Não sei no resto do Canadá, mas aqui em Vancouver, mais da metade dos casais canadenses grávidos opta por não saber o sexo do bebê que espera antes do nascimento. Quando o primeiro Pacotinho de Surpresas estava a caminho, no curso de gestantes havia dez casais e somente nós do Iglu sabíamos antecipadamente o sexo do bebê no ventre. Havia um outro casal que queria saber, mas tinha feito o ultrassom antes de vinte semanas e por isso não foi informado. Os outros oito preferiram a surpresa. E, como vejo cesáreas praticamente todo dia e é costume perguntar se a grávida sabe o sexo do neném (quando se tem tempo pra jogar conversa fora e não é cesárea de emergência), minha amostra é bem grande.
Então, por aqui, ninguém questionou o fato de preferirmos a surpresa, mas no Brasil...
Junho/2010
De férias em Fortaleza (ô saudade daquela terra maravilhosa, quero me aposentar por lá), uma total estranha na praia pergunta:
- Você vai ter um menino ou uma menina?
- Eu acho que é menino, mas a gente não sabe.
- No ultrassom não deu pra ver? Por que você não fez outro?
- A gente não quis saber, pediu pra não falarem.
- Mas você não ficou olhando para descobrir?
- Não fiquei não e, mesmo que ficasse, não é sempre óbvio como se pensa.
- O quê? Que absurdo! Do Fulaninho eu vi logo que era menino.
- Pois é, viu porque mostraram e avisaram o que era para ser visto.
- E como você vai comprar as coisas?
- Neném não liga pra que cor de roupa está vestindo. Depois, aos poucos, a gente vai comprando.
- E de que cor vai pintar o quarto?
- Não vou pintar, já está pintado e vai continuar da mesma cor, que o quarto é o mesmo do irmão mais velho.
- Ah, eu acho o fim. Do Fulaninho, eu tinha tudo comprado, o quarto todo azul, no quinto mês.
- Pois é, que bom que as pessoas são diferentes, né?
No sol, na praia, com um coco gelado nas mãos e jogos da Copa no telão, massagem de uma hora por 20 (VINTE) reais, pouca coisa consegue me irritar. Então, achei graça na estranha que sabe o que é melhor para todas as grávidas.
As amigas do Quadradinho (quatro grávidas ao mesmo tempo) também não se conformavam.
- Você é doida!
- Por que? Por que não quero satisfazer a curiosidade de vocês?
- Faz logo outro ultrassom e acaba com esta agonia.
- Que agonia? Eu amo estar grávida, não tem agonia alguma.
- A minha!
- Mas você já sabe que vai ter uma menina.
- Pois é, nem me imagino no seu lugar.
- Não precisa imaginar.
- Mesmo assim fico curiosa, que agonia!
Fico pensando: não fosse o hiato no blog, será que a meia dúzia de leitores também ficaria agoniada?
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14 novembro, 2010
12 novembro, 2010
Marte, Vênus e mais um Pacotinho de Surpresas a caminho do Iglu

Fevereiro/2010
Foi uma longa espera. Se o primeiro Pacotinho de Surpresas resolveu vir morar no Iglu na primeira tentativa, o segundo demorou 2 anos para se decidir. Mulher realmente é uma criatura mais, digamos assim, complexa.
Foram inúmeros testes de gravidez, que Mamãe tem dificuldade em acreditar que está grávida. Para dar raiva nas barrigudas que passam mal por 9 meses, ela é daquelas que não tem náusea, nem azia, nem inchaço nos pés, então...
- Ufa, fiz outro teste de gravidez hoje, o mostrador digital indicou "Pregnant. >4 weeks".
- Você está ficando doida. Por que fica fazendo teste toda semana?
- Porque eu não sinto nada, vai que não estou grávida?
- O exame de urina deu positivo, você está sim.
- Mas eu não sinto NADA!
- Da outra vez você também não sentiu.
- Ah, mas da outra gravidez, eu tive um sangramento de implantação do embrião. Desta vez, nada.
- Toda mulher tem isso?
- Não.
- Então está tudo bem, não precisa necessariamente sangrar.
- Ai, que inveja daquela mulherada que acorda de manhã e já vomita. Deve ser muito reconfortante abrir a geladeira e correr pra vomitar no banheiro, tendo a certeza diária de que a gravidez está evoluindo bem.
- Você queria sangrar e vomitar?
- Pelo menos uma náusea, um mal estar, uma vontade de comer sorvete de baunilha com azeitona verde, eu queria ter sim. Aí ficaria tranquila, sabendo que ainda estava grávida.
- Você não está ficando doida, você É doida mesmo! Onde já se viu querer passar mal?
- Ah, você não entende!
- Não mesmo. Coisa boa é ser homem. Pegar o carro, levar a mulher pro hospital e já receber o bebê embrulhadinho num pacote. Anos depois, como diz o Homer Simpson, o filho pede alguma coisa e você diz "primeiro tenho que levar sua mãe ao hospital, agora isso?"
- Eu leio livros escritos por parteiras, pediatras, psicólogos, consultoras de lactação e você tira sua inspiração sobre como criar filhos do Homer Simpson?
Já dizia Rita Lee, "mulher é bicho esquisito".
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01 junho, 2006
A Desempregada
Eu definitivamente não sou como tantas outras pessoas, que foram Cleópatra em vidas passadas ou alguém assim de renome mundial. Eu devo ter sido daquelas que, como diz uma amiga virtual, bateu bife na tábua dos Dez Mandamentos, jogou pedra na cruz e ainda limpou os pés no Sudário, porque não é possível !
Estou eu, calma e tranqüilamente assistindo a um vídeo, quando toca o telefone e posso ver que é do Human Resources Department of Canada, ou seja, coisa boa não pode ser:
- Você deu entrada no seguro-desemprego recentemente ?
- Licença-maternidade. Dei entrada há três semanas.
- Eu não sei os detalhes, mas alguns dados estão conflitantes e é preciso que você prove a sua identidade, para termos certeza de que não é uma fraude. Para quando seu parto está previsto ?
- Para qualquer hora.
- Se você quiser passar aqui DEPOIS do parto, a gente corrige. Por enquanto, seu processo está parado.
- Mas aí não vou receber nunca o dinheiro.
- Vai sim, só que vai atrasar.
(é uma merreca e ainda vai atrasar !!!!)
- Então eu vou aí hoje mesmo. O que preciso levar ?
- O cartão de residente permanente.
(claro que é aquele que o Marido com Pregnancy Brain perdeu a semana passada, cuja segunda via deve demorar 6 semanas para chegar)
Depois de muita conversa, o rapaz teve um ataque de bom senso e resolveu aceitar outros documentos. E lá vou eu até o outro lado da cidade, ficar em fila grande, para provar que sou quem sou e receber o "seguro-desemprego", depois de cinco anos no mesmo emprego e sem estar desempregada. Coisas do Primeiro Mundo...
O cara viu que eu não tinha cara de fraudadora, aliás é bem óbvio que ando mais com tendência para fraldas do que para fraudes. Claro que tive que dar entrada em tudo novamente, ficando uma hora em frente ao computador, tentando calcular o salário semanal, esforçando-me para lembrar todos os feriados em que não trabalhei e recebi, fora os dias em que faltei por estar de licença-médica, o salário da última semana de trabalho e mais oitocentos dados. "Eles não poderiam ter pego tais dados com o empregador ?" O lema da burocracia é: se é possível complicar, para que facilitar ? Como não há um documento impresso, não pude nem copiar dos cálculos que tinha feito da vez passada. E, depois de uma hora, aparece na tela do computador: "Você tem que comunicar o HRDC quando seu filho nascer".
E eu pergunto ao funcionário o que preciso fazer, como comunicar oficialmente o nascimento da criança. E ele:
- Mas quem falou isso ?
- Está escrito na tela do computador.
E, numa resposta típica canadense:
- Não sei. Pergunte àquela moça ali, no outro balcão.
Claro que ela também nunca tinha ouvido falar nisso e tive que pesquisar eu mesma, afinal de contas, devo ser a primeira e única mulher no país a entrar de licença-maternidade e a fazer tal pergunta aos funcionários que trabalham com isso.
Agora é esperar mais duas ou três semanas para ver o que eles vão alegar por não terem depositado o dinheiro na conta...
Estou eu, calma e tranqüilamente assistindo a um vídeo, quando toca o telefone e posso ver que é do Human Resources Department of Canada, ou seja, coisa boa não pode ser:
- Você deu entrada no seguro-desemprego recentemente ?
- Licença-maternidade. Dei entrada há três semanas.
- Eu não sei os detalhes, mas alguns dados estão conflitantes e é preciso que você prove a sua identidade, para termos certeza de que não é uma fraude. Para quando seu parto está previsto ?
- Para qualquer hora.
- Se você quiser passar aqui DEPOIS do parto, a gente corrige. Por enquanto, seu processo está parado.
- Mas aí não vou receber nunca o dinheiro.
- Vai sim, só que vai atrasar.
(é uma merreca e ainda vai atrasar !!!!)
- Então eu vou aí hoje mesmo. O que preciso levar ?
- O cartão de residente permanente.
(claro que é aquele que o Marido com Pregnancy Brain perdeu a semana passada, cuja segunda via deve demorar 6 semanas para chegar)
Depois de muita conversa, o rapaz teve um ataque de bom senso e resolveu aceitar outros documentos. E lá vou eu até o outro lado da cidade, ficar em fila grande, para provar que sou quem sou e receber o "seguro-desemprego", depois de cinco anos no mesmo emprego e sem estar desempregada. Coisas do Primeiro Mundo...
O cara viu que eu não tinha cara de fraudadora, aliás é bem óbvio que ando mais com tendência para fraldas do que para fraudes. Claro que tive que dar entrada em tudo novamente, ficando uma hora em frente ao computador, tentando calcular o salário semanal, esforçando-me para lembrar todos os feriados em que não trabalhei e recebi, fora os dias em que faltei por estar de licença-médica, o salário da última semana de trabalho e mais oitocentos dados. "Eles não poderiam ter pego tais dados com o empregador ?" O lema da burocracia é: se é possível complicar, para que facilitar ? Como não há um documento impresso, não pude nem copiar dos cálculos que tinha feito da vez passada. E, depois de uma hora, aparece na tela do computador: "Você tem que comunicar o HRDC quando seu filho nascer".
E eu pergunto ao funcionário o que preciso fazer, como comunicar oficialmente o nascimento da criança. E ele:
- Mas quem falou isso ?
- Está escrito na tela do computador.
E, numa resposta típica canadense:
- Não sei. Pergunte àquela moça ali, no outro balcão.
Claro que ela também nunca tinha ouvido falar nisso e tive que pesquisar eu mesma, afinal de contas, devo ser a primeira e única mulher no país a entrar de licença-maternidade e a fazer tal pergunta aos funcionários que trabalham com isso.
Agora é esperar mais duas ou três semanas para ver o que eles vão alegar por não terem depositado o dinheiro na conta...
23 maio, 2006
Pregnancy Brain ?
Ela não acredita em "pregnancy brain", o nome em inglês dado àquele fenômeno típico da gravidez, que acomete as barrigudas, levando-as a esquecer os compromissos, a perder a bolsa, a guardar a correspondência dentro da geladeira e deixar o leite em cima da pia, a cometer idiotices que seus cérebros antes tão afiados não permitiriam que acontecessem. Ela acha que isso é mais um sintoma que ela, por não ter tido praticamente nenhum dos outros quinhentos listados nos livros, está livre de ter.
E lá vai ela, com seu recém-adquirido andar de pata choca (sim, porque depois que a cabeça do neném desce para a cavidade pélvica, nem a mais elegante top model está livre disso) à consulta com o obstetra. E como toda terça-feira tem sido dia de consulta nas últimas semanas, orgulha-se do fato de que se lembrou de que hoje o horário era outro: duas e quinze, ao invés do tradicional, três e quarenta e cinco. E isso sem precisar anotar em lugar nenhum ! E chega ao consultório às duas e dez, já procurando os infames copinhos para exame de urina, pré-requisito necessário antes de qualquer consulta. E ouve da secretária:
- Flávia, o que você está fazendo aqui ?
- A consulta não é hoje ? Terça-feira ?
- Não, o médico está de plantão no hospital.
E, após consultar o computador:
- É amanhã, mas pelo menos desta vez você acertou o horário, que semana passada teve que ficar mais de uma hora esperando por ter chegado cedo demais.
Detalhe: a secretária também está barrigudíssima, custava ter omitido o fato de que errei o horário semana passada ?
E lá vai ela, com seu recém-adquirido andar de pata choca (sim, porque depois que a cabeça do neném desce para a cavidade pélvica, nem a mais elegante top model está livre disso) à consulta com o obstetra. E como toda terça-feira tem sido dia de consulta nas últimas semanas, orgulha-se do fato de que se lembrou de que hoje o horário era outro: duas e quinze, ao invés do tradicional, três e quarenta e cinco. E isso sem precisar anotar em lugar nenhum ! E chega ao consultório às duas e dez, já procurando os infames copinhos para exame de urina, pré-requisito necessário antes de qualquer consulta. E ouve da secretária:
- Flávia, o que você está fazendo aqui ?
- A consulta não é hoje ? Terça-feira ?
- Não, o médico está de plantão no hospital.
E, após consultar o computador:
- É amanhã, mas pelo menos desta vez você acertou o horário, que semana passada teve que ficar mais de uma hora esperando por ter chegado cedo demais.
Detalhe: a secretária também está barrigudíssima, custava ter omitido o fato de que errei o horário semana passada ?
19 maio, 2006
Brazilian Wax - só para quem não tem barriga
Uma das coisas de que as brasileiras exiladas aqui em Vancouver mais se queixam é da falta que fazem nossas manicures e depiladoras. Infelizmente, não apreciamos devidamente o quanto elas são essenciais à nossa vida, enquanto moramos no Brasil. Eu, que apesar de ter aprendido na marra a fazer unha, depilar, pintar cabelo, fazer escova, não sou a exceção que confirma a regra, tanto que minha segunda parada na terrinha é sempre um salão de beleza, que já deixo marcado antes de embarcar e ataco assim que deposito as malas em casa. Não que aqui não haja quem faça pé & mão e depile (inclusive anunciam "Brazilian Wax", que aqui é sinônimo de depilar absolutamente tudo e ficou bem conhecida desde um episódio do Sex & The City), mas nem dá para comparar.
Já que ando com tempo de sobra, depilei as pernas e coxas sozinha (um feito, quando se carrega uma barriga de 8 meses) e fui hoje ao salão para depilar a "bikini area", como é conhecida por aqui. Chegando lá, a moça (uma vietnamita minúscula) recusou-se a me depilar e mandou o sábio conselho: "não é bom depilar na gravidez. Volte daqui a 2 meses." Eu na hora senti meu rosto em chamas, mas ainda estava com as unhas úmidas do esmalte e preferi não enforcá-la, afinal havia pago uma fortuna para fazer a mão ("não é bom para quem ?). Talvez se eu trabalhasse no Cirque de Soleil eu conseguisse depilar a virilha sozinha, mesmo com uma barriga imensa que não me permite enxergar nem os pés, porque tal tarefa requer um nível profissional de contorcionismo.
A ironia é que lá no centro cirúrgico, toda vez que é preciso fazer um aparo dos pêlos de um paciente (não se usa mais raspar), eu tenho que ouvir as piadinhas sobre Brazilian wax, como se fosse uma especialista no assunto. Quem morar por aqui e conhecer alguma depiladora que não tenha medo de grávidas, por favor faça a gentileza de me avisar. E quem está de mudança para cá, não diga que não sabia do grave problema que afeta as brasileiras por aqui...
Já que ando com tempo de sobra, depilei as pernas e coxas sozinha (um feito, quando se carrega uma barriga de 8 meses) e fui hoje ao salão para depilar a "bikini area", como é conhecida por aqui. Chegando lá, a moça (uma vietnamita minúscula) recusou-se a me depilar e mandou o sábio conselho: "não é bom depilar na gravidez. Volte daqui a 2 meses." Eu na hora senti meu rosto em chamas, mas ainda estava com as unhas úmidas do esmalte e preferi não enforcá-la, afinal havia pago uma fortuna para fazer a mão ("não é bom para quem ?). Talvez se eu trabalhasse no Cirque de Soleil eu conseguisse depilar a virilha sozinha, mesmo com uma barriga imensa que não me permite enxergar nem os pés, porque tal tarefa requer um nível profissional de contorcionismo.
A ironia é que lá no centro cirúrgico, toda vez que é preciso fazer um aparo dos pêlos de um paciente (não se usa mais raspar), eu tenho que ouvir as piadinhas sobre Brazilian wax, como se fosse uma especialista no assunto. Quem morar por aqui e conhecer alguma depiladora que não tenha medo de grávidas, por favor faça a gentileza de me avisar. E quem está de mudança para cá, não diga que não sabia do grave problema que afeta as brasileiras por aqui...
16 maio, 2006
Pitacos na Barriga Alheia
Apesar de trabalhar num centro cirúrgico, antes de ficar grávida eu nunca tinha percebido o quanto todos à minha volta são especialistas em gravidez. Conhecidos, familiares, amigos, estranhos, todos têm seu palpitinho obstétrico para dar. Os médicos que trabalham comigo nunca deram uma única sugestão, ao contrário diziam "como você está bem". Geralmente o palpite traz uma crítica embutida (exatamente aquilo que você está fazendo no momento é proibido). Você acha que só porque não fuma, não toma álcool, não usa drogas, não engordou demais, não está anêmica nem inchada e sente-se ótima está livre dos comentários e críticas ? Diga onde mora, que estou mudando para lá hoje mesmo.
Agora no final, tenho pensado nos conselhos que ouvi: "Grávida não pode usar saltinho baixo, tem que ser um sapato totalmente liso na sola" (claro que eu não estava de sapato baixo na hora). "Barriguda não pode tomar coca-cola". "Gestante não pode dirigir, é muito perigoso". Quando, com 20 semanas de gestação, resolvi passar férias no Brasil, fui brindada com "viajar de avião faz mal pro neném". Porém, de tudo o que ouvi, a pérola foi: "Grávida não pode usar roupa preta, porque confunde o neném, que fica sem saber se é dia ou noite". Amei !
Ai ai, só fico pensando quando o neném nascer e eles quiserem mostrar seus conhecimentos avançados em Pediatria e Puericultura, quanto aos cuidados com o recém-nascido e a lista infindável de coisas que não vou poder comer por estar amamentando...
Agora no final, tenho pensado nos conselhos que ouvi: "Grávida não pode usar saltinho baixo, tem que ser um sapato totalmente liso na sola" (claro que eu não estava de sapato baixo na hora). "Barriguda não pode tomar coca-cola". "Gestante não pode dirigir, é muito perigoso". Quando, com 20 semanas de gestação, resolvi passar férias no Brasil, fui brindada com "viajar de avião faz mal pro neném". Porém, de tudo o que ouvi, a pérola foi: "Grávida não pode usar roupa preta, porque confunde o neném, que fica sem saber se é dia ou noite". Amei !
Ai ai, só fico pensando quando o neném nascer e eles quiserem mostrar seus conhecimentos avançados em Pediatria e Puericultura, quanto aos cuidados com o recém-nascido e a lista infindável de coisas que não vou poder comer por estar amamentando...
15 maio, 2006
Literalmente, dando o sangue
Amanhecemos com as notícias aterrorizantes de São Paulo (segundo o Marido Ávido por Notícias concluiu, depois de pesquisar nos sites da CNN e da BBC, a melhor cobertura foi a da Al-Jazeera). Depois, meus informantes matinais ligaram do Brasil e avisaram que havia saído a lista de convocados para a Copa do Mundo (o mais chocante é que NINGUÉM lá em casa foi convocado). Tudo importante, mas para mim, o acontecimento do dia foi mesmo a minha doação de sangue.
Como eu já disse, a santa padroeira da burocracia é forte também por estas bandas geladas. Então, apesar de haver um grande hospital perto da minha casa, onde eu vou ter meu neném, onde eu trabalho e onde está meu prontuário, tive que me deslocar para um outro hospital (longe de casa, claro), para fazer a doação de sangue. "Mas não tem banco de sangue no seu hospital ?" Claro que tem. "Mas tem lógica ?" Não me faça pergunta difícil !
Comi o máximo que pude no café da manhã, segundo havia sido orientada e fui para o hospital. Eu nasci sem bússola acoplada ao cérebro, sou completamente desorientada no espaço e o Women's Hospital (são dois hospitais emendados - o Children's é lá também) é um labirinto onde é mais fácil encontrar o Minotauro do que a sala que se procura. Enfim, cheguei lá e o atendimento foi realmente nota 10. Poltronas reclináveis, anestésico local para as punções venosas (uma de cada lado), TV e o onipresente suquinho horroroso de laranja, que não é culpa da coitada da enfermeira que me atendeu. Ela fez um questionário básico, comentou o quanto minha hemoglobina era alta (aqui, se você é magra, todos deduzem que é anoréxica e anêmica, então o fato de eu não ser sempre gera surpresa) e começou. Eu cheguei lá munida de 3 revistas novas, crente que iria ler à beça, mas depois de uma picada em cada braço, um soro pendurado de um lado, a máquina tirando sangue de outro, mais um aparelho de pressão, só li mesmo o rótulo da caixinha do suco.
Eu já tinha tentado doar sangue quando morava no Brasil, mas estava sempre abaixo do peso mínimo, então nunca consegui. Como a doação agora é para mim mesma, minha magreza não interessa, porque a quantidade de sangue doado é proporcional ao meu peso. A retirada do sangue em si foi totalmente indolor e super rápida (6 minutos), mas depois que acabou, cadê energia para sequer levantar o braço ? Eu, que apesar de ter pressão baixa, nunca desmaio e não fico tonta, experimentei a sensação de ser um fantasma por longos quarenta minutos. Depois foi melhorando, passei ao estágio de alma penada e conseguia até falar normalmente, mas não tinha forças para assombrar ninguém.
Quando o Santo Marido (que, por sinal, tem um sangue meio raro, vive doando para o banco de sangue central e nunca me disse que se sentia fraco depois da doação) chegou para me buscar, já decretou: "Nossa, sua aparência está péssima !" E a enfermeira: "Está bem melhor agora, você não viu quando ela passou mal". E ela sugeriu que ele me levasse para comer um almoço enorme, mas eu, depois de tantos dias de repouso e doida para sair de casa, quem diria, tive que falar: "Não, só me leva para casa que eu quero voltar para a cama".
Como eu já disse, a santa padroeira da burocracia é forte também por estas bandas geladas. Então, apesar de haver um grande hospital perto da minha casa, onde eu vou ter meu neném, onde eu trabalho e onde está meu prontuário, tive que me deslocar para um outro hospital (longe de casa, claro), para fazer a doação de sangue. "Mas não tem banco de sangue no seu hospital ?" Claro que tem. "Mas tem lógica ?" Não me faça pergunta difícil !
Comi o máximo que pude no café da manhã, segundo havia sido orientada e fui para o hospital. Eu nasci sem bússola acoplada ao cérebro, sou completamente desorientada no espaço e o Women's Hospital (são dois hospitais emendados - o Children's é lá também) é um labirinto onde é mais fácil encontrar o Minotauro do que a sala que se procura. Enfim, cheguei lá e o atendimento foi realmente nota 10. Poltronas reclináveis, anestésico local para as punções venosas (uma de cada lado), TV e o onipresente suquinho horroroso de laranja, que não é culpa da coitada da enfermeira que me atendeu. Ela fez um questionário básico, comentou o quanto minha hemoglobina era alta (aqui, se você é magra, todos deduzem que é anoréxica e anêmica, então o fato de eu não ser sempre gera surpresa) e começou. Eu cheguei lá munida de 3 revistas novas, crente que iria ler à beça, mas depois de uma picada em cada braço, um soro pendurado de um lado, a máquina tirando sangue de outro, mais um aparelho de pressão, só li mesmo o rótulo da caixinha do suco.
Eu já tinha tentado doar sangue quando morava no Brasil, mas estava sempre abaixo do peso mínimo, então nunca consegui. Como a doação agora é para mim mesma, minha magreza não interessa, porque a quantidade de sangue doado é proporcional ao meu peso. A retirada do sangue em si foi totalmente indolor e super rápida (6 minutos), mas depois que acabou, cadê energia para sequer levantar o braço ? Eu, que apesar de ter pressão baixa, nunca desmaio e não fico tonta, experimentei a sensação de ser um fantasma por longos quarenta minutos. Depois foi melhorando, passei ao estágio de alma penada e conseguia até falar normalmente, mas não tinha forças para assombrar ninguém.
Quando o Santo Marido (que, por sinal, tem um sangue meio raro, vive doando para o banco de sangue central e nunca me disse que se sentia fraco depois da doação) chegou para me buscar, já decretou: "Nossa, sua aparência está péssima !" E a enfermeira: "Está bem melhor agora, você não viu quando ela passou mal". E ela sugeriu que ele me levasse para comer um almoço enorme, mas eu, depois de tantos dias de repouso e doida para sair de casa, quem diria, tive que falar: "Não, só me leva para casa que eu quero voltar para a cama".
13 maio, 2006
Going Nuts
O Santo Marido chega em casa, na hora do almoço, para trazer a comida da Esposa de Repouso. Entra primeiro no quarto, onde encontra a televisão ligada, mas ninguém na cama. Depois passa pela sala, onde vê outra televisão ligada (em outro canal, claro), mas ninguém no sofá. Vai ao escritório, onde se depara com o computador ligado, mas ninguém em frente dele. E pergunta, quando finalmente a acha no chuveiro:
- Duas televisões mais o computador ligado e você está aqui ?
- Pois é, tentando de tudo para não ficar mais doida do que sempre fui.
Paciência nunca foi uma das minhas maiores virtudes, aliás, como disse um velho amigo que aparentemente me conhece bem, eu sou "patiently challenged" e, depois de uma semana de molho em casa, posso afirmar que é possível perder até o que nunca se teve.
Quem diria que eu iria ficar escrevendo informações no blog ? Os Titãs podem responder por mim: "tédio: esse é o meu drama". Para alguém ativa como eu, ter que ficar de cama é tão alienante que já estou comemorando o fato de poder passar a manhã inteira no hospital segunda-feira próxima, doando sangue (é uma doação autóloga, ou seja, para mim mesma, caso precise de transfusão pós-parto devido a certos fatores de risco que tenho - e eu poderia ter uma gravidez totalmente desprovida de emoções ?). A esta altura do campeonato de ociosidade, qualquer motivo para sair de casa é comemorado, mesmo que seja para encontrar o Drácula. E ainda vou cantando "mais louco é quem me diz e não é feliz, não é feliz".
- Duas televisões mais o computador ligado e você está aqui ?
- Pois é, tentando de tudo para não ficar mais doida do que sempre fui.
Paciência nunca foi uma das minhas maiores virtudes, aliás, como disse um velho amigo que aparentemente me conhece bem, eu sou "patiently challenged" e, depois de uma semana de molho em casa, posso afirmar que é possível perder até o que nunca se teve.
Quem diria que eu iria ficar escrevendo informações no blog ? Os Titãs podem responder por mim: "tédio: esse é o meu drama". Para alguém ativa como eu, ter que ficar de cama é tão alienante que já estou comemorando o fato de poder passar a manhã inteira no hospital segunda-feira próxima, doando sangue (é uma doação autóloga, ou seja, para mim mesma, caso precise de transfusão pós-parto devido a certos fatores de risco que tenho - e eu poderia ter uma gravidez totalmente desprovida de emoções ?). A esta altura do campeonato de ociosidade, qualquer motivo para sair de casa é comemorado, mesmo que seja para encontrar o Drácula. E ainda vou cantando "mais louco é quem me diz e não é feliz, não é feliz".
08 maio, 2006
De Molho
Hoje é meu quinto dia de repouso em casa, na tentativa de segurar este menino impaciente dentro da barriga. Amanhã completamos 34 semanas e, em tese, os pulmões estariam maduros, mas o reflexo de sucção pode não estar presente até 36 semanas. Eu mesma não estou com pressa de ele nascer, até porque adoro estar grávida e, entre uma contração e outra, sinto-me muito bem. Enfim, sou uma pessoa disciplinada acima de tudo e, se a ordem é ficar de molho, assim estou. Então, haja livros, revistas, bordados e uma infinidade de programas de TV para passar o tempo. No primeiro dia, a gente fica seletiva, fresca mesmo. Depois do terceiro, qualquer coisa 'tá valendo. Só hoje já assisti a dois partos (A Baby's Story), duas brigas entre vizinhos no tribunal de pequenas causas (The People's Court), uma redecoração de sala de jantar (Trading Spaces), um documentário sobre a vida de prostitutas no programa da Oprah e uma mãe maluca agredindo os filhos que me levou às lágrimas no programa do Dr. Phil. Vou voltar a ficar seletiva e parar de assistir qualquer coisa relacionada a abuso contra crianças, que invariavelmente me faz chorar.
Era muito mais fácil ficar de cama no hospital, onde a cada meia hora aparecia uma visitinha e o soro pendurado era um convite a não levantar. O Marido disse que parecia até hotel (não sei em que tipo de hotel ele está acostumado a se hospedar, mas certamente o meu padrão hoteleiro não inclui a mesma comida que servem no hospital - argh !).
É interessante a reação das pessoas. Teve uma noite que um anestesista passou para uma visita social, porque afinal de contas não é todo dia que alguém com quem a gente trabalha está internada no mesmo andar. Quando ele chegou no quarto e o Marido havia saído para comprar o jantar (o meu, que ele comeu feliz da vida a gororoba que tinha vindo para mim), o anestesista me perguntou: "O seu marido está bem ?". Ao que tive que responder: "Considerando que ele não está tendo contrações, ninguém enfiou a mão nele para fazer "toque" e verificar se tinha dilatação, ele não tem hematomas nos braços, não tomou nenhuma agulhada, não tem que fazer repouso e parece gostar do cardápio, acho que ele está muito bem". Cada uma !
Era muito mais fácil ficar de cama no hospital, onde a cada meia hora aparecia uma visitinha e o soro pendurado era um convite a não levantar. O Marido disse que parecia até hotel (não sei em que tipo de hotel ele está acostumado a se hospedar, mas certamente o meu padrão hoteleiro não inclui a mesma comida que servem no hospital - argh !).
É interessante a reação das pessoas. Teve uma noite que um anestesista passou para uma visita social, porque afinal de contas não é todo dia que alguém com quem a gente trabalha está internada no mesmo andar. Quando ele chegou no quarto e o Marido havia saído para comprar o jantar (o meu, que ele comeu feliz da vida a gororoba que tinha vindo para mim), o anestesista me perguntou: "O seu marido está bem ?". Ao que tive que responder: "Considerando que ele não está tendo contrações, ninguém enfiou a mão nele para fazer "toque" e verificar se tinha dilatação, ele não tem hematomas nos braços, não tomou nenhuma agulhada, não tem que fazer repouso e parece gostar do cardápio, acho que ele está muito bem". Cada uma !
04 maio, 2006
Surpresas e Sustos
As pessoas dizem que, quando um filho nasce, a vida da gente muda completamente. Eu digo que, assim que a gente sabe que um filho está a caminho, a vida já mudou, só falta cair a ficha.
Já faz tempo que meu filho tenta mostrar quem é que manda. Semana passada, estávamos frustrados por termos dirigido por mais de uma hora, até uma cidade perto daqui, para fazer um ultrassom em 3-D e ver a carinha dele. Leva três semanas para conseguir uma vaga e custa 200 dólares ! Só que chegamos lá e ele estava virado para a minha coluna, só deu para ver mesmo os punhos dele dando socos de rebeldia e revolta.
Desde que voltei do Brasil, então com 24 semanas, estou "nesting" (o termo em inglês para a necessidade incontrolável de preparar o ninho, ou seja, a casa para receber o filhote). Comecei a sonhar repetidamente que o neném tinha nascido e estava dormindo numa gaveta, porque não tínhamos onde colocá-lo. Segundo o Marido Descansado, tínhamos ainda muito tempo para pintar o quarto, comprar os móveis e arrumar as coisas do neném. Aliás, quando depois de várias semanas de insistência, ele finalmente trouxe o pintor aqui no Iglu, este virou para mim: "Mas que pressa é essa ? Ouvi dizer que o neném só chega em junho". E eu: "Então ele falou isso para você ? Porque para mim o neném não disse nada, que eu saiba ele pode até resolver nascer semana que vem". Talvez eu estivesse impressionada com todo o mundo me dizendo que pareço "ready to pop at any minute".
Desde então, todo santo final de semana a Slave Driver (capataz de escravos, apelido carinhoso que o Marido me deu) aqui inventa uma lista de tarefas: comprar e montar os móveis, fazer a decoração das paredes (lindas, modéstia à parte), comprar o carrinho, pendurar as cortinas e por aí vai. Já há duas semanas, assim que a cômoda foi miraculosamente montada, lavei e passei todas as roupas do neném. Fui severamente criticada, mas como sempre, segui meu instinto e não os palpites alheios. Sábado passado fizemos as últimas compras: carrinho e cadeira de balanço.
Fui trabalhar na segunda-feira e acabei meu turno às 15:30. Às nove da noite estava de volta ao hospital, do outro lado do mesmo andar onde trabalho, com contrações fortes de 3 em 3 minutos. Graças a Deus, conseguimos reverter e interromper o trabalho de parto, que 33 semanas é muito cedo e os pulmõezinhos podem não estar completamente maduros. Ninguém sabe o que causou as contrações, mas como tenho um mioma bem grande, colocaram a culpa nele. Voltamos para casa hoje, quinta-feira e meus braços roxos confirmam que cada agulhada valeu: o neném ainda está do lado de dentro, pulando mais do que nunca. Mas daqui pra frente é repouso absoluto para mim. Imagina se eu não tivesse deixado tudo pronto ?
Ah ! A vantagem de ser paciente no mesmo lugar onde se trabalha é o tratamento VIP. Conseguimos de graça um ultrassom em 3-D e desta vez vimos bem o rostinho do neném, assim como seu pé (onde mais ?) em cima da testa. Graças à maravilha da tecnologia, pudemos ver quando ele abriu a boca e colocou a língua para fora. Agora eles podem fazer malcriações pré-parto !
Já faz tempo que meu filho tenta mostrar quem é que manda. Semana passada, estávamos frustrados por termos dirigido por mais de uma hora, até uma cidade perto daqui, para fazer um ultrassom em 3-D e ver a carinha dele. Leva três semanas para conseguir uma vaga e custa 200 dólares ! Só que chegamos lá e ele estava virado para a minha coluna, só deu para ver mesmo os punhos dele dando socos de rebeldia e revolta.
Desde que voltei do Brasil, então com 24 semanas, estou "nesting" (o termo em inglês para a necessidade incontrolável de preparar o ninho, ou seja, a casa para receber o filhote). Comecei a sonhar repetidamente que o neném tinha nascido e estava dormindo numa gaveta, porque não tínhamos onde colocá-lo. Segundo o Marido Descansado, tínhamos ainda muito tempo para pintar o quarto, comprar os móveis e arrumar as coisas do neném. Aliás, quando depois de várias semanas de insistência, ele finalmente trouxe o pintor aqui no Iglu, este virou para mim: "Mas que pressa é essa ? Ouvi dizer que o neném só chega em junho". E eu: "Então ele falou isso para você ? Porque para mim o neném não disse nada, que eu saiba ele pode até resolver nascer semana que vem". Talvez eu estivesse impressionada com todo o mundo me dizendo que pareço "ready to pop at any minute".
Desde então, todo santo final de semana a Slave Driver (capataz de escravos, apelido carinhoso que o Marido me deu) aqui inventa uma lista de tarefas: comprar e montar os móveis, fazer a decoração das paredes (lindas, modéstia à parte), comprar o carrinho, pendurar as cortinas e por aí vai. Já há duas semanas, assim que a cômoda foi miraculosamente montada, lavei e passei todas as roupas do neném. Fui severamente criticada, mas como sempre, segui meu instinto e não os palpites alheios. Sábado passado fizemos as últimas compras: carrinho e cadeira de balanço.
Fui trabalhar na segunda-feira e acabei meu turno às 15:30. Às nove da noite estava de volta ao hospital, do outro lado do mesmo andar onde trabalho, com contrações fortes de 3 em 3 minutos. Graças a Deus, conseguimos reverter e interromper o trabalho de parto, que 33 semanas é muito cedo e os pulmõezinhos podem não estar completamente maduros. Ninguém sabe o que causou as contrações, mas como tenho um mioma bem grande, colocaram a culpa nele. Voltamos para casa hoje, quinta-feira e meus braços roxos confirmam que cada agulhada valeu: o neném ainda está do lado de dentro, pulando mais do que nunca. Mas daqui pra frente é repouso absoluto para mim. Imagina se eu não tivesse deixado tudo pronto ?
Ah ! A vantagem de ser paciente no mesmo lugar onde se trabalha é o tratamento VIP. Conseguimos de graça um ultrassom em 3-D e desta vez vimos bem o rostinho do neném, assim como seu pé (onde mais ?) em cima da testa. Graças à maravilha da tecnologia, pudemos ver quando ele abriu a boca e colocou a língua para fora. Agora eles podem fazer malcriações pré-parto !
24 abril, 2006
Are you ready to pop any minute ?
A não ser que você seja uma celebridade, nunca será tão abordada por estranhos em qualquer lugar como quando estiver grávida. Se você for uma celebridade grávida, melhor passar os últimos quatro meses da gravidez em órbita. Até que as pessoas aqui não são de passar a mão na barriga da gestante a toda hora, mas as perguntas e os palpites são inevitáveis.
Como a minha barriga está realmente maior e mais baixa do que a média, diariamente pelo menos três pessoas fazem a mesma pergunta:
"Are you ready to pop any minute ?" (algo como "você está pronta para pipocar a qualquer minuto ?"). Esta é básica. Pior mesmo aconteceu no supermercado: eu lá carregando oitocentas sacolas, mais sombrinha, casaco e meus apetrechos de friorenta no inverno e deveria estar com uma cara de cansada no final do dia, quando ouvi uma voz gritando: "Hey Mama !". Virei na hora, porque já faz tempo que ninguém me chama pelo meu nome, mas achei que fosse algum conhecido do hospital. Qual foi a minha surpresa ao deparar com a moça atrás do balcão, distribuindo não-sei-o-quê de amostra grátis: "When is THAT coming out ?" (quando é que ISSO vai sair ?). Ai, que raiva !
Estou pensando seriamente em imprimir uma camiseta com as respostas:
1. Não deve pipocar agora, só em junho.
2. Tenho certeza de que é um só.
3. É o meu primeiro.
4. Acertou, é um menino mesmo (ninguém erra, incrível !).
5. Ainda não decidimos o nome.
Domingo, no final da missa, uma senhora me seguiu e perguntou se eu já estava nos últimos dias (eram nove da manhã, ela foi a primeira das três pessoas do dia) e eu falei que ainda faltavam dois meses. Aí ela passou para as próximas perguntas, mas parou na terceira e começou: "Eu tive cinco filhos. Nesta etapa final, você tem que fazer seis pequenas refeições por dia, para ter muita energia sem ganhar tanto peso, por causa das estrias." Respondi imediatamente (não sei fazer cara de paisagem e agradecer), mesmo sem entender a relação com as estrias: "Não tenho estrias na barriga. Aliás, sou uma grávida de livro: não tenho falta de ar, nem azia, nunca tive enjôo, não sinto calor, trabalho o dia inteiro em pé e não estou inchada nem nos pés. Sinto-me ótima." Aí ela fez uma cara de espanto e uma outra que vinha atrás e pegou o bonde andando, mas quis sentar na janelinha: "Nossa, que sorte, estou com inveja. Eu tive tudo isso quando estava grávida."
A verdade é que é melhor que eu não pipoque mesmo a qualquer hora, porque é uma delícia sentir os movimentos, os soluços do neném (já teve uma que me disse que não são soluços, mas o coração, como se este batesse bem devagar e só de vez em quando) e, por mais que alguns palpites sejam irritantes, a intenção das pessoas é geralmente boa. Como eu já disse, o mundo fica melhor quando se carrega uma barriga grande recheada com bebês (e não com pura gordura).
Como a minha barriga está realmente maior e mais baixa do que a média, diariamente pelo menos três pessoas fazem a mesma pergunta:
"Are you ready to pop any minute ?" (algo como "você está pronta para pipocar a qualquer minuto ?"). Esta é básica. Pior mesmo aconteceu no supermercado: eu lá carregando oitocentas sacolas, mais sombrinha, casaco e meus apetrechos de friorenta no inverno e deveria estar com uma cara de cansada no final do dia, quando ouvi uma voz gritando: "Hey Mama !". Virei na hora, porque já faz tempo que ninguém me chama pelo meu nome, mas achei que fosse algum conhecido do hospital. Qual foi a minha surpresa ao deparar com a moça atrás do balcão, distribuindo não-sei-o-quê de amostra grátis: "When is THAT coming out ?" (quando é que ISSO vai sair ?). Ai, que raiva !
Estou pensando seriamente em imprimir uma camiseta com as respostas:
1. Não deve pipocar agora, só em junho.
2. Tenho certeza de que é um só.
3. É o meu primeiro.
4. Acertou, é um menino mesmo (ninguém erra, incrível !).
5. Ainda não decidimos o nome.
Domingo, no final da missa, uma senhora me seguiu e perguntou se eu já estava nos últimos dias (eram nove da manhã, ela foi a primeira das três pessoas do dia) e eu falei que ainda faltavam dois meses. Aí ela passou para as próximas perguntas, mas parou na terceira e começou: "Eu tive cinco filhos. Nesta etapa final, você tem que fazer seis pequenas refeições por dia, para ter muita energia sem ganhar tanto peso, por causa das estrias." Respondi imediatamente (não sei fazer cara de paisagem e agradecer), mesmo sem entender a relação com as estrias: "Não tenho estrias na barriga. Aliás, sou uma grávida de livro: não tenho falta de ar, nem azia, nunca tive enjôo, não sinto calor, trabalho o dia inteiro em pé e não estou inchada nem nos pés. Sinto-me ótima." Aí ela fez uma cara de espanto e uma outra que vinha atrás e pegou o bonde andando, mas quis sentar na janelinha: "Nossa, que sorte, estou com inveja. Eu tive tudo isso quando estava grávida."
A verdade é que é melhor que eu não pipoque mesmo a qualquer hora, porque é uma delícia sentir os movimentos, os soluços do neném (já teve uma que me disse que não são soluços, mas o coração, como se este batesse bem devagar e só de vez em quando) e, por mais que alguns palpites sejam irritantes, a intenção das pessoas é geralmente boa. Como eu já disse, o mundo fica melhor quando se carrega uma barriga grande recheada com bebês (e não com pura gordura).
13 abril, 2006
O Guarda-Roupa da Reta Final
"Pois esta vida não está sopa
E eu pergunto com que roupa, com que roupa eu vou
Ao samba que você me convidou ?"
(Noel Rosa)
Quando você chega na reta final da gravidez, constata que o seu guarda-roupa nunca esteve tão cheio. É verdade, apesar de ultimamente usar sempre as mesmas roupas, o seu armário está lotado. Em primeiro lugar, você está "nesting" (há uma expressão para quase tudo em inglês), arrumando a casa para a chegada do novo hóspede, cuja visita deve durar pelo menos duas décadas e vive tentando organizar as coisas, inclusive o seu armário. Aí você descobre que há roupas de verão que não serão usadas este ano, porque a sua cintura não será a mesma quando o suposto "calor" chegar a esta parte do globo. Há roupas de invernos anteriores que não cabem agora (sim, você é tropical e usa roupas de inverno na primavera, porque o calor que acomete as grávidas está na categoria de enjôos e azia - foram descritos e previstos para você, mas nunca se concretizaram) e roupas de festa que proporcionalmente à sua atual "cintura" são equivalentes a roupas da Barbie - sem chance de irem além do seu dedão do pé. Como você não agüentou o longo e tenebroso inverno ártico e viajou para o País do Carnaval durante o próprio, tem um bando de vestidos largos e batas de verão que, apesar de lindos e confortáveis, são um convite a morrer de hipotermia na primavera canadense. Ah ! Na sua ânsia de pôr ordem no caos, você separa todas as camisas e blusas abertas na frente, que serão seus uniformes de amamentação. Aí sobram, espremidas num canto, todas as roupas da categoria "bate-seca-estica-veste" (aquelas que só saem do seu corpo para serem batidas na máquina, jogadas na secadora, esticadas - passar roupa é coisa de quem tem empregada - e depois recolocadas no corpo): as três calças de gestante, um par de blusas bonitinhas e três blusas de frio que teimam em deixar o final da barriga de fora (quem mandou acreditar que grávida passa calor e achar que até a barriga ficar enorme não precisaria mais de agasalhos ?).
Os sutiãs são um capítulo à parte. Teriam aqueles maravilhosos, de cores vibrantes, com rendas e armações de arame algum dia num passado remoto cabido em você ? Há meses você convive com uns beges horrorosos, que apesar de gigantescos quando você os experimentou na loja, estão sempre apertadíssimos no final de cada mês e você já os tem em quase todas as numerações e modelos possíveis: abertos na frente, abertos por cima... um mais feio que o outro.
Quando pensa em reclamar que não tem mais espaço no guarda-roupa e que mesmo assim não tem como variar muito, você dá graças a Deus por trabalhar de pijama-uniforme todo santo dia, com aquele corte especialmente feito para a sua atual cintura de quibe, escondendo qualquer camiseta curta que você use por baixo. E se alguém no vestiário perceber que seu umbigo está de fora ? Cai na real, você não tem mais umbigo faz tempo !
E eu pergunto com que roupa, com que roupa eu vou
Ao samba que você me convidou ?"
(Noel Rosa)
Quando você chega na reta final da gravidez, constata que o seu guarda-roupa nunca esteve tão cheio. É verdade, apesar de ultimamente usar sempre as mesmas roupas, o seu armário está lotado. Em primeiro lugar, você está "nesting" (há uma expressão para quase tudo em inglês), arrumando a casa para a chegada do novo hóspede, cuja visita deve durar pelo menos duas décadas e vive tentando organizar as coisas, inclusive o seu armário. Aí você descobre que há roupas de verão que não serão usadas este ano, porque a sua cintura não será a mesma quando o suposto "calor" chegar a esta parte do globo. Há roupas de invernos anteriores que não cabem agora (sim, você é tropical e usa roupas de inverno na primavera, porque o calor que acomete as grávidas está na categoria de enjôos e azia - foram descritos e previstos para você, mas nunca se concretizaram) e roupas de festa que proporcionalmente à sua atual "cintura" são equivalentes a roupas da Barbie - sem chance de irem além do seu dedão do pé. Como você não agüentou o longo e tenebroso inverno ártico e viajou para o País do Carnaval durante o próprio, tem um bando de vestidos largos e batas de verão que, apesar de lindos e confortáveis, são um convite a morrer de hipotermia na primavera canadense. Ah ! Na sua ânsia de pôr ordem no caos, você separa todas as camisas e blusas abertas na frente, que serão seus uniformes de amamentação. Aí sobram, espremidas num canto, todas as roupas da categoria "bate-seca-estica-veste" (aquelas que só saem do seu corpo para serem batidas na máquina, jogadas na secadora, esticadas - passar roupa é coisa de quem tem empregada - e depois recolocadas no corpo): as três calças de gestante, um par de blusas bonitinhas e três blusas de frio que teimam em deixar o final da barriga de fora (quem mandou acreditar que grávida passa calor e achar que até a barriga ficar enorme não precisaria mais de agasalhos ?).
Os sutiãs são um capítulo à parte. Teriam aqueles maravilhosos, de cores vibrantes, com rendas e armações de arame algum dia num passado remoto cabido em você ? Há meses você convive com uns beges horrorosos, que apesar de gigantescos quando você os experimentou na loja, estão sempre apertadíssimos no final de cada mês e você já os tem em quase todas as numerações e modelos possíveis: abertos na frente, abertos por cima... um mais feio que o outro.
Quando pensa em reclamar que não tem mais espaço no guarda-roupa e que mesmo assim não tem como variar muito, você dá graças a Deus por trabalhar de pijama-uniforme todo santo dia, com aquele corte especialmente feito para a sua atual cintura de quibe, escondendo qualquer camiseta curta que você use por baixo. E se alguém no vestiário perceber que seu umbigo está de fora ? Cai na real, você não tem mais umbigo faz tempo !
01 abril, 2006
Perda de Identidade
Desde criança, escuto meu pai dizer que, depois que nos tornamos pais, perdemos nossa identidade. Não somos mais o Fulano, mas o Pai do Fulaninho. Aliás, depois que ele virou avô, quando ia buscar o neto na escola, ouvia um coleguinha de classe chamá-lo de "Vô do Léo", quando meu sobrinho estava longe e "Vô Dele", quando estavam lado a lado.
Lembro também de uma ocasião em que fui buscar o filho de uma amiga na casa de outra pessoa e disse a ele, na porta: "Fala tchau pra tia", que era a mãe do amiguinho dele. Na mesma hora, o garotinho me disse: "Ela não é Tia. O nome dela é Minha Mãe" !
Enfim, não me surpreende que as crianças falem dessa forma. O que tem me impressionado diariamente é que, desde que minha barriga começou ficar óbvia, a quantidade de pessoas do trabalho que não me chamam mais pelo meu nome aumenta a cada dia. É um tal de "Mama" para cá e para lá. Vê se eu tenho idade para ser mãe de marmanjo, ainda mais gente que tem filho da minha idade ! Ontem mesmo um gordinho virou-se para mim na lanchonete do hospital: "Hello Big Mama !". É verdade que não sou mais a magrinha de outrora, mas Big Mama ! Pegou pesado...
Lembro também de uma ocasião em que fui buscar o filho de uma amiga na casa de outra pessoa e disse a ele, na porta: "Fala tchau pra tia", que era a mãe do amiguinho dele. Na mesma hora, o garotinho me disse: "Ela não é Tia. O nome dela é Minha Mãe" !
Enfim, não me surpreende que as crianças falem dessa forma. O que tem me impressionado diariamente é que, desde que minha barriga começou ficar óbvia, a quantidade de pessoas do trabalho que não me chamam mais pelo meu nome aumenta a cada dia. É um tal de "Mama" para cá e para lá. Vê se eu tenho idade para ser mãe de marmanjo, ainda mais gente que tem filho da minha idade ! Ontem mesmo um gordinho virou-se para mim na lanchonete do hospital: "Hello Big Mama !". É verdade que não sou mais a magrinha de outrora, mas Big Mama ! Pegou pesado...
28 março, 2006
Minha Barriga e os Outros
Quando a gente está grávida no Brasil, não precisa ficar em fila. Em nenhuma fila. Enquanto estive de férias na terrinha, tive que renovar a carteira de motorista e realizei o sonho de furar uma das filas mais lentas de todas: a do DETRAN. Já que a barriga não vai ser eterna (sim, porque vou perder tudinho o que ganhei nesta gravidez), aproveitei e renovei o passaporte , paguei a multa por não ter votado nas últimas eleições (não tem Consulado do Brasil aqui em Vancouver), furando filas em bancos, no TRE, na Polícia Federal e em todos os aeroportos e pontos de táxi (quem acha que não tem fila em ponto de táxi, experimente tentar pegar um no Sambódromo, em plena chuva - quem vê a quantidade de gente pensa até que é fila para distribuição gratuita de automóveis). É, mais isso é coisa de país civilizado. Aqui no Canadá não tem dessas mordomias não.
O comportamento das pessoas em relação às grávidas até que não varia muito do Brasil para cá. Geralmente ficam mais atenciosas, fazem mais perguntas sobre sua saúde, algumas fazem um pouco de terrorismo: "nossa, mas você vai morrer de calor quando chegar o verão", "espera só os enjôos começarem", "nunca mais você vai conseguir dormir direito" e tantas outras coisas tão agradáveis ! Um cirurgião cuja esposa passou mal à beça na gravidez todos os dias me pergunta "mas você AINDA está se sentindo bem ?", como se estivesse prevendo meu colapso a qualquer momento. Alguns comportamentos são universais...
Como a licença-maternidade aqui é de um ano (sim, mas guardem os fogos de artifício, porque não é um ano com salário integral), muitas mulheres optam por parar de trabalhar no sétimo ou oitavo mês de gestação, principalmente as que trabalham em pé. Então a pergunta campeã de audiência é: "até que dia você vai trabalhar ?" ou "quando é seu último dia de trabalho ?". Quando eu respondo que, se tudo continuar como está, pretendo parar na véspera, a expressão é de choque. E olha que nem sabem que continuo caminhando de casa para o hospital, só demoro um pouco mais para chegar.
O melhor comentário que ouvi até agora, sem dúvida, foi quanto à roupa que uso para trabalhar. No centro cirúrgico, todos usamos "scrubs", aquele pijama verde capaz de deixar até a Morena do Tchan parecendo uma tábua. Para facilitar na hora de encontrar o tamanho "ideal", a numeração vem escrita no bolso, do lado de fora. Estou lá eu na pia, escovando minhas mãos e braços antes de começar a cirurgia, quando passa uma colega (só uma mulher repararia e faria um comentário desses):
- Nossa, com uma barriga deste tamanho você ainda cabe numa calça tamanho pequeno !
Hoje, uma outra colega grávida de 2 meses (que já era gordinha e sempre usou tamanho grande) pediu que eu parasse de usar calças do tamanho pequeno, porque ela está ficando deprimida por minha causa. Para quem aumentou 4 tamanhos no sutiã, o que é passar de "P" para "M" ?
O comportamento das pessoas em relação às grávidas até que não varia muito do Brasil para cá. Geralmente ficam mais atenciosas, fazem mais perguntas sobre sua saúde, algumas fazem um pouco de terrorismo: "nossa, mas você vai morrer de calor quando chegar o verão", "espera só os enjôos começarem", "nunca mais você vai conseguir dormir direito" e tantas outras coisas tão agradáveis ! Um cirurgião cuja esposa passou mal à beça na gravidez todos os dias me pergunta "mas você AINDA está se sentindo bem ?", como se estivesse prevendo meu colapso a qualquer momento. Alguns comportamentos são universais...
Como a licença-maternidade aqui é de um ano (sim, mas guardem os fogos de artifício, porque não é um ano com salário integral), muitas mulheres optam por parar de trabalhar no sétimo ou oitavo mês de gestação, principalmente as que trabalham em pé. Então a pergunta campeã de audiência é: "até que dia você vai trabalhar ?" ou "quando é seu último dia de trabalho ?". Quando eu respondo que, se tudo continuar como está, pretendo parar na véspera, a expressão é de choque. E olha que nem sabem que continuo caminhando de casa para o hospital, só demoro um pouco mais para chegar.
O melhor comentário que ouvi até agora, sem dúvida, foi quanto à roupa que uso para trabalhar. No centro cirúrgico, todos usamos "scrubs", aquele pijama verde capaz de deixar até a Morena do Tchan parecendo uma tábua. Para facilitar na hora de encontrar o tamanho "ideal", a numeração vem escrita no bolso, do lado de fora. Estou lá eu na pia, escovando minhas mãos e braços antes de começar a cirurgia, quando passa uma colega (só uma mulher repararia e faria um comentário desses):
- Nossa, com uma barriga deste tamanho você ainda cabe numa calça tamanho pequeno !
Hoje, uma outra colega grávida de 2 meses (que já era gordinha e sempre usou tamanho grande) pediu que eu parasse de usar calças do tamanho pequeno, porque ela está ficando deprimida por minha causa. Para quem aumentou 4 tamanhos no sutiã, o que é passar de "P" para "M" ?
24 março, 2006
Descobertas da Gravidez
Com dois meses descobri que já não dava mais para dormir de bruços (ninguém que teve os seios pisoteados diariamente por uma manada de elefantes consegue) e achei que fosse a natureza me preparando para dormir de lado quando a barriga estivesse grande.
Com três meses descobri que é preciso comprar um sutiã maior a cada mês, mas para quem continua magrinha nas costas, não vai existir nenhum que caiba perfeitamente. Passei a admirar quem fez implante nos seios, porque passar de tamanho S(pequeno) para XL (extra grande) coloca literalmente um peso nas costas !
Com quatro meses e meio descobri que não adianta ler nos livros que a sensação de um bebê mexendo no útero é igual a "uma borboleta batendo as asas", "uma bolha estourando na barriga", "um peixinho nadando na sua mão", porque na primeira vez que a gente sente o neném mexendo, dá para saber sem dúvida do que se trata. Uma sensação maravilhosa. Você torce para que ele se mexa mais vezes e pensa "por que só mexe de vez em quando ?". Não consegue conter o sorriso cada vez que acontece.
Com cinco meses descobri que, assim que a barriga começa a ficar muito óbvia, até as pessoas antipáticas tornam-se amigáveis e prestativas. Gente que nunca sorriu para você no trabalho pergunta como você tem passado. De repente, todos se interessam pelas suas costas, seu cansaço, suas dores nas pernas, até pelos enjôos que você nunca teve ! Você se sente ótima e linda, mas tem vontade de inventar uma reclamação qualquer para não aborrecer a Ex-Intragável Colega. O mundo fica melhor quando se carrega uma barriga grande (desde que ela esteja recheada com bebês e não com gordura pura).
Com seis meses descobri que não adianta nada aprender a dormir de lado no começo da gravidez, porque com a barriga imensa, não dá para dormir em posição alguma. Também descobri que o neném chuta, soca, vira e se remexe, a sensação é de uma luta de boxe na barriga - e você está só apanhando. Lá pelas tantas, você implora: "Meu Filho, fica quietinho um pouco para eu tentar dormir" e pensa "mas ele não vai sossegar nem depois que nascer ?". Será a natureza me preparando para as várias noites em claro que me aguardam ?
Com sete meses descobri que o Marido ronca toda noite, a noite toda. "Mas você não sabia disso antes ?" Não, antes eu dormia a noite toda.
Com três meses descobri que é preciso comprar um sutiã maior a cada mês, mas para quem continua magrinha nas costas, não vai existir nenhum que caiba perfeitamente. Passei a admirar quem fez implante nos seios, porque passar de tamanho S(pequeno) para XL (extra grande) coloca literalmente um peso nas costas !
Com quatro meses e meio descobri que não adianta ler nos livros que a sensação de um bebê mexendo no útero é igual a "uma borboleta batendo as asas", "uma bolha estourando na barriga", "um peixinho nadando na sua mão", porque na primeira vez que a gente sente o neném mexendo, dá para saber sem dúvida do que se trata. Uma sensação maravilhosa. Você torce para que ele se mexa mais vezes e pensa "por que só mexe de vez em quando ?". Não consegue conter o sorriso cada vez que acontece.
Com cinco meses descobri que, assim que a barriga começa a ficar muito óbvia, até as pessoas antipáticas tornam-se amigáveis e prestativas. Gente que nunca sorriu para você no trabalho pergunta como você tem passado. De repente, todos se interessam pelas suas costas, seu cansaço, suas dores nas pernas, até pelos enjôos que você nunca teve ! Você se sente ótima e linda, mas tem vontade de inventar uma reclamação qualquer para não aborrecer a Ex-Intragável Colega. O mundo fica melhor quando se carrega uma barriga grande (desde que ela esteja recheada com bebês e não com gordura pura).
Com seis meses descobri que não adianta nada aprender a dormir de lado no começo da gravidez, porque com a barriga imensa, não dá para dormir em posição alguma. Também descobri que o neném chuta, soca, vira e se remexe, a sensação é de uma luta de boxe na barriga - e você está só apanhando. Lá pelas tantas, você implora: "Meu Filho, fica quietinho um pouco para eu tentar dormir" e pensa "mas ele não vai sossegar nem depois que nascer ?". Será a natureza me preparando para as várias noites em claro que me aguardam ?
Com sete meses descobri que o Marido ronca toda noite, a noite toda. "Mas você não sabia disso antes ?" Não, antes eu dormia a noite toda.
14 março, 2006
Qual é o nome mesmo ?
Vários amigos confessaram que, enquanto não haviam decidido o nome do seu futuro rebento, ficavam irritados quando as pessoas perguntavam qual seria o nome do neném. Esses mesmos amigos avisaram que essa seria a decisão mais difícil de todas. Eu, que nunca fui uma pessoa "wishy-washy" (indecisa, na gíria local), achei facílimo, já escolhi o nome do meu filho desde o dia em que confirmamos ser um menino. Difícil e demorado está sendo convencer o Indeciso Pai da Criança, já que não há uma fartura de nomes masculinos universais, escritos e pronunciados da mesma forma em diferentes idiomas. Essa pergunta é mais freqüente no Brasil do que aqui, onde cerca de metade dos casais optam por não saber o sexo da criança antes do parto e muita gente acredita que dá azar escolher o nome de alguém que ainda não nasceu. Interessante é que essa pergunta em particular não me irrita. Quando as pessoas decidem dar palpites e sugestões de nomes, aí confesso que não morro de amores. Pior ainda quando pensam que vim de outro planeta.
Ontem, num raro momento ocioso no centro cirúrgico, enquanto tinha a mesma conversa sobre o nome do neném com uma colega filipina, ela me conta que seu cunhado chama-se Jesus (pronunciado como os hispânicos dizem: "Ressuz"), mas que desde que se mudou para o Canadá, ele atende por Jesse, porque aqui eles pronunciariam "Dísus" e seria muito estranho. Aí ela se vira para mim:
- Jesus, como na Bíblia, você conhece ?
Ontem, num raro momento ocioso no centro cirúrgico, enquanto tinha a mesma conversa sobre o nome do neném com uma colega filipina, ela me conta que seu cunhado chama-se Jesus (pronunciado como os hispânicos dizem: "Ressuz"), mas que desde que se mudou para o Canadá, ele atende por Jesse, porque aqui eles pronunciariam "Dísus" e seria muito estranho. Aí ela se vira para mim:
- Jesus, como na Bíblia, você conhece ?
11 janeiro, 2006
Presente
Hoje é meu aniversário. Lembrei de quando eu era criança e juntava-me com minha melhor amiga de infância (que também faz aniversário hoje - parabéns, Mônica) para juntas ficarmos nos lamentando do quanto era ruim fazer aniversário em pleno janeiro. Perto das festas de final do ano, no meio das férias escolares, nunca pudemos fazer festinha na escola nem convidar ninguém para uma festa em casa, já que Brasília fica deserta nesta época do ano (ou pelo menos era o que pensávamos, antes de termos que passar o mês de janeiro estudando para compensar greve da UnB e ainda não tínhamos que trabalhar). Agora vejo que éramos felizes e não sabíamos. Em primeiro lugar, estávamos muito distantes da casa dos 30 e, em segundo lugar, passávamos nosso aniversário no verão. Atualmente, além de já termos dobrado o Cabo da Boa Esperança, "comemoramos" 11 de janeiro num frio de lascar. Ela, pior ainda do que eu, em Montréal.
Enfim, além dos vários telefonemas, e-mails e das muitas mensagens no Orkut, fora as surpresas do Marido Que Esqueceu Meu Aniversário Uma Vez Há Alguns Anos e Nunca Mais, o melhor presente foi ir ao obstetra e ver o nenenzinho pelo ultrassom chupando o dedo e esticando as pernas, alheio ao aumento da idade de sua mãe. Sem dúvida, Papai do Céu caprichou no presente.
Enfim, além dos vários telefonemas, e-mails e das muitas mensagens no Orkut, fora as surpresas do Marido Que Esqueceu Meu Aniversário Uma Vez Há Alguns Anos e Nunca Mais, o melhor presente foi ir ao obstetra e ver o nenenzinho pelo ultrassom chupando o dedo e esticando as pernas, alheio ao aumento da idade de sua mãe. Sem dúvida, Papai do Céu caprichou no presente.
21 dezembro, 2005
De volta: As Lições - Quarta Parte
Passado o susto, dá para fazer um balanço das lições aprendidas.
1- Sobre a Medicina Alternativa
Procurar ajuda além dos médicos tradicionais foi a melhor decisão. Ouvi críticas por estar tomando os analgésicos prescritos e por "confiar" num acupunturista, mas como sempre, fiz o que EU achava certo e mandei os palpiteiros atormentarem alguém mais influenciável, já que comigo não funciona.
2- Sobre a solidariedade masculina
Depois de passar uma noite e uma manhã inteiras com dores horríveis, de levar um chá de cadeira do radiologista, de ter que ficar com a bexiga cheia (o que aumentava a dor) para fazer o bendito ultrassom, finalmente entramos na sala de exame. A tetéia do médico vira-se para o Marido Completamente Saudável e diz: "peço desculpas por não ter uma cadeira para VOCÊ se sentar, é que hoje é domingo e não tem ninguém para arrumar a sala". Desculpas a mim, por ter se recusado a fazer o exame quatro horas antes, ele não pediu. Graças a Deus, o Marido Santo e Devidamente Treinado respondeu: "diante do que as mulheres têm que passar, ficar em pé por alguns minutos não é nada".
3- Sobre o repouso absoluto
Como tem porcaria na programação de TV aqui ! Até às 16 horas, toda tarde parece uma tarde de sábado ou domingo no Brasil...
Nada como estar com saúde !
1- Sobre a Medicina Alternativa
Procurar ajuda além dos médicos tradicionais foi a melhor decisão. Ouvi críticas por estar tomando os analgésicos prescritos e por "confiar" num acupunturista, mas como sempre, fiz o que EU achava certo e mandei os palpiteiros atormentarem alguém mais influenciável, já que comigo não funciona.
2- Sobre a solidariedade masculina
Depois de passar uma noite e uma manhã inteiras com dores horríveis, de levar um chá de cadeira do radiologista, de ter que ficar com a bexiga cheia (o que aumentava a dor) para fazer o bendito ultrassom, finalmente entramos na sala de exame. A tetéia do médico vira-se para o Marido Completamente Saudável e diz: "peço desculpas por não ter uma cadeira para VOCÊ se sentar, é que hoje é domingo e não tem ninguém para arrumar a sala". Desculpas a mim, por ter se recusado a fazer o exame quatro horas antes, ele não pediu. Graças a Deus, o Marido Santo e Devidamente Treinado respondeu: "diante do que as mulheres têm que passar, ficar em pé por alguns minutos não é nada".
3- Sobre o repouso absoluto
Como tem porcaria na programação de TV aqui ! Até às 16 horas, toda tarde parece uma tarde de sábado ou domingo no Brasil...
Nada como estar com saúde !
19 dezembro, 2005
De volta: Os Anjos e As Agulhas - Terceira Parte
Na segunda-feira, passei o dia inteiro na cama, não por recomendações médicas, mas porque a dor intensa me impossibilitava de caminhar. Na terça-feira, já não agüentava mais, parecia que a dor piorava a cada dia. Liguei para minha médica de família para tentar marcar uma consulta com o ginecologista (aqui a gente não tem a liberdade de ligar para um especialista e marcar nada, tudo é feito através do médico de família) e tive a agradável notícia de que minha consulta já estava agendada para o dia 9 de fevereiro. Quem mandou passar mal antes do dia propício ? Além de tudo, a médica estava de férias, mas havia uma substituta.
A secretária da substituta ouviu meu caso e anotou meu telefone. Cinco minutos depois, a própria médica (um anjo) me ligou e pediu que eu fosse ao consultório imediatamente. Levamos cerca de uma hora para conseguir sair de casa, eu mal podia me mexer. Chegando lá, a eficiência foi uma surpresa. Ela explicou que eu tinha que ficar de cama e só levantar para ir ao banheiro, ainda deu um pito no Marido Engraçadinho que fez piada "exceto para cozinhar para mim". Foi-me dada uma prescrição de Tylenol #3 (Tylenol com codeína) e já havia um ultrassom agendado para mim dali a duas horas. E o retorno já estava marcado para quinta-feira !
O ultrassom mostrou novamente que o bebê estava vivo, dormindo (literalmente nos braços de Morfeu, com tanta codeína no sangue), mas não dava para ver degeneração do mioma. A técnica fez o exame em menos de 5 minutos, sem responder pergunta alguma e sem esconder a pressa de esvaziar a sala de espera repleta de barrigudas (todas orientais, exceto eu). Parecia uma cena do filme "Tempos Modernos" na versão chinesa, nada que lembrasse uma clínica de exames em seres humanos.
Depois de dois dias tomando analgésico potente a cada 4 horas, concluí que não haveria droga disponível que sequer diminuísse a dor. A única que adiantou alguma coisa no hospital era uma medicação contra-indicada em casos de sangramento. Além de tudo, tantos comprimidos acabaram com meu apetite.
Pedi indicação de um acupunturista a pessoas conhecidas e, na quinta-feira, lá estava eu, entre cogumelos secos e diplomas escritos em caracteres chineses. Achei que a comunicação entre mim e o médico chinês seria impossível, porque eu procurava inutilmente por legendas a cada vez que ele abria a boca e olhava para o Marido Gringo, na esperança de que ele traduzisse. Como eu explicaria meu caso ? Ele disse que eu não precisaria mais tomar analgésico durante o dia, só para dormir (será que ele sabia a intensidade da dor para afirmar isso ?) e que não prometia eliminar toda a dor numa única sessão, mas que a melhora seria notável. Espetou umas agulhas nas minhas pernas e nos pés e saiu da sala, mas depois de uns 10 minutos achei que fosse desmaiar de dor. Ele voltou, retirou as agulhas e me virou de lado. Parecia que eu tinha tomado uma raqui, vinda do Céu, aplicada por um anjo. Num segundo, toda a dor passou, pela primeira vez em 6 dias. Quase dormi enquanto ele massageava as minhas costas.
Quando acabou a sessão, levantei da cama e, segundo o Marido Boquiaberto, voltei a caminhar erguida, já não me curvava de dor. Conforme a previsão, não tomei mais sequer um comprimido de dia, só para dormir. Depois da segunda sessão, não precisei tomar nem de noite e o sangramento parou. Depois da terceira sessão, tudo estava de volta ao normal. Ainda fiquei de repouso por mais três dias, conforme a médica tinha dito, até a consulta com o obstetra (houve uma desistência e a secretária encaixou).
Pode acontecer novamente, mas por enquanto, está tudo bem. Já até voltei a trabalhar ! Graças a Deus, aos diversos anjos que apareceram no caminho (um anjo até me ligou da Suíça !) e ao nenenzinho, que já decidiu vencer os obstáculos à sua chegada. E, se tudo sair como previsto, chegada em plena Copa do Mundo !
A secretária da substituta ouviu meu caso e anotou meu telefone. Cinco minutos depois, a própria médica (um anjo) me ligou e pediu que eu fosse ao consultório imediatamente. Levamos cerca de uma hora para conseguir sair de casa, eu mal podia me mexer. Chegando lá, a eficiência foi uma surpresa. Ela explicou que eu tinha que ficar de cama e só levantar para ir ao banheiro, ainda deu um pito no Marido Engraçadinho que fez piada "exceto para cozinhar para mim". Foi-me dada uma prescrição de Tylenol #3 (Tylenol com codeína) e já havia um ultrassom agendado para mim dali a duas horas. E o retorno já estava marcado para quinta-feira !
O ultrassom mostrou novamente que o bebê estava vivo, dormindo (literalmente nos braços de Morfeu, com tanta codeína no sangue), mas não dava para ver degeneração do mioma. A técnica fez o exame em menos de 5 minutos, sem responder pergunta alguma e sem esconder a pressa de esvaziar a sala de espera repleta de barrigudas (todas orientais, exceto eu). Parecia uma cena do filme "Tempos Modernos" na versão chinesa, nada que lembrasse uma clínica de exames em seres humanos.
Depois de dois dias tomando analgésico potente a cada 4 horas, concluí que não haveria droga disponível que sequer diminuísse a dor. A única que adiantou alguma coisa no hospital era uma medicação contra-indicada em casos de sangramento. Além de tudo, tantos comprimidos acabaram com meu apetite.
Pedi indicação de um acupunturista a pessoas conhecidas e, na quinta-feira, lá estava eu, entre cogumelos secos e diplomas escritos em caracteres chineses. Achei que a comunicação entre mim e o médico chinês seria impossível, porque eu procurava inutilmente por legendas a cada vez que ele abria a boca e olhava para o Marido Gringo, na esperança de que ele traduzisse. Como eu explicaria meu caso ? Ele disse que eu não precisaria mais tomar analgésico durante o dia, só para dormir (será que ele sabia a intensidade da dor para afirmar isso ?) e que não prometia eliminar toda a dor numa única sessão, mas que a melhora seria notável. Espetou umas agulhas nas minhas pernas e nos pés e saiu da sala, mas depois de uns 10 minutos achei que fosse desmaiar de dor. Ele voltou, retirou as agulhas e me virou de lado. Parecia que eu tinha tomado uma raqui, vinda do Céu, aplicada por um anjo. Num segundo, toda a dor passou, pela primeira vez em 6 dias. Quase dormi enquanto ele massageava as minhas costas.
Quando acabou a sessão, levantei da cama e, segundo o Marido Boquiaberto, voltei a caminhar erguida, já não me curvava de dor. Conforme a previsão, não tomei mais sequer um comprimido de dia, só para dormir. Depois da segunda sessão, não precisei tomar nem de noite e o sangramento parou. Depois da terceira sessão, tudo estava de volta ao normal. Ainda fiquei de repouso por mais três dias, conforme a médica tinha dito, até a consulta com o obstetra (houve uma desistência e a secretária encaixou).
Pode acontecer novamente, mas por enquanto, está tudo bem. Já até voltei a trabalhar ! Graças a Deus, aos diversos anjos que apareceram no caminho (um anjo até me ligou da Suíça !) e ao nenenzinho, que já decidiu vencer os obstáculos à sua chegada. E, se tudo sair como previsto, chegada em plena Copa do Mundo !
18 dezembro, 2005
De volta: O Dia Seguinte - Segunda Parte
No domingo, esperamos em casa que o telefone tocasse, avisando a que horas o ultrassom seria feito, conforme instruções recebidas na véspera. Como não tocava nunca, liguei para o Dept. de Radiologia. A secretária, surpresa com minhas perguntas, avisou que não se faz ultrassom no final de semana. Expliquei a situação atípica, disse que o pedido de urgência já havia sido encaminhado, avisei que estava ainda com sangramento e dores extremas, mas não adiantou. Ela ficou de ligar de volta, nunca ligou. Tentei mais duas vezes, inutilmente. O radiologista estava irredutível.
Como eu já havia previsto e o Marido Gringo sempre discorda, aqui em Vancouver, em termos de serviços, nada se resolve por telefone, só pessoalmente. Fomos ao hospital, diretamente à Radiologia. Eu já estava de cadeira de rodas, não conseguia andar de tanta dor. A recusa por parte do radiologista permanecia, então fomos à Maternidade. Todos do plantão já sabiam do meu caso e foram extremamente solícitos. A residente-chefe foi pessoalmente falar com o radiologista e foi recebida com quatro pedras na mão. Ela pediu ajuda ao obstetra de plantão, que não só seria o meu futuro médico (eu já havia decidido antes), como é o chefe da ginecologia no hospital. Ele é bem alto e fala grosso, então bastou um telefonema dele para que as portas da Radiologia e o sorriso do residente fossem abertos para nós. Claro que colocaram dificuldades, exigiram que eu fosse admitida através da Emergência (burocracia nunca é demais), mas o pessoal da Maternidade quebrou nosso galho e fui admitida por lá. Triste, porque uma pessoa na minha situação, que não trabalhasse no hospital e não conhecesse TODOS os residentes e cirurgiões não conseguiria ser atendida no final de semana. Quem manda não passar mal durante a semana, de preferência no horário comercial ?
Por fim, o ultrassom mostrou que o neném estava bem e, embora eu mal conseguisse me mexer de dor, lá dentro do útero parecia uma festa, braços para cima e pernas se mexendo (seria a coreografia de YMCA ?). O diagnóstico era mesmo o que suspeitávamos: tenho um mioma no fundo do útero, que dobrou de tamanho com os hormônios da gravidez, cresceu além do limite do suprimento sangüíneo e estava se degenerando. Daí a dor intensa, de algo literalmente morrendo dentro do corpo. O sangue não era da placenta, mas do mioma. Esta por sinal, ao invés de estar onde deveria, está em cima do cérvix e, se não crescer para outro lugar até a décima oitava semana, ficarei de cama a partir da vigésima até o final da gestação, com placenta prévia. Nesse caso, uma cesárea é mandatória. Preocupações para depois, que dez dias de repouso absoluto e pelo menos cinco de dor forte estavam me aguardando.
Como eu já havia previsto e o Marido Gringo sempre discorda, aqui em Vancouver, em termos de serviços, nada se resolve por telefone, só pessoalmente. Fomos ao hospital, diretamente à Radiologia. Eu já estava de cadeira de rodas, não conseguia andar de tanta dor. A recusa por parte do radiologista permanecia, então fomos à Maternidade. Todos do plantão já sabiam do meu caso e foram extremamente solícitos. A residente-chefe foi pessoalmente falar com o radiologista e foi recebida com quatro pedras na mão. Ela pediu ajuda ao obstetra de plantão, que não só seria o meu futuro médico (eu já havia decidido antes), como é o chefe da ginecologia no hospital. Ele é bem alto e fala grosso, então bastou um telefonema dele para que as portas da Radiologia e o sorriso do residente fossem abertos para nós. Claro que colocaram dificuldades, exigiram que eu fosse admitida através da Emergência (burocracia nunca é demais), mas o pessoal da Maternidade quebrou nosso galho e fui admitida por lá. Triste, porque uma pessoa na minha situação, que não trabalhasse no hospital e não conhecesse TODOS os residentes e cirurgiões não conseguiria ser atendida no final de semana. Quem manda não passar mal durante a semana, de preferência no horário comercial ?
Por fim, o ultrassom mostrou que o neném estava bem e, embora eu mal conseguisse me mexer de dor, lá dentro do útero parecia uma festa, braços para cima e pernas se mexendo (seria a coreografia de YMCA ?). O diagnóstico era mesmo o que suspeitávamos: tenho um mioma no fundo do útero, que dobrou de tamanho com os hormônios da gravidez, cresceu além do limite do suprimento sangüíneo e estava se degenerando. Daí a dor intensa, de algo literalmente morrendo dentro do corpo. O sangue não era da placenta, mas do mioma. Esta por sinal, ao invés de estar onde deveria, está em cima do cérvix e, se não crescer para outro lugar até a décima oitava semana, ficarei de cama a partir da vigésima até o final da gestação, com placenta prévia. Nesse caso, uma cesárea é mandatória. Preocupações para depois, que dez dias de repouso absoluto e pelo menos cinco de dor forte estavam me aguardando.
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