20 agosto, 2007

Vocabulary, slang and the whole shebang

Quando me mudei para Vancouver pela primeira vez, em 1998, eu já falava inglês fluentemente. Vim para estudar a língua e, depois daquele teste para avaliar o nível de conhecimento, fui colocada na turma do último nível da escola. A professora ficava impressionada com minha gramática e os coreanos morriam de inveja do meu vocabulário. Minha "hostfamily" canadense vivia elogiando meu inglês e, hoje em dia, vejo o quanto eu sabia pouco. Nada perto do que passou uma amiga brasileira, que na primeira semana na casa da "hostfamily", ligou aos prantos para mim:

- Flávia, preciso desabafar. Buáááááá.... Quero mudar de família.
- O que foi ?
- Hoje de manhã (chuif, chuif), na hora do café, ela foi grossa comigo !
- Como assim ?
- Ao invés de perguntar "how are you ?", ela perguntou "how do you do ?" Agora, imagina alguém virar para você do nada e perguntar "how do YOU do ?" Buáááá...

Ao começar a trabalhar no hospital, eu nunca tinha freqüentado uma única aula sequer de algum curso de enfermagem aqui. O que eu sabia do jargão específico da área havia aprendido estudando para a prova. Na terceira tentativa de passar na prova oral de inglês exigida para obter a licença do Conselho de Enfermagem (por duas vezes, tirei 75%, quando o mínimo requerido é 80% e foi sem dúvida a mais estressante que já fiz, falando com um gravador em segundos cronometrados, numa sala repleta de estrangeiros falando com seus gravadores ao mesmo tempo), obtive a nota máxima: 100%. Mesmo assim, nos primeiros plantões, lembro do quanto eu estranhei certas expressões que hoje uso com freqüência.

Levei uns dois meses para concluir que só em livros as pessoas "vomit" ou "throw up", na vida real, todo o mundo "puke" ou "barf". A comida que causou um piriri não fez mal, ela simplesmente "didn't agree with you". Falando em vômitos e problemas estomacais, "stomach" (ou "tummy", para os íntimos) é uma das palavras com maior variedade de significados em termos anatômicos. Um cara barrigudo tem "a big stomach", uma mulher grávida tem "a baby in her tummy", uma diarréia ou qualquer dor abdominal podem ser uma "stomachache", uma pessoa que faz uma plástica abdominal para tirar as pelancas faz um "tummy tuck" e, pasme, até o órgão estômago é chamado "stomach" ! Mas por incrível que pareça, azia é "heartburn".

As siglas são muito mais comuns na prática que nas aulinhas de inglês. É um tal de ASAP (as soon as possible) para cá, FYI (for your information) para lá, TKVO (to keep the vein open) e DNR (do not ressuscitate), ops, estas últimas só para a turma do hospital ! E tem aquelas que as pessoas não falam, mas escrevem, como BTW, "by the way".

Uma das expressões favoritas no ambiente hospitalar até então desconhecida por mim: "it's gross". No centro cirúrgico, ninguém tem nojo de apendicite supurada, aneurisma roto espirrando sangue, ou fratura exposta. Mas é só aparecer alguém com uma unha encravada para ser arrancada, que o pensamento é unânime: "it's gross" (e é mesmo) !

Adoro principalmente as palavras e expressões que não dizem muita coisa, como "whatever", a resposta preferida de 9 entre 10 adolescentes. Uma mãe me disse que somente depois de 19 anos os filhos voltam a responder às perguntas com outras palavras. Até lá:
- Fulano, quer comer frango ou carne ?
- Whatever.
- Quer peixe, então ?
- Whatever.
- Se você não decidir, vai ter que comer o que eu escolher.
- Whatever.

Na hora de querer alguma coisa, "to want" nem aparece no papo. É tudo "I feel like". Lembro de alguém me dizer "I don't feel like pizza" e, apesar de ter entendido, eu pensei "e quem é que já se sentiu como uma pizza ?"

Eu já há tempos incorporei o equivalente gringo de "tipo assim", o "kind of" (no popular, "kinda"), principalmente no trabalho, quando não lembro o nome certo do que estou descrevendo. "Sabe do que estou falando ? Vem numa caixa, 'kinda' retangular, 'kinda' bege, 'kinda' grande, que vem com uns adesivos 'kinda' compridinhos..."

E tem aquelas expressões que quase sempre podem ser adicionadas ao final de uma lista. Num exemplo hipotético: "Queria ter uma empregada para limpar a casa, lavar, passar, cozinhar, arrumar a bagunça, the whole shebang".

A verdade é que, prestando atenção, todo dia a gente aprende um pouco e às vezes é muito mais fácil ler um livro de 300 páginas do que entender todas as palavras num artigo de jornal, com aquela mistura de gírias, expressões idiomáticas, siglas, "the whole shebang"...

6 comentários:

Unknown disse...

Ah nao,como assim as pessoas nao vomit? Puke eu já tinha ouvido,barf é novidade.
Qdo algumn passageiro conta uma piada eu nao entendo nada e o cara ri no final com certeza vem do Arizona...
Consultório em alemao se chama Praxis,mas até hoje eu chamo o pediatra de Dr.Praxis,
Bjos,

Deby disse...

Um dia eu chego lá....rsrs
Eu q comecei o inglês agora (fora aquele instrumental que precisei aprender pra não morrer na área da computação) aprendi um bocado com suas expressões.
bjinho

Ana Paula disse...

Eu acho que nem vivendo aqui a vida toda a gente vai aprender tudo... eu pelo menos não vou! :)

Elza disse...

Olá!!
Estou passando por aqui para dar meus parabéns
pela sua indicação, ao prêmio blog 5 estrelas!
Seu blog é muito original, parabéns 2x!
rsrs...
Boa semana!
=]

Anônimo disse...

Ah! Como eu gostaria de passar por essa experiencia pratica.

Alem das girias,os sotaques tambem não se ensinam nos livros.

Aproveite tudo!


Beijos

Luciana L V Farias disse...

Acho que é o mais divertido de cada língua, rsrsrsrs... mas o pior é quando as gírias caem em desuso... o Vagner tem uma cominudade de animação lá no Orkut, e volta e meia alguém o adiciona no msn para fazer alguma pergunta. O problema é que há um homônimo dele, e de vez em quando ele acaba sendo adicionado por engano. Numa dessas vezes, depois da menina se desculpar, ele respondeu: "sem galho" (sem problema), e ela: "O Q????????" Sabe, foi até uma vingança meio sem querer, porque ela tinha daqueles msns cheios de sinais e símbolos e a gente mal entendia o que ela estava escrevendo, HAHAHAHA...

Beijocas!!!