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21 dezembro, 2012
Mãe Brasileira e Filho na Escola Pública Canadense
Então você, imigrante brasileira, que estudou a vida inteira numa escola religiosa e particular no Brasil, sobreviveu ao primeiro ano como mãe de aluno numa escola pública no Canadá e passou pelas fases de estranhamento, comparações e preocupações com o currículo. Ficou surpresa com o rápido progresso do seu filho, apesar de parecer tudo muito lúdico e pouco acadêmico. Venceu seus próprios preconceitos, abraçou a proposta de escola como parte da comunidade e começou o segundo ano sendo "a mãe do Fulaninho", conhecida da diretora, da bibliotecária e até do cachorro do assistente da professora. Claro que o fato de seu filho ser "O Fulaninho", tagarela e desinibido que só ele, torna seu trabalho bem mais simples.
A escola aqui exige participação intensa dos pais. Ou melhor, a escola não "exige" nada, ela solicita, o sucesso da vida escolar do seu filho é que exige participação intensa dos pais.
Depois de um primeiro ano marcado por "job action" (na falta de uma tradução literal em português, já que não é greve, você opta por "operação tartaruga"- os professores deram aula, mas não fizeram nenhuma atividade fora do horário, nem preencher boletins), a escola finalmente pode mostrar como funciona.
Você começou voluntariando numa de suas poucas folgas em dia útil e depois mandando um presentinho com cartão pra professora no dia 15 de outubro, explicando pra ela que era o "Dia do Professor" na sua terra natal. Seu filho já a tinha conquistado na primeira semana (ela tem um fraco por crianças que gostam de falar em público), mas você a conquistou com o pequeno gesto que ela descreveu como "o primeiro dia do professor em 20 anos de carreira".
Você está encantada com a ênfase que a escola dá ao serviço voluntário. O que falta em estrutura física, quando comparada com as escolas particulares em Brasília (você só consegue comparar com a realidade em que estaria vivendo seu filho se morasse na terrinha), a escola pública local esbanja em lições de cidadania. Alunos de 10 a 12 anos voluntariam-se ajudando os menores em atividades de leitura ou até para vestir a roupa na hora de sair para o recreio (não que estejam pelados na sala de aula, é que vestir um casaco pesado, uma calça acolchoada e calçar luvas, mais um par de botas para neve não é tarefa fácil para uma criança de 5 anos). Alunos mais velhos também trabalham na noite do cinema da escola, vendendo ingressos e pipocas, assim como em todos os eventos extracurriculares. Além de cartas de referência, recebem pagamento para cuidar das crianças menores durante as reuniões dos pais.
Outro ponto de destaque para a escola pública local é a noção de diversidade. Com alunos provenientes de várias partes do mundo, as crianças aprendem não só a aceitar o diferente, mas a celebrar as diferenças e juntar o melhor de vários mundos. Então, quando seu filho de 6 anos vir um candelabro e falar "é um menorah", você, que não é judia, vai ficar contente ao constatar que obviamente ele aprendeu isso na escola.
Você conseguiu olhar para além das inúmeras classes divididas em duas séries escolares (onipresentes em quase todas as escolas públicas de ensino fundamental na Grande Vancouver) e descobriu o que há de positivo. Um grupo de pais muito ativo do qual você faz parte (PAC - Parent Advisory Comittee, que organiza a arrecadação de fundos monetários e decide como serão gastos), uma diretora engajada e entusiasmada também fazem muita diferença.
Mas, como em qualquer escola no mundo, um bom professor é fundamental. Seu filho foi premiado com uma ótima professora no "kindergarten" e com uma absolutamente excepcional este ano. Depois de uma apresentação de Natal onde ele teve, pelo segundo ano consecutivo, o único papel de destaque da turma e do recebimento de um boletim cheio de elogios, seu coração fica sossegado. Você cumpriu seu papel de mãe de estudante até agora e seu filho tem cumprido o de aluno com louvor. Diferenças à parte, a escola pública local mostra-se capaz de exercer seu maior papel: o de formar cidadãos que façam deste mundo um lugar melhor, usando suas potencialidades ao máximo.
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