29 abril, 2008

O Saci do Iglu


Quando a gente muda do Brasil, traz junto a bagagem de bens materiais e culturais. E, escondido na mala, vem também o Saci. Ou você achava que não havia sacis no Primeiro Mundo? Saiu uma reportagem no Fantástico, avisando que não há muitas empregadas domésticas no Canadá e que sacis não precisam de visto para entrar no país, então eles estão imigrando aos montes.

Sabe-se que sacis não são iguais em todas as casas. Em algumas, eles não aparecem de jeito nenhum, já que correm de boas empregadas domésticas tanto quanto vampiros fogem de alho.

O Saci do Iglu tem suas preferências. Adora meias. Não faz distinção entre meias masculinas ou femininas e, na dúvida, pega um pé de cada par para sua coleção (só tem um pé mesmo, nem perde tempo roubando o par). Não é do tipo vaidoso, então não carrega esmaltes, elásticos de cabelo ou batons, mas é bem friorento. Tadinho, veio só de calção e carapuça do Brasil, precisa se agasalhar, é compreensível. Esconde luvas (às vezes o par, mas também leva uma só de vez em quando, deve ser porque uma mão fica sempre quentinha, a que segura o cachimbo) e gosta de gorros também. É um saci de cabeça pequena, já que não esconde seu favoritismo pelas toucas do Pacotinho de Cachos.

Não sei na casa dos outros, mas aqui, o Saci adora café. Some com as colherinhas de café, não dá a mínima para os outros talheres. E é festeiro que só vendo! Passo todo mês na loja de 1 dólar para abastecer a casa de sacolinhas de presente para festas de aniversário, somente para ter que comprar uma na hora da festa, porque o Saci dá fim em todas elas.

É higiênico meu Saci. Escova os dentes e sempre usa a escova do Pacotinho de Higiene, largando-a nos cantos mais diversos do apartamento, inclusive dentro da geladeira ou da caixa de brinquedos. E é muito letrado, já que mesmo com tantas canetas à volta, nunca há uma disponível na hora de anotar um recado do lado do telefone, porque ele certamente precisa fazer suas anotações.

Tem sacis na sua casa? Se você souber como pegar um saci, por favor, mande dicas de armadilhas para o Iglu.

23 abril, 2008

O Sofá da Santa Ceia

"Se chovesse sopa, pobre nascia sem boca".
(Ditado popular dos mais otimistas)

Meu pai certa vez, achando o apartamento de três quartos muito grande para uma pessoa que morava sozinha, decidiu comprar uma mesa de jantar. Imensa, pesada, trambolhenta, feia de doer. Seria um elefante branco naquela sala pequena, não fosse um detalhe: era escura, estava mais para elefante marrom, quase preto. Embora tivesse SOMENTE 10 cadeiras, seus filhos que desconhecem um senso de humor compreensivo apelidaram-na carinhosamente de "a mesa da Santa Ceia".

Anos depois, a filha exilada reclama dos sofás da própria sala que não combinam. Encontra um anúncio de jornal com uma promoção de móveis na esquina da rua Onde Judas Perdeu as Botas com a Muito Além do Apocalipse. Preços super bons, arrasta o Marido Gringo numa tarde de sábado sob a neve de março. Encontram um sofá muito bom, a cor perfeita, preço em conta, mas como é "final sale", não pode ser trocado. O moço da loja insiste, oferece não cobrar a entrega (considerando a distância, seria o preço do móvel). Voltam para casa, pensam muito e decidem retornar à loja lá na Avenida Fim do Mundo e comprar o sofá.

Dias depois, é entregue o sofá. Ela liga do trabalho para saber do Marido se ficou legal na sala. Ele diz, com voz desconsolada:
- É o sofá da Santa Ceia!
(ela entendeu o que não foi dito)
- Ai, que burrice! A gente não tirou a medida!
- Exatamente. Não pareceu grande no salão gigante da loja, mas aqui...

Ela chega em casa e constata que realmente, depois da ceia, poderiam sentar-se o Mestre e os doze apóstolos, com folga ainda para o garçom (opa, mas é um sofá de Primeiro Mundo e aqui não tem estas mordomias). Chega a dar tristeza. Tentam evitar de passar na sala, mas não dá para ignorar um móvel do tamanho de um Tiranossauro rex.

Pensam em mil possibilidades. O Marido Otimista sugere tentar vender no craig's list (pela internet), mas ela é realista: se o vestido de noiva está há quase 3 anos no armário e não foi anunciado, o que o leva a crer que o sofá teria mais sucesso?

Prática e pessimista como convém a uma capricorniana autêntica, ela conclui que a solução é mandar cortar o sofá.

Várias pessoas que nunca dão as caras aparecem para visitar. Logo, não se fala em outra coisa na cidade. O sofá da Santa Ceia só não vira manchete porque não consegue competir com a corrida presidencial nos Estados Unidos ou com as finais do American Idol. Em plena cesárea de emergência, uma cirurgiã vira-se para ela e diz "estou sabendo que você comprou um sofá" (ai, que raiva de ter vizinha linguaruda que vem pegar a batedeira emprestada - e por sinal não devolveu até hoje - e que é amiga da médica que trabalha no mesmo hospital).

Aparece o cara da loja de estofamento. Dá o orçamento e, resignados, eles aceitam. No fim, sai pelo preço equivalente ao de um sofá feito sob encomenda, mas pelo menos agora só se sentam meia dúzia de apóstolos.

Moral da estória: pode até ser pateta o suficiente para esquecer de tirar as medidas da sua sala e dos móveis que compra, mas não compre nada em promoção que não possa ser devolvido depois.

21 abril, 2008

Intervalo Globalizado

Hora do intervalo no trabalho. Conversam a grávida filipina, dois canadenses uma certa enfermeira brasileira. A grávida começa:

- Ontem vi na TV um programa em NY, com uma mulher que não trabalha fora, mas tem dois filhos e duas empregadas!
(os canadenses arregalam os olhos, incrédulos)
- Duas empregadas? Eu jamais saberia administrar tanto "staff".
- Como assim duas empregadas? O que elas fazem?
- Cuidam das crianças, a mãe vai à manicure na segunda, à massagem na terça, quando volta pra casa, está tudo limpo e arrumado, crianças bem cuidadas...
- Isso é revoltante!
(mais outros dois canadenses que estão na sala, mas não fazem parte da conversa, fazem cara de espanto)
- Onde você viu isso?
- Na TV.
(segue-se um coletivo "oh", aliás mais para "oooooohhhhhh")
- Minha irmã lá no Brasil até bem pouco tempo tinha uma babá e uma empregada, chegava do trabalho e encontrava a vida que eu pedi a Deus.
(a canadense mais revoltadinha, a que achou revoltante, tenta consertar, porque afinal de contas, no Terceiro Mundo pode haver mordomias inacessíveis aos cidadãos locais)
- Mas a sua irmã ao menos trabalha!
(e quem fica em casa, com filho pequeno, sem criadagem não trabalha? É porque aqui ninguém conhece o lerê lerê da Isaura, seria a trilha sonora da mãe-doméstica)
- E eu aqui, grávida do segundo filho, fico pensando como vai ser. Como eu queria ter a vida daquela mulher de NY!
(eu não resisto e falo o que a barriguda precisa ouvir e ninguém tem coragem de dizer)
- Olha, a culpa é sua de assistir ao canal errado. Não tem nada que assistir a um programa de gente que tem pouco filho e muita criadagem. Hoje é segunda, passa um dos meus programas favoritos para pobre com filhos: Jon & Kate Plus 8. Oito filhos, seis da mesma idade e ela lava roupa, cozinha, limpa a casa, a pirralhada não vai à creche e só de vez em quando aparece uma alma caridosa para ajudar. E ela ainda tem mania de limpeza! Toda mãe cansada deveria assistir, lá em casa já fica no TiVo, para garantir que não perco.

PS: O Marido Gringo não suporta o programa. Não entende como alguém, depois de colocar a saltitante e tagarela prole para dormir consegue ligar a TV e escutar a gritaria e a choradeira na casa de outrem. Mas ele também não entende como alguém magricela não perde o programa dos gordinhos competindo para ver emagrece mais. Há gosto para tudo.

19 abril, 2008

Neve em Meados de Abril

O título do post poderia ser manchete do jornal O Correio Siberiano ou A Folha de Reykjavik (tenho certeza quase que absoluta de que estes são os nomes dos jornais mais vendidos por lá), mas infelizmente aconteceu aqui em Vancouver na noite passada.

O Iglu faz um apelo a São Pedro para que finalmente compartilhe o aquecimento global que anda enviando ao resto do planeta com o extremo oeste do Canadá. A gente daqui manda gelo orgânico cultivado no quintal para compensar o que dizem estar derretendo lá nas calotas polares. Seria uma prática válida de comércio internacional de mercadorias.

Se já não bastasse o verão do ano passado ter sido o mais curto de todos, o inverno deste ano teima em dar as caras (com neve e tudo) até meados de abril. Se fosse adiantar alguma coisa, acho que seria caso de processar as autoridades em clima. Cadê esta droga de aquecimento global que nunca aparece por aqui? Tudo bem que estão querendo preparar a cidade com bastante antecedência para as Olimpíadas de Inverno de 2010, mas será que estocar a neve desde agora não é muita empolgação?

16 abril, 2008

1 ano e 10 meses


"Filhotinho,

Esta semana você completa 1 ano e 10 meses. Numa opinião totalmente imparcial, está uma gracinha. Se fosse resumi-lo numa palavra, diria certamente: alegre.

Seus brinquedos favoritos deste mês são o espremedor de frutas e a centrífuga. Você carrega as partes plásticas para o sofá, pede uma "apo" (apple), que tem que ser picada, porque se receber uma inteira, fica pedindo "ábi"(abre) e vai feliz da vida brincar de fazer suco. Imagina a surpresa da Mamãe ao vê-lo tirar do cesto do carrinho a parte de cima da centrífuga! Quando questionado, Papai simplesmente respondeu que você recusou-se a sair de casa sem ela. E que criança pequena vai à creche sem seu material culinário?

Você detesta ficar com as mãos sujas. Outro dia estava com a cara completamente melada de iogurte, cabelos e roupa idem, mas veio com a mão esticada, dizendo "eca" e pedindo para alguém limpar um pinguinho que havia caído num dedo.

"Ábi" é uma das suas palavras mais usadas. Serve para portas, gavetas, embrulhos, frutas, caixas, canetas e, claro, ovos. Desde a Páscoa, quando você ganhou um ovo de chocolate recheado com um brinquedinho, apareceu uma certa obsessão com ovos. Você não gosta de chocolate, quando muito dá uma lambida, mas agora acha que todos os ovos trazem um brinquedo dentro, inclusive os de galinha. Na hora de dormir, quase fechando os olhos, você pede "ovo, ovo" e vai até a porta da geladeira. Não que você os coma, nem cozidos ou mexidos, por sinal.

Você sabe o nome de todos os coleguinhas e professoras da creche. Por algum motivo que Mamãe não compreende, toda vez que ela diz "vamos cantar?", você começa a falar o nome do pessoal da creche. Em 100% das vezes, começa com "Ava", a sua favorita. As professoras disseram que foi o primeiro nome que você aprendeu (convenhamos, é bem mais fácil falar Ava que Isabela, Cadence ou Sydney) e, embora ela seja uma moça mais madura, que já tem 3 anos e mudou-se para a próxima turma, você não a esquece. Se alguém menciona que vai à sala das crianças maiores, você corre para a porta e diz "Ava". Quando estamos rezando de noite, pedindo ao Papai do Céu para abençoar todo o mundo, você repete Ava depois do nome de cada coleguinha.

Outra mulher mais velha na sua vida (embora exatamente da sua altura) é a Zoi. Ela é nossa vizinha do prédio e somos muito amigos da família dela, mas você a vê uma vez por semana, no máximo. Você a associa com o parquinho e basta passar pelo caminho do parque, que você começa a chamar "Zoi, Zoi". Hoje mesmo chegou em casa chorando, porque ela estava no elevador, Papai saiu com você e ela foi com a mãe dela para outro andar. Você também não esquece de falar o nome dela nas preces antes de dormir. Digamos que a Ava é número um e a Zoi a número dois. Como nenhuma das outras coleguinhas tem um nome com somente 3 letras, Papai jura que este é o motivo da sua preferência.

Toda noite lemos um livrinho antes de dormir, que você chama de "muito muito". É que Mamãe lê "eu te amo muito, muito".

Você é impaciente (de quem teria herdado isso?) e outro dia, enquanto Papai tentava abrir alguma coisa, você insistia "ábi, ábi", mas aí você mesmo colocou a mão aberta com o braço estendido na frente e disse "wait" e imediamente parou de insistir, esperando calmamente. Ah, se Mamãe pudesse aprender isso com você! Quando Papai está demorando muito para levá-lo para a creche, você pega o casaco dele, arrasta pela casa, entrega na mão dele e diz "jacket" (já faz tanto tempo que não saímos de casa sem casaco, você associou vestir os agasalhos com sair de casa).

Você sabe o nome de vários personagens da TV. O antigo "Bó" foi elevado a "Bobebíube" (Bob, the builder). Você gosta do "Oliolioli", que é o Rolie Polie Olie (o nome é complicado, né?) e é só aparecer uma certa coelhinha que você começa a cantar "Miffy, small little bunny" (é uma licença poética da Mamãe, na verdade o que você canta é "Miffy", seguido de sílabas incompreensíveis e "bunny" no final). Quando Mamãe fala a palavra "mosquito", você imediatamente começa a cantar "Miffy", embora ela seja uma coelha e não apareça nenhum mosquito no desenho dela. Às vezes você canta sozinho a música do Old MacDonald, mas só o refrão "E-I-E-I-O",
embolado com uns "quack quack" ou "moo moo".

Você se reconhece nas fotos mais atuais. Aponta e fala "Nano" (seu nome, na sua língua). Nas fotos antigas, aponta e diz "neném" ou "beba", dependendo de quem estiver por perto.

Você adora tomar banho. Agora mesmo saiu correndo pro banheiro, gritando "bubbles". É preciso muita criatividade para tirá-lo do banho sem protestos.

Você tem aprendido várias palavras novas todos os dias. Que idade deliciosa!

Um abraço bem apertado, daqueles que você sabe dar como ninguém, inclusive enrolando as pernas na cintura do abraçador, parecendo um orangotango,

Mamãe".

11 abril, 2008

Mais um selinho



A Carol Figueiredo gentilmente indicou o blog do Iglu para um selinho novo. E, cumprindo as regras da premiação:

"Para receber este selinho algumas regras devem ser seguidas:
1 - Este prêmio deve ser atribuído aos blogs que considere serem bons. Entende-se como "bom" os blogs que costuma visitar regularmente e onde deixa comentários;
2 - Se recebeu o "É um blog muito bom sim senhora", deve escrever um post incluindo: a pessoa que lhe deu o prêmio com um link para o respectivo blog, a tag do prêmio, as regras e a indicação de outros 7 blogs para receberem o prêmio;
3 - Deve exibir orgulhosamente a tag do prêmio no seu blog, de preferência com um link para o post em que fala dele."

Visito poucos blogs. Preguiça pura, porque trabalhando em tempo integral, com filho pequeno, sem criadagem para fazer os serviços domésticos, um monte de livros interessantes na lista de "leitura imperdível", participando de comunidades virtuais relacionadas a cuidados com os filhos, daria muito bem tempo de ler vários blogs por dia. Era só parar de escrever neste blog aqui, que nem informação para candidatos a imigrantes dá e fazer alguma coisa de útil nesta vida!

Então, aqui estão alguns dos poucos privilegiados a quem de vez em quando dedico um tempinho para uma espiada (na ordem em que encontrei os links):

- Tirando o Sapato - da Keiko, minha alma gêmea virtual de humor do outro lado deste país gelado;

- Era Uma Vez e É Ainda - da Carla, lá da Alemanha, oficial consultora do Iglu para assuntos aeroportuários, que nunca deu um pitaco sobre o assunto por aqui, mas é a mãe que eu seria daqui uns anos, se tivesse idade e coragem para ter mais 3 filhos;

- Colorida Vida - da Ana Paula que, ao contrário de mim, já deu muita informação sobre como imigrar para o Canadá até ser acometida pelo vírus que transforma perguntas sem noção numa coceira incontrolável;

- Ciça by 365 days - da Ciça, uma égua congelada e bem humorada saída do Pará para o gelo europeu (eita, mas eu já ando com mania de gente que mora em terra fria!);

- Blogtalk - da Cristiana, talentosa escritora (esta mora no calorzinho brasileiro, para não dizerem que estou com preconceito de clima);

Blog da Macacada - da Denise, que ama a língua de Camões e fala dos filhos com um amor que transcende a tela do monitor;

Cotidiano Urbano - da minha grande amiga real, que nem o tempo e a distância conseguem afastar.

09 abril, 2008

O que se passa na cabeça desta criança?




Alternativas:

a)"Estou testando uma fantasia de Halloween, vou ser o primeiro canadense fantasiado de Cid Moreira"
b)"Se eu não conseguir um terno de Cid Moreira, vou fantasiado de Cruella DeVil, que é mulher, mas quem nasceu no século XXI não tem tantos preconceitos"
c) "Se passam no meu bumbum, deve fazer maravilhas pelos meus cabelos"
d) "Quem mandou deixarem que eu ficasse acordado até tarde, com um pote de creme para assaduras dando sopa na mesinha de cabeceira?"
e) Não se passa nada da cabeça da criança, ela mesma é quem passa meio pote de creme de assaduras nos cabelos e o Papai que passe quarenta minutos e cinco doses de xampu para tentar consertar o estrago.

PS: O Iglu não recomenda o uso de pomada para assaduras como condicionador de cabelos ou gel. Cinco lavadas e 24 horas depois, o cabelo ainda continuava duro e seboso.

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu esclarece para meu xará, o Flávio Café:

EU disse que aqui não tem leite condensado???? Tem sim, com o nome super original de "condensed milk", por sinal bem mais barato no Super Store do que nos supermercados aqui perto do Iglu. Quem manda morar em bairro metido a besta, perto do centro?

Até sorvete de coco eu comprei no supermercado esta semana! Caro à beça, mas delicioso. Guaraná Antarctica não é fácil de encontrar fora de restaurantes especializados e disso sim eu sinto a maior falta, assim como de massa de pastel.

05 abril, 2008

Virando patrimônio hospitalar?

Depois de alguns anos trabalhando no mesmo lugar (precisamente 7 anos, comemorados dia 3 de abril), a gente começa a conhecer as peculiaridades de cada colega. Acho que o índice de enfermeiras com TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) é maior que nas outras áreas. Está provado que o achismo não é uma ciência exata, mas ainda assim, eu posso achar o que quiser, sem conhecer as outras áreas profissionais. Diria que cerca de 80% das enfermeiras com mais de 20 anos de casa são portadoras de algum tipo de TOC e os outros 19% são realmente doidas de pedra. 1% é formado por honrosas exceções que só confirmam a regra e as que já estão com o pé na aposentadoria (ou na cova) e não estão nem aí para nada. Cá para nós, são as que dão menos dor de cabeça nas colegas já com TPM. Ao completar 30 anos de casa, 99% delas já estão absolutamente insuportáveis.

Lembro da minha colega iluminada do antigo setor, vinte e tantos anos de casa, arrumando briga por causa de lanternas toda noite. Tem uma com mania de limpeza, que esvazia a geladeira, limpa tudo, passa álcool no telefone e nas mesas e sempre escuta de mim "quando acabar, dá uma passadinha lá em casa. Moro pertinho daqui e minha cozinha está uma bagunça". Tem uma com necessidade constante de rearrumar os móveis do setor. Muda os sofás e as cadeiras de lugar na sala de estar e, no meio da cirurgia, entra na sala, coloca o termostato em temperaturas do inverno antárctico, sai arrastando as mesas com os instrumentos estéreis e dando palpite onde cada um deve ficar. Irrita tanto que todos ficam com inveja do paciente anestesiado que não tem que aturá-la, pois está com um tubo na garganta e o peito aberto feito um peru de Natal. Aquele sortudo filho da mãe que está ali, deitado e incomunicável, no bem-bom, recebendo duas pontes de safena e uma mamária enquanto o resto sofre de pé, congelado e calado! Que mundo injusto...

E, claro, tem uma colega minúscula (sempre achei que ela fosse de Hong Kong, agora vieram me dizer que ela é de um outro lugar aí que esqueci. Macau? Mongólia?) com mania de economizar tudo. Cirurgia a pleno vapor, sangue jorrando, você pede mais compressas e ela avisa "você ainda tem duas. Torce as molhadas de sangue e usa essas primeiro". Absolutamente tudo o que "sobra" da cirurgia e não está contaminado, ela leva para casa. Um pedacinho de lixa para limpar o bisturi elétrico? Ela guarda no bolso. Uma caixa vazia onde veio o marcapasso? Ela leva para casa, ainda que seja a décima cirurgia com marcapasso na semana e ela já tenha 9 caixinhas idênticas. Antes de começar a passar clorohexidina (nome besta do troço que misturam com álcool para desinfetar a pele do paciente), ela já pede "guarda 3 dessas esponjinhas para mim, não usa tudo não, tá?". E foi com ela que tive o seguinte diálogo que mudou minha vida esta semana:

- Flávia, os bolos que você mandou para a gente depois da sua cirurgia estavam deliciosos.
- Que bom! São da minha confeitaria favorita.
- Eu sei, aquela em Yaletown.
- Não, aquela aqui na Burrard.
- Na Burrard? Não foi naquela de Yaletown?
- Não, comprei aqui na Burrard com a Robson.
- Tem certeza?
- Absoluta, fui pessoalmente escolher.
- Mas aquela confeitaria na Davie é mais perto da sua casa.
- Nem sei qual confeitaria é esta. Sempre compro bolos na mesma loja.
- Eu acho que você está enganada, eu vi a etiqueta na caixa, são lá de perto da Davie.
- Não são não. Eu sei onde comprei os bolos.
- Sabe aquela confeitaria que fica na Davie com a... Como é mesmo o nome da outra rua?
- Não sei, mas não são de lá, com certeza. São daqui da rua do hospital.
- Eu sei qual você está falando, uma lojinha francesa bem pequeninha, né?
- É!
(suspiro de alívio, ela finalmente entendeu)
- Você deveria ter comprado nesta que estou falando. É bem mais perto da sua casa. É muito maior, deve ter muito mais variedade do que nesta lojinha aqui perto.
- Você já comprou bolo lá?
- Eu não, você que me disse!

Isso mudou a minha vida. Embora eu ame o que eu faço e vá trabalhar cantando numa manhã chuvosa de segunda-feira, estou com medo de ficar tanto tempo num lugar que passe a fiscalizar as lanternas (ou qualquer outro patrimônio hospitalar) ou decida de antemão onde cada um deva comprar seu bolo. Preciso sair de lá antes que comece a me referir aos instrumentos como "a nossa autoclave" ou "o meu microscópio". A chance de eu passar a limpar a geladeira do hospital não existe, a não ser que transplantes de cérebro virem cirurgia de rotina e eu passe por um, já que não limpo nem a geladeira do Iglu. E álcool no telefone? O Pacotinho de Higiene come batata caída no chão da cozinha, fala sério! A gente só implica quando a batata já está lá há mais de 3 dias, porque antes disso, ainda está na data de validade e ninguém questiona se ele comprou no supermercado da esquina ou naquele outro lá perto da creche.

02 abril, 2008

O Pacotinho de Matraquice

A fase em que a criança já sabe o que quer, mas ainda não sabe explicar com palavras é cansativa e frustrante para todos os envolvidos a cada pedido confuso. Menino fica na cozinha e aponta para o armário. Mamãe ou papai abrem a porta. E aí começa:
- Quer este?
- Não.
- Quer este aqui?
- Yeah.
(abre a caixa, para ver aquela carinha de ator que viu um monte de baratas voadoras saindo do pacote de barrinhas de cereal)
- Este aqui então?
- Yeah.
(abre a caixa, a criança tira uma rodinha de Cheerios e joga no chão, visivelmente revoltada)
- Ai, ai, ai. Qual, meu filho?
(dedinho aponta para um pacote)
- Não pode ser este. Isto é farinha...
(os motivos pelos quais ele fala "não", mas só diz "yeah" e nunca "sim" são claros. Quem, com uma criança de menos de 2 anos em casa, fala mais "sim" do que "não"?)

E a cena familiar pode levar eternos 10 minutos, entremeados por protestos irritados de ambas as partes. Então, não é surpresa que alguns pais aguardem ansiosamente o dia em que o ex-neném começa a fazer-se entender através de frases.

Um belo dia, ele volta da creche com a foto da turma. Mamãe, sem ter muito o que fazer a não ser ignorar a pia da cozinha entulhada até o teto de panelas sujas que se recusam a pular sozinha dentro da lava-louças (droga de panelas do Primeiro Mundo, custava inventarem panelas auto-limpantes? Para que gastar tanto dinheiro patenteando carros híbridos ao invés de inventar algo realmente essencial?), começa a apontar as pessoas na foto e, boquiaberta, escuta, um por um, os nomes das pessoas na foto. Desde os mais fáceis, "Ayan, Ava", passando pelos de nível médio de dificuldade "Taia" (Natália), "Boba" (Sloba, ainda bem que "boba" não tem um significado universal) até os mais engraçadinhos, como Day-day (Jay-jay, na verdade, apelido de Jade). É tão bonitinho ouvir "Day-day" que, de propósito, ela fica perguntando o nome da menina várias vezes. E aí se depara com um menino cujo nome não sabe, mas o filhinho fala bem explicadinho: "E-MI-LY". Não pode ser, é um menino! E ele insiste "E-MI-LY". Está certo que a amiga batizou a filha de Emerson (opa, nada de certo nisso, foi força de expressão), mas um menino chamado Emily? Este seu filho está confuso, só pode. Passada uma meia hora, ela pega a foto de novo, pergunta e o filhinho repete "E-MI-LY", como se Mamãe fosse surda e precisasse de leitura labial para entender (os nomes dos outros ele não fala assim tão silabicamente acentuados).

No dia seguinte, ao buscar o filhinho na creche, Mamãe vê o tal menino desconhecido e pergunta à professora o nome dele. E ela fala bem devagar E-ME-RY, para não deixar dúvidas (pelo visto, muita gente não compreende de primeira). Não é que agora ela tem em casa um Pacotinho de Informações?

E, do dia para a noite, agora há uma pessoa que fica pela casa "Tata, where are you?" ou "Mamãe, senta!" Quando Papai diz "bye, see you soon", o pacotinho de Eco repete "bye, see you soon". Se na TV a música canta "are you ready?", no sofá tem um garotinho pulando e cantando "are you ready?" Apesar disso, o conflito diário na frente do armário de cereais e biscoitos está longe de acabar, mas é uma fase tão bonitinha apesar da frustração comunicativa, que dá pena de passar tão rápido.