10 agosto, 2007

Antipatia Virtual

A geração do Pacotinho de Tecnologia jamais saberá compreender como eram o mundo e as relações interpessoais na era pré-internet. São crianças que dificilmente escreverão para o vovô uma carta de próprio punho, daquelas que dão um trabalhão para colocar no correio e levam um tempo imenso para chegarem ao destino. Para eles, a idéia de ter amigos com quem se correspondem diariamente sem jamais terem se encontrado não vai parecer nada inovadora.

Como sou do século passado, lembro exatamente do primeiro e-mail que escrevi. Foi em 1996, de São Luís para Brasília, para um grande amigo (na verdade havia uma meia dúzia de amigos privilegiados que dispunham de tamanha modernidade e só). Imagina escrever para um estranho, nem pensar ! A idade também me permite lembrar da última carta que escrevi e enviei, em 1998, de Vancouver para o Rio de Janeiro, a uma amiga que já estava "desatualizada", sem acesso à internet.

Mudam as formas de "encontrar" as pessoas, mas não as preferências. Antigamente alguém tinha antipatia do colega de trabalho que usava uma camisa com o sovaco amarelado (isso no Brasil, onde há criadagem para esfregar a roupa, não na terra onde quem lava tudo é a Maria Brastempleuza) ou daquele cigarro com uma mulher sempre pendurada atrás, que era a secretária do setor e amante do chefe bêbado, casado com uma cirurgiã que operava de graça criancinhas com lábio leporino, pai de três filhos.

Atualmente temos a antipatia virtual. "Nunca a vi, jamais a suportei" nem causa surpresa, dito assim num fórum de debates. E como é possível ter implicância com alguém cuja voz, sotaque, gestos e hálito (bom ou mau) desconhecemos ? Para mim, confesso, o ataque desenfreado à língua de Camões já é meio caminho andado para Implicolândia City. Procuro ler muitos bons livros em português, que o medo de só ler minha língua nativa pela internet e passar a escrever "cheguei aqui a sete anos atraz e naum me arrependu naum" aparece até em pesadelo. De tanto ler bobagens internáuticas, outro dia fiquei na dúvida se o certo era "impecilho" ou "empecilho" e fiquei tão mal que quase liguei para a médica pedindo uma receita de Prozac. Mas navegar é preciso.

Num fórum de debates, pode-se criar antipatia pelo fato de as opiniões de alguém serem sempre conflitantes com as nossas. Se a Fulana gosta de manga e eu não, isso não acende em mim a luzinha vermelha "Pééééim: Chata" ! Ao contrário, se ela defende palmadas educativas, larga o bebê chorando no berço "para aprender a dormir sozinho sem manha", deixa o menino sentado num deprimente andador 2 horas por dia para ela poder receber a manicure em casa, vive comparando seu filho ao da vizinha "que nasceu 2 dias depois e é 3 cm mais alto, 950 g mais gordo, começou a caminhar 2 meses antes e aos 10 meses já falava 'mamãe' em cinco idiomas, inclusive aramaico", o alarme do antipatiômetro vai disparar.

E, como parece que a maioria dos leitores do Iglu é de gente que não me conhece pessoalmente, precisei de um recadinho de uma das leitoras desconhecidas para que a ficha caísse: eu sou uma antipática virtual ! O senso de humor crítico e debochado, aliado à recusa de prestar informações sobre imigração (só se dá o que se tem e eu não sei xongas do assunto, nem quero pesquisar) fez com que a moça ficasse surpresa quando prometi e cumpri no mesmo dia passar uma informação sobre aleitamento materno. Ela respondeu "nossa, quanta atenção ! Você é 'mais' do que aparenta no blog".

Que espécie de pessoa negaria uma ajuda sobre o assunto justamente na Semana Mundial de Amamentação (ou em qualquer outra, quando se trata de algo importante e que dá tanto prazer em ajudar) ? Eu não ! Ah, e não me venham inventar uma Semana Mundial da Imigração, que nessa eu não caio.

8 comentários:

Keiko disse...

Ah sim, a tecnologia tem dessas coisas, antipatia total de desconhecidos e empatia total de outros tantos...é isso que dá ficar contando a vida por aí, viramos anônimas conhecidas, com direito a juri desconhecido ;-)

E por falar em empatia, a resposta deveria ir no meu blog, mas vai aqui mesmo, sim, o macacão do meninho que é "3 dias mais novo que seu filho e tem um macacão igual ao dele" ;) é da GAP sim, minha loja preferida por ser a única onde as roupas de menino são mais fofas do que as de menina!

Beijinhos empáticos,
Keiko

Deby disse...

Se não falar (leia-se escrever) sobre o que não se quer ou não se sabe for antipátia, sou uma antipática de primeira...hehehe
Esse negócio de tecnologia é uma chatice. Antigamente, escrevia tanta carta (me senti uma idosa...rsrs). Piorou mais ainda, depois que entrei na faculdade de Ciência da Computação. Acho que nem sei mais escrever...hehehe
bjinho e um ótimo fim de semana

Carol, Ênio e Leila disse...

rs. Pois é, eu adoro o jeito que você escreve e, apesar de ter chegado até aqui em busca de informações sobre imigração, acompanho a sua saga desde a gravidez com enorme empatia. rs

Um abraço,
Carol

Fabiana Campos disse...

Acompanho seu blog há algum tempo e dou muita risada de você, acho muito louco as pessoas lerem o blog dos outros e reclamarem do que escrevem, afinal o blog é seu, e escreve o que quiser, certo?
Mas esse negócio de conhecer pessoas do mundo virtual é interessante, ouvi sua entrevista na rádio e sua voz era muito diferente da imaginada. É como filme baseado em livro que já lemos, damos caracteristicas aos personagens, aí eles colocam um ator que não tem nada a ver.
IH!!! já to viajando, desculpe...
Fabiana

Patricia disse...

Flavia

Bem te conheço ao vivo, mas já adorava o jeito debochado como vc escreve. Mas sobre o post concordo sem tirar ou colocar nada. Algumas pessoas irritam só pelas perguntas, ou por estarem sempre de mau-humor..

Seu blog é ótimo assim msm! Sem nada de imigração! hehe

Avassaladora disse...

Hehehe... Flávia, não te conheço ao vivo (mas eu bem que tentei quando você veio em Brasília!), mas não te achei antipática não... será porque eu também sou meio antipática...hahhahaha... não sei...

Anônimo disse...

Aff....."a moça" sou eu.....rs....... Não estou aqui para me justificar, mas fiquei surpresa mesmo...não por vc responder, mas por se dar ao trabalho de me escrever um e-mail...só para mim... porque pelo que sentimos vc é muito ocupada.
Seu e-mail rendeu outras tantas informações.....e já estou me atualizando com elas tb. A antipatia virtual rola mesmo....fazer o quê? Mas desde que comecei a ler seu blog, venho aqui para me divertir....te acho engraçada e uma ótima escritora...já disse isso. Nunca antipática!!!
Sou sua fã ....Bjks.

K disse...

Sem dúvida existe essa antipatia, tanto que tem blogs que eu entro pra nunca mais! É lógico que é um conceito criado em cima de muito pouco, mas ninguém também é obrigado a agradar a gregos e troianos, né?

Aliás, quando eu tinha uns 11 anos eu me correspondia, por carta, com uma menina de Portugal (mas escrevíamos em inglês) e depois, aos 14, com a internet já rolando solta, eu trocava cartas tradicionais com um "desconhecido" de Campinas. Posso dizer que o e-mail é realmente mais prático, mas o sabor de encontrar uma carta pessoal na caixa de Correios não se compara!

Beijo,

K.