26 julho, 2005

Humor em Tempos de Greve

Continua a saga dos Incomunicáveis no Primeiro Mundo. Sábado recebemos uma gravação automática na caixa postal do celular avisando que, devido à paralisação dos funcionários da telefônica, não havia previsão para a instalação da linha (ainda bem que eles nos mantêm tão bem informados). Entramos em contato com uma das companhias telefônicas concorrentes da Telus, que detinha o monopólio das linhas até pouco tempo, para ver se alguém consegue fazer o telefone funcionar. Como a burocracia e a Lei de Murphy andam juntas, recebemos a otimista previsão de que nosso telefone voltará a funcionar dia 25 de agosto. Tão rápido ! Nosso próximo passo deverá ser importar um Pai de Santo da Bahia e pedir ao espírito de Graham Bell que baixe nele, porque o resto já foi tentado. Saravá !

A sede da Telus é aqui perto de casa e diariamente sou obrigada a ver os grevistas sentados na calçada com seus cartazes de protesto, aproveitando o sol que finalmente resolveu aparecer, ao invés de consertar os telefones das pessoas tão simpáticas que aqui habitam. Sorte deles que eu não ando armada, senão uma meia dúzia de manifestantes já teria sido executada a sangue frio. Achou pouco ? Hoje recebemos a conta de telefone (acredito que os departamentos de contabilidade e cobrança não estejam em greve), na qual ousaram nos cobrar 45 dólares de “taxa de mudança”, mais 25 por uma linha residencial no período de 20 de julho a 19 de agosto. Fomos desconectados dia 12 de julho e não vamos pagar a conta. Quero ver se eles vão "cortar" a nossa linha muda ! O que causou minha maior indignação foi o envelope da Telus, onde veio a conta, que tem estampado com letras grandes o slogan “connections you can count on” (conexões com as quais você pode contar). Isso é que é senso de humor !

25 julho, 2005

Casei !

Apesar da piada que tem sido o verão deste ano em Vancouver, São Pedro resolveu dar uma colher de chá e nos presenteou com um céu deslumbrante no dia 21, o dia do casamento do ano. A vista estava maravilhosa e a noiva tropical de tomara-que-caia não passou frio. O noivo gringo suou em bicas (de calor, de nervoso, de impaciência com seus amigos que chegaram atrasados, de revolta contra a florzinha que a noiva o obrigou a colocar na lapela). Entre um pajem que vestia uma calça no estilo "pronto para o Tsunami" (com a bainha milimetricamente cortada para andar em áreas alagadas) e outro que disparou a correr na hora da foto oficial, divertiram-se todos.

A noiva manteve-se firme no seu propósito de não se estressar com os preparativos do casamento, mas quase teve um ataque de nervos com a companhia telefônica, que insistiu (e insiste até hoje) em mantê-la incomunicável. Posou serena para as fotos em casa, com a melhor amiga amarrando as costas do seu vestido, enquanto a sobrinha dama-de-honra fazia as paredes do apartamento tremerem, berrando a plenos pulmões, protestando contra sabe Deus o quê. O noivo também posou para suas fotos pré-casamento fingindo tranqüilidade, enquanto o alarme de incêndio do prédio estava disparado (só quem já ouviu sabe o quanto é estridente). Ainda bem que as fotos não têm fundo musical !







Tanto a noiva quanto seu amado pai fizeram a maior farra sendo guiados até o local da cerimônia, num carro de 1931, acenando para os passantes na rua, que buzinavam a cada curva. Nem quando se lembrou no meio do caminho que havia esquecido o buquê, a noiva perdeu o bom humor. Nada iria estragar aquele momento.

O DJ tentou acabar com o ânimo da brasileirada, empurrando músicas deprês, mas os anos 80 foram relembrados e dançados (alguém se lembrava do Capital Inicial ?). O buquê foi arremessado com tanta força que ultrapassou todas as candidatas a pegá-lo e acabou sendo catado pela dama-de-honra.

Como a perfeição não é algo deste mundo, tudo saiu o mais perto do perfeito possível. Aos amigos e familiares que estiveram presentes, minha gratidão e meu carinho. Aos que não puderam presenciar, aqui vão algumas fotos feitas pelos papparazzi (as oficiais ainda não estão disponíveis).





22 julho, 2005

Lost in Translation

Já completamos 10 dias sem telefone. Acredito que aldeias no interior da Amazônia conseguem instalar uma linha telefônica, mas aqui no Primeiro Mundo, parece mais complicado. Tudo porque resolvemos nos mudar, receber hóspedes e casar durante a greve dos funcionários da companhia telefônica. Que falta de consideração a nossa !

Durante essas quase duas semanas, temos aguardado diária e ansiosamente que o técnico apareça para fazer o telefone funcionar. Segundo meu pai, é como se fôssemos judeus esperando pela chegada do Messias. Já mantivemos guarda dias inteiros, ficando trancados no apartamento enquanto faz um sol maravilhoso lá fora, esperando um acontecimento dos Céus que torne concreto o milagre da comunicação. Nada. Meu irmão já disse que esse técnico da telefônica é uma lenda, que esperar por ele é o mesmo que esperar acordado para ver o trenó do Papai Noel.

Hoje passamos o dia fora, mas meu pai e sua esposa ficaram em casa. Eles falam inglês tanto quanto falamos swahili, mas não pretendiam sair de casa, então tudo bem. Quer dizer, tudo bem até que tocou o interfone. Meu pai atendeu e não entendeu xongas do que a pessoa dizia em inglês. Resolveu descer e tentar "entender-se com o cara", por mais paradoxal que parecesse a ele no momento. Feliz da vida, repetiu para o indivíduo várias vezes "telephone, telephone, you are aqui para consertar the telephone". Vitorioso, porque finalmente iria provar para o meu irmão que o cara era real ! Subiu, arrastando o tão aguardado indivíduo. Já em casa, comentou com a esposa "só piorou, o cara não está entendendo nada". O rapaz olhava para as paredes meio surpreso e meu pai achou que ele estivesse procurando pelo telefone. Apontou inutilmente para o aparelho, enquanto o rapaz (coreano, por sinal), tentava dizer alguma coisa em inglês, que ninguém entendia. Já é difícil para "native speakers" entender asiáticos falando inglês, imagina para a platéia em questão ! Segundo meu pai, o cara estava impaciente, como se eles dois fossem as criaturas mais burras do mundo. Em algum ponto da truncada conversa, ele teria perguntado se eles falavam outra língua "além de" inglês (como foi uma tradução capenga dos dois, o "além de" é altamente questionável). Que outras línguas falaria ele ? Depois de longos momentos de frustração de ambas as partes, alguém teve a brilhante idéia de dar ao estranho um papel e uma caneta, onde ele escreveu uma mensagem para a gente.

Quando chegamos em casa, meu pai disse que "um chinês" tinha vindo consertar o telefone , mas desistiu de fazê-lo só porque ele não o entendeu e entregou-nos o recado:

"Jim Lee - previous owner
Please call me if you have my mails. I have changed the mailing address, but some of them are still coming to this address."

Jim Lee - antigo proprietário
Por favor entrem em contato se vocês tiverem minha correspondência. Eu troquei meu endereço no correio, mas algumas cartas ainda estão chegando neste endereço.

No final, meu pai havia escrito para o preguiçoso que se recusava a consertar nosso telefone:
"This telephone 331-1947. Flávia"

Além de não ser entendido, de não receber a dúzia de envelopes endereçados a ele que estavam aqui em casa, de ser induzido a consertar um telefone, o antigo dono do nosso apt recebeu do meu confuso não-bilíngüe pai o número errado para entrar em contato com a gente ! E eu curiosa para saber se ele sequer reconheceu o apartamento, já que trocamos todas as cores das portas e paredes medonhas que ele havia deixado, mas se ele demonstrou alguma surpresa, certamente não foi compreendido...

16 julho, 2005

É Relativo, Muito Relativo

A segunda leva da comitiva brasileira que veio para o casamento do ano chegou. Definitivamente minha família não é como o Ronaldinho, que diz que mala é coisa de pobre e quando viaja leva só o cartão de crédito. Se isso for uma forma de medir a pobreza, eu diria que minha família é paupérrima, porque vieram atolados de bagagem. Minha sobrinha de 1 ano de idade "trouxe" uma mala várias vezes maior que ela própria, que o Ronaldo não fique sabendo ! Já pensou se sai na Caras ? Como mudamos de casa semana passada, o apartamento novo está o caos. Malas para todo o lado, numa demonstração explícita de pobreza.

Para completar o estado apocalíptico do apartamento, estamos com o telefone mudo da Silva, já há cinco dias. O serviço telefônico do Primeiro Mundo está deixando muito a desejar. Liguei para reclamar e o cara me disse que só daqui a 5 dias vai poder mandar um técnico. Hoje ameacei mudar de companhia telefônica e tive a agradável surpresa de saber que só é possível mudar de operadora se seu telefone já estiver instalado pela concorrência. Comentei com a funcionária que o serviço não é muito útil e ela me disse, numa resposta típica canadense "eu não crio as regras aqui. Tenha sua linha instalada e DEPOIS me ligue para mudar". Se a minha linha estivesse funcionando, eu não precisaria trocar de operadora, Cara Pálida !

Aqui, quando a gente compra um apartamento, ele já vem com fogão elétrico, geladeira, lava-louças, máquina de lavar e secadora de roupas. Claro que a idade dos equipamentos depende da idade do imóvel. O nosso tem 11 anos, mas a lava-louça foi doação da Wilma Flintstone. Ainda não vi o elefante jogando água com a tromba, mas que ele está atrás da máquina, está. Quando ligada, ela faz um barulho como se eu estivesse batendo vidro no liqüidificador. Quem achar a máquina de lavar roupa barulhenta, é só ligar a lava-louça que a outra fica parecendo silenciosa. Tudo na vida é relativo...

Barulhos, telefone mudo e bagunças à parte, estamos felizes com o apartamento novo. Orgulhosos das portas brancas com maçanetas de aço escovado. Quem não viu as antigas portas multicoloridas, pintadas de rosa, amarelo e verde com tinta fosca e maçanetas douradas, nunca vai saber apreciar nossas maravilhosas portas atuais.

Tenho uma dica para futuras noivas estressadas (bridezillas), que você não vai achar no livro da Glorinha Khalil: para evitar o estresse, é só comprar um imóvel em estado deplorável de decoração, reformá-lo, mudar e receber a família do outro lado do planeta enquanto você trabalha full-time até a semana do casamento. É fundamental ficar vários dias sem telefone, sem interfone, sem internet, enquanto o pessoal que você contratou para o casamento tenta freneticamente entrar em contato com você. Os preparativos em si não vão estressá-la em nada, porque não vai sobrar tempo de lembrar que vai haver um casório. Tudo na vida é relativo...

12 julho, 2005

Primeira Página: Pouco Problema ?

Os dois maiores jornais locais hoje estampam na primeira página, como manchete principal, uma reportagem sobre uma livraria em Coquitlam (aqui em British Columbia) que quebrou o protocolo e vendeu algumas cópias do novo livro do Harry Potter, previsto para ser lançado mundialmente no dia próximo dia 16. Não só a editora entrou na Justiça contra a livraria, como conseguiu uma ordem judicial que impede as pessoas que compraram o livro de fazerem um comentário sequer sobre o enredo e seus "segredos". Imagina uma criança de 10 anos que conseguiu o livro sendo proibida de comentá-lo na escola com os coleguinhas, sob ameaça de ser julgada e condenada. Ah ! Acabou de passar na TV que o juiz decretou que todos os compradores TÊM que devolver os livros.

Considerando a sujeira agora explícita no governo brasileiro, a guerra no Iraque e o atraso imperdoável do verão, que ainda não chegou por aqui, acredito que é uma manchete feliz, sinal de que os verdadeiros problemas locais e mundiais são irrisórios. Furacões na Flórida ? Contanto que o segredo de J.K.Rowling (ou seja lá qual for o seu nome) esteja protegido, quem se preocupa ? O que foram os atentados em Londres perto do fato de que uma dúzia de pessoas (ops, catorze pessoas) vão ler o Harry Potter antes do resto do planeta ? Talvez eu esteja vivendo na Ilha da Fantasia e não tenha me dado conta disso ainda...

09 julho, 2005

Jacaré Vivo É Mais Fácil

Esta semana meu irmão chegou do Brasil, o primeiro da pequena comitiva que virá para o que está sendo considerado o casamento do ano (uma opinião assim totalmente imparcial, que saiu na revista People). Ele veio trazendo sua cabeça despreocupada e uma bagagem monumental. Brasileiro exilado no exterior já gosta de pedir encomendas da terrinha, mas quando está para se casar, o número de pedidos é elevado à milésima potência, para agonia dos portadores. São amigos queridos desejando mandar um presente carinhoso, que vem misturado com a farinha de mandioca, o suco de caju e as legítimas Havaianas na mala. Desta vez, também havia 300 bombons para o casório.

Lá em casa somos uma família de exagerados. Nossos casos envolvem "icebergs" quando nos referimos a pedras de gelo num copo. Meu pai, quando quer dizer que alguém bebeu muito, diz que foram "quatro piscinas de bebida". Quando alguém comenta que quer mandar uma pequena encomenda pro Canadá, ele pergunta se é um cabritinho ou um leitão vivo. Minha irmã conta que a filha recém-nascida chorava de noite "como se estivesse sendo frita em óleo quente". Meu sobrinho de 5 anos, ao ver a mala da mãe dele aberta sobre a cama, perguntou: "Mamãe, isso é um barco ?". O exagero está no nosso DNA, então não dei crédito quando tanto minha irmã quanto meu pai descreveram como gigantesca a caixa de encomendas que meu irmão estava trazendo para Vancouver. Só que desta vez era realmente imensa.

Já aqui, meu irmão relatou o calvário de perambular por aeroportos com uma caixa enorme (eu mesma já passei por isso, justamente quando descobri que a útil espécie de carregadores de bagagem foi extinta, sem que Darwin tenha explicação para o fato, porque se trata de uma involução). Segundo ele, aquele australiano que pega jacaré vivo num programa do Discovery Channel tem um trabalho mais fácil do que ele teve com a caixa. Em Toronto, ele virou ponto de referência e as pessoas já diziam: "para chegar ao balcão da Air Canada, vá até aquele cara com a caixa e depois vire à direita" ou "o banheiro fica depois do cara com a caixa". No guichê da imigração, enquanto todos estavam numa fila à direita, que ele prontamente seguiu, alguém do balcão gritou: "você aí com a caixa, vem pra fila da esquerda !" Se ele tivesse permanecido em Toronto por mais um dia, teria virado atração turística e seria inadmissível ir até lá e não visitar "O Cara com a Caixa". Claro que a dita cuja não chegou junto com as malas, mas no vôo seguinte, numa esteira separada, para "oversized luggage", juntamente com as pranchas de surfe e esquis da gringaiada.

Depois de tudo isso, a caixa permanece fechada aqui, na minha apertada sala, entre tantas outras, já que estamos de mudança e eu não vou ousar abrir aquela urna de elefante, espalhar tudo para ter que reempacotar em dois dias. Ainda bem que tenho um irmão prestativo e cabeça fria, que não vai se importar com isso...

P.S.: A mala dele também era gigante e, quando eu comentei que daria para esconder um corpo dentro dentro dela, ele me corrigiu "dá para carregar o Shaquille O'Neal (da NBA) nesta mala". Pelo peso, acredito que realmente ele esteja lá dentro...