27 novembro, 2011

A Estação das Doenças




O Pacotinho de Jejum Eterno, embora coma muito mal em qualidade, quantidade e variedade, é uma das crianças mais saudáveis nos grupos de que faz parte. Mesmo já tendo tido uma receita de antibiótico para otite, nunca tomou nenhum. Com vários colegas e professoras faltando aula na escola, no curso de piano, ele ainda não tinha tido nenhum resfriado desde o verão de 2010. Mas não escapou imune à estação.

Com 5 anos e meio, Mamãe achava que ele já estava velhinho para ter "croup" (em português, laringite estridulosa), uma doença comum a crianças menores de 3 ou 4 anos. Há duas noites, ele que nunca foi manhoso ou chorão e sempre dormiu como uma pedra, doente ou não, acordou com febre, uma tosse parecendo um latido de foca (não sei o que foca faz em português, mas em inglês ela late) e reclamando de dor "no pescoço". Mamãe dificilmente se apavora com alguma coisa e sabia que, antes de chegar ao ponto de fechar a garganta e precisar de corticóide no hospital, a providência é acalmar a criança (falta de ar dá pânico mesmo) e levar para tomar ar frio (o que não falta abrindo a janela nesta época do ano). Ele se acalmou, dormiu a noite toda e ficou bem derrubadinho e calado no dia seguinte.

Aí, duas noites depois, ele acorda com o nariz escorrendo. No escuro, pega um lencinho e assoa. Corre pro banheiro e grita apavorado "pode acender a luz, Mamãe? Meu nariz está sangrando!". Era muito sangue, no vaso, no chão, na pia, escorrendo pelo nariz e sendo cuspido em grande quantidade. A mãe nem muda o tom de voz, "vamos voltar pra cama, sentar com o travesseiro nas costas, colocar este saquinho de gelo no nariz e chupar um picolé enquanto assiste a um desenho na TV". "Mamãe, não tem sangue na minha boca, não quero picolé, o sangue é do nariz!" "Cadê meu filho e quem é este menino que recusa picolé????"

Levou um tempão pro sangramento estancar e provavelmente hoje ele vai faltar a sua primeira competição de jiu-jitsu.

Até o fim do inverno, que oficialmente nem começou, tem sempre alguma criança doente nas redondezas. Umidificador no quarto, óleo de tomilho no peito, Baryta carbonica pra quem, como a mãe do Pacotinho de Virose gosta de remédios naturais (até porque virose não se cura com antibiótico) e força na peruca para sobreviver à mais longa das estações no hemisfério norte.

21 novembro, 2011

Quando a Mãe é Desorientada e o Filho Não

Que você é uma pessoa disléxica para localização no espaço, já é fato conhecido há anos. Qualquer criança percebe, ainda que você não comente que está perdida. Então, a invenção do GPS para carros foi, para você, a invenção do século. Sim, antes do GPS havia mapas, tão úteis para você quanto a informação típica de um canadense, que diz "siga para o leste".

Seu filho de 5 anos, que não se perde em lugar algum desde muito pequeno, já notou o quanto o GPS é essencial se a mãe está no banco do motorista. Depois de alguns meses sendo levado à aula de jiu-jitsu pelo avô, ele pede que você vá assistir à aula. E, quando saem, ele pergunta:
- Mãe, você sabe onde é o jiu-jitsu?
- Eu tenho GPS! (tom de orgulho na sua voz)

Entram no carro e, depois de alguns meses, como era de se esperar, a mãe não reconhece o caminho. Mesmo confiando no GPS, ela pensa em voz alta que talvez esteja na rua errada. O menino já se preocupa:
- Por que você acha que está perdida? O GPS falou "recalculating"?
- Não falou NADA.
- Hum... Acho que a gente está no lugar errado.
(faltando 2 quarteirões para chegar, ele se empolga)
- Sim, é o caminho certo! Só que o meu avô sempre vem pelo outro lado da rua.

18 novembro, 2011

Uma Semana Vancouverite

Começou na segunda (ou na terça, porque a julgar pelo seu cansaço, o início da semana parece que já passou há séculos) a sua semana de habitante de Vancouver, quando de madrugada, incomodada com o calor que você mesma provocou ao aumentar a temperatura do aquecedor, resolveu abrir a porta da varanda para refrescar. Ao encostar na porta, você se assustou com uma criatura peluda, cinza, que estava a poucos centímetros dos seus pés, do outro lado do vidro. Você deu um grito e fechou a porta, o bicho correu imediatamente e foi possível ver a lixeira da churrasqueira tombada com o lixo espalhado. Embora você não tenha visto o rabo listrado, tem quase certeza de que era um guaxinim. Sua certeza é aquela típica de uma pessoa urbana, que tem fobia de bichos e ainda por cima está sonolenta às 3 da madrugada. Dentre as criaturas noturnas mais comuns por aqui, gambás são pretos de rabo listrado de branco e os coiotes costumam ser mais altos e mais magros do que aquilo que você viu. E pensar que você já deu palestras intermináveis sobre o risco de ter um encontro imediato do segundo grau com a vida selvagem dentro do quarto sempre que o marido abre totalmente a varanda sem deixar a tela de proteção fechada! Agora você cogita soldar a tela de proteção permanentemente.



E, para encerrar, na sexta-feira, você sai de casa às 6 da matina, com neve caindo sem parar. A tela do seu telefone diz que a temperatura em Vancouver é de 2 graus Celsius, com um floco de neve desenhado e a palavra "flurries". Você tem a certeza de que a pessoa que entra os dados meteorológicos não é de Vancouver, deve ser de Winnipeg ou Saskatoon, pra classificar como "flurries" aqueles 5 cm de neve. Como dizem por aqui, "flurries my ass!". Você vai caminhando devagar, pra não escorregar, mesmo usando suas botas antiderrapantes.



Quando entra no ônibus, após sacudir a neve da sombrinha, pede desculpas àquele motorista eternamente carrancudo, que nunca responde quando você dá bom dia e ele resmunga "eu sei que você tem passe de ônibus, não precisa mostrar!" Numa terra onde a regra é motorista de ônibus simpático, a mutação genética tinha ser exatamente na sua linha!

Enquanto caminha, você pensa no quanto sua alma tupiniquim aprendeu nestes 11 anos em terras geladas. Antes de morar aqui, neve era uma coisa abstrata, cenário de filmes e cartões de Natal. Neve era neve e pronto. Como o sol, sem especificações. Mas, depois de mais de uma década, logo que pisa no chão em frente de casa, você já classifica a neve no seu jardim como "powder snow", aquela fresca e fofinha. Quando chega à estação de metrô, encontra "slush", o gelo derretido. Você fica morrendo de medo de haver "black ice" onde já não há mais slush. E, no seu destino final, nem sinal de neve! Parece outra cidade, embora você tenha atravessado pouco mais de 30 quarteirões.

É nisso que dar morar em cima de um morro, de frente para um parque. Tem vida selvagem em abundância (se bem que, em Vancouver, há gambás, coiotes e guaxinins praticamente em qualquer lugar) e neva muito mais do que no centro.

Bom mesmo foi o comentário do seu filho de 5 anos, ao ver os vizinhos brincando na neve do quintal enquanto ele ainda tomava o café da manhã: "Preciso acabar logo e ir lá fora, senão eles vão usar TODA a neve!"

Ainda assim, com neve acumulada na calçada quando já não há mais praticamente nada no resto da cidade e criaturas peludas invadindo seu quintal, você não tem a menor saudade de morar em apartamento.

16 novembro, 2011

O Pacotinho de Explicações Sobre Tudo

Falta energia na casa. Se fossem de uma família organizada, teriam encontrado a correspondência na véspera e lido o aviso, mas foram pegos de supresa no sábado à tarde.

Papai avisa que as crianças irão à casa dos avós, já que não tem energia na casa e o menino de 5 anos começa:
- Eu sei TUDO sobre energia.
- Sabe?
- Sim, todas as coisas no mundo precisam de energia pra funcionar. As máquinas precisam de energia, os carros precisam de energia, os tratores...
- É mesmo?
- Sim, tudo precisa de energia menos zumbis.
- Zumbis?
- É. Zumbis só precisam de sangue.

Numa casa onde a mãe não tem a menor paciência para nada que envolva criaturas deste tipo e o pai, embora adore uma ficção sem pé nem cabeça, não assiste à TV na presença das crianças, de onde este menino tira estas coisas? Por sorte, ele ainda confunde zumbis com vampiros, um sinal de que não anda assistindo a este gênero de filme escondido. E a mãe dele não faz ideia de onde zumbis tiram energia.

14 novembro, 2011

O Pacotinho de Perguntas Infinitas

As músicas brasileiras nos CDs do carro são fontes inesgotáveis de perguntas. Já conhecendo a música Piruetas (blogger com problema, não permite colocar o link) de outro CD, na voz do Chico Buarque, o Pacotinho de Observação escuta pela primeira vez a mesma música na voz da Xuxa, no CD Dr Sabe Tudo, que ganhou recentemente de uns amigos muito especiais.

- Mãe, a gente já tem esta música.
- Sim, a gente tem.
- Mas é o Chico Buarque que canta. Por que esta moça está cantando?
- Porque ela também canta esta música.
- E quem é ela?
- É a Xuxa.
- Xuxa? Quem é Xuxa?
(a mãe quase tem um ataque cardíaco de orgulho de ele reconhecer o Chico Buarque, mas não a Xuxa)
- É uma moça do Brasil.
- Ah, eu gosto mais quando o Chico Buarque canta.
- Eu também! Ele é o meu favorito.
- Mãe, o Chico Buarque morreu?
- Não, Filhote.
- Ah, então ele pode cantar ainda né?

***

A música é Oito Anos, da Paula Toller, que ele também já conhecia na voz da Adriana Calcanhoto, mas por alguma razão, ainda não tinha escolhido para tornar-se o estompim do bombardeio de perguntas.

- Mãe, o que é colosso?
- Impávido colosso são duas palavras que existem no hino do Brasil. Oh Canada é o hino do Canadá e o Brasil também tem um hino.
- Mas o que é colosso?
- Acho que é uma obra muito grande.
- O que é "well"?
- Está em inglês, Filhote. Lembra de "very well"? Então, a mãe do menino não sabe responder este monte de pergunta que ele faz, por isso ela só diz "well, well, well, Gabriel".
- Gabriel é um nome de menino ou de menina?
- De menino.
- Então esta moça está fazendo estas perguntas pra mãe dela?
- Não, esta é a mãe do Gabriel cantando as perguntas que ele fazia quando tinha 8 anos.
- E como você sabe que ele tem 8 anos?
- Porque é o nome da música.

***
E no Plunct, Plact, Zoom ele quer saber o que é identidade e se no final da música o foguete realmente sobe. Na música da Rita Lee, ele pergunta o que é breca, quando ela diz "sempre fui levada da breca".

Como é que tem gente que consegue fazer filhos que ficam caladinhos no banco de trás, escutando as músicas sem perguntar nada, eu não sei. A Fofolete, com 1 ano e 1 mês e um vocabulário de meia dúzia de palavras, já dá indícios de que será bem parecida. Não pergunta diretamente nada relacionado à música, mas fica do banco de trás tagarelando em fofoletês sempre que o irmão pergunta alguma coisa.

12 novembro, 2011

O Pacotinho de Astronomia

Noite de lua cheia. Céu claro como jamais vi em mais de uma década no mês de novembro em Vancouver. Saindo da garagem, o pai comenta no carro que a lua está linda. Chegando ao restaurante, caminhando pela calçada, alguém aponta e fala da beleza da lua. De volta pra casa, o Pacotinho de Curiosidade Astronômica olha a lua pela janela do carro e pergunta:

- Mãe, por que pra todo lugar que a gente vai, a lua vai atrás?
- Porque a lua é muito grande e está muito longe, então a gente consegue vê-la de muitos lugares diferentes, mas ela não está seguindo a gente.
- Não é isso, não. É que a lua está girando e a Terra também está girando em volta do sol e bla bla bla...

11 novembro, 2011

O Pacotinho de Apoio ao Comediante Iniciante

Um menino de 5 anos e outro que completará 5 anos no mês que vem estão conversando enquanto ajudam a esculpir as abóboras do Halloween. Estão numa fase escatológica que já dura meses e parece não ter fim.

Um fala uma frase com "cocô" no meio. O outro cai na gargalhada. Um diz qualquer coisa com "bumbum" no final, o outro tem um acesso de riso. Aí um fala:
- Você é muito engraçado.
E o outro responde:
- Eu sei!

10 novembro, 2011

O Pacotinho de Musicalidade

Fazendo o dever de casa da aula de piano, que pede para colar ou desenhar figuras de "crescendo".

- O que é "crescendo", Filhote?
- É quando a música começa baixa e vai aumentando.
(ele cola uma figura de um bebê chorando no final da página)
- Vamos procurar então figuras de bebês que não estejam berrando, pra ser a parte do som baixo.
- Não, Mamãe, vou desenhar.
(ele desenha)
- O que é isso?
- Um Power Ranger.
- E como é que um Power Ranger representa "crescendo" na música?
- Ele está "quiet".
- Ele está calado? Ah, então você explica isso pra professora.

06 novembro, 2011

O Pacotinho de Influência Política

Na escola do Pacotinho de Aprendizagem tem um Conselho Estudantil. Um casal de representantes de cada classe reúne-se uma vez por mês com a diretora. Adivinhe só quem é o representante da turma dele.

- Filhote, o que vocês fizeram na reunião com a Miss S.?
- Mamãe, hoje não teve "student council", só uma dia.
- Só outro dia. E o que vocês falaram na reunião?
- A gente teve ideias.
- E você teve alguma ideia?
- Sim, minha ideia é a do "D day".
- E o que é "D day"?
- É quando todas as pessoas na escola tem que usar uma coisa que começa com D.
(a ideia de uma criança de 5 anos sugerindo isso numa reunião com a diretora e crianças de todas as séries é tão surreal que a Mamãe cai na gargalhada)
- Mamãe, estou muito bravo com você.
- Por que?
- Porque você riu da minha ideia.
- Desculpa, Filhote. Eu não ri da sua ideia, estava rindo de outra coisa. É uma ideia muito boa a sua.

Desde que se lembra, a mãe dele sempre gostou de um microfone. Primeira voluntária em tudo quanto era leitura em voz alta na sala de aula, leitora oficial da missa das 7 por anos a fio, oradora de todas as turmas em que havia necessidade de discurso. Por estas e por outras, Marido Gringo já avisou que, quando a Fofolete começar a falar frases inteiras, ele terá que mudar de casa por não ter mais vez para falar no Iglu. E ela dá todos os sinais de ter puxado o lado materno da família...

05 novembro, 2011

Duas Semanas de Volta ao Trabalho

Depois de duas semanas acordando às 05:30 da manhã, pegando condução no breu e no gelo de 6 horas da matina no outono, dá pra perceber o quanto o tempo da mãe trabalhadora é escasso.

A gente passa a sonhar com a cama antes das oito da noite e ir dormir exatamente às oito em ponto. "Mãe, a gente pode ler mais um livro?" "Não, a Mamãe quase não consegue acabar este aqui, por que esta galinha ruiva boboca não percebe logo que ninguém vai ajudá-la, compra logo um bolo na padaria e acaba com esta agonia?"

Então, se passar uns dias sem atualizar o blog, não é por falta de assunto, mas por absoluta necessidade de ir dormir cedo depois de deixar tudo pronto para o dia seguinte.

SAL do Iglu para Lu Azevedo

Slings e carregadores de bebê são de escolha totalmente pessoal. Eu, por exemplo, usei muito e amamentei inúmeras vezes o meu primeiro filho no Baby Björn, desde 2 meses de vida (não entendi você dizer que não dá pra amamentar no Baby Björn). Na segunda gravidez, já ciente de que o Baby Björn não é ergonômico e que carregadores nos quais o bebê fica suspenso pela virilha não são recomendados, procurei um que deixasse o quadril flexionado.

Eu amo o ErgoBaby, ainda usamos diariamente, mesmo a Fofolete já estando com mais de 1 ano de idade. E ela mama pendurada nele até hoje. Até 5 meses, é preciso usar com o saquinho por dentro. E ainda tem a vantagem adicional de ter um suporte para a cabeça, quando o bebê adormece.

Eu tenho o Maya Wrap, mas só me adaptei a ele com o bebê sentado e só passei a usá-lo a partir de 8 meses. Tem quem use desde recém-nascido, sem problemas.

Para saídas rápidas, o Maya Wrap é mais prático, mas o conforto do Ergo Baby, pra mim, é imbatível. Dá pra amamentar discretamente, caminhando e tendo as duas mãos livres. Além disso, homens em geral preferem os carregadores de mochila a um sling, então se pensar em horas de uso pelo pai e pela mãe, o custo-benefício do Ergo é maior.

Recomendo então:
- encontrar com mães amigas e experimentar os carregadores delas, para ver qual é o melhor para você;
- comprar usado do Craigslist, que você encontra muito mais em conta.