31 agosto, 2011

SAL do Iglu para Sara

Sua pergunta é muito comum e pertinente.

Meu marido e eu conversamos um com o outro em inglês mas, se falamos com o Filhote, imediatamente mudamos cada um para a sua língua. Parece difícil, mas fica automático até na mesa do jantar, nas conversas no carro, o tempo todo. Tanto que o menino tem o mesmo comportamento e, sem eu nunca ter falado que não entendia servo-croata, um dia ele passou a traduzir pra mim o que os avós conversavam com ele, com 3 anos de idade.

Certamente aparecerão depoimentos de pessoas que não agem assim e, mesmo casadas com estrangeiros e morando num outro país, tem filhos fluentes em português. Tomara que apareçam, porque a gente sempre cresce com a troca de experiência. Particularmente, não conheço pessoalmente aqui em Vancouver nenhum exemplo assim. Os amigos imigrantes que tenho cujos filhos falam fluentemente a língua materna adotam esta estratégia.

Uma amiga brasileira, com uma filha mais velha que o meu filho, certa vez me disse que a menina havia chegado da creche chamando-a de "Mommy" e ela cortou logo: "Não sou Mommy, sou Mamãe". Ela nem sabe, mas foi a melhor dica que recebi.

Existe uma preocupação comum que até hoje só vi entre os brasileiros: a de parecer rude ao conversar com o filho na própria língua estando na presença de estrangeiros. Jamais falo com meus filhos em inglês e até hoje só escutei elogios dos canadenses. Na verdade, muitos confessam inveja de não falarem outros idiomas. As demais mães estrangeiras da escola do meu filho (muitas chinesas e mexicanas, uma japonesa, uma alemã e até uma canadense de Québec) fazem o mesmo com os filhos delas que, sem surpresa pra mim, são fluentes na língua materna. Não entendo mesmo a necessidade de, no meio do parquinho, dar uma bronca em inglês no filho (a bronca é para chamar a atenção de quem, afinal de contas?) e, se ele tiver que pedir desculpas "forçadas", ele sabe falar em inglês com a outra criança, sem que seja preciso a mãe esclarecer isso.

Para mim, que comecei a estudar inglês aos 15 anos de idade e jamais falarei sem sotaque, embora já fosse fluente quando visitei o Canadá pela primeira vez, seria até pretensioso querer ensinar inglês a uma criança nascida aqui. Outro dia, por mais que eu tentasse falar o nome do colega da escola (Samuel), o Filhote dizia que estava errado e repetia o "certo".

Muitos amigos dizem que o menino é muito inteligente, por isso eu "consegui" que ele falasse português, mas eu acredito que qualquer criança de inteligência "normal" (não sei o termo correto atualmente) é capaz, sendo estimulada diariamente.

O segredo é persistência.

Falei muito, mas é que o assunto é interessante. Vai ver que é por isso que o menino é tagarela e fluente em português: teve a quem puxar. Talvez os segredos sejam persistência e uma mãe que fala muito.

SAL do Iglu para Sara

Várias pessoas me perguntam isso.

Conversamos em inglês, meu marido e eu. Se eu estiver falando com ele, falo em inglês. Se estiver falando com o Filhote, digo em português. Se for algo que é preciso que os dois entendam, falo com um e depois com o outro. Parece cansativo, mas depois que a gente se acostuma, fica automático, até na hora do jantar. O próprio menino segue o mesmo padrão de dizer as coisas duas vezes e, sem eu nunca ter dito que não entendo servo-croata, ele se encarrega de traduzir pra mim quando os parentes do marido estão por perto.

Provavelmente aparecerão depoimentos de pessoas casadas com estrangeiros que não agem assim e também tem filhos fluentes em português, mesmo morando fora do seu país de origem. Particularmente, aqui em Vancouver, ainda não conheci nenhuma criança fluente em português, filha de mãe brasileira e pai estrangeiro (ou vice-versa) cuja família não seguisse esta estratégia. A maioria entende português, mas responde em inglês e, embora os pais não admitam, conversam muito com os filhos em inglês, na presença dos canadenses.

Lembro de uma amiga imigrante ter comentado comigo que a filha chegou da creche chamando-a de "Mommy" e ela cortou logo, dizendo "eu não sou Mommy. Sou Mamãe". Foi a melhor dica que recebi.

Alguns amigos nossos comentam que o Filhote entende 3 línguas porque ele é inteligente, mas acho que qualquer criança de inteligência "normal" (se ainda se pode falar assim, não sei a terminologia correta), tendo a oportunidade de aprender, consegue.

É bonitinho ver uma criança pequena falando qualquer língua estrangeira, então entendo que os pais recém-chegados a uma terra que não é a deles caiam na tentação de incentivar mais o idioma novo que o materno. No meu caso, que aprendi inglês com 15 anos e jamais falarei sem sotaque, embora já fosse fluente quando vim ao Canadá pela primeira vez, nunca houve a pretensão de querer ensinar inglês pra uma criança nascida aqui.

E a preocupação de não parecer rude ao excluir o estrangeiro da conversa? Não tenho e sigo falando português com meu filho e dirigindo-me às outras pessoas à nossa volta em inglês. Ainda não encontrei um único canadense que não elogiasse esta atitude e até admitisse uma certa inveja por só falar uma língua. As mães estrangeiras da escola do meu filho (chinesas, francesas, mexicanas, uma alemã e uma japonesa) fazem o mesmo. Não consigo compreender a necessidade de uma mãe dar uma bronca no filho numa língua estrangeira para que os outros entendam (a bronca é para chamar a atenção de quem, mesmo?).

Só tem um segredo: persistência. Ou teimosia, como queira. ;)

SAL do Iglu para Leila

Leila, desculpe se pareceu desrespeito, mas realmente não tem a menor lógica que a cobra possa entrar, sugar o seio e a mãe não perceber só porque o bicho colocou o rabo na boca do bebê.

Muitos animais, em contato com os humanos, vão mesmo comer o que estiver à disposição, mudando sua alimentação instintiva mas, ainda assim, cobras não mamam no seio de mulheres.

Você tem o direito de acreditar no que quiser e eu de expressar minha indignação diante de uma lenda que, além de sem lógica, ainda pode desestimular a amamentação. Afinal de contas, vai que a mãe aflita decide desmamar a criança para evitar que a cobra entre em seu quarto?

Quanto à sua frase "sem os conhecimentos devidos sobre o assunto", eu realmente admiti que desconhecia a lenda, mas um trecho de um especialista pode diminuir as dúvidas que ainda restarem sobre a possibilidade de isso acontecer:


Mito - Cobra que Mama
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“Cobra que mama”

Relato: “Uma serpente, de aproximadamente 8 metros, entra na casa de uma mulher, que deu a luz há poucos meses e ainda amamenta a criança. Essa cobra só entra de noite, enquanto a mãe dorme com a criança no colo. Com a cauda, a cobra tapa a boca da criança, para que a mesma não chore, e vai a procura do seio da mãe a fim de tomar o leite. A mãe adormecida, pensa que é a criança que esta mamando e não se dá ao trabalho de de se levantar. Passado algumas semanas a mãe começa a perceber que o filho está desnutrido e não sabe por que pela manhã seu filho chora de fome se foi amamentado durante a noite. Essa rotina segue por dias, até que em uma noite o marido, chegando de viagem, se depara com a cena e mata a cobra a pauladas. Ao esmagar a cobra, o leite que a mesma ingeriu se espalha pelo piso, mostrando que a cobra estava a mamar a muito tempo.


Verdade: Em primeiro lugar devemos lembrar que as cobras são répteis, ou seja, as mesmas não se alimentam do leite. Podem ser ovíparas ou vivíparas, desprovidas de glândulas mamárias, sendo assim, não amamentam seus filhotes. Seu sistema digestório não está adaptado a essa alimentação. A dentição, a língua e a estrutura da boca das cobras não permite o ato da sucção. Por essas razões seus instintos não fazem ir a procura do leite.

As cobras possuem uma camada de tecido adiposo (gordura) entre os músculos e a pele, camada essa que serve de reserva de energia. Essa camada é esbranquiçada, muito semelhante ao leite coalhado.

A lenda surgiu há muitos anos quando um homem ao chegar na sua casa vê uma cobra ao lado da cama de sua esposa que a pouco tempo havia dado a luz e ainda amamentava a criança. Matando a cobra com uma madeira, o pai viu se espalhando pelo assoalho a camada de gordura presente no corpo da serpente. Ao ver aquilo acredita que seja o leite bebido pela cobra, que coalhou no corpo dela. Associando esse fato a desnutrição da criança, chegou-se a conclusão de que a cobra estava bebendo o leite materno todas as noites."

Continuarei combatendo a ignorância em relação aos mitos da amamentação.


Você já ouviu esta?

Depois de tantos anos participando diariamente de fóruns virtuais de amamentação, lendo inúmeros livros, traduzindo artigos e estudos, respondendo a todo tipo de dúvida, você pensa ter um conhecimento acima da média sobre o assunto. Do pediatra que diz pra mãe que o leite dela é fraco e a convence a desmamar, passando pela mãe preocupada com um bebê que aos poucos dias de vida está fazendo "manha", até a sogra que bota o bebê pra mamar no peito dela, você inocentemente pensa que já ouviu tudo quanto é absurdo sobre o assunto. Na sua ignorância, a maior lenda sem noção sobre amamentação seria aquela de que, se o bebê arrotar no peito entra ar e a mãe tem mastite.

Mas nada como uma lenda brasileira totalmente desconhecida para você que nasceu e cresceu num centro urbano para balançar os frágeis alicerces do conhecimento que você julga que construiu ao longo dos anos:

"eu estou apavorada existe cobra q mama?

voces ja ouviram falar de cobra que mamam a noite no peito essa noite minha bebe acordou e eu levantei pra dar de mamar e quando eu sentei na cama eu olhei para o lado e uma jararaca esta na minha cama +ou-1 metro,eu acordei meu esposo aos gritos e ele a matou,sera se essa historia e verdadeira.
a historia diz que ela vem e coloca o rabo na boca do bebe pra ele ñ chorar e mama.
eu estou super apavorada.me digam se voces ja ouviram fala disso..."



Obviamente, a lenda existe (e você parece ser uma das poucas que não conhecia, tem muitos registros na google, como este ) em lugares onde há muitas cobras e elas entram nas casas. Nada disso impede sua imaginação de voar:

- Com uma jararaca em cima da cama, a maior preocupação da moça é de que a cobra talvez seja mamífera?

- O cuidado da cobra em calar o bebê seria válido, porque assim a mãe amamentaria a serpente e não perceberia a diferença entre o bicho e seu bebê? Além de preocupada com o bebê, a Snake Nanny muda totalmente o corpo para se aninhar no colo e no peito da mulher?

- Passado o susto de encontrar uma cobra na sua cama, sua primeira providência depois de ver o bicho morto é correr para a internet?

Tudo isso mostra que o mundo evoluiu muito, pois já convivem harmonicamente a internet e as cobras, num mesmo ambiente doméstico, mas as lendas urbanas (ou rurais, florestais) parecem resistir até ao bom senso.

No final, a gente não sabe se tem mais pena do fato de a família morar num lugar onde cobras venenosas entram nas casas com tanta frequência que, no meio da noite, no susto, a pessoa já é capaz de reconhecer a espécie pelo nome ou da ignorância. Não, você sabe sim a resposta, mas não tem coragem de responder, porque a aflição da mãe ao questionar é real.

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para C., de Brasília:

Desejo muita saúde e felicidade nesta gravidez, que você seja uma barriguda como eu fui, sem azia, sem enjoo, sem inchar nem os pés e sentindo-se linda até no dia de entrar em trabalho de parto. Em Brasília, recomendo que você procure o Grupo Ishtar, como fonte de informação e apoio para gestantes.

Leia o que puder sobre amamentação (boas fontes são o Grupo Virtual de Amamentação no orkut e o Aleitamento Materno Solidário no Facebook). Ao primeiro sinal de dificuldade com a amamentação, vá pessoalmente com o bebê a um banco de leite humano (em geral, os de maternidade pública são melhores que os de hospital particular; eu conheço e recomendo os do HRAS e HRT), ao invés de perguntar pro pediatra dicas de como amamentar.

Volto a trabalhar em poucas semanas, terei zilhões de atividades com minhas crianças fora do horário do trabalho, então prefiro não me comprometer a trocar e-mails. Ainda estou traumatizada pelos eventos ocorridos no ano passado, com "amizades" virtuais e, nada pessoal contra você, mas não consigo mais me corresponder com pessoas que não conheço pessoalmente.

***
Para Keiko

Ainda não vimos o filme, mas pretendo levar esta semana o Pacotinho de Insistência que já vem pedindo há muito tempo.

30 agosto, 2011

Campanha de Preservação da Vida nas Estradas


De manhã cedo, o Pacotinho de Preocupação com a Vida está no banco de trás, enquanto Mamãe dirige.

- Mãe, se você vê uma coisinha toda azul com uns negocinhos brancos por cima, você me fala, 'tá?
- Tá.
- Não passa por cima, 'tá?
- Tá. Mas o que é uma coisinha toda azul com uns negocinhos brancos por cima?
- Um smurf!
- Claro!

Que vergonha! Confessando que já devo ter atropelado vários.

29 agosto, 2011

E quando o pai não fala português?

Desde que nasceu, o Pacotinho de Idiomas acostumou-se a ouvir a família do pai falar uma língua, a família da mãe falar outra e o "mundo lá fora" comunicar-se em uma terceira. Nunca houve uma conversa em que se explicasse que nem o pai nem a mãe falam a língua materna um do outro e compreendem somente algumas poucas frases.

Ele levou muito tempo para descobrir que a língua falada pela mãe chamava-se português (por sinal, foi durante uma viagem ao Brasil, enquanto assistia ao programa do Mr Maker, obviamente dublado, que caiu a ficha quando ele exclamou surpreso: "o Mr Maker sabe falar inglês!" - ele queria dizer "português", mas não sabia a palavra e foi corrigido por quem estava perto). Mamãe jamais perguntou "como se diz isso em português?", já que perguntas parecem um teste e podem inibir a criança. Se a intenção é ensinar e não testar, o mais eficaz é repetir em português a palavra ou expressão dita em inglês, o que quase sempre acontece por esquecimento ou desconhecimento mesmo. Depois de 857 vezes falando "dampar" (do verbo "to dump") e sendo corrigido com "despejar", ele sepultou o neologismo esquisito.

E eis que, aos 5 anos de idade, o Pacotinho de Vida Social é convidado para uma festa de aniversário. Ele já foi à casa do aniversariante e sabe que a mãe do menino é brasileira. Na hora de comprar o presente, ele pergunta:

- Mãe, meu pai está convidado pra festa?
- Está.
(ele fica pensativo)
- Ah, já sei! Quem não sabe falar português vai falar inglês na festa, né?

Simples assim.

26 agosto, 2011

Que língua fala este bebê?

Final de tarde. Brinquedos espalhados pelo quintal. Hora de juntar tudo. As crianças começam a colocar os brinquedos numa cesta e a Bebezinha Bagunceira vai calmamente retirando um por um e jogando de volta na grama. O menino vizinho diz:

- Don't do that. We're cleaning up.

O Pacotinho de Esclarecimento avisa:
- You have to talk to her in Portuguese, then she'll do what you say.

E vira pra irmãzinha:
- Fofolete, para!

Aos curiosos: sim, ela continuou arremessando os brinquedos para fora da cesta. Às vésperas de completar 11 meses, ela ignora ordens em 3 línguas diferentes.

25 agosto, 2011

O Pacotinho de Últimos Socorros

Já faz alguns meses, apareceu um homem caído na rua atrás de casa. Papai chegando do trabalho viu e logo ligou para 911. Poucos minutos depois, chegaram uma ambulância e o carro da Polícia. O Pacotinho de Curiosidade aprendeu então o telefone para emergências.

Noite passada Mamãe ouviu um barulho estranho. Já acostumada a gambás, arruaça na rua, garagem invadida, gato do vizinho, ela só pergunta ao sonolento marido:
- Isso é barulho de pássaro?
- É.

E o dia amanhece, tudo parece normal.

Horas depois, Mamãe está na cozinha quando entra Pacotinho de Férias, vindo do quintal, onde brincava com o vizinho:
- Mãe, vem cá.
- Estou cozinhando agora. O que foi?
- A gente achou um passarinho que não está se mexendo!
- Está morto?
- Sim!
- É um passarinho preto?
- Não, ele é todo pequenininho.
(ele quis dizer que não é um corvo, o pássaro mais comum aqui)
- Se ele já está morto, não tem pressa.
- Eu vou ligar pra Polícia.
(pega o telefone e começa a teclar)
- Filhote, a Polícia tem mais o que fazer. Tem que pegar bandido e não passarinho morto. Larga o telefone, porque eles vem mesmo!

Mamãe então larga as panelas e vai lá fora. Realmente há um passarinho morto, do tamanho de um pardal, mas de outra espécie.
- E se a gente jogar um spray pra ele ficar MAIS morto?
- Não existe mais morto. Ele já está morto, não faz diferença.
- Vamos colocar ele numa gaiola!
- Não, ele já está morto. Seu pai o coloca numa caixa, quando ele chegar.

Ouve-se um choro de bebê. Mamãe entra pra pegar a já não adormecida Fofolete. Quando ela volta, depara-se com dois meninos borrifando limpador de aço no pobre do defunto alado.
- Isso é spray de limpar geladeira!
- Mãe, a gente tem spray de passarinho?
- Não existe isso!

Como Mamãe até mata barata num caso de emergência extrema (leia-se estando sozinha em casa, sem qualquer outra pessoa maior de 3 anos que possa ser o matador de aluguel), mas jamais providenciou um funeral, o cadáver do agora ilustre Passarinho Desconhecido ainda jaz no quintal. Sem cova. Mas nada como ter um menino de 5 anos em casa: por iniciativa própria, sabe-se lá por nojo ou respeito, ele mesmo catou uma vasilha vazia de sorvete da caixa dos recicláveis e cobriu o corpo.

21 agosto, 2011

O Pacotinho de Preocupação com Detalhes

Do alto de seus 10 meses de idade (e não é em sentido figurado), pela segunda vez a Fofolete cai de rosto no chão e aparece com a boca ensanguentada (pausa para a mãe, que achava o Pacotinho de Peraltices impossível na idade da irmã, dizer que nunca se lembra de ter visto o sangue dele em machucado algum nesta fase).

A visão de sangue saindo da boca de um bebezinho que chora não é muito agradável, mas nada como um picolé para aliviar a dor e estancar o sangramento, até porque seria muita inocência esperar cooperação da criança nesta idade para que se descubra se o sangue vem da gengiva, do lábio, da língua...

Passado o susto, entra em casa o Pacotinho de Férias que estava brincando no quintal.

- Por que a blusa da Fofolete está suja de sangue?
- Porque ela caiu e machucou a boca, aí a gente deu um picolé pra ela.
(ele fica visivelmente preocupado)
- Era picolé de quê?

12 agosto, 2011

Bons Livros Infantis em Português


Se você mora num país de língua estrangeira e faz questão de que seus filhos sejam fluentes em português, ler para eles todo dia um bom livro é uma ótima forma de aumentar o vocabulário na nossa língua.

Depois que o Pacotinho de Leitura ganhou um livro que começava com "Um pai tinha 3 filhos. Um dia ele disse que daria seu reino de presente para o filho que casasse com a moça mais bela", percebi que não adianta somente ler livros infantis vindos da terrinha, mas procurar por literatura infantil de qualidade.

Para quem procura bons livros infantis em português para ler com os filhos pequenos e muitas vezes não sabe o que pedir a um portador do Brasil, deixo aqui uma lista dos que fazem sucesso no Iglu.

Para os menores, até 3 ou 4 anos, todos os da Rita
Sapeca
são deliciosos.

Outro fofíssimo para os menores é O Coelhinho Insone.

Os da coleção Giramundo incluem títulos que agradam desde os mais novinhos até os de 5 anos (ou mais, ainda não sei). Meus favoritos são Princesa Arabela, Mimada Que Só Ela, além de Belinda, a Bailarina e Feliz Por Obrigação.

Todos os da Ruth Rocha, do Ziraldo, da Lygia Bojunga, da Ana Maria Machado e do Érico Verissimo são populares aqui. Eu, particularmente, acho os do Érico Verissimo meio confusos para os pequenos, com personagens demais e muitas mudanças drásticas de enredo, mas o Pacotinho de Imaginação vibra com As Aventuras do Avião Vermelho.

Os papais vão gostar muito de Adivinha o Quanto eu Te Amo.

Dr. Seuss foi um gênio da literatura infantil, muito popular na América do Norte e praticamente desconhecido no Brasil. Seu clássico O Gatola da Cartola perdeu um pouco na tradução para o português, mas continua imperdível, daqueles que renderiam uma tese de mestrado para um psicólogo infantil.

Por falar em gênio, não poderia deixar de citar o poético Chapeuzinho Amarelo, sobre diversos medos infantis, da parceria genial de Chico Buarque com Ziraldo.

Na fase escatológica típica desta faixa etária, são divertidos Da Pequena
Toupeira Que Queria Saber Quem Tinha Feito Cocô na Cabeça Dela
e Até as Princesas Soltam Pum.

Uma lista ótima do blog Livros e Afins traz 33 livros eleitos anualmente como os melhores de 1974 a 2006.

Uma outra boa dica é pedir aos familiares e amigos que repassem os livros lidos pelos filhos deles e que tenham sido solicitados pela escola no ano letivo anterior. Assim, tem sempre novidade na estante, porque se as crianças não enjoam de ler sempre as mesmas estórias, os adultos ficam entediados.

E você? Que livros em português fazem sucesso na mesinha de cabeceira do seu filho toda noite?

11 agosto, 2011

O Pacotinho de Nariz Entupido


Desde a adolescência, sempre fui fascinada pelo jeito que as crianças descrevem certas coisas e situações da vida de forma criativa, dentro do seu limitado vocabulário, com sua ilimitada imaginação.

Por um certo tempo, antes de o Pacotinho de Tagarelice começar a soltar a língua de vez, tive receio de que ele nunca soubesse português suficiente para ter este tipo de conversa. Poxa, perder um dos aspectos mais divertidos da infância só por morar num país estrangeiro! Só que meu medo era infundado. Ainda bem que tem um Pacotinho de Fluência em Português para divertir a vida.

No café da manhã, ele puxa assunto:

- Mãe, quando a gente come... CO-ME, come...
(põe a mão na frente do nariz enquanto fala a palavra "come")
- O que foi?
- Meu nariz está falando!
- Seu nariz?
- Sim, vou chamar de nariz falante.
- Seu nariz está entupido.
- Não, Mamãe. Meu nariz está empalhado de meleca.
- Empalhado de meleca????
- Cheio de meleca.

Diga se "empalhado de meleca" não é a melhor definição para um "nariz falante". Qualquer adulto diria que a voz está anasalada ou algo assim. Nada como ter 5 anos para cunhar as expressões mais criativas.

10 agosto, 2011

Master Chef



Como explicar o que leva alguém a ficar viciado num programa de TV? A esperar ansiosamente o próximo episódio, a sonhar com os personagens, a querer comer (e ir pra cozinha fazer) o que eles estão comendo? Não tenho a resposta, só sei que a bola da vez aqui no Iglu é Master Chef, do Food Network.


Muita gente vai dizer que não suporta o Gordon Ramsay, pois somos fãs dele por aqui (aliás, neste programa, tem um juiz mais exigente do que ele). Já acompanhavámos Hell's Kitchen e Kitchen Nightmares, mas este ainda é melhor e mais emocionante. Ficamos tristinhos ontem, quando o candidato favorito (nosso e dele) foi eliminado. Então, em homenagem a ele, teremos de janta uma versão do que ele cozinhou ontem. Em inglês, chama-se Shepherd's Pie, mas tem quem chame de "Restô d'Ontê" (o resto de ontem).

E aí? Mais alguém viciado em "reality show" na casa de vocês?

09 agosto, 2011

Teve ladrão no Iglu

Fofolete, depois de mocinha, resolveu acordar à meia-noite para mamar. Mamãe acorda e, enquanto amamenta, escuta uma barulheira do lado de fora. Parece uma voz de homem bêbado, revirando os recicláveis, jogando garrafas e xingando. Ela pensa que é alguém fazendo somente isso mesmo, nem acorda o marido, nem pensa em chamar ninguém, porque depois de uns 15 minutos, o silêncio retorna e a Fofolete mamou por uma meia hora.

De manhã, o portão da garagem está aberto. Entraram num dos carros e levaram todos os CDs favoritos da caixinha do porta-luvas (Chico, Caetano, Legião Urbana, Geraldo Azevedo...). Largaram o GPS, que seria bem mais fácil de repor. Realmente espalharam os recicláveis e ainda mexeram nas ferramentas, mas aparentemente não levaram mais nada. Bagunçaram a construção da casa nos fundos do Iglu também.

E aí, quando acorda, o Pacotinho de Bom Senso fica sabendo do ocorrido e diz:

- Mãe, da próxima vez em que você ouvir um bandido, chame a Polícia!

Infelizmente, não é primeira vez que isso acontece. No primeiro apartamento em que morei em Vancouver, arrombaram o guarda-volumes, levaram patins, uma TV pequena e uma mala para carregar tudo.

08 agosto, 2011

O Pacotinho de Medicina Alternativa

Mamãe Gripadíssima, com a garganta ruim, está fazendo gargarejo com água morna. O Pacotinho de Curiosidade vê e pergunta:

- O que é isso no fundo do copo?
- Sal.
- Sal?
- É.
- Sabe aquele sal mais salgado de todos, que se chama pimenta? Se a pessoa faz gargarejo com aquele, ela fica mais doente.

BTW, bom mesmo para garganta doída é gargarejo com chá de folhas de sálvia.

07 agosto, 2011

O Pacotinho de Reforço Positivo

Final do dia. Mamãe amamentando, o Pacotinho de Limpeza entra no quarto para colocar sua roupa suja no cesto. Mamãe levanta a tampa do cesto e ele:

- Mamãe, hoje você se comportou muito bem.
- Eu?
- Sim e quando você se comporta muito bem, eu compro uma coisa pra te ajudar.
- Pra me ajudar?
- Sim. Eu vou comprar uma coisa pra Marina não morder seu peito. Chama chupeta. Eu vi na televisão, a gente aperta e sai leite.

Seria mamadeira?

06 agosto, 2011

O Pacotinho de Notícias Misturadas

- Mãe, sabia que a Lady Gaga morreu? Ela estava muito velhinha e tomou o remédio errado.
- Não, Filhote, quem morreu foi a Amy Winehouse.
- Quem é Amy Winehouse?
- A cantora que morreu.
- E como ela morreu?
- Tomou o remédio errado.
- Igual ao Michael Jackson?
- Sim.
- Ele tomou o remédio errado e morreu muito.
- Ninguém morre muito ou pouco, só morre.

De onde ele tira estas coisas? Nem vemos noticiário na TV.

05 agosto, 2011

Dez Meses!






"Fofolete,

Você completou 10 meses de vida no dia 30. Está impossível, quase caminhando sozinha. Segurando no dedo de alguém, anda pela casa toda. Engatinha na velocidade da luz. Fica em pé sem apoio, dá dois passinhos entre o sofá e ottoman (umas 500 vezes por dia), mas sua atividade favorita é abrir as gavetas do armário do seu irmão (as da sua cômoda são maiores e mais pesadas) e jogar as roupas dele no chão. Também gosta de espalhar o papel armazenado para reciclagem, desenrolar o papel higiênico do banheiro, jogar as toalhas no chão, brincar com a água do vaso sanitário... A lista de estripulias é quase infinita!

Voltamos do Brasil há poucos dias. Você se comportou muito bem e dormiu em todos os voos, só chorou uma única vez quando um passageiro abriu o compartimento de bagagem de mão e deixou voar uma caixa pesada, cuja queda foi amortecida na cabeça da Mamãe antes de aterrisar na sua.

Durante a estadia no Brasil, você esteve muito grudada na Mamãe, bem mais do que o seu normal. Ficava engatinhando e chorando atrás dela. Estranhou muitas pessoas (curiosamente não todas), mas nenhuma comida. Comeu exatamente o que estavam comendo as pessoas das poucas casas que visitamos e dos restaurantes, sem amassar ou passar nada na peneira. Só não provou doces, mas deu até umas bicadinhas nos picolés das crianças. Toma água na garrafa de canudinho, fazendo um biquinho lindo.

Vovô só faltava ter um ataque cardíaco pensando que você iria cair da cama ou arrumar outra encrenca qualquer.

Você passou a acordar bastante de noite enquanto estivemos em Brasília e agora está lentamente voltando à rotina noturna.

Você, como diz seu irmão, é "muito gritona". Dá gritinhos de alegria, de estusiasmo quando vê as crianças brincando. Dá gritos de impaciência se vê alguém comendo algo que não divide com você. Mas chora educadamente, vibrando a língua, fazendo um barulhinho que ainda não deixou de surpreender todos os que já ouviram, sem nunca berrar.

Quando chegamos de viagem, você não estranhou seu pai, foi como se não tivéssemos passado um único dia fora. Continua com muito ciúme quando ele pega seu irmão no colo e protesta até que consiga um lugar para você também.

Você dá tchau abanando a mão (não é canhota como seu pai), aponta para o teto quando alguém pergunta "cadê a luz?"), faz um sinal com a mão (dobrando os 4 dedos na palma da mão) chamando alguém para vir e, antes de abrir alguma gaveta ou porta, olha para a Mamãe, que diz não e balança o dedo. Aí você faz que "não" com a mão, embora continue fazendo a travessura. Quando percebe que é mesmo para NÃO fazer o que está prestes a fazer, faz beicinho e chora bem sentida.

Você bate palmas sempre que escuta Parabéns a Você. Seria uma preparação para seu aniversário?

Esta semana você apareceu com a boca sangrando. Que susto! Parece que tentou morder o pé da prateleira dos sapatos na entrada de casa e se machucou. Isso foi uns 5 segundos em que estava seguindo a Mamãe pela casa e resolveu parar e brincar com os sapatos.A gengiva superior está bem inchada, os incisivos devem sair a qualquer momento, então fica bem sensível. Demos logo um picolé de frutas e o sangramento parou.

Você adora música. Dança dobrando e esticando os joelhos sempre que escuta música, tocada, cantada, de qualquer jeito.

Você está fofa, esperta, curiosa e muito, muito bagunceira.

Todo dia Mamãe sente uma peninha de você estar crescendo tão rápido. Logo estará caminhando e aí vai dar uma saudade daquele bebezinho engatinhando pela casa, balançando o bumbum grande cheio de fraldas. Coisa mais linda neném engantinhando e tentando aprender a caminhar!

Um abraço bem apertado,
Mamãe".

04 agosto, 2011

SAL do Iglu para Sarah

Vi a reportagem sobre a boneca (que não é nova, já tinha dado polêmica antes), mas sinceramente, acho que nenhuma menina precisa disso para brincar de amamentar suas bonecas. Conheci algumas garotinhas de 3, 4 anos que amamentavam suas bonecas, levantando a blusa, usando a imaginação. Quando as meninas brincam de amamentar, é porque certamente já viram alguma mulher amamentando. O exemplo na família é o mais importante.

Se as meninas crescem só vendo as mulheres à sua volta darem mamadeira aos bebês (e crianças grandes), certamente brincarão de fazer o mesmo com suas bonecas.

XX Semana Mundial da Amamentação



Nestes anos todos de blog e de campanhas de amamentação, já coloquei fotos de pessoas amigas amamentando, traduzi textos com dicas de um dos especialistas mundiais no assunto e, para este ano, gostaria de falar de algo pouco abordado nas campanhas em geral: as dificuldades.

Para ser breve, tenha em mente:

1- Amamentar é natural, mas raramente um bebê nasce sabendo mamar e uma mãe tem informação suficiente para conseguir amamentar sem problemas. É preciso saber quando buscar ajuda.

2- Nunca deve doer, nem na primeira fisgada. Se dói, é porque a pega está incorreta (o motivo mais comum de problemas) ou há alguma infecção na mama. Se sente dor, coloque um dedo no cantinho da boca do bebê e depois remova o peito da boca dele. Com a pega correta, não dói e o mamilo não racha.

3- No Brasil, a melhor fonte de orientação ao vivo é obtida num banco de leite de maternidade pública. Pouca gente sabe que os bancos de leite brasileiros prestam tal serviço gratuitamente. Recomendo a todas as grávidas que se informem onde fica o banco de leite mais próximo da sua casa e, ao primeiro problema, apareçam lá pessoalmente, com o neném. Fora do Brasil, procure a La Leche League do país onde se encontra ou consultoras de amamentação (conheço três maravilhosas aqui em Vancouver, para quem precisar).

4- Pessoas que não amamentaram por qualquer motivo podem inconscientemente tentar boicotar a mãe insegura ou desinformada. Novamente, informação é muito importante. Não existe leite fraco e são raríssimas as situações que levam a mãe a produzir leite em quantidade insuficiente (hipotireoidismo não tratado, por exemplo). Na esmagadora maioria das vezes, o pouco ganho de peso do bebê pode ser corrigido com ajustes na amamentação, sem necessidade de complemento. É mais comum um bebê ganhar pouco peso porque a mãe tem leite demais e ele só mama o leite anterior, mais aguado, do que uma mãe saudável produzir leite insuficiente para sua cria.

5- Infelizmente, os pediatras não tem muitas aulas sobre amamentação durante seu treinamento. Os mais bem informados chegaram a este ponto por iniciativa própria. Se há dúvidas quanto ao ganho de peso do bebê que só é amamentado ao seio, o melhor é procurar o banco de leite para obter ajuda ao vivo antes de partir para o complemento ou o desmame.

6- A palavra "culpa" geralmente ronda as mães em todas as fases da vida dos filhos.
Se você faz questão de amamentar, procure ajuda. Se não deu certo da primeira vez, não se culpe. Há chance de sucesso num próximo bebê e, se ainda assim não conseguir, é possível ajudar uma amiga no futuro.

Mesmo com toda informação e experiência numa primeira amamentação bem sucedida (o Pacotinho de Amamentação já nasceu sabendo mamar, nunca tive uma fissura ou dor para amamentar, jamais pensei que meu leite fosse insuficiente. Mesmo demorando 5 dias para descer o leite, eu sabia que era normal e ele nunca tomou complemento. O esperado era engordar 20-30 gramas por dia e ele engordou 70g/dia no primeiro mês de vida e mamou até 2 anos de idade), a mãe pode passar aperto. Na segunda vez, com um bebê de língua presa, passei por tudo o que nunca tinha passado: mamilo ferido, duas mastites, mas com visitas diárias e salvadoras de consultoras de amamentação, sigo amamentando por 10 meses, sem que a Fofolete nunca tenha provado outro leite que não o materno.

Na verdade, eu nunca ouvi uma mãe dizer que amamentar é sempre fácil, mas acho que este pensamento fica no inconsciente coletivo de muitas grávidas, porque ouço muito "eu não sabia que seria TÃO difícil". Estamos nos distanciando tanto do que é natural, instintivo, que amamentar deixou de ser simples e agora é preciso ler, informar-se, buscar ajuda para ter sucesso, em quase todos os casos.