30 junho, 2009

De Que Planeta Veio o Pacotinho de Astronomia?


Foi uma longa tarde. O Pacotinho de Expectativa, dentro das suas habilidades de 3 anos de vida, ajudou a encher os balões para a festa. Na volta para casa, perto das 10 da noite, ainda era dia claro, mas a lua crescente já era visível pela janela do carro.

- Mamãe, cadê o lua?
- "A" lua, Filhote. "A" lua está ali no céu.
- Cadê?
- Ali ó.
- Ah, mas cadê o outro lua? (com voz de decepção)
- Só tem uma lua!
- Cadê o outro?

Ou este menino pensa que lua é somente a cheia ou definitivamente ele veio de outro planeta. Um mais evoluído, onde os habitantes nem precisam de comida para sobreviver.

27 junho, 2009

Festa de Aniversário Entre Dois Mundos




Já se passaram nove anos de imigração, três aniversários e ela continua contrariando as expectativas. Ainda não aderiu às regras canadenses de festas. Não convida uma criança para cada ano de idade do aniversariante, não coloca a hora de terminar a festa no convite, não compra o bolo na Dairy Queen (que, por sinal, ela com um pé na vida gringa, considera um bolo de sorvete muito gostoso). Ah, mas ela bem que incorporou a bandeja de legumes crus, onipresente em festas de adultos e crianças locais.

Ela está num meio termo. Não chega linda, formosa, perfumada, com sobrancelhas arquitetonicamente arqueadas, de unhas feitas na hora da festa, somente para entregar a chave do carro à pessoa do buffet encarregada de colocar os presentes no porta-malas do carro, como algumas mães de aniversariantes com festa de dois mil balões no Brasil. Ela aparece descabelada, esfaborida, com as unhas da mão em petição de miséria (e as do pé rosa cintilante, definitivamente com dois pés na gringuice), suja de calda de chocolate no pulso, dando ordens bilíngues a ajudantes que precisam eternamente de orientações. Por outro lado, também não é a vancouverite típica, a ponto de envergonhar os amigos brasileiros calçando Birkenstock com meias (fica registrado o pedido: se alguém a vir com sandália e meias soquete e não for obviamente parte da fantasia de gueixa para Halloween, favor ligar para a casa de saúde mais próxima e pedir a internação, com altas doses de Haldol ou similar).



Ela ficou mais esperta. Agora encomenda absolutamente tudo pela internet, pratinhos, copos, mágico e pula-pula incluídos. Desorganizada que só ela, trabalhando em tempo integral (lerê, lerê, toca a trilha sonora de A Escrava Isaura), acorda às 05:30 da matina no dia da festa para fazer os "cupcakes", depilar a perna, pintar o cabelo e fazer chapinha (aproveita e faz a lista de pedidos para a próxima festa: escova progressiva clandestina no Canadá, depilação a laser, um marido que saiba enrolar brigadeiros e sacolinhas-surpresa que se encham sozinhas). Os docinhos ela enrolou na véspera.



Baseada no fato de que, depois que inventaram youtube (fala sério, o que seria dela sem internet?), ninguém tem mais credibilidade para não fazer o arco de balões em casa com a desculpa de não saber como, ela recruta três "voluntários" que acham que todo encontro é motivo para beber cerveja e fazer churrasco (mistérios do cromossomo Y: por que o pai do aniversariante geralmente acha que está fazendo o favor de ajudar?). Ciente da limitação dos assistentes (pensando bem, se foram obrigados, não são voluntários, certo?), planeja a arrumação dos balões na véspera. Eles reclamam, mas ela deve ter sido capataz de escravos em outra vida, porque depois de algumas horas, a decoração até que fica bem razoável.



No final das contas, como sempre, as crianças divertem-se horrores com, sem ou apesar dos preparativos. O pai do aniversariante não entende o porquê de a mãe do menino ficar tão preocupada com detalhes. O tio do aniversariante descobre que, aos 40 anos, encher a barriga e virar criança no pula-pula dá um revertério no sistema digestivo. Os gringos ficam deslumbrados e acham tudo uma superprodução, embora os docinhos sejam doces demais. Os brasileiros decretam que os docinhos com guaraná estão ótimos. A mãe do aniversariante fica frustrada porque não tirou nenhuma foto legal atrás da mesa do bolo, com todos olhando para a câmera. A avó gringa do menino não se conforma com o fato de que a decoração vai toda para o lixo depois da festa. Até aí, nenhuma novidade. A surpresa fica somente por conta da vizinha que emprestou uma das mesas para o quintal. Ela chega avisando que a filha dela está choramingando e reclamando que nunca teve uma festa com pula-pula. Será que ela não quer vir pular com as outras crianças agora? Não, trata-se de uma moça de vinte anos!

Obrigada São Pedro! Começou a chover exatamente 5 minutos após a saída do último convidado.

Enquanto o Pacotinho de Aniversário não disser que tudo isso é de uma breguice total, sua mãe continuará fazendo festinhas até ele completar uns 50 anos...

18 junho, 2009

Três Anos!


"Filhote,

Hoje você completa 3 anos de idade! Parece que foi outro dia mesmo que Mamãe estava fazendo longas caminhadas diárias, tentando publicamente fazer com que o trabalho de parto começasse logo, depois de 5 semanas de repouso (e muita leitura providencial) para impedir um parto prematuro. Secretamente, ela estava amando aquela barriga imensa e não tinha pressa de que você nascesse. Nunca chegou de verdade na fase de estar cansada e pesada, doida para ver a carinha do neném que tanta grávida descreve. Aí um dia ela se tocou de que o tempo estava passando, sua Santa Tia teria que ir embora e talvez perdesse sua chegada, se demorasse muito. Na noite seguinte começou o trabalho de parto e você nasceu numa tarde de domingo, dia de jogo de Brasil e Austrália, com 39 semanas e 5 dias de gestação. Mamãe não inchou nem nos pés e, por ela, chegaria facilmente a 42 semanas.

Desde o dia em que o trouxemos para casa, você foi um bebezinho infinitamente mais fácil do que todos haviam previsto (principalmente Mamãe), que nunca deu problemas para mamar, engordar ou dormir de noite. Se fosse hoje que tivéssemos trazido aquele Pacotinho de Surpresas para casa, não faríamos nada diferente. Curtimos cada dia, sem pressa alguma que você crescesse rápido e começasse logo a andar ou falar.

Você hoje é um garotinho tagarela, que fala consigo mesmo em inglês. Faz uma semana que diz "I want my birthday. I want a party in a big house (e estica os braços para cima para mostrar o tamanho da casa) and I want cupcakes." Estranho, porque nem comentamos que seu aniversário estava chegando, mas na creche devem ter dito. Mamãe fez bolo de cenoura hoje, nas forminhas de "cupcake" e você disse "eu quero verde bolo, não quero de raranja". Mas comeu 3 numa sentada. Sem cobertura, que aparência de comida para você é tudo (se sua mãe não fosse idêntica, ela diria que você é chato para comer).

Você é muito carinhoso, tem o abraço mais apertado e sincero de todos. Abraço espontâneo, sem motivo especial. Preocupa-se em dividir as coisas, hoje mesmo enquanto esperava olhando do lado de fora do forno os bolinhos assarem, apontava e dizia "um pra Mamãe, um pro Tata também e um pro Filhote também". Tem muita empatia, quando vê alguém triste ou chorando pergunta "are you OK?"

Você é muito expressivo. Pula em cima da cama quando está feliz, cruza os braços e faz beicinho quando não quer fazer alguma coisa mas sabe que fará assim mesmo e diz bem forte "eu não gosto" para qualquer situação que seja do seu desagrado. "Vamos fazer xixi antes de dormir?" "Eu não gosto fazer xixi. Eu não gosto dormir".

Você está magrinho. Come pouco, não experimenta comidas novas (a professora na creche diz que lá você come pepino e feijão verde, mas Mamãe só acredita vendo). Como aqui em casa somos desencanados e médico é só para doença, nem sabemos o quanto você pesa ou mede atualmente. Vamos medi-lo e pesá-lo só por curiosidade, que graças a Deus faz meses que você não adoece. Você parece estar na média, nem mais alto nem mais baixo que a maioria das crianças da sua idade, embora aparente ser mais magrinho.

Você adora ouvir estórias. Gosta principalmente de uma que se chama O Príncipe e A Gata. Mamãe não vê a hora de ir ao Brasil e trazer livros novos. Ela gosta de fazer as vozes diferentes de cada personagem e, se o Tata tenta ler para você, é recebido com "Não, Tata. Só a Mamãe lê torinha". Mas você pergunta sempre por ele na hora de dormir. Ontem ele havia saído e você choramingou, tão bonitinho, em português "quero meu pai".

Você já sabe andar de bicicleta. Põe o capacete e as joelheiras sozinho. Aprendeu a virar e a desviar de obstáculos, embora ainda não domine o freio.

Você voltou a ter receio de entrar na piscina. Já faz 3 semanas que não quer ir à aula de natação. Fica do lado de fora, de braços cruzados, fazendo beicinho. A professora é muito paciente e acaba convencendo-a a entrar no meio da aula. Agora, no verão, vamos levá-lo mais vezes à piscina pública e convidar outras crianças para irem junto, para tentar desfazer esta má impressão.

Este mês, a antiga paixão por tratores deu lugar a um novo brinquedo favorito: o caminhão de lixo. No começo do mês, assim que estacionamos na loja de brinquedos para comprar outra coisa, você decretou "comprar um caminhão de lixo verde" e olhou por todas as prateleiras até encontrar exatamente o que queria, enquanto o Tata, alheio ao recado dado em português, insistia mostrando vários tratores diferentes. Mamãe adora isso em você: não tem uma célula indecisa no corpo, filho dela mesmo! Outra noite, antes de dormir, você perguntava insistentemente "cadê meu caminhão de clave?" E Mamãe foi perguntar ao Tata que raio de clave era esta, mas ele disse que isso era português, ou seja, problema dela para entender. E passaram alguns dias nesta dúvida de tradução, até que um dia você mostrou num livrinho que falava de como é tratado o lixo recolhido nas casas: "aqui um caminhão de clave" e Mamãe viu que era um caminhão azul, ou seja, de reciclagem. Você tem um também e estava fazendo a distinção entre eles, o azul e o verde.

Você adora trazer mil badulaques para a cama. E dorme entre o caminhão de clave, um ou dois caminhõezinhos verdes de lixo, uma chave de fenda de plástico e uns outros brinquedos que variam de acordo com a preferência da semana. Na hora de fazer o último xixi, tem dificuldade de sair da cama com os braços abarrotados de objetos pequenos. "Mas precisa trazer tudo isso para ir ao banheiro?" "Precisa". De vez em quando você acorda para ir ao banheiro, mas mesmo quando não acorda, não faz xixi na cama.

Você está muito engraçado. Hoje o Tata limpava seu nariz e, depois de molhar um lado, que foi enxugado por você, molhou o outro, você enxugou e, quando ele voltou a molhar o primeiro lado, ouviu um "not again", com um tom desconsolado.

Não dá para colocar em palavras o privilégio que é conviver com você. Desfrutar dos seus abraços, das suas gargalhadas contagiantes, e mais importante, da sua confiança. Mamãe deseja poder ajudá-lo a crescer com elevada auto-estima (ela não sabe se ainda tem hífen) e vontade de fazer deste mundo um lugar melhor. Que este seja um aniversário cheio de saúde, muita farra no pula-pula com os amigos e, se possível, que demore bastante até os próximos aniversários. Dá um aperto no coração pensar que você vai crescer logo e não vai mais querer ficar ouvindo estorinha sentado abraçadinho na cama antes de dormir, então tenta crescer devagarzinho, para que a Mamãe tenha tempo de se acostumar. Até desta vozinha de criança pequena ela já está ficando com saudade!

Com imenso orgulho de fazer parte da sua vida,
Mamãe"

14 junho, 2009

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor responde para Marília:

Tem guaraná Antarctica (inclusive garrafas de 1,5 L) no Union Market, que fica na Union St, em Strathcona. Também tem na Commercial Drive, no Latin Market e, de vez em quando, no Santa Bárbara.

E para Ceci Santiago:

Você precisa ler para ONTEM o livro do Dr. González chamado My Child Won't Eat, do original em espanhol, Mi Niño No Me Come. É o manual da mãe desencanada com criança que vive de fotossíntese, como é o caso do Pacotinho de Frescura Alimentar. Sendo eu mesma alguém que passou a infância inteira vivendo somente de luz e só começou a comer bem na adolescência, seria absurdo eu ficar neurótica com isso. Li o livro quando ainda tinha em casa um Pacotinho de Fofura, que comia muito e de tudo, uma vez que adoro os livros do autor e não porque achei que fosse precisar das dicas. É um dos melhores livros que já li na vida, deveria ser distribuído nos cursos de gestantes (leitura obrigatória para avós estressadas).

Em casa que tem comida, criança não morre de fome. Sou a prova viva disso e sequer fiquei baixinha.

12 junho, 2009

SAL do Iglu para Priscila

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde à Priscila, que perguntou "Tomás tem 1 ano e 2 meses e vivemos uma fase difícil, ele tem personalidade forte e está se afirmando. Não estou sabendo como lidar com isso, como respeitar a personalidade dele e, ao mesmo tempo, termos uma convivência saudável. Vi que tem várias sugestões de livros no blog mas, como vc leu todos, qual você considera mais esclarecedor sobre esse assunto?"

Eu gosto muito dos livros do Dr. Karp. Para a idade do seu filho, recomendo The Happiest Toddler on The Block. Em português, tem o DVD dele chamado A Criança Mais Feliz do Pedaço, mas não tenho certeza se existe o livro traduzido à venda no Brasil. Se você lê em inglês, um livro maravilhoso é The Science of Parenting, que explica a base neurocientífica de cada fase do desenvolvimento, inclusive acordadas noturnas, birras e ansiedade de separação.

Louca por guaraná

Não é porque estou exilada. Desde criança sempre gostei mais de guaraná (Antarctica) do que de qualquer outro refrigerante. E, como as musiquinhas dos comerciais costumam ficar na memória, aqui no Iglu sempre se canta uma antiga toda vez que tem pipoca. O Pacotinho de Seletividade Alimentar adora pipoca e também canta a música do comercial. Quem se lembra?



PS: Ficou bem mais simples ter guaraná Antarctica na geladeira mesmo morando em Vancouver do que quando me mudei. Muitas lojas vendem e nunca mais faltou no Iglu.

03 junho, 2009

"Meu Biscleta"

Não sei se é uma frase universal, mas em inglês eles também usam "é como andar de biclcleta" para uma ação que, uma vez aprendida, jamais é esquecida, ainda que fique anos sem ser praticada. Na minha inocência pré-filhos, sempre achei que a expressão só se referia a andar de bicicleta sem rodinhas. Lembro bem do meu pai segurando minha Monark roxa para eu aprender, mas não me recordo de quando aprendi a pedalar.

Um dia, o Pacotinho de Descobertas ganha uma bicicleta. É amor à primeira vista pelo "meu biscleta", como ele diz. O capacete não merece o mesmo apreço, diga-se de passagem, mas é de uso obrigatório, segundo as regras do Iglu. Joelheiras dispensáveis de vez em quando.

Como a gente esquece das coisas! Bicicletas de rodinhas não possuem freio, já que basta pedalar para trás que elas param. Jamais tinha reparado nisso.

O Pacotinho de Distração sai para pedalar, acompanhado de sua mãe, achando que olhar para frente e desviar diante dos obstáculos óbvios (como um poste) são funções inatas. Pois são aprendidas, quem diria!

Passa um helicóptero. Continuando a pedalar, ele olha para cima e diz "Mamãe, um helicóptero!" "Olha pra frente, Filhote". A cena repete-se a cada caminhão de bombeiros (duvido haver mais bombeiros por metro quadrado em qualquer outro lugar do planeta), cachorro ou avião que passa.

Temendo pela segurança dos pedestres na calçada, a mãe já anda com uma mão apoiando o minúsculo veículo. Passa um cara nos "rollerblades" e avisa "vocês deveriam andar do outro lado, saiam da pista dos ciclistas!". E pensar que junho é "bike month" aqui em Vancouver!

Uma queda (sim, é possível cair com uma bicicleta de rodinhas), vários quase-atropelamentos e muitos sustos depois, decidem voltar para casa. E no colo (esta última uma decisão parcial, nada democrática e vetada por absoluta falta de braços sobressalentes). E quem leva "meu biscleta" sem controle remoto para casa?

Apesar da coluna totalmente detonada pelas duas horas curvada, Mamãe conclui que é uma experiência maravilhosa redescobrir o mundo (e as calçadas) através dos olhos dos filhos. A outra conclusão, mais evidente, é que ela deveria ter encomendado seu Pacotinho de Aventuras muitos anos antes. As costas agradeceriam.

E, porque da primeira bicicleta a gente quase sempre esquece, ela fica registrada, com capacete e joelheira combinando: