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06 maio, 2012

Trilha Sonora

Fofolete, do alto de seu 1 ano e 7 meses de idade, decide que músicas todos vão escutar no carro. Músicas não, música. Tem que ser sempre o "papauéio", o Sítio do Picapau Amarelo, repetindo sem parar. E ela não esquece, mesmo que só ande de carro nos finais de semana. Já entra pedindo "papauéio".

Então, não é de se espantar que o Papai Gringo chegue do trabalho comentando: "tive que escutar muito Iron Maiden no caminho até o escritório para limpar meu cérebro e ainda assim passei o dia inteiro cantarolando 'Narizinho, Narizinho'.

Para quem não tem o CD, a música da Narizinho vem imediatamente depois da canção de abertura e, como a Fofolete raramente deixa que a gente escute a música toda, fica só no Narizinho, Narizinho a maior parte das vezes.

15 outubro, 2011

Pumpkin Patch




Uma das coisas boas de morar num país estrangeiro é poder incorporar outras tradições às nossas.

Thanksgiving, o Dia de Ação de Graças, é dia de ceia com amigos e um peru na mesa do Iglu há muitos anos.

Depois de ter filhos, já em preparação para o delicioso Halloween (minha festa norte-americana favorita), uma visita ao Pumpkin Patch torna-se obrigatória. Trata-se de uma fazenda de plantação de abóboras, onde a gente paga para entrar, tendo direito a colher uma abóbora por ingresso, grande ou pequena, contanto que consiga carregá-la de volta. Em Vancouver, recomendo The Pumpkin Patch, muito organizada, com amplo estacionamento, carroças puxadas por tratores, muitos animais para as crianças verem e ótimo atendimento.



Para os novatos no Pumpkin Patch, algumas dicas básicas aqui em Vancouver:

- Se houver um final de semana sem chuva, aproveite e vá colher sua abóbora, ainda que seja o início de outubro. Elas duram bastante e algumas fazendas costumam abrir a temporada no dia primeiro;

- Vista-se com roupas bem quentes e não dispense as botas de borracha para adultos e crianças;

- Se seu filho tem uma roupa de chuva que cobre o corpo todo (conhecida por Muddy Buddy), vale a pena colocar por cima;

- É bem bonitinho levar a criança com a fantasia de Halloween, mas no meio da lama, não é recomendável;

- Abóboras grandes são lindas, mas bem pesadas para carregar de volta até a carroça e difíceis de esculpir;

- Não esqueça de tirar muitas fotos.

22 março, 2009

Desejos Impossíveis

Depois de uma sexta-feira emburrada, veio uma manhã de sábado sem energia e uma noite cheia de surpresas bombásticas por vias altas e baixas. O Pacotinho de Virose (no Brasil, é tudo virose, mas aqui quase tudo é "stomach flu"), que nunca vomita, redecorou o chão e as paredes em poucos segundos com jatos de vômitos. Foi uma noite "full of barf", como dizem os canadenses. Incrível como o menino é capaz de colocar para fora quantidades infinitamente maiores do que as que coloca para dentro!

E aí veio o domingo mais mal humorado de que já se teve notícia. Nada está bom e a frase "eu não gosto" é repetida à exaustão.

- Quer uma banana?
- Eu não gosto "uma banana".
- Vamos sair?
- Eu não gosto "vamos sair".

O diálogo com uma criança doente, chorosa, que não sabe explicar direito o que está sentindo e fazendo força para ser do contra não é fácil.

- Uááááá...
- O que você quer, Filhote?
- Uááááá... Eu não gosto!
- Não gosta de quê?
- Uááááá...
- Se você falar o que quer, a gente tenta conseguir.
(aos prantos, ele responde)
- I want Valentine's Day!

Será que eu deveria ter procurado no Craig's list?

14 junho, 2008

Brinquedos Estressantes

Muitos anos antes de engravidar, eu já achava que brinquedos barulhentos foram inventados com uma única finalidade: serem presenteados aos filhos dos inimigos. O tempo passou, o Iglu foi invadido por sapos que cantam, livros que falam, caminhões que reproduzem o som da sirene dos bombeiros (pelo jeito, tem muita gente que me odeia) e não mudei de opinião.

Alguns brinquedos parecem uma invenção satânica. O Pacotinho de Tralhas tem um telefone que dispara "Hello, my friend" a cada vez que alguém passa perto, mesmo estando desligado. Você passa na ponta dos pés, com seu peso pluma, da sala para o escritório, mas o deslocamento mínimo de ar num raio de 800 km atiça os sensores super sensíveis e provoca a fala do disque-Chucky, numa voz esganiçada. "My friend?" E eu lá tenho amigo que fica escondido numa caixa num canto da sala, só para piscar as luzes e falar no meio da madrugada? Inútil pensar que as pilhas algum dia ficam fracas. Depois do apocalipse, sobreviverão escorpiões, baratas e as pilhas dos brinquedos faladores.

As regras atuais de segurança deixam passar o chumbo na tinta dos brinquedos fabricados na China, mas quem consegue tirar um caminhão movido a pilha da embalagem original e deixá-lo pronto para brincar sem ter uma caixa de ferramentas à mão? É preciso achar a chave de fenda para abrir o compartimento das pilhas, enquanto a criança chora e pergunta "abiu? abiu?", o Pai da Criança Ansiosa não sabe onde está a caixa de ferramentas (só encontra martelos e alicates, sabidamente inúteis), a Mãe Prática decide ligar para o vizinho e pedir uma chave de fenda emprestada, o Pai Ferido no Seu Orgulho ataca com sua chavinha de parafusar os óculos assim que a Mãe fala com a esposa do vizinho, tudo para evitar que o amigo descubra que ele não sabe onde estão suas ferramentas em casa. Depois é preciso convencer a criança de que a brincadeira não consiste em ficar abrindo e fechando a portinha das pilhas com a chave de fenda. Se foi tanto auê para conseguir a chave de fenda, quem liga para o brinquedo?

Cada pobre boneca hoje em dia vem quase degolada na caixa, enforcada por elásticos apertados em todas as juntas. E quando o Pacotinho de Obsessão por Meios de Transporte escolhe um tratorzinho minúsculo de 2,99 (a vantagem começa e termina no preço) para levar para casa, inicia-se um drama regado a lágrimas, ainda na loja. Como um brinquedo tão pequeno pode estar lacrado de forma que um adulto leve quinze minutos para tirá-lo das caixinhas (eram duas, com meio rolo de fita adesiva em cada lado, sem contar as dezenas de elásticos e o Marido Gringo não tem lá as mãos mais rápidas da costa oeste)?

É preciso cuidado na hora de comprar os brinquedos, porque alguns podem destruir um casamento. Quando a Mãe aparece com um CD player de brinquedo, o Pai decreta: "achei que tivéssemos um acordo contra brinquedos histéricos. Mais um desses e eu peço divórcio."

02 junho, 2008

Old MacDonald Had a Farm...

A mãe urbana e cosmopolita resolve que não vai criar seu filhinho gringo para ser igual a ela. Não chega ao cúmulo de levá-lo a um acampamento, dado seu passado dentro de uma barraca, mas encara um mini-zoológico de fazenda, tudo para que o menino não cresça achando que vacas só existem em figuras de livro.

E lá se vão os pais urbanos e o garotinho que ainda nem sabe o que isso significa, mas se tivesse que decidir agora, seria rural, que é mais divertido. Já pagam mico na entrada, comprando um pacotão de pipoca, que não pode ser levado além do portão de acesso porque, afinal de contas, vale a regra universal de "não alimentar os animais". Horrizada, ao sentir o cheiro característico de curral, Mamãe olha por onde pisa e pergunta-se porque veio de tamancos, já que nem verão de verdade é. Higiênico, o Pai Gringo avisa logo "precisamos lavar as mãos dele assim que sairmos daqui". Encantado, assim que vê os cabritos e galos, o Pacotinho de Descobertas Musicais e Rurais cantarola "ia-ia-iô" (o refrão da música do Old MacDonald, que era o único da turma a ter uma fazenda cheia daquelas criaturas) e corre para abraçar uma cabra.

Enquanto os pais perdem tempo discutindo se são bodes ou carneiros aqueles bichos chifrudos (eram cabras ou bodes, com certeza, mas o Pai Gringo jura que estavam sob uma placa que dizia "sheep", esquecendo-se de que os animais são analfabetos e capazes de locomoverem-se, não respeitando os limites das placas sobre suas cabeças), o Pacotinho Rural bate nas costas do bicho e diz "sit here, sit here". Não, certamente não se tratava de um cavalo e quanto a isso não havia dúvidas. O Pai Gringo só se deu por vencido quando viu um peru no curral onde a placa imensa dizia "cow".

Mamãe dá seu chilique básico, típico de uma pessoa criada em apartamento, "não deixe que ele fique abraçando a cabra por trás, que esses bichos dão coice". Para confirmar, pergunta à moça que toma conta do lugar (quanto será que ganha uma moça para limpar bosta de cabrito ou ovelha no Primeiro Mundo?) se bodes dão coice. Aprende que não dão, quem diria que um passeio simples assim poderia ser tão instrutivo? Bodes não dão coice, gente!

Frustrado por não poder pular a cerca e meter a mão na boca da vaquinha anã, o Pacotinho de Curiosidade diverte-se com os coelhos. "Bunny, cuelo". Mamãe vira o rosto para não ter faniquito diante do aquário das cobras. Papai dá um salto acrobático digno do Cirque du Soleil, diante da gaiola das tarântulas, quando uma pena de pato trazida pelo vento encosta na sua canela.

Feliz da vida, Papai Sanitário descobre um recipiente de antisséptico na saída e quase dá um banho na criança, que já tentava entrar no lago dos gansos.

E, como a máquina fotográfica estava esquecida na casa do avô, nem fotos para provarem sua proeza eles têm. Ai, vai que o menino não acredita que foi levado lá e quer repetir a dose?

15 setembro, 2007

No restaurante depois do neném

Aquela imagem do bebezinho sentado na cadeirinha do carro ou no carrinho, quietinho, olhando os pais comerem no restaurante já faz parte de um passado distante. Atualmente você olha com inveja para os pais cujo filho tem menos de 7 meses de idade, já que eles podem conversar enquanto comem e você, nem uma coisa nem outra.

Como você teve que fazer hora extra (ficou com pena da chefe, que não tinha ninguém para terminar a cirurgia cardíaca) e chegou tarde em casa, não teve tempo de fazer o jantar (quem manda não ter empregada ?). Aí você decide ir a um restaurante perto de casa, embora o Marido Preocupado tivesse achado impossível que o Pacotinho de Bons Modos fosse colaborar.

O trajeto até o restaurante é uma luta à parte, já que existe alguma regra subentendida no mundo dos bebês que dita "uma vez que aprende a caminhar, a criança tem o direito de não mais sentar no carrinho e de não ser carregada no colo, se assim desejar". E, a menos que você tenha uma princesinha comportada em casa, vai identificar a seguinte seqüência de eventos (embora a ordem dos tratores não altere o viaduto e talvez alguns itens estejam fora de ordem na sua experiência):

1. Chegam, a "hostess" (aqui tem esta frescura de não poder escolher onde sentar no restaurante, um dos costumes canadenses que eu mais abomino) sorri, brinca com o neném e encaminha sua família para a mesa mais afastada do estabelecimento. Se houvesse uma mesa dentro de uma bolha, seria lá mesmo, mas na falta, aquela lá do canto serve.

2. Ela traz o cadeirão para o neném e os cardápios, mas você ainda não pode pedir nada, porque ela não é a sua garçonete.

3. Seu filho começa a morder os cardápios, desenrolar os talheres, jogar tudo o que estiver ao alcance dele no chão, antes que você tenha tempo de esconder as coisas.

4. A garçonete traz 3 baldes de água repletos de cubos de gelo (a quantidade de gelo num copo é diretamente proporcional ao frio no país: no Brasil, colocam menos, no Canadá, quase não colocam bebida por cima da montanha de "icebergs"). Seu filho aponta e resmunga, você dá um canudo para ele, que o arremessa no chão, indignado. Ele quer enfiar a mão no copo, então você entrega uma pedra de gelo para ele sossegar e começa o drama: coloca uma na boca, cospe, ela cai dentro da camisa, você tira, ele chora porque quer outra, pega mais uma, morde até triturá-la, pega outra, cai na calça... Antes que a última pedra seja atacada, ele já está todo molhado e o chão idem. A mesa parece um chiqueiro, com guardanapos de papel mastigados e rasgados.

5. Muito antes de chegar a comida, a criança já está impaciente e você comete o desatino de colocá-la no chão para "gastar energia". Ela sai correndo, puxando assunto com os outros clientes. Os mais idosos sorriem, os mais jovens reviram os olhos, o gerente parece desesperado. Você tenta fingir que o filho não é seu, mas ele encontra a escada e seu instinto materno é mais forte, mas como a fome está maior ainda, você manda o marido atrás dele.

6. O casal na mesa ao lado, com uma bebezinha de no máximo 4 meses, quietinha no bebê conforto, ri e pensa "que pais incompetentes, olha a nossa filha, bem mais nova e já comportada".

7. Seu filho sobe a escada e lá em cima encontra algum tipo de Convenção da Terceira Idade. E sai falando alto, na língua que só ele entende (mas você reconhece cá do andar de baixo, na sua última mesa lá do canto). E faz o maior sucesso entre a galera de cabelos brancos. Se gostaram tanto dele, por que não o levaram para casa como fonte de entretenimento ?

8. Sua comida não chega, somente o que você pediu para o filhote. O marido volta à mesa, com aparência de quem perdeu uma luta de vale-tudo e tenta inutilmente colocar aquele cruzamento de polvo com jumento dando pinote dentro do cadeirão. Desiste, pede para você embrulhar a comida dele e trazê-la para casa.

9. O marido volta a pé com o menino, você pode tranqüilamente saborear sua refeição e não liga a mínima para o que vão pensar as pessoas na rua ao verem você empurrando um carrinho de bebê vazio no caminho de casa. Aliás, tem horas em que empurrar um carrinho vazio é tão mais divertido !

13 agosto, 2007

Amor de Pai - Segunda Parte

"Não é porque o seu filho de 3 anos comporta-se como um ser primitivo que isso dá a você o direito de agir da mesma forma".
(Dr. Harvey Karp - The Happiest Toddler on The Block)

Existem três grandes Chicos que eu admiro na vida: o santo amante dos animais, o Buarque de Hollanda e o meu filósofo pai.

Como disse um estudo recente , que concluiu que as mulheres com bom relacionamento com os próprios pais tendem a escolher maridos que se parecem com eles, não sou exceção. O Marido Gringo compartilha da mesma filosofia do meu pai de não criar filhos para o mundo, mas de criar filhos que se sintam amados, confiantes e seguros para transformar esse mundo doido num lugar melhor. Porque valores, limites e respeito podem e devem ser ensinados com exemplo e não com castigos físicos e humilhações. Porque os filhos não são propriedade dos pais, nem devem servir de válvula de escape para suas frustrações. Porque bater em criança é covardia e é crime passível de punição no Canadá. Porque ninguém tem o direito de minar a auto-estima de outrem. Porque não se deve almejar a obediência cega dos filhos, mas ensinar como discordar com respeito, dando a eles a oportunidade de mudar certas "verdades absolutas" (imagina Darwin ou Einstein sempre concordando com os mais velhos ?). Porque os filhos vêm também para que os pais revejam seus conceitos e tornem-se pessoas melhores. Porque a pérola "eu apanhei muito quando criança e não tenho traumas, então bato nos meus filhos" não tem qualquer valor estatístico, prova simplesmente que o interlocutor é mais um dentre os muitos que não souberam evoluir. Porque "mudança de paradigmas" não é apenas uma frase de impacto para ser usada na reunião de trabalho. Porque ninguém disse que criar filhos felizes é uma tarefa fácil. Porque é necessário ser criativo na hora de educar. Porque a Super Nanny não tem envolvimento emocional algum com as crianças que ela recomenda serem deixadas chorando para aprenderem a dormir sozinhas, mas os pais sim. Porque, como disse um santo Chico muito sábio: "é dando que se recebe". E porque, se nada disso fosse suficiente, são os filhos quem vão escolher o nosso asilo e, no final da vida, as necessidades humanas são muito semelhantes às que temos no início dela. Graças ao Pai do Céu, o meu pai já sabia de tudo isso, antes que o genial Dr. Sears cunhasse a expressão "attachment parenting".

P.S.: Se eu sou a favor das palmadas educativas ? Claro que sim ! Já estou planejando em dar umas na minha chefe, que me colocou de plantão o final de semana inteiro. Também é uma ótima forma de educar o marido que deixa a tolha molhada em cima da cama. Ah, é para crianças ? Sou contra. Pelo menos procure bater em alguém do seu tamanho !