
O Pacotinho de Jejum Eterno, embora coma muito mal em qualidade, quantidade e variedade, é uma das crianças mais saudáveis nos grupos de que faz parte. Mesmo já tendo tido uma receita de antibiótico para otite, nunca tomou nenhum. Com vários colegas e professoras faltando aula na escola, no curso de piano, ele ainda não tinha tido nenhum resfriado desde o verão de 2010. Mas não escapou imune à estação.
Com 5 anos e meio, Mamãe achava que ele já estava velhinho para ter "croup" (em português, laringite estridulosa), uma doença comum a crianças menores de 3 ou 4 anos. Há duas noites, ele que nunca foi manhoso ou chorão e sempre dormiu como uma pedra, doente ou não, acordou com febre, uma tosse parecendo um latido de foca (não sei o que foca faz em português, mas em inglês ela late) e reclamando de dor "no pescoço". Mamãe dificilmente se apavora com alguma coisa e sabia que, antes de chegar ao ponto de fechar a garganta e precisar de corticóide no hospital, a providência é acalmar a criança (falta de ar dá pânico mesmo) e levar para tomar ar frio (o que não falta abrindo a janela nesta época do ano). Ele se acalmou, dormiu a noite toda e ficou bem derrubadinho e calado no dia seguinte.
Aí, duas noites depois, ele acorda com o nariz escorrendo. No escuro, pega um lencinho e assoa. Corre pro banheiro e grita apavorado "pode acender a luz, Mamãe? Meu nariz está sangrando!". Era muito sangue, no vaso, no chão, na pia, escorrendo pelo nariz e sendo cuspido em grande quantidade. A mãe nem muda o tom de voz, "vamos voltar pra cama, sentar com o travesseiro nas costas, colocar este saquinho de gelo no nariz e chupar um picolé enquanto assiste a um desenho na TV". "Mamãe, não tem sangue na minha boca, não quero picolé, o sangue é do nariz!" "Cadê meu filho e quem é este menino que recusa picolé????"
Levou um tempão pro sangramento estancar e provavelmente hoje ele vai faltar a sua primeira competição de jiu-jitsu.
Até o fim do inverno, que oficialmente nem começou, tem sempre alguma criança doente nas redondezas. Umidificador no quarto, óleo de tomilho no peito, Baryta carbonica pra quem, como a mãe do Pacotinho de Virose gosta de remédios naturais (até porque virose não se cura com antibiótico) e força na peruca para sobreviver à mais longa das estações no hemisfério norte.

