No dia 3 de abril passado, completei 4 anos trabalhando como enfermeira em Vancouver. Desde que entrei no Orkut, tenho recebido várias mensagens de enfermeiros brasileiros pedindo dicas para virem trabalhar aqui. Ninguém nunca fez as perguntas mais importantes, então resolvi escrever um manual básico de sobrevivência para alguém que se formou na terrinha e quer se aventurar em terras “vancouverites”. Muito pouco do que você aprendeu na universidade sobre o sistema de saúde num país de Primeiro Mundo se aplica. Se você trabalhar no centro de Vancouver, NADA se aplica. Meu hospital atende os viciados em drogas, os velhinhos que moram nos asilos e toda a comunidade da “gaybourhood” (o bairro gay), onde se localiza.
A clientela
Quem pensa que francês é segunda língua mais falada no Canadá nunca pisou num hospital em Vancouver. Seu diploma de Alliance Française não serve para xongas quando a questão é comunicar-se com pacientes. Por aqui, quem não fala inglês fala cantonês (às vezes mandarim) ou então punjabi. Não adianta achar que sua colega chinesa vai conseguir comunicação com seu paciente tambem chinês, porque a probabilidade de eles falarem o mesmo dialeto é mínima e a Lei de Murphy, universal.
Por ser a cidade de clima mais “ameno” do país, Vancouver abriga também a maior concentração de moradores de rua do Canadá (no resto do país, morreriam congelados ainda na primavera). Sim, há moradores de rua no Primeiro Mundo, mas nenhuma criança. Muitos viciados em drogas, alguns doentes mentais e, na maioria dos casos, um pouco de ambos. “O melhor sistema de saúde do mundo” na prática proporciona situações improváveis no Brasil: pacientes riquíssimos que caíram e quebraram o quadril dividindo o mesmo quarto com um viciado em heroína mal cheiroso e de cabelo cor-de-rosa, com piercings em partes do corpo que você nem imaginava serem perfuráveis.
Este papo de que homem é mais fraco para dor que mulher é besteira. O chilique que uma pessoa dá quando é furada por uma agulha no hospital é diretamente proporcional à quantidade de tatuagens e piercings que ela tem no corpo, não tem nada a ver com o sexo. O tamanho das tattoos também influencia. Esperneiam e gritam mais os que tem grandes desenhos de dragões coloridos no braço ou cobras enroladas na perna. Um paradoxo hospitalar: ninguém, por mais escandoloso que seja, faz mais escândalo do que um viciado em droga injetável na hora de levar uma injeção.
O uso de telefones celulares é expressamente proibido dentro de hospitais, exceto se o paciente for traficante de drogas. Fala sério, você não vai querer que ele pare de “trabalhar” e perca a freguesia acumulada com anos de serviço só porque teve apendicite ou quebrou o tornozelo, né ? Esqueça suas convicções religiosas, morais, éticas ou legais. Se tem um paciente com quem você não quer inimizade é o traficante. Ele mantém os outros pacientes problemáticos abastecidos e, com certeza, você não quer que os amigos dele o sigam até a sua casa depois do plantão. Finja que não desconfia de nada quando pacientes esquisitos de todos os andares começarem a aparecer no seu setor para visitar “um amigo” cujo nome não sabem, mas que está numa cama perto da janela, com o pé engessado. Pergunte a si mesmo: você trabalha para o sistema de saúde ou para a Liga da Justiça dos Superamigos ? Veja como um investimento: se algum dia você quiser experimentar, pode conseguir um desconto.
Não importa o que digam as pesquisas recentes e a Organização Mundial de Saúde. O paciente que se levanta mais rápido depois de uma cirurgia é o fumante. Assim que volta da sala de recuperação pós-anestésica e é capaz de se mexer na cama, o fumante se esquece da enorme incisão na barriga e dos tubos por todo o corpo, arrasta-se até a primeira cadeira de rodas e vai para o jardim dar uma pitadinha, mesmo que esteja nevando do lado de fora. Não é hora de fazer palestras sobre os males do fumo. Se o cara fumou dois maços de cigarro por dia durante trinta anos, não vai abandonar o vício nem por causa de uma grande cirurgia, muito menos por causa do seu discurso com sotaque tupiniquim. Contanto que ele não fume na enfermaria, guarde seus conselhos para seus amigos fora do hospital.
É possível comprar QUALQUER tipo de droga lícita ou não - injetável, inalável, fumável, comestível ou bebível - no jardim do hospital. Seu paciente está indócil, acordando todo o resto da enfermaria (cuja média de idade é 80 anos e cujo único crime foi ter escorregado no gelo e fraturado o ombro) às 3 da manhã, batendo boca com você porque quer mais morfina e ainda não está na hora ? Em vez de ficar se estressando, deixe o infeliz descer para o jardim, “tomar um café” (por mais que a lanchonete feche às 11 da noite), que ele vai voltar feliz da vida. Aliás, infeliz é você, que tem mais a noite inteira pela frente, com aquela colega de TPM, sem “pot, dope, doobie, joint, weed, marijuana” (sinônimos de "maconha" em inglês) para aliviar. Serão quinze minutos de sossego enquanto ele (ou ela) vai ao quarto andar, mais uma hora e meia de paz e silêncio enquanto dura a cochilada pós-baseado e depois recomeça a perturbação.
Todo paciente viciado em cocaína ou heroína vai chamar a enfermagem das 2 às 5 da manhã pedindo suco de maçã, pode ter certeza. É a coisa mais doce que o hospital oferece de graça e o cara mora na rua, não tem esses luxos na “casa” dele. A não ser que você esteja atendendo alguém com hemorragia franca ou parada cardíaca, pare o que estiver fazendo e leve dois baldes de suco de maçã (com gelo) para o “junkie”. Não é para ser boazinha com ele, é para que evitar que ele acorde o paciente confuso no leito ao lado, de 96 anos, que já passou o dia inteiro arrancando as sondas e pulando da cama, numa tentativa quase bem sucedida de quebrar o outro quadril.
Não há por que temer os pacientes prisioneiros. Eles normalmente cometeram pequenos delitos e são inofensivos. Fernandinho Beira-Mar não beira o mar daqui, que o nome do oceano já diz tudo: Pacífico. Aqui, os presidiários estão o tempo todo algemados à cama, pelo tornozelo. Há sempre dois policiais altos, fortes, musculosos, maravilhosos e simpáticos acompanhando o preso (esqueça a polícia da Baixada Fluminense, isso aqui é o Primeiro Mundo !).
Incrível, mas mesmo com tantos viciados em drogas, nao há brigas em Vancouver. Ninguém que chega ao hospital com a mandíbula quebrada, o nariz fraturado, sete facadas pelo corpo ou duas balas na barriga, por mais alcoolizado que esteja, esteve envolvido em confusões, cantou a mulher do próximo ou deixou de pagar seu fornecedor de cocaína. Todos têm a mesma história: “I was walking down the street, minding my own business, when I was suddenly attacked” (eu estava caminhando na rua, tomando conta da minha própria vida, quando fui subitamente atacado). Meu favorito foi um que chegou com os dedos da mão direita quebrados e, quando perguntei como havia se machucado, disse casualmente: “esbarrei a mão”. E eu “esbarrou no quê ?”, ao que ele respondeu “esbarrei com força no rosto de outro cara”.
Os(as) colegas
A idade média de um(a) enfermeiro(a) no Canada é de 50 anos (na enfermaria) e 55 (no centro cirúrgico). A esmagadora maioria de mulheres. Inútil você querer manter a temperatura ambiente na casa dos 20 graus. “Tá pensando que está em Salvador, Meu Rei ?" Canadense já gosta de passar frio, na menopausa então pensa que “temperatura agradável” é quando faz 14 graus. Meu conselho é: seja o primeiro a chegar, coloque o termostato no 21 e fique calado. Por mais que o resto da equipe esteja de bochechas vermelhas e suando em bicas, jamais admita que você sabe onde fica o controle de temperatura. Leve um casaquinho, que às 10 da manha alguém já vai ter descoberto seu plano e você vai estar batendo o queixo. Alegria e calor de pobre duram pouco.
No mais, você precisa reavaliar seus conceitos de normalidade. Em tempos de glabalização, ficar de boca aberta diante de certos fatos da vida é sinal de intolerância. Como assim ? Seus colegas de bigode vão trazer os maridos (ops, a expressão politicamente correta é “parceiros de vida”) para a confraternização de Natal. Sua colega sem filhos vai contar o quanto está chateada porque o ônibus escolar que leva o cachorro dela para a creche se atrasou (faltar escola porque os donos têm que dar plantão é coisa de canino subdesenvolvido). Sua chefe, que só conhece piolho através do Discovery Channel, vai insistir em manter o raro paciente piolhento isolado com a porta do quarto fechada (a subespécie canadense de piolho-canguru é capaz de saltar distâncias enormes, mas como é um parasita de Primeiro Mundo, respeita portas fechadas e não as ultrapassa).
Como diz meu futuro marido, que é analista de sistemas, o mais lento e monótono dos meus dias no hospital é muito mais interessante do que o dia mais animado na companhia onde ele trabalha. I love my job !
11 junho, 2005
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2 comentários:
Estamos em agosto de 2009, e resolvi entrar aqui e apesar de ser de 2005, estou rolando de rir.
Estava no Brasil ainda nesta data, mas agora sao 1 da manha e vou dormir. Dormir rindo....
Flavia, vc descreveu o que eh o que eh...desde esta data ate entao...bjos
Marilia
kkkkkkkkkkk Ótimo post!!!! que divertido!!!!!
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