Sempre fui uma pessoa urbana, avessa ao contato íntimo com a natureza em todo o seu esplendor. Nascida e criada em apartamento, nunca subi em árvores, nadei em rios ou fiz amizade com lagartixas. Para mim, deitar na areia à beira do mar é uma amostra do nirvana, mas caminhar no meio do mato, disputar lugar com sapos e cobras, doar sangue para mosquitos e encher a roupa de carrapichos é uma visão do Inferno. Dormir em qualquer lugar que tenha entre 3 a 5 estrelas é ótimo, mas se mais de 10 forem visíveis, é sinal de que estou ao ar livre e, conseqüentemente, corra para me resgatar, porque estou lá contra a minha vontade.
Dois episódios ocorridos em São Luís (MA), que ficariam melhor em “Crônicas da Linha do Equador”, retratam o meu (inexistente) lado natureba:
1- Da primeira vez que vi uma tarântula, na cantina do hospital, nem me apavorei, pois achei que fosse um brinquedo. Cabeluda, maior que minha mão, jamais poderia ser uma aranha real ! Nunca pensei que elas existissem de verdade (sabe efeito especial de filme ?), até que o monstro se mexeu. Meu pobre coração só não parou de bater porque não havia chegado a minha hora.
2- Paguei 10 reais à minha empregada na época, para que ela matasse a Cristina, a perereca que morava no armário da cozinha havia 1 mês e já tinha sido até batizada. Ela não só a matou, como guardou o corpo numa caixa de sapato para me mostrar, mas claro que eu não quis ver ! Até encomendo o assassinato, mas não mancho as mãos participando do funeral. Parei de contar esse caso aqui, sob risco de ser levada ao tribunal de Crimes Contra os Animais. Em minha defesa: foi o anfíbio quem invadiu o meu território e, se eu não vou onde este "pessoal" mora, eles que não venham me visitar !
Quando mudei para o Canadá, fui introduzida ao ritual do morador típico de Vancouver, que é o meu pior pesadelo: o acampamento. Tudo começou com um ex-namorado canadense autêntico, daqueles que esquiam, penduram-se em penhascos, descem corredeiras de canoa e conseguem carregar tudo o que precisam para um mês de tortura, quer dizer, férias, dentro de uma mochila. Pessoas assim classificam qualquer tipo de sofrimento ao ar livre como diversão. Ah! Além de tudo, ele também era vegetariano radical. “Onde eu estava com a cabeça ?”- é a pergunta que me faço até hoje, ainda sem resposta. Uma daquelas loucuras que fez a filha do Elvis Presley se casar com o Michael Jackson ou o Enéas ficar em terceiro lugar na eleição presidencial do Brasil.
Dada a insistência de vários amigos locais, resolvi encarar o sacrifício e enfrentar a câmara de gás, digo, a barraca de acampamento pois, em teoria, a gente só pode dizer que não gosta de alguma coisa depois de experimentá-la. Foi no mês de outubro e o frio do outono já congelava os ossos tupiniquins. Fomos a Leavenworth, no estado de Washington, mas saí de casa vestida para ir passar o fim de semana na Antarctica.
Pegamos um amigo dele no caminho (outro bicho-grilo, por sinal). Eu havia colocado minhas coisas essenciais para o fim de semana prolongado (que não cabem nem em várias mochilas) no banco de trás do carro, sem imaginar que o carona iria viajar sentado em cima do meu travesseiro de pena de ganso que tinha custado 50 dólares numa liqüidação! Meu entusiasmo, que já não era lá essas coisas, acabou ali. Chovia horrores e, cinco minutos depois de entrarmos na rodovia, eu já estava arrependida, mas era tarde demais.
Chegamos ao campo de concentração, ops, parque ecológico, quando já estava escurecendo. Talvez por isso eu não tenha visto na entrada o aviso de Dante: “Deixai aqui toda esperança, ó vós que entrais”. Havia várias outras barracas, uma fogueira e todos aparentavam estar se divertindo, menos eu. Magicamente a barraca foi montada (eu não ergui um graveto), enquanto eu me ocupava em procurar um banheiro. Foi-me entregue uma lanterna de caverna para colocar na cabeça e fui informada de que era necessário usá-la para enxergar o caminho até o banheiro, que era um quartinho com um vaso (sem descarga), sobre um buraco no chão, literalmente a antiga “casinha”, que eu só conhecia através da revistinha do Chico Bento. Confesso que vê-la ao vivo e em três dimensões não acrescentou nada à minha cultura.
O jantar foi servido e consistia em comidas enlatadas insossas, esquentadas sobre a fogueira. Depois, fomos tentar dormir. Eu passei a noite em claro, enrolada em vários cobertores. E quem consegue dormir quando a placa do lado de fora alerta “Não alimente os ursos” ? Fora a preocupação em não beber nada para não ter que ir fazer xixi no meio da noite, correndo o risco de dividir a casinha com um gambá (há muitos por aqui).
Não havia chuveiro no local e, com exceção da brasileira aqui, ninguém parecia se importar em passar 3 dias sem um contato imediato do terceiro grau com um sabonete. Revoltado com tamanha “frescura”, o namorado me levou diariamente ao posto de gasolina da cidade, onde por 50 centavos eu pude tomar 5 minutos de ducha morna, uma verdadeira misericórdia divina naquele Purgatório de Gringo.
Pelo lado positivo, que não passa de 1% da contabilidade da experiência no total, vimos paisagens maravilhosas, as árvores multicoloridas no outono, salmões pulando rio acima para desovar e muitas águias carecas. Nada que eu já não tivesse visto pelo Discovery Channel, no conforto do meu sofá, enquanto ouvia o agradável som de pipoca estourando no microondas.
Foram os quatro dias mais longos da minha vida e foi difícil - com o perdão do trocadilho - não chutar o pau da barraca. Como eu amei voltar ao trabalho, aos meus pacientes complicados, à cidade e ao trânsito engarrafado na segunda-feira ! Isso é que é vida. Cheguei à civilização totalmente zerada dos meus pecados, que foram todos pagos lá na floresta.
Tempos depois, conheci um outro rapaz (surpresa: não deu certo com o canadense). No segundo encontro, já perguntei se ele gostava de acampar. Ele me respondeu que havia tentado uma vez, mas quando chegou lá e viu que não havia televisão, disse aos amigos: “não tem TV, então não tem Aleks”, entrou no carro e foi embora para um hotel. Foi quando eu percebi que havia encontrado minha alma gêmea. Muito esperta, casei com ele !
27 agosto, 2005
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2 comentários:
Genial
Eu concordo em absolutamente tudo o que vc disse. Já fiz algumas tentativas, como ir à Chapada e caminhar até cachoeiras, e também ir pra hoteis fazenda, mas compartilhar banheiro com lagartixa, pererecas e, como vc mesma disse, "doar sangue pra mosquito" realmente não é comigo. E olha que sempre me recusei a acampar, não gosto nem de ouvir as pessoas combinando essas coisas.
Pior do que eu, só tem uma pessoa: minha mãe. Ela vai delirar com o seu post hehehe
Beijos
Mari
cara Flávia
Seu ex-namorado deve ser parente do meu cunhado, que só falta ser devorado por pernilongos, mas insiste em ECO-TURISMO, quando vou a Brasilia, visitar a minha santa irmã.
Confesso. Acho a natureza linda, mas ELA no lugar dela e EUZINHA no meu.
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