27 abril, 2006

BIOS - Baita Ignorante Operando o Sistema

Já faz algumas semanas que notei o sumiço da coluna ao lado dos textos no blog. Levou mais alguns dias para que eu descobrisse que não sumiu, somente desceu lá para o fim da página, depois que termina o último dos textos. Juro que não fiz nada para que isso acontecesse e, mesmo que tivesse feito, não saberia como consertar. Já que o Santo Marido Analista de Sistemas não faz milagres na paróquia do Iglu, lanço um apelo para os Maridos Analistas de Sistemas de Outras, para que façamos um intercâmbio: alguém me ensina como consertar isso e eu empresto o Marido daqui para consertar algum problema no computador de vocês (pensando bem, melhor não. Ele diz que agora virei uma "slave driver" - capataz de escravos - e que vivo "inventando" tarefas para ele executar, mas isso é assunto para um outro post, quando ele finalmente acabar de montar tudo do quarto do neném). Alguém sabe como corrigir isso ? Não o Marido que leva meses para montar os móveis do quarto, mas o problema da coluna no blog !

24 abril, 2006

Are you ready to pop any minute ?

A não ser que você seja uma celebridade, nunca será tão abordada por estranhos em qualquer lugar como quando estiver grávida. Se você for uma celebridade grávida, melhor passar os últimos quatro meses da gravidez em órbita. Até que as pessoas aqui não são de passar a mão na barriga da gestante a toda hora, mas as perguntas e os palpites são inevitáveis.

Como a minha barriga está realmente maior e mais baixa do que a média, diariamente pelo menos três pessoas fazem a mesma pergunta:
"Are you ready to pop any minute ?" (algo como "você está pronta para pipocar a qualquer minuto ?"). Esta é básica. Pior mesmo aconteceu no supermercado: eu lá carregando oitocentas sacolas, mais sombrinha, casaco e meus apetrechos de friorenta no inverno e deveria estar com uma cara de cansada no final do dia, quando ouvi uma voz gritando: "Hey Mama !". Virei na hora, porque já faz tempo que ninguém me chama pelo meu nome, mas achei que fosse algum conhecido do hospital. Qual foi a minha surpresa ao deparar com a moça atrás do balcão, distribuindo não-sei-o-quê de amostra grátis: "When is THAT coming out ?" (quando é que ISSO vai sair ?). Ai, que raiva !

Estou pensando seriamente em imprimir uma camiseta com as respostas:
1. Não deve pipocar agora, só em junho.
2. Tenho certeza de que é um só.
3. É o meu primeiro.
4. Acertou, é um menino mesmo (ninguém erra, incrível !).
5. Ainda não decidimos o nome.

Domingo, no final da missa, uma senhora me seguiu e perguntou se eu já estava nos últimos dias (eram nove da manhã, ela foi a primeira das três pessoas do dia) e eu falei que ainda faltavam dois meses. Aí ela passou para as próximas perguntas, mas parou na terceira e começou: "Eu tive cinco filhos. Nesta etapa final, você tem que fazer seis pequenas refeições por dia, para ter muita energia sem ganhar tanto peso, por causa das estrias." Respondi imediatamente (não sei fazer cara de paisagem e agradecer), mesmo sem entender a relação com as estrias: "Não tenho estrias na barriga. Aliás, sou uma grávida de livro: não tenho falta de ar, nem azia, nunca tive enjôo, não sinto calor, trabalho o dia inteiro em pé e não estou inchada nem nos pés. Sinto-me ótima." Aí ela fez uma cara de espanto e uma outra que vinha atrás e pegou o bonde andando, mas quis sentar na janelinha: "Nossa, que sorte, estou com inveja. Eu tive tudo isso quando estava grávida."

A verdade é que é melhor que eu não pipoque mesmo a qualquer hora, porque é uma delícia sentir os movimentos, os soluços do neném (já teve uma que me disse que não são soluços, mas o coração, como se este batesse bem devagar e só de vez em quando) e, por mais que alguns palpites sejam irritantes, a intenção das pessoas é geralmente boa. Como eu já disse, o mundo fica melhor quando se carrega uma barriga grande recheada com bebês (e não com pura gordura).

17 abril, 2006

Vida de Pai é Dura...

No hospital onde eu trabalho as pacientes que chegam para uma cesárea têm a opção de trazer um acompanhante para a sala de cirurgia e em 90% dos casos, o pai da criança é o escolhido. Há pouco tempo tivemos duas cesáreas seguidas e antes de começar a primeira, a médica avisou que o marido da segunda paciente era muito "squeamish" (todo o mundo conhece um: "squeamish" é o nome em inglês para aquele indivíduo que desmaia quando vê sangue - o dele ou o dos outros). Na véspera, a paciente grávida tinha vindo ao hospital para uma ultrassonografia e o marido, quando viu o bebê no monitor, caiu duro no chão. Foi necessário ativar o "code blue" (um botão de emergência que a gente aperta quando alguém está desacordado para que uma equipe especializada em reanimação de parada cardíaca apareça). Então a médica estava nos alertando na sala de cirurgia, porque se o cara desmaiou no US, onde não há corte nem sangue, imagina na cesárea ! Pode parecer falta de solidariedade, mas há tantas coisas para a equipe envolvida numa cesárea dar conta em quarenta minutos que catar um marmanjo desmaiado no chão é a última coisa que a gente precisa.

Nisso chega a primeira paciente e ela já entra na sala contando que estava presente na véspera, quando o marido da outra desmaiou e viu a confusão que isso tinha causado. Garantiu que o marido dela seria capaz de manter-se na vertical, para que a gente não se preocupasse.

Quando acabou a primeira cirurgia, o anestesista decidiu que iria conversar com Mr. Squeamish e recomendar que ele não entrasse no centro cirúrgico, para o bem dele (e principalmente para a paz de espírito geral). Quando ele chega lá para conversar com a paciente, foi informado de que Mr. Squeamish não estava no hospital, havia ficado em casa, sob os cuidados de sua mãe, ainda "abalado" com o choque causado pelo ultrassom na véspera e não tinha condições de estar presente no nascimento do filho. A esposa barriguda foi para o hospital sozinha !

13 abril, 2006

O Guarda-Roupa da Reta Final

"Pois esta vida não está sopa
E eu pergunto com que roupa, com que roupa eu vou
Ao samba que você me convidou ?"
(Noel Rosa)

Quando você chega na reta final da gravidez, constata que o seu guarda-roupa nunca esteve tão cheio. É verdade, apesar de ultimamente usar sempre as mesmas roupas, o seu armário está lotado. Em primeiro lugar, você está "nesting" (há uma expressão para quase tudo em inglês), arrumando a casa para a chegada do novo hóspede, cuja visita deve durar pelo menos duas décadas e vive tentando organizar as coisas, inclusive o seu armário. Aí você descobre que há roupas de verão que não serão usadas este ano, porque a sua cintura não será a mesma quando o suposto "calor" chegar a esta parte do globo. Há roupas de invernos anteriores que não cabem agora (sim, você é tropical e usa roupas de inverno na primavera, porque o calor que acomete as grávidas está na categoria de enjôos e azia - foram descritos e previstos para você, mas nunca se concretizaram) e roupas de festa que proporcionalmente à sua atual "cintura" são equivalentes a roupas da Barbie - sem chance de irem além do seu dedão do pé. Como você não agüentou o longo e tenebroso inverno ártico e viajou para o País do Carnaval durante o próprio, tem um bando de vestidos largos e batas de verão que, apesar de lindos e confortáveis, são um convite a morrer de hipotermia na primavera canadense. Ah ! Na sua ânsia de pôr ordem no caos, você separa todas as camisas e blusas abertas na frente, que serão seus uniformes de amamentação. Aí sobram, espremidas num canto, todas as roupas da categoria "bate-seca-estica-veste" (aquelas que só saem do seu corpo para serem batidas na máquina, jogadas na secadora, esticadas - passar roupa é coisa de quem tem empregada - e depois recolocadas no corpo): as três calças de gestante, um par de blusas bonitinhas e três blusas de frio que teimam em deixar o final da barriga de fora (quem mandou acreditar que grávida passa calor e achar que até a barriga ficar enorme não precisaria mais de agasalhos ?).

Os sutiãs são um capítulo à parte. Teriam aqueles maravilhosos, de cores vibrantes, com rendas e armações de arame algum dia num passado remoto cabido em você ? Há meses você convive com uns beges horrorosos, que apesar de gigantescos quando você os experimentou na loja, estão sempre apertadíssimos no final de cada mês e você já os tem em quase todas as numerações e modelos possíveis: abertos na frente, abertos por cima... um mais feio que o outro.

Quando pensa em reclamar que não tem mais espaço no guarda-roupa e que mesmo assim não tem como variar muito, você dá graças a Deus por trabalhar de pijama-uniforme todo santo dia, com aquele corte especialmente feito para a sua atual cintura de quibe, escondendo qualquer camiseta curta que você use por baixo. E se alguém no vestiário perceber que seu umbigo está de fora ? Cai na real, você não tem mais umbigo faz tempo !

09 abril, 2006

Dez por Cento ?



Esta semana assisti a uma palestra sobre emergências obstétricas. Não que eu seja uma grávida paranóica, fui como enfermeira de centro cirúrgico, que volta e meia encara uma dessas, invariavelmente quando falta meia hora para o final do plantão ou no meio da madrugada. O mais interessante da palestra, no entanto, não estava relacionado a nenhuma emergência (ou talvez até esteja, mas num outro sentido).

A médica estava falando sobre a vacina dada para gestantes que têm Rh negativo, para evitar a formação de anticorpos contra o sangue do feto, no caso de ele ter Rh positivo. Alguém comentou que não seria necessário no caso de o pai da criança também ter Rh negativo. Aí ela disse que, mesmo assim, eles dão, já que as estatísticas mostram que em 10% dos casos o pai da criança não é aquele que a mãe diz ser. Inclusive ela contou que recentemente alguém que trabalha na maternidade, quando foi informar aos pais o tipo sangüíneo do bebê recém-nascido, ouviu do suposto pai: "Mas isso é impossível !" A pessoa teve presença de espírito, imediatamente disse que estava confundindo os bebês e saiu do quarto. Para usar um ditado local "não mate o mensageiro !" e, pensando melhor, acho sim que foi uma emergência para o infeliz que trouxe a notícia.

05 abril, 2006

Que Venham as Olimpíadas !

Vancouver e Whistler vão sediar as próximas Olimpíadas de inverno, no ano de 2010. Se fossem os jogos de verão, com um monte de equipes e atletas brasileiros praticando esportes conhecidos no mundo tropical, eu estaria vibrando. Confesso que nem fiz torcida para que as Olimpíadas viessem para cá, achando que sediar jogos olímpicos de inverno, como diz um conhecido, "não inflói nem contribói". Engano meu !

Nestes seis anos de Vancouver, presenciei diversas paralisações e greves dos ônibus (durou longos três meses), dos professores, dos trabalhadores da companhia telefônica (ai, não gosto nem de lembrar), dos enfermeiros, dos funcionários dos restaurantes nos hospitais... Enfim, um pouco de quase tudo. Na última negociação para os contratos dos enfermeiros e professores, em 2004, o governo estabeleceu que teríamos, ao longo de três anos, zero, zero e zero por cento de aumento. Agora, faltando quatro anos para os jogos olímpicos, o discurso é outro e o governo resolveu manter os servidores públicos satisfeitos. A proposta é um contrato de quatro anos, que termina exatamente em 2010 (ia pegar muito mal, em plenas Olimpíadas, termos hospitais ou ônibus em greve), com reajustes de 15% para a minha categoria, mais um bônus bem gordinho imediatamente.

Estou AMANDO a idéia de sediarmos os jogos olímpicos em Vancouver e convoco os amigos do Brasil a começarem desde já a praticar "curling" ou montar uma equipe de bobsled. Estarei lá, com os lábios azuis, batendo o queixo, mas vibrando com as coisas boas que somente o espírito esportivo podem trazer a uma cidade.

01 abril, 2006

Perda de Identidade

Desde criança, escuto meu pai dizer que, depois que nos tornamos pais, perdemos nossa identidade. Não somos mais o Fulano, mas o Pai do Fulaninho. Aliás, depois que ele virou avô, quando ia buscar o neto na escola, ouvia um coleguinha de classe chamá-lo de "Vô do Léo", quando meu sobrinho estava longe e "Vô Dele", quando estavam lado a lado.

Lembro também de uma ocasião em que fui buscar o filho de uma amiga na casa de outra pessoa e disse a ele, na porta: "Fala tchau pra tia", que era a mãe do amiguinho dele. Na mesma hora, o garotinho me disse: "Ela não é Tia. O nome dela é Minha Mãe" !

Enfim, não me surpreende que as crianças falem dessa forma. O que tem me impressionado diariamente é que, desde que minha barriga começou ficar óbvia, a quantidade de pessoas do trabalho que não me chamam mais pelo meu nome aumenta a cada dia. É um tal de "Mama" para cá e para lá. Vê se eu tenho idade para ser mãe de marmanjo, ainda mais gente que tem filho da minha idade ! Ontem mesmo um gordinho virou-se para mim na lanchonete do hospital: "Hello Big Mama !". É verdade que não sou mais a magrinha de outrora, mas Big Mama ! Pegou pesado...