28 setembro, 2005

Hot Yoga

Aconteceu no inverno passado. A Esposa Presidente do MOMACAF (Movimento dos Magrelos Contra a Atividade Física) e o Marido que, por motivos de volume extra na área abdominal, bem que gostaria, mas não pode aderir ao Movimento, estavam confabulando a fim de encontrar algum esporte que pudessem fazer juntos. Iniciativa dele, que ela estava feliz no sedentarismo e na magreza eterna. O Marido Gringo esquia, claro. A Esposa Tropical tem pavor de frio e suas breves tentativas sobre os esquis merecem um post à parte. Ela sugeriu aulas de dança, mas ele achou muito geriátrico. Quando ele citou a palavra "natação", ela desfiou o rosário de dificuldades para fazer escova nos cabelos, passar chapinha, etc. Ele mencionou "snowboarding", ela teve um ataque de riso. Chegaram a um acordo de tentar aulas de yoga, "hot yoga".

Foram à academia Birkham para uma aula experimental. Era inverno e a Esposa Tropical saiu de casa vestida para o clima, de meia-calça de lã sob uma calça de ginástica, camiseta e blusa de lã por cima. Já do balcão de informações, o inebriante cheiro de cachorro molhado que sai dos colchonetes deixa os candidatos à aula tão confusos que eles topam qualquer coisa. Faz parte do plano. Quando a atendente avisou: "a temperatura do lado de dentro é muito elevada, você vai passar calor", a Esposa Tropical sorriu com desdém e avisou "eu sou do Brasil, difícil passar calor em Vancouver".

Entraram na sala de aula lotada. O bafo de calor vindo de lá dava uma sensação agradável, não era mais inverno do lado de dentro. Todos estavam de shortinho e camiseta, descalços. Por cima do colchonete fedido, cada um tinha uma toalha, menos o casal em questão. Argh ! A professora apontou o fundo da sala e recomendou que sentassem atrás, porque os mais experientes ficavam na frente. Já nos primeiros cinco minutos, era óbvio que a moça do balcão estava certa e até os tupiniquins suavam em bicas. Temperatura local: 40 graus ! A princípio, os movimentos da yoga em si não eram tão complicados de serem executados. Difícil era mantê-los por 5 eternos minutos, equilibrando-se sem se mexer, num pé só, com cabeça entre as pernas e suando em cachoeiras. Depois de 20 minutos a Esposa passou a ver sua vida inteira passar como num filme e já estava pronta para fazer seu testamento, certa de que seu fim estava próximo, mas o fim da aula... Falei que a aula durava uma hora e meia ?

A vantagem é que quem passasse mal, visse andorinhas voando sobre a cabeça ou achasse que o teto tinha virado um caleidoscópio poderia se deitar até melhorar. Passados 40 minutos, o casal eleito "Atletas do Ano" já permanecia mais tempo deitado do que em pé. Um gordinho à frente levantou e ameaçou sair da sala. A professora mandou-o voltar. Ele disse que estava passando muito mal, ela disse que ninguém saía da aula antes do fim. Ele argumentou que estava com o nariz entupido (sorte dele), não conseguia respirar naquela sauna (nem sentir a catinga de suor), mas ela disse para ele ficar deitado até melhorar. Enterrou-se aí toda e qualquer esperança de sair com vida daquela sala fétida. A Esposa Tropical Mais Fraca do Que Nunca e o Marido Gringo Todo Vermelho e Ensopado cochichavam confidências e juras de amor, provavelmente as últimas de suas vidas, deitados lado a lado naqueles colchõezinhos com essência de chulé.

Quando finalmente o suplício acabou, a professora teve a ousadia de guiar os novatos até o balcão para fazer a matrícula, já que a tortura experimental era gratuita, mas a longo prazo, não. As funcionárias penduravam os tapetinhos de borracha mais fedorentos do planeta de frente para um ventilador, para aerar. Novamente a nhaca visava a confundir os pensamentos das pessoas, já que várias preenchiam a ficha e prometiam voltar para mais aulas. Nosso casal favorito não saiu correndo dali por absoluta falta de forças, mas arrastou-se para o lado de fora, deixando de vestir os vários casacos e apreciando os 5 graus tão fresquinhos do lado de fora.

O resto do inverno seguiu como de esperado. Sem ginástica nenhuma, a Esposa chegou à primavera 3 quilos mais magra e, o Marido, alguns quilos (quantidade exata não divulgada) mais gordo. Quem disse que a vida é justa ? E, para o futuro: Hot Yoga ? Pode me incluir fora dessa !

27 setembro, 2005

Na Delegacia de Polícia

Desde o dia 21 de julho passado era para eu incorporar oficialmente o sobrenome de casada Mandic (lê-se Mândit, com "d" de paraibano e "t" de carioca "tchi"). Falando assim, parece simples mudar de nome, mas não é. A santa Padroeira da Burocracia também é forte por aqui.

Depois de ir à Agência de Estatísticas Vitais, tirar cópias de documentos, preencher oitocentos e trinta e nove formulários, fui informada de que bastava ir à delegacia. Claro que primeiro fui a uma que não fazia este tipo de serviço. E tome "red tape" (burocracia, na gíria local) ! O que espero ter sido o último item da lista foi cumprido ontem: as impressões digitais. Fui à delegacia de polícia que fica na esquina da Main com a Hastings Street, ou para os que não conhecem Vancouver, na esquina da Rua dos Desesperados com a Rua Mais Barra Pesada do País. Um local onde traficantes vendem drogas em plena luz do dia, pessoas dormem nas calçadas, todo o mundo tem uma aparência suspeita e nada parece ser Primeiro Mundo, exceto pelo fato de que não há assaltos. Apesar de esquisitas, as pessoas não se aproximam e, além disso, há sempre um monte de policiais. Posso dizer que 99% dos pacientes "problemáticos" no meu hospital fornecem uma das duas ruas como endereço ao serem admitidos na emergência.

Como sempre, havia várias filas, pessoas mal humoradas atrás do balcão de informações (gente que não comeu brigadeiro quando criança e desconta o trauma na humanidade) e um festival de fichas para preencher. A fila é bem menor que no Detran em Brasília, mas a onipresente taxa é pelo menos do mesmo tamanho. A Plasta que me atendeu levou um século para entender que eu tinha dois sobrenomes antes e estava tentando remover um e adicionar um outro. "Mas não tinha hífen entre os sobrenomes ?" No final, deve ter me achado uma latina subdesenvolvida, cujo nome anterior jamais caberia num formulário local.

Enquanto a Plasta esfregava meus dedos naquela graxa preta, eu não conseguia parar de cantarolar Geraldo Azevedo "...são como as coisas da vida, coisas que são parecidas, feito impressões digitais..." (sabe quando a música fica repetindo na sua cabeça ?) e, se houvesse um daqueles balões de estórias em quadrinhos sobre a cabeça dela, estaria escrito: "mais uma em síndrome de abstinência de heroína..."

Enquanto eu estava esperando o ônibus para voltar, vi um anúncio do ballet O Lago dos Cisnes. Imediatamente liguei pro Marido Assessor do Departamento Cultural da Família:
- A gente TEM que comprar o ingresso pro ballet.
- Ah, é ?
- É. Estou saindo da delegacia e, contando quando tive que tirar impressões digitais para o visto de trabalho, para o certificado de residência permanente e agora para a troca de nome, já são três vezes tocando piano na Polícia, enquanto só fomos ao teatro uma única vez. O que isso diz a meu respeito ?

23 setembro, 2005

Marte, Vênus e a Decoração do Lar

"Todo dia ela faz tudo sempre igual,
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã"
(Chico Buarque)


O Marido Sem Gosto Para Decoração nota o tapete novo no banheiro:
- A gente não precisa comprar um tapete novo toda vez que o velho sujar. Dá para lavar, sabia ?
- A gente não comprou um tapete novo porque o velho estava sujo, mas porque o velho era feio.
- Eu adorava o velho !
- Era horroroso ! Enorme. Ficava agarrando debaixo da porta, de tão grande.
- Isso era a maior vantagem ! Dava para escovar os dentes descalço, pisando só no tapete, que chegava até perto da pia.
- Seu problema é preguiça de calçar chinelo, não é o tamanho do tapete !

Obs: Como todos sabemos, democracia é ótimo para um país, mas não é prático em casa. Em todo lar onde mora pelo menos uma mulher e qualquer número de homens, quem decide qual tapete vai ficar no banheiro (ou em qualquer outro lugar da casa) é a mulher. Em casa de gays é diferente, mas eles têm bom gosto. Inútil argumentar, melhor mesmo calçar os chinelos e admirar o lindo tapete novo, pequeno, felpudo, combinando com tudo. Como diz uma pernambucana que está hospedada aqui no iglu: "é muito destrambelhamento querer discutir, visse ?".

21 setembro, 2005

Patinação Artística (porque comédia também é arte)

Nunca fui boa em nenhum esporte, aliás nunca fui nem ruim. "Péssima" seria uma descrição mais precisa. Sempre achei que não há vontade de fazer exercício físico que não possa ser "curada" com uma boa soneca. Quando criança, só gostava da aula de Educação Física no dia em que se jogava handball, porque eu podia ficar correndo de um lado para o outro do campo, sem jamais encostar na bola. Meu time nunca percebia, provavelmente nem sabia que eu era do time. Tinha (e tenho) pavor de jogar vôlei, porque a bola vem em mim e não dá para fugir. Acontece que mudei para Vancouver, uma terra onde pessoas de 2 a 80 anos de idade (exagero meu, de 4 a 79) esquiam, praticam golfe, escalam montanhas, jogam vôlei na praia, isso para ficar entre as atividades que não envolvem grandes sofrimentos físicos.

Falando em sofrimento, há um esporte aqui chamado "curling". Uma pessoa joga um disco sobre a pista de gelo e outras duas ficam varrendo dos lados para aumentar a velocidade (ou alterar o percurso, quem se importa ?) do troço, que deve atingir um alvo lá no final. É isso mesmo, não faz muito sentido. Pode me incluir fora dessa, eu não quero varrer nem a minha casa, que dirá a pista de gelo alheia ! Toda vez que passa na televisão, eu só me lembro daquela musiquinha enjoada "diga onde você vai que eu vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo..."

Como careço de talento em todas as áreas esportivas, optei por aprender alguma coisa que pelo menos acho legal: patinação no gelo. Fiz matrícula no meu primeiro verão aqui, para não pagar tanto mico quando o inverno chegasse. Um casal de amigos canadenses me emprestou o equipamento básico de proteção que iniciantes medrosos devem usar. Cheguei à primeira aula atrasada, porque levei séculos para calçar e amarrar os benditos patins com seiscentas voltas nos cadarços de doze metros. Quando tentei colocar as joelheiras emprestadas, que não passavam do meu tornozelo, pensei "ai, que raiva, eles me mandaram as joelheiras da filha de 5 anos e não as de adulto ! Que gente mais pateta !". Já tinha amaldiçoado até a décima geração da família deles, quando percebi que o que eu tentava em vão enfiar perna acima eram as cotoveleiras, enquanto as joelheiras mesmo permaneciam na sacola. Com meus passos de Bambi aprendendo a andar, cheguei esbaforida à pista, onde vários orientais (sabe Deus se eram coreanos, japoneses ou chineses) tentavam manter-se de pé, rindo sem parar, exatamente como eles fazem quando não entendem nada na aula de inglês. Pelo menos eu não era a única !

Entrei na pista de gelo segurando na barra em volta, usando uma blusa de alcinha, suando como se estivesse numa sauna. Nem teria percebido que só eu estava vestida para o verão carioca, se a professora não tivesse me alertado: "estamos em cima do gelo, a temperatura aqui é zero grau. Você não está com frio ?". Todos os canadenses vestiam casacos acolchoados, luvas e gorros e eu derretendo. A primeira e última vez que eu senti calor em Vancouver !

Fiz o curso para iniciantes três vezes (água mole em pedra dura...) e não só consegui andar para frente como aprendi até a parar ! Para o próximo inverno, vou me contentar em assistir aos jogos de hockey ao vivo (adoro), que o ginásio é aqui do lado de casa. Melhor não arriscar, vai que eu sou descoberta e tiro o emprego de um jogador da NHL (Liga Nacional de Hockey), com família para sustentar...

20 setembro, 2005

Quando se tem mais dinheiro do que bom senso

Esta um cirurgião plástico me contou hoje, durante uma cirurgia. Uma paciente de 52 anos (que aparentava ter exatamente 52) foi ao consultório dele ontem e aqui vai um resumo da conversa:
- Doutor, estou interessada em fazer uma plástica.
- Com que parte do seu corpo a senhora está insatisfeita ?
- Estou aqui para VOCÊ me dizer o que devo operar.
- Alguma coisa a incomoda em particular ?
- Nada específico, acabei de me divorciar e queria dar uma geral.

Sem saber o que fazer, ele coloca a paciente de frente para um espelho e ela passa os próximos vinte minutos se olhando.
- Minha testa está um pouco enrugada, minhas pálpebras estão caídas, tenho bolsas escuras debaixo dos olhos, meu nariz é um pouco torto, meus lábios são muito finos, meu pescoço está flácido, meus seios são caídos, minha barriga é grande e tenho culote. Tenho dez mil dólares, que tipos de plástica você pode fazer por este preço ?

Sentir-se bem consigo mesmo não tem preço !

19 setembro, 2005

Marte, Vênus e a Educação Infantil

Um casal de amigos vem para jantar, com a filha de um ano de idade. A menina não desgruda da mãe, que nem consegue comer direito. Depois da sobremesa, o Marido de Computador Novo e o Pai da Criança vão conversar no escritório, sob pretexto de ver as mil e uma funções da "supermáquina". As mulheres ficam na sala, com a criança que pula, chora, grita, joga comida no chão, chuta, sapateia, esperneia, morde a mãe e tantas outras coisas que eu ficaria doida só em tentar lembrar. Lá pelas tantas, eu digo à menininha: "Agora vá fazer birra lá perto do seu pai, para a sua mãe poder comer." A Mãe da Criança, que já envelheceu dez anos neste período de duas horas, desabafa:
- É por isso que ele quer outro filho. Está lá, conversando enquanto eu estou aqui, tentando fazer a menina comer. É tão mais fácil ser pai do que ser mãe !

Depois que o casal foi embora, o Marido comenta com a Esposa (que presenciou o trabalhão que a menina deu, mas ele não):
- Quando as pessoas têm filhos pequenos ficam doidas por uma oportunidade para conversar com outros adultos, sem crianças por perto. Por isso é que eu o chamei para conversar no escritório, coitado. Ele estava tão cansado de cuidar da menina !

17 setembro, 2005

Marte, Vênus e o Computador

A Esposa Enfermeira (cujos conhecimentos de informática são muito limitados) chega em casa, tenta entrar na internet e, como não consegue, liga para o Marido Analista de Sistemas, no trabalho:

- O que você fez que eu não consigo acessar a internet ?
- O laptop está desconectado, agora pode usar o computador novo.
- Você não me ensinou a ligá-lo.
- Na caixa preta tem uma portinha...
- Caixa preta ? Isso não é avião, é computador e não tem caixa preta nenhuma.
- Claro que tem, a CPU está dentro de uma caixa preta, do lado direito embaixo da escrivaninha, 'tá vendo ?
- Ah ! E tem portinha ?
- Tem. Abre a portinha e tem um botão de liga-desliga.
- Consegui, obrigada, tchau.
- Peraí, liga o monitor também.
- Claro ! Eu sei.

Três minutos depois, nova ligação:
- Não aparece nada na tela.
- Calma. Tem dois usuários, clica no "Flávia".
- Ah, tá. Tchau.

Dois minutos depois...
- Este computador não está colocando os acentos, eu avisei que queria acentos e cedilha. Um micro tão chique desses nem acento tem !
- Dá para esperar até eu chegar em casa ?
- Ai, meu Deus, acho que você é bombeiro ou policial e não analista de sistemas.
- Eu não sou analista de sistemas, você nem sabe o que eu faço ? Eu sou "systems business analist".
- Trabalha com computador, né ? Isso mesmo que eu falei.

E o Marido comenta com o chefe no trabalho:
- É mais fácil dar suporte aos 150 operadores da bolsa de valores desta empresa do que à minha esposa.
E o chefe:
- E eu não sei ? A minha liga para cá, no meio da reunião e diz "a impressora não quer imprimir, que botão eu aperto para consertar ?" e eu digo a ela "estou de frente pro meu computador aqui e não sei que único botão apertar para resolver todos os problemas e você quer que eu adivinhe sem ver, no seu micro em casa ?"

Só uma conclusão é possível: santo de casa não faz milagre mesmo !

15 setembro, 2005

Cada país tem o deputado Jefferson que merece...

Crônicas do Planalto Central
Hoje foi cassado o deputado Roberto Jefferson em Brasília, que classificou o atual governo como "o mais corrupto" que ele já viu. Ele pode avaliar com conhecimento de causa, depois da grana preta que recebeu do PT. Pelamordedeus, Beto Jefinho, "corrupto" é como "honesto", ninguém é mais corrupto ou menos honesto que alguém. Ou se é corrupto ou não e, no seu caso, é claro que "não".

Enquanto isso, em Louisiana...
O deputado William Jefferson é acusado de usar dois caminhões e um helicóptero das Forças Armadas, destinados à busca e ao resgate de sobreviventes do furacão Katrina, para ir à sua própria residência em New Orleans, cinco dias depois da tragédia. Que comitiva, hein ?! Na entrevista à CNN, ele teve a cara-de-pau de dizer que foi buscar um laptop e uma mala para a filha, além de ver em que estado havia ficado a sua casa. Claro, no meio da enchente, a prioridade é salvar o computador, minha gente ! E as roupinhas da filha dele ? Iriam ficar no meio da enxurrada ? Que gente mais sem coração, querendo ser salva da água contaminada, enquanto as coisas da menina estão estragando ! Fora que os guardas ficaram uma hora do lado de fora, esperando a Excelência, de braços cruzados no caminhão, enquanto tinha nêgo em casa literalmente com água pelo telhado esperando ser resgatado. Calma, gente, que vocês já estavam molhados mesmo, para que pressa de serem resgatados ? Quem esperou cinco dias espera mais um pouco. Tudo bem, deputado, mas por que não foi sozinho ? "Porque a área estava alagada e era perigoso. Primeiro eu sobrevoei o bairro de helicóptero, depois fui de caminhão. O primeiro caminhão ficou preso na enchente, então tivemos que chamar um segundo." A repórter perguntou se tinha sido abuso de poder e o nobre parlamentar respondeu "a casa fica só a 6 milhas de distância do estádio onde estavam os desabrigados, não vejo nada errado nisso. Todos os deputados fizeram a mesma coisa." Prova de que não só tem enchente, pobreza e desorganização, como também tem político safado no Primeiro Mundo.

14 setembro, 2005

Artigo de Primeira Necessidade

O recado de hoje vai para donas e donos de casa brazucas que são imigrantes em potencial, candidatos à residência permanente em terras canadenses. Principalmente as madames e patricinhas.

Gente amiga que lê as bobagens que eu escrevo, ao mudar pra cá, tenha em mente que fica no Brasil seu braço direito, que lava e passa sua roupa, faz sua comida, arruma sua cama, põe e tira a mesa de refeição, que espero não ser sua mãe, mas a amada, idolatrada, salve salve empregada doméstica e toda sua gangue (passadeira, faxineira, jardineiro)... É, Fofa, ‘tá achando que a vida no Primeiro Mundo é só glamour ? No Brasil podem até encher a cueca de dólares, mas pelo menos não vai sobrar para a mulher do indivíduo lavá-la. Maluf só ganha quibe na cadeia porque a empregada de alguém foi enrolar e fritar, aqui ele não ganharia nenhum quitute.

Não se preocupe em esfriar a barriga no tanque, até porque aqui não tem essas coisas. Vai tudo na máquina mesmo. E pode dando “boas vindas” às manchinhas amarelinhas no sovaco das camisas brancas, a menos que esteja disposta a esfregá-las na pia do banheiro.

Os brasileiros ficam chocados quando constatam que aqui não há ralo na cozinha ou no banheiro. É isso mesmo, só tem ralo dentro da pia e dentro da banheira. E vem a singela pergunta “e como é que se lava o chão ?” , seguida da resposta: não se lava o chão, Santa, joga-se um spray de Mr. Clean ou Pinho Sol (é o mesmo cheiro, a mesma cor, só que, por ser um desinfetante metido a besta, é conhecido por Pine Sol) e passa-se um pano por cima. Tem até os paninhos que já vêm molhadinhos com o produto de limpeza, que nem aqueles para bumbum de neném, só que para o chão.

Faz cinco anos que a empregada aqui do meu iglu não aparece. Não sei se é “pobrema de ônis”, como diz a secretária de um conhecido, quando o ônibus não passa. Que saudade da Jany, minha empregadinha portátil lá de Saint Louis do Maranhão. O nome dela era Janete, mas ela assinava “Jany”, com “y”, para ser phina, com “ph”. Eu avisava para todos os amigos não rirem na cara dela quando ela abrisse a porta, mas ninguém agüentava e caía na risada. Ela era minúscula, a menor pessoa adulta não-anã do mundo (sim, eu pesquisei todos os baixinhos do planeta), mas também, pelo salário que a gente pagava, não dava para ter uma empregada inteira. Segundo meu pai, ela era “horista”, porque quem chega ao meio-dia e sai às duas da tarde não pode ser chamada de diarista. Chegava de shortinho “segura-o-Tchan” e bustiê, óculos de gatinho e tênis, depois se trocava com a roupa de trabalho – uma calça e uma camiseta largona – e, no final do dia, vestia a roupa da filha da Loira do Tchan de novo, para pegar o ônibus. Um dia ela me deixou o seguinte bilhete: “Flávia, eu não tinha dinheiro para ir embora e achei um real no seu armário. Não roubei, até porque não preciso disso, mas peguei para pagar o ônibus. Obrigada, Jany”. O que eu daria aqui para ter de novo meia empregada, dessas que encontram tesouros no MEU armário, nem que fosse duas horas por dia ?

Justiça seja feita, eu tenho uma única amiga aqui que é chiquééééérrima, finíssima, que só não é colunável porque aqui não tem essas frescuras e ela trouxe uma empregada do Rio. Bom pra ela, que aqui no iglu eu fico esperando toda tarde que a Fada Madrinha (que é a mesma do Brasil, mas por ser metida a gringa, atende pelo nome de Fairy Godmother) apareça para arrumar a bagunça, passar a roupa e, principalmente, esvaziar e limpar a geladeira. Só que ela só gosta da Cinderella e não sobra tempo pra mim...

12 setembro, 2005

Primeiro Mundo Cão

Aconteceu hoje. No meio de uma cirurgia, chega uma colega que tinha ido dar uma pitadinha no fumódromo, durante o intervalo:

- Flávia, uma pessoa acabou de cometer suicídio aqui no hospital. Pulou do jardim, no quarto andar.
- Paciente, visitante ou funcionário ?
- Paciente.
- Da ala psiquiátrica ?
- Não sei.
- Como conseguiu ? Todas as janelas deste hospital são lacradas !
- Pulou num vãozinho entre a lanchonete e o jardim. A polícia veio me perguntar por quanto tempo eu estava ali e se tinha visto alguma coisa. Não vi nada. Já colocaram a fita em volta, pra ninguém chegar perto.

Quinze minutos depois, a cirurgia acaba e passa um padioleiro (carregador de maca):
- Flávia, você já viu o corpo ? Vem ver !
- Eu não !
- É sério, ainda está lá embaixo e dá pra ver daqui, vem cá que eu mostro.
- Não preciso ver, se alguém me diz que tem um corpo lá, eu acredito. Além disso, estou cuidando do meu paciente vivo aqui.
(Pensei, mas não falei "Santa Curiosidade Mórbida, Batman !").

Nisso, chega outro padioleiro, fazendo piada:
- Aposto que o suicida era um padioleiro, coitado, não agüentou a pressão no trabalho.
E eu:
- Se era, aposto que ele foi empurrado, para pagar pelas besteiras que a classe profissional anda falando por aí...

11 setembro, 2005

Pela Liberdade de Expressão

Eu sou totalmente a favor da liberdade de expressão, aliás quem me conhece sabe o quanto me expresso falando horrores, gesticulando e escrevendo mais ainda. Reza a lenda familiar que comecei a falar aos 10 meses de idade, antes de aprender a andar e até hoje ainda não parei. Inclusive li na Veja desta semana que gente assim que nem eu, que fala muito, anda rápido e consegue fazer dez coisas ao mesmo tempo é “hipomaníaca”, eu hein !? Por que a gente não pode mais simplesmente ser “elétrica” , tudo agora tem que ter um nome de doença ? Cruzes ! Quem escreveu o artigo é que um lerdo hipocondríaco !

Sempre observo o jeito de as pessoas falarem e escreverem e tenho uma memória boa para arquivar certas pérolas. Infelizmente, a equipe do Crônicas só morou em três cidades diferentes na vida, então não vai dar para mandar uma coletânea ao redor do mundo, só uma pincelada de cada lugar, da riqueza, criatividade e confusão de certas pessoas ao se expressarem.

Crônicas da Linha do Equador

1- Estava eu já havia um ano trabalhando na Pediatria em Saint Louis do Maranhão, quando a mãe de um paciente me faz o seguinte pedido: “Tia Flávia, a senhora poderia me arrumar um dissolvente ?” Antes de respondê-la, fiz uma pesquisa no meu google mental: dissolvente ? O que será que ela quer dissolver ?” Incrível, mas meus neurônios já tinham armazenado informações suficientes para concluir que não era “dissolvente” e sim, “’absorvente”, “moddess”, que lá naquela terra é mais conhecido como “paninho” e a mãezinha estava querendo falar bonito !
2- Tivemos por lá um paciente de 16 anos, da tribo dos Guajajaras, que não falava português e nunca tinha saído da aldeia. Ele havia fraturado o quadril ao cair de uma árvore e, como não tem pajelança no mundo que conserte fêmur quebrado, foi parar no hospital mesmo. Ele já era casado e tinha filho, mas pela idade, ficou no meio das crianças na enfermaria, acamado, tadinho. Depois de um mês, ele havia aprendido o básico para se comunicar e, como os “professores” disponíveis não eram do nível de Rui Barbosa, ele se virava como podia. Uma manhã ele avisou a uma enfermeira “Tia, eu quero cagar” (desculpe o meu francês, mas estou tentando reproduzir fielmente o diálogo) e ela, com mil afazeres, “tá bom, Guajajara, eu vou dar esta medicação e já trago a comadre”. Foi uma medicação, foi um curativo, foi a passagem de plantão, foi o almoço e nada de ela se lembrar do pobre índio. No final da tarde, ele perguntou a ela “Tia, eu não posso cagar hoje?” Afinal de contas, eram tantas regras no mundo “civilizado”, vai que não era dia disso !

Enquanto isso, no Planalto Central...
Minha irmã vai à depiladora, que comenta dos seus planos de se mudar para o exterior. Primeiro ela queria “ir em Flórida, morar em Disney”, mas depois mudou de idéia e estava na dúvida entre "morar na Europa ou morar na Espanha". Acabou concluindo “não vou para os Estados Unidos, porque é muita democracia para conseguir o visto. Vou para a Austrália, que lá pelo menos eu vou ganhar em euro...” Morra de inveja, Glória Perez !

Finalmente, uma crônica do iglu

Eu já comentei num post anterior que sempre leio os cartazes dos mendigos locais, que são super criativos ao justificar como vai ser usado o dinheiro da esmola. O de ontem superou minhas expectativas e foi uma pena eu não ter uma câmera a tira-colo para registrar a plaquinha: “Spare change for a penis enlargement. It’s too small.“ , ou em bom português, “dê um trocado para aumento de pênis. É muito pequeno”.

E viva a palavra falada, escrita, digitada, rabiscada ou traduzida !

09 setembro, 2005

Quatro Azarado

Um post informativo hoje, que o Crônicas do Iglu também é cultura !

Responda rápido: qual o número do andar que geralmente não existe nos prédios na América do Norte ? Pelo menos nos prédios chineses daqui, não é o treze, mas quem diria, o inofensivo número quatro. Logo ele, que faz a alegria da galera brasileira no tal “quadrado mágico” da Seleção. Coisas de chinês...

A população chinesa aqui em Vancouver é imensa, é o segundo Chinatown do mundo, só perdendo para San Francisco, na Califórnia. Da rua, é possível identificar as casas de chineses, pelas estátuas de leões na entrada e pela cor (quase sempre rosa). Os prédios precisam ser vistos por dentro e já do elevador a gente sabe o que aguarda: tudo rosa. Coisas que eu pensava serem cor-de-rosa somente na casa da Barbie, como portas de elevador, carpetes, paredes, granito, teto, portas de entrada do apartamento, rodapés... A casa da Xuxa perde feio ! Espera só eles descobrirem o Guaraná Jesus lá do Maranhão, vão morrer de inveja da cor do refrigerante (tem um gosto de perfume que nem dá para descrever, só provando).

Quando a gente veio comprar o apartamento, sabia que se tratava de um prédio construído por chineses pela coloração típica das paredes dos corredores, mas só observei a tetra-implicância depois que me mudei. Não existem os andares quarto e décimo quarto. O elevador passa de 3 para 5, de 13 para 15, assim como os endereços. No nosso andar, por exemplo. os apartamentos têm numeração 601, 602, 603, 605, 606, 607, 608 e 609. Tudo para afastar o número azarado.

Em compensação, oito é o número da sorte. Os estabelecimentos comerciais com endereço 888 são 100% de propriedade de chineses. As placas de carro 888 também.

Uma colega chinesa está consultando um astrólogo conterrâneo para poder marcar a data do casamento e evitar um dia azarado (4, 14 ou 24, penso eu). Não vai casar em 2005 porque é o Ano do Galo que, pelo que dizem, é muito galinha e não favorece uniões duradouras.

Segundo a sabedoria milenar chinesa, o Parreira deveria escalar todos os cinco astros no ataque da Seleção, para evitar maus fluidos. Pensando bem, eu sempre morei no quarto andar em Brasília (em dois diferentes endereços, sempre no quarto), deve ser por isso que jamais ganhei na Mega Sena !

04 setembro, 2005

Olha a Alemanha ali, Wellington!

Desde ontem de noite temos telefonado para os vários bares e restaurantes locais que costumam ligar as televisões e reunir os exilados amantes do futebol durante a Copa do Mundo, para ver se alguém iria mostrar o jogo Brasil X Chile. A maioria, inclusive um brasileiro, nem sabia do jogo e, como não tem permissão para ter o canal da Globo no restaurante, foi logo perguntando “posso saber com quem estou falando?”. Tentamos ir pessoalmente aos tradicionais estabelecimentos portugueses e italianos, que geralmente ficam lotados durante campeonatos internacionais, mas nada, necas, xongas.

Por ironia do destino, o jogo foi em Brasília, a minha cidade. Do povo lá de casa, só meu cunhado se animou a ir ao Estádio Mané Garrincha, na geral, que ele topa tudo. Meu irmão achou caro, meu pai tem medo de multidão e de sair briga (ele disse que prefere "dar banho num tigre a enfrentar um estádio com quarenta mil pessoas"), minha irmã não queria ficar na arquibancada às quatro da tarde com a secura e o calor da capital federal nesta época do ano. E eu, aqui do outro lado do planeta, daria tudo para ir ao jogo ao vivo, no meio da galera! A gente fica mais patriota quando está longe.

Decepcionados, mas uniformizados com a camisa amarelinha oficial (sim, o Marido Gringo tem a dele), voltamos para casa e sintonizamos a internet no rádio para ouvirmos o jogo. O Aleks encontrou uma tal de Rádio Itatiaia (impossível para um canadense pronunciar isso), “a sua rádio esportiva de Belo Horizonte” e, pela primeira vez na vida, ouvi um jogo de futebol narrado pelo rádio.

Sem dúvida, os comentaristas são melhores que os pouco entusiasmados britânicos que geralmente narram os jogos pela TV e levam a gente a cometer o desatino de ter saudade do Galvão Bueno. Eram três radialistas, o mais falante não dava chance aos outros de dizerem o nome dele e, entre os dois restantes, um era João e o outro, Wellington. A cada cinco minutos, o locutor principal repetia “olha a Alemanha ali, Wellington!”. Para mim, foi difícil visualizar o jogo sem imagens, só ouvindo “Ronaldo lança para Robinho, Adriano bate de cabeça e Tintas Coral: tinta não é tudo igual, tinta é Coral”. "Goooooooooooooool. Juan!". "O Ronaldo Fenômeno está devendo um gol e Unimed, o plano de saúde que você merece". "Goooooooooooool. É de Robinho, mostrando a que veio aqui em Brasília". Como era uma rádio mineira, volta e meia saía um “o trem ‘tá feio pro Chile, o trem ‘tá feio”. Fora um tal de “chocolate” que eles repetiam sem parar que o Brasil estava dando. "É um chocolate e a Alemanha está logo ali, Wellington! Goooooooooool. É Adriano, o Imperador!”. Amei quando um chileno deu um chute num brasileiro (calma, não foi dessa parte que eu gostei) e o narrador mandou um “bater não, Pizarro. Bater não pode”, como se estivesse falando com um menino de três anos. E, de novo, “o passaporte está carimbado, Wellington, carimbadaço!”. "Gooooooooooooool, é do Brasil. Chocolate, Wellington, chocolate no Chile.".E ainda teve esnobação: "o placar do primeiro tempo foi injusto, Wellington, poderia ser pelo menos seis ou sete a zero".

Eles leram as faixas que estavam na torcida e a minha favorita foi “a galera da geral não recebe o mensalão”. Havia uma “cala a boca, Galvão”, mas os autores provavelmente nunca assistiram a um jogo narrado pelos catatônicos comentaristas gringos.

Depois do 5X0, acho que o Brasil deu um chocolate no Chile e, como eu não ganhei o meu, vou sair para procurar uma sobremesa, que esta conversa toda me deu a maior vontade, Wellington!

* Adendo: Boletim de última hora (dia 5 de setembro) informa que, como sempre, meu irmão estava almoçando quando um amigo ligou oferecendo um ingresso de graça na arquibancada coberta e não precisou nem ficar na fila para entrar, porque um outro amigo da Polícia Federal deu uma carteirada (típico de Brasília). Claro que meu cunhado, que chegou horas antes do jogo, ficou na fila da geral, de 20.000 pessoas, até 15 minutos antes do apito inicial, num sol de lascar, quando a polícia passou com os cavalos e mandou liberar os portões. Meu pai disse que, se ele tivesse ido, uma ferradura do cavalo teria se soltado e caído no pé dele. Sem dúvida, eu estaria lá, na fila, no sol, mas com o maior orgulho.

Os que viverem verão (mas só por trinta dias)

Oficialmente, no hemisfério norte, o verão começa dia 21 de junho e termina 21 de setembro. Extra-oficialmente, o verão acaba no Dia do Trabalho (primeira segunda-feira do mês de setembro) e o inverno começa no Halloween (31 de outubro). São Pedro deve estar muito ocupado com o furacão nos Estados Unidos, porque ficou devendo dois meses de verão para a gente aqui em Vancouver. O sol não começou antes de meados de julho e já se mandou, como diria o meu irmão, o sol deu o forest, vazou, picou a mula, deitou a cabeleira, rapou o peito, capou o gato, aplicou a arte do wasari, enfim, largou o osso ! Quanto ao calor, não importa o que digam os canadenses e os outros gringos não-tropicais que aqui habitam, nunca passou por esta cidade. Depois de um tempo morando em Vancouver, quaisquer 25 graus são recebidos como “onda de calor”, o que para brasileiro é uma piada. É inverno no Rio de Janeiro e semana passada os termômetros lá atingiram 40 graus, isso sim, é calor.

Eu particularmente acho o outono triste. A primeira folha de árvore mudando de verde para vermelha já traz consigo um aperto no coração de quem a vê, sinal de que o curto verão está chegando ao fim. Num comercial de TV do KFC (cadeia de restaurantes que vendem os frangos fritos mais oleosos do planeta), um cara está comendo quando uma folha do outono cai no seu ombro e ele tem um ataque de pânico, gritando histericamente. “Assim como o verão, esta promoção não vai durar para sempre”. Tirando a parte do menu, eu me identifico com ele, aliás já começo a fazer beicinho antes de as árvores mudarem de cor, quando as vitrines substituem os azuis, rosas e verdes do verão por marrons, cinzas e pretos do outono. Os vestidinhos dando lugar a jaquetas e casacões, as legítimas havaianas sendo substituídas por botas, isso é uma imagem de cortar meu coração tropical.

Nesta época do ano os dias ficam mais curtos, as crianças voltam à escola (talvez os pais considerem esse o ponto alto da estação) e a chuva em Vancouver chega inclemente, diária, eterna. As árvores ficam lindas por algumas semanas e depois as folhas caídas nas ruas e calçadas misturam-se à lama e fica impossível descer do carro sem pisar em algo mole e úmido. Eu amo o costume local de tirar os sapatos quando a gente entra na casa de alguém, ainda mais no segundo semestre.

Há três anos eu decidi não reclamar do clima. No meu primeiro inverno aqui eu tive sinusite, bronquite, pneumonia e asma, reclamava mais que pobre na chuva. Fiquei doente de outubro a março, quando meu pai mandou a passagem pro Brasil, dizendo "vem para casa que o clima aí é incompatível com a vida humana". Mal sabia ele que Vancouver tem o clima mais "ameno" de todo o Canadá ! Agora tomo a vacina contra a gripe todo outono e me recuso a ficar de baixo astral. Há quatro anos não pego mais nem resfriado.

Contrariando a maioria (geralmente sou “do contra”), eu engordo no verão e emagreço no inverno. Este ano, com reforma de apartamento, casório e hóspedes, foi uma correria danada e a Associação das Rechonchudas Palpiteiras enviou várias representantes para me informar de que emagreci “ainda mais” em julho e agosto. Sendo assim, enfrento o outono sem reservas extras para queimar durante o inverno. Se a cegonha colaborar, tem um jeitinho de ganhar peso e passar os próximos meses mais “cheinha”...

01 setembro, 2005

Cinqüenta Dias

Entramos no mês de setembro e completamos 50 dias. Não de casados, cinqüenta dias sem telefone. Como fomos desconectados dia 12 de julho e casamos dia 21 do mesmo mês, temos mais tempo de linha muda do que de vida conjugal. Esclareço ao desatento leitor que não moramos em Bagdá ou Kabul, nem mesmo em New Orleans, onde o Katrina provocou o maior estrago. Há boatos de que moramos na segunda cidade com melhor qualidade de vida do mundo ! O desastre aqui é causado pelos funcionários da companhia telefônica, que continuam em greve. Como alguém lá em cima autorizou a chegada do outono (p...¶Ŧ*¤¥# !) , eles não permanecem mais sentados do lado de fora do prédio da Telus, fingindo estarem protestando, mas na verdade aproveitando o sol e tomando o café Starbucks de cada dia, até porque o sol acabou. Ontem passei lá e só vi as cadeiras e as placas de protesto, não sei onde os inúteis foram parar. É mole ? E quem me vier falar em direito de greve vai levar uns tapas !

Nunca pensei que fosse dizer isso, mas que saudade de quando eu morava em São Luís (Saint Louis do Maranhão, para os íntimos) e meu telefone tocava como se fosse numa casa de parteira em noite de lua cheia, sem parar. Da primeira vez que tocou, no dia da mudança, eu atendi e a pessoa do outro lado perguntou “é do Paraíba?” e eu, inocente, “não, é do Maranhão”. Só levou uma semana para minha amiga e eu percebermos que noventa por cento das vezes o telefone não tocava para a gente, mas para o setor de queixas do Armazém Paraíba. Compras não entregues, prazos não respeitados, aparelhos com defeitos, um pouco de tudo. Cheguei a gravar nossa mensagem na secretária eletrônica, dizendo “você ligou para o 458-9472 e NÃO é do Armazém Paraíba”, mas mesmo assim recebíamos recados diários, com reclamações desde colchão que não foi entregue a armários sem gavetas. O problema é que realmente era o telefone do tal armazém, pelo menos era o número que vinha impresso na nota fiscal deles. Legal, né ? Para reclamações, eles imprimem o número da minha casa ! Meus dois maiores arrependimentos quanto à minha estadia em São Luís são não ter guardado a fita com os recados e não ter gravado o programa eleitoral gratuito dos candidatos a vereadores e prefeito. Poderia vendê-los para o Casseta & Planeta e colocar o Seu Crêisson no chinelo. Pois é, tempos felizes aqueles em que o telefone tocava dezenas de vezes por dia, mesmo que não fosse para mim. Aqui, no Primeiro Mundo, não conseguimos nem a linha, que dirá fazê-lo tocar.

Até o marido calmo já anda ameaçando passar na porta do prédio da Telus e executar um seqüestro relâmpago de um dos manifestantes, conseguindo assim trazer alguém para fazer o bendito telefone funcionar ! A conta continua chegando mensalmente, como se o telefone estivesse sendo usado.

Em cinco anos em Vancouver, já presenciei greve dos ônibus, que durou longos três meses, paralisação dos enfermeiros (na verdade foi uma “operação tartaruga”, em que ninguém deveria fazer hora extra e causou o cancelamento de centenas de cirurgias), greve da telefônica e agora também do canal de TV local. É capaz que a equipe do Crônicas do Iglu também entre em greve, como forma de protesto contra o fato de ser mantida incomunicável por telefone !