30 março, 2008

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Analu
Como sou uma moça bem informada, já até vi a reportagem e sabia que quem lê o blog iria lembrar-se de mim quando assistisse à matéria. E você, que tem ótima memória, foi a primeira a dar um recadinho. Adorei! Sou fã assumida do Dr. Karp. Graças a ele, nunca passei um único minuto de noite em claro embalando um bebê chorão. Eu comia de tudo enquanto amamentava e o Pacotinho de Sossego jamais teve uma cólica. O primeiro livro dele, para ser mais útil a uma recém-parida, só precisava vir com uma empregada doméstica de brinde. Eu tive em casa o bebê mais feliz do pedaço.

Na verdade, eu precisaria ter mais uns dez filhos e testar o método com todos, para ver se foi sorte minha ou se a coisa funciona mesmo, né? Convenhamos que minha amostra foi pequena, mas que o secador de cabelos ficou muito tempo ligado aqui no Iglu, isso ficou. Depois ficamos espertos e substituímos por um bichinho que faz os sons das batidas do coração, que usamos até hoje: Sleep Sheep


Para Val
Não sei em que época do ano vocês pretendem vir. Se não for no verão, preparem-se para chuva diariamente, que se fizer um dia de sol, já ficam no lucro. Nada de aparecer por aqui sem capa de chuva! O povo vancouverite sai de casa todo dia, bebês recém-nascidos a tiracolo, na chuva (não sem dar uma reclamadinha básica, claro). Não há falta de ar livre para respirar por aqui, só há falta de ar seco.

E, depois que escrevi o post, ainda nevou horrores ontem para os padrões primaveris locais. Fui trabalhar hoje de manhã e a grama em volta do hospital estava coberta de neve. Vindos de Montréal, vocês tirarão de letra. Agora mesmo, neste minuto, são 19:00 e está um sol lindo lá fora. São Pedro está de plantão por aqui hoje.

Para Ticia
Não gosto de colocar fotos em que aparecem o rosto do meu filho na internet. Pode parecer paranóia, mas cada um com as suas idiossincrasias, né? Sendo assim, acho que nunca tive uma foto roubada.

Para Marília
Tripudiando dos infelizes soterrados sob a chuva de gelo que caiu ontem a tarde inteira! Final de ano estou aí, se Deus quiser. Povo do Porcão e do Crepe au Chocolat que me aguardem!

29 março, 2008

O Homem Grávido do Oregon

Para quem não viu a assombrosa notícia, muito mais estranha que neve em Vancouver em plena primavera:o homem grávido.

Muito complicado para a minha cabecinha de Terceiro Mundo. E olha que trabalho num hospital onde fazemos cirurgia de "sex reassignment", já tive paciente que era homem e virou mulher e o contrário também. Mas um grávido, confesso, ainda não tive a oportunidade de ver. Pelo jeito, é preciso enfatizar o "ainda". Como diria um amigo gay: "tô off-white, que ficar bege é coisa de pobre".

28 março, 2008

Primavera, onde?

Hoje, final de março, em plena primavera oficial no hemisfério norte, nevou aqui em Vancouver. E que ninguém venha me dizer o quanto de neve ainda existe em Winnipeg ou Montreal, porque é por essas e por outras que eu não moraria em nenhuma outra cidade do Canadá! Quando se muda para Raincouver, a chuva está garantida praticamente o ano todo, com exceção do período que vai de 15 de julho a 15 de agosto. Mas neve, às portas do mês de abril, deve ter sido alguma confusão de São Pedro.

Dizem que o esporte nacional por aqui é hockey, eu digo que é falar do tempo. Então, com os flocos de neve despencando hoje de manhã, a cada minuto e meio vinha alguém boquiaberto avisar "está nevando". Se nevasse no Rio de Janeiro, provavelmente haveria menos espanto e certamente muito menos comentários. Canadense de boca aberta quando vê neve é que é uma coisa de chamar a atenção.

Alguém ainda teve a audácia de perguntar:
- Flávia, foi você quem encomendou a neve?
- 'Tá doido? Eu sou tropical, só encomendo sol e calor.

Dizem que Deus é brasileiro, mas seria São Pedro canadense?

PS: Como foi em Vancouver e não em Red Deer ou White Horse (adoram um nome de cidade do Velho Oeste por aqui, até Medicine Hat tem), a neve sequer grudou no chão e de tarde já estava tudo de volta ao normal: céu cinza e garoa chata.

24 março, 2008

A Reforma

Antes que perguntem, não estou reformando o banheiro ou a cozinha do Iglu. Foram tantas as reformas em 2005, quando me mudei para um apartamento de portas coloridas (cada porta tinha a mesma cor da parede em que estava, então uma mesma porta era amarela de um lado e rosa do outro, ou verde por dentro e lilás por fora), cozinha abóbora selvagem (tetos e paredes laranja, tom de Halloween) e papel de parede com peras amarelas e ameixas roxas na sala, que até hoje sinto um pouco de náusea quando estou mudando o canal da TV e acidentalmente paro num programa de "home improvement", como dizem por aqui. Passei meses sentindo dor de barriga se o carro chegasse perto da loja de materiais de construção. Quem vinha aqui visitar antes das obras perguntava "mas de onde eram os antigos donos do apartamento?" Eu respondia o óbvio "sei lá, de Plutão, pelo jeito. Deste planeta é que não eram." A reforma a que me refiro é a da língua portuguesa.

É com tristeza que recebo a notícia da reforma. Sempre fui fã dos tremas, acho triste escrever lingüiça com preguiça. Como explicar para quem está aprendendo a ler que cinqüenta agora se escreve como esquenta, mas se pronuncia diferente? E tiraram o acento de "voo" e de "veem". Sou enjoada mesmo, acho que escrever enjoo é que é enjoativo. Já não vai mais ser possível diferenciar pára (verbo) de para (preposição). Quem adora colocar nomes estrangeiros nos filhos vai ficar feliz em saber que K, W e Y agora fazem parte do alfabeto. Aposto que os meus muitos ex-pacientes chamados Maykon lá em São Luís estão comemorando. Lembro de um que, quando a gente perguntava como se escrevia o nome dele, ele dizia "K, A de amor, Y, Q de queijo, U de uva e E de Eduardo". Deve estar vibrando o Kayque, resta saber que palavras ele usaria para soletrar o nome agora. Fico imaginando se seriam "K de kite, Y de young... Fala sério!

Enfim, a reforma veio a calhar para quem já não dava muita bola para a ortografia (e que não era pouca gente). Ainda bem que nem tudo mudou. Então, só para esclarecer que nunca é demais lembrar, continua sendo "foi há um ano, foi há três anos. Houve um problema, houve dois problemas. Faz um ano, faz dez anos". Já pensou se eles resolvem adotar como oficial a linguagem dos adolescentes no mundo virtual? Eu precisaria voltar ao primário, ops, dando bandeira da velhice. Agora é aquela antipatia de "ensino fundamental"...

Então, a partir de hoje, ficam abolidos aqui no Iglu os tremas e os acentos diferenciais. Estou quase vestindo luto e acendendo uma vela em memória deles, coitadinhos. As palavras compostas, confesso, precisarei consultar se for escrevê-las. Mas vamos combinar que antissemita e contrarregra são feios pra caramba?

18 março, 2008

1 ano e 9 meses - Carta para o meu filho

"Filhotinho,

Você completou 1 ano e 9 meses. Não tem mais aquele jeitinho de caminhar de neném, já parece um garotinho mesmo. Mamãe fica meio melancólica com isso, como se fosse possível parar o tempo. Domingo passado você foi cortar o cabelo no salão e a moça exagerou, ficou curto demais a aí sim você perdeu totalmente o rosto de neném. Mamãe decidiu que não vai mais permitir acabarem com seus cachinhos, que desde 11 meses são sua marca registrada.

Você agora fica longos períodos de até 10 minutos (incrível) sentado assistindo à TV, desde que seja algo musical. Parou de morder os livros, mas rasga as páginas com uma convicção que só vendo.

Mamãe fez uma cirurgia no pescoço no começo do mês e a sua madrinha veio nos visitar. Uma graça você chamando-a pela casa "tia", com um sotaque de paraibano saído não sei de onde.

Você caiu na creche há umas duas semanas, machucou a língua e ganhou um picolé para não inchar. Mamãe chegou para buscá-lo e você voltou para casa chupando o picolé num frio de 6 graus, feliz da vida. Vovó teria tido um ataque se soubesse disso. Metade da língua amanheceu roxa no dia seguinte. Agora todo dia na hora de vir embora, você aponta para o congelador e fica pedindo "itolé". Mamãe ficou esperta, leva alguma coisa de que você gosta no bolso, senão é um drama na hora de sair da creche. Nem sempre é fácil enganá-lo e não é toda tarde que um "kacker" ("cracker") substitui um "itolé". Você é pequeno, mas não tem nada de bobo.

Você está começando a falar duas palavras juntas, mas ainda não fala frases. Até repete quando alguém diz "I don't know" ou "é da Mamãe", mas não inventa suas próprias sentenças, digamos assim. Hoje, quando o Tata estava desmontando a cama (chegou uma cama king size), alguma coisa caiu no chão e ele disse "damn it", você logo repetiu. Não foi por falta de aviso... Apesar disso, Mamãe está adorando esta fase em que você repete a última palavra dita por alguém. Tata grita de longe, chamando a Mamãe, "Little One" e você repete, com a sua pronúncia irrestível.

Uma das professoras da creche veio ontem toda orgulhosa, dizer que o telefone tocou e você gritou "Taia". Ela veio contar "ele falou meu nome!" Ela se chama Natalia e foi a primeira professora cujo nome você aprendeu. Considerando que uma das outras chama-se Slobodanka e atende por Sloba, acho que você fez a escolha certa.

Ontem você não conseguiu abrir alguma coisa e disse "abe, ajuda". E agora, quando está de longe, grita "Ubby, pease" (hubby, please), mas de perto, só chama o papai de "Tata".

Você adora imitar tudo o que o Tata faz. Não aceita que ele faça suco sem que você esteja no colo, olhando as cenouras serem empurradas para dentro da centrífuga. Até arrasta a sacola de laranjas e aponta para o espremedor, assim que alguém chega das compras. Não tem o mesmo entusiasmo para tomar o suco que tem para vê-lo sendo feito, por sinal.

Seu brinquedo favorito deste mês é uma caixinha de ferramentas de plástico. Você diz "ammer" ("hammer") e carrega o martelo para todo lado. O telefone ainda continua no topo da lista de preferências. Você segura-o, aperta os botões, fala "ubby" e mais um monte de outras palavras misturadas e às vezes dá gargalhadas, como se alguém tivesse acabado de contar uma piada.

Você adora dançar. Sabe as coreografias de "Itsy Bitsy Spider", de "Pintinho Amarelinho", de "Cabeça, ombro, joelho e pé" e de "If you're happy and you know it". A única que você tenta cantar enquanto dança é uma que diz "zoom, zoom, zoom, we're going to the moon", inclusive você conta regressivamente de 5 a 1 em inglês, como na música. Você também canta "pula, pula, pula", da música "Pula Corda". Se a música é lenta, você balança a cabeça de um lado para o outro, mas se é rápida, você pula no chão, sapateia e dá voltinhas. Dos desenhos da TV, você adora a música de abertura do "Mighty Machines" e do trenzinho "Thomas".

O Deda vive dizendo que você é uma criança muito fácil, de natureza boa e carinhoso. Você sabe enrolá-lo direitinho, ele sempre faz a sua vontade, até porque, antes de sair puxando-o pela casa para pegar o que você quer, ele ganha um abraço bem apertado seu.

Se Mamãe e Papai saem de noite, você fica com o Deda e a Baka sem problemas. A gente saiu na semana passada, você ficou com eles e na hora de dormir, apontava para as fotos na sala e perguntava "Mamãe? Tata?", mas foi dormir sem chorar.

Nos restaurantes, você ainda prefere correr o tempo todo ao invés de comer. Continua curioso e ativo. Adora escalar sofás e cadeiras. Pede para abrir o piano e toca de vez em quando. Talvez corra um pouco menos agora que há 2 meses.

O Tata fala várias vezes por dia, quando olha para você "so cute" e Mamãe já chegou à conclusão de que a maior saudade quando você crescer será das suas gargalhadas de bebê. Ela adora fazer cócegas bem acima do seu joelho só para vê-lo dar aquela risada contagiante deliciosa.

Se possível, tente não crescer tão rapidamente, viu?

Com amor e já com saudade,
Mamãe."

17 março, 2008

Acabou-se o que era doce

Depois de 10 dias em maravilhosa companhia, tivemos que levar a Santa Irmã ao aeroporto. Em muitas famílias, é um momento emocionante, com pessoas lacrimosas e promessas de um próximo encontro. Na minha família, é sempre um caso memorável.

A turista chega ao aeroporto com 2 horas de antecedência e não 3, porque o Cunhado Gringo bate na tecla "daqui para Toronto é vôo doméstico, não sei para que esta pressa". Os terminais de "self check-in" estão praticamente abandonados, a única funcionária emitindo cartões de embarque tem uma fila quilométrica à sua frente. Entram na fila, que a Santa Irmã é gata escaldada, seus números nunca são aceitos pela maquininha. Ela tem o gene dominante dos "sem sorte em aeroporto", o único homozigoto recessivo para quem dá tudo sempre certo é o Irmão Tranqüilo.

Enquanto espera, a turista sonha com um "brunch" maravilhoso num restaurante ali ao lado, como no ano passado. O atendimento para ser considerado lento precisaria aumentar em 5 vezes a rapidez. Um grupo de 6 indianos de turbante e barba presa por uma redinha está na frente. Muitas malas gigantescas, um tal de tira cueca e mete escova de dente num bolsinho com zíper que só não causa náusea porque está todo o mundo de barriga vazia mesmo. Muito mico não chegar ao aeroporto com a bagagem de mão devidamente arrumada.

Aparece uma menina japonesa, passaporte em mãos, pedindo para furar a fila porque seu vôo estava marcado para 11:40. Eram 11:30 e a coitada até tenta, sem chance.

Às 11:45, chega a vez da Santa Irmã. "Seu vôo está 1 hora atrasado, vou colocá-la em 'standy-by' pro vôo de 12:30, senão você pode perder a conexão para São Paulo. Você tem tantos sobrenomes, qual é o que usa de verdade?". Inútil explicar para norte-americano que basta copiar sempre o primeiro e o último, eles nunca aprendem. Pega cartão de embarque, segue para a esteira de pesar a bagagem.

A passageira brazuca comenta que é esperteza das companhias aéreas canadenses em colocarem somente funcionários bem velhinhos no balcão de entrega das bagagens. "Assim o passageiro fica constrangido de pedir ajuda e carrega ele mesmo os enormes baús cheios de encomendas". Eu digo que ela é santa, nunca disse que era burra ou avessa a mordomias.

E lá vai ela, com a mala mais alta que o Mount Baker. TRINTA E QUATRO QUILOS? O funcionário velhinho dá um grito e diz que é preciso tirar "six pounds" da mala. A Santa Irmã quer pagar o excesso de peso (veio preparada para isso), mas ele diz que mais de 32 kg o avião não carrega. A outra mala, com somente 26 kg, também passa do limite, mas indo para o Brasil, o limite é de 32 kg e não de 20 kg por volume (e ainda tem gente que só vê desvantagem em ser brasileiro).

E aí, a Super Fluente Irmã, que fala inglês muito melhor do que eu, apavora-se e pára de registrar o que diz o velhinho (não que "six pounds" faça algum sentido, mesmo em português). Abre o piano de cauda, digo, a mala, ali no chão mesmo e põe-se a arremessar blusas de gola alta na Saudosa-Irmã-Racional-Que-Fica. Aquarianos são seres de alma elevada, mas falta-lhes a racionalidade e o senso prático típicos de um capricorniano:

- Vou comprar uma bolsa para carregar estas coisas de volta para casa.
- Bolsa, que bolsa?
(Voam várias sacolinhas vazias de loja)
- Para que você carrega este monte de saco vazio na mala?
- Porque sempre pode ser necessário, 'tá vendo?
(Voa um sutiã)
- Ai, que vergonha! Um sutiã!
- Quanto será que isso tudo aí já pesa?
- O sutiã ficou agarrado aqui no carrinho de bagagem, que mico.
- Ai, não quero tirar estas caixas de bombom.
- O pior é que eu conheço aquele menino ali na fila, ele vendo a gente aqui, com sutiã pendurado no carrinho. Está enroscado mesmo. E eu falando da escova de dentes dos indianos, o castigo veio a jato.
(Uma fica engalfinhada com o sutiã, enquanto a outra segue arremessando roupas e poupando as encomendas).
- Tira logo uma garrafa de maple syrup, que só ela já dá 1 kg.
- Ai, mas eu prometi de levar maple syrup.
- Quem mandou prometer 3 garrafas? Deixa o tênis para trás.
- O tênis da NEIDE????
(Como Neide é a amada-idolatrada-indipensável empregada, concordo que tem mais é que deixar os presentes dos filhos e do marido e levar o da insubstituível serviçal. Tanto homem aí dando sopa, tanta criança querendo ser adotada, para que pensar neles? Se eu tivesse uma empregada, traria uma mala cheia de presentes só para ela).

Mala fechada, 3 sacolas plásticas cheias de toucas de banho (sabe-se que toucas de banho de plástico são pesadíssimas e fazem a maior diferença na balança), blusas de lã, uma garrafa de maple syrup e o maldito sutiã, a Santa Irmã tenta voltar para pesar o elefante branco, digo, a mala. Alguém resolve distribuir ingressos gratuitos para o jogo dos Canucks, porque não há outra explicação para a formação daquela fila imensa do nada, ali no guichê de bagagem que estava vazio momentos antes.

A Santa Irmã tenta "furar a fila" (uma lei internacional diz que não é preciso pegar a mesma fila duas vezes), leva um pito de uma gringa. A Saudosa-Irmã-Racional-Que-Fica é barraqueira mesmo, não tem nada da alma elevada dos aquarianos e dá um fora na gringa. O velhinho do balcão aponta para a balança lá no Cafundós do Judas e a mala é arrastada até lá. A gringa dá um sorriso de vitória, não vai ser desta vez que a fila foi furada.

Veredicto da balança: 68 pounds. A Santa Irmã tenta descobrir o quanto é isso em kg, enquanto olha com pena para a tralha socada em sacolinhas plásticas e quer ir colocando uma por uma, até chegar exatamente a 32 kg. A Saudosa-Irmã-RACIONAL-Que-Fica lembra-a de que, às 12:15, antes de passar pelo portão de embarque, com vôo marcado para 12:30, seria uma loucura.

Vão para o portão de embarque, famintas. Abraços apertados, não dá tempo de comprar nem uma rosquinha. A Santa Irmã entra na fila, dá uns 5 passos, olha o cartão e sai da fila.
- Ai, meu Deus!
- Que foi?
- Escreveram meu nome errado no cartão de embarque.
- Mulher lesa do check-in! Colocou seu sobrenome de solteira?
- Não. Colocou Prabhjit Singh.
- Deve ser o nome de uma daquelas indianas na sua frente. Quem manda você casar com um brasileiro que tem o sobrenome mais comum da Índia e ainda ter cabelo preto? Ela achou que você fosse um deles.

Volta, fura fila, uma meia dúzia de brasileiros no balcão presta solidariedade. Um rapaz comenta:
- Eu te conheço de algum lugar.
- Eu também tenho esta impressão, você é de Brasília?
- Não, já te vi aqui em Vancouver, só não sei onde.
(Aí me lembro de onde conheço o menino, foi garçom de uma festa da única amiga podre de chique e colunável que tenho aqui. Só de ter garçom em festa de criança, dá para imaginar o alto nível).
- Vi vocês tirando as roupas da mala, excesso de peso é uma droga.
(Sem chance de ele não ter visto o sutiã, a gargalhada no final da frase entrega).

Confusões no aeroporto causam taquicardia e estresse, mas são melhores do que despedidas deprimentes. Já estou pensando se decido inventar uma cirurgia (plástica de pelancas, talvez), se devo casar novamente ou arrumar outra gravidez para ter a Santa Irmã aqui de volta no ano que vem. Com mil encomendas, malas gigantescas, um senso de organização e uma calma que eu jamais tive, minha irmã aquariana é tudo de bom.

16 março, 2008

Uma Mãe Fora de Casa

A Santa Irmã saiu de Brasília numa quinta-feira, rumo a Vancouver. No aeroporto de São Paulo, encontrou (ou foi encontrada por) um menino de 18 anos (tenho mais de 30, qualquer um com menos de 20 é "menino"), vindo fazer intercâmbio em Vancouver (onde mais?). Primeira vez fora do país, inglês capenga, pai preocupado em deixar o filho viajar sozinho, vindo de algum lugar de Pernambuco e adivinha quem foi escolhida para ser a acompanhante oficial do menino até o final da viagem? Virou acompanhante, conselheira, tradutora, astróloga, telefonista, mãe-de-santo... Já em Toronto, aquela moça alta de cabelo comprido que falava inglês fluentemente e parecia saber seu caminho pela imensidão do aeroporto foi seguida por vários adolescentes brasileiros de inglês capenga rumo ao seu destino final de estudantes no Canadá. Se fosse trabalhar como guia turística na Disney, teria uma turma menor de garotada entusiasmada mas completamente perdida seguindo-a pelos guichês da imigração. Como o mundo é mesmo muito pequeno, a escola do menino fica exatamente a dez passos de distância do Iglu, na metade do próximo quarteirão.

A pobre mãe gasta uma semana fazendo compras e tentando riscar encomendas da interminável lista. Numa longa viagem aos "outlets" perto no estado de Washington (Seattle fica muito perto de Vancouver no mapa, mas na vida real, a espera na fronteira pode fazer a pouca distância ficar colossal), ela volta cheia de sacolas, sem nada para si mesma.

Passados uns dias, toca o telefone:

- Alô.
- Eu quero falar com a minha mãe.
- Oi querida, é a Tia Flávia, tudo bem? Quer falar comigo?
- Não, com a minha mãe.

- Oi, minha linda.
- Oi Mamãe.
- Que saudade! O que você está fazendo?
- O que você já achou para mim?
- Um sapato da Cinderela, uma boneca, um joguinho...
- Só isso?
- Um par de botas, uma capa de chuva, uma bolsinha...
- Só isso?
- TUDO isso, Filha.

E, contando vantagem para o irmão, que fará as mesmas perguntas no próximo minuto:
- A minha mãe achou um monte de coisas para mim. Oba!

Não sei se todos estes anos no Canadá perturbaram meu senso do que é importante para uma criança que ainda não tem 4 anos completos, mas acho que isso é culpa de ela ter dever de casa quase todos os dias. Parece que lá em Brasília é normal, mas eu fiquei revoltada de a pobre menina, que nem alfabetizada é, ter que procurar numa revista figuras de animais cujo nome começam com a mesma letra que o nome dela. E, claro, a tarefa fica mesmo para algum adulto, que folheia as páginas enquanto diz "cavalo, cachorro, cabrito" e a criança, empolgada, completa "vaca"... Isso deve causar um trauma tão grande que só mesmo tornando-se consumista de produtos importados para superar. E tende a piorar com a idade, porque os "brinquedos" vão ficando sempre mais caros. Eu mesma não pedi um TiVo pro Papai Noel ?

14 março, 2008

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde para:

Aninha

Muito obrigada pelo toque. Eu não me incomodo em ser corrigida, muito pelo contrário, como diria o seu Crêisson, "eu góstio". Morro de medo de esquecer a língua portuguesa. Eu SEMPRE deixei um espaço entre a interrogação e o ponto de exclamação, desde que aprendi a digitar, há cerca de 20 anos (ainda era chamado de "curso de datilografia" e pensar que, quando eu completei 16 anos, minha irmã comentou que eu estava ficando "velha"). Realmente não faz sentido, porque o espaço vem depois dos sinais de pontuação. Vou prestar atenção no vício, porque até o seu comentário, ninguém tinha corrigido e eu não tinha reparado. Pensando bem, há uns 10 anos, um amigo comentou que eu deixava espaço entre o parênteses e a primeira letra, faltou apontar este outro problema. A culpa é da metade arrancada da tireóide, daqui pra frente prometo melhorar.

Se vir alguma outra besteira, avise, por favor. Pode ser minha revisora oficial. Já dei uma bronca na Santa Irmã, "como foi que você não me avisou disso antes?"


Laura

TiVo é a melhor invenção desde o falecimento do videocassete. Ou pelo menos eu achava que era, até ontem, quando fui à loja da Apple em Seattle e vi o iTV. Pronto, apareceu um outro sonho de consumo. Às vezes é bom viver na ignorância. Eu achava que, para melhorar, o TiVo só precisava arrumar a cozinha e passar pano no chão, mas o iTV mostrou que ainda tem muita melhoria possível antes de um aparelho acoplado à TV que atende pelo nome da empregada dos Jetsons. Era Rose, por sinal?

Como não havia TiVo no Canadá até bem pouco antes do Natal (tinha um substituto, mas eu tinha escasquetado desde um episódio do Sex and The City, em que a Miranda compra um TiVo que muda a vida dela, que não servia), vou me contentando com ele até o preço do iTV ficar mais acessível.

12 março, 2008

Faltando um pedaço, mas nem tanto...

Minha cirurgia foi na sexta-feira. No sábado de manhã, menos de 24 horas depois, fui com a Santa Irmã fazer compras para a sua inevitável e longa lista de encomendas (se alguém consegue vir ao Canadá sem encomendas, avise o segredo). Depois de 2 dias, nem tomei mais medicação para dor. E olha que depois do parto, eu me achava uma "wimp" (mole para dor) !

Hoje, vários dias depois, estou querendo ir ao hospital, levar um cartão de agradecimento e alguns bolos que comprei para o café da tarde da equipe (foram necessários três, que a loja não faz bolos grandes e eu trabalho com um bando de famintos). Ah, você achava que, se estou tão bem para sair batendo perna na rua, deveria fazer os bolos eu mesma, né ? Até gosto de cozinhar, mas a vontade de arrumar a bagunça depois estava concentrada na metade que foi arrancada da tireóide (eu sou aquela que usa a última colher da gaveta e meia dúzia de pratos para fazer um ovo mexido e ainda tem o fato de que lavar a louça enquanto prepara a comida é completamente contra a minha religião). Pois é, mas mesmo tendo feito a cirurgia lá no hospital onde trabalho e todo o mundo saber que não estou inventando desculpa para usar uns dias de folga, não tenho coragem de aparecer por lá alegre e faceira, carregando caixas de bolo. Vai sobrar pro Marido Gringo, que dúvida ! Não tem um tal de "na saúde e na doença" que pode ser usado em qualquer circunstância, sem limite de vezes ?

Daqui a 2 meses vou fazer uma dosagem hormonal para ver se será necessária reposição. O médico acha que não. Do jeito que sempre fui ligada no 220V, é provável que a metade restante trabalhe para compensar o que falta, mas só o exame mesmo para saber. Se fosse no Brasil, eu já teria feito uma meia dúzia de exames, mas aqui não pediram nem hemograma, que dirá dosagem hormonal antes da cirurgia ! O mantra é "não vou comparar, não vou comparar" (nem o atendimento, nem os exames, até porque não há nenhum para ser comparado).

Até agora, não houve diferença alguma na vida com uma tireóide inteira ou somente meia. Uma leve coceira no pescoço, mas só. Não me deu uma vontade incontrolável de fazer faxina, não me tornei uma pessoa econômica (ou você pensou que eu estava somente acompanhando a Santa Irmã nas compras dela ?), não fiquei gostosona do dia para a noite (o bumbum continua não sendo uma amostra representativa de um dos orgulhos nacionais), não parei de amamentar (e olha que o Pacotinho de Maior Idade já anda, fala e passa aspirador na casa - faz faxina tão bem quanto a mãe dele). Daqui a dois meses, vamos ver como fica.

08 março, 2008

Tratamento VIP

Modéstia à parte, acho que fui a paciente ideal. Não fiquei ansiosa antes da cirurgia, dormi bem na noite anterior, cheguei ao hospital na hora marcada, calmíssima. Bem que eu tentei me esconder no meio dos outros pacientes, mas fui descoberta por uma meia dúzia de colegas mais atentos. Não reclamei da demora de quase uma hora e meia para ser admitida, nem usei meu crachá para conseguir furar a fila. Reparei que erraram meu nome no prontuário, para corrigirem a tempo. Avisei ao meu anestesista favorito que eu não fico enjoada nem vomito nunca, nem grávida, nem em trabalho de parto e que não iria dar este trabalho para ele (promessa cumprida). A cada vez que alguém vinha perguntar se eu tinha conseguido dormir na véspera, o Marido Ansioso respondia que ele tinha passado a noite em claro. A minha pressão estava baixa como sempre, mas ainda bem que não mediram a dele !

Claro que entrei na sala de cirurgia de meias e não tirei a calcinha, afinal de contas era uma cirurgia de tireóide e não de períneo !

Eu tinha preparado uma imagem mental de Cancún, para sonhar enquanto estava nos braços de Morfeu, mas a anestesia bateu tão rápido que nem deu tempo de escolher com o que sonhar. Lembro que o anestesista pediu para eu abrir a boca e eu perguntei "am I a grade one ?" (os graus de dificuldade de entubação variam de 1-4, sendo 4 o mais difícil) e ele disse "you're a grade zero". O Santo Midazolam não me deixa lembrar de mais nada, já acordei na sala de recuperação pedindo gelo para chupar. Nada como ter amigos influentes, porque pedi gelo e ganhei picolé de laranja. Trabalho há cinco anos no centro cirúrgico e nunca vi um paciente ganhar picolé (só no Children's Hospital), mas eu ganhei dois. Graças ao cobertor elétrico, não tive aquela tremedeira bem comum depois de uma cirurgia. Como nem tudo pode ser perfeito, tive uma coceira por conta da morfina, mas que nem se compara com o que eu passei com os efeitos da analgesia durante o parto. Nada como um parto muito ruim para fazer a gente ver que uma cirurgia com anestesia geral não é um drama.

Coisas do destino, a enfermeira que cuidou de mim na sala de recuperação é a número um na lista das mais odiadas pela equipe do centro cirúrgico. Encrenqueira, arruma confusão com todo o mundo, mas tratou de mim como se eu fosse uma celebridade. Quando eu finalmente acordei de vez e vi que era ela quem estava cuidando de mim, nem acreditei. Nada a reclamar. Aliás, vou até olhá-la com olhos mais pacientes quando ela der seus chiliques aparentemente sem motivo no plantão noturno. Só não garanto que sem o Midazolam nas idéias eu vou conseguir enxergá-la da mesma forma. Não é à toa que alguns pacientes acordam e dizem "como você é linda, enfermeira !"

Do meu lado, na sala de recuperação, estava uma estudante de enfermagem que havia desmaiado enquanto assistia a uma cirurgia. A coitada chorava, dizendo-se envergonhada e eu a consolava, tentando não respingar meu picolé na cama.

Continuo a mesma, só que com metade da tireóide, a garganta ainda arranhada pelo tubo, uma cicatriz no pescoço e uma dor totalmente suportável. Feliz da vida por ter a minha santa irmã comigo.

Não perderei a oportunidade de conversar com a chefe sobre como melhorar o sistema de admissão dos pacientes e garantir que todos tenham direito a um picolé na sala de recuperação. Eu já trazia o cobertor quente para todos os pacientes, até para os que se dizem calorentos (são na verdade sem noção, coitados). Se todos eles saírem da cirurgia sentindo-se como eu me senti, a missão da equipe estará cumprida. Nunca tive tanto orgulho de trabalhar num lugar como eu tive quando passei para o outro lado da maca.

PS: Parabéns à mulherada hoje ! Um abraço especial àquelas que estiveram ao meu lado nestes dois últimos dias, garantindo um cobertor quente, um picolé e muito carinho.

06 março, 2008

Rapidinhas




A fofa da Ana Paula Soldi me escolheu como uma das mães blogueiras homenageadas. Que chique ! Ainda bem que foi na véspera da minha cirurgia, assim posso posar na capa da revista People sem cicatriz no pescoço. Ainda bem que agora tem a campanha do sabonete Dove, sobre beleza natural e talvez minha carreira de modelo não fique completamente arruinada depois de ter o pescoço quase decepado amanhã.

Passando a bola, alguns blogs de mães para quem eu tiro o chapéu. Seja pela forma carinhosa e bem humorada de escrever, por compartilhar os mesmos princípios ou simplesmente conseguir arrancar uma gargalhada numa manhã chuvosa de segunda-feira. Perdoe-me as outras mães que falam dos filhos nos seus blogs, mas vou eleger somente cinco, que tenho trocentas coisas para fazer antes da minha cirurgia amanhã (aquelas tarefas básicas de quem mora no Primeiro Mundo Sem Criadagem, como limpar a casa e preparar umas refeições para não explorar a pobre irmã que está acostumada com mordomia e não vem a Vancouver para ser empregada do Iglu bagunçado, até porque ela é uma santa criatura e jamais reclamaria, mas eu na casa dela não preciso lavar um copo):

Denise, no Brasil, sempre com uma forma carinhosa de falar da vida de mãe.
Carla, na Alemanha e Keiko que, como meu adorado Luis Fernando Verissimo, conseguem enxergar o lado hilário do cotidiano de mulher/mãe/profissional/faz-de-tudo-um-pouco-na-terra-sem-criadagem.
Taty e Déia, duas eternas fontes de inspiração.
Ana Paula, que agora tem outro neném a caminho.

Foram seis, né ? Pois é, não sei mais fazer contas...

Tem a Ciça, a Carlinha, mas se eu for procurar o link de cada uma, os cabelos no chão do banheiro não vão automaticamente pular no balde de lixo sozinhos. E os cogumelos com a carne na geladeira jamais se transformarão num Beef Wellington, cuja receita facílima e deliciosa, com cara de chique, eu posto aqui outro dia.

02 março, 2008

Três aniversários em abril

No final de abril completo oito anos morando em Vancouver, mas antes disso, no começo do mês, completo sete anos trabalhando no mesmo hospital e cinco anos trabalhando no centro cirúrgico.

Para quem morou 25 anos no mesmo apartamento em Brasília, oito anos na mesma cidade não são nada. Só que eu nunca tinha trabalhando tanto tempo num mesmo emprego, que dirá cinco anos no mesmo setor ! Devo ser uma das brasileiras que menos muda de casa e de trabalho por aqui, o que chega a ser irônico, já que não tenho medo de mudanças.

Se eu fosse entrevistada no programa da Oprah, já teria a resposta para várias perguntas:

Foi difícil conseguir validar o diploma de enfermeira no Canadá ?
É muita burocracia, o processo todo levou mais de um ano, mas atualmente anda mais rápido. A prova de enfermagem do CRNBC foi "diferente". Era múltipla escolha, como as provas brasileiras, mas com uns temas escalafobéticos, tipo:

Sua colega chega para o plantão visivelmente embrigada. Qual a sua atitude ?
a- Avisa a supervisora
b- Aborda a colega primeiro, depois avisa a supervisora
c- Aborda a colega e combina de encarregar-se dos pacientes dela
d- Manda a colega de volta para casa
e- Conversa com uma terceira colega e pede a opinião dela

Sério, era tanta pergunta sobre colegas drogadas ou que furtavam narcóticos do armário que no primeiro dia de serviço eu fiquei imaginando que o problema de abuso de drogas era seríssimo entre os enfermeiros canadenses. Ficava imaginando qual deles chegaria bêbado ao plantão. E na prova nunca havia a alternativa "pede para a colega liberar o baseado e tudo fica por isso mesmo". Na prática, eu só soube de um caso de furto de narcótico no meu antigo setor, anterior à minha chegada.

Qual foi a maior dificuldade do começo ?
Eu recebi o resultado da prova numa sexta-feira e comecei a trabalhar na segunda seguinte. Não fiz nenhum curso específico por aqui (estudei para a prova sozinha, com um manual próprio vendido pela Associação de Enfermagem local), então fiquei meio perdida no primeiro mês de trabalho. Eita mania norte-americana de dizer tudo em abreviações ! Era um tal de soro TKVO ("to keep the vein open"), NPO (nada por via oral), appy (apendicectomia) e STAT (imediatamente), mas eu fazia cara de paisagem e logo fui aprendendo. Falei que CABG é ponte de safena ou mamária, mas eles pronunciam "cabbage" (repolho) ? "Mr. Fulano had a cabbage" (tem gosto pra tudo mesmo, até para comer repolho na sala de cirurgia)..

O sotaque dos canadenses é super fácil de entender, mas lembro do dia em que um colega australiano veio me perguntar se eu tinha as "cais for the mids" e, depois de 4 tentativas "pardon ? What did you say ?", avisei que sem legenda não dava. Perguntei ao colega filipino de que diabos o "aussie" falava e descobri que era "keys for the meds" ("meds" é "medications", o que eu já sabia, mas falar "mids" e ainda chamar "keys" de cais, fala sério !). Achei estranhíssimo também chamar os pacientes de Mr. Sobrenome. Para completar, caí de cara no setor com fama de ter a equipe mais mal humorada do hospital, com 90% de enfermeiros fumantes e estressados (depois do primeiro dia, comprovei que a fama era merecida e após 6 meses, mudei para um andar pesadíssimo, mas com uma equipe maravilhosa, onde fiz grandes amizades).

Tive (e ainda tenho) muita dificuldade em lidar com os pacientes moradores de rua e viciados em drogas (aqui as duas características costumam andar juntas), bem comuns no meu hospital. É uma limitação minha ter pouca tolerância com imundície, palavrões e insultos gratuitos. Frescura mesmo. Talvez seja por isso que eu adore o centro cirúrgico: lá eles chegam, dormem e quando acordam e começam a perturbar, já é hora de levá-los para a sala de recuperação.

Quais são os pontos positivos de trabalhar num hospital público em Vancouver ?
A maior vantagem é que, para trabalhar em feriados, a gente ganha em dobro (se for Sexta-Feira da Paixão, dia de Natal e dia do trabalho, pagam duas vezes e meia). No Brasil, ninguém queria trabalhar em feriados e aqui a briga é para ver quem fica de plantão. Hora extra é paga em dobro também para quem trabalha 12 horas seguidas e 1,5a hora normal para quem trabalha 8 horas (a partir de 2 horas extras, é sempre o dobro). Nunca me senti explorada. Antes de ter filho, até mesmo durante a gravidez, ganhei uma grana boa com horas extras.

Outra vantagem é que o hospital paga pelos cursos de especialização, livros inclusive e pelo salário durante a duração do curso (claro que fiz 6 meses de curso quando eles decidiram que só pagariam 60% do salário e que a regra mudou assim que recebi o diploma).

A variedade cultural é imensa no ambiente de trabalho. Nunca senti qualquer tipo de discriminação por ser brasileira ou ter concluído o curso de enfermagem fora daqui. Pelo contrário, ganho um adicional no salário (merreca, mas está lá) por ter curso superior (a esmagadora maioria das enfermeiras locais não tem). No meu atual setor, a equipe é unida e toda sexta-feira a turma sai para tomar umas. As festas de Natal são imperdíveis.

O sindicato dos enfermeiros é poderoso. O aumento de salário é anual e há estabilidade no emprego.

A escala de trabalho é divulgada bem antes do que a que eu tinha no Brasil. No meu antigo setor, em janeiro já era divulgada a escala de plantões do ano inteiro. No centro cirúrgico, a chefe libera com 6 semanas de antecedência. Se mudarem o plantão com menos de 48 horas de aviso, pagam hora extra.

O hospital exige de todos os enfermeiros um curso de segurança no trabalho que é dado todo ano e um treinamento de CPR (cardio-pulmonary ressuscitation), que é oferecido a cada dois anos. Ambos gratuitos.

Não há obrigatoriedade de usar roupa branca. Trabalhei numa rede de hospitais públicos excelentes no Brasil, mas com um vestidinho branco apertado (bem elegante para as magrinhas, por sinal) incompatível com o tipo de serviço braçal que a profissão às vezes exige. Se já inventaram uniforme melhor para enfermeira que tênis e "scrubs", aquele pijama à la Grey's Anatomy (com a calça cargo, cheia de bolsos para as canetas e o estetoscópio), eu não conheço. Acho que inverti a ordem: a roupa é a maior vantagem !

As chorumelas ficam para outro "post", que existem desvantagens sim, mas no geral, eu adoro meu trabalho. Como paciente, enxergo muitos problemas no sistema daqui, mas como enfermeira, acho muito justo. Gente, como se diz "post" em português ?

01 março, 2008

Pequenas Alegrias

Será que o Bill Gates fica feliz quando encontra uma nota de 20 dólares esquecida no bolso de um casaco ou isso é coisa só de pobre ?

Como diria Pollyanna, uma vantagem de não ser milionário é curtir cada aquisição material, já que não acontece todo dia. Você até fez uma moqueca para várias amigas no dia em que chegou seu sofá da sala (não havia mesa, o sofá era de dois lugares e todas as outras doze amigas sentaram no chão e comeram aquele "Brazilian fish stew" sem reclamar). Então, depois de 5 anos dormindo na cama feinha que já era do marido desde solteiro, você passa uma semana de férias num hotel em Cancún e volta achando que cama "king size" é um bem de primeira necessidade. Depois que descobre que os pontapés do filhote sonolento às 06:00 são imperceptíveis na cama gigante, não dá mais para voltar a dormir naquele colchãozinho "double". Ainda mais que desde a gravidez você pegou a mania de dormir de lado, com um travesseiro entre as pernas, outro para os braços, ocupando muito espaço (aqui eles chamam gente assim como você de "high maintenance").

De repente o marido aparece com uma dor na coluna, vai ao "quiropractor" (tem isso no Brasil ?) e volta dizendo que a recomendação é trocar de colchão. Claro, os muitos quilos a mais na barriga e a vida sedentária não estão relacionadas com problemas de coluna, somente o colchão e a azeitona na última empada.

Assim que aparecem um bônus inesperado e uma restituição razoável do imposto de renda (para compensar o ano passado, em que depois de ficar de licença-maternidade, recebendo a merreca do seguro-desemprego sem estar desempregada, você morreu numa cacetada do leão), a cama "king size" vira uma realidade. Já que está gastando mesmo, você escolhe um colchão ecologicamente correto, 100% biodegradável, feito de fibra de bambu que não mofa e uma outra planta anti-alérgica-sei-lá-das-quantas. A sua cara de "me amarrota que eu estou PASSADA" quando descobre que o colchão é bem mais caro que a cama é impagável. Você confessa que não tinha a menor idéia de que colchões custavam tanto. Isso sim é coisa de pobre. Não viu no programa da Oprah que a gente deve trocar de colchão a cada cinco anos ?

E mede daqui, mede dali, o marido descobre que não há espaço no quarto para duas mesas de cabeceira. Aliás, mal haverá lugar para caminhar e chegar até a cama, a mulher ainda vem querer encaixar cômoda ? A TV terá que ficar suspensa, mas com as paredes de caixote de maçã, como pendurar qualquer coisa ?

Calma, você joga na loteria toda semana e comprou o bilhete para "1 milhão de dólares por ano por 25 anos". Ainda há esperança. A cama só será entregue daqui a uma ou duas semanas, quem sabe até lá você tem grana para comprar um quarto onde caiba a cama decentemente ? Não é para querer desanimar não, mas do jeito que anda o preço dos imóveis em Vancouver, seu 1 milhão de dólares compra só isso: um quarto grande num dos bairros melhores. O resto da casa virá com os milhões dos anos seguintes...

Para quem já estava feliz da vida porque ganhou um TiVo de presente do Papai Noel, uma cama grande, mesmo que não haja muito espaço no quarto, é alegria garantida. Coisas de pobre, fazer o quê ?