"Filhotinho,
Esta semana os famosos
terrible twos atingiram você (e a família toda) em cheio. Sem exagero, você chorou mais nesta última semana que nos dois meses e meio em que passamos de férias no Brasil, durante os seus saudosos tempos de bebê. Não são longos acessos de birra, mas dois minutos deitado com a cara no chão parecem ter virado parte da sua vida. Implicou com certas roupas e recusa-se terminantemente a vesti-las. Se por acaso aceita vestir num momento de distração, assim que percebe, arranca a roupa revoltado. Os vizinhos devem achar que estamos fritando-o em óleo quente quando na verdade é só uma infrutífera tentativa de vestir uma calça ou bermuda jeans. Por outro lado, você usa sem reclamar bermudas e calças de qualquer outro tecido ou cor. Encasquetou com um par de havaianas mandados pela sua tia e só sai de casa calçado com elas, chova ou faça sol. Aliás, você tem três pares, mas quando percebe que vamos sair, já vem correndo para a porta e gritando "geen, geen, amauelo não", avisando que só usa as verdes.
Seu tio do Brasil passou dez dias aqui em casa. Foi amor à primeira vista, você já acordava de manhã perguntando "cadê a Tio?". Você costuma colocar "a" antes de todas palavras, femininas ou não.
Você fala bastante, caminha pela casa fazendo perguntas e respondendo a si mesmo. Suas frases mais comuns atualmente são "look at that", "it's over there" e hoje, quando avistou as malas do tio em pé no corredor e não o viu, comentou "he's gone alweady" (você pronuncia o R no meio da palavra como "w" ou "u", se for português).
Você entende frases longas e complexas em português, inglês e servo-croata, mas parece falar sempre em inglês quando está conversando sozinho. Outro dia estava falando com a mão na boca, pedindo algo que ninguém entendia. "Épo, épo", aí Mamãe perguntou se era maçã e você disse "yeah".
Nem sapos e passarinhos ficam tão felizes quanto você quando avistam formigas e mosquitos. "Momiga", "mostico" e "boboueta" são pronunciados num tom tão excitado que parece até que alguém o paga por cada exemplar encontrado. Você adora correr atrás dos passarinhos e sempre fica decepcionado quando eles voam antes que os alcance. Diz "paainho all gone, foi embóua". Você gosta de chamar os animais no diminutivo, talvez tenha aprendido assim na creche. Diz "birdie, doggy, piggy".
Você muda o tom de voz, usa o modo "meloso" para pedir algo que tem pouca esperança de conseguir. Na hora de dormir, faz o sinal de pequeno com a mão e pergunta num tom agudo "pouquinho Dódi?" (George, só um pouquinho?). Curious George é seu desenho favorito, mas você curte mesmo Mighty Machines, principalmente os episódios que mostram tratores, guindastes e escavadeiras amarelas.
Esta semana você deu um susto. Como você sempre fica impaciente porque seu pai leva séculos para conseguir sair de casa, Mamãe abriu a porta para você dar uma corridinha do lado de fora. Depois de alguns segundos sem ouvir a sua voz (muito conveniente o fato de você falar sozinho), Mamãe foi procurá-lo. Você já tinha chamado o elevador, ele havia chegado e você não estava lá. Seu pai ficou em pânico, rapidamente desceu as escadas atrás de você (Mamãe pensa em começar a usar este golpe como desculpa para apressá-lo), mas aí um dos elevadores voltou e estava lá dentro um certo garotinho peralta.
Sua memória continua fenomenal. Basta irmos uma vez a um lugar que, se voltarmos meses depois, você não esquece que havia uma fonte de água estilo feng shui na loja que fica perto do restaurante mexicano favorito da Mamãe. As vendedoras ficam de queixo caído (dizem que é pelo fato de você se lembrar e não pela bagunça). Conhece o caminho até a Dollar Store, ainda que disfarcemos e tentemos passar por outra rua. A mãe de um coleguinha seu da creche ficou impressionada, porque ela viajou por 3 semanas e, quando voltou para buscar o filho, deixou o cachorro do lado de fora. Você o viu e disse "Ben", que é o nome do dono dele.
Você sabe de quem são todos os sapatos. Se alguém chega para visitar e deixa os sapatos na entrada, na hora de sair, você pega e entrega na mão da pessoa os calçados corretos, dizendo o nome correspondente "Mamãe, Tata, Tio, Baka" ou quem quer que seja (é uma mania sua sair distribuindo os sapatos a quem estiver presente).
Sua energia, que já aparenta ser inesgotável, parece multiplicar-se por vários milhões assim que entramos num restaurante. É sempre uma correria sem fim. Desconfiamos seriamente de que você tenha algum sistema desconhecido do resto da humanidade que o possibilita viver praticamente só de luz. Tem comido cada vez menos e ficado mais seletivo dia após dia. É igualzinho à Mamãe numa coisa: não gosta de experimentar nada diferente, não tem curiosidade nem de saber que gosto tem. Brinca com docinhos nos aniversários, mas nunca colocou um que fosse na boca. No máximo, dá uma tímida lambidinha e desiste. Sua avó quase fez uma festa porque a professora da creche disse que semana passada você provou um pedacinho de queijo. Mamãe até hoje não acredita. Nem quando você era bebê e comia praticamente de tudo, você gostava de queijo. Por sorte, gosta muito de frutas e ama "picapoca" (pipoca).
Por hoje, é só. Mamãe fica sempre melancólica quando alguém volta para o Brasil depois de uma temporada aqui. Ainda bem que agora tem você para não deixar que a casa fique vazia.
Com carinho,
Mamãe."