29 novembro, 2010

Minha Vizinha é a Mulher Maravilha


Se você está exilada no Primeiro Mundo e tem dois ou mais filhos pequenos, incluindo um bebezinho, pode ter certeza de que suas amigas na terrinha não conseguem entender como é que você dá conta.

Você muito provavelmente tem lá na terrinha uma amiga chique, que mesmo tendo ajuda de empregada e faxineira, ainda contrata uma enfermeira por vários meses quando tem um bebê. Ah, a mãe e a sogra passam na casa dela diariamente para "dar uma força" e, ainda assim, ela diz que vive eternamente cansada. Mentira, você tem várias amigas que preenchem a descrição.

É inverno em Vancouver (leia-se "faz muito frio e chove", em 99% dos dias), você sai de casa com um casaco pesado e touca, às 10:00, com seu bebezinho igualmente empacotado pendurado no canguru, achando que alcançou um grande feito por já ter despachado o filho mais velho pra escola, feito o jantar enquanto seu bebê tirava a primeira soneca do dia, tomado banho, dobrado a montanha de roupas saída da secadora, entre outras tantas tarefas.

Aí você esbarra numa moça vestida com uma calça de ginástica e uma camiseta, saindo para sua corrida diária. É a sua vizinha. Você sabe que ela tem um filho de 2 anos e um casal de gêmeos de 6 meses de idade. Além do marido, ela não tem ninguém mais para dividir os cuidados com a criançada. Ela encontra energia para correr todo dia e ainda é simpática!

A Mulher Maravilha pergunta:
- E aí? Como estão as coisas com seu bebê?
- Tudo bem, eu gosto de bebezinho desta idade, dá bem menos trabalho do que os mais velhos.
- Sério? Eu adoro "toddlers" (crianças entre 18 meses e 3 anos).
- Ficar correndo atrás deles o dia todo é mais cansativo que acordar de noite pra amamentar.
- Não vejo a hora de meus bebês começarem a caminhar.
- Mas algumas crianças não param um minuto depois que aprendem a andar.
- Pois é, meu primeiro é assim. Legal, né?

Ainda bem que você não é do tipo depressivo, senão iria imediatamente se enforcar num pé de alface. E não, você nem considera a possibilidade de juntar-se a ela para uma corridinha matinal em temperaturas incompatíveis com a vida feliz. Humpf!

24 novembro, 2010

Tudo é Relativo

Quando o Pacotinho de Férias tinha 6 meses e foi passar uma temporada no verão brasileiro, em pleno mês de janeiro, saiu de casa sentado no carrinho numa manhã nublada na Capital Federal. A temperatura certamente estava acima de 25 graus (positivos, é claro). Aí passa uma estranha e diz, num tom de crítica, "Mamãe, num frio deste você traz o neném para a rua!"

Em 2010, São Pedro decidiu que Vancouver seria transformada numa cidade da costa leste no outono. Neve, temperaturas abaixo de zero por três dias seguidos e a Pacotinha de Resistência ao Sono Diurno, com sua vasta experiência de menos de 2 meses de vida, sai de casa para um de seus muitos passeios diários, devidamente pendurada no canguru ergonômico (Mamãe não sabe criar bebês sem "baby carriers"), de touca, luvas e toda a indumentária essencial a um bebê no inverno canadense. Batedora de perna na rua calejada que só ela, dorme feliz da vida, quentinha, embalada pelo passo rápido da sua mãe, alheia aos tímidos floquinhos de neve que prenunciam os 10 cm previstos para a noite. E aí passa um estranho, que comenta "que coisa mais aconchegante esta aí que arrumou para carregar o neném. Estou com inveja!"

Em tempo: O canguru mencionado é inviável para mães calorentas, com bebês que ainda não se sentam sozinhos e moram em terras tropicais.

22 novembro, 2010

O Pacotinho de Astronomia



Noite de céu claro e lua cheia em Vancouver é sempre como nas palavras do poeta, porque a lua aqui "boia no céu imensa e amarela, tão redonda a lua, como flutua"...

Pela janela do ônibus, Mamãe aponta e comenta:
- Olha, Filhote, a lua. Que linda!
- É mesmo, a lua. Que linda, está consertada!
- Consertada?
- É, porque quando eu estava três anos, ela estava quebrada.

Nota da autora: Qualquer fato ocorrido no passado, ainda que seja na véspera, aconteceu quando "ele estava três anos". A lua quebrada é, certamente, a minguante ou crescente, faltando um pedaço.

20 novembro, 2010

O Pacotinho de Comparação

Agosto/2010

O Pacotinho de Curiosidade sempre gostou de bebezinhos, particularmente dos irmãos de seus colegas de classe. E, depois do anúncio da futura chegada de um bebê na sua casa, passou a prestar mais atenção em todos os bebês à sua volta.

- Olha, Mamãe! Um bebezinho. Que bonitinho!

Um belo dia, na entrada do Wal-Mart, Mamãe avista um minúsculo camundongo (a habilidade para enxergar de longe "creepy crawlers" ou criaturas xexelentas menores que um passarinho é inversamente proporcional à fobia do observador) e dá seu chilique básico (leia-se: dá um gritinho, pula e sai correndo, balançando a barriga de 7 meses e meio).

O Pacotinho de Comparação chega bem pertinho do bicho e diz, com voz forçadamente melosa:

- Ai, que bonitinho o bebezinho ratinho. O nosso vai ser assim também, Mamãe.

Era só o que me faltava! Logo eu, com longo histórico traumático de contatos imediatos do terceiro grau com ratos ou similares, criar um filho que acha que vou parir um camundongo!

17 novembro, 2010

Carta - Muitos Meses de Uma Vez

"Filhote,

Com vários meses de atraso, Mamãe vai tentar fazer um resumo de 2010 até agora.

Você recebeu com muita alegria a notícia de que ganharia um bebezinho. Foi na Páscoa, a casa estava cheia de gente, você logo acreditou e nunca perguntou como o bebê entrou, como sairia, simplesmente curtiu a ideia. Quando Mamãe chegava para buscá-lo na creche, apontava para a barriga e dizia aos amiguinhos e às professoras, com orgulho "Look at the big tummy, I'm going to have a baby".

Em junho, nós fomos ao Brasil. Desta vez, seu pai foi junto, que foi muito sofrido para você ficar sem ele, na viagem do ano passado. Você saiu daqui empolgadíssimo, contando a um estranho no elevador "We're going to Brazil!". A viagem foi tranquila. Seu pai agora toma calmantes, você consegue se concentrar com os desenhos no iPod, Mamãe tinha preferência nas filas dos aeroportos do Brasil por estar grávida.

Todo final de semana tinha festa de aniversário em Brasília. Você estava ansioso para chegar logo a sua que, claro, foi a última. Você queria uma festa de robôs, Mamãe não conseguiu nenhuma casa de festas com o tema. Até aceitaria os Transformers, que ela também não achou. A decoração ficou sendo dos Backyardigans, que você adora. Mesmo assim, na hora de sair para a festa, alguém perguntou e você disse que seria dos Transformers. Mas bastou chegar no buffet, ver todos os brinquedos, que nem deu bola para a decoração. Abraçou os convidados, curtiu muito. Mamãe adorou a mordomia de não ter que preparar nada para a festa, queria poder repetir todo ano. Na hora dos parabéns, você ficou de implicância com seus primos, que vieram cantar os parabéns junto com a gente, atrás da mesa (aliás, teve implicância com sua prima a viagem inteira). "Mãe, hoje é a aniversário do Léo e da Camila?" "Não, Filhote". "Camila, hoje não é seu festa, é meu festa". Assim que acabou o último verso da música, decretou "Agora eu vai abrir meus presentes". Conseguimos negociar para que só dois fossem abertos e o resto, só em casa.



A gente fez uma viagem deliciosa a Fortaleza. Claro que você não entrou no mar, nem quis molhar os pés, numa aversão que já dura desde a viagem a Cancún. Mas, finalmente, no Beach Park, mergulhou a cabeça na água pela primeira vez e gostou. Desceu umas oitocentas vezes no toboágua de criança, fala disso até hoje. Fez amizade facilmente com as crianças no hotel, nenhuma delas reparou que você não tinha nascido e vivido sempre no Brasil. Mamãe ficou tão orgulhosa do seu português! De tímido, você nunca teve nada. Aborda as pessoas, conversa com todos. A caixa da padaria ficou sua fã, por dizer sempre "obrigado, Moça".




Passou sua primeira Copa do Mundo na terrinha. Vestiu a camisa do Brasil em todos os jogos, não assistiu a nenhum, preocupado que estava em disputar as vuvuzelas com as outras crianças. Assistimos a cada jogo na casa de um grupo diferente de amigos, sempre com uma criançada em volta.

Durante a viagem, queria ser carregado no colo pelo seu pai em qualquer caminhada de dez passos. Ficou bem manhoso, mas foi só voltar a Vancouver que parecia outra pessoa, uns anos mais velha. Assim que chegamos em casa, você decretou que não usaria mais o penico (ai, que alívio), que era um menino grande e usaria o vaso dali pra frente. Também abandonou, por conta própria, aos 4 anos, a banheirinha de plástico que usava para tomar banho desde que nasceu (claro que mal cabia nela, mas a Mamãe nem se estressava, sabia que você não tiraria carteira de habilitação ainda tomando banho naquela banheira). Parou de dar chilique para lavar os cabelos, passa o xampu sozinho. Também passou a vestir-se, calçar-se, abrir a geladeira para pegar o que quer, tudo sozinho. E passou a caminhar longas distâncias sem pedir que seu pai o carregue.

Mamãe passou por uma fase de "nesting syndrome". Decidiu que iria arrumar a bagunça eterna desta casa. Contratou uma "personal organizer" (ai, tomara que você e sua irmã tenham saído à tia materna e não à mãe e ao pai) e decidiu comprar divisórias para todos os armários da casa. Todo final de semana íamos à IKEA e você ficava muito feliz em ajudar seu pai a montar tudo. Um dia, falando ao telefone com sua tia no Brasil, disse orgulhoso "eu vou ganhar uma nenenzinho e estou montando o dele armário". Numa segunda-feira em que Mamãe estava de folga, você acordou, deduziu que era final de semana e, quando viu que seu pai não estava em casa, perguntou "quem vai levar a gente na IKEA?" Ora, se é final de semana...

No dia em que seu "Bebezinho" chegou, Mamãe e Tata saíram cedo de casa, você ainda estava dormindo e ficou com sua tia. Acordou, perguntou cadê a gente, mas passou o dia tranquilo com ela. No final da tarde, chegou todo orgulhoso ao hospital, com sua camisa que diz Big Brother. Encontrou a gente na maca, a caminho do quarto. Ficou muito feliz que sua irmã trouxe uma caixa imensa, com um barco de pirata "bem grande" do Playmobil, exatamente como pediu. Em nenhum momento demonstrou estar surpreso ou decepcionado por ser uma menina, mesmo que tivesse pensado que era um menino. Chegou perto dela e falou "oi, eu sou seu irmão grande", como nos livros dos personagens que ganham um irmão ou irmãzinha, que lemos juntos tantas vezes.

Assim que chegamos ao quarto, você insistiu em segurar sua irmã. Tão lindo o filme que seu pai fez, você tentando dar um beijinho na cabeça dela e dando gargalhadas "porque o dela cabelo é ticklish". Foi encantamento à primeira vista.

Seu pai ficou dormindo com você em casa e sua tia passava as noites no hospital. Você aguardava ansiosamente a hora de ir visitar e perguntava todos os dias "é hoje que o Mamãe e o Marina vem pra nossa casa?" E também "pode o Marina comprar isso assim-assim (sempre um brinquedo na TV) pra mim?"

Você anunciou orgulhosamente na escola a chegada do seu Neném. Você tem sido um ótimo irmão mais velho. Ficou bastante curioso nas primeiras semanas, quando Mamãe e Marina tiveram muita dificuldade em amamentar. Queria usar a bomba de tirar leite em você mesmo e volta e meia estava com uma no peito, "tirando leite" também. Quando ela chora, você logo diz "Mãe, ela está com fome" e, às vezes tenta consolá-la "você não está sozinha. Mãe, ela pensa que está sozinha". Em outras ocasiões, quando ela está no balanço e chora, você vai lá na frente dela, balança os brinquedos pendurados, faz "shh, shh" e dança para ela se acalmar (a gente dança com ela no colo, fazendo "shh, shh" quando ela chora e você parece pensar que é a dança e não o embalo que a acalma, então já tem sua coreografia).

Você é especialmente interessado nas fraldas. Faz questão de ver as sujas, "Mãe, pode eu ver o dela cocô?" e fica chateado se, mesmo depois de ver as fraldas sujas, Mamãe joga no lixo o lencinho de limpar o bumbum sem mostrá-lo a você. "Tão bonitinho o dela cocô!", provando que está certo o ditado que diz que a beleza está nos olhos de quem vê. Você dá altas gargalhadas quando sua irmã soluça, espirra, tosse, solta pum, parece que ela é uma inesgotável fonte de entretenimento. Sem que ninguém a chame assim, você chega o rosto bem perto do rosto dela e diz, com uma voz bem fininha, um tom mais alto, "Marininha bonitinha". Você já entendeu que não pode pegá-la no colo sozinho, só se estiver sentado e um adulto colocá-la nos seus braços, mas sente ímpetos de abraçá-la.

Como nem tudo são flores nesta vida, se você anda apaixonado pelo fato de ter um bebezinho em casa, de vez em quando fica meio rebelde com a gente. Tem dias em que já acorda criando caso para não ir à escola, volta reclamando que não quer tomar banho, nunca é hora de dormir, mas por outro lado, tem dias em que está extremamente cooperativo, parecendo bem mais velho que seus quatro anos.

Quando a tia do seu pai veio visitar, ela perguntou se podia levar sua irmã com ela (crente que você iria dizer que sim) e você logo disse "no, this is OUR baby". Você não tem demonstrado ciúmes nem quando chegam visitas, mesmo quando uma delas não trouxe uma lembrancinha para você também (todas as outras pessoas trouxeram, o que o deixa muito feliz, por menor que seja o presentinho). Você adora quando outras crianças vem visitar.

Você continua com uma memória formidável. Comenta fatos ocorridos na nossa viagem ao Brasil em outubro do ano passado, sabe quem deu cada DVD que tem e fala principalmente na Bibi, uma bebezinha vizinha da sua tia no Brasil.

Mês passado você retornou às aulas de natação. Protesta para ir toda semana, mas chega lá, entra na piscina sem reclamar e até mergulha a cabeça na água! Um grande progresso.

Você tem mania de juntar caixas, sacolas e embalagens de presente. Está sempre carregando alguma sacola de presente com um brinquedo velho dentro. Se encontra um papel de embrulho, pergunta logo cadê o "rex" (durex), para enrolar "minha presente". Esta semana viu uma caixa vazia de fraldas e, antes que ela fosse jogada para reciclagem, pediu "Mãe, pode você me dar este caixa?" e, claro, colocou vários brinquedos dentro.

A gente não decidiu ter outro filho para que você tivesse um irmão ou irmã, mas porque sentia que a família estava incompleta, além do fato de que Mamãe adora estar grávida e ter um bebê em casa. Mas tem sido tão gratificante ver vocês dois juntos e pensar nas aventuras que poderão viver! Tanto sua mãe quanto seu pai são grandes amigos dos irmãos que tem e a ideia de que você e sua irmã possam viver esta experiência é fascinante. Você vai descobrir que somente um irmão consegue entender quando a gente faz piada do pai ou da mãe.

Desculpa se ultimamente parece faltar tempo, atenção e às vezes paciência no final da tarde. Não é por mal, mas tem uma pessoa que agora precisa de mais ajuda para tudo. Você parece entender isso. Quando está muito chateado, vai lá e dá um chute na cadeirinha do carro, mas nunca descontou na sua irmãzinha. À medida em que ela for crescendo e ficando mais interativa (e seus pais menos cansados), as coisas vão melhorar.

Um abraço bem apertado, daqueles que só você sabe dar,
Mamãe"

16 novembro, 2010

Carta - Você Chegou



"Filhotinha,

Faz seis semanas que você chegou a este mundo, mas parece que sempre esteve aqui, nem dá mais para imaginar esta família sem sua presença.

Sua mãe sempre soube que queria ser mãe. Uma frustração de infância é só ter tido uma boneca molinha, do tipo bebezinho, lá pelos 10 anos de idade. Sua avó sempre comprava bonecas duras, que andavam, falavam, dançavam... A primeira boneca bebê chamava-se Mimadinha, era bem cabeluda (seria um sinal?) e Mamãe adorava fazer maria-chiquinha nela. E trocar a roupa, ninar para dormir... Sua mãe brincou de boneca até bem grandinha, uns 12 anos e um dos programas favoritos sempre foi visitar os amigos dos seus avós que estavam com bebê novinho em casa.

Você demorou a decidir que queria vir morar temporariamente nesta barriga aqui. Foram dois anos de espera, com uma dificuldade imensa de acreditar que realmente era verdade quando aconteceu. Mamãe chorou muito no ultrassom de 7 semanas, quando ouviu seu coração pela primeira vez, porque até então, achava que talvez não fosse mesmo verdade.

Carregar você no ventre foi uma delícia. Nem toda mulher gosta de estar grávida, mas sua mãe é daquelas que literalmente se sentem com o rei na barriga. Sem modéstia, acha-se linda de barrigão e acredita quando é elogiada. De desconforto, houve muita insônia, poucas câimbras noturnas nas panturrilhas (amenizadas por uma milagrosa homeopatia receitada por uma parteira amiga) e muita dor lombar no final. Barriga bem pontuda, só na frente, como disse a senhora portuguesa da mercearia: "barriga de rapaz". Mamãe trabalhou até 37 semanas e não inchou nem nos pés. De diferente da primeira gestação, só mesmo uma vontade incontrolável de tomar água com gás no último trimestre (quem diria, Mamãe nunca suportou água com gás).

Foi ideia da Mamãe não saber antecipadamente se teria outro menino ou uma menina. Ela tinha certeza de que seria outro menino, por sinal. E, com exceção da sua tia e do seu avô no Brasil (que sabem o quanto é cabeça-dura esta sua mãe), nenhuma amiga brasileira acreditou que ela fosse conseguir esperar. Como diz seu pai, sua mãe é a pessoa menos curiosa do planeta e nada ansiosa. Nunca atingiu o estado de ficar "doida para a gravidez acabar e ver logo a cara do neném". Chegaria feliz da vida a 42 semanas de gestação.

Desde antes de a gravidez se concretizar, Mamãe sabia que você nasceria de cesárea, muito provavelmente eletiva, por conta de uma cirurgia para retirada de miomas, realizada anos antes. E, para ela, isso trouxe muita culpa, de tirar de você o direito de chegar na hora em que se mostrasse pronta, de impedir que você vencesse a luta pela vida e chegasse a este mundo por suas próprias forças (você vai descobrir, Filhotinha, que este assunto causa discussões inflamadas e intermináveis entre a mulherada brasileira que defende o parto normal e as que marcam cesárea por preferência pessoal). Nenhum médico aqui recomendava sequer entrar em trabalho de parto. A data provável do parto seria 10/10/10 e a cesárea foi marcada para 05/10/10. Mamãe queria tanto que você desse um sinal de que estava pronta e foi exatamente o que aconteceu: dia 30/09 (você só estava esperando sua tia chegar e ela havia chegado na véspera), às 06:00, o tampão mucoso saiu e fomos para o hospital.

Mesmo sabendo da cesárea, Mamãe fez o pré-natal com um grupo de parteiras. Queria evitar exames em excesso, ter consultas mais longas, garantir a amamentação na primeira hora de vida e ter apoio para recusar procedimentos desnecessários em você, como a injeção de vitamina K, que você tomou via oral.

Mamãe não queria que você nascesse no hospital onde ela trabalha, porque lá, os bebês nascidos de cesárea vão para o quarto e as mães para a sala de recuperação por cerca de duas horas. Sua mãe fazia questão absoluta de não ser separada de você, então optou por outra maternidade. E foi uma ótima decisão!

Passamos o dia 30 de setembro inteiro numa maca na Emergência, porque Mamãe levou um tempão para decidir se realmente iria aceitar a cesárea naquele dia ou se deveria voltar para casa e aguardar o trabalho de parto ou o dia 05/10, o que viesse primeiro. Quando finalmente decidiu pela cesárea naquele dia, houve demora do centro cirúrgico e é por isso que você só nasceu de tarde. Na espera para o centro cirúrgico, Mamãe sentiu 20 minutos de contrações ritmadas, sem dor e ficou bem feliz por você estar dando um sinal de que estava pronta, de que aquele era mesmo o dia escolhido por você para chegar.

É uma sensação muito estranha ter as mãos dos médicos dentro da barriga da gente. Mamãe tentava conversar ao máximo, distrair-se com seu pai e o anestesista, porque ela já viu tantas cesáreas que sabe de olhos fechados cada passo e não queria ficar imaginando que camada estavam cortando naquele instante.

Mamãe havia pedido que ninguém anunciasse o sexo do bebê, esperando que seu pai visse e desse a notícia. Seu primeiro choro, às 15:15, foi recebido com muitas lágrimas. Emoção indescritível, que foi elevada à milésima potência quando se ouviu na sala "It's a girl!" Cabeça-dura que só ela, Mamãe meteu a mão nos campos cirúrgicos, para confirmar se era mesmo verdade. Foi tão bom estar errada, tão maravilhoso ser surpreendida naquele momento, tão emocionante ouvir o anúnicio!

Você chegou bem cabeluda, fazendo beicinho, à primeira vista, parecida com sua prima do Brasil (só Mamãe achou isso, ninguém mais). Pesou 3,485 kg e mediu 52 cm. Não é pouco para uma menina, mas o segundo filho acaba sendo comparado com o primeiro e, como seu irmão nasceu bem maior (56 cm) e mais pesado (3,820 kg), a gente achou você miudinha. Não foi separada da Mamãe, veio para a maca junto com ela a caminho da sala de recuperação. Com a ajuda de uma enfermeira maravilhosa, mamou por 40 minutos e ficou bem alerta o tempo todo, só foi dormir mais de 3 horas depois.

Durante a gravidez, seu pai e sua mãe nem conversaram sobre que possíveis nomes dariam a você. Mamãe é prática demais para fazer duas listas de nomes, uma para menino e outra para menina, parece um desperdício de uma lista inteira. Seu irmão, cujo sexo era conhecido desde 17 semanas de gestação só foi ter nome com 6 dias de nascido e mesmo assim, na prática, é chamado de Filhote até hoje. Só conversamos sobre nomes já na emergência da maternidade, mas seu pai estava tão nervoso, indo ao banheiro a cada 3 minutos, que parecia que a grávida era ele. Quando o anestesista falou "morfina", ele perguntou "e quando recebo a MINHA dose de morfina?" Enfim, logo depois que você nasceu, Mamãe queria Clarissa, seu pai queria Isabella, acertamos em Marina, que é um nome comum tanto no Brasil quanto na Sérvia e não é impronunciável em terras canadenses, mas Mamãe gosta mesmo é de apelido (deve ser trauma de infância, que na casa dela ninguém tinha um). Tão mais fácil escolher nome de menina!





Foi a parteira, na sala de recuperação, quem primeiro notou: "ela tem a língua presa. Precisa cortar o freio". Ora, sua mãe cresceu ouvindo que nasceu com a língua presa, nunca foi cortada, logo disse que só iria cortar se desse problema. E foi o que aconteceu. Você não conseguia mamar, sua língua tinha formato de coração, nem saía da boca. O pediatra cortou o freio, dois dias depois, quando Mamãe, já com os mamilos feridos, concordou. Você chorou mais para ser segurada do que pelo corte e saiu uma gota de sangue, segundo seu pai (pode acreditar, você vai ver, ele é do tipo que chora convulsivamente quando o bebê dele toma vacina, se tivesse sangrado muito, ele teria ficado arrasado).

Você levou muitos dias para aprender a mamar (dá um livro esta parte). Três anjos, cujos crachás diziam "consultoras de lactação", vieram aqui em casa. A sorte é que Mamãe sempre teve absoluta convicção de que tem muito leite e nunca passou pela cabeça dela desistir ou dar leite artificial. Você ganhou quase 900 gramas no primeiro mês, só com o leite materno, o que é ótimo, considerando todas as dificuldades que teve nas duas primeiras semanas. E o congelador está cheio de leite.

Você gosta mesmo é de colo. Adormece facilmente durante o dia, se a gente pegá-la no momento certo. Seu ruído preferido é o da secadora de roupas. Já virou rotina um adulto embalando você de frente para a secadora ligada. Você tira longas sonecas durante o dia, de 3 horas ou mais, se estiver pendurada no sling. Adora bater perna na rua, pendurada. Com 5 dias de vida, foi com a Mamãe no sling, buscar seu irmão na creche e, desde então, sai todos os dias de casa assim. Chama a atenção dos curiosos, com sua cabeça cabeludinha de fora do sling. "Olha que neném novinho", o povo aponta, cochicha e vem perguntar sua idade. Fica quietinha passeando no carrinho, mas não dorme. Tem dificuldade em adormecer no peito, porque o leite sai rápido demais (estou falando que dá um livro a parte da amamentação), prefere ser embalada para pegar no sono.

Seu coto do umbigo demorou longos 17 dias para cair.

Você ainda tem os reflexos de recém-nascido, levanta os braços quando se assusta (seu pai diz que é treino de kung fu) e faz aquela expressão assustada de neném novinho. Passa o tempo todo em que está acordada colocando a língua para fora da boca, praticando o movimento que antes não conseguia fazer. Já sorri para as pessoas, principalmente para seu irmão.

Como nos tempos da boneca Mimadinha, Mamãe adora embalar e cantar para você dormir (Chico Buarque e Legião Urbana já estão nos seus favoritos). A Baka outro dia chegou aqui e perguntou "mas você fica o tempo todo com ela no colo?" Se Mamãe não estiver cozinhando, você fica no colo ou no sling durante o dia. E ela só cozinha se você não estiver chorando, claro. Você vai crescer tão depressa, Mamãe adora aquela sensação da cabeça pequenininha aninhada perfeitamente entre o pescoço dela e o ombro, então por que não aproveitar? Sua mãe e seu pai (e sua tia maravilhosa que veio do Brasil só para a sua chegada) não acreditam que exista "colo em excesso", nem que isso possa "estragar" um bebê.

Você chorou duas vezes para tomar banho. Na terceira noite, já estava relaxada na banheira e curte este momento até hoje. Seu pai deu todos os seus banhos, desde o primeiro, ainda na maternidade. Mamãe dá banho só quando há um acidente de vazamento das fraldas durante o dia (e ela adoraria dizer que são raros os code brown, como falamos aqui desde que seu irmão tinha a mesma idade que você, mas acontecem muito).

Você tem dormido entre 5-7 horas seguidas de noite. Às vezes acorda depois disso e decide ficar um tempo conversando ou chorando, até pegar no sono de novo, mas noite passada acordou para mamar depois de 7 horas de sono e dormiu imediatamente. Já teve 2 ocasiões de passar muito da hora de dormir e seu pai levá-la para dar uma volta de carro. Você não reclama para ficar na cadeirinha do carro.

Seu cabelo é tão comprido que já dá para colocar presilhas. Será que vai mudar de cor, como o do seu irmão? Aliás, você não nasceu parecida com ele, mas em algumas fotos dele com a sua idade, vocês estão muito parecidos, só que você tem muito mais cabelo.

Você nasceu com várias bolinhas brancas no nariz, que em inglês chamam-se "milia" e devem desaparecer até o terceiro mês de vida. Vovô disse que Mamãe tinha as mesmas bolinhas no nariz e sumiram sozinhas.

Você é muito barulhenta. Quando se espreguiça, faz um ruído com a garganta, parecendo pigarro de fumante (agora mesmo está cochilando e pigarreando sempre que estica o braço). Tem crises de soluço umas dez vezes por dia (eram vinte, no início), arrota muito alto e golfa depois de todas as mamadas. Seu irmão dá sonoras gargalhadas de tudo isso, acha graça em tudo o que você faz. Está apaixonado por você.

Muito obrigada por fazer parte das nossas vidas, tornar nossas noites mais movimentadas, nossos dias mais cheios de ternura e nossa família mais unida. Nada tem o potencial de unir tanto uma família quanto o milagre da chegada de um bebê. Mamãe, além de tudo, está curtindo muito o universo feminino em versão miniatura (os sapatinhos da foto foram uma delícia de comprar, assim como todo seu guarda-roupa).

Abraço bem apertado, sonhando com tudo o que ainda vamos viver juntas,

Mamãe"

15 novembro, 2010

Comendo por Dois

Nutriz, lactante, não interessa que nome queiram dar ao seu estado. Se tem um bebê novinho em casa e amamenta exclusivamente, você é oficialmente uma morta de fome.

A noite mal dormida não diminui em nada seu apetite. Antes de todos levantarem, você já está tomando seu primeiro café com leite e comendo muitas torradas com manteiga e geleia (com ou sem criadagem que prepare para você). Aí toma banho, tira aquele sutiã com cheirinho de azedo, o pijama com os dois ombros vomitados (o quê? Vai dizer que seu rebento é como o da minha colega, que nunca golfou na vida? E também só deixa morangos na fralda, que por sinal nunca vaza?) e volta para traçar "waffles", ovo quente, suco de laranja e iogurte junto com a família que, inexplicavelmente, deve estar com anorexia coletiva porque fica só nos "waffles".

Passa a manhã inteira pensando no lanche das oito horas (sim, já são sete e meia, ninguém come de novo nesta casa?), no das dez e no que vai fazer para o jantar, enquanto mastiga umas castanhas de caju, aproveitando o fato de que o bebê está finalmente tirando uma soneca no berço.

Pendura o bebezinho no sling (santa invenção, como é que alguém sem babá e sem ajuda cria um bebê sem sling?) e sai para resolver mil coisas na rua. Cá pra nós, nada urgente, mas sair de casa é preciso. É novembro, está fazendo sol, sabe lá quantos milênios vão passar até que isso aconteça novamente?

E aí, depois de passar nos correios, na futura escola do filho, na loja para comprar uma blusa que permita a saída dos peitos com um mínimo de pudor para esconder as pelancas ao sul da fonte de leite, você decide que merece um almoço decente. Passa na porta de um bistrô novo. Ah, é muita tentação!

Tem no cardápio um "lunch special": entrada, prato principal e sobremesa por 21 dólares. É este mesmo. "O quê? Só pode escolher UM de cada?" Você já liquidou todas as oito fatias grandes de pão que estavam na cesta (sim, gente morta de fome conta as fatias antes de atacá-las) com a manteiguinha (manteiga de restaurante francês costuma ser mais gostosa) quando finalmente chega a sopa. Neném pendurado no sling faz um "ué", você levanta, dá uma voltinha pra lá e pra cá, a mesa de gente elegante olha com curiosidade (ou seria estranheza?), volta e enfia uma colherada de sopa na boca. Senta, neném resmunga, levanta, dança no ritmo da música ambiente, acaba a sopa. Senta, chega a massa, dá uma garfada, dança, caminha e assim vai até comer a última raspa de mousse de chocolate com sorvete de maracujá (onde arrumaram maracujá azedo nesta terra?). Só não lambe os três pratos porque tem medo de pingar na cabeça do bebê, que dorme inocentemente, como se não tivesse exigido aquela coreografia toda.

Com a conta, vem o elogio da garçonete:
- Você tem ótima técnica! Poucas mães conseguem almoçar e manter o bebê quieto ao mesmo tempo.
- Uma mãe muito faminta consegue.

Sem tempo para delongas, você volta para casa, já pensando em refogar um pêssego na manteiga com açúcar mascavo e jogar por cima do sorvete de baunilha. Não antes sem passar no supermercado, porque você lembra que acabou com o sorvete na véspera (aliás, ou a caixa de sorvete está ficando menor ou você anda comendo 1 litro de sorvete a cada 3 dias).

E, antes que perguntem, você come de tudo enquanto está amamentando, aceita qualquer convite para jantar, desde que o arranjo no centro da mesa da anfitriã seja um buquê de arruda. Sim, porque exatos 11 dias após a cesárea, você já estava cabendo nas suas calças 36. Com 15 dias, dispensou a cinta. Pensando bem, pode cancelar a arruda. A barriga que parece uma geleia de mocotó recoberta por pele de jacaré não dá inveja a ninguém, por mais magrelos que sejam os quadris.

14 novembro, 2010

Como assim não vai descobrir antes?

Não sei no resto do Canadá, mas aqui em Vancouver, mais da metade dos casais canadenses grávidos opta por não saber o sexo do bebê que espera antes do nascimento. Quando o primeiro Pacotinho de Surpresas estava a caminho, no curso de gestantes havia dez casais e somente nós do Iglu sabíamos antecipadamente o sexo do bebê no ventre. Havia um outro casal que queria saber, mas tinha feito o ultrassom antes de vinte semanas e por isso não foi informado. Os outros oito preferiram a surpresa. E, como vejo cesáreas praticamente todo dia e é costume perguntar se a grávida sabe o sexo do neném (quando se tem tempo pra jogar conversa fora e não é cesárea de emergência), minha amostra é bem grande.

Então, por aqui, ninguém questionou o fato de preferirmos a surpresa, mas no Brasil...

Junho/2010

De férias em Fortaleza (ô saudade daquela terra maravilhosa, quero me aposentar por lá), uma total estranha na praia pergunta:
- Você vai ter um menino ou uma menina?
- Eu acho que é menino, mas a gente não sabe.
- No ultrassom não deu pra ver? Por que você não fez outro?
- A gente não quis saber, pediu pra não falarem.
- Mas você não ficou olhando para descobrir?
- Não fiquei não e, mesmo que ficasse, não é sempre óbvio como se pensa.
- O quê? Que absurdo! Do Fulaninho eu vi logo que era menino.
- Pois é, viu porque mostraram e avisaram o que era para ser visto.
- E como você vai comprar as coisas?
- Neném não liga pra que cor de roupa está vestindo. Depois, aos poucos, a gente vai comprando.
- E de que cor vai pintar o quarto?
- Não vou pintar, já está pintado e vai continuar da mesma cor, que o quarto é o mesmo do irmão mais velho.
- Ah, eu acho o fim. Do Fulaninho, eu tinha tudo comprado, o quarto todo azul, no quinto mês.
- Pois é, que bom que as pessoas são diferentes, né?

No sol, na praia, com um coco gelado nas mãos e jogos da Copa no telão, massagem de uma hora por 20 (VINTE) reais, pouca coisa consegue me irritar. Então, achei graça na estranha que sabe o que é melhor para todas as grávidas.

As amigas do Quadradinho (quatro grávidas ao mesmo tempo) também não se conformavam.
- Você é doida!
- Por que? Por que não quero satisfazer a curiosidade de vocês?
- Faz logo outro ultrassom e acaba com esta agonia.
- Que agonia? Eu amo estar grávida, não tem agonia alguma.
- A minha!
- Mas você já sabe que vai ter uma menina.
- Pois é, nem me imagino no seu lugar.
- Não precisa imaginar.
- Mesmo assim fico curiosa, que agonia!

Fico pensando: não fosse o hiato no blog, será que a meia dúzia de leitores também ficaria agoniada?

13 novembro, 2010

O Pacotinho de Espera

Quando ficou sabendo que ganharia "um bebezinho" (nunca usamos a expressão "irmão" ou "irmã", não só por não sabermos o sexo do bebê, mas principalmente para não criar a expectativa de um parceiro de brincadeiras, do tamanho dele), o Pacotinho de Espera jamais perguntou como o bebê foi parar na barriga da Mamãe, nem duvidou da sua existência. A barriga já era visível quando ele foi informado, juntamente com o resto da família e os amigos, uma vez que Mamãe adquiriu o costume canadense de comunicar a gravidez somente no segundo trimestre.

Abril/2010

Com 15 semanas, Mamãe resolve experimentar um vestido de festa, para ver se acomodará o corpo em expansão durante um casamento que acontecerá alguns meses depois. Como a cintura é alta ("empire waist"), tem muito espaço para a pança, a dúvida é se o vestido fecharia nos peitos da Pamela Anderson. E a barriga fica imensa no vestido.
- Estou bonita?
- Sim, está bonita, Mamãe. Posso dar um beijo no Neném?
- Pode.
(ele beija a barriga)
(Mamãe aproveita para tirar uma foto e registrar a barriga crescente, depois troca o vestido por pijamas, que obviamente dão a impressão de que a barriga é bem menor)
(Mamãe chega no banheiro, já de roupa trocada para escovar os dentes do menino e é recebida com cara de espanto)
- Mãe! O Neném já saiu?

***
Maio/2010

Desde o anúncio da gravidez, o Pacotinho de Palpite tinha certeza de que o neném era um menino. Sempre respondia sem hesitação quando perguntado: é menino.

A futura madrinha da criança, ignorando a certeza da Barriguda que dizia estar esperando outro menino, deu de presente um par de sapatinhos cor-de-rosa, com borboletas, "para dar sorte".

Quando viu os sapatinhos, o Pacotinho de Desconfiança perguntou, num tom de ceticismo:

- O Neném agora está uma menina? (língua inconveniente a portuguesa, que tem dois verbos diferentes para o "to be")

Antes que Mamãe pudesse abrir a boca, o Pacotinho de Convicção concluiu:

- Naaaa, está uma meni-NO (idioma complicado este da Mamãe, que tem artigos diferentes antes de palavras femininas e masculinas)!

***

Agosto/2010


Informado de que o Neném iria trazer um presente quando chegasse, o Pacotinho de Ganância não parava de fazer pedidos. A cada comercial de brinquedos na TV:

- Mãe, pode o Bebezinho comprar um nave espacial pra mim? (eita língua difícil, que não coloca o verbo antes do sujeito na pergunta)
- O Bebezinho pode comprar UMA nave espacial? Pode, Filhote.
(outro comercial)
- Mãe, pode o Nenenzinho trazer uma barco de pirata bem grande pra mim? (segundo a Santa Irmã, ele tem 50% de chance de acertar os artigos e erra em 100% das vezes)
- Filhote, o Neném tem a mãozinha pequena, ele não vai conseguir trazer um monte de presente não. Só um.
- Ah, ele traz um nave espacial. No outro dia, ele traz uma barco de pirata. No outro dia, ele compra uma robô bem grande, no outro dia...
- Coitado do Neném, precisa arrumar três empregos ainda antes de nascer, para dar conta da lista de presentes que tem que comprar.

Novembro/2010

Nota: Até hoje, com 6 semanas de vida, "a Bebezinha" continua desempregada, mas os pedidos de presentes para ela já pararam, agora sobrou pro Papai Noel...

12 novembro, 2010

Marte, Vênus e mais um Pacotinho de Surpresas a caminho do Iglu


Fevereiro/2010

Foi uma longa espera. Se o primeiro Pacotinho de Surpresas resolveu vir morar no Iglu na primeira tentativa, o segundo demorou 2 anos para se decidir. Mulher realmente é uma criatura mais, digamos assim, complexa.

Foram inúmeros testes de gravidez, que Mamãe tem dificuldade em acreditar que está grávida. Para dar raiva nas barrigudas que passam mal por 9 meses, ela é daquelas que não tem náusea, nem azia, nem inchaço nos pés, então...

- Ufa, fiz outro teste de gravidez hoje, o mostrador digital indicou "Pregnant. >4 weeks".
- Você está ficando doida. Por que fica fazendo teste toda semana?
- Porque eu não sinto nada, vai que não estou grávida?
- O exame de urina deu positivo, você está sim.
- Mas eu não sinto NADA!
- Da outra vez você também não sentiu.
- Ah, mas da outra gravidez, eu tive um sangramento de implantação do embrião. Desta vez, nada.
- Toda mulher tem isso?
- Não.
- Então está tudo bem, não precisa necessariamente sangrar.
- Ai, que inveja daquela mulherada que acorda de manhã e já vomita. Deve ser muito reconfortante abrir a geladeira e correr pra vomitar no banheiro, tendo a certeza diária de que a gravidez está evoluindo bem.
- Você queria sangrar e vomitar?
- Pelo menos uma náusea, um mal estar, uma vontade de comer sorvete de baunilha com azeitona verde, eu queria ter sim. Aí ficaria tranquila, sabendo que ainda estava grávida.
- Você não está ficando doida, você É doida mesmo! Onde já se viu querer passar mal?
- Ah, você não entende!
- Não mesmo. Coisa boa é ser homem. Pegar o carro, levar a mulher pro hospital e já receber o bebê embrulhadinho num pacote. Anos depois, como diz o Homer Simpson, o filho pede alguma coisa e você diz "primeiro tenho que levar sua mãe ao hospital, agora isso?"
- Eu leio livros escritos por parteiras, pediatras, psicólogos, consultoras de lactação e você tira sua inspiração sobre como criar filhos do Homer Simpson?

Já dizia Rita Lee, "mulher é bicho esquisito".

11 novembro, 2010

Mais um Pacotinho de Surpresas no Iglu

Por onde começar? Como naqueles filmes que começam do final e depois vão explicando a trama em vários "flashbacks". Então, não necessariamente do final, mas a 7/8 dele:

No dia 30 de setembro de 2010 (10 dias antes da data prevista), às 15:15, o Iglu recebeu de braços abertos um presente dos Céus. Chegou através de uma cesariana. Pesou 3,485kg e mediu 52 cm (bem menor que o irmão), com a cabeça mais cabeluda que a de muito adulto por aí.

Muitas semanas antes

Foi uma gravidez maravilhosa (se pudesse pular o parto, eu ficaria grávida todo ano, porque AMO a sensação de plenitude, o corpo arredondado, os movimentos na barriga e o fato de que o mundo fica mais gentil quando se está grávida) e o sexo do bebê foi surpresa até o momento do nascimento, por opção nossa.

Na rua, todos os estranhos arriscavam o mesmo palpite: é menino. Impressionante como até homens desconhecidos vinham dar seu pitaco (isso não é coisa de mulher, não?). Saindo do consultório da dentista, no elevador, passa um senhor:
- Você vai ter um menino, né?
- Não sei, mas acho que sim.
- Ah, eu tenho certeza. Minha mulher teve 3 meninos, sempre ficou igualzinha a você. Isso é barriga de menino.

Parada, esperando o sinal abrir para atravessar a rua, passa uma senhora com sotaque de latina falante de espanhol:
- Seu neném é menino, né?
- Não sei, mas acho que sim.
- Claro que é! Minha filha acabou de ter um menino, ela ficou exatamente como você. Só barriga. De costas, nem parecia que estava esperando neném.

Mamãe aqui também tinha absoluta certeza de que seria outro menino, confirmar no ultrassom pra quê? Gravidez igualzinha. Nenhum enjoo, ou azia, ou edema nos pés. Nenhum grama extra que não estivesse no peito ou na pança. Barriga menor que da outra vez, mas somente na frente. O bumbum, incrivelmente, encolheu. Não fosse o andar de pinguim (agora sem trema, ainda não me conformo), realmente de costas ninguém dizia que havia uma barriga do outro lado.

De volta a 30 de setembro

- Só tenho um pedido. Ninguém fala o sexo do neném até meu marido ver e avisar.
- Tudo bem.
- Uééé, uééé.
(lágrimas escorrendo, que nesta hora a emoção é intensa, qualquer que seja o sexo do bebê)
- É uma menina!
(metendo a mão nos campos estéreis, para ver se era verdade mesmo)
- Tem certeza?
(os médicos dão uma bronca)
- Você está contaminando tudo! Tira a mão daí. Onde já se viu, enfermeira de sala de cirurgia contaminando os campos estéreis!!!!
- Ah, sei lá, gente! Vai que o pai estava nervoso e não sabia mais a diferença entre menino e menina!

Nada, nenhuma surpresa no mundo foi maior do que aquele "it's a girl!" dito num tom de choque. Sim, porque depois de tantos meses ouvindo a Barriguda Convincente dizer que tinha certeza de que era outro menino, o Pai da Criança também se convenceu.

Como nos comerciais do Mastercard: priceless. Se houver outros Pacotinhos de Surpresa entregues por aqui, serão todos recebidos como uma surpresa deliciosa.

O Sumiço e a Volta

Em primeiro lugar, gostaria de pedir imensas desculpas pelo meu sumiço àqueles que liam o blog, ainda que ocasionalmente. Mais desculpas ainda aos que acompanhavam, deixavam recadinhos carinhosos e, mesmo que virtualmente, afeiçoaram-se à turma do Iglu.

No começo deste ano, fui alvo de um episódio lamentável, orquestrado por pessoas que eu julgava amigas verdadeiras e mais uma terceira conhecida (amiga das outras duas), com quem jamais troquei uma linha, mas que se achou no direito de fazer o papel de “justiceira”. Sem entrar em detalhes, porque ainda é algo extremamente doloroso para mim, com base em comentários que eu havia feito, tiraram as palavras de contexto, envenenaram amigos reais que me são muito especiais, envolveram outras pessoas, tudo sob o suposto pretexto de “me ajudar” a esclarecer. Quem me conhece sabe que, apesar de todos os infinitos defeitos que tenho, jamais precisei de alguém para me ajudar a esclarecer algo que eu tenha dito. Saber expressar sinceramente em palavras meus sentimentos é algo que sei fazer, sem falsa modéstia, muito bem.

A coisa toda ocorreu no espaço virtual, inclusive abriram uma comunidade secreta exclusivamente para isso. Como não sou (ou não era) persecutória e nada curiosa, jamais desconfiei de que as insinuações feitas abertamente eram dirigidas a mim. Nenhum dos envolvidos teve a consideração de me avisar, para que eu pudesse me explicar ou me defender. Eu mesma descobri, por iniciativa própria, o que vinha rolando nos bastidores. Tudo feito pelas costas, numa covardia inominável. "Nunca antes na história deste país" eu havia me sentido tão acuada, tão humilhada, tão incompreendida.

Em menos de 12 horas após a descoberta dos fatos, mesmo com a diferença de fuso horário lá no outro hemisfério, eu já havia entrado em contato com as pessoas que me acusaram de difamar (e que estavam compreensivelmente sofrendo muito) e esclarecido o que tinha sido atribuído a mim.

Nunca soube (e atualmente nem me interessa saber) qual foi a motivação dessas pessoas. Nenhuma delas achou que eu merecesse uma explicação. O que mais doeu foi a reação de vários dos envolvidos, que sequer me concederam o benefício da dúvida, mas acreditaram imediatamente na única versão dos fatos que conheceram. Por outro lado, teve quem logo manifestasse total confiança e solidariedade, nem querendo saber da fofoca. A estes últimos, sou muito grata.

Tudo isso aconteceu no começo de uma gravidez, o que talvez tenha potencializado a minha decepção e o meu medo. Tive pesadelos, insônia, nunca havia chorado tanto em qualquer outro episódio triste acontecido na minha vida. Fiquei com estresse pós-traumático, medo de expor qualquer fato ou sentimento, com receio de usarem isso contra mim, detonando-me mais ainda na tal comunidade secreta. Embora essas pessoas não tenham chegado até mim através do blog, mas de um outro espaço virtual, uma delas lia-me regularmente. Não consegui escrever uma explicação aos leitores, imaginando o que ela faria com a informação. Veio um bloqueio total, seguido por uma paranoia. "Se quem eu considerava amigo faz isso, o que farão os outros?"

Passados tantos meses, consigo ver a situação com mais clareza. Eu já tinha o blog anos antes de essas pessoas cruzarem o meu caminho. É algo que sempre me deu prazer e, privar-me disso por conta desse episódio lamentável é tornar minha punição severa demais. Já me torturou o bastante a dor causada nos amigos atingidos pelo rolo. Acabar com o blog seria dar a elas a certeza de que conseguiram não só envenenar muita gente contra mim, mas inclusive envenenar a mim mesma.

Hoje, posso dizer algo que eu não sabia até muito pouco tempo: elas não conseguiram. Os verdadeiros amigos tornaram-se mais amigos. Os que nem quiseram ouvir minhas explicações e acharam-se no direito de acreditar na fofoca não me importam.

O Iglu volta regularmente a partir de hoje, com grandes novidades.

Por favor, não deixem nenhum comentário sobre este post. Gostaria de enterrar esta lama toda, que me causa mal estar físico até hoje, só de lembrar.

Desculpas sinceras e infinitas aos meus leitores mais antigos.