08 agosto, 2005

Corpo Estranho, MUITO Estranho

Aviso: o texto a seguir contém descrições que podem ser chocantes aos leitores mais sensíveis. Não deve ser lido por menores de idade nem ninguém muito inocente. Os nomes dos envolvidos (pessoas e objetos) foram propositalmente omitidos e qualquer semelhança com fatos verídicos é totalmente intencional. A autora não tem nenhum objetivo pedagógico com este texto e não se responsabiliza por ninguém que queira pôr em prática as idéias aqui mencionadas.

Engana-se quem pensa que, num hospital, a equipe de saúde algum dia torna-se imune a certos casos e pacientes pitorescos, passando a enxergar tudo como se fosse banal. Algumas situações mais corriqueiras certamente não viram assunto de conversa na lanchonete (nem em casa), mas outras merecem atenção especial e dão o maior ibope. Nada - nada mesmo - dá mais audiência na Rádio Corredor do que certos corpos estranhos removidos de pacientes.

O hospital onde trabalho fica no meio da gaybourhood de Vancouver (o bairro gay), o que é um fato e não um preconceito, por mais politicamente incorreto que possa parecer. Talvez por isso tenhamos um maior volume de casos de pacientes necessitando de cirurgia de urgência para remover certos tipos de corpo estranho. Num hospital pediátrico, normalmente "remoção de corpo estranho" envolve alguma moeda presa na garganta ou um caroço de feijão agarrado dentro do nariz de algum "anjinho". Em adultos, a situação mais comum é um ossinho de peixe entalado em algum ponto da garganta, ou infelizmente, um projétil de arma de fogo (bala), que pode estar em partes diversas, dependendo de onde foi o tiro. No meu hospital, de vez em quando, temos uma cirurgia no meio da madrugada para remover certos "apetrechos usados para fins recreativos" enfiados em orifícios, digamos assim, pouco ortodoxos. Nestes casos, dá para apostar que todos os que cuidarem do indivíduo vão encontrar tempo para ler todo o prontuário, a fim de saber o quê, como e em que circunstâncias o troço foi parar lá dentro. Curiosidade mata !

Há pouco tempo tivemos um paciente que chegou com obstrução intestinal, porque havia um "dildo" (não dá para traduzir aqui, que é um blog de família, mas o caro leitor pode encontrar o significado num dicionário moderno) de fabricação caseira agarrado lá onde o sol não bate. Como era emergência, a gente teve que cancelar outro caso menos urgente. O paciente, antes de ser anestesiado insistiu que queria o objeto de volta, quando fosse removido. Qual foi a nossa surpresa ao constatar que se tratava de um pedaço de cabo de madeira, coberto por uma meia ! E o cara quis de volta !!! Talvez quisesse patentear a invenção, sei lá. Guardamos até ele acordar e entregamos a ele, claro (bendito seja quem inventou as luvas cirúrgicas) ! Às vezes, quando o "brinquedo" funciona com pilhas, ainda está vibrando quando é retirado (deve ser bateria Duracell que, como diz o comercial, "keeps going and going and going...").

Na mesma noite, recebemos um paciente com dificuldade de respiração causada por um corpo estranho na traquéia. O cirurgião que antes tinha tido o paciente cancelado imediatamente comentou "não vai me dizer que é outro 'dildo' !". Era um ossinho de frango, que mente poluída !

O Marido Analista de Sistemas, coitado, havia chegado do escritório todo empolgado naquele dia, contando alguma coisa "super emocionante" sobre um projeto de informática (e há algum que não seja ?) e eu contei como havia sido meu plantão. E ele, entre chocado e indignado: "suas estórias de trabalho sempre ganham das minhas!". Eu pergunto: e dá pra competir ?

4 comentários:

Anônimo disse...

Flavia,

so' nao recomendo que que tu troques de profissao e exercas o jornalismo porque es uma excelente enfermeira. Mas, por favor, nao deixes nunca de publicar tuas cronicas - o que supre tua necessidade de escrever (magnificamente!) e tambem a alegria da tua plateia! Teus "causos" divertem a galera!

beijinhos e parabens por mais uma primavera do maridao!
Cibi

Anônimo disse...

Vale comentar que vc trabalha num hospital Católico tambem!!

Putz... a vida de enfermeira definitivamente nao é tediosa!!

Anônimo disse...

Nossa ! entao eh verdade que isso acontece mesmo !

Parabens voce escreve muito bem !
Carlos.

Anônimo disse...

Amiga, voltei à leitura fiel de seu blog!! Como sempre morrendo de rir e adorando suas estórias!!
É uma excelente forma de estarmos sempre em contato!
Um beijo grande.
Dani