"Filhotinho,
Quase que a carta deste mês não sai. Mamãe de férias em casa arruma trocentas coisas para fazer. Ela até organizou o armário de sapatos, um milagre!
Sem dúvida, sua frase preferida do mês é "I don't like it". Quando Mamãe chega perto, você muda para "eu não gosto". Este seu mantra serve para quase tudo, substituindo "não quero", "não preciso", "não consigo", "agora não". Este mês você aprendeu a falar o "s" antes de uma consoante, então o "eu não goto" virou mesmo "eu não gosssto" (você enfatiza o "s").
Ontem você começou na turma nova na creche, das crianças de 3 a 5 anos. Mamãe e Tata ansiosos, preocupados com a adaptação e você chegou lá, como se já estivesse na turma há séculos. Nem perguntou nada sobre a mudança, juntou-se logo aos meninos que vieram recebê-lo na porta e foi brincar.
A sua "formatura" na turma dos pequenos foi emocionante. A coleguinha Leni entregou seu diploma plastificado, enquanto você usava um chapéu de formando, feito de cartolina preta. Mamãe Bobona tirou muitas fotos e ficou com os olhos úmidos quando os coleguinhas cantaram "Happy last day to you".
Você fala muito, o tempo todo. Fala sozinho e tem muita imaginação. Olha para fora da janela do carro e diz "Look, Swiper The Fox" (do desenho da Dora). Ontem na creche teve um diálogo muito bonitinho com a coleguinha Faro. Mamãe, Tata e Deda estavam lá (a Baka estava doente e não foi). Faro começou a dar tchau para você, achando que sua família havia chegado, então você já ia embora. Você achou que ela estivesse dando tchau porque ela queria ir para casa, então disse "Faro, that's MY Mommy". E ela, num tom indignado, "My Mommy is coming too". Uma graça duas crianças da sua idade conversando.
Você faz amizades facilmente. Domingo fez um sol lindo e fomos ao parquinho. Você conheceu a Astrid, de 3 anos e ficou correndo atrás dela e procurando-a nos brinquedos "Astrid, where are you?" Você acidentalmente caiu do trepa-trepa e seu pé esbarrou no rosto dela, que estava logo atrás. Ela chorou sentida, você pediu desculpas, abraçou-a e ela disse "I'm sad you kicked me".
Você ainda continua bem possessivo com os brinquedos. Sua estratégia é oferecer à outra criança aquilo que você não quer e agarrar-se ao que realmente gosta.
Desde o Valentine's Day, você não pode ver um coração que diz "Happy ValentiMe's" (você fala com "M"). Volta e meia dá um abraço na gente e deseja um feliz dia dos namorados, assim sem razão especial alguma. A comemoração na creche deve ter sido mais animada que a de Natal, pela sua empolgação.
Semana passada, havia umas flores velhas no vaso, em cima da mesa. Você estava sentado tomando café da manhã, quando Mamãe pegou as flores e jogou no lixo. Você chorou de escorrerem muitas lágrimas. Falou como o Tata fala com Mamãe "don't do that, Little One. Don't dump the flowers" e ainda foi dedurar "Tata, Mamãe put the flowers in the garbage".
Você adora a ginástica. Nesta última aula, a professora começou com os exercícios de aquecimento e não fez um dos que ela sempre faz. Você ficou falando "tunnel", mas ela não ouviu. Quando todos se levantaram, você foi atrás dela, puxou a camisa e disse "tunnel". Aí ela falou em voz alta que você estava lembrando-a de fazer o túnel e ela fez. O único que copiou foi você, as outras crianças já tinham corrido para as outras atividades. Na aula, você e o Ethan são os únicos que conseguem subir nas barras e argolas sozinhos e virar de cabeça para baixo. A professora comentou que você já está pronto para a turma seguinte. Num determinado momento, ela pediu que as crianças fossem procurar os números de 1 a 10 escritos no chão. Você já sabe contar de 1 a 10 em inglês, português e servo-croata desde o ano passado, mas Mamãe não sabia que você reconhecia os números escritos. Você viu no chão 5 e disse em português "olha, Mamãe, número cinco". A mãe da Madeleine virou para o pai dela e brincou "viu? Ela está ficando para trás, tem criança que já sabe contar em 2 línguas". Mamãe não falou nada que você sabe contar em 3 línguas, aliás, ela nem gosta quando Vovó fala nisso como se fosse sinal de inteligência. É questão de oportunidade e aqui em casa não somos favoráveis a exibições. Cada um fala com você na sua língua materna porque é natural, achamos importante que você tenha contato com as culturas de cada lado da família. Não é sinal de superioridade, de forma alguma.
Você pensa rápido e não consegue esperar a outra pessoa terminar a frase, se ela fala muito devagar. Igualzinho à Mamãe, infelizmente. Na aula de ginástica, a professora cantou, como sempre "Head, Shoulders, Knees and Toes". Depois ela disse "vamos fazer uma coisa bem boba. Vamos cantar bem rápido?" E, antes que alguém começasse, você cantou bem rápido e bem alto, sozinho.
Seu apetite não melhorou em nada. Sua técnica de converter a luz solar em alimento e ter energia para pular o dia inteiro realmente funciona. Você não tira mais uma soneca toda tarde, talvez no máximo 2-3 vezes por semana.
Iremos a Orlando esta semana, onde encontraremos seus tios e primos do Brasil. Mamãe está mais empolgada pelo encontro e pela mudança de clima do que pelos parques da Disney. E, claro, torcendo para que seu português dê um salto nestes dias de convivência com a família brazuca.
Um beijinho carinhoso, de alguém que vibra com suas conquistas mas sente uma certa melancolia porque você está crescendo rápido demais,
Mamãe".
31 março, 2009
Cara de Pobre
No Brasil, eu sempre tive uma cara comum. Um nariz que não é grande, nem pontudo, nem batatudo, nem arrebitado, nem maravilhoso como o da Nicole Kidman, mas um narizinho comum, no meio de uma cara igualmente comum. Raramente ia a um lugar em que um estranho não dizia que conhecia alguém parecidíssima comigo. E claro que nunca era "conheci a princesa de Mônaco, ela é a sua cara", mas "minha cunhada tem uma faxineira que é idêntica a você". Nada contra as faxineiras, que eu amo de paixão, mas não sou uma (nem após 9 anos de exílio fui transformada numa, não tem jeito mesmo).
Quando mudei para o Canadá, achei que meu rosto seria diferente por aqui e imaginei que pouquíssima gente (mentira, pensei que seria ninguém mesmo) fosse conhecer alguém que parecesse comigo. Doce ilusão! Descobri que minha cara é globalizada, gente do mundo inteiro vive achando que pareço com alguém.
Já me acostumei aos indianos que falam comigo em punjabi (nunca sei se a região é Punjab e a língua punjabi, com "i" no final ou se a língua também é punjab e a versão terminada em "i" é só um adjetivo. E nem faço questão de aprender, sob risco de ser abduzida pela comunidade de pessoas com quem pareço.), às colegas indianas que mesmo após ouvirem meu sotaque insistem que sou indiana sim. E sou a musa dos motoristas de táxi de turbante, que ligam a trilha de Bollywood no carro especialmente para me agradar.
Já me disseram que sou persa também. A dúvida é sempre se sou indiana ou iraniana (90% na primeira opção). Interessante é que Santa Irmã é parecidíssima comigo, inclusive tem sobrenome indiano depois de casada e, quando ela vem aqui, todos comentam com certeza que ela é mexicana. Estudantes falam com ela em espanhol e tudo.
Ontem um garçom me surpreendeu. Virou pra mim e perguntou "de onde você é?". Quando pedi que ele adivinhasse, respondeu "você se parece COMIGO, então deve ser mediterrânea. Diria que é egípcia, como eu". Gente, eu não parecia em nada com o cara, a comida nem caiu bem depois disso.
'Tá, já estava me acostumando a ser indiana e agora virei egípcia! Vou começar a sair na rua de sári, para ficar bem claro.
Quando mudei para o Canadá, achei que meu rosto seria diferente por aqui e imaginei que pouquíssima gente (mentira, pensei que seria ninguém mesmo) fosse conhecer alguém que parecesse comigo. Doce ilusão! Descobri que minha cara é globalizada, gente do mundo inteiro vive achando que pareço com alguém.
Já me acostumei aos indianos que falam comigo em punjabi (nunca sei se a região é Punjab e a língua punjabi, com "i" no final ou se a língua também é punjab e a versão terminada em "i" é só um adjetivo. E nem faço questão de aprender, sob risco de ser abduzida pela comunidade de pessoas com quem pareço.), às colegas indianas que mesmo após ouvirem meu sotaque insistem que sou indiana sim. E sou a musa dos motoristas de táxi de turbante, que ligam a trilha de Bollywood no carro especialmente para me agradar.
Já me disseram que sou persa também. A dúvida é sempre se sou indiana ou iraniana (90% na primeira opção). Interessante é que Santa Irmã é parecidíssima comigo, inclusive tem sobrenome indiano depois de casada e, quando ela vem aqui, todos comentam com certeza que ela é mexicana. Estudantes falam com ela em espanhol e tudo.
Ontem um garçom me surpreendeu. Virou pra mim e perguntou "de onde você é?". Quando pedi que ele adivinhasse, respondeu "você se parece COMIGO, então deve ser mediterrânea. Diria que é egípcia, como eu". Gente, eu não parecia em nada com o cara, a comida nem caiu bem depois disso.
'Tá, já estava me acostumando a ser indiana e agora virei egípcia! Vou começar a sair na rua de sári, para ficar bem claro.
27 março, 2009
Spring Cleaning

Quando você morava no Brasil, convivia com duas estações por ano (cá para nós, quem precisa de quatro?) e dispunha da mordomia de empregada doméstica e faxineira, nunca tinha ouvido falar em "Spring cleaning". Como assim uma faxina especial porque é primavera? Para os que não conhecem, eles explicam até como lavar o vaso do banheiro aqui (é diferente da lavagem do resto do ano? Não quero saber a resposta). Gente, se fosse uma faxina só por estação, acho que até eu encararia! Claro que é força de expressão, uma por ano é minha cota de sacrifício penitencial e, se eu fizesse uma por semestre, já teria direito a uma vaga VIP no Spa Celestial da Vida Eterna.
Em teoria, é hora de limpar e guardar os casacos pesados, as botas de chuva e tirar do baú, do depósito ou de debaixo da cama as roupas mais leves. Na prática, se você cometer tal insensatez, morrerá congelado na rua porque ainda haverá pelo menos mais dois meses de frio e chuva pela frente, isso se o verão começar cedo este ano. Mas não dá para negar que é uma boa desculpa para jogar fora medicamentos vencidos no armário do banheiro (como aquela caixa de Neosaldina trazida da terrinha e que venceu em Jul/05) e encontrar sandálias que você nem lembrava que tinha. Sim, aquelas sandálias que estavam baratinhas em outubro e que foram direto da loja para o armário sem nunca terem sido usadas, por que qual brasileira, em sã consciência, usa sandálias no outono canadense? Perder o desconto está fora de cogitação. Usar sandálias com meias é coisa de gringo e, para isso, devem ser
Birkenstocks, coisa que você nem cogita em comprar antes da aposentadoria.
Aqui "Spring cleaning" é uma instituição tradicional. As colegas de trabalho programam-se semanas antes para a faxina no dia de folga. "Fulana, você pode trocar o plantão do dia 4 de abril comigo? Tenho uma festa de aniversário." Ela olha o calendário e diz "não, vou fazer meu 'spring cleaning' neste dia". Elas trocam dicas e comentam orgulhosas na segunda-feira como passaram o final de semana com luvas de lona ajoelhadas no jardim, plantando hortênsias. Ainda mostram os calos nas mãos. Como isso é deprimente! Ao invés de comentarem sobre a nova manicure ou a ótima massagista, discutem se vinagre e bicarbonato são alternativas ecologicamente corretas e eficientes para tirar manchas do carpete. Você não entende xongas de faxina, sequer tem a pretensão de aprender nesta vida e tenta ler o jornal durante o almoço, para ninguém vir perguntar se você já levou o casaco para a lavanderia. O segredo é não manter contato visual. Mas sempre tem a colega intrometida que cutuca: "já viu aquela máquina de alta pressão para lavar a calçada?" Benditas Olimpíadas! Como atualmente o esporte preferido do vancouverite é falar mal de alguma coisa relacionada aos jogos de 2010, assim que alguém ameaça puxar assunto de faxina de primavera, basta perguntar "como você virá para o trabalho durante as olimpíadas?" que logo os outros presentes entram irritados no assunto. E ninguém mais quer saber se seu quartinho de entulhos foi devidamente esvaziado e limpo (claro que não foi, tem primavera todo ano, para que tanta pressa?)
23 março, 2009
Sobrenomes Exóticos
No hospital, a chefe aparece para avisar que haverá uma cirurgia de emergência. Paciente vem direto da UTI. Já aparece com a papelada e o nome Fulano Gomes da Silva. A assistente da anestesia, muito bem informada, decreta:
- Que nome mais italiano!
(o anestesista, este sim italiano, tem outras idéias)
- Não, parece mais lá da terra da Flávia.
- Sem dúvida, com este nome, ou ele é brasileiro ou português.
A colega canadense suspira:
- Ai, eu acho lindo este sobrenome DaSilva (aqui eles escrevem assim mesmo, junto e com "S" maiúsculo).
- Jura? É o sobrenome mais comum no Brasil.
- Ah, eu acho que só de começar com "Da" fica tão chique, tão exótico!
- Então 'tá. Da Silva é chique. Comum e simples mesmo é o sobrenome do residente "Haythornthwaite" (levei 3 dias para aprender sem copiar do crachá dele)!
PS: Era português o paciente.
- Que nome mais italiano!
(o anestesista, este sim italiano, tem outras idéias)
- Não, parece mais lá da terra da Flávia.
- Sem dúvida, com este nome, ou ele é brasileiro ou português.
A colega canadense suspira:
- Ai, eu acho lindo este sobrenome DaSilva (aqui eles escrevem assim mesmo, junto e com "S" maiúsculo).
- Jura? É o sobrenome mais comum no Brasil.
- Ah, eu acho que só de começar com "Da" fica tão chique, tão exótico!
- Então 'tá. Da Silva é chique. Comum e simples mesmo é o sobrenome do residente "Haythornthwaite" (levei 3 dias para aprender sem copiar do crachá dele)!
PS: Era português o paciente.
22 março, 2009
Desejos Impossíveis
Depois de uma sexta-feira emburrada, veio uma manhã de sábado sem energia e uma noite cheia de surpresas bombásticas por vias altas e baixas. O Pacotinho de Virose (no Brasil, é tudo virose, mas aqui quase tudo é "stomach flu"), que nunca vomita, redecorou o chão e as paredes em poucos segundos com jatos de vômitos. Foi uma noite "full of barf", como dizem os canadenses. Incrível como o menino é capaz de colocar para fora quantidades infinitamente maiores do que as que coloca para dentro!
E aí veio o domingo mais mal humorado de que já se teve notícia. Nada está bom e a frase "eu não gosto" é repetida à exaustão.
- Quer uma banana?
- Eu não gosto "uma banana".
- Vamos sair?
- Eu não gosto "vamos sair".
O diálogo com uma criança doente, chorosa, que não sabe explicar direito o que está sentindo e fazendo força para ser do contra não é fácil.
- Uááááá...
- O que você quer, Filhote?
- Uááááá... Eu não gosto!
- Não gosta de quê?
- Uááááá...
- Se você falar o que quer, a gente tenta conseguir.
(aos prantos, ele responde)
- I want Valentine's Day!
Será que eu deveria ter procurado no Craig's list?
E aí veio o domingo mais mal humorado de que já se teve notícia. Nada está bom e a frase "eu não gosto" é repetida à exaustão.
- Quer uma banana?
- Eu não gosto "uma banana".
- Vamos sair?
- Eu não gosto "vamos sair".
O diálogo com uma criança doente, chorosa, que não sabe explicar direito o que está sentindo e fazendo força para ser do contra não é fácil.
- Uááááá...
- O que você quer, Filhote?
- Uááááá... Eu não gosto!
- Não gosta de quê?
- Uááááá...
- Se você falar o que quer, a gente tenta conseguir.
(aos prantos, ele responde)
- I want Valentine's Day!
Será que eu deveria ter procurado no Craig's list?
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14 março, 2009
Ansiedade Olímpica - 2
Foi divulgado esta semana o mapa das ruas e avenidas a serem bloqueadas para carros durante os jogos olímpicos.

Segundo a manchete de um dos jornais locais esta semana, quando o assunto é trânsito na cidade durante as Olimpíadas, a frase de abertura deveria ser "let the pains begin".
Ao contrário do que pensei, o Iglu não fica numa das "Olympic lanes", mas numa área restrita, com policiais nas ruas o tempo todo e trânsito controlado até para pedestres. E eu achando que teríamos problemas para estacionar, mas nem vai ser possível sair de casa de carro! Como disseram no jornal "vamos comemorar que pelo menos vão nos deixar entrar nas nossas próprias casas, poderia ser pior".
Eu gostaria de dizer que nunca vi um evento dessa magnitude sendo tão pouco apoiado pelos habitantes da cidade-sede (será que ainda tem hífen ou virou "cidadessede"?), mas na verdade nunca estive presente a uma Copa do Mundo, Olimpíadas ou competições do tipo para saber como se comportam os moradores. Para ter uma ideia (sem acento, não me conformo), o relógio que faz a contagem regressiva para os jogos já foi depredado tantas vezes que foi preciso colocar alguém tomando conta, além de câmeras. Marido Gringo, que presenciou os jogos olímpicos de inverno em sua cidade-natal, também está achando que a dor de cabeça para os habitantes desta vez superará as piores expectativas.
Por fim, acaba sendo como escreveu um leitor para o jornal "os incomodados que se mudem". E desde quando eu preciso de desculpa para escapar daqui em pleno inverno? Duro vai ser conseguir tirar férias, quando todos os colegas vão querer a mesma data.

Segundo a manchete de um dos jornais locais esta semana, quando o assunto é trânsito na cidade durante as Olimpíadas, a frase de abertura deveria ser "let the pains begin".
Ao contrário do que pensei, o Iglu não fica numa das "Olympic lanes", mas numa área restrita, com policiais nas ruas o tempo todo e trânsito controlado até para pedestres. E eu achando que teríamos problemas para estacionar, mas nem vai ser possível sair de casa de carro! Como disseram no jornal "vamos comemorar que pelo menos vão nos deixar entrar nas nossas próprias casas, poderia ser pior".
Eu gostaria de dizer que nunca vi um evento dessa magnitude sendo tão pouco apoiado pelos habitantes da cidade-sede (será que ainda tem hífen ou virou "cidadessede"?), mas na verdade nunca estive presente a uma Copa do Mundo, Olimpíadas ou competições do tipo para saber como se comportam os moradores. Para ter uma ideia (sem acento, não me conformo), o relógio que faz a contagem regressiva para os jogos já foi depredado tantas vezes que foi preciso colocar alguém tomando conta, além de câmeras. Marido Gringo, que presenciou os jogos olímpicos de inverno em sua cidade-natal, também está achando que a dor de cabeça para os habitantes desta vez superará as piores expectativas.
Por fim, acaba sendo como escreveu um leitor para o jornal "os incomodados que se mudem". E desde quando eu preciso de desculpa para escapar daqui em pleno inverno? Duro vai ser conseguir tirar férias, quando todos os colegas vão querer a mesma data.
11 março, 2009
Ansiedade Olímpica
As pessoas que trabalham no centro de Vancouver (e, imagino, de Whistler também) já estão começando a ficar preocupadas com o transporte durante as Olimpíadas.
A mídia está anunciando que a previsão é de 150.000 carros a mais por dia na cidade e que haverá um aumento de cerca de 1 milhão nas "viagens" de curto percurso entre os outros bairros e o centro. Vão bloquear algumas das ruas principais, tornando-as "Olympic lanes". Pergunta se a rua onde fica o Iglu vai ser bloqueada. Claro que sim! Ninguém vai poder estacionar o carro nas ruas.
Aqui no Iglu, todos caminhamos para o trabalho e o Pacotinho de Folga vai de carrinho para a creche, mas o transporte vai ser um problema para a maioria dos vancouverites que moram longe e trabalham no centro.
Lá no hospital onde trabalho, muita gente já está entrando em pânico. Como vai ser impossível liberar todos os funcionários para tirarem férias durante as Olimpíadas, deixando abandonado o hospital mais próximo da Vila Olímpica e do ginásio onde acontecerão os principais jogos de hockey (obsessão nacional), há previsão de muito estresse para decidir quem trabalha e quem vai ser dispensado. Minha chefe, que não é boba nem nada, está dizendo que vai se aposentar em janeiro de 2010. Depois de 35 anos no mesmo cargo, e várias ameaças em anos anteriores, acho que agora ela tem um bom motivo.
A mídia está anunciando que a previsão é de 150.000 carros a mais por dia na cidade e que haverá um aumento de cerca de 1 milhão nas "viagens" de curto percurso entre os outros bairros e o centro. Vão bloquear algumas das ruas principais, tornando-as "Olympic lanes". Pergunta se a rua onde fica o Iglu vai ser bloqueada. Claro que sim! Ninguém vai poder estacionar o carro nas ruas.
Aqui no Iglu, todos caminhamos para o trabalho e o Pacotinho de Folga vai de carrinho para a creche, mas o transporte vai ser um problema para a maioria dos vancouverites que moram longe e trabalham no centro.
Lá no hospital onde trabalho, muita gente já está entrando em pânico. Como vai ser impossível liberar todos os funcionários para tirarem férias durante as Olimpíadas, deixando abandonado o hospital mais próximo da Vila Olímpica e do ginásio onde acontecerão os principais jogos de hockey (obsessão nacional), há previsão de muito estresse para decidir quem trabalha e quem vai ser dispensado. Minha chefe, que não é boba nem nada, está dizendo que vai se aposentar em janeiro de 2010. Depois de 35 anos no mesmo cargo, e várias ameaças em anos anteriores, acho que agora ela tem um bom motivo.
SAL do Iglu para Anônimo
Anônimo escreveu: "daylight saving time, nada a ver com verão" e o Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:
Jura que não tem NADA A VER com "verão"? Nossa, que bom você avisar! Eu tinha certeza de que o verão começava em março no hemisfério norte! Será que não? Vai dizer que também não termina em outubro! Estou pasma com a informação. Deve ter mudado este ano, porque sempre o verão vai de março a outubro por aqui. Nada como alguém bem informado, que sabe tudo de tradução de inglês para português coloquial para me explicar as coisas. Obrigada.
Viu, gente? Para quem também pensou que o equivalente brasileiro a "daylight savings time" era "horário de verão", agora alguém jogou uma luz sobre as trevas da nossa ignorância. Ainda é inverno até o dia 20 ou 21 de março, dependendo do calendário que se consulte! Guardem as havaianas por mais alguns meses!
Falta agora me dizer que Valentine's Day também não é Dia dos Namorados, porque é dia 14 de fevereiro, mas Dia de São Valentim. Nossa, todas as minhas verdades absolutas estão caindo por terra hoje!
Só faltou ensinar como se diz o equivalente "daylight savings time" no Brasil. Seria "economizando o tempo da luz do dia" ou "tempo de economia de luz diurna"?
Jura que não tem NADA A VER com "verão"? Nossa, que bom você avisar! Eu tinha certeza de que o verão começava em março no hemisfério norte! Será que não? Vai dizer que também não termina em outubro! Estou pasma com a informação. Deve ter mudado este ano, porque sempre o verão vai de março a outubro por aqui. Nada como alguém bem informado, que sabe tudo de tradução de inglês para português coloquial para me explicar as coisas. Obrigada.
Viu, gente? Para quem também pensou que o equivalente brasileiro a "daylight savings time" era "horário de verão", agora alguém jogou uma luz sobre as trevas da nossa ignorância. Ainda é inverno até o dia 20 ou 21 de março, dependendo do calendário que se consulte! Guardem as havaianas por mais alguns meses!
Falta agora me dizer que Valentine's Day também não é Dia dos Namorados, porque é dia 14 de fevereiro, mas Dia de São Valentim. Nossa, todas as minhas verdades absolutas estão caindo por terra hoje!
Só faltou ensinar como se diz o equivalente "daylight savings time" no Brasil. Seria "economizando o tempo da luz do dia" ou "tempo de economia de luz diurna"?
09 março, 2009
08 março, 2009
Personagens de Novela Mexicana
Reza a lenda que eu deveria ser registrada Flávia Lentúlia, como a personagem homônima do livro que inspirou o nome. Quis o destino que um avô entendesse Getúlia, uma tia achasse que era Petúnia e, para evitar a confusão, acabou ficando Flávia Lúcia. Quem nasceu para Flávia Lentúlia e acabou Flávia Lúcia não deveria reclamar do nome composto, certo? Errado! Desde criança, eu já achava que nomes assim só deveriam existir nas novelas mexicanas, que eu assistia em preto e branco, na TV pequena da moça que trabalhava lá em casa e não perdia um capítulo. Para minha sorte, havia uma Flávia Regina e um Flávio Homero na mesma classe. Também fiz vestibular numa sala repleta de Flávias Marias, o que me deu a sensação de ser menos anormal.
A não ser que a pessoa tenha as combinações tradicionais, como Ana Alguma-Coisa ou Luís Alguma-Coisa, acaba sendo chamada somente pelo primeiro ou pelo segundo nome (se o primeiro for Maria) ou por algum apelido, na maioria das vezes. Mas basta fazer alguma coisa errada, que a Lu escuta "Lucilene Úrsula", venha aqui agora!"
Acontece que todas as nossas verdades absolutas são culturais. Um amigo sortudo (tem somente um nome e dois sobrenomes) foi morar no Chile e vivia tendo que explicar que não tinha nome composto, o que causava espanto geral. Chegou a ouvir que brasileiro faz tudo errado, a começar pela forma de dar nome aos filhos. Por outro lado, Marido Gringo vem de uma terra onde todas as pessoas são registradas com um nome e o sobrenome do pai. Só foi descobrir que existia a entidade "middle name" depois que mudou para o Canadá e até hoje não se conforma "qual a necessidade de ter mais que um nome e o sobrenome?".
Claro que tem um monte de Frederico Augusto e Carla Patrícia no mundo que adora o próprio nome e ainda repete a tradição com os filhos, numa prova de que realmente há gosto para tudo. Uma amiga com dois nomes que não combinam nadinha entre si ficou cho-ca-da quando eu disse que não gostava. Ela estava torturando-se em culpa porque não havia encontrado um segundo nome para o filho, que acabou ficando com SÓ um. Que sorte a do moleque!
Fico pensando se o Pacotinho de Diversidade Cultural vai reclamar do nome quando crescer. Como eu já havia decidido desde os 8 anos de idade (capricorniano quando criança já pensa na vida adulta), filho meu não vai ter nome composto. Ele ficou com um nome, o sobrenome da mãe e o do pai. Vai ser uma exceção na escola, por ter como "middle name" o sobrenome materno. A regra aqui quando há combinação dos sobrenomes é colocar um hífen. Se eu fosse de dizer "aff", diria "aff! Tem coisa mais brega que tascar um hífen?"
Por via das dúvidas, nunca namorei alguém com nome composto. Era só o que faltava! Uma Flávia Lúcia casada com um Paulo Marcelo!
Nota do Serviço de Utilidade Pública do Iglu: às insatisfeitas com o próprio nome, recomendo casarem-se por aqui. A lei permite retirar qualquer nome, tanto que meu Lúcia foi para o espaço. A maioria dos formulários norte-americanos sequer oferecem espaço suficiente para escrever os nomes completos dos latinos.
A não ser que a pessoa tenha as combinações tradicionais, como Ana Alguma-Coisa ou Luís Alguma-Coisa, acaba sendo chamada somente pelo primeiro ou pelo segundo nome (se o primeiro for Maria) ou por algum apelido, na maioria das vezes. Mas basta fazer alguma coisa errada, que a Lu escuta "Lucilene Úrsula", venha aqui agora!"
Acontece que todas as nossas verdades absolutas são culturais. Um amigo sortudo (tem somente um nome e dois sobrenomes) foi morar no Chile e vivia tendo que explicar que não tinha nome composto, o que causava espanto geral. Chegou a ouvir que brasileiro faz tudo errado, a começar pela forma de dar nome aos filhos. Por outro lado, Marido Gringo vem de uma terra onde todas as pessoas são registradas com um nome e o sobrenome do pai. Só foi descobrir que existia a entidade "middle name" depois que mudou para o Canadá e até hoje não se conforma "qual a necessidade de ter mais que um nome e o sobrenome?".
Claro que tem um monte de Frederico Augusto e Carla Patrícia no mundo que adora o próprio nome e ainda repete a tradição com os filhos, numa prova de que realmente há gosto para tudo. Uma amiga com dois nomes que não combinam nadinha entre si ficou cho-ca-da quando eu disse que não gostava. Ela estava torturando-se em culpa porque não havia encontrado um segundo nome para o filho, que acabou ficando com SÓ um. Que sorte a do moleque!
Fico pensando se o Pacotinho de Diversidade Cultural vai reclamar do nome quando crescer. Como eu já havia decidido desde os 8 anos de idade (capricorniano quando criança já pensa na vida adulta), filho meu não vai ter nome composto. Ele ficou com um nome, o sobrenome da mãe e o do pai. Vai ser uma exceção na escola, por ter como "middle name" o sobrenome materno. A regra aqui quando há combinação dos sobrenomes é colocar um hífen. Se eu fosse de dizer "aff", diria "aff! Tem coisa mais brega que tascar um hífen?"
Por via das dúvidas, nunca namorei alguém com nome composto. Era só o que faltava! Uma Flávia Lúcia casada com um Paulo Marcelo!
Nota do Serviço de Utilidade Pública do Iglu: às insatisfeitas com o próprio nome, recomendo casarem-se por aqui. A lei permite retirar qualquer nome, tanto que meu Lúcia foi para o espaço. A maioria dos formulários norte-americanos sequer oferecem espaço suficiente para escrever os nomes completos dos latinos.
01 março, 2009
Conversas de Criança Pequena
Na banheira:
- Mamãe, a água está fria.
(a mãe coloca a mão na água)
- Não, Filhote. A água está boa.
(o menino fica com raiva)
- Eu não quero "está boa", eu quero QUENTE!
- Mamãe, a água está fria.
(a mãe coloca a mão na água)
- Não, Filhote. A água está boa.
(o menino fica com raiva)
- Eu não quero "está boa", eu quero QUENTE!
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