30 abril, 2007

O Material Escolar

Como Mamãe já recebeu a lista e semana que vem iniciam "as aulas" do Pacotinho de Estripulias, final de semana passado foi de compras (para desespero do Papai Sem Paciência para Compras). E no seu primeiro dia, o Pacotinho de Apetrechos vai à creche carregando meia casa nas costas, cheio de tralhas impensáveis para Mamãe, que morre de saudades da longa seca do Planalto Central:

- um par de botas de borracha;
- um par de sapatos para "dentro de casa";
- um par de sapatos para "fora de casa";
(para quem está contando, já são 3 pares de calçados, sendo que ele nem caminha sozinho ainda !);
- uma capa de chuva, com calça de borracha;
- fraldas (Santa Pampers que vende caixas com mais de uma centena);
- lencinhos umedecidos (outra caixa que vem literalmente com milhares);
- creme contra assaduras;
- protetor solar;
- chapéu de verão;
- duas mudas de roupa;
- foto dele, para colocar na frente do "armário", possibilitando que ele mesmo encontre suas coisas (se funcionar, vamos institucionar em casa também, colocando uma foto da Mamãe nos lugares onde ele NÃO pode mexer);
- sacos vazios de supermercado (a creche solicita doação porque o regulamento exige que cada fralda seja embrulhada separadamente antes de ir para o lixo).

E pensar que se ele estivesse lá na Capital Federal, passaria os primeiros 4 meses na creche sem ver chuva nem pela janela, mas aqui precisa de capa de chuva e botas para poder brincar na lama. Coisas de gringo...

29 abril, 2007

É como acertar na loteria - 2

Finalmente, depois de preencher uma tonelada de papéis (e derramar lágrimas ao "descrever a rotina de sonecas do seu filho"), chega o dia de Papai e Mamãe visitarem a creche.

Preparados para o pior, tiveram muitas surpresas agradáveis, a começar pela reunião com a diretora, dentro do recanto dos pequeninos. Ao invés da surra de chicote na entrada, foram recebidos por crianças felizes, sorridentes, num ambiente gostoso. Enquanto Papai fazia mil perguntas, Mamãe procurava entre os brinquedos livros "comestíveis" (de papel), mas só avistou literatura apropriada ao seu Pacotinho Literário: romances emborrachados e mistérios em tecido.

E toda a inflexibilidade antes de ter a vaga assegurada transforma-se quase num jeitinho brasileiro (acho que eles fazem assim, para a gente aprender a valorizar a surra não aplicada). Os pais recebem uma chave para entrar no prédio quando quiserem. A fase de adaptação é guiada pelos pais, parece casa de avó: pode tudo. Há até um vidro espelhado, daqueles de interrogatório de filme policial, para ficar espiando a criança sem que ela os veja. Pode deixar a criança a qualquer hora depois das 07:30 e buscar quando quiser, desde que seja antes das 18:00. Pode trazer almoço de casa ou pagar mais para ter o almoço fornecido por eles. A qualquer dia, a qualquer hora, os pais podem aparecer para passar um tempo com a criança.

E nos poucos dias de sol nesta terra, as crianças saem, em carrinhos quádruplos, para passear à beira d'água (recuso-me a chamar aquela baía escura de "praia").

E, quando a diretora perguntou: "como é o seu filho ? Se ele estivesse aqui agora, estaria agarrado às suas pernas ou explorando o ambiente ?" Mamãe e Papai responderam orgulhosamente: "Já estaria escalando aquele escorregador ali".

E pensar que, quando o Pacotinho de Surpresas era recém-nascido e só dormia de dia pendurado num canguru, teve muita gente que disse "neném que fica muito tempo no colo fica dependente demais" ou "tem que deixar chorar, se pegar no colo toda vez que chora, a criança fica manhosa". Ou a minha favorita: "ele NUNCA vai se acostumar a dormir de outro jeito" (sabe-se que há várias pessoas acima de 18 anos que só dormem penduradas nos pais, em cangurus gigantescos, é quase uma seita). Ainda bem que Mamãe preferiu seguir o Dr. Sears a ouvir palpites dos outros. E hoje pode comprovar o que ele disse "o choro é uma forma de comunicação. O bebê que é atendido sempre que chora aprende a confiar nos pais, chora menos e fica menos dependente, porque sabe que suas necessidades serão atendidas". Taí o Pacotinho de Independência para provar, estamos achando que antes de completar 3 anos ele já vai alugar seu próprio apartamento e sair de casa. Por ora, ele chega num ambiente cheio de crianças e sai sozinho, nem lembra que tem mãe !

Vamos ver como vai ser a adaptação da Mamãe à creche...

27 abril, 2007

É como acertar na loteria

"Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá

Certo ou errado até
A fé vai onde quer que eu vá
Ô-ô
A pé ou de avião
Mesmo a quem não tem fé
A fé costuma acompanhar
Ô-ô
Pelo sim, pelo não"
(Gilberto Gil)


Antes de mais nada, alguns números relacionados às creches no centro de Vancouver:

- há 4 locais que aceitam crianças antes de 18 meses de idade;
- cada um dos locais tem vaga para no máximo 12 crianças nesta faixa etária;
- o tempo médio de espera para uma vaga é de 1 ano e meio;
- o governo local cortou em 175 mil dólares o pouco auxílio que dava às creches sem fins lucrativos;
- a mensalidade para uma criança até 18 meses que fica na creche em tempo integral subiu para 1100 dólares, sem fraldas nem comida fornecidas pela instituição.

Tendo dito isso, há que se compreender a felicidade com que Mamãe recebeu o telefonema da creche que fica a exatos 5 minutos a pé do Iglu (no passo da Mamãe ou 10 minutos no passo do Papai), oferecendo uma vaga para meados de maio ! E, como os coordenadores do "daycare" estão com a faca e o queijo na mão, as regras não são nada flexíveis:

- você tem 48 horas, a partir do telefonema de oferta de vaga, para aceitar ou recusar;
- você não pode visitar a creche para conhecer as instalações nestas 48 horas, "porque caso você recuse a vaga, seria um desperdício do tempo da pessoa que guiou o 'tour' à creche";
- depois de aceita a vaga, você recebe uma papelada para preencher, que deve ser reenviada por fax nas próximas 48 horas, sob pena de perder a vaga;
- se, por algum motivo, a data oferecida de início não for conveniente para você, aceite assim mesmo ou você perde a vez;
- a vaga só está garantida até a criança completar 18 meses, quando fica muito idosa para o programa e deverá aguardar vaga para a turma dos mais velhos (até 3 anos incompletos);
- e você, desesperada que está, sabendo que a babá custa mais caro ainda, concorda com tudo, fica surpresa que seja permitido visitar a creche antes da data de início e acharia normal até se a última cláusula fosse "a creche reserva-se o direito de aplicar uma surra na mãe".

Eita que este Pacotinho de Esperança é pé quente, sô !

26 abril, 2007

O Pacotinho Literário - 2

Diálogo antes das 8 da manhã:

- Ontem depois que você foi dormir, fui dar uma volta na rua. Estava um frio !
- Pois é, você chegou e largou um livro lá na mesinha de centro.
- Ah, foi ?
- Foi. E o seu filho, como sempre, aproveitou para devorá-lo.
- Que droga ! Eu ADORO aquele livro.
- Ele também, comeu e repetiu, nem reclamou do gosto nem nada...

24 abril, 2007

O Pacotinho Literário, pero no mucho

Segunda-feira é dia de biblioteca, sagrado para 2/3 dos habitantes do Iglu. E o Pacotinho Literário, que freqüenta o grupo para bebês desde os 2 meses de vida, parece aproveitar muito mais as reuniões agora do que quando ficava só deitado num cobertorzinho. Mamãe, ao contrário, lembra com saudade de quando ele ficava comportado e ela podia prestar atenção às estorinhas e musiquinhas.

Como a sala dos encontros é muito concorrida, ele chega mais cedo para garantir vaga no estacionamento de carrinhos do lado de fora e seu "lugar" dentro da sala (pausa para gargalhadas histéricas, como se ele ficasse num único "lugar" o tempo inteiro). Desta última vez, por algum motivo escuso (o sol lá fora, talvez), havia pouca gente, então ele aproveitou para conferir os livros na parte dedicada à idade dele. Decidiu que os livros não estavam de acordo com as normas de organização e deu uma mão à bibliotecária, reorganizando-os de forma que os outros bebês pudessem facilmente localizá-los. Mamãe estava orgulhosa, pela primeira vez ele não tentou literalmente devorar os livros, como faz em casa...










Já na sala, tentou puxar o cabelo de uns dois ou três bebezinhos (só os completamente carecas estão a salvo perto dele) e, como já era de se esperar, atacou os fantoches nos pés da bibliotecária, que cantava alegremente "Old MacDonald had a farm..."

E, mesmo assim, apesar do cansaço de engatinhar atrás dele (não dá para levantar e correr, quando está todo o mundo sentado no chão), Mamãe sabe que sentirá saudade de tudo isso quando voltar a trabalhar, em pouco mais de um mês...

21 abril, 2007

A Primeira Vez No Chão, A Gente Não Esquece

"Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há ?
Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há ?

Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho
Mas eu vim de lá pequenininho
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho"
(Dona Ivone Lara)

Como faz todas as noites desde a chegada da cegonha, Papai leva o Pacotinho de Imundície para tomar banho depois do jantar, enquanto Mamãe de Licença-Maternidade finalmente tem um tempo para si mesma. E, como faz em todas as trocas de fralda desde que aprendeu a engatinhar (há longínquos três meses), o Pacotinho de Estripulias foge pelado, enquanto o Papai joga a fralda retirada no lixo.

E eis que de repente, não mais que de repente (sempre quis usar esta expressão), Mamãe escuta um grito de desespero vindo do quarto "nãããããoooo". E, já acostumada à arte dramática masculina no momento da troca de fraldas, imagina que seja somente uma tentativa do Pacotinho de Artes Manuais de fazer cerâmica usando um material que parece argila, mas não é. E, quando chega na porta do quarto vê lá estendido no tapete de borracha, entre o alfabeto colorido, o motivo dos gritos de desespero do Papai. Se houvesse cachorro no Iglu, seria tudo obra dele, mas sabendo que não há canino para culpar, Mamãe cai numa gargalhada histérica de uns bons cinco minutos. Pensando agora, teria que ser um cão gigante para produzir uma "torre" daquela altura.

E o Papai, tentando se justificar: "bem que eu desconfiei quando ele saiu pelado, engatinhando de costas, ele NUNCA engatinha de ré..." Quando recuperou o fôlego, Mamãe tentou consolá-lo "podia ser muito pior, um minuto depois, teria sido no seu braço".

20 abril, 2007

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu, momentaneamente chamado de Fã Clube do Pacotinho de Bagunça, responde:

Para Júlia Werneck: sim, ele AINDA adora comer plástico, mas isso agora ocupa um honroso quinto lugar na sua lista. Em primeiríssimo lugar estão os papéis, depois os sapatos, seguidos do "blackberry" do Papai e dos fios do computador.

Para Deby: querida, não se aflija. Não há como derrubar a TV abrindo aquela porta, que fica a uma distância considerável. O interesse maior dele são os fios que passam por dentro do buraco lá no fundo do armário. Ele só abre aquela porta porque o Papai colocou trava na porta ao lado, onde ficam o aparelho de DVD e a maioria dos DVD's. Mesmo assim, ele destroçou as caixas da coleção completa do Sex & The City e Mamãe não ficou muito satisfeita, então, neste final de semana, essa porta ganhará uma trava também.

Para Marcelo: o controle remoto não dá muito IBOPE aqui em casa, por ser limpo demais. Solas de sapato têm muito mais vitamina "S".

17 abril, 2007

Dez Meses !


Faz dez meses que a cegonha passou pelo Iglu, mas parece que foi ontem ! Quem chega aqui e vê a sala imagina que ela deixou sêxtuplos (aliás, passou de novo ontem na TV o casal que teve gêmeas e depois sêxtuplos e a casa deles é bem menos bagunçada, não dá nem para comparar).

E, se você tem um bebê de 10 meses em casa, talvez compreenda as novas regras impostas pelo dono do pedaço:



- a princípio, tudo é comestível, mas o que não couber na minha boca é pelo menos "roível" (os fabricantes de berço, achando-se muito espertos, colocaram uma proteção de plástico na grade, mas eu estou roendo DEBAIXO da proteção e Mamãe levou uma semana perguntando-se de onde saíam aqueles farelos brancos no meu rosto toda manhã, tolinha);



- se a porta do armário abre, é porque minha entrada está autorizada;
- se a porta do armário não abre, é porque foi feita para eu ficar pendurado nela;
- a velocidade para engatinhar é dependente de qual porta está aberta. Se é uma porta que vive aberta, deve-se engatinhar devagar. Se é a porta do banheiro ou do escritório, a quinta marcha deve ser engatada;
- é válido atirar-se de barriga no meio das pernas de quem impede a entrada de outrem num local "proibido";
- todos os brinquedos devem permanecer numa caixa, de forma que possam ser retirados e arremessados para cima num tempo máximo de 2 minutos. A mesma regra vale para roupas no cesto;


- brinquedos barulhentos para irritar os adultos são indispensáveis, mas para garantir a diversão, devem estar disponíveis, em ordem de prioridade: uma fralda suja, a caixa cheia de lencinhos umedecidos para serem espalhados um a um, os fios do computador, o saco de lixo (diversão por dentro e por fora), a vassoura e sapatos, muitos sapatos;
- a reciclagem de papel fica proibida nesta casa. Papel será servido como entrada, prato principal e sobremesa;
- o cereal arremessado ao chão durante o café da manhã deverá permanecer lá até o final do dia, assim há oportunidade para que seja comido por alguém que porventura passe engatinhando;
- as regras poderão ser mudadas a qualquer momento sem aviso prévio.

15 abril, 2007

Marte, Vênus e o Complexo Mundo das Festas Infantis

O Pacotinho de Bagunça ainda não teve seu primeiro aniversário (aliás, anda tão preocupado com o tema da festa, coitado, nem tem dormido direito por conta disso). Portanto, neste assunto, Marte não é o Papai e Vênus não é a Mamãe ! Mudam-se os rostos e o cenário, mas o enredo continua o mesmo, fresquinho, desta semana:

A Tia Coruja vai passar férias no Brasil e leva de presente de Natal uma roupa linda da Branca de Neve para a sobrinha. O aniversário dela é só em abril, mas a mulherada da família planeja tudo a longo prazo. E os meses passam, a fantasia pendurada no armário é constantemente admirada e o assunto da festa da Branca de Neve na escola sempre vem à tona. Vai chegando perto, Mamãe encomenda a decoração da princesa com os anõezinhos, o bolo e escreve os convites da Branca de Neve. Na semana da festa, Mamãe começa um trabalho de convencimento para a aniversariante concordar em permitir que seu cabelo seja arrumado para ficar igual ao da Branca de Neve. E, no dia do aniversário, ao invés de uma menininha vestida com o uniforme da escola, eis que surge na hora do café da manhã a própria Branca de Neve, com o detalhe de que somente metade do cabelo estava penteada (essas princesas de hoje em dia não têm tempo a perder).

- Ela vai à escola vestida assim ?
- Claro, hoje é a festa dela.
- Este vestido é da Branca de Neve ?
- É, a festa é da Branca de Neve.
- Que roupa linda ! Onde você arrumou ?

07 abril, 2007

Marte, Vênus e a Complexa Moda Infantil

A loja de roupas infantis que ela mais ama está em liqüidação. Então, ela deixa o neném com a sogra e vai às compras. A sogra pede que ela compre alguma coisa para a neta que mora longe. Obediente, ela traz a roupa do filhote e da priminha. De noite, mostra ao marido o resultado do "estrago":

- Olha o que eu comprei para o Filhote.
- Legal. Ele já não tem um igual ?
- Tinha um parecido, mas não cabe mais.
- Isso aqui eu comprei para a sua sobrinha.
- Para a MINHA SOBRINHA ? Não vai caber.
- Comprei tamanho 2 anos, ela acabou de completar 1 ano !
- Isso não pode ser para 2 anos, parece menor que a roupa do neném.
- Claro que não, o dele é tamanho 18 meses.
- Então a etiqueta está errada. Ela é grande, não vai caber.
- Isso é uma BLUSA !
- Ah, então cabe sim, achei que fosse um vestido. Parece um vestido, né ?
- Não, parece uma blusa.

06 abril, 2007

Good Friday ?

"Money, que é good, nós num have"
(Queria dizer que é do Falcão, mas não faço a menor idéia de quem seja o autor)

Espero que algum profundo conhecedor das expressões inglesas ajude-me a compreender um dos mistérios da língua: por que será que em inglês a Sexta-Feira da Paixão chama-se Good Friday ? Como diria o autor da frase inicial, "good para quem ?" Por que não "Holy Friday", "Grieving Friday" ou "Sad Friday" ?

Já quebrei os miolos tentando descobrir para quem é boa a Sexta-Feira da Paixão e tenho algumas teorias, além da óbvia (foi boa para Barrabás, o escolhido pela maioria para ser libertado em lugar de Cristo):

- é boa para quem trabalha, porque é feriado;
- é boa para a mãe que fica em casa o dia inteiro com as crianças, porque é feriado e o marido está em casa para ajudar;
- é boa para funcionários de hospital, porque é um dos três únicos feriados que aqui pagam 2.5 da hora normal de trabalho.

Mesmo assim, nada justifica chamar o dia em que Cristo foi crucificado de bom. Quem puder esclarecer o mistério, favor enviar cartas para a redação. Não serão lidas no programa do Faustão, somente publicadas para matar a curiosidade de alguns.

03 abril, 2007

Tem um Avestruz na Minha Sala !

"Criança é igual a videogame: a próxima fase é sempre mais difícil".
(O mantra da mãe, para ver se ela aprende a curtir a fase atual, por mais trabalhosa que pareça)

Você abraçou a maternidade com o dever de casa feito. Já mais madura e menos afoita que noutros tempos, você leu muito, observou os amigos cujo comportamento na criação dos filhos você admirava e decidiu não aceitar palpites infelizes (falando neles, semana passada alguém sugeriu que você colocasse seu filho de NOVE MESES no penico todos os dias, porque já passou da hora de treiná-lo a sair das fraldas - o ideal seria ter começado aos oito meses). Talvez por isso e pelo fato de você ter sido sempre apaixonada por recém-nascidos molinhos com suas caretas engraçadinhas, você curtiu muito cada fase do Pacotinho entregue pela cegonha e nunca teve pressa de que nenhuma fase passasse, ao contrário, nem queria que ele crescesse tão rápido.

E agora, passados nove meses, tem uma fase que você não vê a hora de acabar. Ela já está durando muito tempo e parece piorar a cada dia. É a fase do avestruz. Seu filhote coloca na boca tudo o que consegue levantar com suas mãos e, claro, coloca a boca naquilo que é grande demais para ser carregado por ele. E, a cada vez que você o vê mascando alguma coisa suspeita e tenta retirá-la com os dedos, recebe gritos e choros de protesto. "Tanto trabalho para eu colocar isso na boca e ela vem e tira ? Que raiva !" A troca de fraldas, que já era uma aventura, porque ele insiste em engatinhar pelado com o bumbum sujo enquanto você se vira um segundo para pegar mais um lencinho (big mistake), agora se completa com o agradável encontro de um pedaço de papelão grudado no céu da boca do neném, que você só viu porque ele abriu a boca para dizer "ba ba ba" (que em bebezês significa "não acredito que você AINDA não acabou !"). E fralda suja de neném nesta idade é igual a Kinder Ovo: cada hora uma surpresa diferente, você nunca sabe o que vai encontrar por lá.

P.S.: Para quem ficou curioso, a pessoa que sugeriu o penico não foi fuzilada em praça pública. Ao contrário, concluiu por si mesma que era uma idéia inviável assim que presenciou o Pacotinho de Contorcionismo tendo sua fralda trocada (número 2) pela quinta vez no mesmo dia.

01 abril, 2007

Se até o Criador descansou no sétimo dia...

"E antes que eu confunda o domingo
Antes que eu confunda o domingo
O domingo com a segunda
Domingo eu quero ver o domingo passar"
(Tony Belotto / Sérgio Britto)

A vida domiciliar no Primeiro Mundo não é fácil, ainda mais quando se tem um bebê a tiracolo ("a tiracolo" é força de expressão, que ele está mais para tira brinquedos do lugar, tira os DVD's do armário, tira a gente do sério, etc). Chega sexta-feira, a gente está só a capa do Batman, ou como diria a minha sobrinha "capa do Batman não, que é de menino. Eu estou só a capa da Barbie".

Depois de passar o sábado picando legumes, cozinhando, amassando, enchendo vidrinhos e congelando comida suficiente para uma semana de refeições do Pacotinho de Gula, o cansaço está elevado à milésima potência.

O Marido Gringo oferece para ficar o dia inteiro fora de casa com o Pacotinho de Bagunça e sugere que a Mamãe vá fazer a unha, receber uma massagem, almoçar fora sozinha (sim, ela ADORA comer em restaurante sozinha, sem ter que conversar com ninguém, ouvindo somente os próprios pensamentos) e aproveitar um dia de sossego.

Será que ela sentiu culpa por deixar o filhote sozinho com o Papai por um dia inteiro ? Um peso na consciência de mãe zelosa ? Primeiro de Abril ! Pausa para gargalhadas histéricas.

Ainda rolando de rir com as perguntas do parágrafo anterior, ela sai de casa à procura de um lugar para massagem. Desorganizada que só ela, não marcou horário, até porque não acreditou que o dia de folga iria mesmo vingar. Peregrinando por vários spas (sorte a dela que mora num local rodeado de spas), todos lotados, descobre uma portinha e entra. Uma moça oriental, num inglês quase ininteligível, promete um encaixe daí a uma hora. Ela volta e, para sua surpresa, é a mesma moça da recepção que faz a massagem (ainda bem que a Mamãe não veio de carro, porque provavelmente a moça também faz as vezes de manobrista).

Depois de uma hora levando uns safanões, apertões, beliscões, sentindo o cabelo com a escova fresquinha de ontem ficar todo ensebado ("será que esta Japa pensa que tenho tempo de fazer escova todo dia ?"), Mamãe pensa em largar de vez o Marido Gringo e casar-se com a moça do inglês igual ao da professora do Charlie Brown. Mas aí ela lembra que, com um talento desses é improvável que a moça esteja disponível, então se contenta com o Marido Bonzinho que já tem. Ela saiu de lá tão relaxada que nem parecia a velha Mamãe Exausta de sempre ! Mais feliz ainda porque se lembrou de que seu plano de saúde cobre oito massagens por ano e que essa delícia vai sair de graça (antes que a redação seja soterrada por cartas, mensagens telegráficas e sinais de fumaça - "soterrada por sinais de fumaça é ótimo" - perguntando se no Canadá o governo paga massagens para os habitantes, o Iglu esclarece: é o plano de saúde adicional do emprego que cobre a medicina alternativa e os medicamentos).