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21 junho, 2013

Sete Anos!

O tempo voa e, na correria do dia-a-dia, detalhes importantes e curiosos da infância vão ficando esquecidos na cabeça ocupada dos pais. Se algum dia o Pacotinho de Idade quiser saber como ele era aos 7 anos, vai poder pesquisar por aqui.

"Filhote,

Terça-feira você completou 7 anos de idade. Ficou super animado, contando os dias que faltavam desde maio. Marcou no calendário da geladeira o dia 18 de junho.

Infelizmente, sua professora maravilhosa (provavelmente será pra sempre a melhor da sua vida)teve um pequeno derrame e não esteve presente na aula deste dia. Fofa que só ela, mandou email do hospital pedindo desculpas por isso. Mamãe foi com você à escola, já estava combinado que faríamos a apresentação do projeto "Flat Daniel". Toda a classe leu o livro Flat Stanley , desenhou um boneco de si mesmo e enviou a um amigo ou familiar que mora fora de Vancouver. O seu foi a Brasília e dia 18/06 era a data marcada para você ler as aventuras que o boneco viveu tão longe daqui, registradas pelos seus primos. Mamãe foi vestida com a camisa da seleção, falou um pouco sobre a construção de Brasília para seus colegas e a professora substituta ficou empolgadíssima. Ela adora vôlei de praia e sonha há anos em visitar o Brasil. Mamãe é extremamente orgulhosa da cidade dela, adora falar sobre os monumentos e a história do lugar.

Um dos seus incisivos superiores está mole há várias semanas. Ainda não caiu, volta e meia sangra um pouco. Você é muito corajoso com os dentes moles. Ao contrário da Mamãe, que engoliu alguns porque não deixava ninguém arrancar e teve outros tantos arrancados no dentista com anestesia, você balança o seu e puxa até cair, sem o menor drama. Agora você tem os dois incisivos centrais inferiores permanentes e todos os demais ainda são de leite.

Aos 7 anos, você já foi o representante de classe 2 vezes e também fez o solo na apresentação de Natal 2 vezes. É porque só está na escola há 2 anos. Como o Vovô e a Mamãe, claramente você ama falar em público e o faz com desenvoltura. Uma das tarefas do representante de classe é ler avisos no sistema de autofalante da escola e você não tem inibição alguma quando é o seu dia de transmitir os comunicados da diretora.

Você tem muitos amigos na escola, brinca com os meninos e as meninas. Mamãe fica sempre surpresa ao ver que tanto as crianças menores como as mais velhas sabem seu nome quando você passa no pátio da escola e as cumprimenta.

Você adora ler. Traz para casa diariamente livros "de capítulos", como dizem aqui, geralmente entre 150-200 páginas, que você leva em média 2-3 dias para acabar. Ninguém precisa mandá-lo ler, você lê com prazer toda noite até pegar no sono. Além dos livros da escola, já leu a série inteira do Zac Power nos finais de semana. Continuamos com nossa leitura diária dos livros em português, que você também consegue ler em voz alta. É a hora favorita do dia pra Mamãe. Você, Fofolete e Mamãe debaixo das cobertas lendo os livros do Brasil que vocês escolhem toda noite.

Você não gosta muito de escrever. Precisa ser "lembrado" de praticar as palavras para o ditado semanal e de fazer uma letra caprichada.

Você começou em maio aulas particulares de natação. Como a Mamãe, você detesta passar frio e não morre de amores por piscina. Este método de natação em aulas individuais foi ótimo pra você. Em pouco tempo, seu progresso foi notável. Mamãe não faz questão de ter nenhum atleta em casa, ela acha que esporte deve ser praticado por prazer. Sabendo nadar o suficiente para não se afogar e eventualmente poder ajudar alguém que esteja se afogando, isso já é o suficiente.

Em poucos dias, estaremos no Brasil. Mamãe fica tão orgulhosa de ver o quanto você se sente conectado com o Brasil! Você fica super empolgado com a viagem e com o fato de poder reencontrar a família e os amigos de lá.

Suas calças não duram mais que 3 meses sem ficarem rasgadas no joelho. Os tênis também ficam destruídos muito antes de ficarem apertados no seu pé. Mamãe acha que isso é sinal de infância bem aproveitada. Ter mudado pra esta casa aumentou a qualidade de vida desta família de uma forma tão imensa que é impossível quantificar. Se está sol, você fica lá fora brincando com os vizinhos e sua irmã. Se está chovendo, ou você vai brincar na casa dos vizinhos ou eles ficam aqui. O Nikko continua sendo seu melhor amigo, embora vocês sejam completamente diferentes. Ele é tímido, você é tagarela. Ele é calmo, você é agitado. Você adora ler, ele detesta. Ele é ginasta e não gosta de patinar no gelo, você ama patinar e não curte ginástica. Mas vocês brincam e conversam por horas a fio e nunca brigam.

Você ganhou uma guitarra elétrica de presente de aniversário. Foi de supresa, você nem tinha pedido, mas uma amiga da Mamãe cujo filho não toca mais ofereceu e aqui ela está. Provavelmente em setembro vamos procurer aulas de violão para você aprender a tocar. Por agora, está escondida porque a Fofolete queria tocá-la com os pés.

Na aula de piano, você continua empolgado. Não é sempre que quer praticar em casa sem resmungar, mas adora praticar a música do recital e tocar em público.

Pra comer, você continua extremamente difícil e seletivo, mas é muito saudável. Jamais faltou um dia sequer de aula desde que começou o "kindergarten". Dois anos ininterruptos sem uma única gripe ou mal estar que o impedissem de ir à aula. E lá se vão 6 anos (no primeiro você comia de tudo) sem carne, arroz, feijão, macarrão, legumes... A lista beira o infinito.

Você não é nem o mais alto, nem o mais baixo da turma. É magrinho, mas bem menos do que a Mamãe era na sua idade.

Você fica bem emburrado quando está com fome e quando tem que acordar cedo. Mas a professora deste ano falou que nunca o viu de cara amarrada na escola.

Você se preocupa com os outros, tem um forte senso de justiça e faz amigos facilmente.

Você e sua irmã às vezes brigam por umas besteiras, como quem vai sentar em tal cadeira na hora do jantar. Mamãe agora não entende, mas ela já fez isso com os irmãos dela, que hoje são grandes amigos.

Tente não crescer tão rápido, pode ser?

Um abraço bem apertado, como aquele que você lembra de dar toda noite,
Mamãe"





22 maio, 2011

Última Carta de 4 Anos

"Filhote,

Mês que vem já é seu aniversário de 5 anos! Você mudou muito neste último ano, perdeu aquela carinha de criança pequena.

Você, como todos nós, está adorando esta casa. Brinca quase que diariamente com o filho do vizinho no quintal. Esta semana, num dos raros dias ensolarados e quentes deste ano (o mais quente até agora), Mamãe estava na cama amamentando, seu pai tinha saído e você e seu amigo estavam deitados na grama, olhando pro telhado e conversando sobre alienígenas, um dos seus assuntos favoritos. Se estivéssemos no apartamento, Mamãe amamentando, seu pai fora de casa, você certamente estaria plantado na frente da TV, mas como agora temos o "lá fora", o dia de sol foi aproveitado até o fim, com seu novo melhor amigo. É tão linda a amizade de vocês! O Nikko é tímido, calado, fala baixinho, o oposto de você e, no entanto, vocês se dão tão bem. Nunca precisam que alguém sugira o que fazer, do que brincar.

Você faz amizade facilmente, até com as crianças mais caladas, mais retraídas. Sempre foi assim, desde bebê nunca estranhou ou chorou no colo de qualquer pessoa. Agora mesmo chegou de uma festa, da qual seu pai disse que foi difícil convencê-lo a sair porque estava brincando sem parar, dizendo "Mãe, foi terrível. Todo mundo estava jogando spray em mim". Realmente, o cheiro de perfume doce está tão insuportável que a roupa já foi direto pra máquina, mas dizer que a festa foi terrível depois de brincar e correr 3 horas sem descanso é demais.

Ontem você ajudou seu pai a lavar o carro, anteontem vibrou com o cortador de grama em ação. No primeiro dia de sol desta semana, arrancou as ervas daninhas (por pouco o pé de morango não foi junto) e plantou as sementes de abobrinha. Você foi a primeira pessoa a notar que o tomateiro já está florido. São as pequenas alegrias e descobertas de um estilo de vida completamente diverso do que tínhamos até dois meses atrás, somente porque mudamos alguns quilômetros de distância, embora continuemos a morar na mesma rua de antes.

É muito engraçado quando volta e meia você tropeça em algum brinquedo espalhado (por que será?) e reclama "Mãe, eu falei que não queria morar nesta casa". A culpa é da casa.

Fizemos uma aula experimental de música, você gostou muito. Vai ter uma semana no verão, depois a aula semanal começa em setembro. É um método excelente (music for young children), que Mamãe adoraria ter tido a chance de vivenciar na sua idade, ao invés das aulas de piano maçantes que ela teve anos a fio.

Você começou esta semana na aula de jiu jitsu. Ficou tão bonitinho de kimono! Não é kimono que se chama oficialmente a roupa (está escrito no manual o nome certo), mas é o nome que a Mamãe sabe. A aula é bem rígida, mas você adorou. Ficou lá dando os golpes no boneco ("Mãe, o nome dele é Bob"), todo compenetrado. Pra alguém agitado, incansável como você, o rigor e a disciplina de uma arte marcial farão bem.

Mamãe passou uns dias preocupada, achando que talvez você fosse hiperativo. Parece ter mais energia do que todas as outras crianças à nossa volta. Juntas. Hoje em dia tem nome de doença pra tudo, até para ter energia demais. Ela sofreu por antecipação, imaginando você tendo dificuldade em ficar sentado durante a aula no kindergarten. Aí ela foi assistir a uma aula na sua escola e viu que não tem motivos para se preocupar, ao menos por enquanto. Havia vários meninos distraídos, um inclusive parou o que estava fazendo quando você chegou e veio até a sua mesa puxar papo. Que você não deu, aliás, concentrado que estava na sua atividade. Tinha uma menina levantando a saia para coçar o bumbum, um menino com a mão dentro da calça fazendo o mesmo (será mania coletiva da idade?). Sim, tinha duas meninas quietinhas copiando algo de um livro, mas os outros todos estavam num senta-levanta sem fim. Que alívio! Mamãe sempre foi rápida, elétrica e impaciente, mas concentrada, capaz de ficar muito tempo numa atividade repetitiva e espera que você não tenha herdado somente a parte de ser ligado no 220V o tempo todo.

Falando em escola, você já está lendo algumas palavras. Não gosta de escrever, mas adora os exercícios com números e joguinhos de encontrar o que está errado na cena.

Você é ótimo para distrair sua irmã, principalmente na cadeirinha do carro. E vibra com os progressos dela. "Mãe, ela está batendo palma, que bebê esperta!"

Você adora o personagem principal do livro Marcelo, Marmelo, Martelo. E volta e meia sai com palavras novas, exatamente como ele. "Mãe, tem um agueiro lá no parque". "Não existe 'agueiro', Filhote. É uma fonte de água, um chafariz". "Não, Mãe. Agueiro é um lugar onde a gente põe a boca pra beber água". "Então é bebedouro, ué!".

Outro dia estávamos no carro quando caiu uma chuva de granizo. Você não conseguia parar de rir e achou o máximo a "chuva de meteoros". Não houve jeito de convencê-lo de que não era meteoro coisa nenhuma.

Mifino, seu amigo imaginário, é assunto de conversa quase que diária. Hoje mesmo Mamãe descobriu que ele fala inglês, português "e também a língua do Tata", que ele tem uma irmãzinha bebê (cujo nome ele falou, mas você já esqueceu), é "marronzinho" e tem os pés iguais ao do E.T. Ele andou pedindo umas comidas aqui em casa, que não comeu, mas depois que Mamãe avisou que iria conversar com a mãe dele por conta disso, não aconteceu mais.

Uma querida amiga da Mamãe mandou um CD do Palavra Cantada para você. Sua música favorita é a das frutas e suas árvores. Uma criança canta o nome de uma fruta e o coro fala o nome da árvore. Você chorou de rir na primeira vez que ouviu "umbu, umbuzeiro". Gargalhava e falava "bumbum? Não existe bumbunzeiro". Outra palavra que provoca risadas histéricas em você é "catupiry", que seu tio trouxe do Brasil quando esteve aqui na Semana Santa. Mamãe já mostrou que é um queijo na caixinha redonda, mas volta e meia você pede "Mãe, pode você mostrar um catupiry no computador?"

A faixa do CD "O que que tem na sopa do neném?" está riscada. Você logo avisou "foi o Tata". Mamãe disse que seu pai nem encostou no CD e você corrigiu "então foi a Marina. Ela gritou tão alto que o CD arranhou". Capacidade infinita de arrumar desculpas a sua...

Você topou o desafio de provar todo dia uma comida que não tinha comido antes. Começamos muito bem, com muffins de aveia e banana, mas foi ficando muito estressante quando a comida era algo "intragável" pra você, como carne vermelha. Sim, você come pouco, em quantidade e variedade. Mamãe, por ter passado por isso e ter sido forçada a comer, sempre foi deixando para lá, acreditando que, em algum momento, o estirão de crescimento vai chegar e a fome vai bater. Só que o tempo vai passando, as pessoas se preocupam, comentam, criticam. Mudamos algumas coisas, você agora se senta à mesa e provou uma meia dúzia de coisas que não comia antes (gostou de poucas, detestou algumas, inclusive comeu o macarrão em formato de insetos que você mesmo escolheu com a cara de quem estava comendo gafanhotos vivos). Mas vai ter que ser sem pressão. É irritante ver você inventando desculpas para não provar a comida, mesmo após ter prometido, porque Mamãe inventou este jogo de enganar os adultos para não comer. Ela sabe duas horas antes que você não tem a menor intenção de comer aquilo, embora curta muito ajudar a fazer. Então, não voltamos à estaca zero, mas também não vamos ter a obrigação de toda noite provar algo diferente. Mamãe acredita piamente que, em casa que tem comida farta, uma criança não passa fome (sim, tem aqueles casos de anorexia nervosa, o que definitivamente não é o nosso problema). E, para confirmar a teoria de que você não só não passa fome como é saudável, estamos aqui todos doentes, Mamãe nem consegue terminar uma frase inteira sem tossir alucinadamenate, Fofolete toda entupida, seu pai um bagaço e você nem tem o nariz escorrendo. Sua mãe só foi provar feijão com arroz aos 13 anos, ela se lembra de voltar da escola a pé e sentir pela primeira vez na vida a barriga roncando de fome. Tem tempo, um dia a sua avó ainda vai contar isso rindo, mesmo que agora viva preocupada. Por enquanto, vamos continuando com muffins incrementados com aveia enriquecida com ferro, abobrinha, cenoura, porque definitivamente, falta de energia por comer pouco é um problema que não afeta você.

Mamãe se despede aqui, tossindo louca e irritantemente, com um abraço apertado. Tem uma foto legal para colocar aqui, de você plantando abobrinha na horta, mas está na câmera do seu pai, que Mamãe não sabe usar. Fica pra outro dia."

27 março, 2011

Carta


"Filhote,

O mês está quase acabando e foi tanta correria que nem ficou faltando sua carta. De fevereiro? De março?

Finalmente nos mudamos para uma casa, batizada por você de "casa do Gilbert", que é o nome do corretor que nos mostrou. Depois de visitarmos tantas casas, a única coisa de que você fazia questão era de que tivesse uma escada. Logo no primeiro dia, comentou "Mãe, esta casa não tem escada". Como tem duas, você logo corrigiu "só tem escada que vai pra baixo, não tem escada que vai pra cima".

Você não estava presente no dia da mudança, tinha ido pra casa da Baka e do Deda. Eles disseram que você choramingou na hora de dormir lá, mas depois não reclamou. Ficou bem triste quando chegou aqui e viu que não iríamos mais voltar para o apartamento, mas bastou um único banho na banheira grande, com seu pai e a Fofolete, para dizer que gostava da casa nova.

Você logo fez amizade com o Nikko, filho do vizinho. Provavelmente ficarão na mesma turma da escola, se houver somente uma sala de kindergarten. Brincam juntos no final da tarde, no quintal. Tão bom ter "lá fora" para brincar! Uma graça vocês dois jogando bola e organizando a própria brincadeira, quem vai brincar na casa de quem.

Ontem chegou um pacotinho do Brasil para você. Mamãe tinha pedido ao Vovô que mandasse um, já que os últimos que chegaram eram sempre com coisas para sua irmã. Você vibrou de felicidade quando ouviu a notícia "é só pra eu?" Abriu e pulou de alegria quando viu o DVD "O Malvado Favorito", que você chama de "Espicable Me", embora seu pai sempre corrija "DESpicable".

Temos lido livros do Brasil toda noite. Mamãe tem muita dificuldade em explicar o que são cotia, jabuti, garça e, como o notebook caiu no chão ("quebrou sozinho", como diz você), não dá para ficar mostrando figuras de cada bicho no meio da estória. O computador agora fica em outro andar e não dá para consultar o São Google a cada página. Livros com muitas figuras ajudam bastante.

Você está gostando muito da escola nova. Adora um menino chamado Manolo, que tem a mãe mexicana, o pai francês e também fala 3 línguas em casa, como você. Ele já tem 6 anos, parece ser o ídolo da turma toda. E você tem um amigo novo, o Caleb, que fala francês com a mãe dele. Mamãe adora o fato de praticamente todos os colegas da escola serem filhos de estrangeiros e falarem outros idiomas.

Semana passada você foi brincar na casa do Caleb. Fez "muffin" de aveia, comeu (!) e voltou falando que comeu uma tal de "waffle sausage" que Mamãe vai perguntar pra mãe do Caleb o que vem a ser.

Falando em comida, nenhum progresso nesta parte. Até tem comido em maior quantidade, mas não em variedade.

Sua mais nova paixão é caminhões. Vive perguntando quando seu pai vai levar o carro dele para a loja e trocar por um caminhão. Pediu se a Mamãe pode comprar um caminhão para você quando for adulto. E, quando fomos à concessionária buscar o carro novo, você fez questão de entrar em todos os "caminhões" disponíveis (na verdade, eram SUVs).

Faz meses que você planeja sua festa de aniversário. Tem dias em que ela vai ser do "Wall-E", ou de "nave espacial" ou de "Star Wards" (o D é por sua conta). Estamos tentando convencê-lo a fazer aqui em casa, com pula-pula no quintal, mas você às vezes diz que vai ser onde foi o aniversário da Mila, outras vezes, no mesmo lugar da festa do Manolo. Volta e meia sai com um "Fulaninho não está na lista", o que surpreende a Mamãe, que nem sabe de onde você tirou esta expressão.

Você fala tanto dos seus primos no Brasil, de fatos que aconteceram nas nossas férias lá. Já voltamos há quase 10 meses, sua memória é impressionante.

Durante o "Spring break", você frequentou uma colônia de férias no centro comunitário perto da nossa casa velha. Gostou muito, mesmo não tendo uma só criança conhecida no primeiro dia. Você sempre foi muito adaptável, nunca estranhou as pessoas, desde bebê jamais chorou no colo de um estranho. Agora que está grandinho, dá para ver como isso sempre foi típico da sua personalidade.

Esta semana, numa agradável tarde de sol, seu pai tirou o patinete que estava guardado na caixa desde o Natal (Papai Noel tinha trazido presentes demais e resolveu esconder uns para seu aniversário) e você o inaugurou no quintal de casa.

Você pergunta muito, repara em tudo, comenta absolutamente toda e qualquer novidade que vê. Anda muito interessado em números e fica perguntando "2 e 3 faz o quê?" Vinte e três. "Vinte e três?" Pede para a Mamãe ajudá-lo a contar até 100.

Você tem ido várias vezes às montanhas brincar na neve com a Baka e o Deda. Um dos seus programas favoritos.

Você tem sido um ótimo irmão grande pra Fofolete. Consegue distraí-la como ninguém. Ela dá gargalhadas das suas macaquices. Hoje mesmo você estava pulando e dançando na frente dela, dizendo "eu sou um palhaço".

Por mais que Mamãe tenha um fraco por bebezinhos e tenha desejado congelar você desde os seus 5 meses ou menos, esta fase de gosto pelos livros, de curiosidade infinita tem sido muito gostosa. Temos nossas desavenças, principalmente nos dias de maior tensão, mas somos bons em pedir desculpas.

Com votos de que tenhamos todos uma primavera e um verão maravilhosos nesta casa, seguidos por outras estações cheias de alegria,
Mamãe".

06 fevereiro, 2011

Carta de Janeiro - ufa, acabou!


"Filhote,

Janeiro foi um mês difícil para todos nós. Que sua mãe jamais gostou de inverno você sabe, que ela fica triste quando alguém vem visitar do Brasil e vai embora também, mas foram muitas mudanças nas nossas vidas de uma vez só.

Quando a Mamãe ficou jururu porque seu tio foi embora, você tentou consolá-la "mas ele vem buscar a gente pra ir pro Brasil!". Seu tio ficou aqui até dia 18 de janeiro. Impressionante como seu português melhorou durante a estadia dele! Ele é tão carinhoso, tem energia para brincar com você e não resiste aos seus abraços apertados. Já disse que está com saudades da sua voz.

Dia 31 de dezembro foi seu último dia na creche que frequentava desde setembro de 2007, a única da qual você se lembra. Deixou pra trás seus amigos e professoras que conhecia desde bebê. Curtiu seu "Happy Last Day" chupando picolé com os amigos, que Mamãe e seu tio levaram. E nunca pediu para voltar lá, nem disse que estava com saudade. Sempre fala "eu gosto minha escola velha e gosto minha escola nova". Foi feliz da vida pra sua escola nova, onde fica das 12:45 às 15:45 somente (ênfase no somente). É uma escola Montessori, com umas regras diferentes e rígidas (Mamãe deixa você na porta e não pode entrar nunca), mas você vai feliz todos os dias. Tem dias em que vamos de carrinho (você vai em pé numa prancha acoplada e canta para distrair sua irmã quando ela chora - tão lindo ver seu carinho com ela! Como você mesmo diz, "a Marina gosta do eu"), em outros vamos de ônibus e de vez em quando, vamos de carrinho e de ônibus (sua versão favorita).

Já é notável seu progresso na escola. Com duas semanas de aula, passou a se interessar pelos sons e a perguntar com que letra começam as palavras. Quando estamos caminhando na rua, brincamos de um jogo de adivinhação dos bichos que começam com uma determinada letra.

Como a escola é só na parte da tarde, temos que inventar o que fazer todas as manhãs e evitar ao máximo a deusa azulada da TV, que você fica mal-humorado quando assiste por mais de meia hora. Nas segundas-feiras, seus avós ficam com você. Vão ao Science World, ao Aquarium, ao parque, dependendo do clima. Na terça, nós vamos ao ginásio do centro comunitário e depois tem aula de música. Na quarta, tem ginástica, que você ama. Na quinta, vamos ao centro comunitário novamente e na sexta vamos ao Story Time na biblioteca. Terças e quintas de noite vamos ao "drop in" da ginástica. No sábado ("minha dia favorito", como diz você), tem futebol e no domingo, natação. É preciso muita atividade para diminuir em um pouquinho a sua energia inesgotável.

Outro dia a Baka chegou aqui sozinha e você perguntou pelo seu avô. Ela achou que você estava sentindo saudade dele, mas você esclareceu "I miss the car", já que ela não dirige.

Temos ido à biblioteca várias vezes durante a semana. Pegamos uns 10-12 livros de cada vez, que lemos de noite, antes de dormir. Você presta atenção, tão concentrado! Faz umas perguntas engraçadas. Tem preferência por livros de dragões, qualquer coisa do espaço sideral e, pra arrepio da Mamãe, ratos. Lemos um esquisitíssimo de um ratinho chamado Grill Pan Eddy, que você queria reler toda noite umas três vezes. Você adora devolver os livros na esteira rolante da biblioteca e já sabe passar sozinho o cartão e os livros no "check-out" automático.

Mamãe anda muito cansada. Há vários tipos de mãe, sabe? A maioria das mães (e dos pais) gosta muito mais da fase em que as crianças já sabem falar e expressar suas ideias. Só que a sua é do tipo raro que acha que bebês saudáveis não dão trabalho, mesmo os mais novinhos, mas ela não tem muita energia para acompanhar crianças incansáveis. Você é incansável, Filhote. Tem dias em que Mamãe pensa que você deveria ser proibido para mães maiores de 21 anos. Na aula de música, enquanto as outras crianças timidamente escolhem um chocalho que balançam devagar, você pega a caixa para recolher os chocalhos de todos e dança enquanto faz o serviço (sem que a professora tenha pedido). Se você não se concentrasse nunca, ela acharia que tem hiperatividade. É uma empolgação pra tudo, você faz amizade com crianças no parquinho, puxa conversa com estranhos no elevador, corrige a bibliotecária no "Story Time" quando ela canta uma música e esquece uma estrofe. Não há uma só célula tímida no seu organismo.

Você adora ajudar na cozinha, temos feito bolo de cenoura com frequência. "Pode eu cozinhar com você?" é sua frase de toda noite.

Semana passada você foi tomar suas vacinas de 4 anos e meio, já para entrar no "kindergarten". Mamãe avisou a semana toda que teria vacina e que depois você poderia comprar um brinquedo pequeno, a única exceção até seu aniversário. Você foi todo empolgado, sentou na sala do médico com a manga da camisa levantada. Ele queria examinar e conversar, você queria logo a injeção. Ele sugeriu que você não olhasse, mas foi solenemente ignorado. Você encarou a agulha com atenção, nem piscou ou reclamou. Quando chegou em casa, comentou com seu pai que havia ganho um band-aid, sequer citou a injeção. E pensar que, quando você tomou suas primeiras vacinas, aos 2meses de idade, foi uma choradeira geral dos seus pais... É, você está crescendo mesmo (e Mamãe constata isso com um misto de orgulho e nostalgia).

Outro dia Mamãe chamou sua atenção por algum motivo que ela já nem se lembra mais e você disse "não fale assim com sua filho! Não vou te dar nenhum presente na sua aniversário" Precisamos de umas férias. Estávamos brigando muito por causa da TV de manhã, até que combinamos a regra de assistir a um desenho e não enrolar na hora de sair de casa. As brigas pararam. Outro dia você comentou, na hora de sair "viu como não fiquei mal-humorado?" Desculpa se a Mamãe andou uns dias sem muita paciência, é o cansaço aliado à chuva onipresente, somado à dor no braço, saudade do Brasil, estresse de procurar casa... Fevereiro há de ser bem melhor.

Um abraço apertado,
Mamãe".

28 dezembro, 2010

Carta de Dezembro

"Filhote,

Mais um ano chega ao fim e, além de todas as mudanças já ocorridas na sua vida nestes últimos 3 meses, muitas outras estão para acontecer.

Hoje é seu último dia na creche. Seu pai está super nostálgico, ficou sensível na apresentação de Natal, lamentando ser a última. Você e seus colegas cantaram "Rudolph, The Red Nosed Reindeer", "I Wish You a Merry Christmas" e uma versão diferente de "Jingle Bells". Tão bonitinho você cantando a música do Rudolph, "...all of the other reindeer used to call and laugh him names", trocando a ordem das palavras! Você continua cantando essas músicas quando sai na rua, mas só se toma a iniciativa por conta própria. Se a Mamãe sugere, diz "Mãe, não é Natal mais".

Dia 4 você deve começar numa pré-escola do método Montessori. Vamos ver como será. Hoje teremos seu "Happy Last Day" na creche, Mamãe vai levar picolé para todas as crianças, como você sempre pede.

Você esperou ansiosamente o Natal. Curtiu montar e decorar a árvore, tirar os enfeites e mudá-los de lugar incontáveis vezes, abrir as janelinhas do calendário do advento (embora não tenha comido nenhum chocolate, que você continua nem provando)e adorou montar a casinha de biscoito de gengibre. Perguntava inúmeras vezes se já era o dia. Mudou de ideia a respeito dos brinquedos que queria infinitas vezes. Ficou muito feliz com tudo o que ganhou, ao contrário do ano passado, que lamentou por meses o Wall-E não ter a EVA para brincar com ele.

Você continua apaixonado pela sua irmãzinha, é muito carinhoso com ela e vibra com os pequenos progressos que ela tem feito. Ontem mesmo, quando a viu segurando um brinquedo pela primeira vez, notou e comentou, empolgadíssimo, "Mãe! Ela está segurando!!!". Ela, aliás, está cada dia mais parecida com você na mesma idade. Em algumas fotos, parecem idênticos.

Você ainda não havia demonstrado ciúmes da irmã, até a noite do dia 25. A família do seu pai veio cear conosco. Enquanto sua irmã dormia, você se deliciava brincando com os primos. Eles tem 12 e 14 anos, mas você os trata como se fossem da sua idade e eles tem paciência e disposição infinitas para brincar com você. Quando a Marina acordou e um deles tentou pegá-la no colo, você ficou muito agitado. Tentou a todo custo distrair o menino, desviar a atenção dele e não deixou que ele segurasse a bebezinha.

Você estava empolgadíssimo com a perspectiva da chegada do seu tio do Brasil. Ele chegou ontem e você, desde cedo, nem queria sair de casa com seus avós com receio de perder a chegada dele. O voo atrasou, ele chegou bem mais tarde e foi recebido com pulos de alegria. Antes de sair de casa para ir buscá-lo na portaria, avisou "Mãe, ele vai chamar eu de Mexerica". Faz 6 meses que não o vê e você não esqueceu que ele o chama assim. É tão contagiante ver a sua excitação quando alguém de quem você gosta está para chegar! Você literalmente dá saltos, gritinhos de felicidade, expressa a emoção com o corpo todo. Tão lindo ver você sentado no sofá, assistindo a TV abraçado com seu tio! Ele comentou "como este menino é carinhoso!"

Nós estamos procurando uma casa. Por problemas com falta de vaga na escola pública perto de casa, vamos nos mudar para um bairro com boas escolas públicas onde não há falta de vagas e as casas tem muito espaço. Então, mais esta mudança na sua vida.

Mamãe está atacadíssima de tendinite no pulso direito, ainda tem que escrever a carta da sua irmã, por isso vai ficar por aqui.

Um abraço carinhoso, daqueles que só você sabe dar,
Mamãe."

17 novembro, 2010

Carta - Muitos Meses de Uma Vez

"Filhote,

Com vários meses de atraso, Mamãe vai tentar fazer um resumo de 2010 até agora.

Você recebeu com muita alegria a notícia de que ganharia um bebezinho. Foi na Páscoa, a casa estava cheia de gente, você logo acreditou e nunca perguntou como o bebê entrou, como sairia, simplesmente curtiu a ideia. Quando Mamãe chegava para buscá-lo na creche, apontava para a barriga e dizia aos amiguinhos e às professoras, com orgulho "Look at the big tummy, I'm going to have a baby".

Em junho, nós fomos ao Brasil. Desta vez, seu pai foi junto, que foi muito sofrido para você ficar sem ele, na viagem do ano passado. Você saiu daqui empolgadíssimo, contando a um estranho no elevador "We're going to Brazil!". A viagem foi tranquila. Seu pai agora toma calmantes, você consegue se concentrar com os desenhos no iPod, Mamãe tinha preferência nas filas dos aeroportos do Brasil por estar grávida.

Todo final de semana tinha festa de aniversário em Brasília. Você estava ansioso para chegar logo a sua que, claro, foi a última. Você queria uma festa de robôs, Mamãe não conseguiu nenhuma casa de festas com o tema. Até aceitaria os Transformers, que ela também não achou. A decoração ficou sendo dos Backyardigans, que você adora. Mesmo assim, na hora de sair para a festa, alguém perguntou e você disse que seria dos Transformers. Mas bastou chegar no buffet, ver todos os brinquedos, que nem deu bola para a decoração. Abraçou os convidados, curtiu muito. Mamãe adorou a mordomia de não ter que preparar nada para a festa, queria poder repetir todo ano. Na hora dos parabéns, você ficou de implicância com seus primos, que vieram cantar os parabéns junto com a gente, atrás da mesa (aliás, teve implicância com sua prima a viagem inteira). "Mãe, hoje é a aniversário do Léo e da Camila?" "Não, Filhote". "Camila, hoje não é seu festa, é meu festa". Assim que acabou o último verso da música, decretou "Agora eu vai abrir meus presentes". Conseguimos negociar para que só dois fossem abertos e o resto, só em casa.



A gente fez uma viagem deliciosa a Fortaleza. Claro que você não entrou no mar, nem quis molhar os pés, numa aversão que já dura desde a viagem a Cancún. Mas, finalmente, no Beach Park, mergulhou a cabeça na água pela primeira vez e gostou. Desceu umas oitocentas vezes no toboágua de criança, fala disso até hoje. Fez amizade facilmente com as crianças no hotel, nenhuma delas reparou que você não tinha nascido e vivido sempre no Brasil. Mamãe ficou tão orgulhosa do seu português! De tímido, você nunca teve nada. Aborda as pessoas, conversa com todos. A caixa da padaria ficou sua fã, por dizer sempre "obrigado, Moça".




Passou sua primeira Copa do Mundo na terrinha. Vestiu a camisa do Brasil em todos os jogos, não assistiu a nenhum, preocupado que estava em disputar as vuvuzelas com as outras crianças. Assistimos a cada jogo na casa de um grupo diferente de amigos, sempre com uma criançada em volta.

Durante a viagem, queria ser carregado no colo pelo seu pai em qualquer caminhada de dez passos. Ficou bem manhoso, mas foi só voltar a Vancouver que parecia outra pessoa, uns anos mais velha. Assim que chegamos em casa, você decretou que não usaria mais o penico (ai, que alívio), que era um menino grande e usaria o vaso dali pra frente. Também abandonou, por conta própria, aos 4 anos, a banheirinha de plástico que usava para tomar banho desde que nasceu (claro que mal cabia nela, mas a Mamãe nem se estressava, sabia que você não tiraria carteira de habilitação ainda tomando banho naquela banheira). Parou de dar chilique para lavar os cabelos, passa o xampu sozinho. Também passou a vestir-se, calçar-se, abrir a geladeira para pegar o que quer, tudo sozinho. E passou a caminhar longas distâncias sem pedir que seu pai o carregue.

Mamãe passou por uma fase de "nesting syndrome". Decidiu que iria arrumar a bagunça eterna desta casa. Contratou uma "personal organizer" (ai, tomara que você e sua irmã tenham saído à tia materna e não à mãe e ao pai) e decidiu comprar divisórias para todos os armários da casa. Todo final de semana íamos à IKEA e você ficava muito feliz em ajudar seu pai a montar tudo. Um dia, falando ao telefone com sua tia no Brasil, disse orgulhoso "eu vou ganhar uma nenenzinho e estou montando o dele armário". Numa segunda-feira em que Mamãe estava de folga, você acordou, deduziu que era final de semana e, quando viu que seu pai não estava em casa, perguntou "quem vai levar a gente na IKEA?" Ora, se é final de semana...

No dia em que seu "Bebezinho" chegou, Mamãe e Tata saíram cedo de casa, você ainda estava dormindo e ficou com sua tia. Acordou, perguntou cadê a gente, mas passou o dia tranquilo com ela. No final da tarde, chegou todo orgulhoso ao hospital, com sua camisa que diz Big Brother. Encontrou a gente na maca, a caminho do quarto. Ficou muito feliz que sua irmã trouxe uma caixa imensa, com um barco de pirata "bem grande" do Playmobil, exatamente como pediu. Em nenhum momento demonstrou estar surpreso ou decepcionado por ser uma menina, mesmo que tivesse pensado que era um menino. Chegou perto dela e falou "oi, eu sou seu irmão grande", como nos livros dos personagens que ganham um irmão ou irmãzinha, que lemos juntos tantas vezes.

Assim que chegamos ao quarto, você insistiu em segurar sua irmã. Tão lindo o filme que seu pai fez, você tentando dar um beijinho na cabeça dela e dando gargalhadas "porque o dela cabelo é ticklish". Foi encantamento à primeira vista.

Seu pai ficou dormindo com você em casa e sua tia passava as noites no hospital. Você aguardava ansiosamente a hora de ir visitar e perguntava todos os dias "é hoje que o Mamãe e o Marina vem pra nossa casa?" E também "pode o Marina comprar isso assim-assim (sempre um brinquedo na TV) pra mim?"

Você anunciou orgulhosamente na escola a chegada do seu Neném. Você tem sido um ótimo irmão mais velho. Ficou bastante curioso nas primeiras semanas, quando Mamãe e Marina tiveram muita dificuldade em amamentar. Queria usar a bomba de tirar leite em você mesmo e volta e meia estava com uma no peito, "tirando leite" também. Quando ela chora, você logo diz "Mãe, ela está com fome" e, às vezes tenta consolá-la "você não está sozinha. Mãe, ela pensa que está sozinha". Em outras ocasiões, quando ela está no balanço e chora, você vai lá na frente dela, balança os brinquedos pendurados, faz "shh, shh" e dança para ela se acalmar (a gente dança com ela no colo, fazendo "shh, shh" quando ela chora e você parece pensar que é a dança e não o embalo que a acalma, então já tem sua coreografia).

Você é especialmente interessado nas fraldas. Faz questão de ver as sujas, "Mãe, pode eu ver o dela cocô?" e fica chateado se, mesmo depois de ver as fraldas sujas, Mamãe joga no lixo o lencinho de limpar o bumbum sem mostrá-lo a você. "Tão bonitinho o dela cocô!", provando que está certo o ditado que diz que a beleza está nos olhos de quem vê. Você dá altas gargalhadas quando sua irmã soluça, espirra, tosse, solta pum, parece que ela é uma inesgotável fonte de entretenimento. Sem que ninguém a chame assim, você chega o rosto bem perto do rosto dela e diz, com uma voz bem fininha, um tom mais alto, "Marininha bonitinha". Você já entendeu que não pode pegá-la no colo sozinho, só se estiver sentado e um adulto colocá-la nos seus braços, mas sente ímpetos de abraçá-la.

Como nem tudo são flores nesta vida, se você anda apaixonado pelo fato de ter um bebezinho em casa, de vez em quando fica meio rebelde com a gente. Tem dias em que já acorda criando caso para não ir à escola, volta reclamando que não quer tomar banho, nunca é hora de dormir, mas por outro lado, tem dias em que está extremamente cooperativo, parecendo bem mais velho que seus quatro anos.

Quando a tia do seu pai veio visitar, ela perguntou se podia levar sua irmã com ela (crente que você iria dizer que sim) e você logo disse "no, this is OUR baby". Você não tem demonstrado ciúmes nem quando chegam visitas, mesmo quando uma delas não trouxe uma lembrancinha para você também (todas as outras pessoas trouxeram, o que o deixa muito feliz, por menor que seja o presentinho). Você adora quando outras crianças vem visitar.

Você continua com uma memória formidável. Comenta fatos ocorridos na nossa viagem ao Brasil em outubro do ano passado, sabe quem deu cada DVD que tem e fala principalmente na Bibi, uma bebezinha vizinha da sua tia no Brasil.

Mês passado você retornou às aulas de natação. Protesta para ir toda semana, mas chega lá, entra na piscina sem reclamar e até mergulha a cabeça na água! Um grande progresso.

Você tem mania de juntar caixas, sacolas e embalagens de presente. Está sempre carregando alguma sacola de presente com um brinquedo velho dentro. Se encontra um papel de embrulho, pergunta logo cadê o "rex" (durex), para enrolar "minha presente". Esta semana viu uma caixa vazia de fraldas e, antes que ela fosse jogada para reciclagem, pediu "Mãe, pode você me dar este caixa?" e, claro, colocou vários brinquedos dentro.

A gente não decidiu ter outro filho para que você tivesse um irmão ou irmã, mas porque sentia que a família estava incompleta, além do fato de que Mamãe adora estar grávida e ter um bebê em casa. Mas tem sido tão gratificante ver vocês dois juntos e pensar nas aventuras que poderão viver! Tanto sua mãe quanto seu pai são grandes amigos dos irmãos que tem e a ideia de que você e sua irmã possam viver esta experiência é fascinante. Você vai descobrir que somente um irmão consegue entender quando a gente faz piada do pai ou da mãe.

Desculpa se ultimamente parece faltar tempo, atenção e às vezes paciência no final da tarde. Não é por mal, mas tem uma pessoa que agora precisa de mais ajuda para tudo. Você parece entender isso. Quando está muito chateado, vai lá e dá um chute na cadeirinha do carro, mas nunca descontou na sua irmãzinha. À medida em que ela for crescendo e ficando mais interativa (e seus pais menos cansados), as coisas vão melhorar.

Um abraço bem apertado, daqueles que só você sabe dar,
Mamãe"

26 janeiro, 2010

Carta de janeiro


"Filhotinho,

Mamãe deveria ter escrito logo após o Natal, mas acabou enrolando-se. Você pela primeira vez ficou na expectativa pelo Papai Noel e pelos presentes. Passou uma semana dizendo que queria um "robô bem grande" e, ao dizer isso, abria os braços e mostrava o tamanho dele acima da sua cabeça. O Papai Noel deixou para os últimos dias e teve muita dificuldade em encontrar um robô bem grande, então ele trouxe um WALL-E médio e um pequeno para, proporcionalmente, o médio ficar grande (espertinho ele, né?). Seus olhos brilharam de felicidade, mas a cada caixa que abria, esperava encontrar a Eee-vah, como diz o seu WALL-E. Ela estava esgotada nas lojas há tempos, sem a menor chance de estar num embrulho, mas você apertava o botão, o robô falava "Eee-vah" e você dizia "o WALL-E quer o dele amigo".

WALL-E virou parte da família. Acorda e dorme com você, vai à creche (e fica guardado no armário até que a hora de voltar para casa), acompanha a gente para todo lado. Você já avisou que sua próxima festa de aniversário será do WALL-E.

Você está ficando bem independente. Em casa, vai ao banheiro sozinho, dá descarga, lava a mão e só pede ajuda quando estamos fora de casa. Na creche, vira-se sozinho. Inventou o verbo "dampar" e diz "eu vou dampar o xixi no vaso, eu já dampei" (do inglês, "to dump"). Mamãe sempre corrige, "jogar fora, despejar" e você esquece. Exceto por você, o resto da turma aqui não vê a hora de dar fim no penico, justamente por conta da necessidade de "dampagem".

Coisa mais bonitinha é você "lendo" o livrinho A Very Hungry Catterpillar. A professora lê na creche em inglês, mas a Mamãe sempre lê em português. Você senta na cama, abre o livro e começa "um lagarta com fome" e, se ouve "uma lagarta faminta", retruca logo, "não é faminta! É com fome". Vai virando as páginas e, como não sabe os nomes dos dias da semana, ao invés de segunda-feira, terça-feira, você começa cada página sempre com "no dia seguinte". E vai falando "no dia seguinte, ela comeu quatro morangos, mas ela AINDA estava com fome". A cada vez que a palavra "ainda" aparece, você fala com um tom mais agudo, igualzinho à Mamãe quando lê para você.


Outro livro que você adora é um presente do Vovô, chamado Veículos. Você sabe o nome de todos eles: colheitadeira, empilhadeira, retroescavadeira e pronuncia tudo corretamente, o que é surpreendente para alguém que não fala "cadê", mas "taguê". Também há um livro que você tem desde bebê, chamado "Things That Go", só com fotos de brinquedos que são meios de transporte. Outro dia, a Mamãe pegou este segundo livro e disse "também é de veículos" e você, meio impaciente, corrigiu "não é de vê ículos, é de vê brinquedos". Claro, como ela não percebeu?

Você tem falado muito no Brasil, nas pessoas que conhece lá, está com saudades. Somos dois. Hoje saiu um assunto sobre caranguejos e você avisou "tem caranguejo lá na Salvador".

Você tem um brinquedo novo, um dragão que vira uma bola. Ontem, a Mamãe mostrou o pé dele e você insistia que era a mão. Aí revirou os olhos com ar de sabedoria impaciente e disse "Mãe, só pessoas têm pé. Dragão não tem".

Seus amigos favoritos na creche continuam sendo a Leni e o Jonah. Você fala muito neles e, quando chega, avisa "brinquei com Leni e Jonah". Volta e meia quando chegamos para buscá-lo, está passeando de mãos dadas com a Leni.

Este mês, parece que você aprendeu alguns artigos e pronomes masculinos e femininos corretamente. Já não fala mais "o Courtney", mas "a Courtney" para a professora. E aprendeu "minha boca, minha cabeça". Também houve uma grande melhora na conjugação dos verbos e você fala direitinho "eu machuquei, eu comprei". Por outro lado, qualquer tempo que não seja o presente é rotulado de "ontem", inclusive amanhã.

Sábado passado estávamos numa festa dos amigos do seu pai. Havia uma moça ucraniana falando na língua dela com o filho e você imediatamente virou para ela e puxou assunto no idioma do seu pai. Ela não entendeu nada, mas sua tia estava lá e traduziu. Realmente russo e servo-croata são línguas bem parecidas e foi um erro bem compreensível.

Você continua muito curioso, pergunta sempre onde vamos quando saímos de carro e quer saber se é muito longe para ir a pé. Reconhece vários caminhos e consegue avistar de longe a Toys R Us e o supermercado. Também consegue "ler" o símbolo do Seven Eleven. Quando a Mamãe comenta isso com o Vovô e a Vovó, eles dizem que ela era igualzinha na mesma idade, só que eles se esquecem de que ela sofre de desorientação espacial até hoje. Você é infinitamente mais bem orientado no espaço do que sua mãe.

Uma coisa muito interessante que temos reparado é que você muda a forma como chama a si mesmo dependendo da pessoa com quem fala. Embora chamemos você de Filhote, se está falando com seu pai, você usa a palavra "Deckic" (garotinho) para referir-se a si mesmo. Quando fala com a Mamãe, varia entre "isso é do Filhotinho", "é do Daniel", "é do Filhote", ou melhor ainda, "é do eu".

Você sabe digitar seu nome no computador, mas só reconhece as letras maiúsculas. O fato de reconhecer a letra D deu até briga com sua amiguinha Zoi outro dia, porque você leu no cartão dela, "Dear Zoi", comentou que era sua letra (D) e ela começou a chorar, dizendo que o cartão era dela e não seu.

É tão gostoso ter você por perto, ouvir sua voz deliciosa, compartilhar suas conclusões sobre o mundo que o cerca e receber seus abraços sempre apertados. Pena que o tempo passa tão rápido! E pensar que, na véspera de você completar 1 mês de vida, sua mãe chorou porque você já estava crescendo depressa demais.

Um abraço cheio de amor,
Mamãe"

20 dezembro, 2009

Carta de Dezembro




"Filhote,

O ano praticamente já acabou. Como passou rápido!
Foram tantas etapas vencidas este ano: fraldas abandonadas de dia e de noite, bicicleta domada, conversas longas em todas as línguas faladas aqui na casa de Babel onde vivemos.


Você tem falado muito da viagem ao Brasil, volta e meia lembra de alguma coisa acontecida lá. Ontem, quando pediu "meu toalha" e a Mamãe explicou que "toalha é ela, é minha toalha", você logo respondeu "é, mas o Léo é menino". E quando passou na TV o comercial do Wii, você falou "eu tenho este, no Léo casa". Claro que Mamãe corrigiu e disse que era na casa do Léo, mas ficou surpresa de você ter reparado que era o mesmo jogo da casa do seu primo.


Semana passada você fez uma grande travessura. Cortou em vários pedaços o fio do carregador do iPod do seu pai, que só descobriu no dia seguinte. Aí, misteriosamente, apareceu uma pantufa de ursinho totalmente destroçada. O povo do Greenpeace iria ficar furioso se visse! A Mamãe começou a andar pela casa com medo do que mais teria sido atacado pelo Little Jack, the Ripper e você confessou que tinha cortado um pijama. Quando ela tirou a roupa da secadora, encontrou uma meia que mais parecia rabiola de pipa. Você picou e colocou no cesto de roupa suja, então ela foi lavada, seca e só na hora de guardar é que foi descoberta. O pedaço cortado do pijama (a perna, da canela para baixo) foi encontrado atrás da almofada do sofá. Mamãe ficou muito brava, apavorada com a possibilidade de você cortar um fio de um aparelho ligado na tomada e tomar um choque horrível. Explicou que só pode cortar papel e disse que ia jogar sua tesoura no lixo. Você prometeu que só vai cortar papel e tem repetido isso todos os dias. Condicionamento total.


Semana passada foi a festa de Natal na sua "escola". Como seu pai sofre de atraso crônico e o trabalho da Mamãe é imprevisível, ela pediu que seus avós chegassem na hora. Pontualíssimos que são (prova de que atraso não é genético ou então temos que pedir o DNA do seu pai), estavam lá às 15:30 em ponto. A lei de Murphy persegue sua mãe desde sempre, então claro que teve uma cesárea de emergência, a colega que iria render o plantão atrasou e Mamãe perdeu o início da apresentação. Você não quis cantar. Baka disse que ficou no colo dela, olhando para a porta, esperando a Mamãe. Mil desculpas, ano que vem a Mamãe vai se organizar com antecedência para trabalhar somente metade do expediente ou tirar o dia da apresentação de folga. Foi uma sensação péssima ter decepcionado você e a Mamãe vai fazer um esforço para não acontecer de novo. A música que seus colegas cantaram era “Santa Claus is coming to town”, que você fica cantando pela casa, uma graça. Para implicar, a Mamãe canta "Santa Claus is coming to Brasil" e você corrige "não é to Brasil, é to town".

Você voltou a gaguejar quando fala em português. Ontem, quando saiu do banho, perguntou do nada: "Mãe, pupupupupupu quê o médico machucou meu ombro?", referindo-se à vacina que tomou já há algum tempo. "Filhote, a médica deu uma injeção, uma vacina para você não ficar doente". "É, mas eu fiquei com medo da seringa" (aprendeu a palavra “seringa” num livrinho novo que ganhou este mês). Mamãe lembrou-o de que a médica deu um pirulito depois e você falou "é, foi vermelhinho".


Você descobriu os diminutivos em português e agora a Mamãe está pagando a língua. Ela nunca fala nada no diminutivo, tem até implicância com mães que falam "o pezinho do Fulaninho está assim, o cocozinho do Beltraninho está mole/duro/muito/pouco (as mães que falam assim têm o cocô do bebê como assunto favorito)". O fato é que você aprendeu isso e agora fala "meu dedinho machucou", "precisa meia para minha pezinho".

Esta semana, seu pai não estava em casa na hora de você dormir. E, como sempre, saiu um “eu quero minha pai”. “Ele saiu”. “Puuuuuuuuu que?” “Foi levar sua tia na casa dela”. “Coitadinha”. “De quem?” “Da sua tia. Não sabe ir pra casa”. “Ela sabe sim, ele deu uma carona porque ela não tem carro. E a tia é sua, não é minha”.


Você gosta de escrever seu nome digitando no computador. Gosta também de brincar com o CD do Coelho Sabido. E continua adorando livros. Chegou uma caixinha de surpresa do Brasil, uma amiga da Mamãe lá de Florianópolis mandou uns livrinhos da coleção da Rita Sapeca, que foi um sucesso imediato. Você tem um fascínio misturado com medo de médicos e hospitais. Então, mesmo havendo um livro onde a Rita Sapeca vai pescar, outro onde ela usa ferramentas para fazer uma estante e uma estória de férias, você logo preferiu o Rita Sapeca Fica Doente. E diz que quer ler o livro da "Rita Sapeca no hospital", embora já tenhamos lido a estorinha inúmeras vezes e você saiba de cor que o médico vai visitá-la em casa. E, como dizem aqui, "an apple doesn't fall far from its tree" ou, nosso equivalente em português, "filho de peixe peixinho é", sua estante de livros é tão bagunçada quanto as dos seus pais:



Quando você chega da creche, a Mamãe sempre pergunta o que você fez naquele dia. Você costumava responder sem pensar “brincou com Ayan”, todos os dias, por meses a fio. Agora você responde “Courtney leu livrinho”, “eu fez um avião” ou “brinquei com Leni e Jonah” (seus amigos preferidos) e, no dia em que não está a fim de conversa, já chega dizendo, antes de cumprimentar, nem espera a pergunta, “eu não brinquei com nada”. Tão surpreendente ver a sua personalidade aflorando nas respostas que dá, muito mais divertido do que ouvir as frases prontas, decoradas.

Você entrou na fase dos porquês. No supermercado, quando a Mamãe pensou em voz alta "tem que comprar o leite do Filhote", você logo perguntou "por que tem que comprar o leite do eu?".

Você curtiu muito armar a árvore de Natal e o presépio. Sempre que passa pela sala, acende as luzes da árvore. Volta e meia sobre no banco para ver o presépio em cima do piano e comenta “tem um neném aqui.” “É o Menino Jesus”. “Não é menino. É um BE-BÊ”. Adorou pendurar o enfeitinho do Lightening McQueen e do Matter, que a Mamãe fez questão de comprar para que algumas decorações fossem ao seu estilo. Vamos montar uma casinha de biscoito de gengibre e fazer juntos biscoitos natalinos. Você nem sabe o quanto a sua existência mudou o Natal para sua mãe. Agora ela gosta muito dos preparativos, a festa ficou especial e deliciosa. Sua chegada foi o maior dos presentes, mudou todos os Natais. Como virou tradição desde a sua chegada, passamos a véspera de Natal com os amigos brasileiros e o dia de Natal com a parte gringa da família.

Desejando um Natal maravilhoso e um 2010 cheio de deliciosas conquistas e surpresas, mas sobretudo agradecendo imensamente a sua presença nesta família e neste coração, fica aqui um abraço apertadíssimo,

Mamãe."

24 novembro, 2009

Carta de Novembro


"Filhote,

Como o ano voou! Já estamos no final de novembro.

Sem dúvida alguma, a maior diferença este mês foi na sua linguagem. Desde que voltamos do Brasil, seu português continua melhorando a cada dia. As frases estão ficando cada vez mais expressivas, longas e complexas, com associações que certamente você não aprendeu por ouvir alguém falando, mas por estar deduzindo por si mesmo. Esta semana, Mamãe estava ao telefone e você queria atenção, mas como não sabia dizer "desliga o telefone", disse "Mãe, tira o telefone da sua orelha". Mensagem transmitida com eficiência.

Você já não fala mais nada em inglês com a Mamãe. Assim que a vê na saída da creche, já a cumprimenta em português e conta o que tiver que falar. Tem assistido aos videos que trouxemos do Brasil e canta cada vez mais as músicas dos CDs brasileiros. Os filmes preferidos deste mês foram Os Aristogatas (que você chama de "os gatinhos") e Carros ("LigtheMing McQueen, como diz você). Quando brinca com seus brinquedos sozinho, conversa com eles em português.

Você aprendeu a palavra "mesmo" e adora colocá-la no final das frases, ainda que não seja necessária. "Este pirulito é vermelho mesmo", "hoje não tem escola mesmo" e assim por diante. Também incorporou ao vocabulário a expressão "você lembra?" e outro dia perguntou "Mãe, você lembra que neném não come biscoito, só mama o leite da Mamãe dele?".

Seu pai diz que é impressionante como você fez progressos também no idioma dele. Semana passada, ele estava montando um armário na cozinha e você queria ajudar. Trouxe todas as suas ferramentas de plástico e estava lá, conversando com seu pai na língua dele. Aí virou para Mamãe e disse "Mãe, a gente precisa de um martelo". Recebeu o martelo, agradeceu e continuou conversando no outro idioma. Nunca houve a explicação de que Mamãe não entende servo-croata, você deduziu isso sozinho.

Seu pai comentou que você muda o tom de voz de acordo com o idioma que fala. Realmente, você fala português com uma voz bem fininha, como diz a sua tia, de personagem de desenho animado. E fala inglês com seu tom de voz normal. Duas amigas da Mamãe que são metidas a astrólogas, mas que não se conhecem, fizeram o mesmo comentário a seu respeito "ele é bem geminiano, tem facilidade para falar".

Um hábito que você adquiriu no Brasil com seus primos foi o de chamar "Mãe", a cada 2minutos. Antes da viagem, você sempre falava "mamãe" e só quando era importante. Desde que retornamos, no carro, você a chama a cada meio minuto, para comentar que tem um trator ali, que está chovendo, que o carrinho caiu no chão... "Mãe" é a palavra mais ouvida nesta casa.

Há cerca de 10-15 dias, você teve crupe. Uma tosse de foca, com febre e um pouco de prostração quando a temperatura estava acima de 39C. No médico, você ficou muito comportado, deixou que ele examinasse tudo, sem reclamar, embora tivesse dito várias vezes que não gosta de médicos. Uma mudança notável foi que antes você gostava de tomar umas gotinhas de remédio se fosse necessário e agora passou a recusar. Ainda bem que Mamãe é muito mais adepta de banhos para febre do que de antitérmicos!

Uma das coisas que você mais gosta de fazer é "uma pelescópio". Consiste numa folha de papel enrolada, presa com durex e que tenha seu nome escrito nela. Claro, onde já se viu um telescópio sem o nome do dono?

Você continua tropeçando nos artigos e pronomes masculinos e femininos. Engraçado é que você elimina o "a" de algumas palavras, como se fosse artigo e diz "súcar", para "açúcar" e "paga" para "apaga". De tanto Mamãe corrigir, você agora fala "não consigo", "eu não sei", "eu posso", mas de vez em quando ainda sai "eu não consegue, eu não sabe, eu pode". Antes falava "eu quero vai", mas aprendeu e só diz "eu quero ir". Ô língua difícil!

Você tem uma pronúncia bem correta das palavras. Fala "liquidificador", pronuncia todos os encontros consonantais, mas ainda diz "pitapótamo" (para hipopótamo) e "taguê" (para cadê). Vai entender, "cadê" é infinitamente mais simples que "liquidificador"!

Você anda bem grudento depois que chegamos de viagem, como se tivesse medo de ficar sem o pai ou a mãe por umas semanas de novo. Se a Mamãe está em casa de manhã, você imediatamente deduz que não tem aula naquele dia e avisa que não quer ir à escola. Ontem, na porta de casa, Mamãe deu um beijinho de despedida e você disse "eu quero um abraço também". Quando seu pai deu um beijinho nela, você falou de novo "eu quero um beijinho pra mim também". Muito carinhoso.

Mamãe ficou um dia em casa semana passada porque estava com laringite e você não tinha aula no dia da reunião das professoras. Acordou e disse "hoje não tem escola", achando que era final de semana. Perguntou "hoje tem ginástica?" (a aula agora é aos sábados). Diante da resposta negativa, ficou espantado "hoje tem o quê?".

Você finalmente aprendeu a fechar os olhos na hora de lavar os cabelos e foi seu pai, com quem sempre havia briga no banho, quem notou. Mamãe pedia que você virasse a cabeça para trás e lavava sem dramas, então nem reparou nisso.

Você adora ajudar na cozinha. É o contrário da estorinha da Galinha Ruiva. Você gosta de quebrar os ovos, separar as forminhas de "cupcake", colocar os ingredientes no liquidificador, mas na hora de comer, não quer nem saber. Mamãe sempre o chama para ajudar quando ela está fazendo algum bolo. Você come se for bolo de cenoura, na forminha de "cupcake", sem cobertura de chocolate.

Você continua não suportando chocolate e amando pirulitos. Está na fase de autonomia, não quer ajuda para nada, quer fazer tudo sozinho.

Você não sai de casa sem levar junto um monte de brinquedos. Outro dia disse "preciso uma sacola para minhas brinquedos". Quando a gente pergunta se eles são mesmo necessários, você invariavelmente responde que sim. Basta ouvir "vamos?", que você avisa "preciso procurar minha escavadeira/minha robô" ou o que quer que sejam os badulaques favoritos do dia. Também os carrega para dormir, até esconde alguns debaixo do travesseiro.

É tão gostoso ter você! Esta vozinha deliciosa pedindo outro abraço é algo de que Mamãe vai se lembrar com carinho para sempre.

Tenta não crescer muito rápido, viu? Com muitos amassos,
Mamãe."

28 outubro, 2009

Carta de Outubro



"Filhote,

Passamos quase o mês de outubro inteiro no Brasil. Você foi muito bem comportado em todos os voos. Nos da volta, parecia um adulto paciente e compenetrado. Não tivemos nenhum incidente com Tic-Tac no nariz, como na viagem anterior, ufa! Você estava feliz da vida por voltar, dizia a todos os funcionários do aeroporto "eu mora na Canadá, vou pro meu casa". No último dos 3 voos, você abraçou muito a Mamãe, dizendo "é meu, é meu, é meu". "O que é seu?" "É meu Mamãe, eu te amo". Visivelmente agradecido por ela estar trazendo-o de volta para sua casa.

Mamãe ficou surpresa ao perceber que você reconheceu todas as nossas malas na esteira de bagagem, tanto na ida quanto na volta. Em Salvador, sabia que só tínhamos levado uma, nem procurou pelas outras!

Você sentiu muito a falta do seu pai. Antes da viagem, quando percebeu que ele não ia, reclamou e ficou bravo. Passou a fazer xixi na cama de noite por uns 10 dias e voltamos com as fraldas. Sem chance de sua mãe deixar você acordar frio e molhado, tendo que trocar de pijama no meio da noite (lembre-se disso quando ela estiver velhinha e molhando a roupa de noite). Uma amiga da Mamãe que é terapeuta explicou que era a sua forma de expressar a raiva porque seu pai não iria conosco, algo positivo, porque não é saudável sentir raiva e não manifestar de alguma forma. E ela estava certa, porque foi só embarcar no avião que você não fez mais xixi na cama, acordava e pedia para ir ao banheiro. As fraldas noturnas foram reaposentadas.

Você perguntou pelo seu pai todos os dias. Bastava alguém falar nele, que você dizia "eu quero meu pai". Repetia "meu pai está na Europa". Na última semana, passou a dizer diariamente "eu quero meu casa, eu quero meus brinquedos".

Você adorou seus primos, houve poucas brigas desta vez. A maioria envolvendo brinquedos. O saldo final foi de muito mais abraços do que conflitos.

Estas foram as férias dos pernilongos. Em Brasília, mesmo com aquele repelente nas tomadas, você levou inúmeras picadas nos braços e nas pernas. Aí fomos a Salvador, Mamãe passou repelente nas suas pernas e braços, então eles atacaram sua testa. Foram umas 15 picadas, que ficaram vermelhas e inchadas, quentes, pareciam início de catapora. Dava pena. De volta a Brasília, foi picado no olho, que ficou roxo e inchado, como se tivesse levado um murro. Como havia caído da escada do beliche dias antes e já estava com uma bochecha roxa, Mamãe ficou preocupada que alguém chamasse o Conselho Tutelar. Fomos ao médico e ele passou um antialérgico, em dois dias já estava normal.

Em Salvador, você se apaixonou pelas cadelinhas dos nossos anfitriões. Passava o dia procurando pela Clarinha, mas quando ela chegava perto e dava aquelas mordidinhas de filhote de cachorro com 45 dias de vida, você ficava com medo. E gostou muito da Morena, uma cadela mais velha, que já não morde nem arranha ninguém.



Também viveu uma relação de tapas e beijos (mais tapas que beijos) com o Luã, o filho dos donos da casa, alguns meses mais novo que você, que disputava os mesmos brinquedos. Até hoje, quando vê as fotos, fala "Luã bateu". Luã fala tatibitáti e você pegou o hábito de corrigi-lo. Ele dizia "téio Tainha" e você já falava "não é Tainha, é CLA-RI-NHA". Definitivamente não nega o DNA, que Mamãe na sua idade fazia a mesma coisa, segundo a lenda familiar. Por outro lado, você caiu de amores pelo Ravi, o bebezinho da casa. Com ele, foram só beijos e amassos. Também adorou o Apagão, o rapaz jardineiro-eletricista-faz tudo da casa, que Mamãe adoraria importar para o Iglu e que tem a maior paciência e energia com crianças pequenas.







Em Salvador, o Luã queria cantar uma música da capoeira. Pediu a do sapo, a mãe dele disse que não sabia e você, no mesmo instante, interrompeu: "meu mãe sabe. Sapo cururu, na beira do rio, quando o sapo canta, ó maninha, é porque tem frio..." Santos CDs de música brasileira que ouvimos no carro!

Até hoje, quando alguém fala em peixes, você diz "eu vi peixe na Salvador". Foi no parque de Pituaçu (espero que seja este mesmo o nome), onde vimos muitos peixes no lago.


Na casa em que ficamos em Salvador, aparecem pela manhã alguns saguis, que moram na mata ao lado e surgem nas árvores querendo pedaços de bananas. Você nunca tinha visto macaquinhos soltos antes. Na volta, no aerporto, havia um cartaz do IBAMA, com um mico engaiolado e uma mensagem que, obviamente, você não sabia ler. Você comentou "macaquinho está triste. Não quer ficar na gaiola, quer ficar com mamãe dele, na árvore da casa da Tia Dany". Nota 10 para a sensibilidade, provavelmente a maior lição que você aprendeu nesta viagem.



Na praia, você nem chegou perto do mar. Ficou brincando numa piscinha de plástico, fornecida pela barraca, que também serviu deliciosos petiscos e água de coco fresca, o tipo da mordomia da qual Mamãe tanto sente falta nas praias daqui.



Seu português melhorou muito. Você voltou pensando em português, formando frases bem longas. Como diz sua Santa Tia, mesmo com 50% de chance de acertar os artigos e pronomes, você erra em quase 100% das vezes. É "meu barriga está doendo", "este é meu mochila", "quero ver uma desenho", mas isso é um detalhe. Você chegava no balcão da padaria e pedia "quero um picolé de morango" e a moça nem percebia seu sotaque de gringo. Mamãe fica muito orgulhosa de você, que conseguiu se comunicar no Brasil, entendeu tudo o que falavam e aprendeu frases novas todos os dias. É interessante notar as expressões que você adquiriu lá, já que aqui, a maior fonte de contato com a língua vem somente da Mamãe. Ontem mesmo tivemos o seguinte diálogo, às cinco da manhã (acordamos todos muito cedo pela diferença do fuso horário):
- Mamãe vai trabalhar.
- Não pode trabalhar de noite. Está escuro. Só pode de dia.
- Mas vai ficar de dia.
- Não pode sair de pijama.
- Mamãe vai trocar de roupa.
- Isso mesmo!

Ontem você vestiu um pijama com vários bichos e comentou "um monte de bichinho. Tem jacaré, leão, macaco, gato..." Não tinha gato, Mamãe explicou que era um guaxinim e você "é guaxinim, é uma gato bem legal". Sua voz é uma graça, fininha, sua Santa Tia diz que parece de personagem de desenho animado.

Nunca usamos os termos "inglês" e "português", então Mamãe achou interessante que você tenha descoberto por si mesmo. Assistindo à TV em Brasília, ao ver um mesmo personagem que já conhecia do Canadá, comentou "O Mr. Maker sabe falar inglês".

Você voltou falando com seu pai em português e misturando um pouco as línguas, mas nada que em 2 dias não mude.

Nos últimos dias em Brasília, você ficou bem grudado na Mamãe. Se ela saía de casa, você queria ir junto. Foi com ela ao salão, à padaria, ao supermercado... Parecia que estava com medo de ela ir embora e você ficar para trás.

Amanhã é a festa de Halloween na creche. Você será um dragão, mas chama a fantasia de dinossauro.

Todos no Brasil ficaram impressionados com seu pouco apetite e o limitado cardápio. Baka ontem já falou que você emagreceu durante a viagem e passou o dia oferecendo as coisas que você come.

Hoje você foi à creche. Não queria ir, mas chegou lá e ficou feliz ao rever os amigos. Houve um caso de H1N1 lá, mas Mamãe confessa que ficou estressada mesmo quando informaram que tinha havido um caso de piolhos. Coisas de uma mãe nada hipocondríaca, mas que morre de nojo de pilhos!

Mamãe curtiu muito a viagem, reviu muitas amigas de infância e adolescência, mas você estava doido para voltar. Da próxima vez, seu pai vai junto e aí talvez você aproveite mais.

Como diria você, com sua vozinha deliciosa, "eu te amo também",

Mamãe."

29 setembro, 2009

Carta de Setembro

"Filhote,

Numa correria danada com os preparativos para a viagem ao Brasil (incrível como a lista de encomendas é sempre infinita), quase que a carta deste mês não sai!

Você anda numa fase tão engraçada! Continua com a mania de fazer cafuné nos outros quando está com sono ou tenso. E, de tanto ouvir a mesma resposta quando tenta tirar o elástico do cabelo da Mamãe, outro dia foi com a mão para tirar e você mesmo disse "este elástico é do Mamãe, né? É do não-Filhote", num português meio truncado. Nota dez pelo esforço de formar frases inteiras em português.

Você gosta muito de cantar e aprende as letras com facilidade. Também improvisa e compõe suas próprias canções. Esta semana, houve um ataque geral de riso quando você brincava com um dos seus muitos caminhões de lixo e começou a cantar sua versão de Oh, My Darling Clementine "oh, my garbage, oh my garbage, oh my gaaarbage Clementine".

Acabou-se o verão e começou a temporada de chuvas. O que é impressionante é que isso aconteceu também na sua cama. Depois de vários meses sem uma gota noturna, passou a chover esporadicamente na sua cama e voltamos à fralda antes de dormir.

Foi muito grande a sua mudança de comportamento após o aniversário de 3 anos. Você agora consegue compartilhar brinquedos, entende as regras de uma brincadeira, não arranca um brinquedo da mão de outra criança, sabe barganhar para conseguir o que quer. Entende até os planos. Mamãe comprou uma fantasia de Halloween para você, de dinossauro. Depois do banho, ela ajudou-o a vestir e cochichou para que você fosse até a cozinha fazer uma surpresa pro seu pai. Você foi quietinho, chegou perto e urrou feito um dinossauro. Claramente compreendeu a ideia, vestiu a roupa calado e foi na ponta dos pés.

Num dos últimos finais de semana ensolarados do ano, estávamos no parquinho. Um garotinho da sua idade veio brincar com você. Ele perguntou seu nome, seguia-o por toda parte e chamava-o quando estavam distantes um do outro. Aí uma hora ele sumiu, Mamãe perguntou "cadê seu amigo?" Você não tinha perguntado o nome dele, saiu pelo parque gritando "Meu Amigo, where are you?".

Instintivamente, Mamãe já estava decidida antes de você nascer a nunca conversar em inglês com você. Teimosa que só ela, continua assim, mas de vez em quando aparece um termo que é bem parecido nas duas línguas e que, no Brasil, a gente pronuncia com o nosso sotaque. Só que filho de peixe peixinho é e você não deixa passar nenhuma pronúncia incorreta. Então Mamãe fala, como no Brasil, "olha o Tiranossauro Rex" e você, gringo que só, corrige "não é Tiranossauro Rex, é Tairhanossórus Rhex". E os mil e quinhentos tipos específicos de tratores? Mamãe não sabe como se chama em português um "bulldozer" e só o genérico "trator" não serve para você. Se ela diz "bulldozer", você imita "não é buldôzi, é bulllldouzerrr". Se Mamãe já achava isso, você só confirmou: pais estrangeiros devem sempre falar com os filhos na sua língua materna, independentemente da proficiência na segunda língua. E olha que, modéstia à parte, Mamãe tirou 100% na prova oral que teve que fazer para obter o registro no Conselho de Enfermagem local, isso há 10 anos e de lá pra cá o inglês dela deve ter melhorado um pouquinho! O consolo é que você não corrige somente sua mãe, mas todos. Seu pai hoje no café da manhã falou algo na língua dele sobre o iogurte e você corrigiu, em inglês, movendo as mãos espalmadas para cima e para baixo, como se estivesse ensinando o óbvio "it's not EATING yoghurt, it's DRINKING yoghurt" (realmente, o iogurte era líquido e você estava tomando de canudinho).

No final de semana que passou, Mamãe estava de plantão. Nunca havia ocorrido a ninguém aqui que você não sabe o que sua mãe faz profissionalmente. Falha nossa, nunca conversamos sobre isso, é sempre "Mamãe vai trabalhar" e pronto. Seu pai e você foram ao hospital para levar o almoço dela. Assim que entraram, você agarrou nas pernas do seu pai e avisou que estava com medo. Passou o tempo todo assustado, olhando para as paredes e esquivando-se das pessoas, obviamente ainda se lembra da internação no ano passado (1 ano na vida de quem só viveu 3 parece muito, mas você não se esqueceu). Voltando para casa, encontrou nosso vizinho e foi logo falando "my Mom is in the hospital" e ele, mesmo sabendo o que ela faz, ficou surpreso até que seu pai explicou. De noite, você perguntou preocupado se Mamãe estava se sentindo melhor ("are you better now?") e se precisava ir ao médico de novo. Mamãe explicou que trabalha no hospital, que não estava doente, mas você não se convenceu. Como ela está com um band-aid no dedo por causa de um corte com a faca, você pergunta se o dedo melhorou depois do hospital.

Para sua felicidade, as aulas de ginástica recomeçaram. Agora você fica na turma sozinho, os pais esperam do lado de fora. Você é o mais empolgado, faz todos os exercícios sem ajuda, mas às vezes não consegue ficar sentado na rodinha, de tão excitado. A professora disse que é normal esta adaptação depois das férias e, realmente, a partir da segunda aula, você começou a ficar menos agitado nas partes da aula que não envolvem estar pendurado nas barras de cabeça para baixo.

Você conversa muito sozinho. Às vezes, quando está brincando com os carrinhos, faz vozes diferentes para cada um, igualzinho à Mamãe quando lê seus livros de estória.

Se é que é possível, você tem estado ainda mais carinhoso estes dias. Abraça a gente bem apertado e fala que ama espontaneamente. Irresistível!

Enquanto arruma as malas, Mamãe está com o coração apertadinho. Você vai sentir muito a falta do seu pai nestes dias no Brasil. A cada vez que escuta que vamos ver os primos, os tios e os avós, mostra-se empolgado mas fala "e Tata vai também". Fica tristinho quando escuta que ele não vai e insiste que vai sim. Não que no ano passado você não tivesse sentido a falta dele, mas era incapaz de verbalizar, então grudou no seu tio. Mamãe já prevê uma choradeira no aeroporto. Na última viagem, quando aterrisamos em Chicago para a conexão, você o procurou no desembarque. Ele estará em Paris, na casa do seu tio e vamos tentar falar com ele pelo Skype. Não sei se quando você for adulto e se um dia tiver filhos vai sentir culpa por fazê-los sofrer de saudade, mas sua mãe aqui sente e já pede desculpas por antecipação.

Um abraço daqueles bem especiais que você dá como ninguém,
Mamãe."

19 agosto, 2009

Carta de Agosto

"Filhote,

Este ano tivemos um verão quente por alguns dias. Curto, que alegria de pobre dura pouco, mas fez calor. Você ficou cheio de brotoejas, embora sua Santa Tia diga - e passo a citar - que "você já é muito velho para isso, brotoejas são coisas de neném". Agora veja como são as coisas: quando você era um bebê gordinho e fomos a Fortaleza em janeiro, o calor não o incomodou.

Aproveitamos para ir à piscina nos finais de semana. Você gosta de brincar com as crianças na água, mas não molha a cabeça. Retornou às aulas de natação, com uma amiguinha da mesma idade, porém nunca sabemos quando você vai entrar na água. Semana passada o professor tentou fazê-lo boiar, deitando-o de costas na água e você ficou emburrado. Saiu batendo o pé, cruzou os braços e ficou muito bravo. Ontem não entrou. A última coisa que queremos é criar um trauma, então vamos com paciência e persistência. Você curte muito a carona de casa até a aula, cantando no carro com a amiga brasileira.

Você gosta de brincar de fazer cócegas e falar os nomes dos dedos "Mindinho, Seu Vizinho...". Esta semana, virou-se para a Mamãe e disse bem dengoso, mostrando o dedo indicador "o Fura-Bolo machucou, quero um band-aid".

Você tinha melhorado da gagueira, esta semana voltou a gaguejar novamente, principalmente quando está empolgado e quer falar rápido.

Nossos queridos amigos de Salvador mandaram um CD muito legal para você, com várias músicas que mencionam seu nome. Um presentão! Você vai no banco de trás do carro todo feliz cantando o Peixe-Vivo, que segundo sua nomenclatura, é o "Peixe Fora": "hoje temos Daniel nos fazendo companhia...". Para o orgulho da Mamãe, em outro CD, você reconhece os primeiros acordes da Ciranda da Bailarina, do Chico Buarque e diz, antes de começar a letra "é a música da bailarina". Também gosta muito do CD do Sítio do Pica-pau Amarelo (se acabou o hífen do pica-pau, não interessa, porque na capa do CD continua tendo hífen) e dos Saltimbancos. Falando nisso, você é bem implicante. Se alguém pula uma música, você lá do banco de trás reclama "não, eu quero a do cachorro" ou qualquer que seja aquela que foi pulada. Não que você faça questão, muitas vezes nem sabe de que cantiga se trata! E continua, mais de um ano depois, implicando com a música da lagartixa. Começam as primeiras notas, você já diz "não gosto dessa". Jamais gostou de "fui morar numa casinha infestada de cupim", deve ter seus motivos.

Você adora ajudar a fazer bolo de cenoura. Trata a batedeira com muito respeito, geralmente mantendo distância, mas até que na última vez pediu para segurá-la e conseguiu bater o bolo. Você gosta mesmo é de jogar os pedaços de cenoura no liquidificador e despejar a farinha na bacia. Por sinal, falando em bolo, o impossível aconteceu: você tem comido menos ainda.

Você está sentindo falta das aulas de ginástica nestas férias. Vamos renovar a matrícula para o outono.

Você ganhou de aniversário alguns jogos de tabuleiro e um jogo da memória. É muito divertido quando nós três estamos jogando. No jogo "Chutes and Ladders" você não consegue entender bem as regras, mas no jogo da memória, tem horas em que você rouba descaradamente. Separa duas cartas idênticas, finge que não sabe onde elas estão e faz cara de surpresa quando as encontra. Não consegue esperar a sua vez e, se alguém vira uma carta cujo par você sabe onde está, já vai desvirando imediatamente. Explicamos novamente as regras, não encorajamos a roubalheira não. Você fica igualmente feliz se encontra um par de cartas quando outra pessoa faz o mesmo. Vibra e bate palmas.

Mamãe demora muito para apertar todos os fechos do cinto da cadeirinha do carro. Até bem pouco tempo atrás, você perdia a paciência e chamava seu pai para terminar o serviço. Semana passada mudou de estratégia. Agora você encoraja "you can do it, Mamãe" e, quando ela finalmente consegue, você bate palmas "muito bem, você conseguiu!" É ótimo ter o apoio da família quando a gente tem alguma limitação.

Outro dia, seu pai escovou seus dentes antes de dormir. Aí de manhã, Mamãe tentou escová-los e você disse que seu pai já tinha escovado. Várias amigas alertaram sua mãe sobre a "fase porquinho" que alguns meninos passam, mas ela pensou que seria mais tarde.

No dia do aniversário do seu pai, quando Mamãe foi dar os parabéns, você disse "the birthday is later, it's not now". E, mesmo com a festa cancelada pela chuvarada, cantamos parabéns com bolo e vela. Você ficou tão feliz! "Now it's birthday time".

Você gosta muito de dançar, tem ritmo, qualquer hora dessas precisamos filmá-lo dançando.

Outro dia fomos ao cinema assistir a Ice Age 3. Como o filme anterior havia sido em 3-D, assim que sentamos nas poltronas, você disse ao seu pai "I need my glasses". Por sinal, seu pai estava brincando com você e fez um pássaro com peças de kidknex, que você ganhou de aniversário, e você logo disse "Kevin!". Ele ficou confuso, até lembrar que realmente havia ficado parecido com o Kevin do filme Up. Você tem uma memória formidável.

Você adora corrigir tudo o que falamos. Se Mamãe fala, na hora de trocar a roupa de manhã, "vamos tirar a calça?", você corrige "não é calça. É uma pijama". Ô língua difícil esta da sua mãe! Agora mesmo, no jantar, você disse "dois sucos". E Mamãe apontou, dizendo "um...", você interrompeu "não, este não é um" e, segurando o outro suco, disse "este é um. O seu é dois". Fica contando os objetos, falando "dois limãos", Mamãe corrige "dois limões", mas escuta "não é dois limões. É dois limãos!"

Você é muito observador. Mamãe estava calçada com uma pantufa velha, soltando espuma atrás e você apontou, comentando "your shoe is broken. Here, on the tail". Realmente, se chinelo tivesse rabo, a espuma estaria saindo pelo rabo da pantufa.

Você anda falando muito em inglês, mas nossas férias no Brasil, com imersão de língua portuguesa e água de coco na beira da praia já estão chegando.

Por hoje é só. Você está lá no banheiro agora, enrolando para não tomar banho. E, depois que entra, enrola para não sair, mas isso já não é novidade.

Abraço apertado,
Mamãe."

17 julho, 2009

Carta de julho




"Filhote,

Você está tão diferente desde que completou 3 anos! Passou a ter uma preocupação com o futuro, pergunta para onde estamos indo ao sair de casa, já acorda perguntando que dia é hoje. Como Mamãe sai para trabalhar antes de você acordar praticamente todos os dias, quando você acorda e ela está em casa, já deduz que é o final de semana. Aos sábados, tinha aula de natação e aos domingos, de ginástica (férias para ambas agora). Se você acorda e Mamãe está em casa, antes de "bom dia", vem "hoje tem ginástica? Hoje tem piscina?". E, diante da resposta negativa, você conclui que ela está de plantão mais tarde, faz beicinho e diz "hoje tem escola?".

Você adorou sua festa de aniversário. Só passou a dizer que tem 3 anos depois dela. Outro dia, enquanto esperávamos o elevador, a vizinha chegou, você logo cumprimentou com "hi", ela perguntou "how are you?" e você "I'm three", apontando o número 4 com os dedos e depois apertando o mindinho com a outra mão, para conseguir mostrar 3.

Você nunca foi tímido, mas de 1 mês para cá, aborda os vizinhos, as pessoas nas lojas, comenta sem eles perguntarem para onde está indo, o que vai fazer, o que tem nas mãos... As pessoas geralmente riem de alguém do seu tamanho tão tagarela.

Hoje teve uma birra no final da tarde, para sair de bicicleta sem capacete, o que é uma das coisas não passíveis de negociação nesta casa, mas fazia tanto tempo do último conflito que Mamãe nem se lembrava mais! Apesar dos joelhos já esfolados por quedas no parquinho (assim mesmo, quedas, no plural), o clima não estava propício para negociar as joelheiras. "Escolha suas batalhas" é um lema apropriado para sobreviver a esta fase.

Você gosta de ser independente. Já vai ao banheiro sozinho, embora precise de mais ajuda do que admite. Se não for lembrado, não lava as mãos. Tem guardado seus brinquedos quando acaba de brincar, quase sempre cantando a musiquinha em inglês que aprendeu na creche ou a versão tupiniquim que canta sua mãe "meus brinquedos, meus brinquedos vou guardar, vou guardar, porque já acabei, porque já acabei de brincar". Da série "coisas que nunca pensei que faria antes de ter filhos". Você agora entende o conceito de "é a vez do Fulaninho, depois é a sua vez" e consegue compartilhar os brinquedos.

Você tem uma amiga favorita já há muito tempo. Pelo menos, reparamos na sua festa de aniversário do ano passado. É a Rafa, uma gauchinha de 10 anos. Você reserva para ela um abraço apertadíssimo que só costuma dar espontaneamente aos seus pais e avós. É um amor tão grande que, se Mamãe acreditasse em vidas passadas, diria que vocês já foram irmãos um dia. E você fica bravo se alguém se refere a ela como Rafaela. "Não é Rafaela, her name is Rafa". Quando ela completar 12 anos e estiver habilitada a ser "baby-sitter", já tem um cliente cativo.

Você agora corrige tudo o que a gente fala. Tem suas próprias opiniões e não larga o osso facilmente. Esta semana estava apontando para o porta-guardanapos, que tem as figuras de um garfo, uma faca e uma colher e disse "dois garfos". Mamãe falou "é um garfo, uma colher e uma faca". Você insistiu, virou o troço para o outro lado e apontou um garfo de um lado e outro no lado oposto. "Dois garfos!", concluiu vitorioso. Realmente os adultos nem sempre estão certos e ficamos felizes que você defende seu ponto de vista.

Esta semana você foi à dentista. Na vez anterior, Mamãe estava de plantão e você foi com seu pai e avós. Lembro de eles comentarem que não havia sido uma experiência agradável. Seis meses se passaram e você não se esqueceu. Na sala de espera, pediu para ir embora e disse, pela primeira vez "estou com medo". Mamãe ficou tão orgulhosa de você expressar-se assim! Você sentou na cadeira, no colo da Mamãe. A assistente foi maravilhosa, fez balão com a luva, deu brinquedo, mostrou tudo, mas você chorava silenciosamente e cobria a boca com o babador que ela havia colocado no seu pescoço. Aí veio a dentista, falando em português, com voz calma e você abriu a boca, deixou que ela contasse seus dentes e examinasse. Ela até teria conseguido fazer a limpeza, mas achou melhor aguardar a próxima consulta. Estava tudo perfeito, mesmo sendo chupador de dedos, sua mordida está normal. A dentista tem o mesmo pensamento dos seus pais: você vai parar de chupar os dedos quando estiver pronto. Como você ainda tem o hábito de colocar praticamente tudo na boca (menos comida), dá para ver que ainda precisa deste consolo dos dedos. Aqui em Vancouver, as pessoas têm muito menos preconceito contra os dedos do que no Brasil. Ainda bem.

Você fala os plurais bem direitinho, pelo menos os óbvios. Claro que precisa de ajuda para "mãos" e "corações", até porque, Mamãe descobriu com você, não são fáceis. Você fala "churrástico" e "barbecute". Não tem nenhum fonema que não consiga pronunciar, mas ainda fala "raranja" e "baruro" (para laranja e barulho).

Vovô mandou uma coleção de livrinhos maravilhosos para você. Mamãe estava num dilema, porque adora ler com você e só gosta de ler em português, mas pulava vários trechos de algumas estórias, como o Barba Azul escondendo as cabeças das esposas mortas num quarto ou um rei dizendo aos 3 filhos que daria o reino para aquele que se casasse com a princesa mais bela. Ah, para isso sua mãe é politicamente correta! Então ela pediu estes livros da Coleção Giramundo e temos nos divertido muito. São livros bem ilustrados e bem escritos, que incentivam a autoestima, passando mensagens positivas e educativas. Seu preferido é o Feliz por Obrigação e você sempre fica impressionado com a parte em que o menino tira a máscara do rei. Páginas depois, você volta folheando tudo e procurando "taguê máscara?" (você fala "helicóptero", mas não pronuncia "cadê" corretamente). Outro livro delicioso que Mamãe pediu foi O Gatola da Cartola, versão brasileira de The Cat in The Hat, que você já tinha em inglês. Lemos praticamente toda noite, você adora a bagunça que o gato faz. Toda vez que Mamãe lê "ancinho" no livro, você corrige "não é ancinho, é garfo".

Você anda gaguejando, faz uma ou duas semanas. As idéias são mais rápidas do que a língua consegue acompanhar e você gagueja mais em português. Engata em "eu eu eu eu eu" e até completar o pensamento, enrola-se. Você com frequência responde em inglês quando a Mamãe pergunta alguma coisa, principalmente logo após chegar da creche, mas ter mãe capricorniana cabeça-dura (seu avô diz que isso é um pleonasmo) tem suas vantagens. Mamãe traduz em português o que você acabou de dizer e aí você repete. Persistência, persistência, persistência e sua mãe é boa nisso. Ainda bem que estamos de passagem comprada para umas merecidas férias no Brasil, que funcionarão como curso intensivo de imersão na língua portuguesa para você e de mordomia para ela!

Você agora gosta da piscina. Praticamente todo final de tarde vai nadar com seu pai na piscina do prédio. Num dia, encontrou várias crianças lá. No outro, somente um vizinho, então comentou, com uma voz desconsolada "just a dad, no kids". Esta fase é muito engraçada. Você pegou um livro do seu pai na mesa e perguntou "is this story yours?". Mamãe adora a forma de as crianças pequenas expressarem seus pensamentos com termos não convencionais para os adultos.

Uma das suas qualidades mais adoráveis é a empatia. Mamãe chegou em casa ontem chateada, mas deu um sorriso ao ver você. Não deve ter sido muito convincente, porque você levantou da cama, deu um abraço apertado, depois se afastou um pouco para olhar nos olhos e perguntou, preocupado, "você está feliz?" E como não ficar depois disso?

Um abraço bem apertado, como diria você "eu eu eu eu eu eu eu te amo",

Mamãe.