Não sei no resto do Canadá, mas aqui em Vancouver, mais da metade dos casais canadenses grávidos opta por não saber o sexo do bebê que espera antes do nascimento. Quando o primeiro Pacotinho de Surpresas estava a caminho, no curso de gestantes havia dez casais e somente nós do Iglu sabíamos antecipadamente o sexo do bebê no ventre. Havia um outro casal que queria saber, mas tinha feito o ultrassom antes de vinte semanas e por isso não foi informado. Os outros oito preferiram a surpresa. E, como vejo cesáreas praticamente todo dia e é costume perguntar se a grávida sabe o sexo do neném (quando se tem tempo pra jogar conversa fora e não é cesárea de emergência), minha amostra é bem grande.
Então, por aqui, ninguém questionou o fato de preferirmos a surpresa, mas no Brasil...
Junho/2010
De férias em Fortaleza (ô saudade daquela terra maravilhosa, quero me aposentar por lá), uma total estranha na praia pergunta:
- Você vai ter um menino ou uma menina?
- Eu acho que é menino, mas a gente não sabe.
- No ultrassom não deu pra ver? Por que você não fez outro?
- A gente não quis saber, pediu pra não falarem.
- Mas você não ficou olhando para descobrir?
- Não fiquei não e, mesmo que ficasse, não é sempre óbvio como se pensa.
- O quê? Que absurdo! Do Fulaninho eu vi logo que era menino.
- Pois é, viu porque mostraram e avisaram o que era para ser visto.
- E como você vai comprar as coisas?
- Neném não liga pra que cor de roupa está vestindo. Depois, aos poucos, a gente vai comprando.
- E de que cor vai pintar o quarto?
- Não vou pintar, já está pintado e vai continuar da mesma cor, que o quarto é o mesmo do irmão mais velho.
- Ah, eu acho o fim. Do Fulaninho, eu tinha tudo comprado, o quarto todo azul, no quinto mês.
- Pois é, que bom que as pessoas são diferentes, né?
No sol, na praia, com um coco gelado nas mãos e jogos da Copa no telão, massagem de uma hora por 20 (VINTE) reais, pouca coisa consegue me irritar. Então, achei graça na estranha que sabe o que é melhor para todas as grávidas.
As amigas do Quadradinho (quatro grávidas ao mesmo tempo) também não se conformavam.
- Você é doida!
- Por que? Por que não quero satisfazer a curiosidade de vocês?
- Faz logo outro ultrassom e acaba com esta agonia.
- Que agonia? Eu amo estar grávida, não tem agonia alguma.
- A minha!
- Mas você já sabe que vai ter uma menina.
- Pois é, nem me imagino no seu lugar.
- Não precisa imaginar.
- Mesmo assim fico curiosa, que agonia!
Fico pensando: não fosse o hiato no blog, será que a meia dúzia de leitores também ficaria agoniada?
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14 novembro, 2010
13 novembro, 2010
O Pacotinho de Espera
Quando ficou sabendo que ganharia "um bebezinho" (nunca usamos a expressão "irmão" ou "irmã", não só por não sabermos o sexo do bebê, mas principalmente para não criar a expectativa de um parceiro de brincadeiras, do tamanho dele), o Pacotinho de Espera jamais perguntou como o bebê foi parar na barriga da Mamãe, nem duvidou da sua existência. A barriga já era visível quando ele foi informado, juntamente com o resto da família e os amigos, uma vez que Mamãe adquiriu o costume canadense de comunicar a gravidez somente no segundo trimestre.
Abril/2010
Com 15 semanas, Mamãe resolve experimentar um vestido de festa, para ver se acomodará o corpo em expansão durante um casamento que acontecerá alguns meses depois. Como a cintura é alta ("empire waist"), tem muito espaço para a pança, a dúvida é se o vestido fecharia nos peitos da Pamela Anderson. E a barriga fica imensa no vestido.
- Estou bonita?
- Sim, está bonita, Mamãe. Posso dar um beijo no Neném?
- Pode.
(ele beija a barriga)
(Mamãe aproveita para tirar uma foto e registrar a barriga crescente, depois troca o vestido por pijamas, que obviamente dão a impressão de que a barriga é bem menor)
(Mamãe chega no banheiro, já de roupa trocada para escovar os dentes do menino e é recebida com cara de espanto)
- Mãe! O Neném já saiu?
***
Maio/2010
Desde o anúncio da gravidez, o Pacotinho de Palpite tinha certeza de que o neném era um menino. Sempre respondia sem hesitação quando perguntado: é menino.
A futura madrinha da criança, ignorando a certeza da Barriguda que dizia estar esperando outro menino, deu de presente um par de sapatinhos cor-de-rosa, com borboletas, "para dar sorte".
Quando viu os sapatinhos, o Pacotinho de Desconfiança perguntou, num tom de ceticismo:
- O Neném agora está uma menina? (língua inconveniente a portuguesa, que tem dois verbos diferentes para o "to be")
Antes que Mamãe pudesse abrir a boca, o Pacotinho de Convicção concluiu:
- Naaaa, está uma meni-NO (idioma complicado este da Mamãe, que tem artigos diferentes antes de palavras femininas e masculinas)!
***
Agosto/2010
Informado de que o Neném iria trazer um presente quando chegasse, o Pacotinho de Ganância não parava de fazer pedidos. A cada comercial de brinquedos na TV:
- Mãe, pode o Bebezinho comprar um nave espacial pra mim? (eita língua difícil, que não coloca o verbo antes do sujeito na pergunta)
- O Bebezinho pode comprar UMA nave espacial? Pode, Filhote.
(outro comercial)
- Mãe, pode o Nenenzinho trazer uma barco de pirata bem grande pra mim? (segundo a Santa Irmã, ele tem 50% de chance de acertar os artigos e erra em 100% das vezes)
- Filhote, o Neném tem a mãozinha pequena, ele não vai conseguir trazer um monte de presente não. Só um.
- Ah, ele traz um nave espacial. No outro dia, ele traz uma barco de pirata. No outro dia, ele compra uma robô bem grande, no outro dia...
- Coitado do Neném, precisa arrumar três empregos ainda antes de nascer, para dar conta da lista de presentes que tem que comprar.
Novembro/2010
Nota: Até hoje, com 6 semanas de vida, "a Bebezinha" continua desempregada, mas os pedidos de presentes para ela já pararam, agora sobrou pro Papai Noel...
Abril/2010
Com 15 semanas, Mamãe resolve experimentar um vestido de festa, para ver se acomodará o corpo em expansão durante um casamento que acontecerá alguns meses depois. Como a cintura é alta ("empire waist"), tem muito espaço para a pança, a dúvida é se o vestido fecharia nos peitos da Pamela Anderson. E a barriga fica imensa no vestido.
- Estou bonita?
- Sim, está bonita, Mamãe. Posso dar um beijo no Neném?
- Pode.
(ele beija a barriga)
(Mamãe aproveita para tirar uma foto e registrar a barriga crescente, depois troca o vestido por pijamas, que obviamente dão a impressão de que a barriga é bem menor)
(Mamãe chega no banheiro, já de roupa trocada para escovar os dentes do menino e é recebida com cara de espanto)
- Mãe! O Neném já saiu?
***
Maio/2010
Desde o anúncio da gravidez, o Pacotinho de Palpite tinha certeza de que o neném era um menino. Sempre respondia sem hesitação quando perguntado: é menino.
A futura madrinha da criança, ignorando a certeza da Barriguda que dizia estar esperando outro menino, deu de presente um par de sapatinhos cor-de-rosa, com borboletas, "para dar sorte".
Quando viu os sapatinhos, o Pacotinho de Desconfiança perguntou, num tom de ceticismo:
- O Neném agora está uma menina? (língua inconveniente a portuguesa, que tem dois verbos diferentes para o "to be")
Antes que Mamãe pudesse abrir a boca, o Pacotinho de Convicção concluiu:
- Naaaa, está uma meni-NO (idioma complicado este da Mamãe, que tem artigos diferentes antes de palavras femininas e masculinas)!
***
Agosto/2010
Informado de que o Neném iria trazer um presente quando chegasse, o Pacotinho de Ganância não parava de fazer pedidos. A cada comercial de brinquedos na TV:
- Mãe, pode o Bebezinho comprar um nave espacial pra mim? (eita língua difícil, que não coloca o verbo antes do sujeito na pergunta)
- O Bebezinho pode comprar UMA nave espacial? Pode, Filhote.
(outro comercial)
- Mãe, pode o Nenenzinho trazer uma barco de pirata bem grande pra mim? (segundo a Santa Irmã, ele tem 50% de chance de acertar os artigos e erra em 100% das vezes)
- Filhote, o Neném tem a mãozinha pequena, ele não vai conseguir trazer um monte de presente não. Só um.
- Ah, ele traz um nave espacial. No outro dia, ele traz uma barco de pirata. No outro dia, ele compra uma robô bem grande, no outro dia...
- Coitado do Neném, precisa arrumar três empregos ainda antes de nascer, para dar conta da lista de presentes que tem que comprar.
Novembro/2010
Nota: Até hoje, com 6 semanas de vida, "a Bebezinha" continua desempregada, mas os pedidos de presentes para ela já pararam, agora sobrou pro Papai Noel...
12 novembro, 2010
Marte, Vênus e mais um Pacotinho de Surpresas a caminho do Iglu

Fevereiro/2010
Foi uma longa espera. Se o primeiro Pacotinho de Surpresas resolveu vir morar no Iglu na primeira tentativa, o segundo demorou 2 anos para se decidir. Mulher realmente é uma criatura mais, digamos assim, complexa.
Foram inúmeros testes de gravidez, que Mamãe tem dificuldade em acreditar que está grávida. Para dar raiva nas barrigudas que passam mal por 9 meses, ela é daquelas que não tem náusea, nem azia, nem inchaço nos pés, então...
- Ufa, fiz outro teste de gravidez hoje, o mostrador digital indicou "Pregnant. >4 weeks".
- Você está ficando doida. Por que fica fazendo teste toda semana?
- Porque eu não sinto nada, vai que não estou grávida?
- O exame de urina deu positivo, você está sim.
- Mas eu não sinto NADA!
- Da outra vez você também não sentiu.
- Ah, mas da outra gravidez, eu tive um sangramento de implantação do embrião. Desta vez, nada.
- Toda mulher tem isso?
- Não.
- Então está tudo bem, não precisa necessariamente sangrar.
- Ai, que inveja daquela mulherada que acorda de manhã e já vomita. Deve ser muito reconfortante abrir a geladeira e correr pra vomitar no banheiro, tendo a certeza diária de que a gravidez está evoluindo bem.
- Você queria sangrar e vomitar?
- Pelo menos uma náusea, um mal estar, uma vontade de comer sorvete de baunilha com azeitona verde, eu queria ter sim. Aí ficaria tranquila, sabendo que ainda estava grávida.
- Você não está ficando doida, você É doida mesmo! Onde já se viu querer passar mal?
- Ah, você não entende!
- Não mesmo. Coisa boa é ser homem. Pegar o carro, levar a mulher pro hospital e já receber o bebê embrulhadinho num pacote. Anos depois, como diz o Homer Simpson, o filho pede alguma coisa e você diz "primeiro tenho que levar sua mãe ao hospital, agora isso?"
- Eu leio livros escritos por parteiras, pediatras, psicólogos, consultoras de lactação e você tira sua inspiração sobre como criar filhos do Homer Simpson?
Já dizia Rita Lee, "mulher é bicho esquisito".
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Marte e Vênus
11 novembro, 2010
Mais um Pacotinho de Surpresas no Iglu
Por onde começar? Como naqueles filmes que começam do final e depois vão explicando a trama em vários "flashbacks". Então, não necessariamente do final, mas a 7/8 dele:
No dia 30 de setembro de 2010 (10 dias antes da data prevista), às 15:15, o Iglu recebeu de braços abertos um presente dos Céus. Chegou através de uma cesariana. Pesou 3,485kg e mediu 52 cm (bem menor que o irmão), com a cabeça mais cabeluda que a de muito adulto por aí.
Muitas semanas antes
Foi uma gravidez maravilhosa (se pudesse pular o parto, eu ficaria grávida todo ano, porque AMO a sensação de plenitude, o corpo arredondado, os movimentos na barriga e o fato de que o mundo fica mais gentil quando se está grávida) e o sexo do bebê foi surpresa até o momento do nascimento, por opção nossa.
Na rua, todos os estranhos arriscavam o mesmo palpite: é menino. Impressionante como até homens desconhecidos vinham dar seu pitaco (isso não é coisa de mulher, não?). Saindo do consultório da dentista, no elevador, passa um senhor:
- Você vai ter um menino, né?
- Não sei, mas acho que sim.
- Ah, eu tenho certeza. Minha mulher teve 3 meninos, sempre ficou igualzinha a você. Isso é barriga de menino.
Parada, esperando o sinal abrir para atravessar a rua, passa uma senhora com sotaque de latina falante de espanhol:
- Seu neném é menino, né?
- Não sei, mas acho que sim.
- Claro que é! Minha filha acabou de ter um menino, ela ficou exatamente como você. Só barriga. De costas, nem parecia que estava esperando neném.
Mamãe aqui também tinha absoluta certeza de que seria outro menino, confirmar no ultrassom pra quê? Gravidez igualzinha. Nenhum enjoo, ou azia, ou edema nos pés. Nenhum grama extra que não estivesse no peito ou na pança. Barriga menor que da outra vez, mas somente na frente. O bumbum, incrivelmente, encolheu. Não fosse o andar de pinguim (agora sem trema, ainda não me conformo), realmente de costas ninguém dizia que havia uma barriga do outro lado.
De volta a 30 de setembro
- Só tenho um pedido. Ninguém fala o sexo do neném até meu marido ver e avisar.
- Tudo bem.
- Uééé, uééé.
(lágrimas escorrendo, que nesta hora a emoção é intensa, qualquer que seja o sexo do bebê)
- É uma menina!
(metendo a mão nos campos estéreis, para ver se era verdade mesmo)
- Tem certeza?
(os médicos dão uma bronca)
- Você está contaminando tudo! Tira a mão daí. Onde já se viu, enfermeira de sala de cirurgia contaminando os campos estéreis!!!!
- Ah, sei lá, gente! Vai que o pai estava nervoso e não sabia mais a diferença entre menino e menina!
Nada, nenhuma surpresa no mundo foi maior do que aquele "it's a girl!" dito num tom de choque. Sim, porque depois de tantos meses ouvindo a Barriguda Convincente dizer que tinha certeza de que era outro menino, o Pai da Criança também se convenceu.
Como nos comerciais do Mastercard: priceless. Se houver outros Pacotinhos de Surpresa entregues por aqui, serão todos recebidos como uma surpresa deliciosa.
No dia 30 de setembro de 2010 (10 dias antes da data prevista), às 15:15, o Iglu recebeu de braços abertos um presente dos Céus. Chegou através de uma cesariana. Pesou 3,485kg e mediu 52 cm (bem menor que o irmão), com a cabeça mais cabeluda que a de muito adulto por aí.
Muitas semanas antes
Foi uma gravidez maravilhosa (se pudesse pular o parto, eu ficaria grávida todo ano, porque AMO a sensação de plenitude, o corpo arredondado, os movimentos na barriga e o fato de que o mundo fica mais gentil quando se está grávida) e o sexo do bebê foi surpresa até o momento do nascimento, por opção nossa.
Na rua, todos os estranhos arriscavam o mesmo palpite: é menino. Impressionante como até homens desconhecidos vinham dar seu pitaco (isso não é coisa de mulher, não?). Saindo do consultório da dentista, no elevador, passa um senhor:
- Você vai ter um menino, né?
- Não sei, mas acho que sim.
- Ah, eu tenho certeza. Minha mulher teve 3 meninos, sempre ficou igualzinha a você. Isso é barriga de menino.
Parada, esperando o sinal abrir para atravessar a rua, passa uma senhora com sotaque de latina falante de espanhol:
- Seu neném é menino, né?
- Não sei, mas acho que sim.
- Claro que é! Minha filha acabou de ter um menino, ela ficou exatamente como você. Só barriga. De costas, nem parecia que estava esperando neném.
Mamãe aqui também tinha absoluta certeza de que seria outro menino, confirmar no ultrassom pra quê? Gravidez igualzinha. Nenhum enjoo, ou azia, ou edema nos pés. Nenhum grama extra que não estivesse no peito ou na pança. Barriga menor que da outra vez, mas somente na frente. O bumbum, incrivelmente, encolheu. Não fosse o andar de pinguim (agora sem trema, ainda não me conformo), realmente de costas ninguém dizia que havia uma barriga do outro lado.
De volta a 30 de setembro
- Só tenho um pedido. Ninguém fala o sexo do neném até meu marido ver e avisar.
- Tudo bem.
- Uééé, uééé.
(lágrimas escorrendo, que nesta hora a emoção é intensa, qualquer que seja o sexo do bebê)
- É uma menina!
(metendo a mão nos campos estéreis, para ver se era verdade mesmo)
- Tem certeza?
(os médicos dão uma bronca)
- Você está contaminando tudo! Tira a mão daí. Onde já se viu, enfermeira de sala de cirurgia contaminando os campos estéreis!!!!
- Ah, sei lá, gente! Vai que o pai estava nervoso e não sabia mais a diferença entre menino e menina!
Nada, nenhuma surpresa no mundo foi maior do que aquele "it's a girl!" dito num tom de choque. Sim, porque depois de tantos meses ouvindo a Barriguda Convincente dizer que tinha certeza de que era outro menino, o Pai da Criança também se convenceu.
Como nos comerciais do Mastercard: priceless. Se houver outros Pacotinhos de Surpresa entregues por aqui, serão todos recebidos como uma surpresa deliciosa.
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