Segunda-feira de noite no plantão, em plena cirurgia, meu colega da Jordânia comentava sobre a Parada do Orgulho Gay, ocorrida na véspera. O cirurgião canadense logo perguntou se havia algo parecido no país dele, mas o rapaz foi categórico: "não há gays no meu país". Tentamos argumentar que certamente há muitos, o que não existe é liberdade para expressar abertamente tal opção, mas logo vimos que seria inútil tentar convencê-lo e aí me lembrei da frase de uma grande amiga: "todas as nossas verdades absolutas são culturais".
Morando em Vancouver há sete anos, convivo com pessoas de inúmeras nacionalidades e culturas e aprendi a não mais fazer cara de espanto quanto escuto certas "verdades absolutas", mas nem sempre foi assim. Uma coisa é ler numa reportagem que fazem isso ou aquilo de "exótico" em tal lugar, outra muito diferente é colocar um rosto, um nome e uma voz no personagem. Tudo tem uma dimensão muito maior.
Aqui vai a coletânea de algumas situações vivenciadas por mim, com óbvio choque cultural.
A situação campeã de choque (quase saí eletrocutada) foi a do paciente da Etiópia, que tinha genitália ambígua, foi dado como "menina" no nascimento e submetido à mutilação genital típica do sexo feminino no país. Foi criado como mulher até fugir para o Canadá e conseguir a cirurgia de "sex reassignment". No mais, foram as frases que me surpreenderam:
1- Da colega indiana, que teve seu casamento arranjado pelos pais, mesmo sofrendo por mais de uma década por não conseguir dar à família do marido um herdeiro do sexo masculino: "minhas filhas nasceram aqui no Canadá, mas não quero que elas casem com ninguém que não seja indiano. Nós é que vamos escolher os maridos delas".
2- Da colega descendente de chineses (nascida aqui), que conheceu o futuro marido pela internet e, um mês depois do encontro, decidiu marcar o casamento: "vamos consultar um sábio chinês para ele nos dizer em que data devemos casar. Casamento é coisa muito séria, não dá para arriscar a casar num dia que seja de azar". E esperou mais de um ano, porque o ano inteiro não era "de sorte" !
3- Do pai de uma grande amiga sérvia, grávida, vendo as fotos do chá de bebê dela e fazendo o sinal da cruz: "chá de bebê ANTES do parto ? Deus me livre, que perigo ! Não se deve comprar NADA antes do nascimento do bebê."
4- Da minha colega coreana: "vocês são muito engraçados, ficam morrendo de nojo quando a gente diz que come carne de cachorro. Não se come 'poodle' na Coréia, viu ? Só tem uma raça comestível, de cachorros amarelos, criados exclusivamente para serem abatidos".
5- Da anestesista romena: "Flávia, você que é brasileira me explica o que é 'Brazilian wax'." E, depois da explicação: "Que HORROR ! Para que tirar os pêlos ? Deixe tudo lá, que deve doer muito".
6-Do médico residente árabe: "Mulheres não dirigem na Arábia Saudita e elas acham ótimo. Você, Flávia, iria preferir dirigir ou ter um motorista à disposição ? Se algum dia uma mulher fosse autorizada a dirigir lá, haveria tanto acidente !"
7- Da minha "homestay" mãe canadense, falando das filhas de 6 e 3 anos: "As meninas podem passar esmalte nas unhas do pé, mas nas da mão, nem pensar ! Só quando forem adultas." Nada contra menina SEM esmalte, muito pelo contrário, mas por que no pé pode ?
8- Da minha amiga da Guiana Inglesa, que certamente já abandonou as raízes tropicais: "Bebê e criança só precisam tomar banho uma, no máximo, duas vezes por semana."
9- Da menina canadense de 6 anos, de quem eu cuidei por um tempo: "Flávia, você é muito estranha. Nunca vi NINGUÉM que não soubesse o nome de todas as renas do Papai Noel. Só você !" E olha que eu sabia o Rodolfo, a rena do nariz vermelho !
10- Da mãe de uma das coleguinhas do Pacotinho de Gula na creche (bebezada de 7 a 18 meses), quando viu que o almoço do dia havia sido sanduíche de pão de forma com atum: "O cardápio daqui é super saudável, né ?"
08 agosto, 2007
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11 comentários:
Pois é...a lição de viver em pais multi cultural é sempre essa, verdades absolutas são sempre relativas...
São com histórias como essas que eu penso o tanto que eu sou um "ser cultural"!!!!
Eita, q beleza!!! Isso que é adquirir experiência e nem precisa rodar o mundo todo.
Agora a de deixar os pêlos lá é de matar!!....hehehe
bjinho
Olá Flávia! sempre leio seu blog, mas nunca comentei, me chamo Tatiane e moro em Montreal.. bom ...
sobre o "sábio chinês", ainda bem q os desmiolados o consultam, imagino que na hora q ele ouviu a longa história do casal, n pensou duas vezes e propositadamente jogou a data lá na frente, por motivos q n são óbvios apenas pros pombinhos né ...
e o comentário da menininha sobre as renas foi impagável, engraçado demais!
Pois é....comecei a ler os itens e fui pensando no que comentar....não vai dar.....teria que comentar todos...para mim, que nunca saí do meu país, tem muita coisa estranha...rs.
Bjks
Flávia, essa da unha tb sempre ouvi por aqui. O que imagino é para que elas não "comam" os esmaltes, se por acaso roerem as unhas.. bom, mas normalmente criança já come tanta coisa que não devia ser comestível né, que mal fará um esmaltezinho??? :-)
Bjs
Eva
Flávia eu amei as diferenças culturais.
Mas qual brasileiro sabe os nomes da renas do Papai NOel?
Bjocas,
aff menina, se a gente acha tudoestranho, eles devem nos achar tb seres de outro mundo!!!!qto aos coments de crianças, essa uma amiga me contou:o menino perguntou prá ela:oq é,oq é, todo mundo quer muito ter em casa...claro q ela nao adivinhou,a resposta era : golfinho...e ela:mas menino, todo mundo quer ter um golfinho em casa?? e ele: mas é lógico!!
Flavinha, vim ver a foto saideira de amamentação de gêmeos, maravilhosa! [;)]
E aproveitei e li o ultimo post. Nossa, tem coisas de rir e outras de chorar né?
Acho que meu maior choque cultural com a familia do maridão dinamarques foi com a naturalidade que tratam nudez e liberdade sexual, nada disso é ruim, é parte da cultura deles, mas ver meu sogro de cueca primeira coisa pela manhã na minha primeira visita à Dinamarca e achar normal, foi dificil ehehhee.... kkkkkkkk
E tb fiquei super preocupada que no dia do nosso casamento Ole me explicou que eles tinham a tradição de toda homarada da festa beijar a noiva (selinho) na ausencia do noivo (se ele fosse ao banheiro por exemplo) e vice-versa.
Como se fosse uma despedida, ultima vez que poderia-se beijar outro homem ou mulher que não seu esposo/a (respectivamente).
Enfim, só sei que não fui ao banheiro nenhuma vez a festa toda e Ole idem!!! kkkkkkkkkk....
Beijão querida!
Déia
Oi Flavia,
Esse negocio de diferencas culturais ou nos fazem rir ou chorar (normalmente chorar... de rir!!!), mas cada um na sua, ne?! Contanto que nao se metam nas minhas "loucuras culturais"...
Agora, quanto ao residente saudita, ele esta um pouco destualizado, as mulheres agora podem dirigir na Arabia Saudita, logico que somente apos completarem 35 anos, e qualquer desrespeitoas motoristas resulta em cadeia.... A lei ainda nao esta em vigor, mas ja foi aprovada. Mas sabe aquele ditado "mulher no voltante perigo constante"? Depois de vir morar aqui "descobri" que homens no volante perigo constante... Menina! Cada vez que lembro que tenho que sair de carro, faco todas as oracoes para que possa voltar pra casa viva!!! Hehehehehehe
Bjsssss
Esse é um dos melhores posts do ano! :)
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