falar uma palavra de inglês, combinou de encontrar-se com ela na esteira de bagagens. Ela, que obviamente já havia feito o mesmo percurso ao menos uma vez, esqueceu-se de que não há acesso ao público na esteira de bagagens de vôos internacionais, porque é preciso primeiro passar pela alfândega. O azarado, que nunca havia feito uma viagem dessas, ficou 9 horas esperando por ela do lado de dentro, enquanto ela o esperou por 5 horas do lado de fora, provavelmente no local onde chegam as malas de vôos domésticos.
Depois de um longo vôo, sem encontrar nenhum conhecido, sem saber como pedir ajuda, provavelmente faminto e cansado, ele começou a colocar para fora a sua frustração. Ficou nervoso, jogou uma cadeira no chão, mas não atacou ninguém fisicamente. Parece que ele havia parado recentemente de fumar, o que pode ter contribuído para a agitação (cigarro é uma praga até depois de abandonado o vício). O vídeo mostra claramente que, assim que viu os 4 policiais, ele levantou as mãos, na linguagem universal de quem está se entregando. Mesmo assim, levou os choques e faleceu (leia a notícia na íntegra).
As perguntas que me martelam a cabeça:
- Por que, num aeroporto internacional, NINGUÉM encontrou um tradutor que falasse polonês ? (No centro cirúrgico onde eu trabalho há muito menos funcionários e é raro o dia em que não encontramos algum colega para traduzir qualquer idioma - por sinal, temos 2 funcionários poloneses)
- Por que ninguém teve a curiosidade de pegar o passaporte do rapaz e ver que ele era polonês e não russo, como ficaram insistindo no vídeo ?
- Por que, em 9 horas esperando na alfândega, ninguém tomou uma providência para ajudar o infeliz ?
- Por que, em 5 horas de espera do lado de fora, a mãe do rapaz, que já mora aqui e deve falar um mínimo de inglês, não conseguiu ajuda para informar-se de que o filho estava no vôo e se havia chegado ?
- Por que usaram o "taser", se eram 4 policiais contra um homem desarmado ?
- Por que, mesmo depois que o rapaz estava no chão, todos os homens subiram nele e deram mais um choque ?
E a pergunta mais intrigante de todas :
- Por que, ao constatarem que ele não tinha mais pulso (se estavam em cima dele, dava para ver quando ele morreu), NINGUÉM tentou reanimação cardíaca ou ligou para 911 ? Se isso não for omissão de socorro, o que é ?
Os quatro policiais não foram afastados do cargo e espero que não integrem o comitê de boas vindas aos visitantes e atletas das Olimpíadas de 2010.
E só para tranqüilizar os turistas que não falam inglês e pretendem dar as caras por aqui: se o vôo parar em Toronto, a alfândega é feita por lá mesmo, então a chance de levar um choque da polícia do aeroporto de Vancouver é mínima. As malas dos vôos domésticos chegam numa parte aberta ao público e, se você estiver bem comportado, encontra sua família ou amigos antes de ser descoberto pela polícia. E, totalmente "off topic", mas nem tanto: nunca é demais lembrar que a palavra "bomba" jamais deve ser pronunciada nas proximidades de um aeroporto, em qualquer língua.
E pensar que eu achava que era muito azar perderem as minhas malas nas viagens internacionais. Pelo menos nunca tomei esse tipo de choque !
Carla, consultora oficial do Iglu para assuntos aeroportuários, pode dar uma luz ?
14 novembro, 2007
SAL do Iglu para Leticia
Diretamente do computador gringo do hospital, que desconhece acentos e cedilhas:
O meu sling eu comprei pela internet, no babyslings.com. Eu usei muito mais o canguru Baby Bjorn, de 10 dias de vida ateh 9 meses. Ateh 3 meses, ele ficava virado para mim, depois passei a vira-lo para a frente. Peguei a manha de amamentar com o nenem dentro do canguru, caminhando, sem precisar parar, NADA mais pratico na vida, principalmente para viagens. O nenem jah estah em peh, nao precisa tirar nem para arrotar. Ateh uns 4 meses, ele soh tirava sonecas diarias no canguru (sempre dormiu bem de noite, mas de dia, era uma luta) e soh passei a usar o carrinho depois que ele completou 6 meses, mesmo assim, ainda preferia o canguru.
O sling e o canguru (embora tenha gente que ache que o canguru traz problemas para a coluna do bebe) sao excelentes para acalmar o bebe, recomendados pelo Dr. Karp. Para bebes com refluxo, que acabam morando dentro do canguru, eh uma bencao.
Dentre todas as compras do enxoval, o dinheiro mais bem gasto foi com o Baby Bjorn. Quem tem sling tambem recomenda. Um bom sling pode ser usado desde recem-nascido ateh uns 3, 4 anos de idade.
O meu sling eu comprei pela internet, no babyslings.com. Eu usei muito mais o canguru Baby Bjorn, de 10 dias de vida ateh 9 meses. Ateh 3 meses, ele ficava virado para mim, depois passei a vira-lo para a frente. Peguei a manha de amamentar com o nenem dentro do canguru, caminhando, sem precisar parar, NADA mais pratico na vida, principalmente para viagens. O nenem jah estah em peh, nao precisa tirar nem para arrotar. Ateh uns 4 meses, ele soh tirava sonecas diarias no canguru (sempre dormiu bem de noite, mas de dia, era uma luta) e soh passei a usar o carrinho depois que ele completou 6 meses, mesmo assim, ainda preferia o canguru.
O sling e o canguru (embora tenha gente que ache que o canguru traz problemas para a coluna do bebe) sao excelentes para acalmar o bebe, recomendados pelo Dr. Karp. Para bebes com refluxo, que acabam morando dentro do canguru, eh uma bencao.
Dentre todas as compras do enxoval, o dinheiro mais bem gasto foi com o Baby Bjorn. Quem tem sling tambem recomenda. Um bom sling pode ser usado desde recem-nascido ateh uns 3, 4 anos de idade.
13 novembro, 2007
Remembrance Day
"Remembrance Day (Australia, Canada, United Kingdom), also known as Poppy Day (Malta, South Africa) or Armistice Day (France, New Zealand, and a number of other Commonwealth countries; and the original name of the day internationally) is a day to commemorate the sacrifices of members of the armed forces and of civilians in times of war, specifically since the First World War. It is observed on 11 November to recall the end of World War I on that date in 1918."
Wikipedia
Não, nem toda segunda-feira aqui é feriado, como perguntou a minha mãe ontem. Também nem toda primeira segunda-feira do mês é feriado, como entendeu a minha irmã. Aliás, quem me dera ! O Canadá está situado entre os países com menor número de feriados, de acordo com o Instituto do Marido Gringo (procurei na net e não encontrei a tal lista).
O feriado de ontem (que nem era a primeira segunda-feira do mês, por sinal) foi o do "Remembrance Day." No verão, até que há um feriado por mês aqui em BC: tem Victoria Day (na segunda-feira próxima ao dia 24 de maio), Canada Day (1 de julho), BC Day (primeira segunda-feira de agosto) e Labour Day (primeira segunda-feira de setembro).
E agora, feriado só no Natal e no Boxing Day (dia 26 de dezembro), que o pessoal aqui também trabalha nas segundas-feiras, viu ?
PS: Eu acho que deveríamos observar todas as datas importantes para as diversas culturas e poderia haver um Dia do Evangélico, Dia do Muçulmano, comemoração da travessia do Mar Vermelho, aniversário de Buda, início da greve de fome de Gandhi, libertação de Mandela, etc. E, mesmo com o inconveniente da creche, que não abre nos dias não-úteis (o Pai Cansado já determinou que creche deveria ser serviço essencial e ficar aberta 24 horas, em caso de necessidade), eu ganho o dobro para trabalhar em feriados e 2,5 a hora normal para trabalhar no Natal, Sexta-Feira da Paixão e Dia do Trabalho. A briga nos hospitais aqui é para ver quem NÃO vai folgar nos feriados.
Wikipedia
Não, nem toda segunda-feira aqui é feriado, como perguntou a minha mãe ontem. Também nem toda primeira segunda-feira do mês é feriado, como entendeu a minha irmã. Aliás, quem me dera ! O Canadá está situado entre os países com menor número de feriados, de acordo com o Instituto do Marido Gringo (procurei na net e não encontrei a tal lista).
O feriado de ontem (que nem era a primeira segunda-feira do mês, por sinal) foi o do "Remembrance Day." No verão, até que há um feriado por mês aqui em BC: tem Victoria Day (na segunda-feira próxima ao dia 24 de maio), Canada Day (1 de julho), BC Day (primeira segunda-feira de agosto) e Labour Day (primeira segunda-feira de setembro).
E agora, feriado só no Natal e no Boxing Day (dia 26 de dezembro), que o pessoal aqui também trabalha nas segundas-feiras, viu ?
PS: Eu acho que deveríamos observar todas as datas importantes para as diversas culturas e poderia haver um Dia do Evangélico, Dia do Muçulmano, comemoração da travessia do Mar Vermelho, aniversário de Buda, início da greve de fome de Gandhi, libertação de Mandela, etc. E, mesmo com o inconveniente da creche, que não abre nos dias não-úteis (o Pai Cansado já determinou que creche deveria ser serviço essencial e ficar aberta 24 horas, em caso de necessidade), eu ganho o dobro para trabalhar em feriados e 2,5 a hora normal para trabalhar no Natal, Sexta-Feira da Paixão e Dia do Trabalho. A briga nos hospitais aqui é para ver quem NÃO vai folgar nos feriados.
10 novembro, 2007
Ah, the perks !
"Perk
noun
1. an incidental benefit awarded for certain types of employment (especially if it is regarded as a right); "a limousine is one of the fringe benefits of the job" [syn: fringe benefit]"
A gente trabalha longas horas de pé, volta e meia recebe um paciente violento, corre diariamente o risco de pegar uma infecção ou de levar uma espirrada de sangue no rosto (que, por sinal, deve estar devidamente coberto com óculos de proteção e máscara, ao contrário do que a gente vê na TV) e não tem a vida excitante nos corredores do hospital, como a turma do Grey's Anatomy, então qual a vantagem de trabalhar na sala de cirurgia ? Como disse uma amiga ginecologista que pediu e ganhou uma anestesia rapidíssima quando estava em trabalho de parto: "I'm here for the perks".
Ninguém melhor do que a galera que trabalha ao lado dos cirurgiões para saber quem escolher na hora de tirar a vesícula e quem recusar na hora de tirar uma verruguinha que seja. Um cirurgião vascular sempre diz "quer saber quem é bom aqui ? Não pergunte para mim, eu só conheço a minha especialidade. Pergunte às enfermeiras e aos anestesistas".
O problema de estar cercada de entendidos no assunto é que não se pode ter nenhum defeito visível.
- Flávia, o que é isso no seu pescoço ? (pergunta uma colega, logo de manhã cedo)
- Tem alguma coisa no meu pescoço ?
- Tem um caroço ("a lump") do lado direito. (nisso, já eram quatro espiando e apontando)
- Dr. Fulano (especialista em cirurgia de garganta e pescoço) está operando hoje. Passa lá na sala 8 no intervalo que ele dá uma olhada. Jura que você não notou isso antes ?
Entre a ziquezira ter aparecido no meu pescoço (juro que, apesar de grande e óbvia, não estava lá na noite anterior ou estava escondida sob a blusa de gola alta e o cachecol. Quem manda ser friorenta e vir morar longe dos trópicos ?) e o especialista ter examinado passaram-se duas horas. O tempo de espera costuma ser de 3 meses para ser vista por um especialista, após indicação do médico de família. Como o sistema aqui impede que se vá diretamente a um especialista sem passar por um clínico geral (pode ser lindo no papel, mas na prática é lento e irritante), mesmo já tendo sido vista por ele, preciso de um encaminhamento. Liguei para a minha médica, que só tem vaga para dia 22. Já sabendo do que preciso, fui a uma "walk-in clinic" no mesmo dia, somente para dizer à médica lá o que escrever no papel: um pedido de ultrassom e um encaminhamento para consulta com Dr. Fulano de Tal. Ela queria marcar a consulta e o exame (aqui é assim), mas desistiu quando eu disse que tinha permissão do especialista para ligar diretamente para a secretária dele (precisa de autorização) e marcar eu mesma. Segunda-feira é feriado, vamos ver na terça quanto tempo terei que esperar para fazer o ultrassom e ver o médico. Quem sabe, mexendo os pauzinhos eu ainda consiga fazer a biópsia antes do Natal. Sim, porque o troço não dói nem incomoda, tem 95% de chance de ser benigno, mas agora que eu sei que está lá, quero tirá-lo o quanto antes.
E pensar que um dos caras mais asquerosos e de competência duvidosa lá do hospital é justamente um "especialista" em cirurgia de pescoço ! A ignorância é, muitas vezes, uma bênção. Como todos os meus colegas, se eu algum dia tiver uma dor abdominal violenta no meio da madrugada, vou ligar lá no centro cirúrgico e perguntar quem está de plantão. Dependendo da resposta, vou para outro hospital. Melhor ser operada por um estranho do que por alguém que leva 4 horas numa cirurgia que costuma levar 40 minutos (pelo menos com o estranho a chance é de 50% de ele saber o que está fazendo, né ?).
Minha carreira de modelo internacional, que já andava em baixa pelas pelancas pós-parto, agora está totalmente arruinada pelo caroço no pescoço.
noun
1. an incidental benefit awarded for certain types of employment (especially if it is regarded as a right); "a limousine is one of the fringe benefits of the job" [syn: fringe benefit]"
A gente trabalha longas horas de pé, volta e meia recebe um paciente violento, corre diariamente o risco de pegar uma infecção ou de levar uma espirrada de sangue no rosto (que, por sinal, deve estar devidamente coberto com óculos de proteção e máscara, ao contrário do que a gente vê na TV) e não tem a vida excitante nos corredores do hospital, como a turma do Grey's Anatomy, então qual a vantagem de trabalhar na sala de cirurgia ? Como disse uma amiga ginecologista que pediu e ganhou uma anestesia rapidíssima quando estava em trabalho de parto: "I'm here for the perks".
Ninguém melhor do que a galera que trabalha ao lado dos cirurgiões para saber quem escolher na hora de tirar a vesícula e quem recusar na hora de tirar uma verruguinha que seja. Um cirurgião vascular sempre diz "quer saber quem é bom aqui ? Não pergunte para mim, eu só conheço a minha especialidade. Pergunte às enfermeiras e aos anestesistas".
O problema de estar cercada de entendidos no assunto é que não se pode ter nenhum defeito visível.
- Flávia, o que é isso no seu pescoço ? (pergunta uma colega, logo de manhã cedo)
- Tem alguma coisa no meu pescoço ?
- Tem um caroço ("a lump") do lado direito. (nisso, já eram quatro espiando e apontando)
- Dr. Fulano (especialista em cirurgia de garganta e pescoço) está operando hoje. Passa lá na sala 8 no intervalo que ele dá uma olhada. Jura que você não notou isso antes ?
Entre a ziquezira ter aparecido no meu pescoço (juro que, apesar de grande e óbvia, não estava lá na noite anterior ou estava escondida sob a blusa de gola alta e o cachecol. Quem manda ser friorenta e vir morar longe dos trópicos ?) e o especialista ter examinado passaram-se duas horas. O tempo de espera costuma ser de 3 meses para ser vista por um especialista, após indicação do médico de família. Como o sistema aqui impede que se vá diretamente a um especialista sem passar por um clínico geral (pode ser lindo no papel, mas na prática é lento e irritante), mesmo já tendo sido vista por ele, preciso de um encaminhamento. Liguei para a minha médica, que só tem vaga para dia 22. Já sabendo do que preciso, fui a uma "walk-in clinic" no mesmo dia, somente para dizer à médica lá o que escrever no papel: um pedido de ultrassom e um encaminhamento para consulta com Dr. Fulano de Tal. Ela queria marcar a consulta e o exame (aqui é assim), mas desistiu quando eu disse que tinha permissão do especialista para ligar diretamente para a secretária dele (precisa de autorização) e marcar eu mesma. Segunda-feira é feriado, vamos ver na terça quanto tempo terei que esperar para fazer o ultrassom e ver o médico. Quem sabe, mexendo os pauzinhos eu ainda consiga fazer a biópsia antes do Natal. Sim, porque o troço não dói nem incomoda, tem 95% de chance de ser benigno, mas agora que eu sei que está lá, quero tirá-lo o quanto antes.
E pensar que um dos caras mais asquerosos e de competência duvidosa lá do hospital é justamente um "especialista" em cirurgia de pescoço ! A ignorância é, muitas vezes, uma bênção. Como todos os meus colegas, se eu algum dia tiver uma dor abdominal violenta no meio da madrugada, vou ligar lá no centro cirúrgico e perguntar quem está de plantão. Dependendo da resposta, vou para outro hospital. Melhor ser operada por um estranho do que por alguém que leva 4 horas numa cirurgia que costuma levar 40 minutos (pelo menos com o estranho a chance é de 50% de ele saber o que está fazendo, né ?).
Minha carreira de modelo internacional, que já andava em baixa pelas pelancas pós-parto, agora está totalmente arruinada pelo caroço no pescoço.
07 novembro, 2007
A diferença entre um gato e "a cat"
O "post" de hoje vai para a minha irmã, que inocentemente deduziu que os gatos seriam iguais no mundo inteiro.
Como assim diferença ? Um não é sinônimo do outro, só que em outra língua ? Não, caro leitor que tem tempo de sobra para ler as bobagens que eu escrevo, não são a mesma coisa. Há diferenças culturais que afetam as vidas dos bichanos, senão a pergunta "quantas vidas tem um gato ?" teria a mesma resposta ao redor do mundo.
"A cat", nascido no Primeiro Mundo, criado com ração chique, que é vendida num corredor imenso do supermercado destinado somente a "pet food", chega a este planeta com nove vidas ("a cat has nine lives", pode pesquisar por aí). Pelo menos quatro delas dedicadas a assistir preguiçosamente aos inúmeros comerciais de TV que mostram produtos exclusivos para eles. Um gato, nascido num país em desenvolvimento (não sei sobre os felinos domésticos de Portugal), tem somente sete vidas. Também pudera, é poluição, estresse no trânsito, medo da violência urbana, leite adulterado com água oxigenada, cachorros andando sem coleira nas ruas, churrasquinho de felino sendo vendido em novela (os mais jovens provavelmente não vão se lembrar, mas numa novela antiga, havia uma senhora que vendia literalmente gato por lebre). Ah ! E ainda tem o Carnaval, com o couro de gato no tamborim (ou será cuíca ? Minha ignorância sambística impede a afirmação).
E o que fazem os "cats" com as duas vidas sobressalentes ? Provavelmente as usam na aposentadoria, quando já gordos e cansados, mudam-se para um lugar tropical, onde aproveitam os anos da velhice cochilando numa rede de casa de praia ensolarada. Antes tarde do que nunca. Talvez, com um pouco de "sorte", até avistem um camundongo ao vivo pela primeira vez (aargh !).
Coitado do gato brasileiro, além de tudo, "sete" é conta de mentiroso ! No fundo, deve ter só umas três vidas e sai por aí contando vantagem. Se ainda houvesse vaga para gato no Congresso Nacional, poderia ao menos viver uma das vidas com mordomia e candidatar-se a várias reeleições, prolongando-a ao máximo.
Eu particularmente não gosto de gatos (como dizem por aqui, "I'm a dog person"), mas mesmo assim acho uma tremenda injustiça os bichanos conterrâneos serem privados de duas vidas só por serem brazucas. Em tempos de globalização e de proteção aos animais, isso é duplamente incorreto. Será que a SPCA sabe disso ?
Como assim diferença ? Um não é sinônimo do outro, só que em outra língua ? Não, caro leitor que tem tempo de sobra para ler as bobagens que eu escrevo, não são a mesma coisa. Há diferenças culturais que afetam as vidas dos bichanos, senão a pergunta "quantas vidas tem um gato ?" teria a mesma resposta ao redor do mundo.
"A cat", nascido no Primeiro Mundo, criado com ração chique, que é vendida num corredor imenso do supermercado destinado somente a "pet food", chega a este planeta com nove vidas ("a cat has nine lives", pode pesquisar por aí). Pelo menos quatro delas dedicadas a assistir preguiçosamente aos inúmeros comerciais de TV que mostram produtos exclusivos para eles. Um gato, nascido num país em desenvolvimento (não sei sobre os felinos domésticos de Portugal), tem somente sete vidas. Também pudera, é poluição, estresse no trânsito, medo da violência urbana, leite adulterado com água oxigenada, cachorros andando sem coleira nas ruas, churrasquinho de felino sendo vendido em novela (os mais jovens provavelmente não vão se lembrar, mas numa novela antiga, havia uma senhora que vendia literalmente gato por lebre). Ah ! E ainda tem o Carnaval, com o couro de gato no tamborim (ou será cuíca ? Minha ignorância sambística impede a afirmação).
E o que fazem os "cats" com as duas vidas sobressalentes ? Provavelmente as usam na aposentadoria, quando já gordos e cansados, mudam-se para um lugar tropical, onde aproveitam os anos da velhice cochilando numa rede de casa de praia ensolarada. Antes tarde do que nunca. Talvez, com um pouco de "sorte", até avistem um camundongo ao vivo pela primeira vez (aargh !).
Coitado do gato brasileiro, além de tudo, "sete" é conta de mentiroso ! No fundo, deve ter só umas três vidas e sai por aí contando vantagem. Se ainda houvesse vaga para gato no Congresso Nacional, poderia ao menos viver uma das vidas com mordomia e candidatar-se a várias reeleições, prolongando-a ao máximo.
Eu particularmente não gosto de gatos (como dizem por aqui, "I'm a dog person"), mas mesmo assim acho uma tremenda injustiça os bichanos conterrâneos serem privados de duas vidas só por serem brazucas. Em tempos de globalização e de proteção aos animais, isso é duplamente incorreto. Será que a SPCA sabe disso ?
SAL do Iglu para Deby
Eu também sempre dizia que queria ter 3 princesas, mas lá no fundo achava que acabaria somente com meninos (e ainda acho)... Se você faz questão mesmo, pode dar uma ajudinha à sorte (tem gente que jura que funciona, uma colega indiana tentou para garantir um menino e conseguiu): como determinar o sexo do bebê. Quem sabe ?
03 novembro, 2007
Que língua ele fala ?
É difícil de acreditar, mas a família do Pacotinho de Globalização escuta tal pergunta desde que ele tinha 6 meses de vida (diretamente do túnel do tempo), quando obviamente ele só falava bebezês (ou, em inglês, "Gibberish").
Desde que ele tinha uns 8 meses de idade, Mamãe-Que-Ficou-De-Cama-6-Semanas-Antes-Do-Parto-E-Teve-Tempo-De-Ler-Muito colocou em prática alguns sinais do livro Baby Signs, em português traduzido como "Sinais: A Linguagem do Bebê". Muito antes de aprender a falar, ele já fazia o sinal de acender a luz, seu primeiríssimo (sem comentários quanto às prioridades dele em relação à utilidade da comunicação). Como na creche eles reenforçam os sinais (são muito populares por aqui), com 1 ano ele fazia o sinal para "quero mais" e o de "acabou", fora os que todo o mundo ensina automaticamente, como "não" e "tchau". E agora, com 1 ano e 4 meses, ouvindo o português da Mamãe e dos CD's e vídeos trazidos da terrinha, o servo-croata do lado gringo da família e o inglês da creche, já é possível saber que línguas ele fala: seu palavreado consiste de 30% de português, 10% de servo-croata e 60% de inglês. Seu extenso vocabulário, além de trilíngüe (e viva o trema) e polêmico, é politicamente incorreto e inclui:
- mommy (é mole você gastar a língua de Camões com o neném para ele vir chamar a mãe de "Mommy" ?);
- mamã (dependendo da hora, ele apela em português também, que não é bobo e já viu que a mãe responde mais rápido);
- tata (a única palavra que ele fala na língua do pai significa justamente "pai", mas ele só a usa para mostrar o pai em fotos, nunca para chamá-lo);
- uby (pronuncia-se "âbi" e, como Mamãe chama o Papai de "Hubby", ele se acha no direito de fazer o mesmo. Logo cedo já fica em pé no berço gritando "uby". Exceto o principal interessado, todo o mundo acha uma gracinha);
- neném (os outros, nunca ele mesmo);
- bobô ("acabou", que só é possível saber do que se trata porque ele faz o sinal correspondente com as mãos - sim, pai e mãe também precisam de tecla SAP);
- ábua (não sei como ele pede água na creche, mas não pode ver uma poça d'água que grita "ábua");
- mó ("more", outro que só se descobre porque ele faz o sinal com as mãos);
- upstairs (sim, as tias da creche juram que ele fala "upstairs" apontando para cima, porque todo dia as crianças vão brincar no parquinho que fica no andar superior);
- não (para ser justa, é a única palavra trilíngüe, já que dependendo da conjunção dos astros, ele pode falar "no", "não" ou "né", mas não sei se é o caso de alterar as porcentagens supracitadas);
- bye (chega a ser irritante. Você diz "fala tchau" e o menino abana a mão e diz, numa voz bem cantada by-ye).
Então, minha gente, o lance é o seguinte: ele entende tudo o que falam com ele em português, inglês e servo-croata. Usa só os sinais que julga úteis, cumpre somente as ordens que considera convenientes em qualquer idioma e fala as palavras que podem trazer a ele algum benefício. No resto do tempo, fala um "Gibberish" fluente que só ouvindo ! Acho que isso não muda, estando a criança exposta a um, dois ou vinte e sete idiomas.
Desde que ele tinha uns 8 meses de idade, Mamãe-Que-Ficou-De-Cama-6-Semanas-Antes-Do-Parto-E-Teve-Tempo-De-Ler-Muito colocou em prática alguns sinais do livro Baby Signs, em português traduzido como "Sinais: A Linguagem do Bebê". Muito antes de aprender a falar, ele já fazia o sinal de acender a luz, seu primeiríssimo (sem comentários quanto às prioridades dele em relação à utilidade da comunicação). Como na creche eles reenforçam os sinais (são muito populares por aqui), com 1 ano ele fazia o sinal para "quero mais" e o de "acabou", fora os que todo o mundo ensina automaticamente, como "não" e "tchau". E agora, com 1 ano e 4 meses, ouvindo o português da Mamãe e dos CD's e vídeos trazidos da terrinha, o servo-croata do lado gringo da família e o inglês da creche, já é possível saber que línguas ele fala: seu palavreado consiste de 30% de português, 10% de servo-croata e 60% de inglês. Seu extenso vocabulário, além de trilíngüe (e viva o trema) e polêmico, é politicamente incorreto e inclui:
- mommy (é mole você gastar a língua de Camões com o neném para ele vir chamar a mãe de "Mommy" ?);
- mamã (dependendo da hora, ele apela em português também, que não é bobo e já viu que a mãe responde mais rápido);
- tata (a única palavra que ele fala na língua do pai significa justamente "pai", mas ele só a usa para mostrar o pai em fotos, nunca para chamá-lo);
- uby (pronuncia-se "âbi" e, como Mamãe chama o Papai de "Hubby", ele se acha no direito de fazer o mesmo. Logo cedo já fica em pé no berço gritando "uby". Exceto o principal interessado, todo o mundo acha uma gracinha);
- neném (os outros, nunca ele mesmo);
- bobô ("acabou", que só é possível saber do que se trata porque ele faz o sinal correspondente com as mãos - sim, pai e mãe também precisam de tecla SAP);
- ábua (não sei como ele pede água na creche, mas não pode ver uma poça d'água que grita "ábua");
- mó ("more", outro que só se descobre porque ele faz o sinal com as mãos);
- upstairs (sim, as tias da creche juram que ele fala "upstairs" apontando para cima, porque todo dia as crianças vão brincar no parquinho que fica no andar superior);
- não (para ser justa, é a única palavra trilíngüe, já que dependendo da conjunção dos astros, ele pode falar "no", "não" ou "né", mas não sei se é o caso de alterar as porcentagens supracitadas);
- bye (chega a ser irritante. Você diz "fala tchau" e o menino abana a mão e diz, numa voz bem cantada by-ye).
Então, minha gente, o lance é o seguinte: ele entende tudo o que falam com ele em português, inglês e servo-croata. Usa só os sinais que julga úteis, cumpre somente as ordens que considera convenientes em qualquer idioma e fala as palavras que podem trazer a ele algum benefício. No resto do tempo, fala um "Gibberish" fluente que só ouvindo ! Acho que isso não muda, estando a criança exposta a um, dois ou vinte e sete idiomas.
02 novembro, 2007
Depois do Halloween
As fantasias de Halloween dos adultos muitas vezes precisam de explicação. À primeira vista, para quem não é fluente na língua (e mesmo para quem é, mas não conhece certos termos e piadas bem específicas), alguns disfarces não fazem sentido algum.
Algumas fantasias "intrigantes" com as quais me deparei foram (explicações no final, tente ver se descobre):
1. Um vestido preto, com várias caixinhas de sucrilhos penduradas, cada uma com uma faquinha atravessada pelo meio.
2. Uma pessoa completamente vestida de preto, com o rosto pintado de preto, óculos escuros pretos, luvas pretas, um copinho de cachaça preso ao bolso da camisa e uma garrafa de brandy (ou whisky) na mão.
3. Uma pessoa vestida de batata, com enchimento de algodão na barriga e argolas de papel crepom verde por cima do algodão (como se fosse uma batata recheada, com "cream cheese" e cebolinha), com uma capa de super-herói nas costas.
Vou ficar só nessas, porque a fantasia de "memória fotográfica" é bem difícil de explicar. E aí ? Algum sucesso ?
1. A cereal killer (em inglês, a pronúncia de "serial" e "cereal" é idêntica).
2. A shot in the dark ("shot" é usado tanto para "tiro" quanto para uma dose de bebida alcóolica no copinho de cachaça).
3. A super spud ("spud" significa "batata", mas "stud" é uma gíria para um homem viril).
Na festinha de Halloween do centro comunitário, havia um monte de borboletas, leões, elefantes, tigres e até dois gambás. Segundo o Pai Nada Tendencioso, o Pacotinho de Halloween era o pirata mais legal de todos. E, para a Mamãe Preconceituosa (sim, descobri que tenho preconceito de fantasia, quando vi um garotinho de 1 ano vestido de vaca, com tetas e tudo, uma garotinha vestida de leão, com juba incluída e achei "estranho"), a fantasia mais original da festa foi a de um bebezinho de uns 40 dias vestido de banana. Como dizem por aqui: "cute as a button" !
Algumas fantasias "intrigantes" com as quais me deparei foram (explicações no final, tente ver se descobre):
1. Um vestido preto, com várias caixinhas de sucrilhos penduradas, cada uma com uma faquinha atravessada pelo meio.
2. Uma pessoa completamente vestida de preto, com o rosto pintado de preto, óculos escuros pretos, luvas pretas, um copinho de cachaça preso ao bolso da camisa e uma garrafa de brandy (ou whisky) na mão.
3. Uma pessoa vestida de batata, com enchimento de algodão na barriga e argolas de papel crepom verde por cima do algodão (como se fosse uma batata recheada, com "cream cheese" e cebolinha), com uma capa de super-herói nas costas.
Vou ficar só nessas, porque a fantasia de "memória fotográfica" é bem difícil de explicar. E aí ? Algum sucesso ?
1. A cereal killer (em inglês, a pronúncia de "serial" e "cereal" é idêntica).
2. A shot in the dark ("shot" é usado tanto para "tiro" quanto para uma dose de bebida alcóolica no copinho de cachaça).
3. A super spud ("spud" significa "batata", mas "stud" é uma gíria para um homem viril).
Na festinha de Halloween do centro comunitário, havia um monte de borboletas, leões, elefantes, tigres e até dois gambás. Segundo o Pai Nada Tendencioso, o Pacotinho de Halloween era o pirata mais legal de todos. E, para a Mamãe Preconceituosa (sim, descobri que tenho preconceito de fantasia, quando vi um garotinho de 1 ano vestido de vaca, com tetas e tudo, uma garotinha vestida de leão, com juba incluída e achei "estranho"), a fantasia mais original da festa foi a de um bebezinho de uns 40 dias vestido de banana. Como dizem por aqui: "cute as a button" !
30 outubro, 2007
Choque Cultural de Halloween
Durante a inevitável conversa sobre "que fantasia os filhos vão vestir para o Halloween", uma colega coreana contou como foi o seu primeiro 31 de outubro em terras canadenses.
A família sul-coreana havia chegado ao Canadá na última semana de outubro. Os pais, sem saberem das regras locais de não deixar crianças menores de 12 anos desacompanhadas em casa, foram ao supermercado. Ficaram em casa as meninas de 8 e 7 anos, com a orientação de não abrirem a porta para estranhos (que, por sinal, eram todos os habitantes da cidade). Como era de se esperar num típico 31 de outubro norte-americano, assim que escureceu, estranhos começaram a bater na porta. As meninas espiaram pelo olho mágico e viram bruxas, monstros, fantasmas e criaturas esquisitas. Entraram em pânico. Ouvindo o barulho e sabendo que havia gente em casa, os pedintes de balas batiam mais forte, não desistiam. As coitadas pensaram em ligar para 911 (o telefone de emergência), mas sem falar inglês, ficaria impossível a comunicação. E, como a lista de compras era longa, a tortura de Halloween durou algumas horas. Desnecessário dizer que os pesadelos duraram a semana toda, mesmo depois de descobrirem quem realmente eram os "monstros" na porta.
Em tempo, "off topic":
1- ADORO Halloween, mas estava de plantão noturno na sexta-feira, quando aconteceram as duas melhores festas de Dia das Bruxas que eu conheço: a tradicional da turma do centro cirúrgico, na casa de um dos cirurgiões e a do trabalho do Marido Gringo, sempre elaborada, já que a empresa onde ele trabalha não poupa gastos com festas.
2- Antes que alguém pergunte, o Pacotinho de Halloween comparecerá amanhã à festinha do centro comunitário fantasiado de pirata, no estilo Capitão Gancho e não Piratas do Caribe.
A família sul-coreana havia chegado ao Canadá na última semana de outubro. Os pais, sem saberem das regras locais de não deixar crianças menores de 12 anos desacompanhadas em casa, foram ao supermercado. Ficaram em casa as meninas de 8 e 7 anos, com a orientação de não abrirem a porta para estranhos (que, por sinal, eram todos os habitantes da cidade). Como era de se esperar num típico 31 de outubro norte-americano, assim que escureceu, estranhos começaram a bater na porta. As meninas espiaram pelo olho mágico e viram bruxas, monstros, fantasmas e criaturas esquisitas. Entraram em pânico. Ouvindo o barulho e sabendo que havia gente em casa, os pedintes de balas batiam mais forte, não desistiam. As coitadas pensaram em ligar para 911 (o telefone de emergência), mas sem falar inglês, ficaria impossível a comunicação. E, como a lista de compras era longa, a tortura de Halloween durou algumas horas. Desnecessário dizer que os pesadelos duraram a semana toda, mesmo depois de descobrirem quem realmente eram os "monstros" na porta.
Em tempo, "off topic":
1- ADORO Halloween, mas estava de plantão noturno na sexta-feira, quando aconteceram as duas melhores festas de Dia das Bruxas que eu conheço: a tradicional da turma do centro cirúrgico, na casa de um dos cirurgiões e a do trabalho do Marido Gringo, sempre elaborada, já que a empresa onde ele trabalha não poupa gastos com festas.
2- Antes que alguém pergunte, o Pacotinho de Halloween comparecerá amanhã à festinha do centro comunitário fantasiado de pirata, no estilo Capitão Gancho e não Piratas do Caribe.
29 outubro, 2007
Marte, Vênus e o Batizado dos Primos
I Ato - Na Igreja
Nota da autora: Para quem nunca foi a uma cerimônia na Igreja Ortodoxa Sérvia: os cultos são extremamente longos, cheios de tradições, tem sempre um monte de gente dando três lentas voltas ao redor do altar enquanto segura uma vela, o padre faz todo o sermão cantando em servo-croata e nem os que são fluentes na língua conseguem explicar o que está acontecendo.
O Pacotinho de Eventos Sociais vai ao batizado dos primos. Enquanto todas as pessoas estão de pé viradas para o altar, um bebezinho engatinha no chão, duas crianças sendo batizadas passam 40 minutos aos berros e um certo garotinho sobe nos bancos vazios, sapateia neles produzindo aquele som que só a acústica de um templo permite tornar tão alto, brinca de abrir e fechar a porta de entrada, mexe na velas apagadas do ofertório, aponta para o recipiente cheio d'água (não há pia batismal, a criança é completamente imersa na água) e fala alto: "ábua, ábua".
Enquanto Papai está lá na frente dando voltas ao redor do altar, Mamãe segue o Pacotinho de Inquietação, preocupada por ele estar perturbando a cerimônia. E um senhor estranho vira-se para ela:
- Deixa o menino ! Ele está entretendo todo o mundo aqui.
A praticidade masculina sempre surpreende.
***
II Ato - No restaurante
Esquema de buffet self-service. Mamãe vai servir o prato enquanto Papai luta para colocar o filhotinho no cadeirão. E, lá pelas tantas, Papai aparece lá na fila com um recado:
- Aproveita que você está aí e serve alguma coisa para ele comer também.
E Mamãe responde naquela voz de sarcasmo que quem a conhece sabe exatamente do que se trata:
- Nossa, que idéia FAN-TÁS-TI-CA ! Eu jamais pensaria nisso, quando o assunto é comida, nem lembro que eu tenho filho. O que eu faria sem você ?
A moça atrás na fila cai na gargalhada e Papai justifica o que não carece de explicação:
- É que se fosse eu, não iria lembrar de servir o prato dele.
***
III Ato - A despedida
Enquanto as duas meninas presentes passam o jantar inteiro sentadas em seus respectivos cadeirões, Papai e Mamãe alternam-se correndo atrás de um certo garotinho serelepe que entra na cozinha inúmeras vezes, derruba propositadamente pimenta na toalha da mesa, esvazia o copinho de creme para o café e esfrega-o na parede, só para ficar nos detalhes menos aterrorizantes.
Duas intermináveis horas depois, pratos já recolhidos, começam as despedidas e só aí aparece o Vovô:
- Vem com o Vovô, vem. Tão comportado este menininho do Vovô !
Se o olhar da Mamãe disparasse raios, haveria um senhor de cabelos brancos completamente esturricado no chão do Balcan House.
O senso de oportunidade masculina sempre surpreende. "Perfect timing".
Nota da autora: Para quem nunca foi a uma cerimônia na Igreja Ortodoxa Sérvia: os cultos são extremamente longos, cheios de tradições, tem sempre um monte de gente dando três lentas voltas ao redor do altar enquanto segura uma vela, o padre faz todo o sermão cantando em servo-croata e nem os que são fluentes na língua conseguem explicar o que está acontecendo.
O Pacotinho de Eventos Sociais vai ao batizado dos primos. Enquanto todas as pessoas estão de pé viradas para o altar, um bebezinho engatinha no chão, duas crianças sendo batizadas passam 40 minutos aos berros e um certo garotinho sobe nos bancos vazios, sapateia neles produzindo aquele som que só a acústica de um templo permite tornar tão alto, brinca de abrir e fechar a porta de entrada, mexe na velas apagadas do ofertório, aponta para o recipiente cheio d'água (não há pia batismal, a criança é completamente imersa na água) e fala alto: "ábua, ábua".
Enquanto Papai está lá na frente dando voltas ao redor do altar, Mamãe segue o Pacotinho de Inquietação, preocupada por ele estar perturbando a cerimônia. E um senhor estranho vira-se para ela:
- Deixa o menino ! Ele está entretendo todo o mundo aqui.
A praticidade masculina sempre surpreende.
***
II Ato - No restaurante
Esquema de buffet self-service. Mamãe vai servir o prato enquanto Papai luta para colocar o filhotinho no cadeirão. E, lá pelas tantas, Papai aparece lá na fila com um recado:
- Aproveita que você está aí e serve alguma coisa para ele comer também.
E Mamãe responde naquela voz de sarcasmo que quem a conhece sabe exatamente do que se trata:
- Nossa, que idéia FAN-TÁS-TI-CA ! Eu jamais pensaria nisso, quando o assunto é comida, nem lembro que eu tenho filho. O que eu faria sem você ?
A moça atrás na fila cai na gargalhada e Papai justifica o que não carece de explicação:
- É que se fosse eu, não iria lembrar de servir o prato dele.
***
III Ato - A despedida
Enquanto as duas meninas presentes passam o jantar inteiro sentadas em seus respectivos cadeirões, Papai e Mamãe alternam-se correndo atrás de um certo garotinho serelepe que entra na cozinha inúmeras vezes, derruba propositadamente pimenta na toalha da mesa, esvazia o copinho de creme para o café e esfrega-o na parede, só para ficar nos detalhes menos aterrorizantes.
Duas intermináveis horas depois, pratos já recolhidos, começam as despedidas e só aí aparece o Vovô:
- Vem com o Vovô, vem. Tão comportado este menininho do Vovô !
Se o olhar da Mamãe disparasse raios, haveria um senhor de cabelos brancos completamente esturricado no chão do Balcan House.
O senso de oportunidade masculina sempre surpreende. "Perfect timing".
25 outubro, 2007
Surgery, Superstition and Deception
"Deception:
1.The use of deceit.
2.The fact or state of being deceived.
3.A ruse; a trick."
Numa chuvosa manhã de outono, uma mãe que precisa de um transplante de rim e um filho disposto a doá-lo chegam ao hospital. Concomitantemente, num outro hospital da cidade, duas outras pessoas na mesma situação chegam para o mesmo procedimento. O detalhe interessante está no fato de que nas duas famílias os doadores não são compatíveis com os receptores, mas o BC Transplant Team descobriu que o rim do doador da família A seria ótimo para o receptor da família B e vice-versa. As cirurgias são feitas ao mesmo tempo, em hospitais diferentes, para que o processo todo seja anônimo e ninguém saiba quem está recebendo o rim doado nem de quem veio o rim recebido. Pela manhã, um rim de cada doador é retirado e levado ao outro hospital para que na parte da tarde seja transplantado para o receptor.
E lá na sala de cirurgia número 4, logo cedo toca o telefone (é a enfermeira do Dept. de Admissão de Pacientes):
- O primeiro paciente não quer fazer cirurgia na sala 4, diz que dá azar. Não tem como mudar de sala ?
- Não. Esta é a única sala que tem todos os monitores e câmeras acoplados ao teto para fazer uma cirurgia por laparoscopia, mas não diga nada a ele, que a gente vai dar um jeito.
Então o brilhante anestesista foi à sala 8, roubou a plaquinha da porta onde está escrito "sala 8" e pregou na porta da sala 4. O paciente chegou e a cirurgia transcorreu sem problemas. Alguém pensou em devolver a plaquinha no final, mas como a mãe do rapaz era a paciente da tarde, achou-se por bem continuar com o truque.
Duro é estar na sala a manhã toda, presenciar o esquema, sair para o almoço e ficar perdida na hora de voltar. Caminhando rápido e pensando "sala 8 ? Será que dei a volta pelo lugar errado ?", meia volta e de novo "mas como aqui é a sala 5 se ali é 8?". Naqueles 30 segundos de "brain fart", houve uma enfermeira brasileira perdida no corredor.
PS: O detalhe realmente interessante do caso todo é que os pacientes NÃO eram chineses. É sabido que chineses abominam o número 4, mas as pessoas em questão eram filipinas ! Segundo as duas enfermeiras filipinas presentes na sala, isso já deve ter sido uma crença adquirida em Chinacouver.
E eu que achava que, se você precisa de um rim novo e está ganhando um, já é um sinal de muita sorte !
1.The use of deceit.
2.The fact or state of being deceived.
3.A ruse; a trick."
Numa chuvosa manhã de outono, uma mãe que precisa de um transplante de rim e um filho disposto a doá-lo chegam ao hospital. Concomitantemente, num outro hospital da cidade, duas outras pessoas na mesma situação chegam para o mesmo procedimento. O detalhe interessante está no fato de que nas duas famílias os doadores não são compatíveis com os receptores, mas o BC Transplant Team descobriu que o rim do doador da família A seria ótimo para o receptor da família B e vice-versa. As cirurgias são feitas ao mesmo tempo, em hospitais diferentes, para que o processo todo seja anônimo e ninguém saiba quem está recebendo o rim doado nem de quem veio o rim recebido. Pela manhã, um rim de cada doador é retirado e levado ao outro hospital para que na parte da tarde seja transplantado para o receptor.
E lá na sala de cirurgia número 4, logo cedo toca o telefone (é a enfermeira do Dept. de Admissão de Pacientes):
- O primeiro paciente não quer fazer cirurgia na sala 4, diz que dá azar. Não tem como mudar de sala ?
- Não. Esta é a única sala que tem todos os monitores e câmeras acoplados ao teto para fazer uma cirurgia por laparoscopia, mas não diga nada a ele, que a gente vai dar um jeito.
Então o brilhante anestesista foi à sala 8, roubou a plaquinha da porta onde está escrito "sala 8" e pregou na porta da sala 4. O paciente chegou e a cirurgia transcorreu sem problemas. Alguém pensou em devolver a plaquinha no final, mas como a mãe do rapaz era a paciente da tarde, achou-se por bem continuar com o truque.
Duro é estar na sala a manhã toda, presenciar o esquema, sair para o almoço e ficar perdida na hora de voltar. Caminhando rápido e pensando "sala 8 ? Será que dei a volta pelo lugar errado ?", meia volta e de novo "mas como aqui é a sala 5 se ali é 8?". Naqueles 30 segundos de "brain fart", houve uma enfermeira brasileira perdida no corredor.
PS: O detalhe realmente interessante do caso todo é que os pacientes NÃO eram chineses. É sabido que chineses abominam o número 4, mas as pessoas em questão eram filipinas ! Segundo as duas enfermeiras filipinas presentes na sala, isso já deve ter sido uma crença adquirida em Chinacouver.
E eu que achava que, se você precisa de um rim novo e está ganhando um, já é um sinal de muita sorte !
23 outubro, 2007
Quando os sem filhos dão palpite
Dentre todas as pérolas que a gente escuta desde que anuncia o teste de gravidez positivo, as mais divertidas vêm das pessoas sem filhos.
Durante uma longa cirurgia, sai o seguinte diálogo entre o cirurgião com dois filhos pequenos (uma menina de 2 anos e um bebê de 7 meses)e a residente sem filhos:
- Minha esposa viajou no sábado e eu fiquei sozinho com as crianças, estou exausto.
- Você não tem babá ?
- Tenho, mas ela não trabalha no final de semana.
- A que horas seus filhos acordam ?
- O bebê acorda às 05:30 e a menina às 06:00.
- Mesmo no final de semana ?
- Sim.
- Por que você não liga a TV, deixa os dois assistindo a um programa infantil e volta a dormir ?
- Não dá para deixar os dois sozinhos pela casa.
- E não dá para pedir a eles que voltem para a cama e tentem dormir mais umas duas horas pelo menos ?
Aí eu não resisti:
- Até dá, você sempre pode pedir que uma criança pequena volte para a cama durma mais, mas na idade dos filhos deles, garanto que não vão obedecer.
***
Durante outra cirurgia, outra residente sem filhos e sem noção pergunta à colega que idade tem a filha dela. Quando ela responde "13 meses", imediatamente ela fala "o bom desta idade é que eles já sabe ir ao banheiro sozinhos". E, como sempre eu não resisti e perguntei "tem certeza de que você está familiarizada com bebês humanos ?"
Durante uma longa cirurgia, sai o seguinte diálogo entre o cirurgião com dois filhos pequenos (uma menina de 2 anos e um bebê de 7 meses)e a residente sem filhos:
- Minha esposa viajou no sábado e eu fiquei sozinho com as crianças, estou exausto.
- Você não tem babá ?
- Tenho, mas ela não trabalha no final de semana.
- A que horas seus filhos acordam ?
- O bebê acorda às 05:30 e a menina às 06:00.
- Mesmo no final de semana ?
- Sim.
- Por que você não liga a TV, deixa os dois assistindo a um programa infantil e volta a dormir ?
- Não dá para deixar os dois sozinhos pela casa.
- E não dá para pedir a eles que voltem para a cama e tentem dormir mais umas duas horas pelo menos ?
Aí eu não resisti:
- Até dá, você sempre pode pedir que uma criança pequena volte para a cama durma mais, mas na idade dos filhos deles, garanto que não vão obedecer.
***
Durante outra cirurgia, outra residente sem filhos e sem noção pergunta à colega que idade tem a filha dela. Quando ela responde "13 meses", imediatamente ela fala "o bom desta idade é que eles já sabe ir ao banheiro sozinhos". E, como sempre eu não resisti e perguntei "tem certeza de que você está familiarizada com bebês humanos ?"
22 outubro, 2007
SAL do Iglu para Lilian
Não sei dos seus planos, mas se sua filha já tem 9 anos, recomendo que você venha durante as férias de verão, assim ela começaria as aulas em setembro, junto com as outras crianças. Costuma ser difícil nesta idade a adaptação na escola de uma criança que começa no meio do ano letivo, mesmo que fale inglês fluentemente. É ruim ser "the new kid on the block", sem amigos, ficando sozinha na hora do almoço...
As aulas costumam ser das 09:00 às 15:00, com pequenas variações de horário, dependendo da escola. Há serviços de "after school care", geralmente mães que não trabalham fora e buscam os filhos dos outros na escola. Acho que a sua melhor pedida vai ser uma vizinha ou a mãe de um colega de turma da sua filha. Isso se você não tiver dinheiro para contratar uma babá/empregada, que é uma ótima solução. Aí você chega em casa e encontra tudo arrumado, jantar na mesa, roupa dobrada no armário. Ai ai...
As aulas costumam ser das 09:00 às 15:00, com pequenas variações de horário, dependendo da escola. Há serviços de "after school care", geralmente mães que não trabalham fora e buscam os filhos dos outros na escola. Acho que a sua melhor pedida vai ser uma vizinha ou a mãe de um colega de turma da sua filha. Isso se você não tiver dinheiro para contratar uma babá/empregada, que é uma ótima solução. Aí você chega em casa e encontra tudo arrumado, jantar na mesa, roupa dobrada no armário. Ai ai...
20 outubro, 2007
Marte, Vênus e os Sapatos do Neném
Nos dias em que Mamãe dá plantão até mais tarde, quem busca o Pacotinho de Novidades na creche é o Papai. E, num típico final de tarde escuro e chuvoso em Raincouver, Mamãe chega em casa e depara-se com um suspeito par de botas amarelas:
- De quem são estas botas ?
- Como assim de quem ? Dele !
- Ah, não são não.
- Como você sabe olhando assim de longe ?
- As dele têm o nome escrito por dentro.
- Que coincidência ! Outra criança tem um par de botas amarelas idênticas às dele.
- Idênticas não, as dele são azuis !
- E por que você falou para eu olhar o nome escrito por dentro ?
- Porque obviamente a cor não é o detalhe que mais chama a sua atenção...
- De quem são estas botas ?
- Como assim de quem ? Dele !
- Ah, não são não.
- Como você sabe olhando assim de longe ?
- As dele têm o nome escrito por dentro.
- Que coincidência ! Outra criança tem um par de botas amarelas idênticas às dele.
- Idênticas não, as dele são azuis !
- E por que você falou para eu olhar o nome escrito por dentro ?
- Porque obviamente a cor não é o detalhe que mais chama a sua atenção...
19 outubro, 2007
SAL do Iglu para Magna, Cláudio e Anônimo
O Serviço de atendimento ao leitor do Iglu responde:
Eu não assisto ao canal do Sílvio Santos nem leio as revistas brasileiras de TV, então não sabia que ele já havia copiado o programa. Obrigada pela informação. Ele já copiou também o "Deal or no Deal ?" Também seria um sucesso garantido.
Cláudio
Nada pessoal, mas não postei seu comentário do post anterior porque você conseguiu descobrir certas coisas que eu prefiro que continuem ocultas e outras pessoas poderiam ter acesso às mesmas informações.
Magna
O Pacotinho de Apetite, desde que começou a caminhar, está numa fase de filho da Flávia. Até 1 ano de idade, era filho só do pai. Eu era chatérrima para comer (e meu pai fala "chatééééérrima", enfatizando ao máximo a letra "e"), nasci e vivi sempre abaixo do peso, lá na rabeira da curva de crescimento. Estou aqui, magra e saudável, então realmente não me estresso se o Pacotinho de Seletividade Alimentar quiser viver só de fruta e brisa por uns tempos. Sou exceção entre as mães: nunca me preocupei com cocô nem com o quanto o menino come, assuntos favoritos de 10 entre 10 mães de primeira viagem. Não devo ser normal.
Eu não assisto ao canal do Sílvio Santos nem leio as revistas brasileiras de TV, então não sabia que ele já havia copiado o programa. Obrigada pela informação. Ele já copiou também o "Deal or no Deal ?" Também seria um sucesso garantido.
Cláudio
Nada pessoal, mas não postei seu comentário do post anterior porque você conseguiu descobrir certas coisas que eu prefiro que continuem ocultas e outras pessoas poderiam ter acesso às mesmas informações.
Magna
O Pacotinho de Apetite, desde que começou a caminhar, está numa fase de filho da Flávia. Até 1 ano de idade, era filho só do pai. Eu era chatérrima para comer (e meu pai fala "chatééééérrima", enfatizando ao máximo a letra "e"), nasci e vivi sempre abaixo do peso, lá na rabeira da curva de crescimento. Estou aqui, magra e saudável, então realmente não me estresso se o Pacotinho de Seletividade Alimentar quiser viver só de fruta e brisa por uns tempos. Sou exceção entre as mães: nunca me preocupei com cocô nem com o quanto o menino come, assuntos favoritos de 10 entre 10 mães de primeira viagem. Não devo ser normal.
17 outubro, 2007
Are You Smarter Than a 5th Grader ?
Existe um programa de TV chamado Are you smarter than a 5th grader ? (Você é mais esperto que um aluno da quinta série ?).
Um candidato responde a perguntas do currículo escolar da primeira à quinta série, concorrendo a 1 milhão de dólares. Há um grupo de crianças que também responde às perguntas e muitas vezes salva o candidato de sair do programa de mãos abanando. Para alguns concorrentes, nem mesmo Einstein poderia dar jeito e a vontade que dá é de pagar para o ignorante continuar no programa, assim as gargalhadas são garantidas.
Semana passada havia um rapaz que até estava indo razoavelmente bem (não sabia de que continente os chimpanzés eram nativo e foi salvo pela garotada), mas desistiu diante da pergunta de 300 mil dólares: "Qual a língua oficial da Austrália ?" Ele comentou com o apresentador "todos os australianos que eu conheço falam inglês, não vou arriscar".
Depois veio uma moça que era desafia Darwin e a teoria da evolução das espécies, orgulhosa da sua capacidade mental de protozoário. Ela é a prova viva de que não são somente os mais capacitados que sobrevivem. A primeira pergunta era da categoria "ortografia na primeira série". O apresentador perguntou quantas consoantes existiam na palavra "vogal" em inglês. E ela "eu sei que vogais são A,E,I,O,U e Y, algumas vezes. A palavra vogal é escrita 'V-O-U-L', então vou dizer que são 2 consoantes". Como a palavra é 'V-O-W-E-L', ela errou feio, mas foi salva pela garotinha de 10 anos. Depois disse que era boa em artes, mas respondeu que Van Gogh era francês. E, quando perguntaram quantos pronomes demonstrativos havia numa determinada frase, ela achou que o único pronome era o verbo !
Acho que o Sílvio Santos está perdendo uma grande oportunidade. Já que praticamente todos os seus programas são cópias dos "game shows" da América do Norte, este seria um sucesso garantido nas tardes de domingo.
Um candidato responde a perguntas do currículo escolar da primeira à quinta série, concorrendo a 1 milhão de dólares. Há um grupo de crianças que também responde às perguntas e muitas vezes salva o candidato de sair do programa de mãos abanando. Para alguns concorrentes, nem mesmo Einstein poderia dar jeito e a vontade que dá é de pagar para o ignorante continuar no programa, assim as gargalhadas são garantidas.
Semana passada havia um rapaz que até estava indo razoavelmente bem (não sabia de que continente os chimpanzés eram nativo e foi salvo pela garotada), mas desistiu diante da pergunta de 300 mil dólares: "Qual a língua oficial da Austrália ?" Ele comentou com o apresentador "todos os australianos que eu conheço falam inglês, não vou arriscar".
Depois veio uma moça que era desafia Darwin e a teoria da evolução das espécies, orgulhosa da sua capacidade mental de protozoário. Ela é a prova viva de que não são somente os mais capacitados que sobrevivem. A primeira pergunta era da categoria "ortografia na primeira série". O apresentador perguntou quantas consoantes existiam na palavra "vogal" em inglês. E ela "eu sei que vogais são A,E,I,O,U e Y, algumas vezes. A palavra vogal é escrita 'V-O-U-L', então vou dizer que são 2 consoantes". Como a palavra é 'V-O-W-E-L', ela errou feio, mas foi salva pela garotinha de 10 anos. Depois disse que era boa em artes, mas respondeu que Van Gogh era francês. E, quando perguntaram quantos pronomes demonstrativos havia numa determinada frase, ela achou que o único pronome era o verbo !
Acho que o Sílvio Santos está perdendo uma grande oportunidade. Já que praticamente todos os seus programas são cópias dos "game shows" da América do Norte, este seria um sucesso garantido nas tardes de domingo.
Aspirantes a Imigrantes
Não, desta vez as perguntas não foram endereçadas a mim, o que é uma pena, porque embora pareça que eu não gosto da categoria dos "sem noção", eu os acho divertidíssimos. Até o Chris Rock, meu comediante favorito, perde feio.
Uma santa enfermeira brasileira resolveu dar umas dicas na internet sobre como dar entrada no processo para regularizar o diploma brasileiro de ENFERMAGEM no Canadá. Ela descreveu cada passo, deu os links e foi bombardeada de perguntas. Algumas pertinentes, outras nem tanto, fora a dezena de dúvidas repetidas que já haviam sido respondidas anteriormente. Detalhe: a moça mencionou várias vezes que mora em British Columbia, no Canadá, mas esqueceu de mencionar que fica na América do Norte. Aqui a seleção das melhores dúvidas:
"sera que alguem pode me informar se em outros paises da europa tem esse sistema como frança espanha e suiça tenho parentes la mais eles nao sabe como fasso para trabalhar regulamentado na are des de ja agradesso."
"Tenho um amigo médico, que tem vontade de trabalhar no Canadá, principalmente em Quebec. Por que ele fala francês. Como está o mercado para médicos estrangeiros e como é o processo? É igual para enfermeiros ? Qual é o salário de um médico aí?"
"Mas uma coisa: tenho interesse em fazer pos na area de neonatal ou obstetricia, mas ouvi dizar que no Canada as pessoas quase não tem filhos...então como fica os profissioanis com essa especialização? tem mercado de trabalho ou é mais facil conseguir na sua area de uti e ps. Mas tb se todo mundo fizer essas especializações o mercado vai acabar satura desses profissioanis concorda?"
"A minha primeira dúvida é sobre o preenchimento dos formulários, se deve ser preenchido a caneta (a mão) ou datilografado, sei lá. E outra é sobre o idioma deve ser todo em ingles nao é?"
"Aí que peço a sua ajuda ! Poderia me informar se existe alguma escola especializada que dá o curso de LPN (auxiliar de enfermagem) por aí? De preferência alguma que ministra junto um curso de inglês?"
"Resumidamente, de seu ponto de vista, como são os serviços básicos aí no Canadá? Saúde Pública; Qualidade nos serviços de abastecimentode água, luz, telefone; Segurança Pública; Sistema de ensino público(é verdade que até aí tem escola particular?), etc... Comparando com o Brasil!"
"Em Toronto existe uma entidade(ONG, talvez ?) que ajude na ambientação de brasileiros por aí, inclusive oferecendo cursos gratuitos de inglês? Você conhece ou já ouviu algo a respeito?"
"Por favor me explique melhor como é o processo.
É necessário falar francês?"
E, depois de fazer 3 perguntas já respondidas anteriormente à exaustão e receber o pedido de ler todas as respostas prévias:
"obrigada por sua atenção, vou ler sim , estou muitíssima interessada!!! obrigada!!!"
Eu acho interessante que os muito interessados não têm o menor interesse em ler as dicas, mas sabem fazer perguntas como ninguém.
Uma santa enfermeira brasileira resolveu dar umas dicas na internet sobre como dar entrada no processo para regularizar o diploma brasileiro de ENFERMAGEM no Canadá. Ela descreveu cada passo, deu os links e foi bombardeada de perguntas. Algumas pertinentes, outras nem tanto, fora a dezena de dúvidas repetidas que já haviam sido respondidas anteriormente. Detalhe: a moça mencionou várias vezes que mora em British Columbia, no Canadá, mas esqueceu de mencionar que fica na América do Norte. Aqui a seleção das melhores dúvidas:
"sera que alguem pode me informar se em outros paises da europa tem esse sistema como frança espanha e suiça tenho parentes la mais eles nao sabe como fasso para trabalhar regulamentado na are des de ja agradesso."
"Tenho um amigo médico, que tem vontade de trabalhar no Canadá, principalmente em Quebec. Por que ele fala francês. Como está o mercado para médicos estrangeiros e como é o processo? É igual para enfermeiros ? Qual é o salário de um médico aí?"
"Mas uma coisa: tenho interesse em fazer pos na area de neonatal ou obstetricia, mas ouvi dizar que no Canada as pessoas quase não tem filhos...então como fica os profissioanis com essa especialização? tem mercado de trabalho ou é mais facil conseguir na sua area de uti e ps. Mas tb se todo mundo fizer essas especializações o mercado vai acabar satura desses profissioanis concorda?"
"A minha primeira dúvida é sobre o preenchimento dos formulários, se deve ser preenchido a caneta (a mão) ou datilografado, sei lá. E outra é sobre o idioma deve ser todo em ingles nao é?"
"Aí que peço a sua ajuda ! Poderia me informar se existe alguma escola especializada que dá o curso de LPN (auxiliar de enfermagem) por aí? De preferência alguma que ministra junto um curso de inglês?"
"Resumidamente, de seu ponto de vista, como são os serviços básicos aí no Canadá? Saúde Pública; Qualidade nos serviços de abastecimentode água, luz, telefone; Segurança Pública; Sistema de ensino público(é verdade que até aí tem escola particular?), etc... Comparando com o Brasil!"
"Em Toronto existe uma entidade(ONG, talvez ?) que ajude na ambientação de brasileiros por aí, inclusive oferecendo cursos gratuitos de inglês? Você conhece ou já ouviu algo a respeito?"
"Por favor me explique melhor como é o processo.
É necessário falar francês?"
E, depois de fazer 3 perguntas já respondidas anteriormente à exaustão e receber o pedido de ler todas as respostas prévias:
"obrigada por sua atenção, vou ler sim , estou muitíssima interessada!!! obrigada!!!"
Eu acho interessante que os muito interessados não têm o menor interesse em ler as dicas, mas sabem fazer perguntas como ninguém.
15 outubro, 2007
Vende-se um Pacotinho de Macaquices
Que as meninas em geral são muito mais fáceis quando crianças você já sabia. Mas precisava ser tão mais difícil sair de casa com um menino pequeno ? Será que há qualquer esperança de vida social antes de ele entrar na universidade ?
Num final de semana você vai jantar na casa de amigos. São 14 adultos e 3 crianças. Ao contrário da China, em qualquer lugar que você vai, só encontra meninas. Então eram 2 meninas e o seu filho. Enquanto duas das crianças brincam comportadas no chão, a outra sobe numa cadeira a cada vez que um adulto abandona o lugar para ir servir o prato. O maior pedaço de sobremesa vai para quem adivinhar quem foi. E, no final da festa, uma das convidadas sem filhos pergunta se aquela criatura saltitante é muito mais velha que a menininha da mesma altura e fica surpresa quando você diz "ele é três semanas mais velho que ela". E, tentando ser educada, ela comenta "é porque ele é tão mais ativo, caminha com mais desenvoltura e até escala as cadeiras altas com facilidade, ela ainda anda devagar". E você, fazendo cara de paisagem, revela "ela inclusive começou a caminhar um mês antes dele, mas contenta-se com isso. Ele aprendeu a caminhar numa semana, a correr na semana seguinte e a escalar cadeiras e mesas logo depois. Só não pulou no sofá porque ninguém levantou de lá ainda."
No outro final de semana, uma amiga convida você para ir a uma feira de móveis e decoração. É do lado da sua casa e, enquanto você pensa mil vezes antes de arrastar um menino de 1 ano e 3 meses para o evento, ele cai de testa no armário e derruba a louça que estava na mesa, então você cede. "Melhor na rua do que em casa", pensa na hora do sufoco. Arruma-o e em 3 minutos está na calçada, com ele no carrinho, crente que vai tirar lindas fotos de outono. Já na esquina descobre que a câmera está sem bateria, é nisso que dar dair com pressa. Chega à feira por uma outra entrada e fica dando voltas até encontrar a amiga. Nisso, o prazo de validade do seu filho vence. Ele consegue ficar no carrinho num lugar diferente por no máximo 10 minutos em movimento constante ou 2 minutos com o carrinho parado. E você esgotou ambos os prazos. Encontra a amiga e, dado o silêncio e a ausência de braços e pernas se remexendo no carrinho dela, deduz que a filha dela está dormindo. Surpreende-se ao ver a menininha acordada, comportada, admirando a feira. E o seu filho ? Não seria aquele ali, que já está em cima do banco de um piano de cauda, batendo freneticamente nas teclas enquanto tenta usá-las como apoio para subir na tampa do instrumento ? Você até tentaria fingir que não o conhece, mas o representante dos pianos já vira de cara feia, cobrando uma atitude. E então você nota que o menino está sem um pé do sapato ! Como ele se recusa a sentar no carrinho, você tenta refazer o percurso, com ele no colo, empurrando o trambolho sobre rodas, procurando o tênis perdido. Nisso, você decide convocar o pai da criança para vir ajudá-la e, enquanto fala com ele pelo celular, seu filhinho que tem obsessão por "big boys toys" começa a gritar porque quer o telefone para ele. E, com o som de berros ao fundo, você conversa:
- Preciso que você venha aqui encontrar a gente.
- Onde vocês estão ?
- Numa feira de móveis no ginásio do lado de casa.
- Está legal ? (voz de ironia)
- Pelo berreiro e pelo meu tom de voz, o que você acha ? (voz de "vou matar um")
- Acho que foi uma péssima idéia.
- Ainda pra completar, ele perdeu um pé do tênis. Já rodei aqui tudo e não encontro.
- O Puma preto ?
- É.
- Está aqui em casa, acabei de vê-lo e fiquei pensando onde estaria o outro pé...
Esta era inédita até então: sair de casa com a criança calçada com um sapato só. Para tudo tem uma primeira vez...
E a feira estava boa pelo menos ? E você conseguiu ver alguma coisa além dos pianos de cauda com o seu filho em cima ?
Num final de semana você vai jantar na casa de amigos. São 14 adultos e 3 crianças. Ao contrário da China, em qualquer lugar que você vai, só encontra meninas. Então eram 2 meninas e o seu filho. Enquanto duas das crianças brincam comportadas no chão, a outra sobe numa cadeira a cada vez que um adulto abandona o lugar para ir servir o prato. O maior pedaço de sobremesa vai para quem adivinhar quem foi. E, no final da festa, uma das convidadas sem filhos pergunta se aquela criatura saltitante é muito mais velha que a menininha da mesma altura e fica surpresa quando você diz "ele é três semanas mais velho que ela". E, tentando ser educada, ela comenta "é porque ele é tão mais ativo, caminha com mais desenvoltura e até escala as cadeiras altas com facilidade, ela ainda anda devagar". E você, fazendo cara de paisagem, revela "ela inclusive começou a caminhar um mês antes dele, mas contenta-se com isso. Ele aprendeu a caminhar numa semana, a correr na semana seguinte e a escalar cadeiras e mesas logo depois. Só não pulou no sofá porque ninguém levantou de lá ainda."
No outro final de semana, uma amiga convida você para ir a uma feira de móveis e decoração. É do lado da sua casa e, enquanto você pensa mil vezes antes de arrastar um menino de 1 ano e 3 meses para o evento, ele cai de testa no armário e derruba a louça que estava na mesa, então você cede. "Melhor na rua do que em casa", pensa na hora do sufoco. Arruma-o e em 3 minutos está na calçada, com ele no carrinho, crente que vai tirar lindas fotos de outono. Já na esquina descobre que a câmera está sem bateria, é nisso que dar dair com pressa. Chega à feira por uma outra entrada e fica dando voltas até encontrar a amiga. Nisso, o prazo de validade do seu filho vence. Ele consegue ficar no carrinho num lugar diferente por no máximo 10 minutos em movimento constante ou 2 minutos com o carrinho parado. E você esgotou ambos os prazos. Encontra a amiga e, dado o silêncio e a ausência de braços e pernas se remexendo no carrinho dela, deduz que a filha dela está dormindo. Surpreende-se ao ver a menininha acordada, comportada, admirando a feira. E o seu filho ? Não seria aquele ali, que já está em cima do banco de um piano de cauda, batendo freneticamente nas teclas enquanto tenta usá-las como apoio para subir na tampa do instrumento ? Você até tentaria fingir que não o conhece, mas o representante dos pianos já vira de cara feia, cobrando uma atitude. E então você nota que o menino está sem um pé do sapato ! Como ele se recusa a sentar no carrinho, você tenta refazer o percurso, com ele no colo, empurrando o trambolho sobre rodas, procurando o tênis perdido. Nisso, você decide convocar o pai da criança para vir ajudá-la e, enquanto fala com ele pelo celular, seu filhinho que tem obsessão por "big boys toys" começa a gritar porque quer o telefone para ele. E, com o som de berros ao fundo, você conversa:
- Preciso que você venha aqui encontrar a gente.
- Onde vocês estão ?
- Numa feira de móveis no ginásio do lado de casa.
- Está legal ? (voz de ironia)
- Pelo berreiro e pelo meu tom de voz, o que você acha ? (voz de "vou matar um")
- Acho que foi uma péssima idéia.
- Ainda pra completar, ele perdeu um pé do tênis. Já rodei aqui tudo e não encontro.
- O Puma preto ?
- É.
- Está aqui em casa, acabei de vê-lo e fiquei pensando onde estaria o outro pé...
Esta era inédita até então: sair de casa com a criança calçada com um sapato só. Para tudo tem uma primeira vez...
E a feira estava boa pelo menos ? E você conseguiu ver alguma coisa além dos pianos de cauda com o seu filho em cima ?
14 outubro, 2007
SAL do Iglu para Chris
Minha médica de família não aceita mais pacientes, mas acredito que se você ligar no BC Nurses Line deve conseguir uma lista dos médicos que aceitam.
12 outubro, 2007
2010 - Preços Olímpicos
O jornal Vancouver Sun publicou hoje os preços para os principais eventos das Olimpíadas de Inverno de 2010, a serem realizadas em Vancouver e Whistler.
Só há uma competição que eu gostaria de ver ao vivo: a final da patinação artística, em dupla. E, assim como eu, parece que há uma leva de outros pouco fanáticos por esportes de inverno ao ar livre, já que os preços são estabelecidos por oferta/demanda e os da patinação serão vendidos pela bagatela de $525, nos melhores assentos. Nem é caro, já que um lugar bom na cerimônia de abertura custará $1.100 e um bom lugar na final do hockey masculino sairá por $775. Preços oficiais, antes dos cambistas.
A piada olímpica foi feita pelo próprio comitê (Vanoc), ao anunciar os preços: "Vancouver's Olympic organizers on Thursday unveiled a package of ticket prices they say will allow ordinary Canadians admission to every event at the 2010 Winter Olympics". Acho que eles não conhecem os "ordinary Canadians" que eu conheço... Seriam talvez os canadenses comuns que moram no monte Olimpo ?
Claro, vai ter evento gratuito ! Muitas cerimônias de entregas de medalhas serão inteiramente grátis ou custarão menos que $25. E quem, além da mãe e da namorada do cara que desceu uma rampa de esqui em alta velocidade e deu uma cambalhota no ar faz questão de ficar debaixo da neve apreciando alguém pendurar uma medalha no pescoço do atleta ?
De acordo com o Vanoc, 50.000 ingressos serão distribuídos gratuitamente a pessoas que não podem pagar por eles. Adoraria saber os critérios utilizados.
E, para ser justa, haverá "cheap seats" a $50 para um evento de patinação (nenhum dos mais importantes), mas um lugar barato significa um dos "nosebleeders" (na gíria local, os últimos assentos lá no topo da arquibancada onde, segundo a piada, a altitude é tanta que seu nariz sangra, daí o nome).
Mesmo com preços estratosféricos assim, haverá loteria para comprar os ingressos. Serão 45 dias de tentativas para colocar o nome na lista pela internet ou por telefone, para depois aguardar o sorteio. Já até me imagino pulando de alegria: "Consegui ! Iuhuuu ! Fui sorteada para comprar um ingresso na patinação e vou pagar a pechincha de $525. Que sorte a minha !!!" Se não der para ir, basta vender o ingresso por $ 3000 na véspera. A mesma turma que compra os apartamentos que chegam a 14 milhões de dólares vai disputar os cambistas a tapa.
Só há uma competição que eu gostaria de ver ao vivo: a final da patinação artística, em dupla. E, assim como eu, parece que há uma leva de outros pouco fanáticos por esportes de inverno ao ar livre, já que os preços são estabelecidos por oferta/demanda e os da patinação serão vendidos pela bagatela de $525, nos melhores assentos. Nem é caro, já que um lugar bom na cerimônia de abertura custará $1.100 e um bom lugar na final do hockey masculino sairá por $775. Preços oficiais, antes dos cambistas.
A piada olímpica foi feita pelo próprio comitê (Vanoc), ao anunciar os preços: "Vancouver's Olympic organizers on Thursday unveiled a package of ticket prices they say will allow ordinary Canadians admission to every event at the 2010 Winter Olympics". Acho que eles não conhecem os "ordinary Canadians" que eu conheço... Seriam talvez os canadenses comuns que moram no monte Olimpo ?
Claro, vai ter evento gratuito ! Muitas cerimônias de entregas de medalhas serão inteiramente grátis ou custarão menos que $25. E quem, além da mãe e da namorada do cara que desceu uma rampa de esqui em alta velocidade e deu uma cambalhota no ar faz questão de ficar debaixo da neve apreciando alguém pendurar uma medalha no pescoço do atleta ?
De acordo com o Vanoc, 50.000 ingressos serão distribuídos gratuitamente a pessoas que não podem pagar por eles. Adoraria saber os critérios utilizados.
E, para ser justa, haverá "cheap seats" a $50 para um evento de patinação (nenhum dos mais importantes), mas um lugar barato significa um dos "nosebleeders" (na gíria local, os últimos assentos lá no topo da arquibancada onde, segundo a piada, a altitude é tanta que seu nariz sangra, daí o nome).
Mesmo com preços estratosféricos assim, haverá loteria para comprar os ingressos. Serão 45 dias de tentativas para colocar o nome na lista pela internet ou por telefone, para depois aguardar o sorteio. Já até me imagino pulando de alegria: "Consegui ! Iuhuuu ! Fui sorteada para comprar um ingresso na patinação e vou pagar a pechincha de $525. Que sorte a minha !!!" Se não der para ir, basta vender o ingresso por $ 3000 na véspera. A mesma turma que compra os apartamentos que chegam a 14 milhões de dólares vai disputar os cambistas a tapa.
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11 outubro, 2007
Marte, Vênus e a Roupa do Neném
Inverno chegando (com um outono gelado desses, o inverno promete), Mamãe sai às compras. Encontra um conjunto de moleton em promoção, num preço tão bom que ela compra três, um de cada cor. Em se tratando de roupa para sujar na creche, não é preciso ser muito criativa.
E ela veste o neném com o moleton azul marinho e diz a ele, enquanto Papai coloca o capuz na cabeça do menino:
- Vai praticar sua corrida em volta do quarteirão.
- Corrida nada ! Vai cometer o assassinato que encomendaram a você.
- Ai, que horror ! Não fala assim com ele.
- Você veste o menino de ninja, estava esperando o quê ?
PS: Mamãe não tem a menor idéia de quem seja ou o que seja ninja, também não faz questão de saber.
E ela veste o neném com o moleton azul marinho e diz a ele, enquanto Papai coloca o capuz na cabeça do menino:
- Vai praticar sua corrida em volta do quarteirão.
- Corrida nada ! Vai cometer o assassinato que encomendaram a você.
- Ai, que horror ! Não fala assim com ele.
- Você veste o menino de ninja, estava esperando o quê ?
PS: Mamãe não tem a menor idéia de quem seja ou o que seja ninja, também não faz questão de saber.
10 outubro, 2007
SAL do Iglu pra Ellie
O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde para Ellie:
O inhame que eu conheço no Brasil não é doce, é branco por dentro e tem uma casca bem mais grossa que o "yam". O inhame brasileiro é bem mais parecido com mandioca do que com batata-doce. O "yam" é uma batata-doce alaranjada, eu já até vi batata-doce roxa no Brasil, mas alaranjada, nunca.
As pessoas traduzem como "inhame" porque acham a palavra parecida com "yam", mas é um falso cognato.
O inhame que eu conheço no Brasil não é doce, é branco por dentro e tem uma casca bem mais grossa que o "yam". O inhame brasileiro é bem mais parecido com mandioca do que com batata-doce. O "yam" é uma batata-doce alaranjada, eu já até vi batata-doce roxa no Brasil, mas alaranjada, nunca.
As pessoas traduzem como "inhame" porque acham a palavra parecida com "yam", mas é um falso cognato.
07 outubro, 2007
Happy Thanksgiving
No Canadá, comemora-se o Dia de Ação de Graças na segunda segunda-feira do mês de outubro. É a festa da colheita e no Canadá, por razões climáticas, a colheita acontece mais cedo que nos Estados Unidos, onde eles celebram o Thanksgiving no mês de novembro. Se esperar até novembro, já é inverno bravo aqui e não vai ter abóbora dando sopa para fazer a típica "pumpkin pie". Em muitos lugares do país, em novembro já estão fazendo bonecos de neve na porta de casa !
Eu adoro os "family holidays" e logo incorporei o Thanksgiving à minha lista. Gostaria de morar numa casa grande nos dias de Páscoa, Thanksgiving, Halloween, Natal e Ano Novo (nada mais deprimente que um 31 de dezembro chuvoso em Raincouver, onde só se vêem fogos de artifício no canal da CNN). Adoraria ter espaço para juntar muitos amigos, fazer uma comida especial, deixar a criançada correndo pela casa... E eu ainda faria uma grande festa junina no quintal, para não ficar um espaço tão grande sem festas de abril a outubro. Em junho, em pleno verão, a probabilidade de chuva é menor. Aliás, podendo escolher mesmo, eu passaria todas as Páscoas e os 31 de dezembro numa praia no Brasil, mas a gente se adapta como pode.
O menu tradicional do jantar de Ação de Graças inclui "stuffed turkey" (peru recheado com uma farofa metida a besta, feita com pão moído, já que o gringo típico não tem a felicidade de conhecer farinha de mandioca), "yam" (é uma batata-doce alaranjada por dentro, deliciosa, que nunca vi no Brasil), "brussel sprouts" (couve-de-bruxelas, aquele repolhinho verde minúsculo, amargo, que fica sempre largado no canto do prato, porque raramente alguém gosta do infeliz), "mashed potatoes" (purê de batata; eu sei, já tem batata doce e eles ainda fazem purê ? Não discuta com a tradição alheia !). Arroz, que é bom, não tem. Para ajudar a descer o peru, que já é uma carne seca por natureza, coloca-se na fatia uma colher de uma geléia chamada "cranberry sauce" (não tenho a mínima idéia de como se diz "cranberry" em português, é uma das tantas frutinhas silvestres vermelhinhas e pronto). E, de sobremesa, come-se "pumpkin pie" (eu geralmente levo a minha sobremesa, porque torta de abóbora não rola. Se ainda levasse leite condensado, eu até poderia dar uma chance).
No dia de Ação de Graças, é sempre bom lembrar dos muitos motivos para dar graças a Deus: saúde e harmonia, família, amigos, empregos, sonhos realizados...
Happy Thanksgiving a todos ! Para saber mais: Canadian Thanksgiving
Eu adoro os "family holidays" e logo incorporei o Thanksgiving à minha lista. Gostaria de morar numa casa grande nos dias de Páscoa, Thanksgiving, Halloween, Natal e Ano Novo (nada mais deprimente que um 31 de dezembro chuvoso em Raincouver, onde só se vêem fogos de artifício no canal da CNN). Adoraria ter espaço para juntar muitos amigos, fazer uma comida especial, deixar a criançada correndo pela casa... E eu ainda faria uma grande festa junina no quintal, para não ficar um espaço tão grande sem festas de abril a outubro. Em junho, em pleno verão, a probabilidade de chuva é menor. Aliás, podendo escolher mesmo, eu passaria todas as Páscoas e os 31 de dezembro numa praia no Brasil, mas a gente se adapta como pode.
O menu tradicional do jantar de Ação de Graças inclui "stuffed turkey" (peru recheado com uma farofa metida a besta, feita com pão moído, já que o gringo típico não tem a felicidade de conhecer farinha de mandioca), "yam" (é uma batata-doce alaranjada por dentro, deliciosa, que nunca vi no Brasil), "brussel sprouts" (couve-de-bruxelas, aquele repolhinho verde minúsculo, amargo, que fica sempre largado no canto do prato, porque raramente alguém gosta do infeliz), "mashed potatoes" (purê de batata; eu sei, já tem batata doce e eles ainda fazem purê ? Não discuta com a tradição alheia !). Arroz, que é bom, não tem. Para ajudar a descer o peru, que já é uma carne seca por natureza, coloca-se na fatia uma colher de uma geléia chamada "cranberry sauce" (não tenho a mínima idéia de como se diz "cranberry" em português, é uma das tantas frutinhas silvestres vermelhinhas e pronto). E, de sobremesa, come-se "pumpkin pie" (eu geralmente levo a minha sobremesa, porque torta de abóbora não rola. Se ainda levasse leite condensado, eu até poderia dar uma chance).
No dia de Ação de Graças, é sempre bom lembrar dos muitos motivos para dar graças a Deus: saúde e harmonia, família, amigos, empregos, sonhos realizados...
Happy Thanksgiving a todos ! Para saber mais: Canadian Thanksgiving
05 outubro, 2007
Queima de Arquivo
Sempre achei que morar perto do trabalho era uma vantagem. Em Brasília, no meu primeiro e no meu último emprego como enfermeira, eu levava uns 10 minutos a pé de casa para o hospital. Aqui, quando eu morava no outro apartamento, eu gastava exatos 3 minutos caminhando até o trabalho. E, agora, morando bem mais longe, levo uns 15 minutos. Considerando que já peguei uma greve de 3 meses dos transportes públicos em Vancouver, morar perto do trabalho parecia muito conveniente.
Ultimamente tenho descoberto uma desvantagem considerável de trabalhar e morar na mesma vizinhança: muitos pacientes acabam sendo vizinhos. Isso não traria nenhuma inconveniência, não fosse o fato de eu ter uma boa memória fotográfica. Também não seria nenhum problema se eu trabalhasse na maternidade, por exemplo. Sei que parece difícil de acreditar, mas mesmo trabalhando no centro cirúrgico, onde a interação com o paciente acordado é mínima e o fluxo de pacientes é grande, eu consigo lembrar dos rostos, de alguns nomes e de muitos detalhes de certos casos memoráveis.
Praticamente toda manhã, no caminho para o hospital, cruzo com uma pessoa que foi um caso inesquecível. E, naqueles instantes em que nossos corpos dividem a mesma calçada, fico pensando se já conseguiu fazer a cirurgia de "sex reassignment", se os colegas de trabalho sabem ou não... E, certamente, ela nem sonha que aquela estranha que passa todo dia na mesma hora vai pelo resto do caminho pensando nos detalhes interessantes da anatomia dela.
E, no supermercado, enquanto peço ao rapaz atrás do balcão para fatiar presunto, olho para o rosto lindo dele, reconheço o nome diferente no crachá e perco o apetite. Se ele soubesse o que estou pensando, no mínimo, ficaria com vergonha. A freguesa não só já viu o bumbum dele literalmente "de perto", como sabe de suas preferências peculiares .
Eu bem que tento desviar o pensamento, cantarolar uma musiquinha boba na cabeça, mas como evitar em pensar se o cara que me serve cappuccino na cafeteria preferida do Marido Viciado em Café lavou as mãos bem lavadas antes de tocar na minha xícara ? Ninguém parece se importar, mas será que alguém, além de mim, sabe que ele tem verrugas altamente contagiosas naquele lugar onde o sol não bate ?
Até parei de tomar café da manhã num dos restaurantes favoritos dos amigos do Marido Gringo, porque parecia um carma, era sempre a mesma garçonete. Eu a reconheci assim que ela chegou para a cirurgia, quem viu aqueles beiços falsos de silicone uma única vez jamais os esquece. Mas é o fato de que ela fez uma plástica nos outros lábios por um motivo tão pouco comum que eu fico o tempo todo martelando o porquê de uma estrela de filme pornô trabalhar como garçonete (como não encontro uma terminologia adequada para descrever a cirurgia sem ofender ninguém, podem dar asas à imaginação). E aí fico distraída e não consigo conversar durante o café !
Abençoado seja o inventor das máscaras cirúrgicas ! Não fossem por elas e pela bendita medicação dada pelo anestesista que causa amnésia no paciente, eu temeria pela minha vida. Vai que algum morador das redondezas descobre que eu tenho boa memória e tenta eliminar aquela enfermeira que sabia demais ? Tem até um nome para isso: queima de arquivo...
Ultimamente tenho descoberto uma desvantagem considerável de trabalhar e morar na mesma vizinhança: muitos pacientes acabam sendo vizinhos. Isso não traria nenhuma inconveniência, não fosse o fato de eu ter uma boa memória fotográfica. Também não seria nenhum problema se eu trabalhasse na maternidade, por exemplo. Sei que parece difícil de acreditar, mas mesmo trabalhando no centro cirúrgico, onde a interação com o paciente acordado é mínima e o fluxo de pacientes é grande, eu consigo lembrar dos rostos, de alguns nomes e de muitos detalhes de certos casos memoráveis.
Praticamente toda manhã, no caminho para o hospital, cruzo com uma pessoa que foi um caso inesquecível. E, naqueles instantes em que nossos corpos dividem a mesma calçada, fico pensando se já conseguiu fazer a cirurgia de "sex reassignment", se os colegas de trabalho sabem ou não... E, certamente, ela nem sonha que aquela estranha que passa todo dia na mesma hora vai pelo resto do caminho pensando nos detalhes interessantes da anatomia dela.
E, no supermercado, enquanto peço ao rapaz atrás do balcão para fatiar presunto, olho para o rosto lindo dele, reconheço o nome diferente no crachá e perco o apetite. Se ele soubesse o que estou pensando, no mínimo, ficaria com vergonha. A freguesa não só já viu o bumbum dele literalmente "de perto", como sabe de suas preferências peculiares .
Eu bem que tento desviar o pensamento, cantarolar uma musiquinha boba na cabeça, mas como evitar em pensar se o cara que me serve cappuccino na cafeteria preferida do Marido Viciado em Café lavou as mãos bem lavadas antes de tocar na minha xícara ? Ninguém parece se importar, mas será que alguém, além de mim, sabe que ele tem verrugas altamente contagiosas naquele lugar onde o sol não bate ?
Até parei de tomar café da manhã num dos restaurantes favoritos dos amigos do Marido Gringo, porque parecia um carma, era sempre a mesma garçonete. Eu a reconheci assim que ela chegou para a cirurgia, quem viu aqueles beiços falsos de silicone uma única vez jamais os esquece. Mas é o fato de que ela fez uma plástica nos outros lábios por um motivo tão pouco comum que eu fico o tempo todo martelando o porquê de uma estrela de filme pornô trabalhar como garçonete (como não encontro uma terminologia adequada para descrever a cirurgia sem ofender ninguém, podem dar asas à imaginação). E aí fico distraída e não consigo conversar durante o café !
Abençoado seja o inventor das máscaras cirúrgicas ! Não fossem por elas e pela bendita medicação dada pelo anestesista que causa amnésia no paciente, eu temeria pela minha vida. Vai que algum morador das redondezas descobre que eu tenho boa memória e tenta eliminar aquela enfermeira que sabia demais ? Tem até um nome para isso: queima de arquivo...
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