"Filhote,
O ano praticamente já acabou. Como passou rápido!
Foram tantas etapas vencidas este ano: fraldas abandonadas de dia e de noite, bicicleta domada, conversas longas em todas as línguas faladas aqui na casa de Babel onde vivemos.
Você tem falado muito da viagem ao Brasil, volta e meia lembra de alguma coisa acontecida lá. Ontem, quando pediu "meu toalha" e a Mamãe explicou que "toalha é ela, é minha toalha", você logo respondeu "é, mas o Léo é menino". E quando passou na TV o comercial do Wii, você falou "eu tenho este, no Léo casa". Claro que Mamãe corrigiu e disse que era na casa do Léo, mas ficou surpresa de você ter reparado que era o mesmo jogo da casa do seu primo.
Semana passada você fez uma grande travessura. Cortou em vários pedaços o fio do carregador do iPod do seu pai, que só descobriu no dia seguinte. Aí, misteriosamente, apareceu uma pantufa de ursinho totalmente destroçada. O povo do Greenpeace iria ficar furioso se visse! A Mamãe começou a andar pela casa com medo do que mais teria sido atacado pelo Little Jack, the Ripper e você confessou que tinha cortado um pijama. Quando ela tirou a roupa da secadora, encontrou uma meia que mais parecia rabiola de pipa. Você picou e colocou no cesto de roupa suja, então ela foi lavada, seca e só na hora de guardar é que foi descoberta. O pedaço cortado do pijama (a perna, da canela para baixo) foi encontrado atrás da almofada do sofá. Mamãe ficou muito brava, apavorada com a possibilidade de você cortar um fio de um aparelho ligado na tomada e tomar um choque horrível. Explicou que só pode cortar papel e disse que ia jogar sua tesoura no lixo. Você prometeu que só vai cortar papel e tem repetido isso todos os dias. Condicionamento total.
Semana passada foi a festa de Natal na sua "escola". Como seu pai sofre de atraso crônico e o trabalho da Mamãe é imprevisível, ela pediu que seus avós chegassem na hora. Pontualíssimos que são (prova de que atraso não é genético ou então temos que pedir o DNA do seu pai), estavam lá às 15:30 em ponto. A lei de Murphy persegue sua mãe desde sempre, então claro que teve uma cesárea de emergência, a colega que iria render o plantão atrasou e Mamãe perdeu o início da apresentação. Você não quis cantar. Baka disse que ficou no colo dela, olhando para a porta, esperando a Mamãe. Mil desculpas, ano que vem a Mamãe vai se organizar com antecedência para trabalhar somente metade do expediente ou tirar o dia da apresentação de folga. Foi uma sensação péssima ter decepcionado você e a Mamãe vai fazer um esforço para não acontecer de novo. A música que seus colegas cantaram era “Santa Claus is coming to town”, que você fica cantando pela casa, uma graça. Para implicar, a Mamãe canta "Santa Claus is coming to Brasil" e você corrige "não é to Brasil, é to town".
Você voltou a gaguejar quando fala em português. Ontem, quando saiu do banho, perguntou do nada: "Mãe, pupupupupupu quê o médico machucou meu ombro?", referindo-se à vacina que tomou já há algum tempo. "Filhote, a médica deu uma injeção, uma vacina para você não ficar doente". "É, mas eu fiquei com medo da seringa" (aprendeu a palavra “seringa” num livrinho novo que ganhou este mês). Mamãe lembrou-o de que a médica deu um pirulito depois e você falou "é, foi vermelhinho".
Você descobriu os diminutivos em português e agora a Mamãe está pagando a língua. Ela nunca fala nada no diminutivo, tem até implicância com mães que falam "o pezinho do Fulaninho está assim, o cocozinho do Beltraninho está mole/duro/muito/pouco (as mães que falam assim têm o cocô do bebê como assunto favorito)". O fato é que você aprendeu isso e agora fala "meu dedinho machucou", "precisa meia para minha pezinho".
Esta semana, seu pai não estava em casa na hora de você dormir. E, como sempre, saiu um “eu quero minha pai”. “Ele saiu”. “Puuuuuuuuu que?” “Foi levar sua tia na casa dela”. “Coitadinha”. “De quem?” “Da sua tia. Não sabe ir pra casa”. “Ela sabe sim, ele deu uma carona porque ela não tem carro. E a tia é sua, não é minha”.
Você gosta de escrever seu nome digitando no computador. Gosta também de brincar com o CD do Coelho Sabido. E continua adorando livros. Chegou uma caixinha de surpresa do Brasil, uma amiga da Mamãe lá de Florianópolis mandou uns livrinhos da coleção da Rita Sapeca, que foi um sucesso imediato. Você tem um fascínio misturado com medo de médicos e hospitais. Então, mesmo havendo um livro onde a Rita Sapeca vai pescar, outro onde ela usa ferramentas para fazer uma estante e uma estória de férias, você logo preferiu o Rita Sapeca Fica Doente. E diz que quer ler o livro da "Rita Sapeca no hospital", embora já tenhamos lido a estorinha inúmeras vezes e você saiba de cor que o médico vai visitá-la em casa. E, como dizem aqui, "an apple doesn't fall far from its tree" ou, nosso equivalente em português, "filho de peixe peixinho é", sua estante de livros é tão bagunçada quanto as dos seus pais:
Quando você chega da creche, a Mamãe sempre pergunta o que você fez naquele dia. Você costumava responder sem pensar “brincou com Ayan”, todos os dias, por meses a fio. Agora você responde “Courtney leu livrinho”, “eu fez um avião” ou “brinquei com Leni e Jonah” (seus amigos preferidos) e, no dia em que não está a fim de conversa, já chega dizendo, antes de cumprimentar, nem espera a pergunta, “eu não brinquei com nada”. Tão surpreendente ver a sua personalidade aflorando nas respostas que dá, muito mais divertido do que ouvir as frases prontas, decoradas.
Você entrou na fase dos porquês. No supermercado, quando a Mamãe pensou em voz alta "tem que comprar o leite do Filhote", você logo perguntou "por que tem que comprar o leite do eu?".
Você curtiu muito armar a árvore de Natal e o presépio. Sempre que passa pela sala, acende as luzes da árvore. Volta e meia sobre no banco para ver o presépio em cima do piano e comenta “tem um neném aqui.” “É o Menino Jesus”. “Não é menino. É um BE-BÊ”. Adorou pendurar o enfeitinho do Lightening McQueen e do Matter, que a Mamãe fez questão de comprar para que algumas decorações fossem ao seu estilo. Vamos montar uma casinha de biscoito de gengibre e fazer juntos biscoitos natalinos. Você nem sabe o quanto a sua existência mudou o Natal para sua mãe. Agora ela gosta muito dos preparativos, a festa ficou especial e deliciosa. Sua chegada foi o maior dos presentes, mudou todos os Natais. Como virou tradição desde a sua chegada, passamos a véspera de Natal com os amigos brasileiros e o dia de Natal com a parte gringa da família.
Desejando um Natal maravilhoso e um 2010 cheio de deliciosas conquistas e surpresas, mas sobretudo agradecendo imensamente a sua presença nesta família e neste coração, fica aqui um abraço apertadíssimo,
Mamãe."
6 comentários:
Oi Flávia, sou sua fã, leio todos os seus blogs e me emociono com as cartas que vc escreve para seu filho.
Aproveito para desejar um Santo Natal e um Ano Novo cheio de saúde, paz e muitas alegrias.
Beijos e fiquem com Deus.
Mirian (mãe da Renata, Dory, Olívia e....-Sai da tua terra....)
Mirian
Que declaração de amor ao seu filho! Parabéns a todos vocês e um 2010 maravilhoso.
E a vida segue...
Adorei o "eu não brinquei com nada".. hehe...
Acho lindo estas cartas que vc escreve. Foi assim que me inspirei a fazer algo, mas para mim mesma. Quase um diálogo com o futuro.
Flávia, bom natal e boas festas para vcs!
Terminadas as férias é hora de colocar a leitura em dia e a carta mensal do Pacotinho é parada obrigatória. Como sempre, adorei!
Linda carta mamãe do pacotinho.Ele continua encantador e vc muito especial.
Bjs
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