28 novembro, 2007

O Samba do Mascote Doido




Esta semana foram divulgados os mascotes para as Olimpíadas 2010 em Vancouver/Whistler. Não é erro de digitação: são "mascotes", assim mesmo, no plural. Olhando para eles, pode-se questionar o significado dos nomes que soam japoneses, pode-se perguntar que drogas alucinógenas foram consumidas durante a sua criação, só a criatividade é que não pode ser colocada em dúvida.

Num país com tantos animais selvagens, alguém pensaria em escolher uma baleia beluga, um castor, um "spirit bear"(urso albino) ou um urso polar, para ficar no básico. Eu preferiria um simples esquilo ou até um totem para prestigiar a cultura indígena local, mas os organizadores dos jogos, preocupados em magoar uma ou outra espécie animal, optaram por escolher todas. E assim nasceram os mascotes esquizofrênicos, verdadeiras aberrações biológicas na era da clonagem descontrolada, que precisam de legendas para que se possa saber do que se tratam. É como se o Pokemon tivesse sido adotado pelos "Backyardigans" e mandado para "A Ilha do Dr. Moreau" (quem nunca viu esse filme péssimo, nem perca tempo imaginando). E, como fiz o cursinho "Olympic Mascots for Dummies", compartilho aqui a minha sabedoria no assunto:

Quatchi é um "sasquatch", ou Pé Grande, ou ainda, o elo perdido entre o homem e o macaco. E, apesar de folclórico, é o mais convincente dos mascotes. Pelo menos sabe o que é. Miga é uma mistura de baleia orca com urso (ou seria um urso com nadadeiras de baleia ?), mas à primeira vista, tem a maior cara de panda com topete de Elvis e bigodinho de cantor de churrascaria na beira da estrada, sendo mais apropriada para as Olimpíadas de verão na China. O campeão da esquisitice é Sumi, um urso com asas e fantasia de madrinha da bateria de escola de samba do segundo grupo (de cidade do interior). Aliás, Sumi, a Estátua da Liberdade foi convocada para a guerra e pediu que você devolvesse o capacete dela para apresentar-se às forças armadas em Kandahar !

E, apesar de serem no inverno os jogos de Vancouver, o único mascote vestido é Sumi. Quatchi usa somente aquecedores de orelha (talvez por ser peludo) e Miga vai de cachecol e mais nada. Depois de verem a fantasia de Sumi, os outros dois optaram somente por usar acessórios e quem pode culpá-los ? Morra de frio, mas não de vergonha (cá para nós, hipotermia mata, mas vergonha não, mas cada um sabe de si).

Segundo o comitê organizador, os mascotes ganharam elogios entre a criançada e serão um sucesso de vendas. O Pacotinho de Consumismo pode pedir e implorar que não vai sair vestido com a roupa de Sumi, já fica aqui registrada a promessa.

Se a moda pega, na Copa de 2014 teremos como mascotes no Brasil o Curupira com cocar de índio, um mico leão-dourado com nadadeiras de boto cor-de-rosa e uma tartaruga marinha com asas de arara...

PS: Comentário profundo do Marido Gringo ao ver os mascotes: "I knew it was going to be some bullshit native crap, but this is just stupid". Resumiu numa frase o que eu levei uma página para dizer. Ah, o poder de síntese do sexo masculino !

27 novembro, 2007

Escritores da Liberdade


A Nanny do blog Unzip Canada indicou este humilde blog que vos "fala" e não dá informação sobre imigração para o prêmio "Escritores da Liberdade". A idéia do prêmio é do blog Batom cor-de-rosa. Se só isso já não fosse motivo para eu querer colocar um vestido longo (passado pela empregada), arrumar o cabelo (no salão, que se fui pobre, já me esqueci) e desfilar num tapete vermelho (aspirado pela faxineira, óbvio), os motivos pelos quais ela fez a indicação seriam razões de orgulho: "pelo bom humor de seus textos e honestidade em suas opiniões". O humor é genético, não é mérito meu, mas do DNA do meu pai. Se ele e meus irmãos tivessem um blog, ficaria fácil constatar tal afirmação colocando os "links" aqui. O que eu gostei mesmo foi da "honestidade em suas opiniões". Para quem passou a infância e parte da adolescência sob o manto asqueroso da ditadura, é uma dádiva poder expressar as próprias idéias abertamente.

Fico até surpresa ao ver que alguns candidatos a imigrantes lêem o blog, que além de não ser útil ao processo de imigração, não pinta sempre aquela imagem cor-de-rosa a respeito das bandas de cá, que geralmente é o que mais interessa aos decepcionados com o Brasil.

E, como a regra diz que é preciso indicar outros 3 blogs, fiquei quebrando a cabeça nestes últimos dias. "Escritores da Liberdade", não dá para ser qualquer um. E como eu não leio muitos blogs (trabalhando em tempo integral, com filho pequeno e sem empregada, é por pura sem-vergonhice minha mesmo, que tempo eu tenho de sobra), vou indicar aqui alguns que traduzem a idéia do prêmio:

Era uma vez e é ainda - da Carla, pela habilidade de enxergar humor no cotidiano e pela sinceridade em falar (e fazer piada) de trabalho, marido, filhos, sem ficar presa a um único assunto de brasileira morando no exterior.

Cotidiano Urbano - da minha grande amiga Juliana, que escreve com o coração na ponta dos dedos, transmitindo a emoção para o outro lado do monitor.

Síndrome de Estocolmo - por abordar assuntos de cunho social tão importante e por organizar a blogagem coletiva, divulgando boas causas pela net.

26 novembro, 2007

Winter Vocabulary 101

Semana passada tivemos os primeiros acidentes causados por "black ice". Aí me ocorreu que a expressão é uma das muitas que aprendi aqui, já que os livros de inglês raramente mencionam que "Mrs. Brown had a car accident due to black ice" e pensei em compartilhar alguns termos pouco comuns aos conterrâneos tropicais:

Black Ice - camada fina de gelo sobre o asfalto, geralmente causada pelo congelamento do orvalho. Agora vai querer explicar isso pro cara que nasceu e cresceu em Manaus, onde é mais fácil encontrar asfalto mole, derretido pelo calor !

Blizzard - tempestade de neve. Dez minutos de "blizzard" transformam completamente uma rua, as casas, as árvores, tudo vira a Vila do Papai Noel.

Flurry - uma queda rápida e fraquinha de neve (é "queda" de neve que se fala ? Em inglês é "snowfall", mas procurei no arquivo do meu vocabulário de candanga e não encontrei).

Frost - geada. Para a esmagadora proporção de gaúchos que compõem a comunidade brazuca aqui, não deve ser novidade.

Frostbite - lesão de pele e do tecido subcutâneo, mais comum no nariz, orelhas e pontas dos dedos das mãos e dos pés, causada por exposição prolongada a temperaturas abaixo de zero. O único jeito de eu ter uma coisa dessas é se houver um acidente e eu ficar presa sob uma avalanche. Eu, por vontade própria, passar o dia na neve, sem todo o equipamento necessário, sem chance ! Aliás, nem com toda a tralha indispensável eu topo entrar numa fria dessas. Convide-me para Cancún ou Natal, que depois a gente conversa.

Hail - chuva de gelo. Pelo menos aqui em Raincouver, onde raramente ocorrem tempestades, parece chuva de granizo, com pedrinhas pequenas de gelo branco. Iuhu ! Alguma coisa que eu já tinha visto antes de vir para cá ! Não que faça falta alguma, que feliz mesmo é o cara que não sabe nada disso porque mora numa praia tropical, onde há sol e calor o ano inteiro.

Raynaud Syndrome - eu nunca tinha ouvido falar nisso, até pisar na neve pela primeira vez e descobrir que eu tenho essa porcaria. Está explicado o porquê de eu detestar o frio ! Tem piorado a cada ano e agora, mesmo sem ter nevado, meus dedos dos pés já estão doendo quando saio na rua.

Slush - gelo ou neve parcialmente derretido. A neve fresca é linda, o slush que aparece quase sempre no dia seguinte (ou no mesmo dia) aqui em Vancouver é que é nojento. Aquele neve misturada com lama, em cima da calçada, faz uma travessia de 10 minutos (no verão) empurrando um carrinho de neném levar eternos 40 minutos de raiva e escorregões.

Snow - nem vou perder tempo tentando explicar as inúmeras variações para neve "wet snow", "fresh snow", "corn snow", "crud" (neve muito dura, imprópria para esquiar), porque, para quem nunca viu, não faz diferença alguma dizer que a neve está fresca, molhada ou boa para esquiar. Ou faz ? Para quem lida com ela por vários meses no ano: sinto muito, tenho pena de você, mas seu lugar já deve estar reservado no Céu. Vale lembrar que "snow" também é uma gíria para cocaína (aprendo mais palavras com os pacientes viciados em drogas do que com os "certinhos").

Em mais um daqueles mistérios inexplicáveis, os canadenses medem a própria altura em pés, mas num ataque de bom senso, falam na quantidade de neve em centímetros. Só assim para compreender quando a metereologia avisa da previsão de "snowfall" para o dia seguinte.

Como diria a turma do Pernalonga: "that's all folks" ! Aguarde, num Iglu perto de você, um vocabulário básico sobre as tralhas necessárias para sobreviver ao inverno com um mínimo de dignidade e sem hipotermia.

SAL do Iglu

O Serviço de Informação ao Leitor do Iglu responde:

Para Cris:

Não conheço nenhum livro específico sobre o assunto, mas se a sua irmã está no Orkut, recomendo as comunidades Curumim e Raising Bilingual Children. A orientação que já recebi aqui de duas fonoaudiólogas é a de que os pais devem sempre falar com a criança na sua primeira língua (dos pais). Sem querer criticar o pediatra do seu sobrinho, ele não é o profissional mais indicado para ajudar no assunto. E há muitas crianças expostas a somente um idioma que não falam muito antes dos 3 anos de idade, sem que haja nada errado com elas (ou com os pais).

Para Carla, consultora de assuntos aeroportuários:

Seus comentários sábios não chegaram ! Gente, será que estamos sendo espionadas e o sistema de inteligência que lida com segurança nos aeroportos já confiscou seu comentário antes de ele chegar ao destino ? Que medo !

22 novembro, 2007

Os Programas de TV dos Filhos


No Primeiro Mundo sem babá ou empregada, volta e meia você terceiriza a atenção ao seu filho à TV (não sem alguma culpa, que fique claro). Quando ele não assiste aos DVDs brasileiros ou à série Baby Einstein, a TV fica no Treehouse. E mesmo sem sentar e prestar atenção aos programas, há sempre aqueles irritantes, capazes de levar você ao desespero enquanto faz os serviços domésticos (não sem muita inveja das amigas na terrinha que dispõem de criadagem, que fique BEM claro).

Num feriado chuvoso qualquer, enquanto você cozinha, seu marido limpa a casa e seu filho espalha os brinquedos pela sala, a TV está ligada no insuportável Toopy and Binoo, mas pelos comentários do marido, você acharia que o canal é outro:
- Ah, não ! Agora, além de psicopata e sádico, este rato também é travesti !
- Eu ODEIO este rato, até a voz dele é insuportável.
- Mas o desenho do rato doido acabou de terminar, para que vão passar outro episódio ? Por que eles me torturam tanto ?

Para você nada é mais deprimente do que o desenho canadense The Mole Sisters. Aliás, segundo o Marido Gringo, a garantia de que o desenho é chato é dada logo na abertura, quando aparece a bandeirinha do Canadá. Não recomendo que adultos com qualquer tipo de depressão estejam presentes na sala quando essa chatice começa, já que o risco de suicídio eleva-se à terceira potência (dados do IFPI: Instituto Flaviano de Pesquisas Irrevelantes). Não é surpresa que, numa pesquisa do google sobre "The Mole Sisters", aparece na própria página do programa Tree House: "boring shows" e "the least favourite shows on Treehouse".

Tudo bem, as crianças não vêem com olhos de adulto. Tom & Jerry também eram sádicos, Pernalonga também se vestia de mulher e ninguém cresceu traumatizado por conta disso. Já adulta, quando assisti novamente ao meu filme favorito de infância, fiquei chocada ao constatar o quão sádico era o Mr. Wonka de A Fantástica Fábrica de Chocolates. E pensar que, na era pré-videocassete, eu queria faltar a aula sempre que reprisavam o filme na Sessão da Tarde !

19 novembro, 2007

A Gravidez Demorada e A Comunicação Truncada

Depois do plantão, a conversa com o Marido sobre como havia sido a noite de trabalho.

- Acredita que ontem havia uma mulher em trabalho de parto com 47 ?
- QUARENTA E SETE ?
- Inacreditável, né ? O anestesista até pensou que tivesse pego o prontuário errado.
- Mas isso é possível ?
- Claro, ela estava lá.
- Não sabia que eles permitiam isso.
- Como assim ? Ninguém precisa de permissão para ter filho !
- Eu achava que os médicos deixavam no máximo até 42.
- Com 47 tem mais riscos, mas os médicos não têm que deixar ou impedir nada.
- Eu sempre achei que eles induzissem com 42.
- Você está pensando em semanas ?
- É, induzir o parto com no máximo 42 semanas.
- Não, ela tinha 47 anos de idade !

18 novembro, 2007

Tasered to Death

Faz tempo que eu queria escrever sobre o caso do imigrante polonês, morto por choque dado pela polícia canadense com um "taser" (arma que emite corrente elétrica de alta voltagem) no aeroporto de Vancouver (YVR, para os íntimos), mas não ia dizer nada antes de assistir ao vídeo liberado esta semana.

O rapaz de 40 anos saiu do seu país pela primeira vez, para imigrar para o Canadá, onde já morava sua mãe. Sem falar uma palavra de inglês, combinou de encontrar-se com ela na esteira de bagagens. Ela, que obviamente já havia feito o mesmo percurso ao menos uma vez, esqueceu-se de que não há acesso ao público na esteira de bagagens de vôos internacionais, porque é preciso primeiro passar pela alfândega. O azarado, que nunca havia feito uma viagem dessas, ficou 9 horas esperando por ela do lado de dentro, enquanto ela o esperou por 5 horas do lado de fora, provavelmente no local onde chegam as malas de vôos domésticos.

Depois de um longo vôo, sem encontrar nenhum conhecido, sem saber como pedir ajuda, provavelmente faminto e cansado, ele começou a colocar para fora a sua frustração. Ficou nervoso, jogou uma cadeira no chão, mas não atacou ninguém fisicamente. Parece que ele havia parado recentemente de fumar, o que pode ter contribuído para a agitação (cigarro é uma praga até depois de abandonado o vício). O vídeo mostra claramente que, assim que viu os 4 policiais, ele levantou as mãos, na linguagem universal de quem está se entregando. Mesmo assim, levou os choques e faleceu (leia a notícia na íntegra).

As perguntas que me martelam a cabeça:

- Por que, num aeroporto internacional, NINGUÉM encontrou um tradutor que falasse polonês ? (No centro cirúrgico onde eu trabalho há muito menos funcionários e é raro o dia em que não encontramos algum colega para traduzir qualquer idioma - por sinal, temos 2 funcionários poloneses)
- Por que ninguém teve a curiosidade de pegar o passaporte do rapaz e ver que ele era polonês e não russo, como ficaram insistindo no vídeo ?
- Por que, em 9 horas esperando na alfândega, ninguém tomou uma providência para ajudar o infeliz ?
- Por que, em 5 horas de espera do lado de fora, a mãe do rapaz, que já mora aqui e deve falar um mínimo de inglês, não conseguiu ajuda para informar-se de que o filho estava no vôo e se havia chegado ?
- Por que usaram o "taser", se eram 4 policiais contra um homem desarmado ?
- Por que, mesmo depois que o rapaz estava no chão, todos os homens subiram nele e deram mais um choque ?

E a pergunta mais intrigante de todas :
- Por que, ao constatarem que ele não tinha mais pulso (se estavam em cima dele, dava para ver quando ele morreu), NINGUÉM tentou reanimação cardíaca ou ligou para 911 ? Se isso não for omissão de socorro, o que é ?

Os quatro policiais não foram afastados do cargo e espero que não integrem o comitê de boas vindas aos visitantes e atletas das Olimpíadas de 2010.

E só para tranqüilizar os turistas que não falam inglês e pretendem dar as caras por aqui: se o vôo parar em Toronto, a alfândega é feita por lá mesmo, então a chance de levar um choque da polícia do aeroporto de Vancouver é mínima. As malas dos vôos domésticos chegam numa parte aberta ao público e, se você estiver bem comportado, encontra sua família ou amigos antes de ser descoberto pela polícia. E, totalmente "off topic", mas nem tanto: nunca é demais lembrar que a palavra "bomba" jamais deve ser pronunciada nas proximidades de um aeroporto, em qualquer língua.

E pensar que eu achava que era muito azar perderem as minhas malas nas viagens internacionais. Pelo menos nunca tomei esse tipo de choque !

Carla, consultora oficial do Iglu para assuntos aeroportuários, pode dar uma luz ?

14 novembro, 2007

SAL do Iglu para Leticia

Diretamente do computador gringo do hospital, que desconhece acentos e cedilhas:

O meu sling eu comprei pela internet, no babyslings.com. Eu usei muito mais o canguru Baby Bjorn, de 10 dias de vida ateh 9 meses. Ateh 3 meses, ele ficava virado para mim, depois passei a vira-lo para a frente. Peguei a manha de amamentar com o nenem dentro do canguru, caminhando, sem precisar parar, NADA mais pratico na vida, principalmente para viagens. O nenem jah estah em peh, nao precisa tirar nem para arrotar. Ateh uns 4 meses, ele soh tirava sonecas diarias no canguru (sempre dormiu bem de noite, mas de dia, era uma luta) e soh passei a usar o carrinho depois que ele completou 6 meses, mesmo assim, ainda preferia o canguru.

O sling e o canguru (embora tenha gente que ache que o canguru traz problemas para a coluna do bebe) sao excelentes para acalmar o bebe, recomendados pelo Dr. Karp. Para bebes com refluxo, que acabam morando dentro do canguru, eh uma bencao.

Dentre todas as compras do enxoval, o dinheiro mais bem gasto foi com o Baby Bjorn. Quem tem sling tambem recomenda. Um bom sling pode ser usado desde recem-nascido ateh uns 3, 4 anos de idade.

13 novembro, 2007

Remembrance Day

"Remembrance Day (Australia, Canada, United Kingdom), also known as Poppy Day (Malta, South Africa) or Armistice Day (France, New Zealand, and a number of other Commonwealth countries; and the original name of the day internationally) is a day to commemorate the sacrifices of members of the armed forces and of civilians in times of war, specifically since the First World War. It is observed on 11 November to recall the end of World War I on that date in 1918."
Wikipedia

Não, nem toda segunda-feira aqui é feriado, como perguntou a minha mãe ontem. Também nem toda primeira segunda-feira do mês é feriado, como entendeu a minha irmã. Aliás, quem me dera ! O Canadá está situado entre os países com menor número de feriados, de acordo com o Instituto do Marido Gringo (procurei na net e não encontrei a tal lista).

O feriado de ontem (que nem era a primeira segunda-feira do mês, por sinal) foi o do "Remembrance Day." No verão, até que há um feriado por mês aqui em BC: tem Victoria Day (na segunda-feira próxima ao dia 24 de maio), Canada Day (1 de julho), BC Day (primeira segunda-feira de agosto) e Labour Day (primeira segunda-feira de setembro).

E agora, feriado só no Natal e no Boxing Day (dia 26 de dezembro), que o pessoal aqui também trabalha nas segundas-feiras, viu ?

PS: Eu acho que deveríamos observar todas as datas importantes para as diversas culturas e poderia haver um Dia do Evangélico, Dia do Muçulmano, comemoração da travessia do Mar Vermelho, aniversário de Buda, início da greve de fome de Gandhi, libertação de Mandela, etc. E, mesmo com o inconveniente da creche, que não abre nos dias não-úteis (o Pai Cansado já determinou que creche deveria ser serviço essencial e ficar aberta 24 horas, em caso de necessidade), eu ganho o dobro para trabalhar em feriados e 2,5 a hora normal para trabalhar no Natal, Sexta-Feira da Paixão e Dia do Trabalho. A briga nos hospitais aqui é para ver quem NÃO vai folgar nos feriados.

10 novembro, 2007

Ah, the perks !

"Perk
noun
1. an incidental benefit awarded for certain types of employment (especially if it is regarded as a right); "a limousine is one of the fringe benefits of the job" [syn: fringe benefit]"

A gente trabalha longas horas de pé, volta e meia recebe um paciente violento, corre diariamente o risco de pegar uma infecção ou de levar uma espirrada de sangue no rosto (que, por sinal, deve estar devidamente coberto com óculos de proteção e máscara, ao contrário do que a gente vê na TV) e não tem a vida excitante nos corredores do hospital, como a turma do Grey's Anatomy, então qual a vantagem de trabalhar na sala de cirurgia ? Como disse uma amiga ginecologista que pediu e ganhou uma anestesia rapidíssima quando estava em trabalho de parto: "I'm here for the perks".

Ninguém melhor do que a galera que trabalha ao lado dos cirurgiões para saber quem escolher na hora de tirar a vesícula e quem recusar na hora de tirar uma verruguinha que seja. Um cirurgião vascular sempre diz "quer saber quem é bom aqui ? Não pergunte para mim, eu só conheço a minha especialidade. Pergunte às enfermeiras e aos anestesistas".

O problema de estar cercada de entendidos no assunto é que não se pode ter nenhum defeito visível.
- Flávia, o que é isso no seu pescoço ? (pergunta uma colega, logo de manhã cedo)
- Tem alguma coisa no meu pescoço ?
- Tem um caroço ("a lump") do lado direito. (nisso, já eram quatro espiando e apontando)
- Dr. Fulano (especialista em cirurgia de garganta e pescoço) está operando hoje. Passa lá na sala 8 no intervalo que ele dá uma olhada. Jura que você não notou isso antes ?

Entre a ziquezira ter aparecido no meu pescoço (juro que, apesar de grande e óbvia, não estava lá na noite anterior ou estava escondida sob a blusa de gola alta e o cachecol. Quem manda ser friorenta e vir morar longe dos trópicos ?) e o especialista ter examinado passaram-se duas horas. O tempo de espera costuma ser de 3 meses para ser vista por um especialista, após indicação do médico de família. Como o sistema aqui impede que se vá diretamente a um especialista sem passar por um clínico geral (pode ser lindo no papel, mas na prática é lento e irritante), mesmo já tendo sido vista por ele, preciso de um encaminhamento. Liguei para a minha médica, que só tem vaga para dia 22. Já sabendo do que preciso, fui a uma "walk-in clinic" no mesmo dia, somente para dizer à médica lá o que escrever no papel: um pedido de ultrassom e um encaminhamento para consulta com Dr. Fulano de Tal. Ela queria marcar a consulta e o exame (aqui é assim), mas desistiu quando eu disse que tinha permissão do especialista para ligar diretamente para a secretária dele (precisa de autorização) e marcar eu mesma. Segunda-feira é feriado, vamos ver na terça quanto tempo terei que esperar para fazer o ultrassom e ver o médico. Quem sabe, mexendo os pauzinhos eu ainda consiga fazer a biópsia antes do Natal. Sim, porque o troço não dói nem incomoda, tem 95% de chance de ser benigno, mas agora que eu sei que está lá, quero tirá-lo o quanto antes.

E pensar que um dos caras mais asquerosos e de competência duvidosa lá do hospital é justamente um "especialista" em cirurgia de pescoço ! A ignorância é, muitas vezes, uma bênção. Como todos os meus colegas, se eu algum dia tiver uma dor abdominal violenta no meio da madrugada, vou ligar lá no centro cirúrgico e perguntar quem está de plantão. Dependendo da resposta, vou para outro hospital. Melhor ser operada por um estranho do que por alguém que leva 4 horas numa cirurgia que costuma levar 40 minutos (pelo menos com o estranho a chance é de 50% de ele saber o que está fazendo, né ?).

Minha carreira de modelo internacional, que já andava em baixa pelas pelancas pós-parto, agora está totalmente arruinada pelo caroço no pescoço.

07 novembro, 2007

A diferença entre um gato e "a cat"

O "post" de hoje vai para a minha irmã, que inocentemente deduziu que os gatos seriam iguais no mundo inteiro.

Como assim diferença ? Um não é sinônimo do outro, só que em outra língua ? Não, caro leitor que tem tempo de sobra para ler as bobagens que eu escrevo, não são a mesma coisa. Há diferenças culturais que afetam as vidas dos bichanos, senão a pergunta "quantas vidas tem um gato ?" teria a mesma resposta ao redor do mundo.

"A cat", nascido no Primeiro Mundo, criado com ração chique, que é vendida num corredor imenso do supermercado destinado somente a "pet food", chega a este planeta com nove vidas ("a cat has nine lives", pode pesquisar por aí). Pelo menos quatro delas dedicadas a assistir preguiçosamente aos inúmeros comerciais de TV que mostram produtos exclusivos para eles. Um gato, nascido num país em desenvolvimento (não sei sobre os felinos domésticos de Portugal), tem somente sete vidas. Também pudera, é poluição, estresse no trânsito, medo da violência urbana, leite adulterado com água oxigenada, cachorros andando sem coleira nas ruas, churrasquinho de felino sendo vendido em novela (os mais jovens provavelmente não vão se lembrar, mas numa novela antiga, havia uma senhora que vendia literalmente gato por lebre). Ah ! E ainda tem o Carnaval, com o couro de gato no tamborim (ou será cuíca ? Minha ignorância sambística impede a afirmação).

E o que fazem os "cats" com as duas vidas sobressalentes ? Provavelmente as usam na aposentadoria, quando já gordos e cansados, mudam-se para um lugar tropical, onde aproveitam os anos da velhice cochilando numa rede de casa de praia ensolarada. Antes tarde do que nunca. Talvez, com um pouco de "sorte", até avistem um camundongo ao vivo pela primeira vez (aargh !).

Coitado do gato brasileiro, além de tudo, "sete" é conta de mentiroso ! No fundo, deve ter só umas três vidas e sai por aí contando vantagem. Se ainda houvesse vaga para gato no Congresso Nacional, poderia ao menos viver uma das vidas com mordomia e candidatar-se a várias reeleições, prolongando-a ao máximo.

Eu particularmente não gosto de gatos (como dizem por aqui, "I'm a dog person"), mas mesmo assim acho uma tremenda injustiça os bichanos conterrâneos serem privados de duas vidas só por serem brazucas. Em tempos de globalização e de proteção aos animais, isso é duplamente incorreto. Será que a SPCA sabe disso ?

SAL do Iglu para Deby

Eu também sempre dizia que queria ter 3 princesas, mas lá no fundo achava que acabaria somente com meninos (e ainda acho)... Se você faz questão mesmo, pode dar uma ajudinha à sorte (tem gente que jura que funciona, uma colega indiana tentou para garantir um menino e conseguiu): como determinar o sexo do bebê. Quem sabe ?

03 novembro, 2007

Que língua ele fala ?

É difícil de acreditar, mas a família do Pacotinho de Globalização escuta tal pergunta desde que ele tinha 6 meses de vida (diretamente do túnel do tempo), quando obviamente ele só falava bebezês (ou, em inglês, "Gibberish").

Desde que ele tinha uns 8 meses de idade, Mamãe-Que-Ficou-De-Cama-6-Semanas-Antes-Do-Parto-E-Teve-Tempo-De-Ler-Muito colocou em prática alguns sinais do livro Baby Signs, em português traduzido como "Sinais: A Linguagem do Bebê". Muito antes de aprender a falar, ele já fazia o sinal de acender a luz, seu primeiríssimo (sem comentários quanto às prioridades dele em relação à utilidade da comunicação). Como na creche eles reenforçam os sinais (são muito populares por aqui), com 1 ano ele fazia o sinal para "quero mais" e o de "acabou", fora os que todo o mundo ensina automaticamente, como "não" e "tchau". E agora, com 1 ano e 4 meses, ouvindo o português da Mamãe e dos CD's e vídeos trazidos da terrinha, o servo-croata do lado gringo da família e o inglês da creche, já é possível saber que línguas ele fala: seu palavreado consiste de 30% de português, 10% de servo-croata e 60% de inglês. Seu extenso vocabulário, além de trilíngüe (e viva o trema) e polêmico, é politicamente incorreto e inclui:

- mommy (é mole você gastar a língua de Camões com o neném para ele vir chamar a mãe de "Mommy" ?);
- mamã (dependendo da hora, ele apela em português também, que não é bobo e já viu que a mãe responde mais rápido);
- tata (a única palavra que ele fala na língua do pai significa justamente "pai", mas ele só a usa para mostrar o pai em fotos, nunca para chamá-lo);
- uby (pronuncia-se "âbi" e, como Mamãe chama o Papai de "Hubby", ele se acha no direito de fazer o mesmo. Logo cedo já fica em pé no berço gritando "uby". Exceto o principal interessado, todo o mundo acha uma gracinha);
- neném (os outros, nunca ele mesmo);
- bobô ("acabou", que só é possível saber do que se trata porque ele faz o sinal correspondente com as mãos - sim, pai e mãe também precisam de tecla SAP);
- ábua (não sei como ele pede água na creche, mas não pode ver uma poça d'água que grita "ábua");
- mó ("more", outro que só se descobre porque ele faz o sinal com as mãos);
- upstairs (sim, as tias da creche juram que ele fala "upstairs" apontando para cima, porque todo dia as crianças vão brincar no parquinho que fica no andar superior);
- não (para ser justa, é a única palavra trilíngüe, já que dependendo da conjunção dos astros, ele pode falar "no", "não" ou "né", mas não sei se é o caso de alterar as porcentagens supracitadas);
- bye (chega a ser irritante. Você diz "fala tchau" e o menino abana a mão e diz, numa voz bem cantada by-ye).

Então, minha gente, o lance é o seguinte: ele entende tudo o que falam com ele em português, inglês e servo-croata. Usa só os sinais que julga úteis, cumpre somente as ordens que considera convenientes em qualquer idioma e fala as palavras que podem trazer a ele algum benefício. No resto do tempo, fala um "Gibberish" fluente que só ouvindo ! Acho que isso não muda, estando a criança exposta a um, dois ou vinte e sete idiomas.

02 novembro, 2007

Depois do Halloween

As fantasias de Halloween dos adultos muitas vezes precisam de explicação. À primeira vista, para quem não é fluente na língua (e mesmo para quem é, mas não conhece certos termos e piadas bem específicas), alguns disfarces não fazem sentido algum.

Algumas fantasias "intrigantes" com as quais me deparei foram (explicações no final, tente ver se descobre):

1. Um vestido preto, com várias caixinhas de sucrilhos penduradas, cada uma com uma faquinha atravessada pelo meio.

2. Uma pessoa completamente vestida de preto, com o rosto pintado de preto, óculos escuros pretos, luvas pretas, um copinho de cachaça preso ao bolso da camisa e uma garrafa de brandy (ou whisky) na mão.

3. Uma pessoa vestida de batata, com enchimento de algodão na barriga e argolas de papel crepom verde por cima do algodão (como se fosse uma batata recheada, com "cream cheese" e cebolinha), com uma capa de super-herói nas costas.

Vou ficar só nessas, porque a fantasia de "memória fotográfica" é bem difícil de explicar. E aí ? Algum sucesso ?

1. A cereal killer (em inglês, a pronúncia de "serial" e "cereal" é idêntica).
2. A shot in the dark ("shot" é usado tanto para "tiro" quanto para uma dose de bebida alcóolica no copinho de cachaça).
3. A super spud ("spud" significa "batata", mas "stud" é uma gíria para um homem viril).

Na festinha de Halloween do centro comunitário, havia um monte de borboletas, leões, elefantes, tigres e até dois gambás. Segundo o Pai Nada Tendencioso, o Pacotinho de Halloween era o pirata mais legal de todos. E, para a Mamãe Preconceituosa (sim, descobri que tenho preconceito de fantasia, quando vi um garotinho de 1 ano vestido de vaca, com tetas e tudo, uma garotinha vestida de leão, com juba incluída e achei "estranho"), a fantasia mais original da festa foi a de um bebezinho de uns 40 dias vestido de banana. Como dizem por aqui: "cute as a button" !