
"Filhotinha,
Faz seis semanas que você chegou a este mundo, mas parece que sempre esteve aqui, nem dá mais para imaginar esta família sem sua presença.
Sua mãe sempre soube que queria ser mãe. Uma frustração de infância é só ter tido uma boneca molinha, do tipo bebezinho, lá pelos 10 anos de idade. Sua avó sempre comprava bonecas duras, que andavam, falavam, dançavam... A primeira boneca bebê chamava-se Mimadinha, era bem cabeluda (seria um sinal?) e Mamãe adorava fazer maria-chiquinha nela. E trocar a roupa, ninar para dormir... Sua mãe brincou de boneca até bem grandinha, uns 12 anos e um dos programas favoritos sempre foi visitar os amigos dos seus avós que estavam com bebê novinho em casa.
Você demorou a decidir que queria vir morar temporariamente nesta barriga aqui. Foram dois anos de espera, com uma dificuldade imensa de acreditar que realmente era verdade quando aconteceu. Mamãe chorou muito no ultrassom de 7 semanas, quando ouviu seu coração pela primeira vez, porque até então, achava que talvez não fosse mesmo verdade.
Carregar você no ventre foi uma delícia. Nem toda mulher gosta de estar grávida, mas sua mãe é daquelas que literalmente se sentem com o rei na barriga. Sem modéstia, acha-se linda de barrigão e acredita quando é elogiada. De desconforto, houve muita insônia, poucas câimbras noturnas nas panturrilhas (amenizadas por uma milagrosa homeopatia receitada por uma parteira amiga) e muita dor lombar no final. Barriga bem pontuda, só na frente, como disse a senhora portuguesa da mercearia: "barriga de rapaz". Mamãe trabalhou até 37 semanas e não inchou nem nos pés. De diferente da primeira gestação, só mesmo uma vontade incontrolável de tomar água com gás no último trimestre (quem diria, Mamãe nunca suportou água com gás).
Foi ideia da Mamãe não saber antecipadamente se teria outro menino ou uma menina. Ela tinha certeza de que seria outro menino, por sinal. E, com exceção da sua tia e do seu avô no Brasil (que sabem o quanto é cabeça-dura esta sua mãe), nenhuma amiga brasileira acreditou que ela fosse conseguir esperar. Como diz seu pai, sua mãe é a pessoa menos curiosa do planeta e nada ansiosa. Nunca atingiu o estado de ficar "doida para a gravidez acabar e ver logo a cara do neném". Chegaria feliz da vida a 42 semanas de gestação.
Desde antes de a gravidez se concretizar, Mamãe sabia que você nasceria de cesárea, muito provavelmente eletiva, por conta de uma cirurgia para retirada de miomas, realizada anos antes. E, para ela, isso trouxe muita culpa, de tirar de você o direito de chegar na hora em que se mostrasse pronta, de impedir que você vencesse a luta pela vida e chegasse a este mundo por suas próprias forças (você vai descobrir, Filhotinha, que este assunto causa discussões inflamadas e intermináveis entre a mulherada brasileira que defende o parto normal e as que marcam cesárea por preferência pessoal). Nenhum médico aqui recomendava sequer entrar em trabalho de parto. A data provável do parto seria 10/10/10 e a cesárea foi marcada para 05/10/10. Mamãe queria tanto que você desse um sinal de que estava pronta e foi exatamente o que aconteceu: dia 30/09 (você só estava esperando sua tia chegar e ela havia chegado na véspera), às 06:00, o tampão mucoso saiu e fomos para o hospital.
Mesmo sabendo da cesárea, Mamãe fez o pré-natal com um grupo de parteiras. Queria evitar exames em excesso, ter consultas mais longas, garantir a amamentação na primeira hora de vida e ter apoio para recusar procedimentos desnecessários em você, como a injeção de vitamina K, que você tomou via oral.
Mamãe não queria que você nascesse no hospital onde ela trabalha, porque lá, os bebês nascidos de cesárea vão para o quarto e as mães para a sala de recuperação por cerca de duas horas. Sua mãe fazia questão absoluta de não ser separada de você, então optou por outra maternidade. E foi uma ótima decisão!
Passamos o dia 30 de setembro inteiro numa maca na Emergência, porque Mamãe levou um tempão para decidir se realmente iria aceitar a cesárea naquele dia ou se deveria voltar para casa e aguardar o trabalho de parto ou o dia 05/10, o que viesse primeiro. Quando finalmente decidiu pela cesárea naquele dia, houve demora do centro cirúrgico e é por isso que você só nasceu de tarde. Na espera para o centro cirúrgico, Mamãe sentiu 20 minutos de contrações ritmadas, sem dor e ficou bem feliz por você estar dando um sinal de que estava pronta, de que aquele era mesmo o dia escolhido por você para chegar.
É uma sensação muito estranha ter as mãos dos médicos dentro da barriga da gente. Mamãe tentava conversar ao máximo, distrair-se com seu pai e o anestesista, porque ela já viu tantas cesáreas que sabe de olhos fechados cada passo e não queria ficar imaginando que camada estavam cortando naquele instante.
Mamãe havia pedido que ninguém anunciasse o sexo do bebê, esperando que seu pai visse e desse a notícia. Seu primeiro choro, às 15:15, foi recebido com muitas lágrimas. Emoção indescritível, que foi elevada à milésima potência quando se ouviu na sala "It's a girl!" Cabeça-dura que só ela, Mamãe meteu a mão nos campos cirúrgicos, para confirmar se era mesmo verdade. Foi tão bom estar errada, tão maravilhoso ser surpreendida naquele momento, tão emocionante ouvir o anúnicio!
Você chegou bem cabeluda, fazendo beicinho, à primeira vista, parecida com sua prima do Brasil (só Mamãe achou isso, ninguém mais). Pesou 3,485 kg e mediu 52 cm. Não é pouco para uma menina, mas o segundo filho acaba sendo comparado com o primeiro e, como seu irmão nasceu bem maior (56 cm) e mais pesado (3,820 kg), a gente achou você miudinha. Não foi separada da Mamãe, veio para a maca junto com ela a caminho da sala de recuperação. Com a ajuda de uma enfermeira maravilhosa, mamou por 40 minutos e ficou bem alerta o tempo todo, só foi dormir mais de 3 horas depois.
Durante a gravidez, seu pai e sua mãe nem conversaram sobre que possíveis nomes dariam a você. Mamãe é prática demais para fazer duas listas de nomes, uma para menino e outra para menina, parece um desperdício de uma lista inteira. Seu irmão, cujo sexo era conhecido desde 17 semanas de gestação só foi ter nome com 6 dias de nascido e mesmo assim, na prática, é chamado de Filhote até hoje. Só conversamos sobre nomes já na emergência da maternidade, mas seu pai estava tão nervoso, indo ao banheiro a cada 3 minutos, que parecia que a grávida era ele. Quando o anestesista falou "morfina", ele perguntou "e quando recebo a MINHA dose de morfina?" Enfim, logo depois que você nasceu, Mamãe queria Clarissa, seu pai queria Isabella, acertamos em Marina, que é um nome comum tanto no Brasil quanto na Sérvia e não é impronunciável em terras canadenses, mas Mamãe gosta mesmo é de apelido (deve ser trauma de infância, que na casa dela ninguém tinha um). Tão mais fácil escolher nome de menina!

Foi a parteira, na sala de recuperação, quem primeiro notou: "ela tem a língua presa. Precisa cortar o freio". Ora, sua mãe cresceu ouvindo que nasceu com a língua presa, nunca foi cortada, logo disse que só iria cortar se desse problema. E foi o que aconteceu. Você não conseguia mamar, sua língua tinha formato de coração, nem saía da boca. O pediatra cortou o freio, dois dias depois, quando Mamãe, já com os mamilos feridos, concordou. Você chorou mais para ser segurada do que pelo corte e saiu uma gota de sangue, segundo seu pai (pode acreditar, você vai ver, ele é do tipo que chora convulsivamente quando o bebê dele
toma vacina, se tivesse sangrado muito, ele teria ficado arrasado).
Você levou muitos dias para aprender a mamar (dá um livro esta parte). Três anjos, cujos crachás diziam "consultoras de lactação", vieram aqui em casa. A sorte é que Mamãe sempre teve absoluta convicção de que tem muito leite e nunca passou pela cabeça dela desistir ou dar leite artificial. Você ganhou quase 900 gramas no primeiro mês, só com o leite materno, o que é ótimo, considerando todas as dificuldades que teve nas duas primeiras semanas. E o congelador está cheio de leite.
Você gosta mesmo é de colo. Adormece facilmente durante o dia, se a gente pegá-la no momento certo. Seu ruído preferido é o da secadora de roupas. Já virou rotina um adulto embalando você de frente para a secadora ligada. Você tira longas sonecas durante o dia, de 3 horas ou mais, se estiver pendurada no sling. Adora bater perna na rua, pendurada. Com 5 dias de vida, foi com a Mamãe no sling, buscar seu irmão na creche e, desde então, sai todos os dias de casa assim. Chama a atenção dos curiosos, com sua cabeça cabeludinha de fora do sling. "Olha que neném novinho", o povo aponta, cochicha e vem perguntar sua idade. Fica quietinha passeando no carrinho, mas não dorme. Tem dificuldade em adormecer no peito, porque o leite sai rápido demais (estou falando que dá um livro a parte da amamentação), prefere ser embalada para pegar no sono.
Seu coto do umbigo demorou longos 17 dias para cair.
Você ainda tem os reflexos de recém-nascido, levanta os braços quando se assusta (seu pai diz que é treino de kung fu) e faz aquela expressão assustada de neném novinho. Passa o tempo todo em que está acordada colocando a língua para fora da boca, praticando o movimento que antes não conseguia fazer. Já sorri para as pessoas, principalmente para seu irmão.
Como nos tempos da boneca Mimadinha, Mamãe adora embalar e cantar para você dormir (Chico Buarque e Legião Urbana já estão nos seus favoritos). A Baka outro dia chegou aqui e perguntou "mas você fica o tempo todo com ela no colo?" Se Mamãe não estiver cozinhando, você fica no colo ou no sling durante o dia. E ela só cozinha se você não estiver chorando, claro. Você vai crescer tão depressa, Mamãe adora aquela sensação da cabeça pequenininha aninhada perfeitamente entre o pescoço dela e o ombro, então por que não aproveitar? Sua mãe e seu pai (e sua tia maravilhosa que veio do Brasil só para a sua chegada) não acreditam que exista "colo em excesso", nem que isso possa "estragar" um bebê.
Você chorou duas vezes para tomar banho. Na terceira noite, já estava relaxada na banheira e curte este momento até hoje. Seu pai deu todos os seus banhos, desde o primeiro, ainda na maternidade. Mamãe dá banho só quando há um acidente de vazamento das fraldas durante o dia (e ela adoraria dizer que são raros os
code brown, como falamos aqui desde que seu irmão tinha a mesma idade que você, mas acontecem muito).
Você tem dormido entre 5-7 horas seguidas de noite. Às vezes acorda depois disso e decide ficar um tempo conversando ou chorando, até pegar no sono de novo, mas noite passada acordou para mamar depois de 7 horas de sono e dormiu imediatamente. Já teve 2 ocasiões de passar muito da hora de dormir e seu pai levá-la para dar uma volta de carro. Você não reclama para ficar na cadeirinha do carro.
Seu cabelo é tão comprido que já dá para colocar presilhas. Será que vai mudar de cor, como o do seu irmão? Aliás, você não nasceu parecida com ele, mas em algumas fotos dele com a sua idade, vocês estão muito parecidos, só que você tem muito mais cabelo.
Você nasceu com várias bolinhas brancas no nariz, que em inglês chamam-se "milia" e devem desaparecer até o terceiro mês de vida. Vovô disse que Mamãe tinha as mesmas bolinhas no nariz e sumiram sozinhas.
Você é muito barulhenta. Quando se espreguiça, faz um ruído com a garganta, parecendo pigarro de fumante (agora mesmo está cochilando e pigarreando sempre que estica o braço). Tem crises de soluço umas dez vezes por dia (eram vinte, no início), arrota muito alto e golfa depois de todas as mamadas. Seu irmão dá sonoras gargalhadas de tudo isso, acha graça em tudo o que você faz. Está apaixonado por você.
Muito obrigada por fazer parte das nossas vidas, tornar nossas noites mais movimentadas, nossos dias mais cheios de ternura e nossa família mais unida. Nada tem o potencial de unir tanto uma família quanto o milagre da chegada de um bebê. Mamãe, além de tudo, está curtindo muito o universo feminino em versão miniatura (os sapatinhos da foto foram uma delícia de comprar, assim como todo seu guarda-roupa).
Abraço bem apertado, sonhando com tudo o que ainda vamos viver juntas,
Mamãe"