28 dezembro, 2010

Carta de Dezembro

"Filhote,

Mais um ano chega ao fim e, além de todas as mudanças já ocorridas na sua vida nestes últimos 3 meses, muitas outras estão para acontecer.

Hoje é seu último dia na creche. Seu pai está super nostálgico, ficou sensível na apresentação de Natal, lamentando ser a última. Você e seus colegas cantaram "Rudolph, The Red Nosed Reindeer", "I Wish You a Merry Christmas" e uma versão diferente de "Jingle Bells". Tão bonitinho você cantando a música do Rudolph, "...all of the other reindeer used to call and laugh him names", trocando a ordem das palavras! Você continua cantando essas músicas quando sai na rua, mas só se toma a iniciativa por conta própria. Se a Mamãe sugere, diz "Mãe, não é Natal mais".

Dia 4 você deve começar numa pré-escola do método Montessori. Vamos ver como será. Hoje teremos seu "Happy Last Day" na creche, Mamãe vai levar picolé para todas as crianças, como você sempre pede.

Você esperou ansiosamente o Natal. Curtiu montar e decorar a árvore, tirar os enfeites e mudá-los de lugar incontáveis vezes, abrir as janelinhas do calendário do advento (embora não tenha comido nenhum chocolate, que você continua nem provando)e adorou montar a casinha de biscoito de gengibre. Perguntava inúmeras vezes se já era o dia. Mudou de ideia a respeito dos brinquedos que queria infinitas vezes. Ficou muito feliz com tudo o que ganhou, ao contrário do ano passado, que lamentou por meses o Wall-E não ter a EVA para brincar com ele.

Você continua apaixonado pela sua irmãzinha, é muito carinhoso com ela e vibra com os pequenos progressos que ela tem feito. Ontem mesmo, quando a viu segurando um brinquedo pela primeira vez, notou e comentou, empolgadíssimo, "Mãe! Ela está segurando!!!". Ela, aliás, está cada dia mais parecida com você na mesma idade. Em algumas fotos, parecem idênticos.

Você ainda não havia demonstrado ciúmes da irmã, até a noite do dia 25. A família do seu pai veio cear conosco. Enquanto sua irmã dormia, você se deliciava brincando com os primos. Eles tem 12 e 14 anos, mas você os trata como se fossem da sua idade e eles tem paciência e disposição infinitas para brincar com você. Quando a Marina acordou e um deles tentou pegá-la no colo, você ficou muito agitado. Tentou a todo custo distrair o menino, desviar a atenção dele e não deixou que ele segurasse a bebezinha.

Você estava empolgadíssimo com a perspectiva da chegada do seu tio do Brasil. Ele chegou ontem e você, desde cedo, nem queria sair de casa com seus avós com receio de perder a chegada dele. O voo atrasou, ele chegou bem mais tarde e foi recebido com pulos de alegria. Antes de sair de casa para ir buscá-lo na portaria, avisou "Mãe, ele vai chamar eu de Mexerica". Faz 6 meses que não o vê e você não esqueceu que ele o chama assim. É tão contagiante ver a sua excitação quando alguém de quem você gosta está para chegar! Você literalmente dá saltos, gritinhos de felicidade, expressa a emoção com o corpo todo. Tão lindo ver você sentado no sofá, assistindo a TV abraçado com seu tio! Ele comentou "como este menino é carinhoso!"

Nós estamos procurando uma casa. Por problemas com falta de vaga na escola pública perto de casa, vamos nos mudar para um bairro com boas escolas públicas onde não há falta de vagas e as casas tem muito espaço. Então, mais esta mudança na sua vida.

Mamãe está atacadíssima de tendinite no pulso direito, ainda tem que escrever a carta da sua irmã, por isso vai ficar por aqui.

Um abraço carinhoso, daqueles que só você sabe dar,
Mamãe."

27 dezembro, 2010

O Pacotinho de Natal


Manhã de Natal. O Pacotinho de Presentes fala várias vezes:
- Que legal! O Papai NUel trouxe o caminhão de bombeiro que eu queria. Que legal! Este é o robô que eu queria mesmo. E este nave espacial também!
- Filhote, agora a gente vai à missa. Depois você brinca com seus brinquedos.
- Não! Eu não quero sair agora.
- Mas a gente já está saindo.
- Eu não quero ir!
- Olha, Filhote, você acabou de ganhar os presentes do Papai Noel. Se começar a ficar assim, desobediente e malcriado, ano que vem ele não traz nada.
- Papai NUel não trouxe NADA pra você, Mamãe!

*
- Mãe, se eu não ficar portado o Papai NUel não traz presente, né?
- É.
- E aí depois a gente precisa sair e comprar um monte de brinquedo pra mim, né?
- Não mesmo.
(mas a lógica dele não é de se jogar fora)

23 dezembro, 2010

O Pacotinho de Entretenimento

Mamãe coloca a banheirinha de plástico dentro da banheira grande para dar banho na bebezinha. Abre parênteses: Sim, bem recentemente chegou aqui aquela banheira com suporte de metal, tão comum no Brasil, que fica numa altura compatível com a coluna saudável, mas custa um rim e uma córnea, então vai no método de arrebentar com a coluna da mãe (ou do pai) ajoelhado para dar banho. Fecha parênteses.

O Pacotinho de Entretenimento resolve ficar pelado, entrar na banheira grande e distrair a irmã, que não chora no banho desde a primeira semana de vida e não precisa ser entretida nesta hora de relaxamento, uma vez que fica feliz da vida chupando suas mãozinhas.

Ele pega um fantoche de patinho, coloca numa das mãos e começa a falar:
- Oi Bonitinha Bebezinha, eu sou o Pato.
Mamãe responde:
- Oi Pato, como é seu nome?
- Meu nome é Bibibinha.
- Nossa, que nome esquisito!
(Ele tira o fantoche da mão e vira pra Mamãe)
- Mãe, era EU! Não era o Pato.

Ufa, ainda bem que ele esclareceu. A esta altura da vida, conversar com um pato que se chama Bibibinha seria pura insanidade mental.

13 dezembro, 2010

Esquisitices Culturais

Você acha que, por morar há quase 11 anos numa terra que não é a sua, já está acostumada às peculiaridades do lugar. Grande engano. Sempre há lugar para surpresas e nada melhor que os filhos para mostrá-las a você.

Situação 1

Você já sabe que criança saudável não tem consulta com pediatra por aqui, nem aquelas de puericultura, para pesar e medir todo mês, como no Brasil. Isso não a incomoda.

Como há uma suspeita de hérnia no seu bebezinho de 2 meses, você consegue uma consulta com uma pediatra de sua confiança (nada como trabalhar num hospital para conhecer bons médicos). Chega lá, a secretária pede que tire a roupa do bebê, para que possam verificar o peso na balança.

Você tira a fralda e procura um lugar para jogá-la. Aí ouve da moça "não pode jogar fralda aqui. Vou dar um saquinho plástico para você levá-la para casa".

Um consultório de pediatra onde não se pode jogar uma fralda descartável é algo inédito para você. Estaria você num universo paralelo? Você dá graças a Deus por ser uma simples fralda de xixi e não uma daquelas de cocô que desafia a lei da gravidade, sobe para as axilas da criança e borra a fralda toda do lado de fora também.

***

Situação 2

Você já sabe, com um ano de antecedência, que não haverá vaga na escola pública mais próxima para seu filho de 4 anos, que deverá ir para o "kindergarten" (primeiro ano escolar) em 2011. Haverá uma loteria para o "kindergarten", porque há muito mais crianças do que vagas. E, cá pra nós, você não ganha nem BINGO de igreja, não vai ganhar loteria de escola nenhuma (embora continue fazendo sua fezinha duas vezes por semana na loteria de verdade).

Então começa a procurar uma casa para alugar num bairro onde as escolas públicas são boas e há vagas. Para isso, você vai precisar alugar seu apartamento próprio. Quando comenta com uma amiga, ela pergunta:
- Mas você pode alugar seu apartamento?
- Por que não poderia? É meu.
- Nos prédios em que eu morei, tinha um número máximo de apartamentos que poderiam ser alugados. Melhor conversar com o síndico. No condomínio onde eu moro, há 3 casas alugadas. Se eu quiser alugar a minha, não posso. Já está no limite máximo.

Por via das dúvidas, você vai averiguar com o síndico e seu prédio não segue esta regra. Ainda bem.

Cada uma, né?

08 dezembro, 2010

O Pacotinho de Preguiça

Como o pai, ele não gosta de acordar cedo. E adora ficar enrolando na cama, de manhã, antes de levantar. Na escuridão de 7:30 da "manhã" que é o inverno nesta terra, fica mais difícil ainda abandonar as edredons.

O pai chega para acordá-lo, na hora de sair para a escola:

- Filhote!
- Hummmm...(sem abrir os olhos)
- Posso puxar seu braço e levar só seu braço pra escola?
- Poooode... (bêbado de sono, concordando com qualquer coisa)
(o pai começa a puxar o braço dele)
- Pai, que tal você só fingir que está levando meu braço sozinho pra escola?

Com sono ou não, deve prevalecer sempre o bom senso.

06 dezembro, 2010

O Pacotinho de Decepção


O Pai da Língua Grande vê a programação infantil da cidade para o mês de dezembro e troca as bolas. Decide chamar de "Santa's Workshop" (Oficina do Papai Noel) a volta de trenzinho pelo Stanley Park (foto), ao invés da vila natalina construída no topo da Grouse Mountain. Promete levar o filho de 4 anos para ver o Santa's Workshop.

O Pacotinho de Ansiedade passa literalmente a semana inteira falando no tal do Santa's Workshop. Já acorda no sábado de manhã dizendo que vai pra lá. Aceita a contragosto a explicação lógica de que só abre de noite. Aguarda o entardecer que, nesta época do ano, é bem cedo. Finalmente chega a hora. Ele vai ao Stanley Park como pai e só encontra estátuas de duendes, de figuras natalinas e do Papai Noel. Volta pra casa decepcionado:

- E aí, Filhote? Foi legal?
- Não, nem tinha um real Santa.
- Não tinha um Papai Noel de verdade?
- Não, nem "wrappers".
- Nem ninguém embrulhando os presentes?
- É. Que pena!
- E não tinha nada legal?
- Não. Mãe, sabia que o Frosty, The Snowman não existe?

Coitado, foi muita decepção junta. A surpresa pra mãe dele foi descobrir que o Frosty não existe. Ela não faz a menor ideia de como ele chegou à tal conclusão só pelo passeio no trenzinho, mas resolveu não perguntar. Eu, hein? Deviam mudar o nome pra Expresso da Meia Noite ou qualquer que seja o nome daquele trem num filme de terror.

02 dezembro, 2010

Lei de Murphy da Amamentação

Reza a lei de Murphy que, se você acorda com febre e calafrios de madrugada, seu bebê vai acordar para mamar e passar 2 horas sem pregar os olhos. E, na noite seguinte, quando você está doida para que o neném mame e esvazie aquele peito dolorido, o mesmo bebê resolve dormir direto das 22:00 às 06:30, sem dar um pio. E você fica lá acordada, ordenhando, para as coisas não piorarem, porque acordar um bebê adormecido nem passa pela sua cabeça.

Ô falta de solidariedade!

SAL do Iglu - segunda edição de hoje

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde para Luciana Zonta, que ficou esquecida na edição anterior:

Pode reproduzir o que quiser, sem problemas. Fico devendo as fotos das crianças na neve (ou em outro lugar), mas tem um post antigo com uma foto do meu filho de costas, na neve, já faz uns 3 anos, mais ou menos.

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Márcia:

Não li nenhum livro nesta última gravidez, até comecei um muito interessante chamado How Not to F*** Them Up, sobre os diferentes modos de lidar com um bebê dependendo da personalidade dos pais, mas andava tão cansada que nem terminei. Pretendo ler Super Baby Foods e Baby-Led Weaning, antes de iniciar os alimentos sólidos. Sobre parto, veja minhas sugestões para Lorena no final deste post.


Para Phophina e Deia Mortensen

Os filhos da vizinha ficam com o marido dela durante as corridas matinais. Não faço a menor ideia dos horários de trabalho dele.


Para Anna Paula Braga

Interessante que várias pessoas (meu pai e minha sogra inclusive) fizeram a mesma pergunta. Existem muito poucas medicações absolutamente contraindicadas durante a amamentação, a maioria quimioterápicos. Via de regra, tem sempre um medicamento que pode ser usado durante a amamentação ou substituído por outro, exceto no tratamento de câncer. Leite da própria mãe, mesmo com antibiótico, é melhor que leite de lata (afinal de contas, leite artificial é leite de vaca modificado ou leite de soja e ninguém pergunta o que deram pra vaca, nem que agrotóxicos foram usados na soja, sem contar toda a química adicionada). Na dúvida, pode-se consultar o site e-lactancia ou o manual de medicamentos do Ministério da Saúde. Minha Santa Irmã ficou alguns dias internada na UTI logo após o nascimento da filha. Contrariando os médicos (a maioria, infelizmente, entende pouco de amamentação) e seguindo o manual citado (nenhum medicamento que ela tomava era contraindicado durante a amamentação, mas os médicos nem pesquisaram), o leite dela foi ordenhado várias vezes por dia e a bebezinha nunca tomou leite artificial. A menina hoje está com 6 anos, é a criança mais saudável que já vi, jamais tomou antibiótico.

Já participo há muitos anos de grupos virtuais de amamentação para prever algumas reações, então esclareço que respeito as mães que não amamentaram por qualquer motivo (ainda que seja por opção, cada um sabe onde o calo aperta) e lamento que muitas tenham sido orientadas a suspender a amamentação em casos de mastite. Exceto em situações extremas, com a mãe internada para tratamento de abscessos mamários, com drenos nas mamas e antibiótico intravenoso, é recomendável amamentar com mastite. Os ductos entupidos sempre precisam ser desbloqueados e as mamas esvaziadas. Nenhuma bomba no mundo é capaz de esvaziar um seio de forma mais eficiente que um bebê (nem mesmo aquelaelétrica dupla, por sinal maravilhosa, recomendo para quem precisa estocar leite).

A pessoa mais indicada para ser consultada sobre dúvidas de amamentação é uma consultora de lactação (se alguém de Vancouver precisar de indicação, tenho uma excelente que atende a domicílio e cobra particular e uma outra que atende gratuitamente no posto de saúde). No Brasil, deve ser procurado o banco de leite mais próximo. Infelizmente, médicos de qualquer especialidade tem pouquíssimas aulas sobre amamentação durante a formação universitária. Um obstetra ou pediatra sinceros podem confirmar isso.

Para Lorena (com trocentos anos de atraso)

Ao invés de falar das minhas experiências totalmente atípicas (um útero com mioma de 12 cm e um parto cheio de intervenções não pode ser chamado de "normal"), vou sugerir algumas leituras e videos. Assim, você pode tomar sua decisão com base em informações e não somente em medo e casos terroristas.

Sugiro os videos The Business of Being Born e Orgasmic Birth, maravilhosos.

Em português, você encontra todos os livros do obstetra Michel Odent (comece por A Cientificação do Amor), "Parto Normal e Cesárea: O Que Toda Mulher (e todo homem também) Deve Saber", de Simone Grilo Diniz e da minha amiga e parteira virtual Ana Cristina Duarte e também "Memórias do Homem de Vidro", do obstetra humanista Ricardo Jones.

Se você lê em inglês, não pode perder o melhor livro sobre o assunto que já li na vida: Ina May's Guide To Childbirth. Você encontra no youtube uma entrevista fantástica dela, que resume bem o conteúdo do livro.

Por fim, mas não em ordem de menor importância, recomendo muito o blog da Dra Carla Andreucci Polido, uma entusiasta do parto humanizado, minha amiga muito querida.

01 dezembro, 2010

Amamentação Pela Segunda Vez

Você nunca acreditou que no segundo filho as coisas seriam mais fáceis. Quem disse isso deve ter sido uma mãe muito estressada e ansiosa com o primeiro. Como poderia ser mais fácil, se a mãe tem o dobro de crianças para cuidar e não pode seguir o conselho de "dormir quando o bebê dorme"?

Capricorniano costuma ser realista por natureza, alguns diriam pessimista até. Então, depois de uma amamentação facílima do primeiro filho, sem rachaduras, dores, problemas e um ganho de peso acima do triplo do mínimo esperado no primeiro mês, você sabia que alguma coisa ia dar errado. Nem para desmamar o menino deu qualquer trabalho.

A Pacotinha de Língua Presa chegou para ensinar e mudar tudo o que a mãe dela achava que sabia sobre amamentação. Primeiro precisou dar um pique no frênulo, depois foi uma luta para ela aprender a colocar a língua na posição certa. E tome massagem na língua (quando a gente pensa que já tentou tudo quanto é tipo de massagem), pega incorreta, sonda de relactação, mamilos machucados, visitas intermináveis de consultoras de lactação (maravilhosas, nem sei o que teria sido sem elas)... A vantagem é que capricorniano costuma também ser cabeça-dura e não desistir por pouco (nem por muito).

Depois de 2 meses, sem nunca ter tomado outro leite que não o materno, com ganho de 1 kg por mês (bem menos que o do irmão na mesma idade, mas o peito continua produzindo leite condensado), bebê no percentil 75 de peso e altura, a mãe acha que está tudo bem. Aí acorda às 2 da manhã, com uma dor insuportável na lateral de um dos seios, com calafrios e sentindo-se como se estivesse com a pior gripe do mundo. Lateral do mesmo peito vermelha e quente. Ela mesma dá o diagnóstico: mastite.

A bebezinha, solidária que só ela, resolve ficar acordada por 2 horas na mesma madrugada, dando apoio moral à mãe que tenta em vão desobstruir os ductos entupidos do peito. Ainda bem que é uma Pacotinha de Sorte, então fica passeando pela casa nos braços do Pai Mais Paciente do Mundo (e mais cansado também).

E eis que a Mamãe se encontra na sala de espera do médico, aguardando ansiosamente a receita de antibiótico por 10 dias, enquanto escreve no netbook e pensa em comprar folhas de repolho para colocar no peito dolorido.

Pra quem nunca teve mastite: a sensação é de ter sido atropelada por um caminhão. Um mal-estar geral.