Aquela imagem do bebezinho sentado na cadeirinha do carro ou no carrinho, quietinho, olhando os pais comerem no restaurante já faz parte de um passado distante. Atualmente você olha com inveja para os pais cujo filho tem menos de 7 meses de idade, já que eles podem conversar enquanto comem e você, nem uma coisa nem outra.
Como você teve que fazer hora extra (ficou com pena da chefe, que não tinha ninguém para terminar a cirurgia cardíaca) e chegou tarde em casa, não teve tempo de fazer o jantar (quem manda não ter empregada ?). Aí você decide ir a um restaurante perto de casa, embora o Marido Preocupado tivesse achado impossível que o Pacotinho de Bons Modos fosse colaborar.
O trajeto até o restaurante é uma luta à parte, já que existe alguma regra subentendida no mundo dos bebês que dita "uma vez que aprende a caminhar, a criança tem o direito de não mais sentar no carrinho e de não ser carregada no colo, se assim desejar". E, a menos que você tenha uma princesinha comportada em casa, vai identificar a seguinte seqüência de eventos (embora a ordem dos tratores não altere o viaduto e talvez alguns itens estejam fora de ordem na sua experiência):
1. Chegam, a "hostess" (aqui tem esta frescura de não poder escolher onde sentar no restaurante, um dos costumes canadenses que eu mais abomino) sorri, brinca com o neném e encaminha sua família para a mesa mais afastada do estabelecimento. Se houvesse uma mesa dentro de uma bolha, seria lá mesmo, mas na falta, aquela lá do canto serve.
2. Ela traz o cadeirão para o neném e os cardápios, mas você ainda não pode pedir nada, porque ela não é a sua garçonete.
3. Seu filho começa a morder os cardápios, desenrolar os talheres, jogar tudo o que estiver ao alcance dele no chão, antes que você tenha tempo de esconder as coisas.
4. A garçonete traz 3 baldes de água repletos de cubos de gelo (a quantidade de gelo num copo é diretamente proporcional ao frio no país: no Brasil, colocam menos, no Canadá, quase não colocam bebida por cima da montanha de "icebergs"). Seu filho aponta e resmunga, você dá um canudo para ele, que o arremessa no chão, indignado. Ele quer enfiar a mão no copo, então você entrega uma pedra de gelo para ele sossegar e começa o drama: coloca uma na boca, cospe, ela cai dentro da camisa, você tira, ele chora porque quer outra, pega mais uma, morde até triturá-la, pega outra, cai na calça... Antes que a última pedra seja atacada, ele já está todo molhado e o chão idem. A mesa parece um chiqueiro, com guardanapos de papel mastigados e rasgados.
5. Muito antes de chegar a comida, a criança já está impaciente e você comete o desatino de colocá-la no chão para "gastar energia". Ela sai correndo, puxando assunto com os outros clientes. Os mais idosos sorriem, os mais jovens reviram os olhos, o gerente parece desesperado. Você tenta fingir que o filho não é seu, mas ele encontra a escada e seu instinto materno é mais forte, mas como a fome está maior ainda, você manda o marido atrás dele.
6. O casal na mesa ao lado, com uma bebezinha de no máximo 4 meses, quietinha no bebê conforto, ri e pensa "que pais incompetentes, olha a nossa filha, bem mais nova e já comportada".
7. Seu filho sobe a escada e lá em cima encontra algum tipo de Convenção da Terceira Idade. E sai falando alto, na língua que só ele entende (mas você reconhece cá do andar de baixo, na sua última mesa lá do canto). E faz o maior sucesso entre a galera de cabelos brancos. Se gostaram tanto dele, por que não o levaram para casa como fonte de entretenimento ?
8. Sua comida não chega, somente o que você pediu para o filhote. O marido volta à mesa, com aparência de quem perdeu uma luta de vale-tudo e tenta inutilmente colocar aquele cruzamento de polvo com jumento dando pinote dentro do cadeirão. Desiste, pede para você embrulhar a comida dele e trazê-la para casa.
9. O marido volta a pé com o menino, você pode tranqüilamente saborear sua refeição e não liga a mínima para o que vão pensar as pessoas na rua ao verem você empurrando um carrinho de bebê vazio no caminho de casa. Aliás, tem horas em que empurrar um carrinho vazio é tão mais divertido !