"Mas quando o nenê fica doente
Procura uma farmácia de plantão
O choro do nenê é estridente
Assim não dá para ver televisão
Família ê, família á, família."
(Tony Bellotto & Arnaldo Antunes)
Algumas pessoas ficaram surpresas com o comentário de que recém-nascidos gostam de barulhos rítmicos, repetitivos e abafados. Teve gente que pensou até que eles gostassem de silêncio absoluto ! Eles passaram 9 meses (ou 10, porque se 39 semanas e 5 dias são nove meses, eu não sei fazer conta) ouvindo constantemente o som do coração, do estômago roncando e dos intestinos dentro do ventre materno. Quando estão do lado de fora, sentem-se melhor quando há algo familiar no ambiente. O que é familiar para alguém que acabou de chegar ao mundo ? O que ele tinha no mundo anterior, no útero.
Li vários livros sobre como acalmar bebês (5 semanas de repouso absoluto no final da gravidez deram para colocar a leitura em dia), mas o meu favorito foi "The Happiest Baby on The Block", que acredito no Brasil ter sido traduzido sob o título "O Bebê Mais Feliz do Pedaço". Ele prega que não existem cólicas, o que existe é um bebê que está nervoso porque não se sente à vontade no novo ambiente. Segundo ele, em várias culturas não há nem uma palavra que explique "cólica de recém-nascido", porque os bebês lá não sofrem disso. Ele recomenda alguns métodos para acalmar o bebê, que têm dado muito certo aqui em casa, inclusive em dia de vitória da Argentina:
- Swaddle - enrolar o bebê, com os braços colados ao corpo, num cobertor bem apertado. Ele não tinha espaço para se mexer no útero e detesta ficar com os braços abertos, exposto ao ambiente.
- White Noise - um barulho rítmico e constante, tipo "shhhhh", no ouvido do neném. Quanto mais alto o choro, mais alto tem que ser o "shhhhh". Melhor ainda é ligar um aspirador de pó ou secador de cabelo e deixá-lo ligado até ele se acalmar (aqui em casa, normalmente em menos de 3 minutos o truque já surte efeito).
- Rocking - balançar o bebê. Novamente, quanto mais forte o choro, mais forte tem que ser o balanço. Eles preferem movimentos de baixo para cima ao invés de um lado para o outro, porque no útero era assim que eles se mexiam quando a mãe andava ou subia escadas. Uma bola gigante de plástico é o ideal para sentar com o bebê no colo e quicar de cima para baixo.
- Sucking - aí entra a controvérsia. O autor recomenda uma chupeta, porque o bebê tem necessidade de sugar. Eu o coloco no peito sempre que ele chora, aí ele se acalma. Não gosto de chupetas, mas segundo a Santa Irmã Experiente, vou mudar de idéia se ele começar a chorar descontroladamente. Até agora, estamos levando sem ela.
Uma outra dica ótima é um "sling", aquela rede de carregar o neném junto ao corpo. Eles gostam de ficar perto da gente, ouvir o coração e sentir o calorzinho do corpo.
De dia, é bom deixar o neném dormir no claro, perto de todos os barulhos da casa. Nenhum barulho externo acorda um recém-nascido, que só desperta por razões internas: fome, frio, dor... Então é bom ensiná-lo que o sono do dia é diferente do da noite. De noite, se ele acordar para mamar, é melhor não conversar com ele, para não estimulá-lo, não acender a luz e só trocar fralda se houver o número 2. De número 1, fralda descartável cuida. Há controvérsias, mas eu não acordo meu neném para mamar de noite.
Como o Pacotinho de Alegria do Iglu só tem 12 dias, não dá para dizer que ele "é" isso ou aquilo. Ele ainda "está" isso ou aquilo. Ele está muito bonzinho. Faz cinco noites que dorme seis horas seguidas. Os métodos do Dr. Cujo Nome Esqueci do livro mencionado estão funcionando bem. Crises de choro têm sido muito raras.
O Crônicas do Iglu, além de cultura, agora também é puericultura !
30 junho, 2006
28 junho, 2006
Do Iglu para o Xingu
"Aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação.
Nos dias que tem comida,comemos comida com a mão.
E quando a polícia, a doença, a distância ou alguma discussão
Nos separam de um irmão,
Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração. Mas não choramos à toa,
Não choramos à toa
Aqui nessa tribo ninguém quer a sua catequização.
Falamos a sua língua mas não entendemos seu sermão. Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão
Mas não sorrimos à toa.
Não sorrimos à toa.
Aqui nesse barco ninguém quer a sua orientação.
Não temos perspectiva, mas o vento nos dá a direção.
A vida que vai à deriva é a nossa condução.
Mas não seguimos à toa
Não seguimos à toa.
Volte para o seu lar,
Volte para lá."
(Arnaldo Antunes)
O Iglu mudou muito com a chegada do novo hóspede, que pretende estender sua estadia por pelo menos duas décadas. Hoje faz uma semana que trouxemos nosso "Bundle of Joy" (pacotinho de alegria, como dizem por aqui) para casa. E como as coisas mudaram !
Em primeiro lugar, agora isso aqui se parece mais com o Xingu do que com o Iglu. As janelas estão eternamente abertas, porque o novo hóspede é um gringuinho, vive suado. Minha irmã disse que nem no Rio de Janeiro um recém-nascido estaria assim, sempre de pernas e braços de fora. A grande preocupação da enfermeira (santa ajuda) que vem aqui em casa toda semana é que a gente esteja "overheating" (superaquecendo) o neném. Mamãe também (quem diria !) sua profusamente, por todo o calor que não sentiu na gravidez ou no resto da vida. É que finalmente é verão aqui e aquela cinta pós-parto é tão quente que estou até pensando em dormir com ela no inverno.
Há sempre um paninho, uma fraldinha de limpar a boca, uma meinha perdida pela casa. Um carrinho gigante estacionado na entrada e outros presentes trambolhentos em caixas, porque ele não precisa de uma cadeirinha de refeição até aprender a sentar e deixar de mamar no peito, mas quem conhece a minha amiga que deu a cadeirinha a ele, sabe que foi um lucro ela ter concordado em não fazer a entrega ainda no hospital. Como a Santa Irmã Organizada está aqui, graças a Deus, não perdemos o neném. Aliás, meu novo lema é: "Irmã: todo o mundo deveria ter uma."
Há uma panela eternamente fervendo água no fogão. Não é feijão, é uma sopa das partes da bomba de tirar leite, conchinhas de silicone para amamentação e por aí vai. A máquina de lavar e a secadora também permanecem perpetuamente ligadas, uma quantidade sem fim de roupa suja. Há na sala um secador de cabelos, ligado durante as crises de choro. É que recém-nascido adora um barulho de secador, aspirador de pó ou algo do tipo (lembram os ruídos do coração e dos intestinos, que ele ouvia no ventre materno). É o ruído tribal mais comum aqui no Xingu.
No mais, a visão do Xingu completa-se com a de uma índia, eternamente arejando e tomando sol nos peitos na janela (para não rachar). Ontem mesmo o Marido Gringo, que não está acostumado a isso, perguntou:
"Por que você fica aí se expondo na janela ?"
"Eu preciso tomar sol nos peitos e os vizinhos da frente já estão cansados de vê-los todo santo dia, então vim para o escritório. Resolvi dar uma chance para os vizinhos do prédio ao lado também... E não estou nem aí para o que eles pensam !!!"
PS: Quanto à música do Arnaldo Antunes, nós choramos à toa aqui no Xingu, sim. No segundo dia no hospital, o Novo Pai foi comprar almoço para a Mãe Chata Que Não Come Comida de Hospital e voltou chorando. Por quê ? Ficou com saudade do neném... Depois é só mulher que tem "post partum blues"... Claro que isso foi antes de o neném começar a chorar de noite, depois daquele jogo da Argentina. Também sorrimos à toa, basta o neném bocejar ou fazer uma cara de bravo. Até fotografamos à toa !
Nos dias que tem comida,comemos comida com a mão.
E quando a polícia, a doença, a distância ou alguma discussão
Nos separam de um irmão,
Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração. Mas não choramos à toa,
Não choramos à toa
Aqui nessa tribo ninguém quer a sua catequização.
Falamos a sua língua mas não entendemos seu sermão. Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão
Mas não sorrimos à toa.
Não sorrimos à toa.
Aqui nesse barco ninguém quer a sua orientação.
Não temos perspectiva, mas o vento nos dá a direção.
A vida que vai à deriva é a nossa condução.
Mas não seguimos à toa
Não seguimos à toa.
Volte para o seu lar,
Volte para lá."
(Arnaldo Antunes)
O Iglu mudou muito com a chegada do novo hóspede, que pretende estender sua estadia por pelo menos duas décadas. Hoje faz uma semana que trouxemos nosso "Bundle of Joy" (pacotinho de alegria, como dizem por aqui) para casa. E como as coisas mudaram !
Em primeiro lugar, agora isso aqui se parece mais com o Xingu do que com o Iglu. As janelas estão eternamente abertas, porque o novo hóspede é um gringuinho, vive suado. Minha irmã disse que nem no Rio de Janeiro um recém-nascido estaria assim, sempre de pernas e braços de fora. A grande preocupação da enfermeira (santa ajuda) que vem aqui em casa toda semana é que a gente esteja "overheating" (superaquecendo) o neném. Mamãe também (quem diria !) sua profusamente, por todo o calor que não sentiu na gravidez ou no resto da vida. É que finalmente é verão aqui e aquela cinta pós-parto é tão quente que estou até pensando em dormir com ela no inverno.
Há sempre um paninho, uma fraldinha de limpar a boca, uma meinha perdida pela casa. Um carrinho gigante estacionado na entrada e outros presentes trambolhentos em caixas, porque ele não precisa de uma cadeirinha de refeição até aprender a sentar e deixar de mamar no peito, mas quem conhece a minha amiga que deu a cadeirinha a ele, sabe que foi um lucro ela ter concordado em não fazer a entrega ainda no hospital. Como a Santa Irmã Organizada está aqui, graças a Deus, não perdemos o neném. Aliás, meu novo lema é: "Irmã: todo o mundo deveria ter uma."
Há uma panela eternamente fervendo água no fogão. Não é feijão, é uma sopa das partes da bomba de tirar leite, conchinhas de silicone para amamentação e por aí vai. A máquina de lavar e a secadora também permanecem perpetuamente ligadas, uma quantidade sem fim de roupa suja. Há na sala um secador de cabelos, ligado durante as crises de choro. É que recém-nascido adora um barulho de secador, aspirador de pó ou algo do tipo (lembram os ruídos do coração e dos intestinos, que ele ouvia no ventre materno). É o ruído tribal mais comum aqui no Xingu.
No mais, a visão do Xingu completa-se com a de uma índia, eternamente arejando e tomando sol nos peitos na janela (para não rachar). Ontem mesmo o Marido Gringo, que não está acostumado a isso, perguntou:
"Por que você fica aí se expondo na janela ?"
"Eu preciso tomar sol nos peitos e os vizinhos da frente já estão cansados de vê-los todo santo dia, então vim para o escritório. Resolvi dar uma chance para os vizinhos do prédio ao lado também... E não estou nem aí para o que eles pensam !!!"
PS: Quanto à música do Arnaldo Antunes, nós choramos à toa aqui no Xingu, sim. No segundo dia no hospital, o Novo Pai foi comprar almoço para a Mãe Chata Que Não Come Comida de Hospital e voltou chorando. Por quê ? Ficou com saudade do neném... Depois é só mulher que tem "post partum blues"... Claro que isso foi antes de o neném começar a chorar de noite, depois daquele jogo da Argentina. Também sorrimos à toa, basta o neném bocejar ou fazer uma cara de bravo. Até fotografamos à toa !
26 junho, 2006
Contrariando as Expectativas
Contrariando as expectativas de sua chegada prematura, ele decidiu vir ao mundo com 39 semanas e 5 dias de gestação, no dia 18 de junho, às 14:48. Se o médico tivesse mantido a idéia inicial de uma cesárea eletiva, ele teria nascido dia 13 de junho, dia de jogo do Brasil. Ele decidiu chegar no dia do outro jogo do Brasil e Dia dos Pais aqui no Canadá.
Contrariando as expectativas de que eu, por ser magra, de quadris estreitos, com um mioma grande, geraria um bebê pequeno, ele chegou pesando 3,820g e medindo inacreditáveis 56 cm. Não, eu não estava diabética. É que a fábrica aqui é muito boa, mas o sistema de entrega deixou muito a desejar.
O trabalho de parto durou eternas e traumatizantes 12 horas. De normal, meu parto só teve o neném. Um herói, que depois de 12 horas de bolsa rota, mergulhado em mecônio, arrancado do útero com a truculência de fórceps, enquanto eu tinha inúmeros efeitos colaterais da anestesia e estava paralisada do peito para baixo, teve Apgar de 9 e 9. Absolutamente perfeito, choro forte, nenhum arranhão no rosto nem hematoma e bochechas de criança de 2 meses de vida. Não vou entrar nos detalhes grotescos, porque reviver e chorar por tudo pela milésima vez está sendo desgastante e, além disso, desde quando a turma do Iglu fica assustando os outros ? Aqui em casa, o marido já proibiu as visitas de tocar no assunto, antes que eu chore até desidratar.
Contrariando as expectativas de que a recuperação de um parto normal é mais rápida que de uma cesárea, tive laceração de terceiro grau (você não sabe o que é isso ? Sorte sua !), levei 3 dias para conseguir mexer na cama sem ajuda, mais 5 dias para conseguir sentar e, desde então, tenho sentado numa bóia redonda com furo no meio.
As pessoas descrevem os primeiros dias da maternidade como uma fase em que você está deslumbrada com o neném, o que é verdade. Só que esquecem de mencionar o outro lado. Quando de um dia para o outro, você se transforma de uma grávida bonita, com uma barriga linda que provocava comentários gentis em uma mulher amarela (isso porque tomei transfusão de sangue), eternamente lacrimosa e faminta, de olheiras profundas, barriga flácida que nem é de grávida nem de gorda, até a falta de manteiga na geladeira pode provocar uma crise de choro. Imaginem os rios de lágrimas que provocam os comentários que tive que ouvir: "ainda bem que não foi cesárea", "é só olhar pro neném que você esquece de tudo", "o pior já passou, agora é só alegria", "você tem que dar graças a Deus que o hospital tinha um quarto confortável" (sim, até isso !). Como ninguém que está sentado confortavelmente no próprio traseiro tem o direito de me dizer como eu me sinto, sentadinha com dificuldade na minha onipresente amiga Câmara de Pneu, serão sumariamente executados sem qualquer aviso todos os que fizerem qualquer tipo de comentário nessa linha. Portanto, salve um bebê inocente. Não mande a mãe dele para a cadeia, por ela ter sido forçada a cometer um assassinato merecido de uma pessoa com palpites infelizes.
Contrariando as expectativas, já que lá em casa temos o sangue forte e compartilhamos todos as mesmas características físicas, inclusive a nova geração (os filhos da minha irmã), meu neném é branquinho, tem a cara, a testa, as bochechas, os olhinhos apertados, o furinho no queixo e o apetite do pai (pelo andar da carruagem, logo logo vai ter o peso dele também). Sorte dele, que depois do que passei e ainda estou passando, outro neném aqui no Iglu, só se comprarmos pronto. A produção caseira de crianças saídas da minha barriga está encerrada. Nos 4 dias em que passei internada, meu médico pediu desculpas inúmeras vezes e disse que, se todas as mulheres que dissessem isso cumprissem a promessa, ele teria que mudar de ramo. É, no dos outros é refresco...
Em tempo: meu filho é LINDO, bonzinho, mama feito um reloginho e dorme o resto do tempo, mas não tem a capacidade de me provocar amnésia. MENTIRA que é só olhar pro neném que a gente esquece tudo o que passou, principalmente quando ainda não é passado.
Graças a Deus, tenho leite em profusão e nenhum problema para amamentar (desde que sentada na minha almofadinha especial). Não há paz maior do que a de uma criança saciada pelo leite materno, profundamente adormecida nos braços da mãe. Não há satisfação maior do que a de ver o bebê que crescia dentro de você agora crescendo do lado de fora, mas graças a você.
Conforme as minhas expectativas, o Indeciso Pai da Criança só decidiu o nome do filho após uma semana do nascimento, mas no dia seguinte mudou de idéia e já mandei registrá-lo hoje antes que mude de novo. É Daniel ! Ele já é torcedor fanático da Seleção Brasileira, inclusive não é de chorar, mas ficou resmungando ontem de noite e descobrimos que não era cólica, era porque a Argentina venceu o México...
Contrariando as expectativas de que eu, por ser magra, de quadris estreitos, com um mioma grande, geraria um bebê pequeno, ele chegou pesando 3,820g e medindo inacreditáveis 56 cm. Não, eu não estava diabética. É que a fábrica aqui é muito boa, mas o sistema de entrega deixou muito a desejar.
O trabalho de parto durou eternas e traumatizantes 12 horas. De normal, meu parto só teve o neném. Um herói, que depois de 12 horas de bolsa rota, mergulhado em mecônio, arrancado do útero com a truculência de fórceps, enquanto eu tinha inúmeros efeitos colaterais da anestesia e estava paralisada do peito para baixo, teve Apgar de 9 e 9. Absolutamente perfeito, choro forte, nenhum arranhão no rosto nem hematoma e bochechas de criança de 2 meses de vida. Não vou entrar nos detalhes grotescos, porque reviver e chorar por tudo pela milésima vez está sendo desgastante e, além disso, desde quando a turma do Iglu fica assustando os outros ? Aqui em casa, o marido já proibiu as visitas de tocar no assunto, antes que eu chore até desidratar.
Contrariando as expectativas de que a recuperação de um parto normal é mais rápida que de uma cesárea, tive laceração de terceiro grau (você não sabe o que é isso ? Sorte sua !), levei 3 dias para conseguir mexer na cama sem ajuda, mais 5 dias para conseguir sentar e, desde então, tenho sentado numa bóia redonda com furo no meio.
As pessoas descrevem os primeiros dias da maternidade como uma fase em que você está deslumbrada com o neném, o que é verdade. Só que esquecem de mencionar o outro lado. Quando de um dia para o outro, você se transforma de uma grávida bonita, com uma barriga linda que provocava comentários gentis em uma mulher amarela (isso porque tomei transfusão de sangue), eternamente lacrimosa e faminta, de olheiras profundas, barriga flácida que nem é de grávida nem de gorda, até a falta de manteiga na geladeira pode provocar uma crise de choro. Imaginem os rios de lágrimas que provocam os comentários que tive que ouvir: "ainda bem que não foi cesárea", "é só olhar pro neném que você esquece de tudo", "o pior já passou, agora é só alegria", "você tem que dar graças a Deus que o hospital tinha um quarto confortável" (sim, até isso !). Como ninguém que está sentado confortavelmente no próprio traseiro tem o direito de me dizer como eu me sinto, sentadinha com dificuldade na minha onipresente amiga Câmara de Pneu, serão sumariamente executados sem qualquer aviso todos os que fizerem qualquer tipo de comentário nessa linha. Portanto, salve um bebê inocente. Não mande a mãe dele para a cadeia, por ela ter sido forçada a cometer um assassinato merecido de uma pessoa com palpites infelizes.
Contrariando as expectativas, já que lá em casa temos o sangue forte e compartilhamos todos as mesmas características físicas, inclusive a nova geração (os filhos da minha irmã), meu neném é branquinho, tem a cara, a testa, as bochechas, os olhinhos apertados, o furinho no queixo e o apetite do pai (pelo andar da carruagem, logo logo vai ter o peso dele também). Sorte dele, que depois do que passei e ainda estou passando, outro neném aqui no Iglu, só se comprarmos pronto. A produção caseira de crianças saídas da minha barriga está encerrada. Nos 4 dias em que passei internada, meu médico pediu desculpas inúmeras vezes e disse que, se todas as mulheres que dissessem isso cumprissem a promessa, ele teria que mudar de ramo. É, no dos outros é refresco...
Em tempo: meu filho é LINDO, bonzinho, mama feito um reloginho e dorme o resto do tempo, mas não tem a capacidade de me provocar amnésia. MENTIRA que é só olhar pro neném que a gente esquece tudo o que passou, principalmente quando ainda não é passado.
Graças a Deus, tenho leite em profusão e nenhum problema para amamentar (desde que sentada na minha almofadinha especial). Não há paz maior do que a de uma criança saciada pelo leite materno, profundamente adormecida nos braços da mãe. Não há satisfação maior do que a de ver o bebê que crescia dentro de você agora crescendo do lado de fora, mas graças a você.
Conforme as minhas expectativas, o Indeciso Pai da Criança só decidiu o nome do filho após uma semana do nascimento, mas no dia seguinte mudou de idéia e já mandei registrá-lo hoje antes que mude de novo. É Daniel ! Ele já é torcedor fanático da Seleção Brasileira, inclusive não é de chorar, mas ficou resmungando ontem de noite e descobrimos que não era cólica, era porque a Argentina venceu o México...
01 junho, 2006
A Desempregada
Eu definitivamente não sou como tantas outras pessoas, que foram Cleópatra em vidas passadas ou alguém assim de renome mundial. Eu devo ter sido daquelas que, como diz uma amiga virtual, bateu bife na tábua dos Dez Mandamentos, jogou pedra na cruz e ainda limpou os pés no Sudário, porque não é possível !
Estou eu, calma e tranqüilamente assistindo a um vídeo, quando toca o telefone e posso ver que é do Human Resources Department of Canada, ou seja, coisa boa não pode ser:
- Você deu entrada no seguro-desemprego recentemente ?
- Licença-maternidade. Dei entrada há três semanas.
- Eu não sei os detalhes, mas alguns dados estão conflitantes e é preciso que você prove a sua identidade, para termos certeza de que não é uma fraude. Para quando seu parto está previsto ?
- Para qualquer hora.
- Se você quiser passar aqui DEPOIS do parto, a gente corrige. Por enquanto, seu processo está parado.
- Mas aí não vou receber nunca o dinheiro.
- Vai sim, só que vai atrasar.
(é uma merreca e ainda vai atrasar !!!!)
- Então eu vou aí hoje mesmo. O que preciso levar ?
- O cartão de residente permanente.
(claro que é aquele que o Marido com Pregnancy Brain perdeu a semana passada, cuja segunda via deve demorar 6 semanas para chegar)
Depois de muita conversa, o rapaz teve um ataque de bom senso e resolveu aceitar outros documentos. E lá vou eu até o outro lado da cidade, ficar em fila grande, para provar que sou quem sou e receber o "seguro-desemprego", depois de cinco anos no mesmo emprego e sem estar desempregada. Coisas do Primeiro Mundo...
O cara viu que eu não tinha cara de fraudadora, aliás é bem óbvio que ando mais com tendência para fraldas do que para fraudes. Claro que tive que dar entrada em tudo novamente, ficando uma hora em frente ao computador, tentando calcular o salário semanal, esforçando-me para lembrar todos os feriados em que não trabalhei e recebi, fora os dias em que faltei por estar de licença-médica, o salário da última semana de trabalho e mais oitocentos dados. "Eles não poderiam ter pego tais dados com o empregador ?" O lema da burocracia é: se é possível complicar, para que facilitar ? Como não há um documento impresso, não pude nem copiar dos cálculos que tinha feito da vez passada. E, depois de uma hora, aparece na tela do computador: "Você tem que comunicar o HRDC quando seu filho nascer".
E eu pergunto ao funcionário o que preciso fazer, como comunicar oficialmente o nascimento da criança. E ele:
- Mas quem falou isso ?
- Está escrito na tela do computador.
E, numa resposta típica canadense:
- Não sei. Pergunte àquela moça ali, no outro balcão.
Claro que ela também nunca tinha ouvido falar nisso e tive que pesquisar eu mesma, afinal de contas, devo ser a primeira e única mulher no país a entrar de licença-maternidade e a fazer tal pergunta aos funcionários que trabalham com isso.
Agora é esperar mais duas ou três semanas para ver o que eles vão alegar por não terem depositado o dinheiro na conta...
Estou eu, calma e tranqüilamente assistindo a um vídeo, quando toca o telefone e posso ver que é do Human Resources Department of Canada, ou seja, coisa boa não pode ser:
- Você deu entrada no seguro-desemprego recentemente ?
- Licença-maternidade. Dei entrada há três semanas.
- Eu não sei os detalhes, mas alguns dados estão conflitantes e é preciso que você prove a sua identidade, para termos certeza de que não é uma fraude. Para quando seu parto está previsto ?
- Para qualquer hora.
- Se você quiser passar aqui DEPOIS do parto, a gente corrige. Por enquanto, seu processo está parado.
- Mas aí não vou receber nunca o dinheiro.
- Vai sim, só que vai atrasar.
(é uma merreca e ainda vai atrasar !!!!)
- Então eu vou aí hoje mesmo. O que preciso levar ?
- O cartão de residente permanente.
(claro que é aquele que o Marido com Pregnancy Brain perdeu a semana passada, cuja segunda via deve demorar 6 semanas para chegar)
Depois de muita conversa, o rapaz teve um ataque de bom senso e resolveu aceitar outros documentos. E lá vou eu até o outro lado da cidade, ficar em fila grande, para provar que sou quem sou e receber o "seguro-desemprego", depois de cinco anos no mesmo emprego e sem estar desempregada. Coisas do Primeiro Mundo...
O cara viu que eu não tinha cara de fraudadora, aliás é bem óbvio que ando mais com tendência para fraldas do que para fraudes. Claro que tive que dar entrada em tudo novamente, ficando uma hora em frente ao computador, tentando calcular o salário semanal, esforçando-me para lembrar todos os feriados em que não trabalhei e recebi, fora os dias em que faltei por estar de licença-médica, o salário da última semana de trabalho e mais oitocentos dados. "Eles não poderiam ter pego tais dados com o empregador ?" O lema da burocracia é: se é possível complicar, para que facilitar ? Como não há um documento impresso, não pude nem copiar dos cálculos que tinha feito da vez passada. E, depois de uma hora, aparece na tela do computador: "Você tem que comunicar o HRDC quando seu filho nascer".
E eu pergunto ao funcionário o que preciso fazer, como comunicar oficialmente o nascimento da criança. E ele:
- Mas quem falou isso ?
- Está escrito na tela do computador.
E, numa resposta típica canadense:
- Não sei. Pergunte àquela moça ali, no outro balcão.
Claro que ela também nunca tinha ouvido falar nisso e tive que pesquisar eu mesma, afinal de contas, devo ser a primeira e única mulher no país a entrar de licença-maternidade e a fazer tal pergunta aos funcionários que trabalham com isso.
Agora é esperar mais duas ou três semanas para ver o que eles vão alegar por não terem depositado o dinheiro na conta...
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