29 novembro, 2006

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu esclarece:

Para Tatiana:
Falar sobre imigração e, principalmente sobre qualquer coisa relacionada ao processo para validação do diploma de Enfermagem, é terminantemente contra a religião praticada aqui no Iglu, vide "post" de 27/10/2005. Limito-me a dizer que me formei no Brasil e passei pelo processo de validação de diploma do Conselho de Enfermagem daqui.

Para Camila:
Desperate Housewives substitui à altura o vício que eu tinha por Sex & The City. Todos os DVD's de ambas as séries já fazem parte do acervo do Iglu, inclusive revi o episódio que você mencionou esta semana. Ainda não cheguei ao ponto de ter memorizado diálogos inteiros de praticamente todos os episódios, como no caso de Friends.

Não sei os motivos das mulheres que optam por não amamentar, mas há de tudo neste mundo. Tem até gente que sai do Brasil, vem morar aqui num frio de congelar o cérebro e ainda vive sem empregada doméstica !

Quanto a emagrecer amamentando, acho que varia muito. No meu caso, o leite veio com um "personal emagrecêitor Tabajara", então já perdi todos os 15 kg da gravidez sem dieta ou ginástica e agora o ponteiro da balança caminha perigosamente para menos de 50 kg. Pena que não havia incluso um "personal eliminator de pelancas abdominais Tabajara"...

Do Lado Errado do Zero

Como disse a meteorologista no noticiário de ontem, estamos do lado errado do zero no termômetro. Nós, aqui de Vancouver ! O mesmo noticiário mostrou as temperaturas das principais cidades do país e o letreiro dizia 14 graus positivos no pontinho que correspondia a Montreal no mapa. Enquanto aqui para Vancouver a previsão era de 10-20 cm de neve no período da tarde. O que está acontecendo com São Pedro, gente ?

Embora o Marido Gringo Especialista em Neve nunca bote fé na previsão do tempo, aqui no centro, exatamente às 12:43, começou a nevar forte. Ao contrário do resto do país, onde a neve não afeta muito a vida dos habitantes, muita gente aqui opta por não dirigir quando está nevando. E as escolas às vezes cancelam as aulas. Um canadense me disse que é para as crianças poderem pegar os tobogãs e aproveitarem a rara oportunidade de brincar na neve no parque mais próximo de casa. Eu acho que é para evitar acidentes no caminho para a escola, já que os pais não têm tanta prática em dirigir nestas condições, mas cada um fica com o motivo que quiser.

Eu sofro de uma coisa que só descobri depois que mudei para cá (e no Brasil alguém tem isso ?): chama-se síndrome de Raynaud ou fenômeno de Raynaud. É uma deficiência na circulação, cujas causas permanecem um mistério e que leva a uma diminuição do fluxo sangüíneo nos dedos das mãos e dos pés, podendo afetar nariz e orelhas. Eu só tenho nos pés, de forma branda e já é um suplício. Mesmo toda empacotada, meus dedos dos pés sempre ficam como que anestesiados, mas muito doloridos quando o termômetro está do lado negativo. Aprendi, ao longo dos anos, a usar um gorro (manter a cabeça aquecida melhora a circulação de sangue para o corpo todo, já que no frio, o mecanismo de sobrevivência privilegia aquecer e perfundir o cérebro e não as extremidades) e talco nos pés antes de calçar os dois pares de meia (o talco absorve o suor que pode congelar entre os dedos). Como minhas habilidades em cima dos esquis ou da prancha de "snowboarding" não farão falta alguma nas Próximas Olimpíadas, evito ao máximo um contato corpo a corpo com a neve e o gelo. Não que me façam falta, porque sofrimento seria se eu não pudesse pisar descalça na areia de uma praia tropical. Que venham os 20 cm de neve, já que de casa eu não preciso sair hoje !

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Eva Cristina da Bahia:
O "Little Baby Time" (programa da biblioteca para bebês até 1 ano) é totalmente feito pela bibliotecária. Ela lê livros próprios a para a idade (são todos lindos), além de cantar músicas com gestos e fantoches. Uma diversão para as mães e os bebês e também um motivo para sair de casa em dias de clima congelante, como hoje (depois de um aumento de 8 graus na temperatura, chegamos a zero).

Para Carol:
Provavelmente os descendentes de chineses no Brasil são mais abertos que os daqui (lembrei do slogan da Toshiba "os nossos japoneses são melhores que os outros"), mas não dá para generalizar e há sempre exceções. Nos grupos de mães que freqüento, há muitas asiáticas (coreanas e japonesas também) e todas amamentam, mas a esmagadora maioria é a primeira geração de mulheres que dão o peito. Diga-se de passagem, é assim com as canadenses também (a exceção são as filhas de hippies).

Como em Vancouver grande parte da população é de imigrantes de várias partes do mundo, não dá para dizer que o país inteiro é assim ou assado com base no que acontece por aqui.

Aqui a Nestlé não é tão forte no mercado como no Brasil. Os leites artificiais (fórmulas) mais vendidos são de outras marcas, não são Nan. E mesmo nas propagandas deles, há o slogan "breast is best" (o peito é o melhor). Infelizmente ainda há muitos comerciais de fórmulas e de mamadeiras na TV e em revistas especializadas.

28 novembro, 2006

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Camila:
Nos quase 7 anos em que estou aqui já notei vários progressos em relação à atitude das pessoas quanto à amamentação. Vale dizer que a geração atual de mulheres que amamentam é a primeira, portanto, na infância, nunca tiveram oportunidade de ver um bebê ser amamentado. Logo que cheguei, fiquei pasma ao estudar para a prova do Conselho de Enfermagem "as desvantagens da amamentação" e "orientações para a mãe que não deseja amamentar". Também ouvi 3 comentários de mulheres (só uma não era mãe) que me chocaram tanto que lembro deles até hoje:

1- Uma professora de inglês sem filhos contou que, certa vez, estava num restaurante comendo uma massa com molho branco e viu uma mulher na mesa ao lado amamentando um bebê SEM cobri-lo com um cobertor. Ela ficou tão enojada que perdeu o apetite.
2- A moça canadense da casa onde eu morei quando vim como estudante tinha amamentado duas filhas. Mesmo assim, comentou horrorizada que a cunhada amamentava a filha na presença do avô da criança. E ela me disse: "quer dar de mamar, vá para o quarto e feche a porta, não faça isso na frente do seu pai".
3- Uma colega enfermeira pediu licença e saiu no seu horário de lanche para ordenhar leite com a bomba. Assim que a moça virou as costas, uma outra colega, já avó, comentou com todas as outras mulheres e mães que estavam na sala: "a filha dela já tem 8 meses ! A minha filha amamentou até 3 meses porque o pediatra recomendou, mas com 8 meses já é nojento."

Semana passada, na biblioteca, ouvi de uma mãe que parou de amamentar no primeiro mês: "isso tudo é moda. Minha geração não foi amamentada, daqui a 30 anos, ninguém mais vai amamentar".

Atualmente há muito incentivo para amamentação, apesar de ainda persistir na ficha de admissão das maternidades a pergunta: "deseja amamentar ou não ?". O aleitamento materno ainda é encarado como uma opção da mulher, a melhor opção.

Nos grupos de mães que freqüento, são raras as que não amamentaram de jeito nenhum, inclusive as descendentes de chineses (culturalmente muito avessas à amamentação). Muitas param aos 3 ou 4 meses, mas a maioria persiste. Já não é raro encontrar crianças de 1 ano de idade ou mais que ainda mamam no peito. Estas mães que amamentam até mais tarde são as que mais ouvem críticas.

Alguns shopping centers dispõem de uma sala para amamentação. E a IKEA (grande loja muito popular por aqui) tem uma sala maravilhosa para este fim.

A questão de amamentar em público depende muito de quem é o público. No grupo de mães da biblioteca, ninguém se incomoda, mesmo se há pais presentes. A maioria das reclamações costuma vir de pessoas mais velhas. Eu pessoalmente nunca recebi reclamação, mas com 6 semanas, desenvolvi uma técnica de carregar o neném no canguru e amamentar enquanto caminho - ninguém nunca chegou a reparar que eu estava amamentando. Agora que ele já é um rapaz, eu nem ligo mais, mas noto que os homens (mesmo amigos próximos) geralmente se afastam quando alguém está amamentando.

Infelizmente, só há um banco de leite na cidade. Não há sistema de coleta organizado, como em Brasília e o leite pasteurizado do banco é vendido, não doado.

E só para esclarecer, que o Iglu também é informação e 100% a favor da amamentação: A OMS atualmente recomenda a amamentação exclusiva (sem água nem chazinho) até os 6 meses, introdução de leite de vaca somente após 1 ano e manutenção do aleitamento materno até os 2 anos ou mais. Há muitos benefícios nutricionais e imunológicos do leite materno no segundo ano de vida, ao contrário do que muitos pensam.

27 novembro, 2006

Debaixo do Meu Capuz Eu Tenho Um Gorro



De vez em quando São Pedro manda neve aqui para Vancouver, a fim de que os habitantes não se esqueçam de que, afinal de contas, moram no Canadá. Desde ontem de manhã tem nevado consideravelmente para os padrões vancouverites e, mais raro ainda, a neve não derreteu. 24 horas depois continua nevando ! Em qualquer outro lugar do país, nem seria motivo para comentário, mas dada a pouca freqüência do fenômeno por aqui, a manchete do jornal local hoje era "Snow Chaos" (o caos da neve).

Como tudo na vida é uma questão de costume, saímos de casa hoje, eu e meu Pacotinho de Inverno, com os termômetros registrando 5 graus negativos e a paisagem em volta do Iglu parecendo a Vila do Papai Noel. Eu até levei a câmera para registrar as irreconhecíveis árvores e ruas aqui por perto, mas adivinha se a bateria estava carregada ? Quem diria, uma Mamãe Tropical, amante de praia e sol, que considera 30 graus positivos uma temperatura agradável (calor é só acima de 35 graus), empurrando um carrinho de bebê pelas calçadas cobertas de "slush" (aquela neve derretida misturada com lama, uma coisa assim surreal para brazuca). O caminho até a biblioteca, que geralmente percorremos em menos de 10 minutos, transformou-se numa aventura de meia hora.

Segunda-feira é dia de biblioteca para os bebês e, nevando ou fazendo sol (coisa rara nesta época do ano), o Pacotinho de Cultura não perde esse programa. Um dos livrinhos lidos hoje era uma graça, mas incompreensível para uma criança brasileira. Chama-se "Under My Hood I Have a Hat" (sob meu capuz eu tenho um gorro), no qual uma menininha vai descrevendo com rimas sua roupa para sair de casa, mais ou menos assim:

Debaixo do meu capuz eu tenho um gorro
E debaixo do gorro meu cabelo está amassado
Debaixo da minha calça eu tenho outra calça
E debaixo do meu casaco pesado eu tenho uma blusa de manga comprida azul
Ah ! Eu tenho uma vermelha também debaixo da azul
E tenho meias azuis e, por cima delas, um outro par de meias vermelhas
Tenho uma bota de borracha bem larga
Tenho um cachecol no pescoço
Tenho luvas impermeáveis e debaixo delas tenho luvas de lã que minha avó tricotou para mim
E quando eu saio de casa
Fico torcendo para não cair
Porque senão, debaixo desta roupa toda, não vou conseguir levantar !

Tirando o cachecol, o Pacotinho de Inverno poderia ser o protagonista da estorinha, com a desvantagem de que o problema dele não envolve levantar-se, mas mexer-se com aquela roupa toda.

24 novembro, 2006

Seu Marido Ajuda ?

Desde o tempo em que eu ainda morava no Brasil, tal pergunta sempre me incomodou. Mesmo lá no Reino do Terceiro Mundo, onde uma mãe de classe média geralmente tem o auxílio de uma criadagem mínima para cuidar das crianças e da casa (não vejo a hora de chegarem as férias para desfrutar dessa maravilha da evolução cultural), nunca me conformei. Aqui no Canadá é uma pergunta inconcebível.

Quando alguma brasileira (só elas ousam pensar nisso) pergunta se meu marido me ajuda com o neném, a resposta já está na ponta da língua: "ajuda não, faz a parte dele, que inclui TUDO menos dar o peito". Isso porque se ele der, não vai sair nada e não porque o Pacotinho de Gula faça qualquer objeção a mamar num peito cabeludo (aos 5 meses, o que cair na boca dele, se não virar refeição é ao menos um aperitivo).

A palavra "ajuda" implica em favor, algo que a pessoa faz quando está com vontade. Cuidar de filho é obrigação de pai e mãe. Tias, avós, madrinhas e outros pertencentes à categoria de alegorias e adereços é que podem escolher se ajudam (ou não). Não é uma questão de semântica, mas de princípio. E não venham dizer que só maridos importados vêm com este adicional de fábrica. Meu cunhado é um modelo nacional e garanto que há outros exemplos tupiniquins.

Lembro de uma certa ocasião, quando estávamos numa churrascaria chique em Brasília e meu cunhado foi ao banheiro trocar a fralda de um dos filhos. Voltou chateado porque não havia trocador de fralda no banheiro masculino. Que preconceito ! Aqui em Vancouver, a maioria das grandes lojas e dos shopping centers, bibliotecas e locais públicos têm, além dos banheiros masculino e feminino, o banheiro da família. Isso porque não deve ser uma experiência agradável para um pai com uma garotinha de 3 anos ter que desfilar com ela por aquela fileira de homens em pé encarando uma piazinha porque ela não consegue segurar até chegar em casa. Se ele entra no banheiro feminino, é um escândalo. Aliás, sempre quis saber se os homens pode utilizar o vaso sanitário em casa como fazem os outros 50% da população do planeta, por que precisam daqueles mictórios ou sei-lá-o-nome-disso quando estão na rua ?

Quando um pai de família viaja sozinho, a trabalho ou não, ninguém nunca pergunta: "quem está tomando conta dos seus filhos ?". Mas foi só a Santa Irmã aparecer por aqui sem os pimpolhos a tiracolo que literalmente TODAS as pessoas que ela encontrava faziam o mesmo questionamento.

Um detalhe curioso é que o Marido Gringo sempre foi contra a forma brasileira de obter ajuda em casa. Achava uma exploração, uma mordomia desnecessária, uma injustiça com as pobres ajudantes e aquele bla bla bla típico de europeu que nunca desfrutou das coisas boas de uma vida doméstica com criadagem. Isso até passar umas férias no Brasil, porque outro dia chegamos do supermercado cheios de compras, mais um Pacotinho de Cansaço pendurado e encontramos uma casa bagunçada. Aí vira o Marido Gringo Contra a Mordomia das Donas-de-Casa: "ai, o que eu daria para ter uma Neide aqui !" (Neide é secretária da minha Santa Irmã lá na terrinha). Nada como um dia atrás do outro, principalmente se num deles há uma empregada para ajudar...

22 novembro, 2006

Lamentável

A equipe do Iglu registra aqui sua indignação quanto à atitude lamentável - para evitar os termos apropriados (é um blog de família) - da companhia aérea Delta Airlines, que expulsou de uma de suas aeronaves uma mãe que amamentava sua filha. Se eu já era 100% a favor da amamentação mais de uma década antes de engravidar, agora posso dizer, do alto dos meus cinco meses de experiência, que amamentação exclusiva até os 6 meses de vida do bebê é tudo de bom. E é tudo de bom em casa, no carro, em qualquer lugar, inclusive no avião, até porque um bebezinho não tem que esperar acabar um vôo de 11 horas para tomar um gole de leite, sendo que aos outros passageiros são servidas 2 refeições e vários líquidos no mesmo período. E nem sei qual era a duração do vôo da moça em questão, mas fico pensando no caso de quem vai daqui até o Brasil.

Hoje houve um protesto em 30 aeroportos americanos, organizado por mulheres que amamentavam suas crianças em público. Os argumentos ignorantes de uma sociedade hipócrita que idolatra os seios fartos da Pamela Anderson e Cia, mas condena o que milhares de anos de evolução estabeleceram como a forma ideal de alimentar um bebê humano são, como era de se esperar, ridículos.

Houve até um noticiário da Fox em que o repórter afirmava que "ninguém tem que ser exposto a tais práticas" e que as "mães deveriam sempre amamentar cobrindo a criança". Quem aqui se enfia debaixo de um cobertor na hora das refeições ? E quem consegue manter coberta uma criança que já sabe puxar uma manta e insiste em segurar o calcanhar enquanto mama ? Fora que, já diz o sábio ditado, "quem não quer ver estrelas não deve olhar para o céu".

Com TODOS os problemas da terrinha, um episódio absurdo desses não acontece por lá.

Se por trás destas mal digitadas linhas houvesse um especialista em links, estariam todos aqui. Mas não é nada que uma consulta ao santo padroeiro deste blog, São Google, não esclareça.

Não Aceite Comida de Estranhos

Os pais passam um tempão recomendando que suas crianças tenham cuidado e não conversem com estranhos, muito menos aceitem comida ou carona deles. E aí, depois de longos meses martelando isso na cabeça de um filho, confirmam que seu esforço deu resultado: no estacionamento do Wal-Mart, dentro do carro, o Pacotinho de Suspeitas, mesmo faminto, recusa-se a mamar naquela moça de óculos escuros. "Está querendo me enganar, hein ? O peito pode até parecer igual, mas Mamãe nunca teve estes olhos de abelha".

21 novembro, 2006

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu esclarece:

Para Camila e Júlio:
Acredito que os pseudônimos, assim como as músicas, depois de um período de 10 anos (ou seriam 20 ?), tornam-se de domínio público. Portanto, após uma década (ou duas), vocês podem usar o apelido sem pagar direitos autorais.

Para Deby:
Ainda não dá para abrir. Tente clicar no seu nome que aparece aí nos comentários para ver o que acontece.

20 novembro, 2006

A Bagagem da Nova Mãe

As regras das companhias aéreas para peso máximo de bagagem em vôos internacionais estão mais rígidas do que nunca. Quando o Pacotinho de Surpresas for adolescente, provavelmente só será autorizado a viajar com a roupa do corpo, o cartão de crédito, o chip sob a pele que substituirá o passaporte e algumas cápsulas que, ao serem mergulhadas em água após a aterrisagem no destino final da viagem, serão transformadas em um guarda-roupa completo. Malas extraviadas e casos dramáticos de espera no carrossel do aeroporto serão considerados lendas urbanas ou invenções de mães neuróticas tentando convencer seu filho a não viajar sozinho com os amigos.

Após fazer todas as compras de Natal em um único dia (o boletim médico do Iglu informa que o Marido Sem Paciência Para Compras permanecerá em estado de choque até o Reveillon) e constatar que os presentes - e somente eles - encheram uma mala inteira, bateu um desespero: onde vão as minhas roupas e as do neném ? Foi uma aflição momentânea, pura precipitação, afinal de contas, até dezembro, o Pacotinho de Inverno Canadense não terá absolutamente nenhuma roupa de verão que ainda caiba nele. As de inverno cabem, mas Mamãe corre o risco de ser presa por abuso de menores se aparecer no verão de Fortaleza com um bebê vestido de astronauta esquiador. Como as lojas só estão vendendo apetrechos de inverno, ele não poderá nem renovar o guarda-roupa antes de embarcar. Aliás, ele anda numa preocupação com isso, que só vendo !

Mamãe, por outro lado, tem poucas opções. Para o verão, calças jeans são pesadas demais. Ela nunca foi muito chegada em shorts e bermudas, porque suas coxas finas jamais foram compreendidas na terra das mulatas boazudas (já as gringas sem noção morrem de inveja daquele espaço entre uma coxa e outra). Os vestidos, blusas de alcinha e biquínis de outros carnavais já não comportam a atual comissão de frente, cujo enredo deste ano, de inspiração bovina e um tanto profana, homenageia aquela música do Caetano "deusa de assombrosas tetas... derrama o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas", sabe qual ? Ela só tem uma meia dúzia de blusas e camisas de verão abertas na frente (por "meia dúzia" entenda-se "três"), essenciais para quem amamenta e não deseja exibir a indecente barriga a inocentes que desconhecem o reflexo de eclipse pós-parto. O reflexo é desencadeado na outra pessoa que está presente no ambiente quando uma pelanca abdominal pula para fora da calça. Isso porque barriga de mulher no pós-parto ("pós-parto" é definido como o intervalo entre 24 horas a 24 anos após dar a luz uma criança, para uma mulher não-atleta, ou seja, normal) deve ser observada como um eclipse solar. Não se deve olhar diretamente e muito menos fixar o olhar, sob o risco de ficar cego. É essencial utilizar uma chapa de raio-X de tórax, com pulmões embaçados por uma tuberculose avançada, na frente dos olhos para espiar a barriga por 2 milésimos de segundos, no máximo. Portanto, sejamos práticos: quem carrega um raio-X desses na bolsa ? Mais fácil e seguro é virar o rosto ou retirar-se do ambiente. E antes que o Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu tenha que responder: "então depois de 24 anos está liberado para olhar ?" Sim, mas por sua própria conta e risco, lembrando que o plano de saúde não cobrirá os eventuais tratamentos psicoterápicos pós-trauma de que você precisará.

Então, em teoria, tudo deve caber na outra mala. Já a bagagem de mão para sobreviver a quatrocentas e cinquenta e duas horas e vinte minutos de vôo, a duas conexões e ao caos nos aeroportos brasileiros com um bebê de 6 meses a tiracolo merece um "post" à parte...

18 novembro, 2006

Cinco Meses de Entrega

Há exatos cinco meses a cegonha entregou um Pacotinho de Surpresas aqui no Iglu. E ontem a Mamãe Antiquada estava dando uma olhada nos álbuns de fotos impressas, com detalhes escritos ao lado de cada uma. É que ela ainda prefere as fotos no estilo antigo à impessoalidade de um computador cheio delas (e que os gênios da informática não venham argumentar que não é "no computador", mas no hard drive, soft drive ou drive-que-o-parta). E ela quase não reconheceu aquele bebezinho de cabelo preto arrepiado, bochechas enormes e pernas finas, vestido com a camisa do Brasil, mas como os detalhes estavam lá escritos com a letra dela, teve que se conformar que é o mesmo neném.

Está lá no álbum a foto do Pacotinho de Bolinhas, quando tinha 7 semanas, com o rosto todo empolado, parecendo acne. Isso foi há tanto tempo ! Como foi um processo gradual, não há nenhuma anotação sobre quando os cabelos passaram de pretos para cor-de-burro-quando-foge. Ou de quando as pessoas pararam de achá-lo "a cara do pai" e passaram a dizer que ele se parece com a mãe. Há sim registros de informações que serão essenciais à vida dele, como "dia 16/09/2006: rolou pela primeira vez de bruços para as costas". Afinal de contas, é sempre a primeira coisa que perguntam em qualquer entrevista de emprego: "impressionante sua experiência profissional, mas em que dia, mês e ano você rolou pela primeira vez ?"

Ao completar as anotações dos 4 meses, escreveu com orgulho, o mais gostoso dos progressos: "dando gargalhadas, principalmente para a Mamãe". Acho que o Ivan Lins deveria estar pensando num bebezinho de quase cinco meses, quando disse que queria sua a risada mais gostosa e seu jeito de achar que a vida pode ser maravilhosa. Um Pacotinho de Gargalhadas espanta o baixo astral de qualquer um (exceto de São Pedro, que não está dando trégua para a chuva !).

17 novembro, 2006

Águas de Novembro II - E a chuva continua, companheiros !

Os habitantes do Iglu precipitaram-se ao acreditar que, por terem estoque de água de garrafa e por 75% de sua população não ser dependente de café, não seriam muito afetados pela água suja nas torneiras pós-tempestade. Afinal de contas, a água da torneira geralmente é usada para lavar louças, frutas e verduras e cozinhar. Dar banho num bebê que vive com a mão na boca e teima em não prestar atenção aos alertas sobre os perigos da água suja virou uma aventura.

O comunicado da companhia de abastecimento de água local recomenda ferver toda a água usada para cozinhar e escovar os dentes. Mas mesmo após a fervura a areia continua no fundo da panela. E a água hoje apresenta mais sedimentos do que ontem. Pode até estar potável após a fervura, mas que a aparência não é boa, isso não é mesmo. Eu nem faltei aquela aula de ciências sobre decantação, lá na quarta série (ou era terceira ?), mas não lembro mais.

Para uma brasiliense mal acostumada com a água límpida que sai das torneiras da Capital Federal mesmo após a tempestade nossa de cada final de tarde em dezembro e janeiro, resta a dúvida: por que após um único dia de chuva forte a água ficou tão suja em Vancouver ? Será mais uma que os brasileiros deveriam ensinar aos canadenses ?

Para os cafeíno-maníacos anônimos resta uma dúvida ainda mais importante: quantos dias podem sobreviver sem os baldinhos de café dos Starbucks da vida ?

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu esclarece:

Para Nirley
O universo cibernético e internáutico conspira contra a minha pessoa. Seu comentário não foi censurado mas, apesar de aceito, foi parar num universo paralelo de onde só voltam os comentários deixados em blogs de pessoas que entendem a política do sistema, o que não é o caso deste aqui.

De qualquer forma, se suas malas também já foram extraviadas, junte-se ao clube das que carregam algumas mudas de roupa de baixo na bagagem de mão.

16 novembro, 2006

Águas de Novembro

Se Tom Jobim morasse em Vancouver, o título de sua obra prima não faria muito sentido por aqui. As águas vancouverites são de outubro a maio.

Como o verão este ano foi mais longo que o comum, São Pedro está compensando com umas tempestades, para que os habitantes locais não fiquem mal acostumados. Em sete outonos e seis invernos consecutivos, eu não lembro de ter ouvido uma única notícia sobre temporais por aqui. Chove bastante, mas é aquela garoa eterna e enjoada. Choveu muito mesmo ontem, até saiu no noticiário que foi tempestade, mas para brasiliense que se preza, se você está dirigindo e consegue enxergar o carro da frente e nenhuma árvore caiu perto do seu prédio, foi somente uma “chuva forte”.

Nomenclatura à parte, depois da chuva de ontem, a cidade hoje amanheceu com a água da torneira escura, não adequada para consumo. Canadense tem o hábito de beber água da torneira, sem filtrar. Aliás, saiu numa reportagem deste ano que a água “torneiral” de Vancouver estava entre as melhores do mundo. Como aqui no Iglu a gente não bebe reportagem nenhuma, toma-se água de garrafa, já que a da torneira, mesmo filtrada, tem gosto metálico. Portanto, aqui a cor da água da torneira não afetou a rotina. Adivinha quem foram os mais prejudicados pela água suja ?

O Marido Viciado em Café ligou para me avisar que fecharam todos os Starbucks aqui no centro da cidade (como se fizesse alguma diferença para mim, que jamais gostei de café puro, ainda mais servido em balde). Ele estava na fila, quando a moça na frente dele teve uma ataque histérico, já que era sua sexta tentativa frustrada de conseguir um café (em downtown, isso significa que ela andou no máximo três quarteirões para esbarrar em quatro lojas da Starbucks e duas da Blenz). Eu não teria dúvida: daria o café de água barrenta para a Moça Atacada, porque abstinência de cafeína é facilmente curável, mas burrice, só mesmo com transplante de cérebro.

E já avisaram que sábado tem mais tempestade !

14 novembro, 2006

Pacotinho de Viagens

Em fase de preparação para sua viagem à terrinha da Mamãe, o Pacotinho de Aventuras recebeu suas primeiras passagens de avião. Ainda bem que não são e-ticket, assim Mamãe pode guardar de lembrança, pois todos sabemos que a primeira viagem internacional, passando por quatro aeroportos, com um bebê a tiracolo sem outro adulto para ajudar, a mãe nunca esquece. Agora ele está aguardando a chegada dos seus passaportes. O canadense deve chegar esta semana, já que foi tudo resolvido pessoalmente. O que o preocupa é mesmo o passaporte brasileiro. Ciente de sua carga genética e do que ela determina em termos de rolos burocráticos, o Pacotinho de Viagens já esperava que desse ao menos uma confusãozinha básica no consulado brasileiro. E estava certo !

Ele anda tão preocupado com isso que noite passada teve insônia. Acordou às 04:40 da manhã para desabafar. Não estava com fome, só queria conversar e abrir seu coração. Mamãe Zumbi, mal acostumada por um bebezinho que nunca deu trabalho para dormir à noite, estava pra lá de Bagdá, doida para voltar para a cama. Então, enquanto ele insistia no seu monólogo, ela continuou sentada na cadeira de balanço, mas fingiu que estava dormindo (ela jura que não foi nada difícil). Ele não é bobo nem nada, então continuou encarando-a e puxando assunto, com um sorriso que seria irresistível às 09:00, mas não deu muita audiência tão cedo. Lá pelas tantas, caiu a ficha dela: "quando ele tiver 15 anos, você vai sentir saudade de quando estava acordada de madrugada porque ele queria brincar com você." Para sorte dela, depois de uns 20 minutos, caiu a ficha dele: "sentimentalismos à parte, se ela está de olhos fechados é porque TALVEZ não esteja a fim de papo". E tratou de pegar no sono de novo.

Hoje vamos tentar reenviar os documentos, porque ficou faltando uma assinatura. Claro que precisa autenticar de novo, que o nosso amigo advogado que faz isso de graça está de férias na Europa, bla bla bla... E o Pacotinho de Preocupações espera que seu passaporte não siga o exemplo do visto brasileiro do Papai, que só ficou pronto na véspera da viagem e nunca chegou a Vancouver. Assim ele poderá voltar a dormir tranqüilo. E Mamãe também.

12 novembro, 2006

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Fagner (não, não é o cantor, que este modesto blog não está com essa bola toda):
Nos tempos da falecida Transbrasil, eu já voei duas vezes Brasília-NY-Vancouver. Havia uma troca básica de aeroporto em NY, porque chegávamos no JFK e saíamos do La Guardia.

Hoje em dia, o número mínimo de vôos para a Capital Federal saindo daqui é 3. Mesmo parando nos USA, geralmente o primeiro destino no Brasil é Rio ou São Paulo.


Para Keiko
Sim, eu toco piano. Inclusive há um aqui no Iglu.

Eu tenho o livro "Melancia", aliás já li um outro livro da mesma autora. Confesso que está empoeirando na estante, já que ultimamente ando lendo "Baby Signs", "The Wonder of Boys" e outros livros sobre bebês e educação infantil.

Você acompanha o blog há pouco tempo, por isso surpreendeu-se com o extravio de bagagem. Como dizem por aqui, "Murphy is my middle name" ! É de família, trata-se um gene recessivo para perda de malas que carregamos e meu irmão é o único não afetado.

10 novembro, 2006

Inveja do Leste

A vida é feita de escolhas, já diz a frase feita. Quando alguém decide imigrar para o Canadá sem nunca ter colocado os pés aqui tem que optar entre mudar para o leste ou o oeste do país (tem gente que muda lá para o meio mesmo e fica batendo o queixo em Winterpeg, digo, Winnipeg, mas é a exceção que confirma a regra).

Eu já tinha visitado Vancouver rapidamente, depois morado aqui por seis meses antes de mudar para cá. Também já havia estado em Toronto, Montreal, Québec City, Calgary, Edmonton e em todas as cidadezinhas famosas das Montanhas Rochosas. Vancouver é, sem dúvida, a cidade de clima mais "ameno" do país. Com mar e montanhas por todos os lados, está longe de ser a mais charmosa, mas é a mais descontraída. Todo ano, no inverno, repito meu mantra "eu não moraria em nenhum outro lugar deste país que não fosse Vancouver". Para alguém essencialmente tropical, que veste um casaco quando o termômetro registra 20 graus positivos, dezenas de graus negativos só são concebíveis em programas sobre ursos polares no Discovery Channel. O inverno daqui já é congelante e longo demais para mim.

Só que tem uma época do ano em que invejo imensamente os brasileiros em Toronto, principalmente. Aliás, invejo também os paulistanos, apesar de nunca ter desejado morar em São Paulo. A inveja vem na hora de viajar para a terrinha. Quem é de São Paulo e mora em Toronto pega um único vôo e em 11 horas está em Passárgada. Uma viagenzinha básica de ônibus Brasília-Rio leva mais que isso. Como tudo é relativo, agora eu acho que um único vôo de 11 horas é rápido e conveniente. Toronto é perto de São Paulo !

Nós aqui de Vancouver que não temos família em São Paulo somos obrigados a fazer uma via-sacra, pagando penitência em vários vôos. E, quanto maior o número de conexões, mais cansativa a viagem e maior a probabilidade de perderem a bagagem. O Marido Gringo tem fobia de avião, eu tenho fobia da esteira de bagagens. Sem dúvida, a parte mais estressante da viagem para mim é a incerteza daquela portinha por onde saem as malas para caírem na esteira. É a minha Porta da Esperança, senhora do meu destino. É ela quem determina se terei sandálias para calçar no dia seguinte ou se enfrentarei o primeiro dia de verão brasileiro usando botas.

Desde que o 14 Bis alcançou os céus, um dos maiores mistérios da humanidade viajante é o das malas. Você despacha todas juntas, com etiquetas idênticas, lá no Rio de Janeiro, para retirá-las em Toronto. Uma delas chega, mas você fica com cara de cachorro faminto olhando a esteira vazia, depois que todos os passageiros já retiraram suas bagagens e a única mala verde rodando lá não é a sua (se fosse, você daria graças a Deus de não haver mais ninguém por perto, porque aquele troço ficaria melhor em cima de um pau-de-arara vindo de Cabrobó para a capital do que na esteira do aeroporto). Você vai ao balcão da companhia reclamar e abre o livrinho na página certa com a foto da sua mala, já que ele é mais lido nas suas viagens que o manual com as saídas de emergência do avião. Aliás, você tem encontros tão freqüentes com a turma do balcão que já os considera íntimos. Embarca resignado para Vancouver, com a promessa de que a fujona deve estar no próximo vôo. Ligam no dia seguinte, parece que localizaram-na em Houston (sendo que seu vôo fez escala em Miami !). Três dias depois, descobrem a própria rodando abandonada numa esteira lá no aeroporto do Galeão. Que as malas têm vida e vontade próprias é fato comprovado, mas o que as leva a tentativas de fuga como essas ? Maus tratos ?

Enfim, nesta próxima viagem, com meu Pacotinho de Aventuras a tiracolo, a inveja dos habitantes do lado de lá do país está no limite máximo. Alguma família de Toronto está querendo adotar uma filha ? Para uma filha já criada, com diploma universitário, com um emprego estável, que vai dar um neto de presente não deve ser difícil conseguir adoção.

06 novembro, 2006

Man In The Moon

"Lua de São Jorge
Lua maravilha
Mãe irmã e filha
De todo esplendor
Lua de São Jorge
Brilha nos altares
Brilha nos lugares
Onde estou e vou
Lua de São Jorge
Brilha sobre os mares
Brilha sobre o meu amor"
(Caetano Veloso)

Há um programa na biblioteca central aqui em Vancouver para homens e seus bebês até 18 meses, que se chama "Man in the moon" (homem na lua).

O Marido Gringo implicou com o nome. Na véspera do primeiro dia, nem queria ir por causa do nome.
- Por que este nome de "Homem na Lua ?"
- Sei lá, deve ser porque se chamarem de "Bebezinhos e Seus Papais" ninguém vai aparecer, achando que é muita frescura.
- Como se chama o das mulheres ?
- Little Baby Time (hora dos bebezinhos), mas as mulheres que ficam em casa o dia todo com os bebês não estão nem aí pro nome, estão doidas para encontrarem outras mães e terem ao menos uma conversa adulta durante o dia. Se chamarem de "Bebês Explosivos e Suas Mamães Terroristas" ainda assim vai lotar.
- Você acha mesmo ? Sei lá, esse negócio de lua, parece uma coisa mística.
- Mística nada ! Acho que colocaram "homem na lua", porque aí vocês ficam achando que é relacionado com Star Wars e qualquer coisa de espaço sideral costuma atrair meninos dos 2 aos 92 anos.
- Star Wars... É, já ficou mais interessante...

O nome do santo pouco importa, o que vale é o tamanho do milagre. Você acha que conhece uma pessoa. Conhece, namora, casa-se e tem um filho com ela. Se alguém pergunta sobre seus dotes artísticos, especialmente os dons musicais, você responde que são inexistentes, já que você NUNCA viu seu marido cantando e nem campainha ele toca. E aí aparece um tal de homem na lua e, depois de algumas semanas, você escuta uma voz familiar vinda na hora do banho do Pacotinho de Surpresas no final de uma tarde de domingo, cantarolando uma das mais populares cantigas infantis por aqui:

"The insy winsy spider went up the water spout
Down came the rain and washed the spider out
Up came the sun and dried up all the rain
And the insy winsy spider went up the spout again"

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Keiko:

Com 7 semanas pós-parto eu já entrava em todas as minhas calças pré-gravidez (tamanho 36 no Brasil ou zero na numeração da GAP), até escrevi um post quando isso aconteceu ! Nunca fiz dieta e quando me dá vontade de fazer ginástica, eu ligo a TV e assisto até ficar distraída e a vontade passar. Engordei 15 kg na gravidez, cheguei do hospital com 10 a menos e dos 5 restantes ainda faltam 3 para serem perdidos. Só que estão divididos em 1 kg extra em cada peito e 1 kg só de pelanca abdominal (a calça segura e, como o clima aqui e minha idade já não permitem barriga de fora, who cares ?), ou seja, não tem receita !

02 novembro, 2006

Lavando a Roupa Suja

"Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia"
(Luiz Melodia)

Já fazia uns dias que o Marido Gringo andava implicando com meu umidificador de ar. Gringo não entende que brasiliense que se preza não passa uma seca sem um umidificadorzinho básico no quarto. Mais do que brinquedos, uma das minhas mais vívidas lembranças de infância é de uma caixa verde fluorescente soltando um vaporzinho a noite toda. Opa ! "Ela disse 'seca' em Raincouver ? 'Tá variando ?" Não, gente, é que no inverno o aquecedor fica ligado dia e noite (sim, o Iglu tem temperaturas tropicais, para desespero da Sogra Gringa) e o ar fica igual ao do deserto de Atacama.

Enfim, voltando ao umidificador, o Marido começou a notar que os tacos do piso estavam despregando-se do chão no corredor. Condenou o umidificador, sem chance de defesa. Depois de umas duas semanas, começamos a notar que ou o umidificador tinha poderes paranormais e continuava estragando o piso mesmo estando desligado, ou havia um vazamento. Era a segunda hipótese. O aguaceiro vinha de dentro do armário onde ficam a lava-roupas e a secadora. "Armário ?" Sim, minha gente, além do atraso cultural de não encontrar sobremesas com leite condensado nesta terra, os imigrantes tuniquins ainda convivem com uma área de serviço que fica dentro de um armário no corredor (ou no banheiro, dependendo do apartamento).

Se fosse um armário com piso de azulejos e um super ralo, seria uma idéia razoável para economizar espaço. Só que é um armário com piso de plástico e Ralo ? Não, ligou no número errado, não mora ninguém com o nome de Ralo aqui neste país. Então, o que acontece quando a máquina vaza ? Ensopa o piso, estraga a porta, mancha a parede, naquela sucessão de eventos felizes que culminam com o êxtase supremo de uma obra em casa.

Como aqui quando se compra um imóvel, a máquina de lavar e a secadora estão incluídas, a nossa já tinha doze anos e o jeito foi comprar outra. Depois de duas semanas sem poder lavar roupa no Iglu, chega o dia da entrega da máquina nova. Sendo os habitantes deste lar devotos do São Murphy, a entrega não acontece na hora marcada. E é aquela novela típica da minha vida: liga para o serviço de reclamação, "sua ligação é importante para nós, não desligue, bla bla bla", quando finalmente um ser humano aparece do outro lado, o telefone dá um sinal que tem alguém querendo subir (o interfone e o telefone aqui são gêmeos siameses), então desliga o telefone e abre a porta para a Sogra, liga de novo para reclamar, escuta de novo a gravação, vem a voz de outro ser humano, conta o caso de novo, o telefone dá o sinal de novo, a Sogra não conseguiu subir... Na terceira tentativa, chega a Sogra e do outro lado da linha informam que a entrega está atrasada.

Três horas depois, chega o cara com a máquina e já avisa para mim: "você tem que retirar as mangueiras antigas que eu não sou autorizado a instalar uma máquina nova com mangueiras velhas". E eu, engenheira hidráulica com doutorado em encanamentos em armários embutidos, vou com um alicate desconectar as benditas. Mas, como era de se esperar, alegria de pobre dura pouco, mas a trouxa de roupa suja dura muito. Adivinhem se a máquina nova veio com as mangueiras ? Nem com os pés ! Então estamos com uma máquina trambolhenta sem pés, no meio do corredor (se arrastar para dentro do armário vai acabar de destruir o piso), bloqueando a entrada do quarto do maior produtor de roupa suja da casa. Ainda bem que, apesar das pelancas, estou magrinha de novo, senão nem eu entraria no quarto...

SAL do Iglu

O Serviço de Atendimento ao Leitor do Iglu responde:

Para Daniela de Brasília:
Ainda não marcamos a passagem. Como somos a personificação da Lei de Murphy, estamos esperando a papelada dos documentos ser encaminhada para DEPOIS decidir a data. O Pacotinho de Férias Tropicais gostaria de ver como é o Papai Noel tupiniquim.

Para Keiko:
Brilhante idéia ! Quando é que você vai ? Já vou reservar a poltrona do seu lado. Estou falando sério.

01 novembro, 2006

O Pacotinho da Madrugada

Acabou o horário de verão no domingo passado. Considerando que na segunda-feira os termômetros registraram zero grau de manhã, já era tempo.

Aqui no Iglu não podemos reclamar de noites mal dormidas. Nem quando o Pacotinho de Surpresas era recém-nascido, jamais ficamos uma única noite em claro, caminhando pela casa e balançando um bebê chorão. Ele acordava, dava um gemido, mamava e dormia até seis horas seguidas. Aliás, pensando bem, várias vezes ele gemia dormindo e era a Mamãe quem acabava acordando o coitado para mamar. Ela não sabia que bebezinhos não dormem em silêncio. Somente pessoas que não têm filhos usam a expressão "dormir como um bebê" quando querem dizer "dormir tranqüilamente". Se você faz ruídos a noite inteira, geme, arrasta-se pela cama, vira e revira a cabeça milhões de vezes, chuta as cobertas, rola e gira o corpo feito os ponteiros de um relógio, adormece virado para um lado e acorda virado para a outra extremidade da cama, aí sim pode dizer que dorme como um bebê.

Toc, toc (bate na madeira), já faz um mês e meio que o Pacotinho de Surpresas não nos surpreende de noite, dormindo dez ou onze horas seguidas. Dá suas gemidinhas e revira-se todo, mas pega no sono sozinho. Só que ele não foi informado da mudança de horário e entendeu que era para adiantar em duas horas o horário de acordar. Por que duas horas e não uma ? Pergunte a ele ! Lá pelas cinco da manhã, ele desperta todo serelepe, conversando na sua língua. Às vezes mama e dorme em seguida, outras vezes mama e fica com a corda toda, então vai para a cama do Papai e da Mamãe onde, convenientemente, está tudo escuro e ninguém dá papo para ele. Eventualmente, depois de alguns monólogos, ele pega no sono de novo.

Hoje de manhã o Papai nem ouviu quando o Pacotinho de Oratória iniciou seu discurso às cinco da matina. Ele mamou, dormiu e só apareceu na cama depois das sete. E, quando sentiu aqueles pezinhos chutando suas costas, o Papai ainda teve a cara-de-pau de perguntar: "Como foi que A GENTE conseguiu ensiná-lo a dormir a noite toda ? É só fazer o mesmo quando ele acordar mais cedo".

Mamãe já está sofrendo por antecipação, pensando em como ficarão os horários do Pacotinho de Aventuras em Visita a Terras Tupiniquins, depois de quatrocentas horas de vôo, mais cento e cinqüenta horas de espera em aeroportos, seis horas de diferença de fuso horário... Ai ai...