29 agosto, 2005

O Grande Bambu

Se este blog seguisse uma ordem cronológica, esta seria a primeira “crônica do iglu”. Aconteceu em 1998, quando eu morei aqui como estudante, muito antes de virar residente permanente. Foi a primeira vez na vida que fui exposta a culturas tão diferentes da brasileira, com destaque para a inocência coreana.

Na minha turma da aula de inglês éramos seis coreanos e eu. No primeiro dia me deu o maior pânico, pois achei que eu iria desaprender o que sabia e passar a falar com o sotaque deles, misturando os RR com os LL, dizendo que morava em “Bancouber” e por aí vai. Fora ouvir todo dia sobre a preocupação deles com os casamentos arranjados pelos pais, assim que voltassem do Canadá para a terra natal. Meu medo de adquirir a pronúncia coreana diminuiu, mas não passou, então eu larguei a escola e fui fazer serviço voluntário num asilo, já que os pacientes idosos, mesmo os muito confusos, falavam inglês com sotaque local e sabiam a diferença entre “rice” (arroz) e “lice” (piolho), coisa que meus colegas asiáticos levariam anos para decifrar, tomando “lice soup” todo dia.

Mesmo depois de sair da escola, continuei em contato com uma menina coreana de 23 anos, inocente como eu jamais vi (até hoje). Uma noite, ela me convidou para ir com umas conhecidas latinas a uma boate chamada “The Big Bamboo”. Era uma quinta-feira, uma noite só para mulheres. Eu não quis ir, mas ela foi. No dia seguinte, ela me ligou apavorada, em prantos. Repetia, no seu inglês quase incompreensível “eu nunca vou me casar, NUNCA ! ”. Quando ela conseguiu se acalmar, explicou que “a noite das mulheres” na boate era na verdade um “striptease” masculino e, como ela nunca tinha visto antes, ficou horrorizada com a coisa. Traumatizada até, só de ver (sim, existe esse tipo de gente no mundo). E ela, soluçando: “você já viu ? Você já viu como é grande ? É horrível !”. Eu mal me mantive sentada na cadeira do outro lado do telefone, quase rolando no chão de tanto rir. Minha família canadense, incluindo as crianças, também estava às gargalhadas, todos contagiados por mim, sem a menor idéia da razão da minha crise de riso. Tive que dizer à amiguinha que, mesmo que eu fosse uma freira, eu era enfermeira e já tinha visto “a coisa” de tantas variedades, cores e tamanhos que ela nem imaginava. Claro que perguntei se ela não suspeitou do que se tratava quando aceitou o convite das amigas. E ela “como eu poderia imaginar ?” E, como boa brasileira, eu respondi “numa noite só para mulheres ou só para gays, num lugar que se chama ‘The Big Bamboo’ , você esperava o quê ?”

Fico imaginando o que ela pensaria se ainda estivesse por aqui e eu contasse o tipo de corpo estranho que removemos de pacientes no meu hospital...

27 agosto, 2005

BIOS - Baita Ignorante Operando o Sistema

Mais uma vez, não sei como, consegui deletar o último texto e os comentários dos meus cinco assíduos leitores. :(
Simone da Suíça, mande de novo as suas fotos, por favor. Estavam lindas e bem rurais !

Cidadã do Mundo (mas só do mundo urbano)

Sempre fui uma pessoa urbana, avessa ao contato íntimo com a natureza em todo o seu esplendor. Nascida e criada em apartamento, nunca subi em árvores, nadei em rios ou fiz amizade com lagartixas. Para mim, deitar na areia à beira do mar é uma amostra do nirvana, mas caminhar no meio do mato, disputar lugar com sapos e cobras, doar sangue para mosquitos e encher a roupa de carrapichos é uma visão do Inferno. Dormir em qualquer lugar que tenha entre 3 a 5 estrelas é ótimo, mas se mais de 10 forem visíveis, é sinal de que estou ao ar livre e, conseqüentemente, corra para me resgatar, porque estou lá contra a minha vontade.

Dois episódios ocorridos em São Luís (MA), que ficariam melhor em “Crônicas da Linha do Equador”, retratam o meu (inexistente) lado natureba:

1- Da primeira vez que vi uma tarântula, na cantina do hospital, nem me apavorei, pois achei que fosse um brinquedo. Cabeluda, maior que minha mão, jamais poderia ser uma aranha real ! Nunca pensei que elas existissem de verdade (sabe efeito especial de filme ?), até que o monstro se mexeu. Meu pobre coração só não parou de bater porque não havia chegado a minha hora.
2- Paguei 10 reais à minha empregada na época, para que ela matasse a Cristina, a perereca que morava no armário da cozinha havia 1 mês e já tinha sido até batizada. Ela não só a matou, como guardou o corpo numa caixa de sapato para me mostrar, mas claro que eu não quis ver ! Até encomendo o assassinato, mas não mancho as mãos participando do funeral. Parei de contar esse caso aqui, sob risco de ser levada ao tribunal de Crimes Contra os Animais. Em minha defesa: foi o anfíbio quem invadiu o meu território e, se eu não vou onde este "pessoal" mora, eles que não venham me visitar !

Quando mudei para o Canadá, fui introduzida ao ritual do morador típico de Vancouver, que é o meu pior pesadelo: o acampamento. Tudo começou com um ex-namorado canadense autêntico, daqueles que esquiam, penduram-se em penhascos, descem corredeiras de canoa e conseguem carregar tudo o que precisam para um mês de tortura, quer dizer, férias, dentro de uma mochila. Pessoas assim classificam qualquer tipo de sofrimento ao ar livre como diversão. Ah! Além de tudo, ele também era vegetariano radical. “Onde eu estava com a cabeça ?”- é a pergunta que me faço até hoje, ainda sem resposta. Uma daquelas loucuras que fez a filha do Elvis Presley se casar com o Michael Jackson ou o Enéas ficar em terceiro lugar na eleição presidencial do Brasil.

Dada a insistência de vários amigos locais, resolvi encarar o sacrifício e enfrentar a câmara de gás, digo, a barraca de acampamento pois, em teoria, a gente só pode dizer que não gosta de alguma coisa depois de experimentá-la. Foi no mês de outubro e o frio do outono já congelava os ossos tupiniquins. Fomos a Leavenworth, no estado de Washington, mas saí de casa vestida para ir passar o fim de semana na Antarctica.

Pegamos um amigo dele no caminho (outro bicho-grilo, por sinal). Eu havia colocado minhas coisas essenciais para o fim de semana prolongado (que não cabem nem em várias mochilas) no banco de trás do carro, sem imaginar que o carona iria viajar sentado em cima do meu travesseiro de pena de ganso que tinha custado 50 dólares numa liqüidação! Meu entusiasmo, que já não era lá essas coisas, acabou ali. Chovia horrores e, cinco minutos depois de entrarmos na rodovia, eu já estava arrependida, mas era tarde demais.

Chegamos ao campo de concentração, ops, parque ecológico, quando já estava escurecendo. Talvez por isso eu não tenha visto na entrada o aviso de Dante: “Deixai aqui toda esperança, ó vós que entrais”. Havia várias outras barracas, uma fogueira e todos aparentavam estar se divertindo, menos eu. Magicamente a barraca foi montada (eu não ergui um graveto), enquanto eu me ocupava em procurar um banheiro. Foi-me entregue uma lanterna de caverna para colocar na cabeça e fui informada de que era necessário usá-la para enxergar o caminho até o banheiro, que era um quartinho com um vaso (sem descarga), sobre um buraco no chão, literalmente a antiga “casinha”, que eu só conhecia através da revistinha do Chico Bento. Confesso que vê-la ao vivo e em três dimensões não acrescentou nada à minha cultura.

O jantar foi servido e consistia em comidas enlatadas insossas, esquentadas sobre a fogueira. Depois, fomos tentar dormir. Eu passei a noite em claro, enrolada em vários cobertores. E quem consegue dormir quando a placa do lado de fora alerta “Não alimente os ursos” ? Fora a preocupação em não beber nada para não ter que ir fazer xixi no meio da noite, correndo o risco de dividir a casinha com um gambá (há muitos por aqui).

Não havia chuveiro no local e, com exceção da brasileira aqui, ninguém parecia se importar em passar 3 dias sem um contato imediato do terceiro grau com um sabonete. Revoltado com tamanha “frescura”, o namorado me levou diariamente ao posto de gasolina da cidade, onde por 50 centavos eu pude tomar 5 minutos de ducha morna, uma verdadeira misericórdia divina naquele Purgatório de Gringo.

Pelo lado positivo, que não passa de 1% da contabilidade da experiência no total, vimos paisagens maravilhosas, as árvores multicoloridas no outono, salmões pulando rio acima para desovar e muitas águias carecas. Nada que eu já não tivesse visto pelo Discovery Channel, no conforto do meu sofá, enquanto ouvia o agradável som de pipoca estourando no microondas.

Foram os quatro dias mais longos da minha vida e foi difícil - com o perdão do trocadilho - não chutar o pau da barraca. Como eu amei voltar ao trabalho, aos meus pacientes complicados, à cidade e ao trânsito engarrafado na segunda-feira ! Isso é que é vida. Cheguei à civilização totalmente zerada dos meus pecados, que foram todos pagos lá na floresta.

Tempos depois, conheci um outro rapaz (surpresa: não deu certo com o canadense). No segundo encontro, já perguntei se ele gostava de acampar. Ele me respondeu que havia tentado uma vez, mas quando chegou lá e viu que não havia televisão, disse aos amigos: “não tem TV, então não tem Aleks”, entrou no carro e foi embora para um hotel. Foi quando eu percebi que havia encontrado minha alma gêmea. Muito esperta, casei com ele !

23 agosto, 2005

Toda Panela Velha Tem Sua Tampa

Um exercício diário de tolerância , compaixão e empatia é essencial para todos os que trabalham num hospital, ainda mais no meu, com uma clientela tão eclética.

Esta é antiga, mas inesquecível. Aconteceu no verão de 2001. Meu setor estava lotado, porque eles fecham dois dos dez andares do hospital entre julho e setembro, entulhando de pacientes todos os outros. Segundo os cálculos da administração do hospital, é genial diminuir o número de leitos e dar férias a um monte de funcionários no verão. Pena que os cálculos renais e biliares, assim como todas as outras doenças, partos e acidentes não acompanhem os planos da direção do hospital e insistam em continuar ocorrendo nesta época do ano. Quem não tira férias em agosto trabalha em dobro. Coisas do Primeiro Mundo...

Logo cedo ouvi na Rádio Corredor que um dos meus pacientes era um transsexual, mas ainda não havia feito a cirurgia de mudança de sexo. Por isso, apesar de o nome ser feminino, a pessoa estava numa enfermaria masculina. "Nada demais"- pensei. Sou uma pessoa de mente aberta, evoluída, que inclusive já tive uma vizinha aqui em Vancouver que nasceu homem, tomou hormônios femininos, fez a cirurgia de mudança de sexo em Montreal e passou de homem heterossexual para lésbica. Eu a conheci há muitos anos, antes da cirurgia e até hoje ela está muito feliz, morando com a mesma namorada (para ajudar na visualização, ela não se parece nadinha com a Roberta Close, mas com o Juca Chaves de cabelos de bruxa e vestido de cigana hippie). Aprendi com ela que nem todos os transsexuais são homossexuais antes da cirurgia, expandindo assim meus parcos conhecimentos na área. Foi complicado para minha cabecinha de Terceiro Mundo, mas a gente tem que se modernizar, não é mesmo ?

Voltando ao(à) paciente, tratava-se de uma pessoa com obesidade mórbida, que havia sido submetida a uma cirurgia para diminuir o tamanho do estômago. Dividia uma enfermaria de dois leitos com um senhor, que por sua vez mantinha as cortinas em volta da cama permanentemente fechadas. Quando passei para me apresentar e levar as medicações matinais, achei a pessoa uma simpatia, bem falante. Cabelos longos, unhas pintadas, um rosto que não parecia masculino mas definitivamente não era feminino. Vinte e oito anos, se bem me recordo. Uma voz meio rouca, mas os gestos e os assuntos eram de uma mulher (em nada lembrava a Lady Diana, personagem do Rodrigo Santoro em “Carandiru”, estava mais para o Jô Soares sem barba, de peruca e camisola de hospital).

Mais tarde eu voltei para trocar o curativo. A barriga do/da paciente era imensa e a incisão, gigantesca. Para que eu conseguisse pelo menos ver os pontos, era preciso levantar o enorme e pendente abdome (em inglês “pannus”), que mesmo na posição horizontal, cobria até a metade das coxas. Enquanto eu tentava inutilmente segurar o mar de pele e gordura, que teimava em cair como ondas sobre as minhas únicas duas mãos (ai, como seria bom ser um polvo nessas horas) e ainda trocar o curativo, a pessoa conversava comigo sobre seu marido, que a estava esperando do lado de fora. Eu tinha visto o rapaz, por sinal bem alto, esbelto e bonitinho. Após uns cinco minutos, eu já estava suando pelo esforço e minhas mãos perdiam a luta desigual contra a volumosa massa abdominal, quando a/o paciente finalmente se ofereceu para segurar a barriga e eu pude ver tudo. Tudo mesmo, o curativo e o que estava abaixo dele ! Por mais que eu conscientemente soubesse que o equipamento hidráulico masculino ainda estava lá, foi um choque. Tentei não olhar diretamente, como se fosse um eclipse que poderia me cegar, só que os pontos estavam bem no caminho. A culpa foi minha, pois o ditado sábio já diz que “quem não quer ver estrela que não olhe para o céu”, mas são ossos do ofício. Depois de tantos anos como enfermeira, achei que já tivesse visto de tudo, mas não numa mulher, com o marido esperando do lado de fora ! E ela, na maior naturalidade, dizendo “eu dei muita sorte de conhecer meu marido. Não pensei que pudesse haver um homem que não se importasse de ter uma esposa tão gorda”. Três pensamentos passaram pela minha cabeça e permanecem até hoje:
1- Obviamente, não foi a obesidade que me surpreendeu na escolha do marido !
2- Este é um ótimo caso para contar às sogras que reclamam das suas noras pois, aparentemente, os filhos delas poderiam ter feito uma escolha, por falta de outro termo melhor, "mais alternativa".
3- Solteiras, não desistam ! Há, literalmente, gosto para tudo e todo pé tem seu chinelo velho...

20 agosto, 2005

Nome Esquisito? O Meu???

Uma grande amiga sabiamente diz que “todas as nossas verdades absolutas são culturais”. É sério, coisas que temos como certas, universais e imutáveis podem ser completamente diferentes quando saímos das fronteiras da nossa cidade e mais ainda, quando estamos em outro país.

Os nomes das pessoas são um ótimo exemplo de como o que é “comum”, “esquisito”, “diferente” varia de lugar para lugar. Quando eu trabalhava na pediatria em São Luís do Maranhão, houve uma semana em que tínhamos três Michael Jackson e dois Michael Douglas na mesma enfermaria (na verdade eram variações de “Maykon Jakson” e “Maycon Douglas”, mas o que vale é a intenção). Um memorável era um menino que se chamava Ddivan, assim mesmo, com 2 “d” no começo. Eu perguntei à mãe dele como se pronunciava o nome e ela, irritada (eu já deveria ser a milésima a perguntar): “eu não sei qual a dificuldade. O nome dele é Dedivan, o primeiro “d” é mudo !”. Outro inesquecível era o "Amônio", cujo nome foi inspirado (onde mais?) nos ingredientes listados num saco de adubo, segundo os pais orgulhosos da criatividade informaram.

Quando eu morava no Brasil, sempre achei que “Flávia” fosse um nome comum. Havia várias vizinhas xarás, outras duas no ballet e mais uma na minha sala de aula. Fiz vestibular numa das três salas inteiras somente com "Flávias" na UnB. Depois que mudei para o Canadá, passei a ter que soletrar meu nome, ouvir as pessoas me chamarem de “Flêivia”, responder de onde meus pais tiraram um nome tão esquisito e ainda receber minha conta da TV a cabo endereçada a “Slavia Oliviera”.

Pensei que, chegando aqui, eu iria conviver com várias Jessicas, Jennifers, Pamelas e Melanies, mas que engano ! Eu já me acostumei a ter pacientes e colegas com nomes impronunciáveis, que provavelmente são bem comuns entre suas próprias culturas. Uma colega indiana tem duas filhas: Prabhjot e Balpreet. Uma enfermeira paquistanesa chama-se Anisbhanu, uma filipina atende por Cherisse, o nome da minha professora é Rupinder e havia uma colega do Sri Lanka chamada Thankamma (graças a Deus se aposentou, porque estava sempre de mau humor, mas com um nome desses, quem pode culpá-la?). Os chineses eu nem ouso tentar, mas como geralmente só têm uma sílaba, qualquer “Tchen, Tchin, Tchan, Tchun” cobre 90% das possibilidades de acerto.

Aprendi a não me assustar com os nomes que para mim soam “exóticos” e fazer o possível para pronunciá-los corretamente. Só que tem gente que mora aqui há anos e não aprende. Quando estava entregando os convites do meu casamento, fui à casa de uma amiga conterrânea do meu então futuro marido, que é da antiga Iugoslávia. Como é de tradição no Brasil, havia os nomes dos nossos pais no convite. Os do noivo: Momcilo e Slobodanka, que a amiga achou normais. Quando ela viu os nomes dos meus pais, gaguejou várias vezes e desistiu: “como se pronuncia isso?” Eram “José Francisco e Teresinha”. O melhor é que os pais da pessoa em questão chamam-se “Lhubomir” e “Nada” (isso mesmo, a mãe dela chama-se “Nada”), o nome do irmão é “Dragan”, o sogro é “Miroslav” e a minha família é que tem nome esquisito!

17 agosto, 2005

O Misterioso Caso das Lanternas Desaparecidas

Hoje o assunto é sério. Toda a equipe do Crônicas do Iglu (setores de redação, pesquisa, fotografia, atendimento ao consumidor e cartas) resolveu se mobilizar e tornar público o maior problema enfrentado por um dos hospitais locais. Infecção hospitalar ? Falta de enfermeiros ? Má administração ? Erro médico ? Tudo isso é armação da mídia para desviar os olhos da população do verdadeiro grande escândalo: a triste situação de abandono e descaso em que se encontram as lanternas do único hospital no centro de Vancouver. A bandeira foi levantada por uma colega enfermeira, proveniente das Ilhas Fiji, que trabalha no hospital em questão desde que o primeiro tijolo foi colocado na primeira parede, por volta de 1914. Segue aqui o relato emocionado da nossa entrevistada da semana, uma enfermeira brasileira que abraçou a causa e quer até criar uma ONG para divulgá-la:

“Eu era nova no setor, ainda tentando me enturmar e aprender onde ficava cada coisa. Estava deslumbrada com a vista maravilhosa do mar e das montanhas, no décimo andar do hospital. A equipe era ótima, unida e acolhedora. Havia porém uma enfermeira de Fiji (fijiana talvez ?), de pouco menos de 1,20m de altura, com uma capacidade de reclamação inversamente proporcional ao seu tamanho. Durante as 12 horas do plantão noturno - que pareciam durar 36 devido à companhia - ela seguia com uma ladainha eterna. Uma daquelas pessoas que vai caminhando e resmugando sozinha, mesmo que não tenha ninguém prestando atenção. Às vezes as críticas variavam, mas uma constante era o fato de que os colegas não colocavam as lanternas de volta na gaveta onde deveriam ficar. Isso mesmo: lanternas. Não estetoscópios, aparelhos de pressão ou máscaras de oxigênio, mas lanternas ! De noite, depois que todos os pacientes já tomaram as medicações para dormir, os enfermeiros apagam as luzes, para que finalmente eles (os pacientes) possam descansar. Durante a ronda de hora em hora, utilizam-se lanternas, para verificar se os soros estão perto de acabar ou procurar pelos corredores o dono daquele leito vazio às 2 da manhã, sem precisar acender todas as luzes. As pessoas não fazem por mal, muitas vezes estão com as mãos ocupadas e deixam as ditas cujas na mesinha do paciente ou em cima do balcão, nada impossível de ser encontrado. Todo setor do hospital tem uma gaveta onde as benditas são guardadas durante o dia, mas no décimo andar, ala B, isso não acontecia com os 100% de eficiência que a importância que tal tarefa essencial requer.

Nas primeiras semanas, o comportamento da Lanterneira causava arrepios em mim e na colega filipina, a minha companheira de plantão favorita. Quem agüenta ficar 10 horas (há 2 horas de descanso) na presença de alguém que reclama sem parar ? Ficávamos incomodadas, mas encontramos uma forma de sobreviver às longas noites de chateação e ainda manter nossa sanidade mental. Eu passei a chegar mais cedo para os plantões noturnos, a tempo de retirar todas as lanternas da gaveta e espalhá-las em pontos distantes da enfermaria. Deixava estrategicamente uma no caminho da Iluminada, onde ela teria que passar para receber o plantão. Ela já chegava no setor revoltada, com uma lanterna debaixo do braço, amaldiçoando até a terceira geração dos preguiçosos que não colocam as coisas nos seus devidos lugares. De vez em quando, quando não havia reclamação, eu mesma aparecia com uma lanterna que havia “achado na pia do banheiro" e dizia para minha colega preferida: ‘que absurdo, se não sou eu para recuperar as lanternas abandonadas, o que seria deste hospital ?’ E a Miss Holofote sorria, vitoriosa, certa de que havia nos convertido para sua causa tão vital ao sistema de saúde do Primeiro Mundo, enquanto a gente se esborrachava de rir, assim que ela virava as costas protestando.

Teve um ano em que fui passar o Carnaval no Rio. Aliás, naquela viagem fui eleita a Rainha do Carnaval Carioca, porque comi alguma coisa estragada por lá e passei os quatro dias no trono, feito gringo quando se empanturra de acarajé. Enquanto eu estava de molho em casa e os meus primos torrando o couro em Ipanema, escrevi um e-mail para minha colega filipina: 'Estou aqui no Rio de Janeiro, mas não consigo aproveitar nada, preocupada com a situação das lanternas na enfermaria 10 B. Você está dando conta do recado sozinha ?' Ela me respondeu dizendo que depois de ler o e-mail e dar umas gargalhadas, a noite do plantão havia ficado mais curta."

Esperamos que o caro leitor entenda nosso apelo e de agora em diante também faça a sua parte para tornar seu ambiente de trabalho um local mais humano e agradável, em benefício daqueles que passam 1/3 das horas do dia na sua presença.

Moral da estória: se não pode vencer o inimigo, convença-o de que se juntou a ele.

13 agosto, 2005

As Melhores Pérolas do Chico

Faz tempo que eu queria escrever sobre as tiradas do meu pai. Dia dos Pais no Brasil - parece a ocasião perfeita. Como ele foi embora semana passada, a saudade está a mil.

Meu pai é a pessoa que tem mais apelidos (e que não é adolescente) que eu conheço. Quando criança eu não entendia como alguém poderia ser Zezé na família, Zé entre os amigos de infância (incrível, quando eles mesmos são um bando de Zés), Chico para os amigos que conheceu na vida adulta e Chiquinho para o pessoal do trabalho. Ele diz que adora o nome “José Francisco”, mas acho que só no consultório médico alguém o chama assim.

Parafraseando Euclides da Cunha, meu pai é, sobretudo, um forte. Venceu várias dificuldades na vida, sobreviveu a um derrame e sempre manteve o senso de humor. Logo após o derrame, quando o médico disse que as seqüelas poderiam ser irreversíveis, ele respondeu "o Brasil anda muito carente de craques, se eu não voltar a jogar, o nível de qualidade do futebol nacional vai cair muito". E voltou mesmo! Ele sabe contar qualquer acontecimento cotidiano fazendo-o ficar hilário. Os que o conhecem e ainda não ouviram o caso de quando ele se afogou no Beach Park em uma piscina de 80 cm de profundidade (ele, se vir isso, vai me corrigir: “um metro” – que diferença faz para uma pessoa de 1,70m?) , peçam para ele contar. Imperdível!

Ele é um grande amigo e sempre tem um jeito especial de me fazer sentir melhor e mais calma quando ligo para ele nas horas ruins e vibra como ninguém com as minhas conquistas. Os grevistas da companhia telefônica não sabem a falta que estou sentido das conversas quase diárias com meu pai.

Dele herdei, além dos cílios gigantes característicos da nossa família, a magreza persistente (ambos, modéstia à parte, de dar inveja nas gringas). Melhor ainda foi ter herdado o senso de humor, a paixão por ler e escrever e algo pouco comum: o prazer de falar em público. Nós fazemos parte do 1,5% da população geral (excluindo políticos e aspirantes a modelo/atriz/cantora) que adora um microfone para fazer discurso (dados do Instituto Flaviano de Pesquisas Inúteis).

Ele tem sempre uma tirada para tudo, vou escrever algumas minhas favoritas:

Sobre pessoas muito idiotas
“Dá vontade de dar uns tabefes de dois a dois, de cada lado do rosto e só parar quando a conta atingir um número ímpar”.
“O pior burro é o burro com iniciativa. Se ele é burro mas não faz nada, não incomoda ninguém. Quando decide fazer alguma coisa, aí o problema começa.”

Sobre alguém que tem o corpo esquisito
Do pescoço para baixo, parece três velocípedes dentro de um saco”.

Sobre pessoas cronicamente de mau humor
“É daquele tipo de gente que levanta, lava o rosto e vai brigar”.
“É uma pessoa que só tem raiva de duas coisas na vida: Planeta Terra e seus habitantes”.

Sobre algo extremamente feio
“Mais feio que mudança de pobre. E mudança com cachorro magro atrás”.

Sobre crianças fazendo birra
“Ih... o duende deu defeito”.

Tenho certeza de que há muitas mais, que irei adicionando à medida que eu for lembrando (ou meus irmãos forem colaborando). Por agora, Feliz Dia dos Pais, Zé Chico! Tenho o maior orgulho de ser sua filha. Amo você.

12 agosto, 2005

Banho: tomar ou não - eis a questão cultural

Somos privilegiados aqui em Vancouver, tendo a oportunidade de conviver com tantas nacionalidades e culturas diversas. De vez em quando, aparece alguma situação em que não dá para abrir mão dos nossos valores culturais e incorporar os locais, mas acaba rendendo uma coluna no meu blog.

Mês passado fui a um chá de bebê de uma amiga originária da Guiana Inglesa que trabalha como enfermeira na maior maternidade da província. Como era de se esperar, havia umas outras oito ou dez colegas de trabalho dela, duas obstetras e uma enfermeira da comunidade, que presta assistência domiciliar a mães e recém-nascidos. As únicas que não trabalham na área éramos a sogra dela e eu. Assim descrito, parece tratar-se de um grupo homogêneo, mas havia duas indianas, uma polonesa, a grávida guianesa, a sogra iugoslava, uma australiana, a brasileira que vos "fala" e várias canadenses.

Quando começamos a abrir os presentes, a enfermeira indiana (por sinal hilária) ,que já tem filhos adultos, comentou que havia dado uma toalha de banho, para ver se a mãe da criança se toca e resolve lavar o bebê. Ela disse que na Índia, devido ao calor, ela costumava dar banho nos seus filhos recém-nascidos várias vezes por dia, se necessário. Imediatamente dez mulheres fuzilaram-na com o olhar. Um suspiro de "oooooh" foi ouvido, como se ela estivesse relatando algum caso de tortura infantil. "Como eles sobreviveram ?" - era a pergunta estampada no rosto da mulherada de boca aberta. Estava aberta a sessão de opiniões. A grávida disse que vai lavar a criança sim, UMA ou no máximo DUAS vezes por semana. A enfermeira especialista em recém-nascidos disse que eles não se sujam e banhos removem a camada protetora da pele deles. Uma canadense disse que é um absurdo lavar um bebê diariamente, coisa do passado (provavelmente eles nascem auto-limpantes nos dias atuais).

Depois, comentando com uma amiga européia que tem uma filha de 11 meses, ela me disse que é errado dar banho no bebê uma vez por semana. Ela dá banho na filha dela em dias alternados, desde que ela nasceu. Melhor foi uma amiga canadense, que tem a seguinte regra: no dia em que o neném toma banho, ela não toma e vice-versa.

Pensei calada o que eles achariam dos meus pais, que moravam no Rio de Janeiro, no mês homônimo, quando eu nasci. Um calor escaldante e um intestino galopante. Na era pré fraldas descartáveis e muito anterior aos "baby wipes", eles dizem que perdiam a conta de quantos banhos me davam por dia. Na década de 70, pelo menos no Terceiro Mundo, os bebês não nasciam auto-limpantes. Meus pais certamente gostariam de ter importado um desses nenéns modernos do Primeiro Mundo...

08 agosto, 2005

Corpo Estranho, MUITO Estranho

Aviso: o texto a seguir contém descrições que podem ser chocantes aos leitores mais sensíveis. Não deve ser lido por menores de idade nem ninguém muito inocente. Os nomes dos envolvidos (pessoas e objetos) foram propositalmente omitidos e qualquer semelhança com fatos verídicos é totalmente intencional. A autora não tem nenhum objetivo pedagógico com este texto e não se responsabiliza por ninguém que queira pôr em prática as idéias aqui mencionadas.

Engana-se quem pensa que, num hospital, a equipe de saúde algum dia torna-se imune a certos casos e pacientes pitorescos, passando a enxergar tudo como se fosse banal. Algumas situações mais corriqueiras certamente não viram assunto de conversa na lanchonete (nem em casa), mas outras merecem atenção especial e dão o maior ibope. Nada - nada mesmo - dá mais audiência na Rádio Corredor do que certos corpos estranhos removidos de pacientes.

O hospital onde trabalho fica no meio da gaybourhood de Vancouver (o bairro gay), o que é um fato e não um preconceito, por mais politicamente incorreto que possa parecer. Talvez por isso tenhamos um maior volume de casos de pacientes necessitando de cirurgia de urgência para remover certos tipos de corpo estranho. Num hospital pediátrico, normalmente "remoção de corpo estranho" envolve alguma moeda presa na garganta ou um caroço de feijão agarrado dentro do nariz de algum "anjinho". Em adultos, a situação mais comum é um ossinho de peixe entalado em algum ponto da garganta, ou infelizmente, um projétil de arma de fogo (bala), que pode estar em partes diversas, dependendo de onde foi o tiro. No meu hospital, de vez em quando, temos uma cirurgia no meio da madrugada para remover certos "apetrechos usados para fins recreativos" enfiados em orifícios, digamos assim, pouco ortodoxos. Nestes casos, dá para apostar que todos os que cuidarem do indivíduo vão encontrar tempo para ler todo o prontuário, a fim de saber o quê, como e em que circunstâncias o troço foi parar lá dentro. Curiosidade mata !

Há pouco tempo tivemos um paciente que chegou com obstrução intestinal, porque havia um "dildo" (não dá para traduzir aqui, que é um blog de família, mas o caro leitor pode encontrar o significado num dicionário moderno) de fabricação caseira agarrado lá onde o sol não bate. Como era emergência, a gente teve que cancelar outro caso menos urgente. O paciente, antes de ser anestesiado insistiu que queria o objeto de volta, quando fosse removido. Qual foi a nossa surpresa ao constatar que se tratava de um pedaço de cabo de madeira, coberto por uma meia ! E o cara quis de volta !!! Talvez quisesse patentear a invenção, sei lá. Guardamos até ele acordar e entregamos a ele, claro (bendito seja quem inventou as luvas cirúrgicas) ! Às vezes, quando o "brinquedo" funciona com pilhas, ainda está vibrando quando é retirado (deve ser bateria Duracell que, como diz o comercial, "keeps going and going and going...").

Na mesma noite, recebemos um paciente com dificuldade de respiração causada por um corpo estranho na traquéia. O cirurgião que antes tinha tido o paciente cancelado imediatamente comentou "não vai me dizer que é outro 'dildo' !". Era um ossinho de frango, que mente poluída !

O Marido Analista de Sistemas, coitado, havia chegado do escritório todo empolgado naquele dia, contando alguma coisa "super emocionante" sobre um projeto de informática (e há algum que não seja ?) e eu contei como havia sido meu plantão. E ele, entre chocado e indignado: "suas estórias de trabalho sempre ganham das minhas!". Eu pergunto: e dá pra competir ?

05 agosto, 2005

E a casa ficou vazia (ou quase) - Segunda Parte

Ontem quando descrevi alguns dos acontecimentos curiosos das várias viagens de volta dos meus hóspedes, achei que o caso estava terminado. O maior engano.

Ontem de noite, meu cunhado que só foi embora hoje procurava em vão por uma mala preta que minha irmã o havia incumbido de levar. Numa manobra inédita até para mim, que tenho um vasto histórico de bagagens perdidas, ele perdeu a mala ANTES de embarcar no primeiro voô, antes mesmo de chegar ao aeroporto. Não sabe onde a deixou e foi uma novela tão longa do apartamento até o embarque com entra-e-sai de vans, que nada me surpreende.

Somente hoje de noite consegui contato com minha irmã, já que nossa linha de telefone é um sonho muito mais distante do que o do primeiro vôo de passageiros a Marte. Como só a Lei de Murphy poderia prever, toda a bagagem deles foi extraviada, não chegou nadinha a São Paulo. Eu, como gata escaldada, que já sei de cor as fotos do livrinho de bagagens perdidas da Air Canada, ressaltei para ela os pontos positivos (sim, eu já encontrei alguns, depois de ter malas sumidas em diversos aeroportos canadenses, americanos e brasileiros): 1- A gente não precisa abrir as malas na alfândega e pode trazer o que quiser; 2- Se a mala for perdida no primeiro vôo, não é necessário pagar excesso de bagagem nas conexões e 3- É sempre melhor que as malas sumam na volta do que na ida (melhor ainda se não sumissem, mas lá em casa só meu irmão tem essa sorte).

Claro que meu pai colocou todos os remédios na mala extraviada, porque não seguiu o manual de regras básicas do viajante atordoado, de minha própria autoria.
Regra número 1: medicamentos, óculos, roupa de baixo e jóias sempre vão na bagagem de mão.
Regra número 2 (aprendi de uma funcionária da Air Canada quando minhas malas foram extraviadas em NY): a mala mais difícil de ser recapturada é a preta, já que todo o mundo tem, portanto sempre opte por malas coloridas na hora de comprar.
Regra número 3: um cartão VIP (ouro ou diamante) de milhas pregado na mala miraculosamente faz com que ela seja a primeira a chegar na esteira de bagagem, livrando você de bater ponto no balcão de reclamações a cada vôo.
Regra número 4: (não posso receber crédito por esta, foi criada por uma grande amiga): jamais entre no avião tomando chocolate quente, mesmo que seja Starbucks.
Regra número 5: Podendo evitar, não embarque no mesmo vôo com minha família (a exceção é meu irmão) ou com minha melhor amiga. Meu cunhado também não é a pessoa mais indicada para levar malas extras.

04 agosto, 2005

E a casa ficou vazia (ou quase)

Hoje se foi a terceira (e maior) parcela da pequena comitiva que veio para o casamento do ano em Vancouver. Ainda ficou meu cunhado para trás, que só volta amanhã para o Brasil, mas a casa já ficou vazia. Vazia em termos, porque tem tantas caixas, presentes, sacos e restos de mudança mal feita a serem acomodados que "vazio" não é um adjetivo que descreva apropriadamente o estado deste apartamento. É um vazio das conversas, já que as crianças não estão mais aqui para encherem a casa com suas risadinhas, choros e brigas. Também não há mais quem culpar pela bagunça e semana que vem vai ser difícil explicar as manchas de chocolate na cortina da sala. Meu pai não está mais aqui para me ouvir tocar piano ou me fazer rir com seus casos de má comunicação com os habitantes desta cidade. Meus irmãos se foram e, com eles, a diversão de fazer hora com a cara do meu pai, como só irmãos sabem e podem fazer. Mas vamos deixar a tristeza de lado, que o Brasil é logo ali e qualquer dia a gente se vê de novo.

Nas várias viagens de volta, já que os hóspedes foram embora em capítulos, houve alguns acontecimentos curiosos. Como sempre, tudo deu certo para o meu irmão, que não precisou pagar excesso de bagagem (mesmo levando sua mala gigantesca com o corpo do Shaquille O'Neal) e ainda ganhou a funcionária quarentona da Air Canada, que cochichou pra mim, assim que ele fez o check-in "I bet he's a hit with the girls" (aposto que ele faz sucesso com as meninas). Também sem surpresas foi a viagem de volta da minha grande amiga, que saiu carregando oitocentas bagagens de mão, entornou um resto de chocolate quente (pelo menos era Starbucks) no passageiro sentado atrás dela, levou uma bronca da esposa dele e ainda teve que pagar 40 dólares de indenização pelo derramamento de chocolate na calça alheia (a mulher cobrou 35, mas não deu troco). Não contente, ela não só perdeu a carteira com os documentos, como também perdeu a conexão de São Paulo para Brasília. Mais uma vez, ela provou correta a lei de Murphy nos aeroportos, que sabiamente reza que "se seu vôo se atrasa, a sua conexão sai no horário". Aliás, o que seria de Murphy sem ela, que torna verídicas as possibilidades mais improváveis aos outros mortais ?

Falando em lei de Murphy, minha irmã, também outra grande amiga e testemunha viva das probabilidades de as coisas darem errado, protagonizou momentos de emoção enquanto tentávamos ir de van para o aeroporto. Chamamos uma por telefone, que não havia chegado depois de 20 minutos. Ligamos para uma segunda, achando que a primeira nunca chegaria, mas ela chegou. Quando colocamos a última mala na van, chegou a segunda. Ambos motoristas, irados, só faltaram nos colocar no paredão de fuzilamento. O primeiro tirou todas as malas e as depositou na calçada, resmungando em sabe-Deus-que-língua. Meu sobrinho não entendia o que estava acontecendo e estava feliz, sentado dentro do carro enquanto ouvíamos pasmados os maiores desaforos, agora em inglês claro. Fazia um sol de rachar a moleira, que nunca faz aqui. Quando meu sobrinho finalmente saiu, o motorista arrancou, mas não sem antes fazer outro sermão. Achei que o segundo táxi fosse nos levar, mas ele fez um escândalo ainda maior ("chamar dois táxis é contra a nossa política") e partiu, deixando-nos com malas, carrinho, sacolas, crianças e um horário apertado para chegar ao aeroporto. Como se não bastasse, havia uma cerimônia especial na igreja em frente ao prédio e o trânsito estava o caos, com guardas fardados desfilando pelas ruas e outros tantos tocando trombone. No final apareceu um anjo da guarda com outra van, mas a pressão arterial do meu pai deve ter atingido níveis estratosféricos.

No balanço final, os ganhos emocionais superaram em muito as perdas materiais. É uma honra ter pessoas queridas que se dispõem a fazer uma viagem dessas para o meu casamento. Agora é arrumar a bagunça, que tem gente que organiza a casa para receber hóspedes e tem gente que só começa depois que eles vão embora e ainda reclama dos amigos no Brasil, que não mandaram uma empregada de presente de casamento...