20 agosto, 2005

Nome Esquisito? O Meu???

Uma grande amiga sabiamente diz que “todas as nossas verdades absolutas são culturais”. É sério, coisas que temos como certas, universais e imutáveis podem ser completamente diferentes quando saímos das fronteiras da nossa cidade e mais ainda, quando estamos em outro país.

Os nomes das pessoas são um ótimo exemplo de como o que é “comum”, “esquisito”, “diferente” varia de lugar para lugar. Quando eu trabalhava na pediatria em São Luís do Maranhão, houve uma semana em que tínhamos três Michael Jackson e dois Michael Douglas na mesma enfermaria (na verdade eram variações de “Maykon Jakson” e “Maycon Douglas”, mas o que vale é a intenção). Um memorável era um menino que se chamava Ddivan, assim mesmo, com 2 “d” no começo. Eu perguntei à mãe dele como se pronunciava o nome e ela, irritada (eu já deveria ser a milésima a perguntar): “eu não sei qual a dificuldade. O nome dele é Dedivan, o primeiro “d” é mudo !”. Outro inesquecível era o "Amônio", cujo nome foi inspirado (onde mais?) nos ingredientes listados num saco de adubo, segundo os pais orgulhosos da criatividade informaram.

Quando eu morava no Brasil, sempre achei que “Flávia” fosse um nome comum. Havia várias vizinhas xarás, outras duas no ballet e mais uma na minha sala de aula. Fiz vestibular numa das três salas inteiras somente com "Flávias" na UnB. Depois que mudei para o Canadá, passei a ter que soletrar meu nome, ouvir as pessoas me chamarem de “Flêivia”, responder de onde meus pais tiraram um nome tão esquisito e ainda receber minha conta da TV a cabo endereçada a “Slavia Oliviera”.

Pensei que, chegando aqui, eu iria conviver com várias Jessicas, Jennifers, Pamelas e Melanies, mas que engano ! Eu já me acostumei a ter pacientes e colegas com nomes impronunciáveis, que provavelmente são bem comuns entre suas próprias culturas. Uma colega indiana tem duas filhas: Prabhjot e Balpreet. Uma enfermeira paquistanesa chama-se Anisbhanu, uma filipina atende por Cherisse, o nome da minha professora é Rupinder e havia uma colega do Sri Lanka chamada Thankamma (graças a Deus se aposentou, porque estava sempre de mau humor, mas com um nome desses, quem pode culpá-la?). Os chineses eu nem ouso tentar, mas como geralmente só têm uma sílaba, qualquer “Tchen, Tchin, Tchan, Tchun” cobre 90% das possibilidades de acerto.

Aprendi a não me assustar com os nomes que para mim soam “exóticos” e fazer o possível para pronunciá-los corretamente. Só que tem gente que mora aqui há anos e não aprende. Quando estava entregando os convites do meu casamento, fui à casa de uma amiga conterrânea do meu então futuro marido, que é da antiga Iugoslávia. Como é de tradição no Brasil, havia os nomes dos nossos pais no convite. Os do noivo: Momcilo e Slobodanka, que a amiga achou normais. Quando ela viu os nomes dos meus pais, gaguejou várias vezes e desistiu: “como se pronuncia isso?” Eram “José Francisco e Teresinha”. O melhor é que os pais da pessoa em questão chamam-se “Lhubomir” e “Nada” (isso mesmo, a mãe dela chama-se “Nada”), o nome do irmão é “Dragan”, o sogro é “Miroslav” e a minha família é que tem nome esquisito!

8 comentários:

Anônimo disse...

Hahahaha!! Devia me mudar para o Canadá... quem sabe não ia precisar solterar meu nome todas as vezes que alguém vai escrevê-lo... Um beijo.

Anônimo disse...

Flavia.. seus textos sao muito bem escritos e criativos.. gosto muito deles!!! Na sua coletania de nomes eu me lembre da "AZAR" que queria me alugar um apartamento.. fala serio.. com esse nome nao confiei em alugar nada com ela!!!

Anônimo disse...

FlaviaLinda,

ontem cheguei de viagem e adivinha qual foi a primeira coisa que fiz, apos checar meus e-mails?? Sim, ler a coluna da divertida Senhora Mandic (ou seria a divertida coluna da senhora Mandic?)... anyway, ler um texto bem escrito ja' e' uma delicia, imagina entao ler um texto inteligente !! A tua escrita reflete fielmente teu jeito de falar (e pensar), e' incrivel!
Buenas, se precisares de sugestoes criativas para os nomes dos teus filhos (if, "if" aqui no Canada' nao encontrares inspiracao suficiente), minha familia com certeza podera' colaborar com os mais... digamos... ahn... bem bolados... Idalina Philipina Marilusa Neta, que tal?

beijos,
Cibi
(para encurtar o meu nome completo, hehehe)

Anônimo disse...

Também sempre achei que Daniela é um nome comum. Será que no Canadá alguém iria achar diferente?????
Adorei sua crônica, como sempre!
Mil beijos para a senhora, dona Fleivia!

Queila disse...

Veja bem...

Eu sou Queila com Q de queijo ou com Q de Quebec como eu costumo explicar por aqui. Nunca fui bem compreendida nem no Brasil nem aqui no Canada onde muitas vezes me chamam de "Cueila".

Essa semana tive um paciente cujo nome era "Dominique". Fui à sala de espera e chamei "Madame Dominique". Ninguem se lavantou. Quando eu chamei pelo sobrenome um homem barbado se identificou. Sim, o Monsieurs Dominique. :)

Q

Ravi disse...

Eu me chamo Ravi! E não sou filho de Indiano (Hindú, whatever).
Aqui, pela primeira vez, ouvi o meu nome falando por um Indiano :-)
No meu trabalho tem uns nomes estranhos, quem tem nome MUITO tosco às vezes "adota" um nome Americano, normalmente Chinês faz isso.

Anônimo disse...

Oi Flávia!
Sei que deve ser estranho receber o comnetário hoje de um post feito em 2005! Aliás, nem sei se você vai vê-lo, pois não sei bem como funcionam os blogs! Mas dessa vez eu não resisti! Descobri o seu blog há 1 mês mais ou menos e me viciei! Desde então me divirto e me emonciono com cada post! Essa semana resolvi ler os mais antigos, na ordem em que foram escritos! Já me encantei com o Chico, odiei o serviço de telefonia, lembrei do meu casório... Até que cheguei neste! E aí, eu, que ainda não me decidi pela imigração para o Canadá, apesar da empolgação do marido, fico imaginando que, pelo menos, se eu tiver que soletrar meu nome aí não vou precisar dizer que sou flávia sim, mas sem o acento (flavia - em todos os documentos) porque o meu pai não lembrou de conferir a minha certidão de nascimento quando saui do cartório todo feliz e orgulhoso da primogênita!
Beijos,
Flávia ou, oficialmente, Flavia.
flavia.arquiteta@gmail.com

Mariana Mesquita disse...

Eta, que desencavei um post véééio... Mas precisava registrar o nome da minha mãe (e da minha avó, também): NAGICINA