31 dezembro, 2007

Adeus 2007

Adoro Reveillon ! Calcinha nova para dar sorte, todo o mundo vestido de branco, sandália dourada ou prateada, fogos de artifício na praia, festa em ritmo de Carnaval até o raiar do dia... Opa ! Estou falando de quê ? Uma sacudida de realidade seria conveniente, já que:

- branco aqui, na virada do ano, só ser for de neve (graças a Deus onde eu moro a neve nunca dura mais que 2 dias, então nem isso);
- sandália com dedos de fora é ótima para arrumar uma "frostbite" e acabar perdendo a ponta de um dos dedos (aliás, só tenho visto meus dedos do pé no chuveiro, já que no inverno não tiro as meias nem para dormir);
- fogos de artifício somente no verão por estas bandas geladas. Se alguém no universo solta fogos no final do ano, os vancouverites nunca ouviram falar. Francamente, quem é que vai querer passar meia-noite na chuva, congelando os miolos, para ver o que quer que seja ?
- festa em ritmo de Carnaval ? Ha ha ha...

Não sei se o certo é dizer que não há nada mais deprimente que a virada do ano em Vancouver ou que não há nada mais divertido que o Reveillon numa praia brasileira.

Como o Marido Gringo é gringo, assim como seus amigos, arrumou uma festa de Reveillon para ir. 95 dólares por cabeça e eles ainda dizem que "tem 3 DJ's, jantar e champagne". A melhor resposta seria "perdoa estes coitados, porque eles não sabem o que fazem" (nem como gastam o dinheiro). Outra amiga gringa convidou para passar num barco, a 70 dólares por pessoa, mas como bem lembrou o Marido Gringo "se a gente não gostar, tem que esperar até o barco voltar para ir embora".

As melhores viradas de ano da minha vida foram passadas na praia de Copacabana, sem gastar um tostão, com explosão de fogos que dá de mil no fraquinho campeonato que rola no verão por aqui, sem mencionar o show de música gratuito depois. Não passei muitos 31 de dezembro em lugares diferentes, mas nem em NY nem no México foi tão triste como é em Raincouver. E, claro, em nenhum dos três lugares foi tão animado quanto no Brasil.

Ano que vem, se Deus quiser (e Ele há de querer, porque sendo brasileiro, nunca planejou que a virada do ano acontecesse em pleno inverno congelante), estarei com os pés em alguma areia tropical, no meio de uma multidão de pessoas de branco. Acho que até os mais deslumbrados com o Primeiro Mundo hão de concordar que, em termos de celebrações de Reveillon, Carnaval, futebol e Páscoa, não dá para competir com o Brasil. Pensando bem, há gosto para tudo e deve ter algum brasileiro por aqui feliz da vida por não ver nem ouvir nada nas ruas na virada do ano...

Feliz 2008 para os sortudos na terrinha e para os empacotados no Canadá.

26 dezembro, 2007

Papo de Enfermeira

Na hora do intervalo, converso com a minha colega de trabalho favorita, companheira ainda dos tempos de curso. Ela começa:

- Hoje tive um paciente imenso, quase 2 metros de altura, mais de 200 libras, chorando e segurando a mão da gente antes da cirurgia.
- Coitado, deveria estar com medo.
- Não, estava agradecido. Dizia que finalmente teria a sua vida normal de volta, que aquilo significava muito pra ele, que a gente estava dando a ele a chance de recuperar a própria vida.
- Foi o transplante de coração ?
- Não, foi uma cirurgia de hérnia umbilical !

***

- No meu último plantão noturno tive minha primeira cesárea de emergência numa paciente completamente maluca.
- Maluca como ? Paciente psiquiátrica ?
- Não, maluca assim meio alternativa. Gritava que queria tudo natural, mas pediu uma anestesia para não sentir absolutamente nada. Esperou até 42 semanas e 3 dias para concordar com a parteira em vir pro hospital.
- Nossa !
- O melhor você não sabe. Só descobri hoje, falando com o anestesista. Ela tinha 39 anos, mas pediu para ninguém falar a data de nascimento dela em voz alta, porque o marido pensa que ela tem 30 !

24 dezembro, 2007

Feliz Natal



Eu sei, deveria fazer um post contra o consumismo e a comelança no Natal (mas depois de passar dois dias enfiada em shoppings centers e preparando sobremesas, lombo e salpicão, com que moral ?). Poderia falar mal do culto excessivo ao Papai Noel e suas renas (por sinal, depois de 8 anos aqui, aprendi que são Dasher, Dancer, Blitzen, Prancer, Cupid, Comet e Rudolph - esqueci alguém ?), do desperdício de energia com as decorações das casas enfeitadas, bla bla bla. Mas eu não sou o Grinch ! Por sinal, ele não é popular no Brasil, mas o livro do Dr. Seuss e o filme são clássicos por aqui e já aprendi a gostar dele.

Confesso que por muitos anos eu abominei dezembro e suas festas. Gostava de cantar no coral da missa e só. Capricorniano tem o inferno astral exatamente nesta época do ano e o fato de ter o aniversário esquecido por ser próximo ao Natal não ajuda muito. Filhos de pais separados e mal resolvidos ainda têm que lidar com as brigas de quem fica com quem para as "comemorações" (nada menos festivo que conflitos familiares natalinos). Desde criança eu sabia que seria diferente com meus filhos.

Ter um Pacotinho de Alegria em casa faz muita diferença. Ver aquela pessoinha feliz dizendo "Pompas" e segurando um trenzinho de brinquedo até na hora de dormir faz valer a pena a fila imensa no caixa da Toys R Us e até a pateta da vendedora que manda a gente desistir dos brinquedos sem código de barras.

O cara que disse "deixai virem a Mim as criancinhas" realmente sabia das coisas. Eu sempre fui fã dEle, mas não curtia seu aniversário. Só que depois que as criancinhas vêm a nós, a data passa a ter muito mais sentido. De paz, de harmonia, de esperança, de fantasia, de confraternização. Atualmente adoro o aniversário deste também capricorniano que dividiu os tempos em antes e depois dEle.

Feliz Natal !

PS: Antes que perguntem o que é "Pompas", a tecla SAP avisa o óbvio. "Pompas" é "Thomas, the tank engine", claro ! Depois de Bó (Bob, the builder), é o personagem favorito do Pacotinho da Programação Infantil na TV.

PS-2: Uma consulta ao Dr. Google, PhD, mostrou que esqueci das renas Vixen e Donner. Ops ! Espero que meu presente não se atrase por conta de 2 renas emburradas.

22 dezembro, 2007

O Pacotinho de Vingança

Sábado de manhã. O Pacotinho da Madrugada acorda às 06:00. Mamãe pega-o no quarto dele e desova-o na cama dela, onde Papai dorme profundamente. Só assim continuam a dormir até um horário mais compatível com a vida produtiva, digamos, 07:00. Pontualmente às 07:05, o Pacotinho de Acrobacias começa a pular nos corpos praticamente inertes ao seu lado. Até 07:30, ainda se finge de morto, mas depois disso, Papai sai do quarto arrastado pelo seu "despertador matinal".

O telefone celular toca. Papai atende, é do trabalho. Lá do quarto, Mamãe escuta o Pacotinho de Protestos reclamando, porque ele acha que o celular é só dele, ninguém tasca. A conversa é longa, as reclamações acompanham. Quando finalmente acaba a ligação, Papai entrega seu celular ao Pacotinho de Comunicação. Afinal de contas, pode ser que o trabalho dele também esteja tentando entrar em contato. E nisso toca o telefone da casa. Papai corre, procura algum telefone para atender. Difícil correr pela casa quando há uma pessoa de menos de um metro de altura caminhando na sua frente, fazendo suas ligações no celular.

Papai pega um telefone, que está sem bateria. Tenta correr pro outro canto da sala, mas tem um menininho (não falo quem) deliberadamente caminhando devagar no meio do caminho. Acha outro telefone, mas está preso à base (quem será que trancou ?). Por fim, encontra o último aparelho, quando a secretária eletrônica já começava a atender:

- Hello.
- Aô.

Era o Pacotinho de Vingança ligando do celular para casa ! Para bom entendedor, um "aô" basta para dar o recado: se tem algum bobo por aqui, certamente não é ele.

20 dezembro, 2007

A Encaroçada

Menininhas de quatro anos não andam nem correm pela casa, sempre dão saltinhos com os pés alternados. Meninas de treze anos não conversam ao celular, costumam dar gritinhos pelo menos dois tons mais alto que o resto das pessoas. Em meninas de mais de trinta, já passando da garantia, começam a pipocar probleminhas aqui e ali. Umas aparecem com cistos no ovário, outras com pipoquinhas no rosto (já repararam como tem mulher adulta com acne ?) e eu com o meu caroço no pescoço. Como diria o poeta "no meio do pescoço tinha um caroço".

Se estivesse de viagem marcada para o Brasil, nem ligaria. Até hoje pago meu plano de saúde por lá (só moro aqui há quase 8 anos, ainda não tive tempo de me acostumar). Quando estou na terrinha, consulto os especialistas de que preciso e faço todos os exames, cujos resultados trago para casa se não imediatamente, 2-3 dias depois (se forem de laboratório, pego pela internet e até imprimo em casa mesmo), essas coisas de Terceiro Mundo.

No Primeiro Mundo, fiz um exame de sangue em novembro. O resultado, como sempre, a gente não pode ver e vai "direto" para o médico. Duas semanas depois, vou à consulta e cadê o resultado do exame ? Você viu ? Nem o médico. O laudo do ultrassom não está pronto (também pudera, uma semana depois, o que eu queria ?), mas ele consegue ver as imagens no computador do hospital (dica: faça sempre o ultrassom no mesmo hospital onde o especialista trabalha. Se ele só atende em consultório, azar o seu). Na consulta ele diz que quer fazer uma biópsia:
- Quando ?
- Depende de você. Se tiver medo de agulha, a gente marca uma hora.
- E se não tiver ?
- A gente faz agora.
- Mete a agulha aí ! (Que me desculpem os frescos, mas de hora marcada dói menos a agulhada ?).

Ele garante que na segunda-feira o resultado estará disponível (para ele), embora seja quinta-feira e "Cética" seja o meu segundo nome. Não tem Ana Paula e Carla Esther ? Tem Flávia Cética. Na segunda, ligo lá e nada de resultado, nem de médico. Na quarta, a secretária diz que ele está fora da cidade, mas ELA pode dizer que bicho deu:
- Pode ficar tranqüila que não é câncer (gostaria de saber de que faculdade de medicina é o diploma dela).

Segundo meu filósofo pai, não há frase mais preocupante que "pode ficar tranqüilo". Quem nunca ouviu dos mestres de obra "pode ficar tranqüilo que a reforma acaba em 2 semanas" (geralmente leva mais 4 meses depois disso) ? Também já foi proferida por muitos namorados e maridos "pode ficar tranqüila que eu sei o caminho, não preciso perguntar para ninguém e o tanque do carro está cheio". Famosas últimas palavras antes de parar sem gasolina no meio do nada, com a bexiga cheia e a criançada brigando no banco de trás. E a culpa é da mulher, quem manda ter amiga que dá festa lá na Conchinchina ?

E, depois de duas semanas tentando inutilmente saber o resultado da biópsia, cato o médico na saída de uma cirurgia (e quem não trabalha no centro cirúrgico faz o quê ?):
- Desculpa, Flávia, eu recebi seus recados.
- Pois é, quero saber o que deu.
- Olha, não lembro o que deu no exame de sangue (nem eu lembraria, para isso é que na minha terra entregam o exame pro paciente guardar), mas dá para ver aqui no computador o laudo da biópsia. (Pergunta se deu pra ver ? Tanto quanto foi visto o cometa Halley que passou quando eu era criança e nem quem estava sentado no telescópio da NASA viu).
- E aí ? Este troço não dói, mas dependendo da posição em que viro o pescoço, eu sinto o caroço (é um caroço emotivo ainda por cima, fica sentido).
- Eu recomendo tirar. É muito mais sólido do que líquido (pelo menos é um caroço com "sustança"). Liga para a minha secretária, vê como anda a minha agenda e a gente marca.

A loteria está acumuladíssima. Se eu ganhar, digo para a minha chefe que estou tirando férias mesmo que não tenha direito, vou ao Brasil voando de primeira classe e entro na faca por lá. Na remota possibilidade de eu não ganhar, fico na dependência de ser operada por aqui mesmo. Deve demorar ainda uns 3 meses (o sistema aqui é justo: lento para todos), mas pelo menos posso escolher quem vai enfiar o tubo na minha garganta (anestesia geral) e que enfermeiras estarão na sala para esfregar antisséptico nos meus peitos (é, precisa ir sem sutiã e passam um álcool cor-de-rosa do queixo até os peitos - confesso que me incomoda muito mais esta parte que a anestesia geral ou o corte. Coisas de enfermeira...).

18 dezembro, 2007

Cadê o neném que estava aqui ?



Oficialmente, a partir de hoje, não há mais um bebê no Iglu. O Pacotinho de Maturidade, segundo a língua inglesa, passa de "infant" para "toddler". E Mamãe, que não por acaso é capricorniana, segue na contramão da maioria das mães que conhece (como diz o Vovô, ela só é maioria quando está na torcida do Flamengo, porque de resto, é sempre da turma do contra). Desde a gravidez, não tinha pressa de que o neném nascesse logo. Nos primeiros dias da chegada dele, não ficava torcendo para que ele crescesse rápido. Jamais esperou ansiosamente que ele rolasse/sentasse/engatinhasse/caminhasse/falasse. Esta semana quando ouviu da mãe de uma criança pouco mais velha que seu Pacotinho de Tempo Que Voa, "não vejo a hora de a minha filha trocar os dentes", concluiu que saiu de uma costela diferente de Adão. Definitivamente não veio da mesma costela de onde saiu o resto da mulherada. Resumindo: não tem absolutamente pressa alguma de que o tempo passe.

Se Mamãe pudesse, teria congelado o Pacotinho de Fofura quando ele tinha 6 meses (na verdade, ela queria congelá-lo desde que ele nasceu), como nesta foto, durante as férias no Brasil. Ela acha que nunca na vida um filho dá menos trabalho do que aos 6 meses de idade. No ano passado, exatamente neste dia, seu Pacotinho de Aventuras viajou de Vancouver a Brasília sem chorar nenhuma vez ao longo do percurso, feliz da vida, pendurado no canguru. Durante a comprida estadia, os anfitriões comentavam o quanto ele era um bebê "fácil", que comia de tudo e raramente chorava. Atualmente ela acha que ir com ele ao supermercado já é uma aventura de alto risco.

E, para a sua surpresa, apesar do trabalho triplicado da fase atual, Mamãe também não está com pressa de que o tempo passe. Fez uma lista das palavras do vocabulário do Pacotinho de Retórica (sim, ela encontra tempo para isso), com cerca de 40 palavras. Ele tem conseguido o que ela mesma, dois semestres de aulas de português na UBC e uma viagem ao Brasil não conseguiram: ensinar português ao Pai Gringo. Como diria o próprio professor, batendo palmas ao final de qualquer conquista: "bavô" ("bravo", uma das poucas coisas que fala na língua paterna).

Com uma serenidade jamais vista antes em sua vida, Mamãe não se preocupa com a fase de faquir em que se encontra o Pacotinho de Seletividade Alimentar. Tendo sido ela mesma uma criança chatérrima para comer, encara sem descabelar-se o fato de que o menino só quer viver a pão, iogurte e frutas. Aliás, melhor que ela, que só comia tomate, miolo de pão e maçã em certas fases da vida. Sabe, não sem uma certa melancolia, que isso também é uma fase e que vai passar.

Por que os filhos crescem ? Por que não continuam para sempre pequenininhos, querendo nosso colo e acreditando que com um abraço os pais podem resolver todos os seus problemas ? Por que aquele momento de passar no quarto e deparar-se com aquela pessoa minúscula dormindo serenamente não pode ser repetido em todas as noites da vida ? Por que a Mamãe já sabe que para o resto da vida vai sentir saudade daquele garotinho espalhando o lixo pela casa e escondendo biscoitos debaixo do sofá ?

E, nesta semana em que recebeu a notícia de que a filha de um casal de amigos nasceu com sérios problemas, necessitando de cirurgia nas primeiras horas de vida, mais do que nunca, Mamãe comemora os 18 meses de vida do seu Pacotinho de Saúde. No seu caso, a cegonha veio bêbada e causou um estrago danado na aterissagem, mas a encomenda veio perfeita. Graças a Deus, que também está olhando pela nova amiguinha lá no Brasil. Amém.

15 dezembro, 2007

Sparkle, Sparkle

"Sparkle" = verb (used without object)
–noun 1. a little spark or fiery particle.
2. a sparkling appearance, luster, or play of light: the sparkle of a diamond.
3. brilliance, liveliness, or vivacity."

No popular, "sparkle" = purpurina.


Aconteceu no último plantão noturno, de uma longa leva de seis. Quatro noites ocupadíssimas, uma tranqüila (mas depois de passar quatro acordada, quem consegue dormir às 2 da matina ?) e a última, para ficar na memória.

Parecia que seria moleza. Só uma amputação na lista de emergências, ou seja, em quarenta minutos, estaríamos à toa. E aí o anestesista chega esbaforido da maternidade, avisando "vamos ter uma cesárea mais tarde. Acabei de colocar uma epidural, mas a mulher é doida." Claro que a traumatizada aqui tinha que defender a moça, compadecer-se da sua dor e dizer que provavelmente ela não era doida (quem tem quadril 42, marido de cabeça pequena e faz filho com menos de 3,5 kg, que nasce na terceira contração forte, pode dizer que a dor do parto é quase um orgasmo, que a mulherada é cheia de frescura, que "dor" nem é o termo correto, já que é um leve desconforto passageiro, completamente esquecido assim que o bebê nasce, bla bla bla... Mas vista a minha calça 36 e dê a luz a uma criança cabeçuda de mais de 3,800g e 56 cm arrancada a fórceps. Depois vem me contar como foi). O anestesista respondeu com a melhor definição de loucura que já ouvi: "Flávia, o quarto está cheio de luzes de Natal, essências aromatizantes, uma parteira, uma doula e uma aromaterapeuta. Todas acham que a mulher é doida. Se uma aromaterapeuta acha que alguém é doido, é porque a pessoa é mesmo."

Quatro horas depois liga a obstetra pedindo uma cesárea de emergência. Em cinco minutos, tudo estava pronto. Quarenta minutos depois, nada de chegar a paciente. Um telefonema para a maternidade confirma que ela "não estava pronta". Claro, com 42 semanas e 3 dias de gestação, depois de recusar a indução do parto e teimar em ficar em casa contra a recomendação da parteira, ela precisava de tempo para se preparar !

Aguardo no meio do caminho. Surge uma moça vestida com a roupa da sala de cirurgia, que me pergunta pela paciente. Quando digo que não chegou, ela diz "ela é doida". Pergunto se ela é a aromaterapeuta, mas num tom meio ofendido, escuto "sou a parteira e raramente digo que alguém é doida, mas ela é. Há 3 dias tento convencê-la a vir para o hospital, mas ela recusa até que eu escute o coração do bebê, depois de 36 horas de bolsa rota."

E eis que surge a moça. Ruiva, nem bonita nem feia. Doida. Gritava que estava com dor no pescoço, que não queria que ninguém dissesse a ela o que aconteceria na cirurgia e, entre uma frase e outra, repetia "Sparkle, sparkle, like a waterfall down my leg". A residente da anestesia jura que deu uma dose suficiente para que ela e eu tivéssemos uma cesárea e a outra enfermeira pudesse dormir por 12 horas seguidas, mas a moça berrou o tempo todo. Para o pescoço, o que resolveu foi uma dose do pó de pirlimpimpim que o anestesista fingiu ter dado, já que as drogas convencionais tinham sido esgotadas. A parteira, provavelmente de saco cheio, ficou meio de longe. "Sparkle, sparkle. Que ótimo este remédio pro pescoço ! Que medo ! Sparkle, sparkle ! Alguém me ajuda a respirar. Não tira foto" (esta última frase de uma irrelevância sem tamanho, considerando que nem câmera o marido tinha). O marido, num nível de maluquice semelhante, repetia baixinho o que a moça dizia. Antes de chegar a obstetra (lei de Murphy, teve que fazer um parto exatamente naqueles minutos), ela já gritava "estou sentindo me cortarem, pára !" No total, foi quase uma hora ouvindo "sparkle, sparkle" e eu achando que era uma forma de lidar com a dor, visualizando estrelinhas brilhando. Nunca uma anestesia geral foi tão almejada pela equipe (se não para a paciente, pelo menos para mim, que assim não ouviria o escândalo).

Finalmente nasceu a menina, puxada a vácuo (o uso de ventosa numa cesárea não é raro por aqui). Grandinha, mas nada surpreendente para 42 semanas e 3 dias (lembrei de dar graças a Deus por eu ter entrado em trabalho de parto antes de 40 semanas, senão o menino já teria saído da barriga engatinhando). E o nome ? Um deles já estava escolhido, independentemente do sexo da criança, que era surpresa até o nascimento. "O primeiro ainda não sabemos ao certo, mas o segundo será Sparkle. Isabelle Sparkle ou Ava Sparkle". Ai, meus sais, ou melhor, minha purpurina...

14 dezembro, 2007

Livrando-se da Culpa

Não é falta de inspiração, nem falta de vontade. Não é falta de paciência, nem falta de consideração. São seis (eu disse SEIS) plantões noturnos seguidos, intercalados por dias de sono profundo. Por isso ando sumida.

E como é que alguém que tem filho pequeno e não conta com os serviços essenciais de uma amada, idolotrada, salve salve empregada doméstica consegue trabalhar seis noites seguidas ? Somente depois de concluir com louvor o método flaviano para libertação da culpa.

O método é simples. Você faz a lista das culpas que carrega consigo e prega no espelho do banheiro, para lembrar-se do quanto elas empatam a sua vida. A cada vez que usa o banheiro, vê a lista e faz o juramento de mandar para aquele lugar quem quiser achar que você está errada. Nos casos de participantes já avançados, como eu, nem lista é necessária, porque muitas das culpas que abatem as mulheres muito organizadas jamais me afetaram. Homens raramente precisam do método, já que não são acometidos pelas culpas com a freqüência do sexo oposto. Não é à toa que a palavra "erro" é masculina, mas "culpa" é feminina.

Na semana de plantões noturnos, não sinto culpa por:

1- Passar o dia inteiro de pijama, dormir das 08:30 às 4 da tarde e continuar vegetando até às 5, assistindo ao programa da Oprah (para isso, basta deixar o telefone, o controle remoto e uma garrafa de água na cabeceira da cama);
2- Optar sempre por dormir, quando a escolha é "comer ou dormir";
3- Acordar às 4 da tarde sem ter a menor idéia de que nevou a manhã inteira, a neve virou chuva e já não há indícios dela do lado de fora;
4- Mandar o Pacotinho de Redistribuição de Lixo (da lixeira para o resto da casa) para a creche, mesmo com a Mamãe estando em casa o dia inteiro;
5- Manter a casa bagunçadíssima (sim, requer manutenção. Se você tirar um dia para arrumar, perde o tempo precioso de dormir e descaracteriza o ambiente, correndo o risco de procurar o brinquedo do neném na caixa de brinquedos, quando você sabe que o lugar certo é em cima da pia da cozinha);
6- Comer comida congelada ou trazida de um restaurante pelo Marido Que Trabalha Em Horário Normal;
7- Deixar a roupa suja acumular-se em grandes pilhas nos cestos (para isso, é preciso contar quantas peças de roupas limpas serão necessárias para as 6 noites trabalhando e os 6 dias vegetando antes de começar a semana, coisa que fica automática com o treino intensivo do método);
8- Dar saltos de alegria quando a enfermeira do plantão anterior avisa "nenhuma emergência na lista". Não dá a MENOR culpa receber o salário para ficar deitada sem fazer nada ou navegando na internet, já que isso acontece tão raramente;
9- Chegar de manhã cedo zonza de sono, dar um abraço no Pacotinho de Energia e chamar a babá para ficar com ele, enquanto a Mamãe chapa no sofá e o Papai toma seu banho de noiva. A babá atende pelo nome de Miss Canal Cinqüenta e Seis.

Os item 5 é permanente, mesmo após várias semanas consecutivas de plantão diurno. Cada um procura libertar-se das culpas que carrega, não dá para resolver os problemas da humanidade toda.

E, quando acabar a maratona de noites, a loteria de sábado terá sido sorteada. São 27 milhões acumulados. Como é bolão e tem muita gente apostando junto, não daria para uma aposentadoria precoce, mas dá para garantir meu pedido vitalício pro Papai Noel: uma empregada doméstica em tempo integral !

09 dezembro, 2007

A Via Sacra Até o Papai Noel

Se você é daquelas pessoas organizadas, que no dia 1 de dezembro já tem todos os cartões de Natal prontos para serem enviados, não vai se identificar em nada com o texto. Aliás, você deveria sentir-se muito mal por fazer o resto da humanidade parecer tão desleixada ! Só falta dizer que sua casa está impecavelmente limpa e decorada para o final do ano !

Já é dezembro. Há várias semanas você tenta organizar a família para tirar uma foto de Natal e preparar um cartão personalizado, como no ano passado. Finalmente você liga para seu estúdio favorito e descobre que não há vagas até o final do mês. Então, numa decisão de pobre, opta por ir ao "shopping" para tirar uma foto com o Papai Noel.

Vinte minutos antes da abertura, Papai Noel ainda não está a postos, mas você e sua tropa estão. Inexperiente, vê que não tem fila e concorda quando o marido sugere levar seu filho para gastar energias no parquinho ali perto. Péssima decisão. Meia hora depois, parece que metade da população da cidade está na fila com seus pimpolhos.

A fila tem de tudo, menos fim. Você dá graças a Deus por ter o marido a tiracolo, porque ficar em fila com uma criança de 1 ano e meio é trabalho para dois adultos, no mínimo. Enquanto você aguarda sua vez e o marido corre atrás da saltitante criatura, a senhora na sua frente comenta "é tudo uma questão de treino. Quando meu filho tinha 1 ano, eu dizia a ele que tinha hora de correr e hora de esperar. Ele sempre obedecia". Claro, o filho dela é quase um ancião, já tem até dois dentes definitivos na frente ! Fácil falar quando seu filho está fazendo doutorado e provavelmente já mora fora de casa há muito tempo.

Atrás de você, como não poderia deixar de ser, há uma mãe com uma garotinha de 1 ano e 2 meses, comportadíssima, sentada no carrinho. E o seu filho ? A cada minuto e meio aparece com uma coisinha na mão dizendo "piz". Que sorte ninguém ali entender português ! "Piz", como qualquer falante da língua de Camões bem sabe, significa "luz" e o que ele está dizendo é que arrancou as luzinhas da decoração da árvore de Natal (quem disse que esperar em fila não é instrutivo ? Você agora já sabe que as luzinhas são removíveis). O irmãozinho da santinha fala pro seu filho: "you can't do that. Leave the decorations alone. Just go away !". Ai, que orgulho, tão novinho e já fazendo as próprias amizades.

A fila é no estilo parque da Disney. Dá voltas e mais voltas. Há televisões mostrando a versão original do "How The Grinch Stole Christmas", mas estão no nível dos olhos dos marmanjões - leia-se "crianças de 5 anos para cima" - e seu filhinho não consegue enxergar, então ele prefere continuar arrancando os enfeites, enquanto anuncia suas coletas em voz alta: "piz" (lá se vai outra luzinha), "bóua" (uma bolinha da árvore, você prefere nem olhar), "neném" (tirou o sapato da menina no carrinho, que nem decorativo era)...

Um garotinho na fila pergunta "por que está demorando tanto ?" E você, de intrometida, diz "porque o Papai Noel é muito ocupado". O menino diz "é mesmo, ele visita TODOS os shoppings" (a gente não deve destruir as fantasias dos filhos dos outros, mas se aquele velho gordo folgado estivesse em TODOS os shoppings, a fila aqui estaria bem menor. Que menino sem noção !).

Para saber se uma criança está comportada ou não numa fila, basta perguntar-se a si mesmo no final de 10 minutos: "eu sei o nome do menino atrás de mim ?" Se a resposta for "sim", provavelmente é porque ele estava pendurado onde não deveria, enquanto a pobre mãe insistia para ele descer. E claro, a fila inteira já sabe o nome do seu filho nos primeiros 2 minutos de espera.

São eternos 40 minutos de exercícios forçados. Você já seguiu seu filho até a loja mais próxima e comprou um brinquedinho que ele pretendia não devolver. Já catou o menino no pé da escada rolante. Já o impediu de revirar a lata dos recicláveis ("impediu" é força de expressão, que você chegou meio tarde). Já o acompanhou na coreografia de "cabeça, ombro, joelho e pé", cantando em voz alta na fila. Já tentou colocar de volta luzinhas arrancadas (elas não acendem depois, viu ?). Finalmente chega a sua vez. Para surpresa de toda a platéia, ele senta feliz da vida no colo do Papai Noel. Sorri para as fotos e ataca a maçã que o bom velhinho está dando de presente, mas como convém à sua fase atual, ele não dá uma dentada sem antes apontar e declarar "apo" ("apple", que ele é metido a gringo e não fala "maçã" de jeito algum).

Você pagou por duas fotos e agora tira uma com a família toda. No final, a moça avisa "uma não saiu boa" e você logo adivinha "meu marido não estava olhando para a máquina ?" Óbvio. A sua família não é composta só de pessoas colaboradoras.

Enquanto você espera suas fotos serem impressas, observa a princesinha que estava atrás na fila aos berros no colo do Papai Noel. E a mãe dela comenta "seu filho comportou-se tão bem !" "Ele é assim, é só falar que tem hora de correr e hora de ficar quietinho. Ele sempre obedece."

04 dezembro, 2007

Procurando Sarna Para Parar de Se Coçar

Oficialmente, o inverno só começa no hemisfério norte dia 21 de dezembro. Na prática, São Pedro ignora isso solenemente e todo ano manda o frio dar as caras antes do Halloween. E, como não poderia deixar de ser nestas bandas quase árticas, com o frio chegam as "delícias" da estação:

- cabelos arrepiados (é tirar o gorro e deparar-se com o Einstein no espelho);
- choques ao encostar no carro (ou outros metais);
- acidentes de carro provocados pelo gelo e por aqueles que não sabem dirigir sobre ele (êta turma tropical barbeira que não aprendeu a dirigir sobre a neve no Rio de Janeiro);
- crianças catarrentas, variando entre o tipo que faz bolhas de meleca pelo nariz quando expira ou o que coleciona crostas de catarro seco nas narinas e nas bochechas, onde foram parar depois de um adulto tentar limpar o que era gosma e agora é casquinha;
- coceira absurda na pele ressecada.

Eu sei que parece uma incoerência uma pessoa como eu, criada em Brasília, naquela seca violenta de maio a setembro, vir reclamar dos efeitos da secura no inverno em Raincouver. Logo alguém que cresceu passando manteiga de cacau nos lábios antes de dormir e pendurando uma toalha molhada na cabeceira da cama (hábitos muito úteis no inverno canadense). Mas não chove 300 dias por ano ? É que os aquecedores ligados dia e noite (sim, o Iglu tem temperaturas tropicais do lado de dentro, de janeiro a dezembro, doa a conta de energia no bolso de quem doer) ressecam muito o ar.

Incoerência mesmo são os cremes comercializados para acabar com a "winter itch" (diga se não parece coisa da turma do Casseta):




E depois de me coçar toda e tentar os hidratantes normais, lá vou eu amanhã à farmácia procurar Sarna para parar de me coçar. Eu sei o que você está pensando: "me amarrota que estou passada ! Com tanto nome de creme, vão colocar justamente 'Sarna' no creme hidratante ! E tem gente que compra !"

Nunca diga "esta sarna eu não quero na minha pele"...

03 dezembro, 2007

Endereço do Papai Noel

O Natal está chegando ! E, mesmo que o verdadeiro espírito natalino não esteja assim tão presente nessas bandas congeladas, o comércio típico da época já está todo preparado há muito tempo. Como no Canadá comemora-se o Thanksgiving em outubro, depois do Halloween a decoração das lojas já é a natalina. Nos Estados Unidos eles só enfeitam tudo depois do Thanksgiving deles, em novembro.

A gente aqui escuta os clássicos Rudolph, The Red-nosed Reindeer e Feliz Navidad de 1 de novembro até o final de dezembro. Em novembro é até legal relembrar as músicas, mas
faltando 2 semanas para o Natal, a galera canadense já está prestes a dar um tiro no sistema de som das lojas, tentando assim dar um descanso aos ouvidos daquela dúzia de musiquinhas repetitivas. Duvido que alguém ouse ligar um CD desses durante a ceia de Natal ! Existe um limite de vezes que alguém pode ouvir o John Lennon cantando And So This is Christmas e garanto que é um número menor que 300. Quem, como eu, trabalha com o rádio ligado, deve saber do que estou falando. E nem venha me dizer que poderia ser pior, com o CD da Simone cantando umas versões esquisitas dos originais em inglês, que aqui tem a Celine Dion azucrinando também. E como ainda é o começo do mês, ainda não estou enjoada de nenhuma delas e encararia até a Simone e a Celine num dueto !

Uma coisa muito legal no Natal canadense são as cartas escritas ao
Papai Noel, que são todas respondidas. O CEP aqui é sempre uma letra-um número-uma letra-um número-uma letra um número e o do Papai Noel, como não poderia deixar de ser é HO H0 HO. Então, envie sua cartinha para

Santa Claus
North Pole
HO HO HO

O comercial na TV diz que, se você é uma criança no Canadá, pode contar com 3 coisas em dezembro:
- vai fazer frio;
- se nevar muito, sua escola vai fechar por uns dias;
- o Papai Noel vai responder a sua carta.

Já mandou a sua ?

P.S.: 1- Uma informação altamente relevante para os costumes natalinos daqui é que "reindeer" não tem plural. "One reindeer, two reindeer".
2- No início da música do Rudolph, falam o nome de todas as renas do Papai Noel, outra informação importantíssima.

02 dezembro, 2007

Os Mascotes Alternativos

O jornal The Province publicou hoje um artigo sobre os mascotes alternativos para as Olimpíadas, com o debochado título de "More creepy mascots that could represent Vancouver". Infelizmente os desenhos não estão disponíveis on-line, somente no jornal.

A matéria é hilária e, dentre os mascotes alternativos, meu voto vai para Weedy, o mascote que está sempre feliz, não trabalha, pratica "snowboarding" em Whistler (vai até lá dirigindo um BMW e fica hospedado num chalé, ambos do amigo Righty, o mascote que representa a classe rica da província) e adora a escola. Tanto adora que já freqüenta a UBC há 8 anos. No desenho, Weedy parece-se com aquele personagem dos Simpsons, o Sideshow Bob, só que no mascote, os "dreadlocks" são folhas de coca.

Na boa, se eu cansar do hospital, vou mandar uns artigos para o jornal, é capaz de eu conseguir uma boquinha !

PS: "weed" é uma gíria em inglês para maconha.